The Monarchy

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The Monarchy

Mensagem por Francesca Sullivan em Sab Abr 23, 2016 6:12 pm

O sol banhou a cidade de Andenne nas primeiras horas daquela manhã, dando início a um dia perfeito que mais se parecia com a descrição literária de uma bela poesia. Nem mesmo uma nuvem manchava a imensidão profundamente azul do céu. O vento que circulava pelas casas não era forte e parecia existir apenas para tornar mais ameno o calor daquele final de primavera. Todas as árvores estavam floridas e as flores que caíam formavam um tapete colorido e perfumado pelas ruas e calçadas. O canto dos pássaros ecoava pelo povoado silencioso, mas logo o suave ruído foi abafado por uma intensa movimentação de pessoas e carruagens que seguiam na direção da igreja, localizada na praça central de Andenne.

Qualquer noiva desejaria se casar num dia perfeito como aquele. Portanto, parecia ser um dia de sorte para a jovem Louise Baptiste. Além do cenário perfeito proporcionado pela natureza, a igreja estava impecável naquela manhã. Flores do campo decoravam o altar e o corredor central entre os bancos. O tapete branco tinha sido coberto por infinitas pétalas de rosas que a noiva teria que atravessar para chegar ao futuro marido. Era uma decoração luxuosa, mas que encaixava-se com perfeição ao evento. Os Baptiste formavam uma das famílias mais tradicionais da região e estavam prestes a unir sua única filha ao sobrenome Maxence.

Os bancos estavam abarrotados de convidados quando a noiva chegou à igreja. Todos em Andenne tinham sido chamados para a cerimônia, e também alguns parentes e amigos mais próximos de outros povoados, de forma que algumas pessoas foram obrigadas a ficarem de pé na pequena capela. Todos queriam participar da cerimônia e não apenas porque o noivo era aparentado da família real. Tanto Louise quanto Vincent eram muito queridos e não parecia haver ninguém que não torcesse pela felicidade do jovem casal.

Quanto a Vincent Maxence, o noivo era o principal protagonista daquele dia de sonho para Louise. A elegância dos trajes combinava com os traços bonitos do rapaz, mas nada superava a beleza do sorriso apaixonado que ele dirigiu a Louise enquanto observava a noiva sendo conduzida pelo tapete de pétalas em sua direção. Muitas das moças presentes na igreja não disfarçavam a inveja que sentiam de Louise. Sem dúvida, a jovem noiva era uma das raras afortunadas que se casariam por amor.

Como praticamente todas as uniões entre os nobres, aquele era um casamento arranjado, um acordo fechado entre as duas famílias, com a bênção do rei da Dinamarca. Vincent e Louise sabiam que trocariam alianças no altar desde a mais tenra infância, mas nem por isso transformaram aquele casamento num simples contrato. A convivência permitiu que eles se conhecessem e começassem a se amar. Talvez não fosse uma paixão arrebatadora, mas eles possuíam o necessário para serem felizes juntos e aquele casamento era o primeiro passo na direção de um futuro promissor.

Diante do vigário, os dois não conseguiam seguir o protocolo e, por várias vezes, ignoravam o discurso para trocarem olhares cúmplices e sorrisos carinhosos. Como de costume, o velho padre de Andenne se alongou desnecessariamente em suas palavras e foi durante tal delonga que Vincent começou a se sentir ligeiramente indisposto.

No começo, foi apenas um leve enjoo, seguido por um calafrio e uma sensação de falta de ar. Num gesto bastante discreto, Vincent ergueu uma das mãos e afrouxou um pouco o nó da gravata borboleta na esperança de que aquilo o ajudasse a respirar melhor.

Como todos estavam entretidos com o discurso do vigário e com toda a beleza daquela cena, ninguém pareceu notar que a testa do noivo estava salpicada com gotículas de suor frio quando ele se virou de frente para Louise para a tradicional troca de votos e de alianças.

A voz de Vincent não fraquejou em nenhum momento, mas a entonação foi menos firme que o normal. Contudo, quem o conhecia bem sabia que o filho dos Maxence sempre fora um rapaz sério e um pouco tímido. Falar diante daquela multidão certamente não era algo confortável para ele.

Durante todo o restante da cerimônia, o noivo se comportou segundo o protocolo. Os votos foram feitos e as alianças foram trocadas. O contato com os dedos de Vincent mostrou à Louise que o futuro marido estava gelado demais para o clima agradável da primavera, mas isso também poderia ser creditado à ansiedade do momento.

