Veritaserum

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Veritaserum

Mensagem por Saphir Wegener em Sab Mar 26, 2016 10:29 pm

Não era uma boa época para optar por um passeio no Beco Diagonal. O local, que já era naturalmente movimentado, tornava-se praticamente inabitável na última semana de julho. Uma infinidade de crianças e adolescentes percorriam as ruas de pedras acompanhados por seus pais e por uma enorme quantidade de sacolas de compras. A lista de materiais de Hogwarts também podia ser vista em várias das mãos daqueles transeuntes apressados.

Na última vez em que estivera no Beco Diagonal, Emmeline Jenner também carregava uma lista de Hogwarts nas mãos. Somente seis anos haviam se passado, mas tudo mudara tão radicalmente que aquele dia parecia fazer parte de uma outra vida.

A mulher que se encolheu e abriu caminho pelas calçadas abarrotadas de gente ainda tinha alguns traços da doce lufana do passado, mas não havia mais inocência e pureza no seu semblante maduro. Os olhos, que antes refletiam apenas o otimismo e a singeleza da juventude, agora deixavam bem claro que já tinham visto horrores o bastante para deixarem de crer no futuro.

A caminhada até o café de Madame Josephine foi muito mais longa que o previsto, mas Emmeline empurrou a porta e entrou no estabelecimento com apenas alguns poucos minutos de atraso. Um inevitável suspiro escapou de sua garganta quando as portas se fecharam, abafando o burburinho do lado de fora. Por sorte, poucos clientes do Beco Diagonal tinham tempo para tomar um café naquela tarde e o estabelecimento estava bastante vazio quando comparado às demais lojas ao redor.

Como o verão estava mais quente que o habitual naquele ano, Jenner dispensara o uso de um casaco naquela tarde. A moça optara por uma saia preta, justa, que alcançava seus joelhos. A blusa de seda era rosa, tinha mangas curtas e botões cobertos pelo mesmo tecido da peça. Os cabelos, que na época de Hogwarts chegavam à cintura de Emmeline, agora eram conservados pouco abaixo dos ombros dela. Os fios, num tom de loiro escuro, combinavam perfeitamente com as incomuns íris cor de mel e estavam presos num penteado displicente, mas bonito.

Nos pés, os sapatos pretos tinham um salto pequeno, mas Emmeline se arrependeu daquela escolha no instante em que seus passos entoaram um “toc-toc-toc” pelo ambiente fechado, atraindo a atenção de várias pessoas para a jovem que acabara de entrar.

Por sorte, Jenner reconheceu rapidamente o rosto que esperava ver e agradeceu intimamente pela amiga ter escolhido uma mesa próxima à porta. Antes mesmo que a loira se sentasse, uma xícara de chá se materializou diante da cadeira que ela ocuparia naquela tarde.

- Bem-vinda de volta à Londres! – a ruiva se ergueu com um largo sorriso e saudou a recém chegada com um abraço caloroso.

- Obrigada. Mas já tive uma overdose de Londres depois desta breve caminhada pelo Beco Diagonal!

As duas moças riram antes de ocuparem as cadeiras em volta da pequena mesinha. Seis anos tinham se passado desde o último encontro delas e Emmeline estaria mentindo se dissesse que se esforçara para manter aquela amizade. Muitas das cartas enviadas por Lily Evans ficaram sem resposta e, quando uma coruja finalmente chegava às mãos da ruiva, era notável que Jenner não parecia muito empolgada ao escrever aquelas linhas.

Aos poucos, a frequência das cartas diminuiu ao ponto das duas só trocarem correspondências nas datas comemorativas mais importantes. Emmeline estava francamente surpresa em receber um convite para tomar um chá com Lily depois de ter se afastado tanto da amiga.

- Fiquei muito feliz ao saber que você estava de volta ao país, Emme. – a ruiva tomou a palavra depois de um silêncio constrangedor.

- Voltei há menos de dez dias. Eu ainda não consegui organizar o apartamento, nem terminei todas as burocracias da transferência. Pretendia te convidar para almoçar na minha nova casa quando tudo estivesse pronto. Foi o que eu disse ao James.

- Sim, ele comentou. Ficaremos felizes com o convite. – o sorriso de Lily se tornou mais divertido – E também é bom saber que você vai trabalhar no Mungus. Acredite, ter visto o Jamie por lá não foi uma coincidência. Ele e os amigos são os clientes mais fieis do St. Mungus.

Apesar da piada, o sorriso de Lily vacilou por alguns segundos. Era óbvio que qualquer mulher não dormiria tranquila tendo o marido envolvido com um emprego tão arriscado. Antes que a conversa seguisse um rumo sombrio do qual Emmeline fugia há mais de cinco anos, a curandeira se apressou em mudar o assunto para um tema mais alegre.

- Ele me mostrou uma foto do Harry. Lily, que bebê mais adorável! Fiquei apaixonada por ele!

Jenner percebeu que sua mudança de assunto fora bem recebida quando a amiga abriu um largo sorriso doce e orgulhoso. O olhar da Sra. Potter se tornou mais leve e ela concordou com um suave movimento de cabeça.

- Ele é perfeito. Mas a minha opinião não é nada imparcial, não é?

- Pensei que o conheceria hoje...

- Preferi deixá-lo em casa. Jamie está de folga hoje e eu já imaginava que o Beco estaria lotado. Acho que o Harry ficaria irritado com tanta agitação. Mas você terá muitas oportunidades para conhecê-lo agora que está de volta.

Era nítida a vontade de Lily em trazer a amiga de volta a sua vida. Em Hogwarts, embora fossem de casas distintas, as duas eram inseparáveis porque tinham muitas coisas em comum. Ambas nascidas trouxas, com desempenhos inquestionáveis em praticamente todas as disciplinas de Hogwarts. Tal como a ruiva, Emmeline também fora monitora da Lufa-Lufa e finalizara seus estudos com NIEM’s louváveis. As notas de Jenner foram tão positivas que a lufana recebera um irrecusável convite para fazer um curso de curandaria na França.

A falta de tempo e a dedicação aos estudos fora o motivo inicial do afastamento das duas amigas. Mas a verdade era que Emmeline se fechara para o resto do mundo depois que seus pais foram assassinados por Comensais da Morte. Racionalmente ela sabia que não tinha culpa, mas seu inconsciente a torturava com o pensamento de que ela poderia ter protegido a família se não estivesse em outro país.

Como se pudesse ler aquele tormento na mente da amiga, Lily deslizou a mão sobre a mesinha e acariciou o punho de Emmeline.

- Eu nunca tive a oportunidade de dizer pessoalmente o quanto eu lamento, Emme.

- Tudo bem. – como sempre acontecia quando aquele assunto vinha à tona, Jenner teve a sensação de que garras invisíveis apertavam a sua garganta – Mas eu prefiro não falar sobre isso, Lily. Vamos mudar de assunto?

- Certo. – Lily manteve um ar mais sério e decidiu que deveria colocar na mesa a verdadeira motivação daquele encontro – Que tal falarmos sobre a proposta que você recebeu do Professor Dumbledore?

Os olhos cor de mel refletiam uma grande surpresa quando Emmeline ergueu o rosto e encarou a ruiva. A mente de Jenner não demorou a encaixar todas as peças daquele quebra-cabeça e a loira se sentiu um pouco magoada ao entender o que estava acontecendo. Lily Potter não havia insistido naquele encontro porque queria muito reatar a amizade do passado. A ruiva estava agindo a pedido de Albus Dumbledore.

- Como eu disse ao professor Dumbledore... – Emmeline afastou o braço, desfazendo o contato com Lily – Eu não tenho interesse na proposta. Eu achei que tivesse sido bastante clara.

- Por que não? – Lily manteve o semblante sério, mas não mudou a entonação.

- Eu voltei para a Inglaterra somente porque recebi uma proposta excelente do St. Mungus. O salário é ótimo e será um acréscimo único para o meu currículo. Aprendi muito na França, mas os métodos daqui são diferentes. Enfim... é algo temporário. Algo que preciso acrescentar no meu currículo antes de voltar para a França. Nada mais.

- Uma guerra está acontecendo lá fora e você pode nos ajudar a vencê-la, Emmeline.

- Eu não quero me envolver nisso, Lily. É um direito meu.

- A morte dos seus pais é a prova de que você já está envolvida, Emmeline. Mas sim, você tem o direito de ignorar isso e de fingir que está tudo bem, que pessoas inocentes não estão sendo torturadas e mortas todos os dias...

Aquelas palavras atingiram Jenner com a potência de uma bofetada. Ela estava acostumada a receber olhares de piedade quando aquele delicado assunto vinha à tona. Era a primeira vez que alguém abordava o tema de forma tão fria e tão incomodamente sincera.

O aperto na garganta obrigou Emmeline a manter o silêncio por um longo tempo, durante o qual a sua mente a torturou com a pior de suas lembranças. Os corpos já tinham sido retirados quando a única filha do casal Jenner chegou à casa dos pais, mas os cômodos refletiam o horror que acontecera ali. As manchas de sangue no carpete e nas paredes, os móveis quebrados, a decoração destruída... Emmeline não saberia dizer detalhes do que seus pais tinham sofrido naquele dia, mas sua cabeça gostava de torturá-la com uma infinidade de cenas. E era horrível saber que mais famílias eram dizimadas e mais pessoas experimentavam aquela dor, dia após dia.

- Eu... eu não sei como eu poderia ser útil. Sou só uma curandeira, nunca tive grande aptidão para duelos, você sabe. E até mesmo os meus conhecimentos em curandaria certamente são limitados quando comparados a tudo o que o professor Dumbledore sabe. Eu realmente acho que não vou acrescentar nada à equipe, Lily.

- Eu confio no professor Dumbledore. Se ele acha que você é importante, eu concordo com ele.

Lily terminou sua xícara de chá com mais um gole e deixou alguns galeões sobre a mesa antes de completar.

- A decisão é sua, Emme. Tudo o que posso fazer é esperar que você faça a escolha certa. – a ruiva suspirou antes de acrescentar – Foi bom ver você depois de tanto tempo. Eu senti muito a sua falta.

Mesmo depois que a Sra. Potter sumiu de vista, Emmeline continuou imóvel na cadeira. A xícara de chá estava intocável a sua frente, assim como o pratinho de biscoitos. Tudo parecia apetitoso, mas era impossível para a curandeira pensar em engolir com tantos fantasmas atormentando a sua mente.

Quando finalmente recuperou o controle das próprias ações, Emmeline se ergueu e deslizou as mãos pela saia, ajeitando o tecido escuro. Seus passos até a porta foram firmes, assim como a sua determinação de encarar aquela guerra. Lily estava certa ao afirmar que Jenner já estava envolvida. E agora a loira não pretendia mais fugir das suas obrigações. Seu sofrimento infelizmente não chegaria ao fim, mas talvez Emme encontrasse algum consolo na certeza de que sua participação na Ordem da Fênix evitaria que mais garotas como ela se tornassem órfãs e mais trouxas inocentes fossem massacrados como seus pais.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Alexia Romanoff em Dom Mar 27, 2016 12:56 am

A pilha de caixas se mantinha em pé apenas com mágica, mas ainda assim, a cada passo que o elfo doméstico dava, Annabeth Michaelson tinha a sensação de que todo o seu material escolar iria se espatifar no chão torto do Beco Diagonal.

Era preciso desviar das dezenas de pessoas que passavam apressadas e distraídas, esbarrando nela ou no elfo, e foi um imenso alívio quando alcançaram a calçada da sorveteria no instante em que uma família desocupava uma das mesas. Sem pensar duas vezes, Annabeth se jogou em uma das cadeiras e puxou o cardápio enquanto o elfo se encarregava de organizar as compras do dia.

A tarde quente e o local cheio começavam a incomodar a adolescente, que faria qualquer coisa para evitar aquele dia. O pequeno elfo se encarregaria de toda a lista anual de Hogwarts se assim lhe fosse ordenado, mas Anna não queria abrir mão daquela tortura pela última vez. Por mais cansativo que fosse, aquele seria o último ano como estudante e seu lado nostálgico a obrigava a participar de cada detalhe.

O sol forte a obrigou a espremer os olhos azuis claros no instante em que a atendente apareceu ao seu lado para anotar o pedido, e com um sorriso doce nos lábios, Annabeth pediu, sem pensar duas vezes, o mesmo sorvete que saboreava todos os anos.

- Você sabe que eles são famosos em ter mais de trezentos sabores diferentes?

Uma voz soou às suas costas, fazendo com que a menina se virasse, balançando os longos cabelos negros que roçavam nos ombros expostos pelo vestido de alça fina. A testa estava franzida pela luminosidade do dia, mas ela imediatamente reconheceu o rosto do melhor amigo, o que resultou em um girar de olhos.

- Não me interessa. Eu gosto de morangos.

Benjamin Hoffman também revirou os olhos castanhos enquanto ocupava a cadeira vaga ao lado do elfo doméstico, sem cerimônias. Foi inevitável que algumas mesas próximas lançassem um rápido olhar, mas Anna estava acostumada a ser vista como um casal quando estava ao lado de Benji.

Para quem olhasse de fora, os dois formavam mesmo um belo par. Ambos com cabelos castanhos, com traços bonitos e uma inquestionável harmonia enquanto conversavam. O mais impressionante é que aquela harmonia existia desde os onze anos de idade, quando os dois se conheceram após terem sido selecionados para a Corvinal logo no primeiro dia em Hogwarts.