Ao fim da cerimônia, a união daquele jovem casal foi selada com um carinhoso beijo do marido na testa da esposa. Os lábios de Vincent estavam tão frios quanto seus dedos trêmulos, mas o sorriso amplo em seu rosto revelava uma felicidade tão grande que era difícil acreditar que havia algo errado com ele.

De braços dados, o novo casal seguiu pelo corredor central, amassando as pétalas de rosa enquanto caminhavam na direção da porta da igreja. Os convidados mais próximos acenavam e sorriam, emocionados com a bela cerimônia e com a felicidade dos jovens protagonistas daquele casamento.

Uma grande festa esperava pelo casal e por todos os convidados. Por exigência dos noivos, ninguém tinha sido excluído da comemoração, o que aumentou consideravelmente os gastos da festa. Como de praxe, a família da noiva arcou com as contas e assumiu dívidas que jamais conseguiria honrar sozinha. Há muitos anos, os Baptiste enfrentavam dificuldades financeiras e viviam na sombra do sobrenome imponente, mas isso estava prestes a mudar agora que Louise se tornara uma Maxence.

O noivo também havia garantido ao sogro que ajudaria nas despesas da festa tão logo recebesse a sua parte na herança dos Maxence. Mas esta foi só mais uma das promessas que Vincent não teve a chance de cumprir. Assim como também não cumpriu a promessa de fazer Louise feliz, de lhe dar filhos e uma vida confortável.

O casamento que parecia perfeito desde as primeiras horas daquele dia terminou antes mesmo que os noivos saíssem da igreja. O casal estava exatamente no meio do extenso tapete que ligava a porta até o altar quando uma intensa vertigem obrigou Vincent a interromper abruptamente os seus passos.

Tudo ao redor do rapaz girava rapidamente quando Vincent fechou os olhos, soltou o braço da esposa e se agarrou a um dos bancos para evitar uma queda. O movimento súbito dele derrubou um dos arranjos de flores que decorava o corredor dos bancos e, juntamente com o ruído do vaso se espatifando no chão, Vincent ouviu vozes muito distantes chamando pelo nome dele.

Um gemido de dor escapou dos lábios do noivo quando seu coração começou a bater acelerado. Inconscientemente, Vincent levou uma das mãos ao lado esquerdo do peito e abriu os olhos. Só quando enxergou o teto da igreja, o noivo percebeu que estava caído no chão. Várias cabeças entraram no campo de visão de Vincent, mas tudo o que ele enxergava era uma sucessão de borrões. A dor, que se tornava mais aguda a cada segundo, não permitia mais que o rapaz respirasse.

Tudo ao redor de Vincent Maxence era caótico. As pessoas se empurravam para alcançá-lo ou simplesmente para acompanharem o desfecho daquele espetáculo. Gritos de socorro se misturavam a um intenso burburinho dos curiosos. Mas a dor no peito conseguia anular todas as outras sensações.

Mais uma vez, Vincent fechou os olhos e tentou se concentrar na única coisa que tornaria aquele momento menos horripilante. Sua memória projetou a imagem do rosto da esposa e Vincent conseguiu sorrir para a Louise de sua mente. As vozes ficavam cada vez mais distantes na mesma proporção em que a dor se tornava menos insuportável.

O sorriso débil ainda ilustrava o rosto de Vincent Maxence quando seu coração acelerado finalmente chegou ao limite de sua resistência e parou de bater. O médico do vilarejo, presente no casamento, fez tudo o que era necessário para trazer o rapaz de volta, mas Vincent já tinha partido.

Por muitos meses, aquela foi a história mais comentada de toda a corte, mas nem mesmo as línguas mais afiadas conseguiam explicar o que havia acontecido. Vincent Maxence, um dos sobrinhos prediletos do rei, sempre fora um rapaz saudável. Durante toda a sua breve vida, ele nunca tivera nada mais grave que alguns poucos resfriados. Não existia nenhum histórico de doenças sérias ou mortes súbitas na família Maxence. Vincent era bondoso e não tinha inimigos que pudessem desejar a sua morte. Ele era somente um rapaz jovem e saudável que havia planejado um futuro feliz e partira sem realizar seus planos.

(...)

A morte de Vincent Maxence completava exatos sete anos naquela manhã, mas aquela dor ainda machucava o coração de Louise como se a tragédia tivesse acontecido há poucas horas. Certamente a família Maxence prestaria alguma homenagem à memória do rapaz naquele aniversário de morte, mas só voltariam a pensar em Vincent no ano seguinte. Louise sabia que apenas ela sentia a falta dele todos os dias, nos últimos sete anos.