Apesar de terem tanto em comum, de passarem horas e horas sem que o assunto se esgotasse e pudessem contar um com o outro sem precisar dizer nada, ainda assim, Benji e Anna tinham personalidades completamente diferentes. Enquanto o rapaz era despojado, divertido e tinha amizade por todo o castelo, de uma popularidade adquirida junto com sua posição no Quadribol, Michaelson era reservada e se arriscaria a dizer que não tinha nenhum outro amigo no castelo além de Hoffman.

Era de se espantar que a recatada Corvinal, com suas excelentes notas e com uma aparência de boneca, não fizesse tanto sucesso pelos corredores do castelo, principalmente carregando o sobrenome Michaelson. A família rica e de sangue puro era conhecida pela longa linhagem de sonserinos, todos envolvidos nos negócios das vassouras, dominando o mercado britânico.

Talvez, por viver na sombra dos irmãos mais velhos, todos extremamente bem-sucedidos, Anna sentisse como se nunca fosse conseguir atingir o patamar esperado pelos pais. Não era segredo entre os Michaelson que uma das grandes decepções da família era a seleção da caçula para a casa de Rowena, manchando a perfeita linha de Sonserinos. Ela ainda podia se lembrar da careta de nojo da mãe ao receber a notícia: “Bom, ao menos não foi para a Lufa-Lufa”.

Era apenas em Benji que Anna se apegava, compartilhava suas frustrações, inseguranças e receios. E ela se sentia imensamente grata em ter o amigo por perto.

- Já comprou tudo? – Anna perguntou, no instante em que o seu sorvete de morango foi servido.

Como era comum, enquanto Michaelson se preocupava com cada detalhe, Hoffman parecia relaxado, jogado na cadeira. Ele sacudiu os ombros, se inclinando para frente enquanto deslizava o indicador pelo sorvete da amiga.

- Ainda faltam alguns itens de poções, mas a loja está impraticável.... Acho que vou voltar outro dia.

- Benji! Não temos outro dia, já estamos quase em setembro! O Professor Snape vai usar o seu fígado para fazer a poção do morto-vivo, se você chegar lá sem algum ingrediente.

- Não seja exagerada, Anna! No máximo vai descontar alguns pontinhos... Eu juro que não consigo entender esse medo que você tem com professores!

- Não é medo. – Annabeth baixou o olhar para o sorvete de morango, observando a beira derreter junto ao pote enquanto espetava a colher na parte mais dura. – É apenas respeito.

A gargalhada que se fez ouvir fez com que Annabeth bufasse. Sentindo-se frustrada, ela chutou a canela do amigo por baixo da mesa, mas nem isso fez com que ele parasse.

- Respeito? O cara é um zumbi, Anna! Só o que ele quer é aterrorizar os alunos. E ele nem é um bom professor!

- Bom, ele é um professor, e isso é o suficiente para você respeitá-lo.

O tom de voz mostrava que Annabeth estava colocando um fim naquela conversa, enquanto a revirada de olhos de Benji apenas reforçava o quanto ele discordava da amiga naquele ponto.

***

- Herbologia?

A voz de Benji soou atrás de Annabeth, fazendo com que a corvinal se sobressaltasse. Em um movimento aleatório da mão, o copo com suco de abóbora foi derrubado e todo o líquido se espalhou ao longo da mesa, fazendo com que os alunos começassem a recolher seus pertences apressadamente. Alguns chegaram a lançar um olhar irritado para a menina, que já começava a sentir as bochechas esquentarem.

- Por Merlin, você precisa parar de chegar assim, sabia!

Enquanto a morena tentava inutilmente secar a bebida derramada, Hoffman revirou os olhos e sacou a varinha, fazendo com que o liquido desaparecesse em um segundo com um feitiço não-verbal.

- Você precisa relaxar, é só o primeiro dia e você já está devorando um livro! Eu não sabia que você iria fazer NIEMs para Herbologia.

- É uma das matérias exigidas se eu quiser fazer o curso de curandeira. – Anna explicou, fechando o pesado livro sobre a mesa já seca.

Por alguns segundos, Benjamim ficou em silêncio, e Annabeth teve certeza no que ele estava pensando. Apenas o amigo sabia da sua vontade em se tornar curandeira. Para todo o restante do mundo, ela seria apenas mais uma Michaelson assumindo os negócios das vassouras e artigos de Quadribol.

- Eu vou me atrasar para a aula, preciso ir. – Anna tentou não encarar o amigo enquanto puxava sua bolsa azul para um dos ombros.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Regulus Black em Dom Mar 27, 2016 1:48 am

Por mais de uma vez naquela primeira manhã de agosto, Frank Longbottom fez aquele cálculo mentalmente. Ele havia concluído seus estudos em Hogwarts há cinco anos. Isso significava que os alunos que atualmente cursavam o sexto e o sétimo ano tinham convivido com ele no castelo.

A grande diferença de idade talvez ajudasse, mas Frank tinha algum receio de ser reconhecido e ser menos respeitado por se tornar um professor tão jovem. Severus Snape tinha exatamente a mesma idade que Longbottom, mas Frank sabia que isso não era um consolo. Snape fritaria os rins de qualquer um que ousasse questionar a sua capacidade de lecionar e Frank sabia que jamais conseguiria ser tão intimidador.

Por isso, naquela manhã, Frank acordou várias horas antes do necessário para cuidar de todos os detalhes. Seu primeiro dia como professor de Hogwarts precisava ser perfeitamente impecável.

Era impossível esconder o rosto jovem e os traços pouco marcados. Portanto, Frank teve que compensar este detalhe com a escolha das roupas. A calça social lhe dava um ar menos juvenil que os jeans que o rapaz costumava usar. As camisetas de malha também foram cuidadosamente substituídas por uma camisa de botões num tom azul claro. Como o dia estava quente, Longbottom deixou de lado o casaco que completaria seu visual. Por mais que a peça fosse elegante, ele não pareceria mais maduro se derretesse no calor das estufas.

Os cabelos, num tom claro de castanho, normalmente eram penteados de forma mais moderna. Naquela manhã, contudo, Longbottom se esforçou para deixar os fios mais comportados, o que lhe dava alguns poucos anos a mais.

A diferença mais marcante do atual Frank para o rapaz que estudara na Grifinória era a postura. Longbottom sempre fora responsável e estudioso, mas no passado tinha um comportamento mais leve, vivia rodeado de amigos e tinha um semblante sorridente e despreocupado. Bem diferente do ar sério que o novo professor de Herbologia tinha no rosto quando empurrou as portas das estufas e adentrou o palco de sua primeira aula.

Quando pegou a planilha de horários e soube que estrearia naquele emprego com uma aula conjunta dos setimanistas da Grifinória e da Corvinal, Frank soube que encararia um grande desafio. Os alunos do último ano eram geralmente os mais ávidos por conhecimento, dada a pressão exercida pelos NIEMs. O fato de ser uma turma mista de grifinórios e corvinais só aumentava a tensão do jovem professor. Eram maiores as chances de ser reconhecido por algum colega de casa. Além disso, a reconhecida inteligência dos corvinais poderia se refletir numa pergunta complexa demais para um professor inexperiente.

Apesar dos receios, Longbottom cruzou a sala com passos firmes. Inicialmente, sua presença não foi notada visto que, apesar de todos os seus esforços, Frank se misturava facilmente aos jovens do sétimo ano, que esperavam pela entrada da baixinha e roliça Professora Sprout.

- Bom dia. – o burburinho da sala obrigou Longbottom a erguer um pouco mais a voz para ser notado – Bom dia!

Todas as cabeças se voltaram para o rapaz que se colocara atrás da principal bancada da estufa principal. Os olhares confusos e curiosos deixaram o professor sem reação por alguns poucos segundos, mas aquele tempo foi o bastante para que Longbottom não conseguisse se apresentar, conforme havia planejado sistematicamente naquela manhã.

- Frank...? É você?

Longbottom voltou a atenção para um dos rapazes da Grifinória, que o encarava com um semblante de dúvida. A memória de Frank provou que era das melhores quando o professor reconheceu nos traços daquele rapaz a fisionomia de um garotinho que, no passado, lhe pedira ajuda em uma prova de Poções. Longbottom havia dado três ou quatro aulas particulares para o colega e nem se lembrava mais do nome dele, mas, como tanto temia, fora facilmente reconhecido.

Apesar do descontentamento, Longbottom conseguiu lançar um sorriso simpático para o antigo colega antes de se voltar para o restante da turma.

- Bom, para quem ainda não me conhece, meu nome é Frank Longbottom. Estaremos juntos este ano em Herbologia.

- E a professora Sprout???

Como Frank temia, os questionamentos começaram. Embora não se sentisse tão tranquilo por dentro, o novo professor parecia confiante quando se voltou para o setimanista da Corvinal que lançara a pergunta.

- A professora Sprout precisou se afastar repentinamente de Hogwarts devido a problemas pessoais. Mas estou certo de que esta pequena mudança de planos não vai interferir na formação de vocês. Sem dúvida, ela fez um extraordinário trabalho nos últimos seis anos e eu terminarei de conduzi-los na direção de um excelente desempenho nos NIEMs.

Com um sorriso tranquilo que não refletia a ansiedade que o consumia por dentro, Frank deslizou os olhos claros pela estufa abarrotada de alunos antes de completar.

- Peço que ocupem os seus lugares nas bancadas e abram os livros na página oito. Alguém tem alguma pergunta antes de iniciarmos a aula de hoje?
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Re: Veritaserum

Mensagem por Severus Snape em Dom Mar 27, 2016 3:10 am

- Você está certo disso, Severus?

A voz de Albus Dumbledore era rouca e fraca, denunciando a avançada idade do diretor de Hogwarts. Ainda assim, não combinava com o poderoso bruxo que já havia marcado a história mais de uma vez, e que liderava uma organização secreta no meio de uma guerra, enquanto tantos outros homens se escondiam e fugiam para outros países.

Ainda assim, por mais admirador que o velho diretor fosse, Severus Snape se sentia irritado toda vez que ouvia uma pergunta naquele sentido. Conscientemente, ele sabia que Dumbledore falava mecanicamente e que não existia nenhuma suspeita verdadeira em suas palavras, mas era inevitável que o sangue corresse mais rápido em suas veias.

Apesar da irritação, o rosto pálido do homem continuou sem que nenhum músculo se mexesse. A máscara de seriedade e indiferença que Snape adotava, quase como se fosse completamente imparcial a tudo ao seu redor. Os lábios se deslocaram lentamente e a voz saiu, tediosa.

- Eu não seria leviano com uma informação dessas, professor Dumbledore.

- É lógico que não, Severus.

A concordância veio quase como um pedido de desculpas, o que pareceu aquietar a velocidade do sangue que corria em suas veias, fazendo com que Snape relaxasse os ombros. O velho diretor uniu as mãos e apoiou os indicadores nos lábios, os olhos azuis vagando pela saleta enquanto os pensamentos já estavam distantes, processando a informação trazida pelo professor de poções.

Nem por um segundo Severus cogitou interromper o diretor, se mantendo em silêncio. O sofá em que estava acomodado era gasto e ele podia sentir algumas molas o incomodando, mas permaneceu na posição desconfortável sem se mexer, as mãos pousadas sobre os joelhos e os olhos negros fixos na janela do outro lado do cômodo. A escuridão da noite o impedia de ver o jardim dos Weasley, mas ainda assim estavam atentos a qualquer movimento.

- É realmente lamentável que o ministério esteja se corrompendo, meu caro. – A voz de Dumbledore soou aleatoriamente, e por um instante, Snape pensou que ele estivesse falando sozinho. – Sinto muitíssimo por Batilda. Era realmente uma mulher determinada e competente.

O professor de poções se manteve parado, sem concordar ou negar com os devaneios de Dumbledore. Batilda McLauren era a filha mais velha de Charles McLauren, membro do conselho, e estava desaparecida há dias. E poucas horas antes, Severus havia presenciado a mulher dando seu último suspiro, assassinada em uma das masmorras de um dos seguidores de Voldemort.

A tentativa de corromper Charles havia durado dias até que os esforços se esgotaram. Batilda precisou pagar com a própria vida e seu pai enfeitiçado sob a maldição Imperius para seguir o desejo inicial de Voldemort de ter alguém sob sua influência nos corredores do Ministério da Magia.

Apesar de ter acabado de presenciar um assassinato, Snape parecia calmo, com uma frieza quase invejável.

- É apenas questão de tempo até que ele consiga verdadeiros seguidores. – Snape ameaçou dizer, e Dumbledore concordou imediatamente com um menear de cabeça. – Malfoy está encabeçando a lista, não preciso nem dizer. E está cada vez mais influente no Ministério. Não esconde de ninguém a ambição de ter sua cadeira junto ao conselho.

- Lucius não é minha preocupação no momento.

Severus precisou controlar a vontade de revirar os olhos. Para ele, Dumbledore estava sendo um tolo em subestimar a influência de Lucius Malfoy, mas o professor de poções era especialista em não deixar transparecer seus pensamentos e emoções. Ele não estaria vivo se não fosse tão eficiente nesta arte.

Quando terminou seus estudos em Hogwarts, Severus se viu sozinho, mergulhado em um ódio que o consumia dia após dia, cada vez mais preso em uma escuridão de sentimentos ruins, consumido pela raiva de ver a mulher que sempre amara se entregando aos braços de seu maior inimigo. Completamente perdido, foi no caminho das trevas que Snape acreditou que encontraria a solução.