Mesmo depois de tantos anos, Louise ainda carregava consigo as cores do luto. Seria escandaloso ainda vestir-se inteiramente de preto, mas a jovem expressava a sua dor nas cores sóbrias. Todo o seu armário era composto por tons acinzentados, marrons ou azuis escuros. Louise era uma viúva sem nunca ter tido de fato um marido, já que os Maxence moveram céus e terras e usaram de toda a sua influência junto à Coroa para conseguirem a anulação do casamento com o único propósito de retirar o nome de Louise Baptiste do testamento de Vincent.

Dinheiro nunca fora a maior motivação daquele casamento para Louise, mas a jovem percebeu o quanto o ouro era importante quando assistiu a derrocada da própria família. Coberto de dívidas até o pescoço, o Sr. Baptiste foi obrigado a vender todos os seus bens, a Sra. Baptiste teve que se livrar das joias e dos vestidos luxuosos e, quando não havia mais nada a ser tirado da família, o pai de Louise foi preso. Como ele já não era mais um homem tão jovem e saudável, bastou um inverno mais rigoroso para que a vida do Sr. Baptiste fosse ceifada por uma gripe forte.
O destino de duas mulheres sozinhas e abandonadas pelos “amigos” da alta sociedade era sombrio. E, de fato, Louise não sabia o que teria sido dela e da mãe se não fosse por um gesto de caridade que viera do lugar mais improvável. Nenhum dos amigos ricos de Andenne estendera a mão, mas a salvação veio através de uma antiga criada.

Margot Baptiste fora a primeira a reconhecer o talento daquela camponesa que inicialmente apenas consertava as roupas da família. O dom da simples mulher ficou ainda mais evidente quando a patroa começou a lhe dar tecidos finos, que eram transformados em vestidos luxuosos que causariam inveja a qualquer estilista da corte. Ao invés de guardar apenas para si o talento da camponesa, Margot mudou a vida dela mandando-a para Copenhague, onde certamente aquela habilidade seria moldada e valorizada.

Agora, tantos anos depois, a “camponesa” havia se tornado uma estilista bastante requisitada na corte, mas nunca se esquecera de suas origens humildes. Portanto, ela não estava pronta para dar as costas para a mulher que a ajudara a subir os primeiros degraus de sua carreira de sucesso.

Margot e Louise foram levadas para Copenhague e passaram a viver sob o teto de Madame Beaumont. Elas certamente não tinham ali um décimo da vida luxuosa que possuíam em Andenne antes da tragédia com Vincent, mas ao menos não faltaria um teto sobre suas cabeças e um prato de comida na mesa. Mary Beaumont as tratava com respeito e distinção e ensinava às duas o necessário para que as Baptiste se sentissem úteis e merecedoras de tudo o que lhes era ofertado.

- Ficou muito bom. Só precisa treinar um pouco mais, eu posso te dar umas dicas. Você tem potencial, Louise.

O elogio da estilista fez Louise abrir um sorrisinho descrente. A moça usava um retalho para treinar um bordado potencialmente complicado e, definitivamente, o resultado não estava nada bom. Louise não era exatamente uma tragédia com uma agulha em mãos, mas jamais teria o talento de Madame Beaumont. E, naquela manhã, as lembranças contribuíam para a distração que arruinava o trabalho da jovem.

- É melhor que eu continue apenas no acabamento, Mary. Meu potencial para estragar as suas obras de arte é enorme!

A conversa das duas mulheres foi interrompida pela sineta que anunciava que um cliente aguardava por atendimento no saguão do ateliê. Mary fez um gesto indicando que Louise deveria continuar o trabalho enquanto ela seguiria até o balcão.

Apesar das origens humildes, Madame Beaumont já possuía uma clientela fiel na capital. Obviamente ela não vestia os nobres dos mais altos escalões, mas se contentava com as famílias burguesas e os chamados “novos ricos”. Eventualmente, um vestido de sua autoria participava de um baile real e alguns clientes mais abastados surgiam, mas Mary nunca imaginou que naquela manhã pacata encontraria uma comitiva em sua simples sala de espera.

Cinco guardas com o uniforme da Coroa estavam posicionados junto à porta e janelas do pequeno cômodo. Duas criadas, tão bem vestidas quanto qualquer jovem da nobreza, seguravam as sombrinhas e os chapéus de suas respectivas patroas. A surpresa de Mary foi tão grande que ela demorou a reagir, mas logo a costureira recuperou a sanidade e curvou-se diante da rainha e da princesa.

- Majestade. – a voz de Mary falhou – Em que posso servi-las?

- Procuro por Madame Beaumont. – a rainha fez um gesto para que Mary se erguesse.

- Sou eu. Mary Beaumont.