O mestre de poções estava disposto a qualquer coisa para provar sua fidelidade à Voldemort e quase havia tomado uma decisão que se arrependeria pelo resto da vida. Completamente alienado pelo ódio, Snape estava disposto a entregar uma profecia-chave ao bruxo das trevas quando Dumbledore cruzou seu caminho.

Snape sentia calafrios cada vez que lembrava, palavra por palavra, do que a profecia tinha a dizer e das consequências que teriam acontecido se elas tivessem caído nas mãos de Voldemort. A noite em que Albus o convenceu a se juntar a Ordem da Fênix trouxe a Snape a sensação de poder respirar novamente, embora ainda encoberto pela escuridão.

Um pequeno ruído nos jardins fez com que Severus deixasse de lado as lembranças de seu passado e se colocasse de pé em um salto. Apesar da noite quente de verão, o jovem bruxo vestia uma calça negra e uma camisa de botões, também escura. Junto com seus cabelos pretos e cumpridos, ele tinha um ar quase sombrio, mas ainda era possível enxergar por trás de sua expressão fria um rapaz bonito e de olhar triste.

- Eles chegaram. – Dumbledore constatou, enquanto vozes na cozinha entregava a chegada dos demais membros para a reunião daquela noite.

Snape engoliu em seco quando reconheceu a voz feminina que ele conhecia tão bem, e eram em momentos como aquele que ele quase não conseguia manter sua frieza exposta.

- Eu realmente não vejo necessidade da minha presença esta noite, professor Dumbledore. Já lhe passei tudo que tinha.

Sempre que possível, Severus preferia não participar das reuniões onde estaria junto com os Potter. Era indigesto estar no mesmo cômodo que James, Sirius ou Lily. Para seu alívio, Dumbledore parecia compreender o drama que envolvia seus ex-alunos, mas não estava disposto a dispensar Snape naquela noite.

- Eu gostaria que ficasse, Severus. Ainda tenho um comunicado a dar e preciso da presença de todos. Você não se importa, não é?

Sem esperar pela resposta, Albus caminhou até a cozinha, suas vestes roxas se arrastando pelo chão.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Alexia Romanoff em Dom Mar 27, 2016 3:52 am

Apesar do receio de Frank, Annabeth não reconheceu o ex-grifinório no instante em que alcançou as estufas, mas precisou parar alguns segundos em surpresa ao ver um rosto tão jovem misturado entre os alunos que ela conhecia tão bem. Por um instante, chegou a acreditar que fosse algum novo estudante transferido, e só quando Longbottom se apresentou, a mente da corvinal se recordou vagamente do rosto do ex-aluno passeando pelos corredores junto com os amigos.

Mesmo tendo a mesma idade que Severus Snape, era inquestionável como a postura dos dois dentro de sala era completamente diferente. Michaelson jamais havia questionado a idade do professor de poções, mas enquanto ocupava seu lugar junto a bancada, a única coisa que passava pela sua mente era o quanto a inexperiência de Longbottom poderia afetar seu desempenho nos NIEMs e consequentemente seu futuro.

Era pouco provável que Dumbledore tivesse escolhido para compor seu corpo docente alguém que não fosse capaz de assumir todos os desafios que o cargo exigia, mas a simples ideia de que seus pais talvez tivessem razão e que o diretor de Hogwarts estivesse mesmo caducando fez um arrepio subir pela sua nuca. Ela tinha um currículo exemplar demais para ser prejudicada logo no último ano.

Precisava obter todos os NIEMs necessários se quisesse ao menos ter a chance de um futuro diferente dos irmãos, e naquele momento, Longbottom parecia ser um obstáculo que a impedia de alcançar seu objetivo.

Foi com este temor que Michaelson ergueu a mão naquela manhã. Era comum que a Corvinal interagisse nas aulas com perguntas inteligentes, mas pela primeira vez, ela deixou que as palavras escapassem de sua boca sem pensar no que estava dizendo.

- Quantos anos você tem???

Imediatamente, um discreto burburinho começou a percorrer as estufas e alguns estudantes se acotovelavam. Os corvinais tentavam olhar para qualquer ponto da estufa que não fosse a colega, envergonhados com seu comportamento. Alguns grifinórios haviam prendido a respiração e se acotovelavam, atentos diante da cena.

- Não me leve a mal, não que eu ache que precise ser um gênio para ensinar herbologia...

As palavras mal haviam escapado de seus lábios e Annabeth trincou os dentes, arregalando os olhos azuis. Em raras ocasiões, ela demonstrava que o sangue dos Michaelson realmente corria em suas veias e que havia uma pequena chance de ter sido selecionada para a Sonserina. Nesses escassos momentos, era comum que Anna se arrependesse no segundo seguinte.

Suas bochechas imediatamente adquiriram um valor e ela tinha certeza que estava corando enquanto cutucava o canto das páginas de seus livro, tentando encontrar uma forma de consertar o estrago que provocara.

- Eu só acho que você parece ser novinho demais.

As últimas palavras foram ditas quase em um sussurro e Annabeth teve certeza de que todos estavam olhando em sua direção. Uma grifinória do sétimo ano, posicionada do outro lado da bancada, deu um risinho.

- E bonitinho demais também. – A grifinória provocou, fazendo a colega ao seu lado soltar uma risada nasalada.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Saphir Wegener em Dom Mar 27, 2016 4:06 am

- O jantar será servido APÓS a reunião!

Com as mãos apoiadas na cintura, Molly Weasley lançou um olhar nada satisfeito aos dois rapazes que vasculhavam as panelas sobre o fogão. Remus Lupin rapidamente afastou as mãos e lançou à dona da casa um sorriso envergonhado, mas Sirius Black não parecia nem meramente constrangido quando se voltou para a ruiva e resmungou, ainda com a boca cheia.

- Estamos com fome! Não sei se consigo esperar pelo fim dos discursos intermináveis e bizarros do Dumbie.

- Oi, professor Dumbledore. – a voz de James soou divertida – Chegou cedo hoje, como vai?

Os olhos cinzentos de Black giraram e ele se voltou para a porta da cozinha com uma expressão entediada, provavelmente pensando que o melhor amigo estava apenas implicando com ele. Quando deu de cara com o diretor de Hogwarts, Sirius se engasgou e teve um acesso de tosse que obrigou Lupin a socorrê-lo com alguns tapinhas nas costas.

- Estou bem, Sr. Potter, obrigado por perguntar. E também estou com fome, Sr. Black. Tentarei ser mais breve nos meus discursos bizarros esta noite.

Apesar de toda a confusão instalada na cozinha dos Weasley, o bebezinho nos braços de Lily Potter continuou dormindo tranquilamente. Harry havia completado três meses de vida na última semana e talvez fosse pequeno demais para sair do conforto de seu berço naquela noite. Mas ele parecia compreender que seus pais exerciam um papel crucial no mundo da magia.

- Rony também já dormiu, querida. – Molly se inclinou para admirar o bebê adormecido nos braços da mãe – Deixe o Harry no bercinho. Bill está estudando no quarto e ficará de olho neles.

- Obrigada, Molly.

Só quando se movimentou pela cozinha, Lily percebeu que havia alguém atrás de Dumbledore. Seu semblante se tornou mais pesado ao reconhecer Snape, mas a ruiva não fugiu da obrigação de cumprimentá-lo com um frio menear de cabeça. Eles eram colegas e um mínimo de cordialidade deveria existir, afinal.

Mas a grande verdade é que, intimamente, Lily não conseguia perdoar o amigo pela tragédia que quase acontecera. Severus fora perdoado por quase todos depois de seu arrependimento, mas a Sra. Potter não conseguia engolir o fato de que o antigo amigo de infância quase entregara sua família a Voldemort. Por mais que conhecesse as razões de Snape e que soubesse do passado turbulento entre ele e James, Lily não era capaz de perdoá-lo por quase ter arruinado a vida de um bebê inocente.

Em poucos minutos, a cozinha dos Weasley estava lotada. Quando retornou à mesa de reuniões e sentou-se ao lado do marido, Lily ainda se sentia inquieta por ter deixado o filho em outro cômodo. A casa dos Weasley era a sede da Ordem da Fênix, e talvez por isso pudesse ser considerada o lugar mais seguro da Inglaterra. Ainda assim, a jovem mãe preferiria ter o filho ao alcance de seus olhos e por isso estava ansiosa pelo fim da reunião.

- Podemos começar? – Lily se voltou para Dumbledore.

- Peço mais alguns minutos, ainda falta uma pessoa.

Assim como todos ao redor da mesa da cozinha, os olhos verdes de Lily deslizaram por cada um dos colegas, em busca do membro que ainda não estava presente. Naquela noite, todos estavam ali. Até mesmo Snape, que não participava de todas as reuniões. E Alastor, que muitas vezes não conseguia comparecer por causa de suas atividades com chefe dos aurores.

- Uma pessoa vai se juntar a nós. – Albus explicou diante dos olhares confusos.

- Quem? É alguém de confiança?

A voz de Arthur soou séria. Embora confiasse em Dumbledore e estivesse determinado a fazer tudo pela Ordem da Fênix, o Sr. Weasley ainda era um pai que estava abrindo as portas da casa onde seus filhos viviam para um estranho.

- É alguém que conta com a minha inteira confiança, Arthur. Como eu já lhe disse várias vezes, a segurança das suas seis crianças está acima de qualquer interesse da Ordem.

- Sete. – a voz de Molly corrigiu o professor com uma entonação constrangida enquanto ela levava uma das mãos à barriga.

- Oh! – Lily abriu um sorriso surpreso – Está grávida?

- O QUEEE? – James não foi capaz de controlar a própria língua – DE NOVO?

O auror soltou um gemido abafado quando Lily enfiou o cotovelo em suas costelas sem nenhuma delicadeza. A surpresa estava estampada em vários rostos, mas o constrangimento dos Weasley foi interrompido por batidas na porta dos fundos. Vários membros da Ordem da Fênix sacaram as varinhas, mas Dumbledore tranquilizou a todos quando ergueu a mão e se levantou para atender a porta.

- Doeu! – Potter resmungou com a esposa.

- A sua indiscrição também é dolorida, Jamie!

A breve discussão do casal Potter chegou ao fim quando os olhos verdes de Lily reconheceram o rosto que surgiu na cozinha. Foi inevitável abrir um sorriso ao ver que a amiga havia reconsiderado a decisão de não participar da Ordem da Fênix. Além da utilidade de Emmeline como curandeira, a Sra. Potter adorava a ideia de ter a melhor amiga por perto novamente.

- Creio que muitos aqui já conhecem a Srta. Emmeline Jenner. Ela aceitou o meu convite e participará das nossas reuniões a partir de hoje.

Após a apresentação de Dumbledore, a curandeira forçou um sorriso enquanto deslizava os olhos por todos os presentes. Em meio aos rostos desconhecidos, ela se sentiu aliviada ao reconhecer os semblantes simpáticos de Lily, James e Remus. A imagem de Sirius Black fez com que Emmeline se sentisse ligeiramente desconfortável, mas ela se obrigou a deixar aquelas lembranças constrangedoras no passado. Black ainda era absurdamente bonito, mas Jenner deixara de ser a garota ingênua que se derretia pelos sorrisos dele.

- Boa noite. Desculpem pelo atraso, eu tive um pequeno contratempo no Mungus.

A declaração de Emmeline deixava clara qual seria a sua finalidade no grupo. Só depois de ter citado o hospital, a curandeira retirou o casaco e deixou evidente o emblema do St. Mungus estampado na blusa de uniforme que ela usava naquela noite.

Embora fosse jovem, qualquer um que tivesse convivido com Jenner em Hogwarts não duvidaria de sua capacidade. Apesar de ter nascido trouxa e de ter sido selecionada para a Lufa-Lufa, Emmeline sempre fora uma aluna tão brilhante como Lily. A loira provavelmente se tornara lufana por causa de sua ingenuidade, mas aquela antiga inocência se perdera após o trágico assassinato do casal Jenner.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Regulus Black em Dom Mar 27, 2016 4:38 am

Embora já esperasse por uma recepção pouco calorosa e repleta de questionamentos, Longbottom sentiu-se pessoalmente ofendido com a pergunta direta da aluna sobre a sua idade. E Annabeth conseguiu piorar bastante a situação com o comentário de que não era preciso ser muito inteligente para ensinar Herbologia.

As sobrancelhas grossas de Frank se franziram e a expressão do rapaz revelava todo o seu descontentamento com aquelas palavras. Suas mãos apertaram as bordas da bancada com mais força até que os nós de seus dedos se tornassem mais esbranquiçados.

Apesar de toda a irritação que se apoderava dele, Longbottom não perdeu o controle. O jovem professor ficou satisfeito consigo mesmo quando escutou a própria voz soando firme e tranquila pela estufa silenciosa.

- Talvez vocês não tenham entendido, portanto vou explicar de maneira mais clara. Meu papel aqui é o de professor. Portanto, gostaria que este “você” seja substituído por “senhor” ou “professor”. Minha autoridade dentro desta estufa me dispensa da obrigação de responder a tais perguntas, mas como parece ser tão importante para a senhorita, saiba que eu tenho vinte e três anos.

Frank havia planejado cada minuto daquela primeira aula, mas agora via seus planos caindo por terra. Nem em suas previsões mais pessimistas, Longbottom imaginou que iniciaria uma discussão com uma das alunas antes mesmo de iniciar a aula de Herbologia.

- Um professor certamente não precisa ser um gênio para ensinar Herbologia. Que importância tem três anos intensivos de estudos teóricos e práticos sobre todas as espécies de vegetais e fungos já catalogados neste planeta? E depois mais um ano e meio de especialização? Eu imagino que a senhorita planeje um futuro muito mais brilhante para si mesma, não é?

A última coisa que Frank queria era iniciar seu trabalho em Hogwarts com uma imagem negativa. Mas o rapaz sabia que, se não se impusesse naquele momento, jamais recuperaria o respeito dos alunos.

- Como a senhorita parece demonstrar um conhecimento tão limitado sobre as utilidades desta disciplina, eu vou querer que faça um trabalho extra. – Frank pensou por alguns segundos antes de continuar – Ditamno. Na semana que vem, eu quero receber uma revisão completa sobre todas as utilidades deste fungo no mundo da magia.

A estufa estava mergulhada no mais profundo silêncio enquanto o professor falava. A maturidade havia dado a Frank uma voz gostosa, grave e ligeiramente rouca. Mas a sua entonação séria não permitiria que as garotas se admirassem com aqueles detalhes.

- E quando eu digo que é uma revisão completa, eu quero dizer que o trabalho será avaliado com rigor. Se a senhorita citar menos que trinta usos do ditamno e mencionar menos de dez profissões que podem se beneficiar com os conhecimentos sobre esta espécie, será afastada das minhas aulas.

O silêncio foi substituído por exclamações surpresas. Vários alunos trocaram olhares tensos e as duas moças da Grifinória não estavam mais sorrindo quando Longbottom se voltou para elas.

- Quanto a vocês, eu dispenso elogios neste sentido. Menos cinco pontos para a Grifinória. Os livros já estão abertos na página oito? – Frank conferiu o relógio de bolso – Já perdemos cinco minutos que serão acrescentados ao final da aula.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Severus Snape em Dom Mar 27, 2016 4:53 am

Embora tivesse acatado ao pedido de Dumbledore de continuar para a reunião, Snape torcia para que sua presença pudesse passar completamente desapercebida, tendo consciência de que ele era desejado ali pelos demais membros da Ordem da Fênix tanto quanto desejava estar reunido com Potter e Black no mesmo recinto.

Como a vida nunca havia sido gentil ao mestre de poções, seu desejo não durou mais do que alguns segundos quando ele sentiu o par de olhos verdes se tornarem mais frio ao reconhece-lo. Por tantos anos, o rosto de Lily havia habitado seus sonhos e ainda era assustador ver como a ruiva passara a odiá-lo.

Ao contrário da paixão que ele nutrira desde a infância pela melhor amiga, tudo que Severus havia passado a sentir pela Sra. Potter havia se tornado desprezo e decepção. Era impossível para a mente de Snape compreender como ela havia acabado se casando com alguém tão arrogante como James, e o ódio que ele sentia pelo inimigo era agora refletido em sua esposa.

Ainda assim, era sufocante estar no mesmo local que os dois e tornava mais difícil se manter distante enquanto Potter agia como se estivesse na própria casa, tão à vontade, rodeado de amigos, em uma vida que ele nem ao menos merecia.

Enquanto os demais membros começavam a ocupar seus lugares à mesa, Severus se manteve em pé, mais ansioso pelo fim daquela reunião do que o estômago de Sirius Black. Seu olhar se manteve fixo em um ponto aleatório da cozinha de Molly Weasley, como se ele tentasse ignorar tudo que acontecia ao seu redor.

Quando Dumbledore anunciou que teria uma novidade que precisaria ser compartilhada com todos os membros do grupo, Snape acreditou se tratar apenas de mais uma das esquisitices do diretor de Hogwarts, de modo que a chegada de mais um integrante para a Ordem da Fênix foi recebida com surpresa pelo professor de poções.

Sua testa estava ligeiramente franzida quando a porta da cozinha foi aberta pela última vez, e ele chegou a dar um passo para frente, os braços cruzados diante do peito, quando reconheceu o rosto de Emmeline Jenner.

A lufana havia deixado a Inglaterra há anos e Snape nunca mais havia se lembrado da existência dela. Em Hogwarts, a loira mais parecia uma sombra de Lily Evans, e mesmo que se destacasse pela beleza e inteligência própria, a paixonite pela ruiva era capaz de ofuscar a presença de Emmeline aos olhos de Severus.

Foi por esta lembrança turva que Snape se perguntou se a lufana já apresentava traços tão bonitos quando ainda era jovem ou se o tempo havia lhe trazido alguns benefícios.

Ela não trazia mais consigo a ingenuidade que ele se lembrava de ser tão irritante. Havia se tornado uma mulher madura e séria, e o emblema do St. Mungus em seu peito mostrava que também havia realizado grandes conquistas. Talvez grandes demais para uma simples lufana.

- Ótimo, uma curandeira. – A voz de Snape soou tediosa enquanto ele voltava a assumir sua postura indiferente, encostado no portal que dividia a cozinha da sala. – Ao menos agora temos uma pequena chance de sobreviver ao próximo ataque. Isso, é claro, assumindo que a Srta. Jenner seja competente no que faz.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Saphir Wegener em Dom Mar 27, 2016 5:29 am

Uma das sobrancelhas claras de Emmeline se arqueou diante daquela provocação e a curandeira virou a cabeça na direção da familiar voz arrastada. Seus lábios se curvaram numa careta de desagrado quando os traços de Severus Snape foram reconhecidos. Cinco anos tinham se passado, mas Severus parecia o mesmo rapaz sombrio que espalhava seu ódio por Hogwarts através de sua língua venenosa. Era uma típica serpente da Sonserina e Jenner estava francamente surpresa em saber que alguém como Snape fazia parte do seleto grupo de Albus Dumbledore.

- É, eu sei. – foi a voz de Sirius que ecoou pela cozinha com uma entonação irônica – Eu também me pergunto todos os dias o que o Seboso está fazendo aqui.

Jenner não tinha a menor intenção de se meter na conturbada relação entre Sirius, James, Lily e Snape. Portanto, as provocações de Black ficaram sem uma resposta da curandeira. Potter, por outro lado, não perdeu a valiosa oportunidade de implicar o rival.

- Não diga isso, Padfoot. Ele tem sido muito útil para a Ordem da Fênix.

A declaração de James atraiu muitos olhares surpresos, inclusive o de Lily. Mas o auror logo abriu um sorrisinho sarcástico e deixou claro que não estava elogiando o sonserino.

- A convivência com o Ranhoso é um incentivo para que eu lave os cabelos todos os dias, mesmo quando está muito frio.

- Já chega. – a voz de trovão de Kingsley Shacklebolt serviu para colocar um fim naquelas implicâncias imaturas – Seja bem-vinda, Srta. Jenner. Ocupe um lugar, sim? A reunião já vai começar.

Como fora a última a chegar, Emmeline não tinha muitas opções. A curandeira acabou ocupando a cadeira vazia ao lado de Kingsley e cruzou as mãos sobre o colo enquanto escutava atentamente as palavras de Dumbledore, que deu início à reunião mencionando os erros cometidos na última missão da Ordem da Fênix.

A princípio, Jenner não parecia ter mudado tanto nos últimos cinco anos. Os cabelos estavam mais curtos, os traços tinham adquirido uma leve maturidade e a moça parecia bem mais séria e centrada quando comparada à lufana que Severus conhecera em Hogwarts.

Mas Emmeline continuava com uma aparência delicada que não parecia combinar com os objetivos da Ordem da Fênix. Na maquiagem leve predominavam os tons rosados. Emme ainda usava o mesmo perfume suave e adocicado da época de Hogwarts. Os cabelos loiros, mesmo depois de um dia inteiro de trabalho, continuavam impecáveis em um penteado cuidadoso.

Contudo, antes que qualquer um pudesse questionar a resistência da moça para lidar com os assuntos nada delicados daquele grupo, Emmeline mostrou a todos que toda a delicadeza que ela exalava não refletia a personalidade da mulher que ela havia se tornado.

O próprio Dumbledore vacilou ao falar sobre as notícias que tivera do último ataque dos Comensais da Morte, mas Emme não pareceu nada desconfortável quando pediu a palavra e ajudou o diretor a descrever aquelas atrocidades.

- O senhor está se referindo ao ataque ocorrido no fim desta madrugada em Falmouth? – Emmeline esperou que o diretor confirmasse – Foram encontradas doze vítimas fatais na cena. Oito pessoas foram levadas para o Mungus esta manhã em estado grave. Dois deles já morreram. Aliás, eu me atrasei para evitar que um terceiro também morresse, mas sinceramente não sei se ele aguentará até amanhã.

A loira deu de ombros e se recostou à cadeira antes de completar. A entonação usada por ela não era indiferente, mas refletia a frieza exigida pelo profissionalismo esperado dela.

- Espero estar errada, professor. Mas pelo o que vi das vítimas, temo que nenhuma delas terá a capacidade de contar detalhes do que aconteceu, mesmo se sobreviverem. O prognóstico é realmente terrível.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Alexia Romanoff em Dom Mar 27, 2016 11:30 pm

Um barulho estrondoso ecoou pelo quarto quando Alexia Romanoff soltou as sacolas de compras sobre a cama, sem se importar com os diversos pacotes que deslizaram sobre o colchão.

Seu rosto, sempre tão bem maquiado, estava vermelho como um rubi e a expressão fechada fazia com que as narinas delicadas se dilatassem com a respiração intensa. Os lábios pintados em um rosado também estavam espremidos quando ela se segurou aos pés da cama, rodeando os dedos pálidos no ferro bronzeado da armação.

- Você prometeu!!!

Alexia precisou respirar fundo antes de começar a andar de um lado ao outro do quarto, até alcançar as pesadas cortinas que fechavam as janelas. Com um movimento rápido, ela jogou os tecidos para o lado e imediatamente o sol iluminou o quarto de Regulus Black. Antes de se voltar para cama, ela retirou os grandes óculos escuros que escondiam as íris azuladas e os jogou sobre a escrivaninha do melhor amigo sem se importar com os pergaminhos espalhados.

- Qual é, Regulus! Você me deixou sozinha com ela!

Sem se importar se o amigo estava compreendendo sua fúria ou não, Alexia se sentou na beirada da cama, empurrando algumas das sacolas que ela mesma derrubara. Ela puxou o grande chapéu que cobria sua cabeça e o arremessou até atingir o travesseiro ao lado do rapaz. O movimento brusco fez com que alguns dos fios negros de seu cabelo se arrepiassem, mas Romanoff estava irritada demais para se preocupar com aquele detalhe.

A manhã havia sido frustrante demais e, como era comum, Alexia gostava de culpar o melhor amigo por tudo que ia de errado em sua vida. Afinal, era culpa de Regulus que ela não tivesse nenhuma outra desculpa para escapar de horas e horas de compras ao lado da mãe.

Apesar de ser vaidosa e mostrar em cada detalhe de sua aparência o quanto gostava de se cuidar, para ela, a companhia da Sra. Romanoff era o pior pesadelo de sua existência. A mãe tinha sempre um sorriso no rosto, mas era incrível sua incapacidade de abrir a boca para dizer algo agradável.

Ao contrário de Walburga que berrava aos quatro cantos o que pensava, Lucy Romanoff parecia ser a delicadeza em pessoa, com um veneno fatal que atingia a filha em cada crítica. Naquela manhã, o assunto preferido da Sra. Romanoff havia sido a aproximação do noivado da filha caçula e no quanto Alexia a deixava envergonhada.

“Seus cabelos estão secos demais” “Você não deveria comer isso querida, engordou muito nos últimos dias” “Ah, você não vai querer levar este vestido, te deixou pálida como um fantasma”.

Voltar a conviver com Lucy era, de longe, o ponto mais negativo de não retornar a Hogwarts. A formatura havia acontecido há poucos meses, mas Alexia já sentia saudades do castelo como jamais imaginou que fosse acontecer. E a presença da mãe apenas fazia com que ela tivesse uma pontada de felicidade com o noivado que se aproximava.

Com um suspiro frustrado, a menina girou sobre o colchão até se deitar ao lado do amigo, envolvida com as sacolas de compras, e encarou o teto com a coloração normal voltando a cobrir suas bochechas.

- Ela é terrível. Não me deixe sozinha com ela outra vez.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Severus Snape em Dom Mar 27, 2016 11:58 pm

Alguns anos antes, a provocação de James e Sirius teria tido um estrago maior em Severus Snape, mas o professor de poções já havia escutado aqueles mesmos insultos por mais vezes do que gostaria de se lembrar, de modo que as palavras entravam já sem sentido algum em seus ouvidos.

Com o tempo, Snape aprendera a ter pena da infantilidade de Potter e Black, e aquilo apenas se somava na lista de frustrações da sua incapacidade de compreender o que Lily havia enxergado em alguém tão obtuso e imaturo.

- É uma pena, Potter, que o incentivo se resume ao uso do seu condicionador. Seria muito mais vantajoso para todos nós se você se preocupasse menos com o seu cabelo e mais em ser um adulto.

A voz estrondosa de Kingsley fui o suficiente para encerrar aquela discussão infantil que se arrastava por anos, e Snape se sentiu agradecido quando o foco da reunião finalmente se tornou o que importava.