- Disseram-me que é a responsável pelo vestido que a filha mais nova dos Von Hants usou no baile oferecido no último sábado. A informação que me foi dada é verdadeira?

- Sim, Majestade. A viscondessa de Von Hants contratou os meus serviços para a jovem Octavia.

Mary não precisou fazer perguntas sobre o vestido porque costumava se lembrar de todas as suas obras. E o vestido de Octavia Von Hants certamente fora uma de suas mais belas autorias. O tecido tinha um tom único de verde musgo, realçado pelo brilho de algumas camadas de cetim. A peça fora minuciosamente bordada com pequenas pedrinhas prateadas no busto e nos punhos e o decote coberto por uma renda caríssima, importada das índias. Octavia era somente a filha de um visconde com pouca importância política na corte, mas no último sábado fora a dona do vestido mais belo do baile real.

- Minha filha ficou profundamente encantada com o vestido. – a rainha olhou brevemente para a jovem princesa que a acompanhava – Eu a trouxe aqui para que ela pare de repetir que não tem nenhum vestido tão belo quanto o de Octavia Von Hants. Pode me ajudar com isso, Madame Beaumont?

O rosto de Mary perdeu o pouco que lhe restava de cores quando a estilista finalmente compreendeu que a rainha e a princesa estavam ali para encomendar um vestido. A surpresa foi tão grande que a resposta à pergunta da rainha demorou mais tempo do que o recomendado.

- E-eu... eu não sei se tenho a habilidade necessária para tecer um vestido para uma princesa, Majestade!

- Pois eu ordeno que o faça. – a rainha olhou ao redor tranquilamente – Da próxima vez é melhor que vá até o castelo, mas hoje, já que tivemos o trabalho de vir até aqui, poupe o que resta do nosso tempo, sim?

Sem maiores escolhas, Mary respirou fundo na esperança que o ar que expandia seus pulmões tivesse o poder de espalhar um pouco de calma por suas veias. Seu ateliê não estava preparado para receber nenhum membro da realeza, mas ela precisava se esforçar para agradar a esposa e a única filha do rei. Deixar a família real satisfeita era uma obrigação, além de ser a grande chance para o nome Madame Beaumont começar a circular entre os nobres de maior escalão.

A rainha foi acomodada na poltrona mais confortável da sala de espera enquanto a jovem princesa seguia os passos de Mary para o interior do ateliê.

- Por onde deseja começar? Posso mostrar as amostras de tecido, ou tirar as suas medidas, princesa... Ou majestade? Desculpe, eu não sei como devo chamá-la! Louise! – Mary se sobressaltou quando se deparou com a jovem sentada num dos banquinhos – Louise, fique de pé agora!

A ordem inesperada fez com que Louise saltasse do banco com os olhos escuros arregalados. O queixo da moça caiu quando ela reconheceu o rosto da princesa. Mesmo tendo sido criada em Andenne, Louise já tivera a oportunidade de conhecer a família real. Vincent era um dos sobrinhos preferidos do rei, que fizera questão de comparecer ao baile de noivado do rapaz.

O rei, a rainha e a filha caçula tinham participado do baile em Andenne há oito anos, mas Louise duvidava que a princesa a reconheceria. Além do tempo que separava os dois encontros, a filha dos Baptiste sabia que não era mais a mesma pessoa. Seu vestido cinzento era tão simples quanto o de uma camponesa, ela não usava joias ou maquiagem, muito menos um penteado sofisticado. Louise não era nem mesmo a sombra da moça elegante e feliz que conhecera uma jovem princesa há oito anos.

- Esta é a Louise, Majestade. Ela é bastante habilidosa e tem me ajudado com as costuras. Louise, vá buscar o mostruário, sim? Eu mesma vou checar as medidas da princesa.

Os olhos castanhos se demoraram mais alguns segundos na princesa antes que Louise se curvasse respeitosamente e se afastasse. As mãos da jovem tremiam quando ela encontrou em um armário a enorme pasta na qual Mary guardava todas as amostras de tecidos finos de seu fornecedor.

Só quando passou diante de um espelho, Louise percebeu que havia uma camada de lágrimas diante de seus olhos. Era mesmo uma ironia cruel do destino que uma Maxence surgisse em seu caminho logo naquele dia recheado de lembranças infelizes.

A filha dos Baptiste só precisou de alguns segundos para se recompor antes de retornar para junto da princesa. A pasta foi entregue para Mary e era nítido que Madame Beaumont continuava extremamente nervosa quando sua voz ecoou pelo ateliê.

- Vou precisar que me fale sobre as suas preferências de cores e tecidos, Majestade. Eu não saberia o que sugerir para uma princesa.
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