Como era comum, quando Albus iniciou o delicado assunto de um ataque, Snape pôde observar as pessoas se remexendo desconfortáveis em seus lugares. Era inacreditável como todos ali estavam vivenciando uma guerra e ainda assim não tinham estômago para as atrocidades provocadas pelos Comensais da Morte.

Severus sabia, mais até do que gostaria, que as notícias que chegavam ao Profeta Diário eram apenas uma fina camada do verdadeiro pesadelo que cobria o mundo mágico. As perversidades dos seguidores de Voldemort iam muito além da imaginação de todos que estavam reunidos naquela noite, e provavelmente ele era o único a ter dimensão do quão longe um comensal estava disposto a ir.

Ele mesmo havia ido longe demais, por mais de uma vez. A profecia que teria destruído a vida dos Potter era apenas mais uma de sua coleção. Suas mãos estavam sujas de sangue e nada seria capaz de trazer o seu sono tranquilo de volta.

A narrativa do diretor foi interrompida por Emmeline, e instintivamente, os olhos negros se ergueram até pousar na moça que ele não via há anos. Diferente das demais mulheres presentes, Jenner manteve exatamente a mesma expressão desde que chegara para a reunião. Era com naturalidade que ela levantava os fatos, e nem mesmo seu olhar vacilou.

Uma pontada de admiração surgiu sem que Severus ao menos tivesse conhecimento daquele sentimento. A atitude de Jenner era diferente do sadismo de Bellatrix Lestrange e do constrangimento de Molly ou Lily. As três mulheres eram bruxas com suas respectivas qualidades, mas nenhuma delas seria imparcial diante da descrição daquele ataque.

Enquanto a Comensal da Morte se deliciaria em descrever o nível de barbaridade, Molly e Lily provavelmente perderiam o sono, abaladas. Emmeline, por sua vez, era fria e objetiva, duas coisas que Severus admirava.

- O que exatamente você espera que as vítimas digam? – A voz de Snape soou sem que ele tivesse a chance de pensar antes.

Por alguns instantes, ele se esqueceu do restante dos presentes da reunião, os olhos negros cravados na novata.

- Vão dizer exatamente o que qualquer um que sobreviva tem a dizer. Pessoas encapuzadas, tortura na tentativa de obter alguma informação ou simplesmente por serem sangue-ruim.

Qualquer membro da Ordem da Fênix teria o cuidado de não escolher aquelas palavras, mas Severus nem mesmo gaguejou.

- É inútil tentar qualquer coisa depois do ataque. Se querem algum resultado, vocês precisam chegar antes do estrago.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Regulus Black em Seg Mar 28, 2016 12:52 am

Uma incômoda dorzinha latejava na cabeça de Regulus Black, talvez fosse um resultado das horas que ele agora passava em casa. Era impressionante como os gritos de Walburga ecoavam por toda a mansão dos Black, independente de onde a mulher estivesse. O caçula dos Black havia deixado Hogwarts pela última vezes há poucos meses, mas já era o bastante para sentir falta do castelo. Nem mesmo o Salão Comunal da Sonserina abarrotado era tão ruidoso quanto a casa dos Black.

Nem mesmo no próprio quarto, Regulus conseguia fugir dos berros da mãe. Geralmente Walburga dirigia suas explosões para Sirius, mas desde que o primogênito saíra de casa a mulher transferira toda a sua fúria para os elfos e para os quadros antigos que decoravam a mansão.

Quando Walburga finalmente pareceu se cansar daquele passatempo desagradável, Regulus soltou um suspiro de alívio e massageou as têmporas doloridas, imaginando que finalmente teria a paz necessária para se livrar daquela dor de cabeça.

Em menos de dez segundos, passos apressados nas escadas deram ao rapaz a certeza de que não era daquela vez que ele teria sossego.

A amostra de um furacão invadiu o quarto do caçula dos Black na forma de uma bela moça. Quando dirigiu os olhos cinzentos para a melhor amiga, Regulus não pareceu nem meramente surpreso com aquela entrada explosiva, o que demonstrava que não era a primeira vez que Alexia invadia os aposentos do amigo daquela forma.

Recostado em uma pilha de travesseiros, Regulus repetiu o gesto de massagear as têmporas, mas nem isso evitou que Alexia Romanoff reduzisse o volume da voz. As cortinas abertas permitiram que a luz do sol se espalhasse pelo quarto do caçula dos Black e a claridade agravou a dor de cabeça do rapaz consideravelmente, obrigando-o a erguer um dos braços acima dos olhos, numa tentativa de barrar um pouco da luz que ameaçava explodir seus miolos.

- O que, exatamente, você esperava que eu fizesse?

Ao contrário de Alexia, Regulus usou uma entonação baixa e calma. Como o conhecia desde a mais tenra infância e crescera ao lado dele, a filha dos Romanoff provavelmente não saberia dizer o exato momento em que Regulus deixara de ter uma voz infantil para adquirir aquele timbre gostoso. Como qualquer adolescente, Regulus havia enfrentado vários meses de transição com uma lamentável voz de gralha antes de finalmente atingir aquela voz grave e melodiosa.

- Não estamos mais em Hogwarts. Você não vai conseguir fugir dela para sempre. Acostume-se com esta ideia, Lex.

“Lex” fora um apelido inventado há tanto tempo que Regulus sequer se lembrava da ocasião. Ele era pequeno demais e se atrapalhava ao tentar pronunciar o nome da melhor amiga e, portanto, “Lex” acabou se tornando um hábito. Assim como vários outros hábitos adquiridos após tantos anos de convivência.

A amizade entre as famílias fez com que Regulus e Alexia crescessem juntos e o laço entre os dois só se intensificou quando ambos foram selecionados para a Sonserina em Hogwarts. Os dois jovens se tornaram tão inseparáveis que as famílias Black e Romanoff chegaram a pensar em uni-los num acordo de casamento. Mas tal ideia foi posteriormente descartada porque acordos melhores surgiram e principalmente porque Regulus e Alexia se comportavam como irmãos.

Depois que Alexia se jogou ao seu lado, Regulus virou a cabeça para encará-la. Aquela era uma das provas de que eles se enxergavam como irmãos. Eram dois jovens dividindo a mesma cama sem que nenhum pensamento pouco honroso povoasse a mente de qualquer um dos dois.

- Se isso te consola, a minha manhã também foi uma droga. – Regulus apontou uma pilha de pergaminhos acumulada sobre a sua mesinha de estudos – Meu pai me deixou encarregado de resolver aquilo, mas eu não consegui me concentrar porque minha mãe passou todo o dia entretida com os seus novos esportes favoritos: arremesso de panelas e gritos à distância.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Saphir Wegener em Seg Mar 28, 2016 1:33 am

Ao contrário da lufana que Severus conhecera em Hogwarts, Emmeline não se sentiu intimidada com os questionamentos dele. Aliás, a maneira como a loira o encarou já deixava claro que, desta vez, ela não pretendia fugir de uma discussão e nem pretendia engolir as palavras atravessadas do sonserino.

- É a minha primeira reunião, então eu não sei ao certo como as coisas funcionam, Sr. Snape. Mas, talvez, seria interessante que uma das vítimas ficasse bem o bastante para que o seu depoimento pudesse ser considerado válido pela porção ainda não corrompida do Ministério da Magia.

A voz de Jenner não se alterou, mas havia uma pequena pitada de ironia na forma como ela completou.

- Estou certa de que vocês sabem enumerar vários seguidores de Voldemort. Mas o fato deles continuarem soltos lá fora mostra que vocês não tem provas contra eles. Portanto, um depoimento oficial seria bem interessante, não?

Mais uma vez, as palavras de Emmeline causaram um pouco de surpresa no grupo. Dumbledore e os aurores eram os únicos que tinham coragem de pronunciar o nome do bruxo das trevas. Até mesmo os demais membros da Ordem da Fênix sentiam arrepios ao ouvir o nome Voldemort, mas a novata o mencionara sem qualquer tipo de receio.

- Infelizmente, eu acho que não será desta vez que conseguiremos este depoimento. Vou me esforçar e fazer a minha parte, mas o estrago foi realmente grande demais.

- Eu lamento ouvir isso, Srta. Jenner.

A voz de Dumbledore refletia um sincero pesar e ele parecia falar por todos. Por mais experientes que fossem cada um dos bruxos ao redor daquela mesa, nenhum deles conseguia ser indiferente às injustiças promovidas por aquela guerra.

O clima se manteve pesado até o fim da reunião e nem mesmo o jantar preparado por Molly foi capaz de elevar os ânimos da Ordem da Fênix depois daquelas notícias tão negativas. Depois que Albus finalizou formalmente o encontro daquela noite e os membros da Ordem começaram a se dispersar, Emmeline deslizou os olhos pela cozinha até encontrar Severus Snape.

Como já era de se esperar, o sonserino se afastava silenciosamente do grupo. Por mais apetitosa que fosse a comida da Sra. Weasley, Snape jamais se sentaria para comer ao lado de Sirius Black e James Potter.

O jovem professor de Hogwarts já havia alcançado a lareira e se preparava para deixar a casa dos Weasley quando Jenner pousou a mão num dos braços dele. Os dedos pequenos de Emmeline e as unhas pintadas de rosa pareciam ainda mais delicados em contato com o tecido profundamente negro.

- Snape.

Emmeline optara em chamá-lo assim depois de concluir rapidamente que “Sr. Snape” era formal demais e “Severus” era íntimo demais. Eles eram colegas agora e tinham estudado juntos, mas a verdade era que mal se conheciam. Aliás, aquela deveria ser a primeira vez que os dois tinham uma conversa a sós.

A mão da curandeira se afastou, interrompendo aquele contato, antes que ela continuasse a falar.

- Eu não quero tomar o seu tempo, mas preciso pedir um favor. – a loira se consertou depois de uma pequena pausa – Na verdade, não é bem um favor. Eu pretendo retribuir, seja com um pagamento em dinheiro ou da maneira como você preferir.

Antes que Severus pudesse “presenteá-la” com mais um de seus comentários ácidos, Emmeline completou de maneira direta.

- Eu soube que você se tornou o professor de Poções. Portanto, imagino que tenha um estoque. Eu preciso de ovos de fadas com alguma urgência para finalizar uma poção curativa e estão em falta no mercado. Posso pagar por eles ou lhe devolver com a porção que encomendei no Beco Diagonal, como você preferir.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Alexia Romanoff em Seg Mar 28, 2016 2:41 am

Ouvir que a manhã de Regulus também não havia sido agradável fez com que Alexia erguesse uma das finas sobrancelhas e o encarasse de perfil. Ela conhecia perfeitamente cada traço do rosto bonito do melhor amigo, e sabia exatamente o que ele estava sentindo dependendo do movimento dos lábios ou um franzir da testa, de modo que logo reconheceu a familiar frustração que apenas os Black conseguiam causar nele.

- Ótimo. Isso é para você não me abandonar da próxima vez, bem-feito.

Apesar do bico emburrado nos lábios rosados, Alexia conseguia compreender que a situação do melhor amigo era tão complicada, ou até mesmo pior, quando comparada a sua. Walburga conseguia ser ainda mais louca que a Sra. Romanoff, e o histórico “Sirius Black” era o agravante para Regulus se sentir tão infeliz naquela casa.

Por alguns segundos, Alexia se manteve em silêncio, encarando o teto escuro do quarto do amigo e enumerando as tristes semelhanças entre as famílias Black e Romanoff. Talvez tivesse sido todo o drama da árvore genealógica que tivesse ajudado na amizade dos dois, mas por mais que tentasse se lembrar, era impossível dizer qual o momento Regulus havia se tornado parte essencial da sua vida.

Era no melhor amigo que ela conseguia escapar de todas as frustrações e poderia ser ela mesma, sem medo de ser criticada. Regulus a aceitava exatamente como era, com suas qualidades e imperfeições, e mesmo vindo de uma família de completos loucos, conseguia ser um rapaz doce e inteligente, digno de admiração de qualquer garota.

O rosto da morena girou lentamente até que os olhos azuis pudessem fitar o perfil de Regulus, o admirando em silêncio. Era nítido que estar de volta em casa era tão ruim para ele quanto para ela, e saber o quão infeliz ele estava sendo tendo Walburga por perto conseguia lhe deixar ainda mais frustrada do que a companhia da Sra. Romanoff.

- Nós deveríamos fugir.

Alexia sussurrou, entregando os seus pensamentos distantes. Ela esperou que Regulus a encarasse de volta para completar, erguendo um dos ombros.

- Por algumas semanas, pelo menos. Podemos dizer que queremos comemorar a formatura, ficamos no chalé que meus pais têm na Suécia, aproveitamos e fugimos do calor infernal que está em Londres.

A simples ideia de poder aproveitar uma temporada de neve, longe Lucy, na companhia do melhor amigo por dias parecia ser tentadora demais. Era o escape perfeito para se manter sã até o anúncio do noivado.

Como se o destino quisesse provar o quão ruim a situação estava, o grito de Walburga soou pela escada e logo em seguida um barulho de prataria se espalhando no chão ecoou. Com uma careta cômica, Alexia buscou o olhar de Regulus mais uma vez, tentando conter o riso.

- Tenho certeza que seu trabalho irá render muito mais lá. Garanto que terá o silêncio que quiser.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Regulus Black em Seg Mar 28, 2016 3:08 am

- Você não acha que será um pouco... – Orion fez uma demorada pausa antes de encontrar a palavra que melhor se encaixava naquela situação - ...estranho?

Pai e filho estavam sentados frente a frente no escritório da mansão. Toda a casa dos Black era sombria, mas o escritório de Orion Black conseguia ser pior que os demais cômodos. As cortinas de veludo tinham um tom tão escuro de verde que, à noite, pareciam negras. Bizarros crânios de metais preciosos decoravam as prateleiras de uma estante abarrotada de livros. Quadros antigos exibiam os falecidos membros da família Black que, mesmo depois de mortos, continuavam presentes nas conversas e decisões que rondavam o sobrenome.

- Não. Por que seria estranho, pai?

Orion se remexeu na cadeira, visivelmente desconfortável com aquela conversa mais pessoal. O Sr. Black nunca fora tão próximo dos filhos e estava longe de ser um pai carinhoso ou preocupado. Contudo, desde que o nome de Sirius fora queimado na tapeçaria, Orion voltara a sua atenção para Regulus. Depois de perder um herdeiro, o Sr. Black queria garantir que pelo menos um dos filhos honraria o seu sobrenome.

- Vocês dois cresceram.

Antes que Orion pudesse fazer alguma insinuação maldosa, Regulus o interrompeu.

- Alexia e eu somos amigos. Fomos criados juntos, pai, ela é como uma irmã para mim.

- Eu sei, eu sei... – ainda desconfortável, o Sr. Black deslizou o polegar sobre o bigode grisalho – Mas as outras pessoas podem não compreender as motivações inocentes desta viagem. Alexia agora tem um noivo, ele pode não gostar de saber que ela viaja com outros rapazes.

- Alexia “ainda” não tem um noivo. – Regulus corrigiu o pai com firmeza – O noivado será oficializado no próximo mês. E é exatamente por isso que queremos viajar. Logo ela estará ocupada com os preparativos para o casamento e eu vou assumir os nossos negócios. Esta viagem é como uma despedida antes de encararmos as obrigações da vida adulta.

- E quanto ao seu casamento? – Orion resolveu fazer aquela jogada perigosa e encarou o filho – Eu entendo perfeitamente o seu desejo de aproveitar por mais algum tempo a liberdade de um rapaz solteiro, mas não poderá fugir disso para sempre, Regulus. As obrigações da vida adulta englobam uma esposa, filhos e a perpetuação do nosso sobrenome.

Por mais que já esperasse por aquele assunto, Regulus se afundou um pouco mais na cadeira. Seu destino era trocar alianças com qualquer jovem que os Black considerassem adequada. Era impossível fugir de mais aquela penosa obrigação, mas Regulus realmente esperava prolongar aquele compromisso pelo maior período de tempo possível.

- O senhor já tem alguém em mente? – o herdeiro devolveu a pergunta, invertendo a jogada como se estivesse em um perigoso jogo de xadrez bruxo.

- Alguns, mas nada definido.

- Quando eu voltar de viagem, vamos falar sobre isso.

A declaração de Regulus finalizou os dois assuntos daquela noite. O rapaz deixou claro que não voltaria atrás na decisão de passar alguns dias longe de Londres na companhia da melhor amiga. Contudo, por outro lado, Regulus saiu do escritório dos Black com a certeza de que não conseguiria fugir de uma aliança por muito mais tempo.

De volta ao seu quarto, Regulus sentou-se em frente à escrivaninha e conseguiu achar um pergaminho em branco em meio à pilha de documentos que Orion lhe entregara naquela manhã. A caligrafia bonita do rapaz marcou o pergaminho com uma mensagem breve, que foi enviada para a mansão dos Romanoff em poucos minutos.

“Tudo certo por aqui. Partimos quando você quiser.
R.A.B.”
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Re: Veritaserum

Mensagem por Severus Snape em Seg Mar 28, 2016 3:18 am

O toque de Emmeline em seu braço foi suave e discreto demais, mas o suficiente para que Severus se virasse com um olhar surpreso. Havia uma ruga entre suas sobrancelhas entregando a confusão com aquele gesto, e a curiosidade só aumentou quando a mulher lhe pediu um favor.

Severus estava acostumado a uma vida social limitada e as reuniões da Ordem da Fênix eram basicamente trocas de informações com o professor Dumbledore, de modo que interagir diretamente com um outro membro de forma tão casual era no mínimo assombroso.

Por um segundo, os olhos negros buscaram por alguém por cima do ombro de Emmeline, como se esperasse encontrar Potter ou Black prontos para caírem na gargalhada, como se aquilo fosse mais uma de suas antigas brincadeiras. Ao encontrar a sala dos Weasley completamente vazia, Severus tornou a baixar os olhos negros para a loira a sua frente, atento a cada uma de suas palavras.

A grande diferença na estatura dos dois obrigava Snape a manter o pescoço ligeiramente inclinado para baixo, mas nem por isso ele deixou de estudar atentamente cada traço do rosto da curandeira, quase em uma tentativa de ler sua mente.

Quando o pedido ficou claro e a curiosidade se dissipou, Severus relaxou os ombros e voltou a assumir a postura reta, quase superior. Definitivamente Jenner havia ficado tempo demais afastada da Inglaterra para ter coragem de pedir um favor ao mestre de poções.

Embora todos tolerassem a presença de Snape por ordem direta de Albus, ninguém ousaria em iniciar uma conversa, muito menos se o assunto envolvesse um pedido que poderia facilmente ser negado com sua usual arrogância.

Por um instante, Severus cogitou virar as costas e ir embora, afinal ele não teria ganho algum em desfalcar seu estoque por uma pessoa que ele praticamente não conhecia, mesmo em troca de alguns galeões. Apesar de não receber uma fortuna como professor, dinheiro não era exatamente um problema para alguém com o estilo de vida tão simples, de modo que não seriam as moedas a lhe tentar.

Mas a forma com que Jenner havia se portado durante a reunião ainda fazia Severus refletir no tipo de mulher que a lufana havia se tornado. A frieza em descrever as vítimas do atentado, a coragem ou tolice em dizer o nome de Voldemort e até mesmo de lhe dirigir a palavra diretamente certamente eram pontos que haviam despertado a atenção do professor naquela noite.

Durante longos segundos, Severus analisou o rosto de Emmeline e não se importou se demorou para lhe dar uma resposta.

- Creio que ainda tenho algumas dúzias no meu estoque pessoal que não me farão falta neste momento.

Embora suas palavras soassem sempre arrastadas e tediosas, ainda era possível notar o timbre rouco de Severus, gostoso de se ouvir se dissessem coisas mais simpáticas. Apesar do semblante sempre sério e nada amistoso, Snape havia se tornado um rapaz atraente, encoberto pelo olhar gelado e as roupas pesadas. Mesmo com as frequentes implicâncias de Potter e Black, seus cabelos eram limpos, e embora estivessem um pouco mais cumpridos do que o apropriado, eram brilhosos e macios.

As sobrancelhas perfeitas eram grossas e emolduravam os olhos escuros, e se ele desse a oportunidade de sorrir com mais frequência, mostraria os dentes perfeitos com lábios bem desenhados.

Com um movimento da cabeça, ele inclinou a lareira onde se dirigia.

- Estava indo de flu, mas posso aparatar. Acredito que tem menores chances de você se perder no caminho.

Severus ergueu um braço na direção da curandeira, sentindo o coração acelerar. Mais uma vez, ele não estava acostumado com o toque de outras pessoas, e imaginar carregar alguém em uma aparatação, onde exigiria proximidade, era assustador.

- Não me faça perder a noite inteira, Jenner. Ainda tenho muito o que fazer.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Alexia Romanoff em Seg Mar 28, 2016 3:41 am

Chamar aquela propriedade dos Romanoff de chalé era quase um insulto, mas por maior que fosse, a grande casa de madeira, rodeada de vidros por diversas paredes, ainda não se encaixava nos padrões de mansão estabelecidos para o alto padrão de Alexia.

Independente do tamanho, era inquestionável o quão charmoso era o lugar. Localizado em um local isolado, há alguns minutos de caminhada da cidadezinha mais perto, a paisagem era pintada de branco pela neve que caía quase todos os dias, tendo um lago esverdeado aos seus pés.

Apesar de ser afastado de tudo, o local tinha seu próprio entretenimento e estava devidamente equipado e cuidado pelos elfos domésticos. No momento em que foram recebidos, todas as lareiras já estavam acesas e alguns vidros começavam a embaçar com o calor agradável de seu interior, contrastando com a baixa temperatura do lado de fora.

Enquanto os elfos se encarregavam de guardar as malas, Alexia saltitava pela espaçosa sala, vasculhando uma gaveta ou outra a procura de algo interessante. Era impossível conter em si a felicidade de estar longe de Lucy, e ter a companhia do melhor amigo era o ponto máximo daqueles dias de folga.

- Voltou a nevar!

Alexia se debruçou sobre a janela, encostando a testa no vidro gelado para enxergar a paisagem lá fora. O sorriso em seu rosto era quase infantil, mas era algo frequente quando tinha neve. Enquanto muitos reclamavam do frio de dezembro em Hogwarts, a sonserina se sentia novamente como uma criança empolgada com a época natalina.

Com um enorme sorriso no rosto, Romanoff se voltou para o melhor amigo, retirando as grossas luvas que cobriam as pequenas mãos.

- Vamos montar um boneco de neve depois?

Antes que pudesse continuar em uma tentativa de convencer o melhor amigo, os olhos azuis se arregalaram e Alexia atravessou o cômodo com passos apressados. O gorro de lã foi arrancado de sua cabeça, bagunçando os fios negros, e arremessado aleatoriamente até que ela pudesse alcançar seu alvo.

Na estante da parede oposta, a menina puxou duas caixas e as esticou na direção de Regulus.

- Xadrez e snaps explosivins! Vou acabar com você, exatamente como fazia em Hogwarts!
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Re: Veritaserum

Mensagem por Saphir Wegener em Seg Mar 28, 2016 3:45 am

Quando se colocou diante de Snape para fazer aquele pedido, Emmeline já imaginava que não escutaria gentilezas. O sonserino nunca fora conhecido por sua delicadeza ou educação, mas ainda assim a curandeira decidiu que valia a pena tentar. A poção na qual ela estava trabalhando era muito importante e, para conseguir os valiosos ovos de fada, valeria a pena até suportar as grosserias de Severus Snape.

Por um momento, Jenner imaginou que o professor de Poções lhe negaria aquele ingrediente. Portanto, a expressão de surpresa dela foi sincera quando, depois de um tempo demasiadamente longo, Severus finalmente decidiu ajudá-la.

O comentário sobre Emme se perder na rede de flu não era muito gentil, mas é óbvio que a curandeira não pretendia iniciar uma discussão com o homem que pretendia lhe fornecer o único ingrediente que faltava para o término daquela trabalhosa poção curativa.

- Só mais um minuto, sim?

Sem dar a Snape tempo para reclamar, Emmeline girou sobre os calcanhares e se afastou da sala com passos apressados. Não seria nada gentil de sua parte sair da casa dos Weasley sem se despedir dos anfitriões, ainda mais sendo o seu primeiro dia como membro da Ordem da Fênix.

Por sorte, todos estavam entretidos demais com o jantar e Emme conseguiu falar com Molly sem ser interrompida. A Sra. Weasley obviamente insistiu para que a novata ficasse para jantar, mas Jenner a convenceu de que tinha um compromisso inadiável e que ficaria para comer ao fim da próxima reunião.

Mesmo a loira deixando claro que aquilo não era necessário, Molly fez questão de empurrar para as mãos de Emmeline um pratinho embrulhado. O cheiro estava tão apetitoso que Jenner simplesmente parou de questionar e decidiu aceitar aquele mimo.

Todos os colegas estavam reunidos ao redor da mesa quando Emmeline se despediu brevemente e saiu da cozinha sem mais delongas, mas não sem antes perceber que Sirius Black pareceu desapontado. Mais uma vez, Emme obrigou a si mesma a manter o passado bem distante de sua memória.

Quando retornou à sala, Jenner já esperava pelo olhar de poucos amigos de Severus. A curandeira não havia gastado nem três minutos nas despedidas, mas já era o bastante para agravar o tradicional mau humor de Snape.

- Pronto. – a loira soltou o ar ruidosamente antes de se colocar na defensiva – É uma regra básica de educação se despedir dos colegas e agradecer aos donos da casa pela acolhida. Você deveria experimentar da próxima vez...

Num gesto totalmente natural, Emmeline empurrou o seu pratinho para as mãos de Severus e soltou o objeto antes que o rapaz pudesse reagir.

- Segure um pouco para mim, por favor...

Aquele gesto mostrava que talvez Emmeline ainda tivesse um pouco da inocência do passado. Ou então ela mudara tanto ao ponto de não se importar com as grosserias de um sonserino.

O fato é que Jenner simplesmente manteve uma expressão neutra enquanto usava as mãos para recolocar o casaco. Ela fechou os botões sem pressa e só então pegou de volta o pratinho com o seu jantar. O prato foi firmemente seguro com uma das mãos, enquanto a mão livre novamente se dirigiu para o braço de Severus, desta vez segurando-o com mais firmeza.

- Pronto, agora podemos ir.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Regulus Black em Seg Mar 28, 2016 4:12 am

Não era a primeira vez que Regulus visitava o chalé dos Romanoff, mas o herdeiro dos Black sempre se surpreendia com a beleza do local. A construção realmente não era suntuosa e enorme como as mansões que o rapaz estava acostumado a frequentar, mas tinha uma arquitetura bonita e combinava perfeitamente com o cenário que a rodeava.

Embora não tivesse a mesma paixão de Alexia pela neve, Regulus precisava admitir que o lugar era assombrosamente bonito. A neve formava um tapete branco ao redor da construção e as montanhas rodeavam o chalé como se o protegessem do resto do mundo. O ambiente era calmo e silencioso, e o interior da casa era sempre conservado numa temperatura agradável apesar do frio que cercava o chalé.

Enquanto Alexia saltitava de um lado para o outro e extravasava a sua felicidade por estar ali, o herdeiro dos Black retirou o casaco e o jogou sobre um dos sofás da sala. Mostrando o quanto se sentia à vontade na presença da melhor amiga, Regulus também tirou os sapatos e se pôs a andar de meias pelo gostoso tapete que cobria todo o cômodo.

- Um boneco de neve? – a voz grave do rapaz ecoou numa breve risada divertida – Voltamos a ter sete anos?

Regulus segurou as caixas esticadas pela amiga e espiou o interior delas antes de colocá-las sobre a mesinha de centro da sala.

- Já passou pela sua cabeça que eu deixo você ganhar todas as partidas?

Uma das sobrancelhas de Regulus se ergueu e ele encarou a melhor amiga com um semblante convencido. Aquele comportamento leve e brincalhão do herdeiro dos Black era algo raro de se ver. Geralmente Alexia era a única pessoa para quem Regulus mostrava aquela face de sua personalidade.

- É sério, Lex, você não sabe perder! Começa a reclamar de tudo, me acusa de estar roubando. É muito mais fácil deixar você ganhar, sabia?

O rapaz manteve aquele semblante divertido e cruzou os braços diante do peito.

- Posso provar isso jogando para valer hoje. Vou vencer todas as partidas e mostrar que você só ganha quando eu quero que você ganhe...

Enquanto falava, Regulus começou a esvaziar as caixas. Era verdade que, muitas vezes, ele não jogava com tanto empenho quando sua adversária era Alexia. Mas Black só estava contando aquilo à amiga para provocá-la e para tornar os jogos ainda mais divertidos e competitivos naquele dia.

Como de costume, um dos elfos serviu duas generosas canecas de chocolate quente aos jovens antes que eles iniciassem os jogos. Aquele era mais um dos costumes antigos da dupla. O chocolate quente do chalé era mais do que tradicional, mas naquele dia Regulus decidiu inovar.

Com um toque de varinha, o rapaz conjurou uma garrafa de bebida. Era um dos melhores conhaques do Sr. Romanoff, mas o homem tinha tantas garrafas como aquela que certamente não notaria o desaparecimento de uma delas.

- O que foi...? – Regulus repetiu aquele sorrisinho travesso enquanto abria a garrafa e misturava uma generosa dose da bebida em seu chocolate – Se vamos mesmo lá para fora construir um boneco de neve depois do jogo, eu quero garantir que estarei aquecido.

A garrafa foi estendida na direção da caneca de Alexia, mas Regulus só serviria a bebida para a amiga após a concordância dela.

- Você já foi mais ousada, Lex. – a provocação soou num sussurro – Não podemos terminar a adolescência sem nenhuma lembrança de um porre. Não vou contar ao Avery se você vomitar ou chorar como um bebê, eu juro. Ele vai continuar achando que está se casando com uma dama respeitável.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Severus Snape em Seg Mar 28, 2016 4:20 am

Quando Emmeline se afastou para se despedir dos donos da casa, deixando Severus sozinho ao pé da lareira, ele chegou a cogitar a possibilidade de ir embora e deixar a curandeira para trás, sentindo-se pessoalmente ofendido com aquela ousadia.

Era ultrajante que Jenner lhe pedisse um favor e ainda o fizesse esperar interminavelmente. Para completar o arrependimento de Snape, a pequena marmita montada por Molly Weasley lhe foi empurrada de forma natural, e quem olhasse de fora, provavelmente cairia no riso diante da expressão de incredulidade do mestre de poções.

A boca bem desenhada de Severus estava entreaberta, e as sobrancelhas franzidas denunciavam o assombro com o comportamento da loira. Logo Severus, que era o mestre em esconder o que pensava, estava transparecendo em cada centímetro de seu corpo o quanto Jenner lhe deixara desarmado.

Ele acompanhou com o olhar o movimento dos dedos delicados fechando o casaco, ainda de queixo caído, e por fim revirou as íris negras diante da naturalidade da curandeira, lhe tocando para que pudessem aparatar.

- Tem certeza? – Snape perguntou, debochado. – Por favor, não se apresse. Você pode ter esquecido uma fatia da torta de sobremesa.

Até mesmo a frieza habitual havia sido deixada de lado, tamanha a irritação de Severus. Ele parecia um menino que não estava acostumado a ser contrariado.

- Qual a parte do “Não me faça perder a noite inteira” você não ouviu?

Com os lábios espremidos, Severus tocou a mão de Emmeline sobre seu braço, seus dedos longos e gelados em contato direto com a pele macia dela. O calor da pele sob seu toque, por algum motivo, pareceu agravar o mal humor do professor, e sem confirmar se a loira realmente estava pronta, eles aparataram.

O primeiro sinal de que não estavam mais protegidos pelas paredes da sede da Ordem da Fênix foi o vento gelado que cortou a pele pálida de Severus. Seus cabelos negros balançaram levemente, mas a escuridão do beco impedia Emmeline de ver aquele detalhe.

Havia um forte cheiro de urina e os dois haviam aparatado exatamente ao lado de uma lixeira transbordando, o que dificultava a respiração. Apesar da falta de iluminação, os olhos de Severus se adaptaram com facilidade e ele logo estava vasculhando o local por qualquer sinal de perigo. Com exceção de um gato malhado que continuou dormindo na parede oposta a da lixeira, não havia sinal de nenhum outro ser vivo, convencendo Severus de que era seguro continuar.

Ele soltou a mão de Emmeline e a encarou, a visão já perfeitamente adaptada, e a voz saiu em um fraco sussurro.

- Não faça barulhos. Não mostre sua varinha. E não se afaste de mim.

As instruções foram rápidas, mas claras e Severus não esperou que a loira processasse antes de dar os primeiros passos para fora do beco. Logo eles alcançaram uma calçada, e a rua se mostrou tão pouco iluminada quanto o beco.

Com passos firmes, Snape tomou a dianteira, mantendo seu ouvido atento a qualquer ruído ou risco de Emmeline se distanciar demais. Por sorte, a curandeira se manteve por perto no curto caminho que fizeram até parar diante de um estreito prédio cinzento de dois andares.

O portão de madeira foi empurrado com um ruído, e quando Severus sacou a varinha para abrir a própria porta, foi tão rápido que nem mesmo Jenner pôde perceber.

O interior da casa era infinitamente mais agradável que o restante da rua. A lareira foi acesa com um movimento ágil da varinha e logo o fogo trouxe calor e luminosidade ao cômodo, expondo os móveis velhos, mas bem conservados.

O que mais chamava atenção na sala de Severus Snape era a parede abarrotada de livros. Ela ia do chão ao teto, de ponta a ponta, sem um único espaço. Havia uma poltrona gasta localizada ao lado da lareira e parecia ser o único lugar para se sentar, já que o professor raramente se preocupava em receber visitas.

Severus retirou o próprio casaco negro e o jogou em um cabideiro ao lado da entrada antes de seguir até o cômodo seguinte. Não houve tempo para que ele oferecesse uma bebida à curandeira, ou perguntasse se ela gostaria de se sentar. Com praticidade, o mestre de poções atravessou a pequena casa até alcançar seu estoque particular, tão abarrotado quanto a parede de livros, e puxou a caixinha de ovos de fada.

Os ovos foram conferidos rapidamente e Snape estava pronto para voltar até a sala quando se virou, esbarrando em Emmeline. Mais uma vez naquela noite, ele foi incapaz de esconder a surpresa ao ver a loira diante de si.

- Por Slytherin, para alguém que preza tanto a educação, você é bastante ultrajante, sabia?
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Re: Veritaserum

Mensagem por Saphir Wegener em Seg Mar 28, 2016 4:54 am

Por mais que tivesse convivido com Snape durante os sete anos de Hogwarts, Emmeline nunca perdera nem um minuto de sua vida com o sonserino. Ela sabia um pouco sobre o passado dele graças a Lily, mas a verdade é que nunca parara para pensar como seria a vida de Severus longe do castelo.

Por isso, foi grande e negativa a surpresa da curandeira quando seus pés aterrissaram naquele beco imundo. A careta enojada foi uma reação inevitável e o vento frio obrigou Emmeline a envolver o corpo com os próprios braços, encolhendo-se dentro do casaco.

Mesmo tendo vivido no mundo dos trouxas durante a maior parte de sua vida, Jenner nunca estivera em um lugar como aquele. Severus a levara para um subúrbio que provocaria arrepios até mesmo em alguns Comensais da Morte.

O primeiro reflexo de Emmeline foi tocar a varinha guardada no bolso interno do seu casaco. A curandeira respeitou a orientação de Snape e não sacou a arma, mas seus dedos se mantiveram em contato com a varinha durante todo o trajeto pela calçada que levava à casa do sonserino.

Por um breve momento, Jenner se perguntou se Snape não estava atraindo-a para uma emboscada. Aquele lugar era tenebroso e o sonserino não era exatamente uma pessoa que inspirava confiança. Mas aquelas suspeitas se dissiparam no instante em que Emme pisou no interior da casa.

O lar de Severus não era exatamente acolhedor ou agradável, mas parecia um paraíso perto do ambiente que cercava o prédio. Ao menos, tudo estava limpo, organizado e a lareira espalhava um calor gostoso pelos cômodos.

Como não houve um convite para se sentar ou uma oferta de bebida, Emmeline se viu diante de duas escolhas opostas. Ou a curandeira ficaria de pé na sala, completamente sozinha naquele ambiente estranho, ou seguiria os passos do dono da casa.

O coração ainda acelerado pela adrenalina e a lembrança vívida do ambiente hostil que cercava a casa de Snape foram o bastante para fazer com que Emme se decidisse pela segunda opção. Os passos de Severus foram seguidos silenciosamente pela curandeira e ela ainda estava espiando o farto estoque do professor de Poções quando ele se virou subitamente na direção dela.

- Você não me convidou para sentar, achei que deveria te seguir...

A resposta soou com naturalidade. Emmeline manteve o pescoço esticado e nem tentou disfarçar o seu interesse nas prateleiras abarrotadas de ingredientes. Poções sempre fora uma das matérias preferidas da lufana e suas notas altíssimas tinham lhe rendido uma vaga fixa no famoso Clube do Slug.

- Você tem um belo estoque, hm? Um dos mais completos que eu já vi! Eu comecei a montar um na França, mas obviamente tive que abandonar a ideia quando decidi voltar...

Jenner se calou ao concluir que Severus Snape certamente não estava interessado em ouvir suas histórias. Aliás, já era um milagre que o sonserino não tivesse desistido de ajudá-la depois de tantos dissabores.

- Bom, eu não vou mais gastar o seu precioso tempo, Snape. – Emme pegou a caixinha com os ovos de fada e a equilibrou sobre o embrulho da Sra. Weasley – Muito obrigada por isso. Tão logo me entreguem a encomenda, eu devolverei os ovos.

Por um breve momento, Emmeline vacilou enquanto olhava na direção da porta da casa. A entonação mais humilde da curandeira deixava bem claro que o pedido desta vez era realmente um favor.

- Você pode me acompanhar até algum lugar de onde eu possa desaparatar? Eu realmente não gostaria de ficar sozinha lá fora.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Alexia Romanoff em Ter Mar 29, 2016 3:26 am

- Regulus Arcturus Black!

O tom repreensivo de Alexia veio acompanhado com um sorriso divertido e uma expressão de surpresa diante da garrafa de conhaque conjurada. Por mais que o melhor amigo se mostrasse mais relaxado na sua presença, como não fazia com mais ninguém, a menina ainda gostava de implicar com a personalidade pacata e de bom moço.

- Walburga ficaria orgulhosa. Este é um dos melhores conhaques do meu pai.

A fumaça dançava sobre a caneca, escapando da bebida quente, e atingia o rosto de Alexia com um calor agradável. Por um segundo, ela analisou o chocolate antes de estica-lo na direção de Black, permitindo que uma dose de conhaque fosse virada em seu interior.

- E você não precisa se preocupar com o Avery. Tenho certeza que a minha mãe já montou uma lista com todos os meus defeitos e o entregou pessoalmente. O que seria uma pequena ressaca comparada às intermináveis críticas de Lucy Romanoff?

Com um girar de olhos, Alexia soprou a própria bebida antes de dar um gole, sentindo o gosto do álcool predominante, mas perfeitamente mesclado com o chocolate. Ela lambeu os lábios com a testa franzida enquanto assimilava aquele novo paladar e precisou dar um novo gole antes de se certificar que realmente havia gostado.

- Além do mais, Avery jamais acreditaria que você precisou segurar os meus cabelos para que eu pudesse vomitar. Eu sou encantadora demais...

Com um suspiro convencido, Romanoff jogou os cabelos negros por cima dos ombros em um gesto exagerado. Mas no fundo, ela tinha consciência que as palavras presunçosas tinham um fundo de verdade.

Avery tinha a visão exatamente que ela deixava transparecer: a caçula de uma família tradicional, rica e de sangue nobre, que carregava consigo um dote invejável somada com uma beleza significativa.

Apesar de não serem tão diferentes quanto os olhos cinzentos da família Black, as íris azuladas de Alexia contrastavam perfeitamente com sua pele clara e os cabelos negros, sempre sedosos e brilhantes, caíam ondulados em suas costas. Seu corpo estava devidamente coberto pelas roupas de frio, mas a calça negra justa permitia exibir as curvas bem torneadas.

Qualquer homem se sentiria sortudo em ter a caçula Romanoff como sua noiva. Além da beleza e da riqueza, Alexia já havia demonstrado em dezenas de ocasiões que era uma verdadeira dama nascida em berço de ouro. Era delicada e dócil como uma boa esposa deveria ser. Apenas ao lado de Regulus a menina se permitia relaxar, demonstrando seu lado muitas vezes mimado e inseguro.

Com uma nova golada em sua bebida, já com as bochechas ligeiramente coradas, Alexia acompanhou o movimento das peças de xadrez no tabuleiro e fez uma careta quando sua rainha foi destruída, espalhando pequenos estilhaços ao redor.

- Achei que você me deixaria ganhar. – Ela resmungou com uma careta, franzindo o nariz arrebitado. – Você definitivamente não sabe tratar uma dama como eu, Reggy.

A caneca foi esticada mais uma vez na direção do melhor amigo e ela sorriu docemente.

- Mais, por favor.

Alexia esperou que sua bebida fosse servida com uma nova dose de conhaque e se levantou da mesa, deixando para trás o jogo inacabado, já praticamente derrotada, até se aninhar no canto do sofá mais próximo da lareira.

Com as pernas encolhidas, Romanoff apoiou os pés cobertos apenas pelas meias cor de rosa sobre a parte macia e recostou a cabeça no encosto, brincando com alguns fios negros já bagunçados.

- Por falar em dama, Reggy... Você já fez a escolha da futura Sra. Black? Você sabe que meu casamento será infinitamente melhor que o seu, mas eu serei a madrinha mais bonita que a noiva, seja ela quem for.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Severus Snape em Ter Mar 29, 2016 3:52 am

A expressão de incredulidade mesclada com tédio no rosto de Severus Snape chegava a um ponto quase cômico. A inocência ou ousadia de Jenner parecia não ter fim e testava todos os limites da paciência do mestre de poções, que achava impossível alguém se comportar de modo tão enfadonho com um completo desconhecido.

Talvez este fosse o erro de Emmeline. Ela não conhecia Snape o suficiente para saber que estava pisando em ovos, atingindo a fronteira do bom senso. O arrependimento daquele súbito momento de loucura em que concordara em ajudar a curandeira já havia atingido o homem em cheio, mas intimamente ele sabia que não poderia simplesmente chutá-la para fora da sua casa, principalmente quando viviam em uma guerra onde o sangue sujo da loira a tornava um alvo certo.

Com os lábios espremidos em um bico, Severus soltou o ar ruidosamente pelo nariz e fixou o olhar em um ponto atrás de Emmeline, contando até dez mentalmente.

- Eu vou pegar o meu casaco.

Snape atravessou o pequeno depósito, mas antes de sair por completo, ainda deixou escapar em um tom alto o suficiente para que Jenner escutasse.

- Esses são os ovos de fada mais caros da história.

Exatamente como havia acontecido no depósito, Severus não precisou convidar a curandeira a acompanha-lo, e estava vestindo novamente seu casaco escuro quando ela surgiu, equilibrando em seus braços o jantar de Molly Weasley e a caixinha com os ovos de fada.

Como o interior da casa já era relativamente pouco iluminado, quando os dois alcançaram novamente a rua, a visão já estava perfeitamente adaptada para a escuridão e era possível enxergar há alguns metros de distância com pouco esforço.

Mais uma vez, os dois retomaram a caminhada em silêncio, os ouvidos de Severus atentos ao menor dos ruídos, escutando os passos de Jenner sempre próximos. Foi por esta atenção eu o professor interrompeu sua caminhada repentinamente.

Por ter sido uma freada brusca, o corpo de Emmeline logo se chocou ao seu, mas a firmeza dos pés cravados no chão impediu Snape de perder o equilíbrio. Os olhos negros se espremeram em um ponto mais escuro da calçada enquanto ele tentava enxergar entre as sombras.

Discretamente, seu dedo já roçava a ponta da varinha escondida nas vestes. Dado ao histórico do bairro, o ruído poderia vir de algum bêbado, um gato vira-latas ou até mesmo de algum Comensal que resolvera lhe prestar uma visita repentina. A última opção provocou um arrepio na nuca de Severus. Seria difícil explicar o que ele estava fazendo tarde da noite na companhia de uma sangue-ruim se, no meio das sombras, surgisse Bellatrix ou Lucius.

Severus havia prendido a respiração sem se dar conta quando de repente um gato saiu estabanado dentre as sombras, correndo para o canto oposto da rua.

O comportamento do bichano, que deveria ter relaxado os ombros de Snape, fez com que o professor ficasse ainda mais tenso. Com um passo na direção das sombras, a varinha já estava erguida diante de seu rosto sem cerimônias.

- Fique atrás de mim.

Sua voz saiu baixa e fria, mas com uma firmeza que não daria a Jenner a opção de não obedecer. Ele deu um passo na direção das sombras antes de iluminar o rosto de Mundungus Fletcher com a ponta da varinha.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Regulus Black em Ter Mar 29, 2016 4:18 am

Como não estava habituado a ingerir bebidas tão fortes, Regulus contorceu o rosto com uma breve careta quando sentiu a mistura de chocolate e conhaque descer queimando por sua garganta. O sabor era perigosamente agradável e o calor proporcionado pela bebida era bem recebido naquele clima frio do chalé.

Com um sorrisinho já meio embriagado, o herdeiro dos Black vibrou quando a rainha de sua adversária foi espatifada. A maior prova de que Alexia realmente não lidava bem com a derrota veio quando a garota se afastou do tabuleiro, abandonando a partida antes que o amigo derrubasse o seu rei.

- Era disso que eu estava falando. Você não sabe perder, Lex.

A bebida tinha o poder de deixar a voz de Regulus ainda mais gostosa. Seu natural timbre grave adquirira uma entonação mais melódica .

Enquanto Romanoff se ajeitava no sofá, o rapaz derrubou o rei dela com um empurrão de seu indicador, finalizando assim a partida. Todas as peças negras do tabuleiro tombaram ao mesmo tempo, dando a vitória ao time branco.

O assunto trazido à tona por Alexia foi capaz de provocar mais uma careta em Regulus. O desconforto do caçula dos Black se tornou ainda mais evidente quando, antes de responder, o rapaz tomou mais alguns goles generosos de sua bebida. Por mais que soubesse que um acordo de casamento era inevitável, Regulus ainda não se sentia à vontade com aquela ideia.

- Ainda não temos um nome.

O rapaz usou a frase no plural como se quisesse deixar bem claro que aquela não seria uma escolha somente dele.

- Meu pai provavelmente vai me apresentar algumas sugestões quando eu voltar de viagem e eu vou escolher... – Regulus fez uma pausa na qual fingiu estar pensando seriamente sobre o assunto - ... a que tiver os peitos maiores.

Mesmo sendo muito próximo a Alexia, Regulus não costumava falar daquele jeito na frente da amiga. Aliás, o herdeiro dos Black costumava ser bastante discreto quando o assunto era uma garota, somente o álcool era capaz de soltar a língua de Black quando o tema era aquele.

Como apanhador da Sonserina, Regulus fora popular em Hogwarts e havia tido alguns relacionamentos sem importância. Mas as conversas com Alexia nunca englobavam as conquistas do amigo ou as suas preferências de garotas.

- É sério. As garotas que meu pai vai escolher provavelmente terão a mesma personalidade, o mesmo perfil, os mesmos gostos... Terei que selecionar critérios menos louváveis para escolher a felizarda.

O herdeiro dos Black só percebeu que estava bebendo rápido demais quando virou novamente a caneca e sentiu que as últimas gotas da bebida escorriam pela sua garganta. Na falta de mais chocolate quente, Regulus se contentou em completar a caneca com mais conhaque. O sabor não era tão gostoso sem o chocolate, mas também não era de todo desagradável.

- Que tal falarmos sobre outra coisa...? Eu realmente não quero pensar no seu casamento, e muito menos no meu casamento.

Enquanto falava, Regulus se colocou de joelhos sobre o tapete e se arrastou para mais perto da amiga. O sonserino ainda não estava completamente embriagado, mas a sua visão já começava a ficar turva, assim como a sua voz grave tornava-se gradativamente mais arrastada e as sílabas começavam a se encavalar.

- Vamos falar sobre quem ficará com o quarto das cortinas azuis...

Black se referia ao cômodo cujas janelas davam para os fundos do chalé. Era o quarto preferido de ambos porque tinha a vista mais bonita das montanhas, e também possuía a maior lareira e o colchão mais confortável.

- Não vou abrir mão dele desta vez. Eu já deixei você ficar com ele nas últimas duas vezes!

Regulus encarou a amiga com um semblante desafiador.

- Ao vencedor, o troféu. Ficará com o quarto quem alcançá-lo primeiro.

Antes mesmo que Alexia pudesse assimilar o significado daquelas palavras, Regulus colocou-se de pé com um salto e se pôs a correr na direção das escadas. O piso liso, o fato de Black usar apenas meias e o conhaque que já corria em suas veias e inebriava os sentidos do rapaz foram o bastante para que Regulus levasse um tombo cinematográfico antes mesmo de alcançar o primeiro degrau.

A sala deu um giro completo e, quando recuperou o controle da própria visão, Regulus viu um vulto passar rapidamente por ele. O rapaz soltou uma risada antes de conseguir se colocar de pé para seguir os passos da melhor amiga.

Quando eram menores, Alexia não tinha a menor dificuldade em ganhar corridas quando competia com o amigo. Ela era mais leve e mais ágil quando comparada ao herdeiro dos Black. Contudo, com o passar dos anos, Regulus começou a ser privilegiado pelas pernas mais compridas e pelo fôlego de um atleta. Portanto, antes mesmo que Alexia chegasse ao corredor dos quartos, Black a alcançou.

Os braços firmes do rapaz a enlaçaram pela cintura, interrompendo a corrida atrapalhada da moça. Sem nenhuma dificuldade, Regulus puxou a amiga para trás e a pressionou contra uma das paredes do corredor, imobilizando Alexia sem precisar usar muita força para isso.

- O que vai fazer agora? – Black provocou enquanto a mantinha totalmente dominada – Eu ganhei. Aceite a derrota desta vez, Lex.
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Re: Veritaserum

Mensagem por Alexia Romanoff em Qui Mar 31, 2016 1:54 am

Como dois adolescentes nascidos em berço de ouro, Alexia e Regulus sabiam se comportar perfeitamente diante da sociedade, atuando com perfeição no papel dos caçulas de famílias tradicionais e que tinham um peso significativo em seus sobrenomes.

Apesar de serem perfeitos modelos para os Black e Romanoff, bastavam alguns minutos a sós para que voltassem a ser crianças. As brincadeiras, implicâncias e confissões faziam parte daquela amizade, principalmente porque eles sabiam que um não julgaria o outro, independente do nível de imaturidade.

Um pequeno gatilho de um dos lados era suficiente para que o outro também se soltasse, e era o que havia acontecido naquela tarde. Estar novamente na companhia um do outro, sem a supervisão ou as cobranças das famílias dava a sensação de liberdade que Alexia tanto gostava. Ela não precisava calcular seus gestos, sorrisos e palavras para agradar ninguém, porque Regulus não se importaria com nada.

A corrida pela disputa do quarto de cortinas azuis era mais uma prova de como os dois não precisavam de nada, além da companhia um do outro. Quando foi capturada pelos braços do melhor amigo, Alexia estava esbaforida e com os cabelos desalinhados.

Durante um curto período, a morena ainda tentou inutilmente se desvencilhar dos braços de Regulus, mas até mesmo com a posição de um Apanhador, ele tinha força suficiente para mantê-la presa contra a parede.

- Não é justo! Você trapaceou!

Alexia revirou os olhos, a respiração rápida pelo esforço físico. Apesar de magra, Romanoff tinha as bochechas grandes que deixavam seu rosto mais redondo e com um ar quase infantil. Após a corrida fracassada, a pele naturalmente pálida havia adquirido um tom rosado e uma das mechas negras desalinhadas havia se prendido em seu lábio inferior. Enquanto respirava depressa, alguns fios balançavam, sem desgrudar.

Durante a pequena luta pela sua liberdade, a menina havia agarrado o casaco de Regulus e o segurava, com o movimento dos braços limitados por ainda estar prensada contra a parede.

- Apenas admita que você roubou! Se você admitir, posso até deixar você dormir no sofá.

Romanoff já sentia o rosto dolorido pelo riso, mas mantinha o olhar vitorioso nas íris azuladas. Ela sabia que, no final, Regulus sempre abriria mão para lhe agradar.

- Se você não admitir, vai ter que dormir no quarto ao leste.

Ela ergueu uma das sobrancelhas negras, o encarando significativamente. O último quarto do corredor leste era o pior de todos. Era sempre o cômodo mais frio da casa, e a localização de uma árvore colada a janela tornava impossível o sono em noites de vento, onde os galhos batiam perigosamente durante todo o tempo.

- E então, o que vai ser, Reg?
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