A Marca Negra

Página 1 de 7 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

A Marca Negra

Mensagem por Alexia Romanoff em Dom Dez 20, 2015 5:18 pm

As pesadas cortinas que cobriam a última janela foram jogadas para o lado, permitindo que a luz do sol iluminasse a sala de jantar. A governanta parou ao lado da grande vidraça que ia do piso ao teto, sorrindo orgulhosa.

- E então? O que achou?

O barulho dos saltos se tocando no piso de granito quando Olivia Russel deu os primeiros passos ecoou por todo o cômodo. Quando se colocou exatamente no centro, ela parou, permitindo que os grandes olhos cor de mel percorressem por cada detalhe.

A lareira estava preparada com bastante madeira, mas estava apagada. Mesmo que o inverno estivesse se aproximando, ela estava perfeitamente preparada para enfrentar as baixas temperaturas da Inglaterra. Aquela época do ano costumava ser muito mais rigorosa na Noruega.

Ocupando quase toda a extensão da longa sala, havia uma mesa negra, rodeada de cadeiras. O móvel estava brilhando e era possível ver o próprio reflexo em sua superfície. Pelas paredes, poucos quadros estavam expostos, mas era sobre a lareira que ela conseguia enxergar o rosto dos seus pais, emoldurados belamente.

Dimitri Russel tinha o rosto jovem, não havia nem mesmo atingido a meia idade ainda, mas estava sério e com uma barba baixa e negra que cobria seu rosto sério. Em pé ao seu lado, com as mãos apoiadas em seu ombro, Octavia Russel estava elegante com um longo vestido prata. Os cabelos ruivos haviam sido puxados em um firme coque. Havia a sombra de um sorriso em seus lábios, mas era notável que não alcançava o olhar.

No teto, um enorme lustre estava pendurado, mas a luz que vinha das várias janelas compridas permitia que a iluminação fosse natural. Olivia olhou uma última vez para o retrato dos pais antes de responder a governanta.

- Escuro demais.

A jovem Russel tinha apenas dezoito anos, mas já havia herdado a expressão séria dos pais representados no retrato. Tinha grandes olhos cor de mel, que dependendo da luz, era possível ficar esverdeado. Os cabelos ruivos estavam soltos, caindo em seus ombros e costas com largas ondas e uma pequena mecha havia sido puxada para o lado, presa na lateral da cabeça.

O corpo magro estava coberto por um vestido negro, mais justo na cintura e que rodeava levemente nos quadris. Desde a morte dos pais, há pouco mais de três meses, Olivia não usava uma única peça colorida, o luto representado até mesmo na meia-calça escura e nos sapatos de boneca negros.

Havia pouco mais de uma semana que a jovem havia se mudado para a Inglaterra, na companhia apenas de Meredith, sua governanta, mas era impossível sentir que aquele ali era seu novo lar.

Os Russel eram donos de mais da metade dos negócios da Suécia e Noruega e alguns pouco na Finlândia. Quando Octavia e Dimitri morreram, todo o reinado, a fortuna, as mansões e os negócios haviam caído sobre os ombros da jovem filha. Olivia poderia escolher qualquer outra casa, mas havia deixado a encargo de Meredith que escolhesse o novo lar na Inglaterra.

A mansão ficava afastada de qualquer outra residência, mas ainda era a metade do tamanho da casa que morava na Suécia. A diferença mais gritante para a jovem Russel era a iluminação. O lar que crescera ao lado dos pais era extremamente claro, com a decoração sofisticada. As paredes eram todas de um creme suave, o piso branco, os lustres prateados.

Aquela nova casa era exatamente o oposto, como se quisesse refletir a triste fase que ela estava enfrentando. Os papéis de paredes eram todos escuros, o piso cinzento e as cortinas pesadas demais. Era sufocante e quase mórbido.

Mesmo assim, quando sentiu o olhar decepcionado de Meredith, Olivia suspirou.

- Mas você fez um bom trabalho, Mer. Está ótimo.

Sem esboçar reação alguma, Olivia deixou a sala de jantar, novamente fazendo com que seus sapatos de boneca ecoassem o “toc toc” pelas paredes. Meredith se apressou em acompanha-la.

- Srta. Russel, ainda precisamos definir o cardápio para o seu jantar de aniversário.

Olivia já havia alcançado os primeiros degraus da larga escada quando travou. Seu aniversário seria no dia seguinte, mas ela não sentia a menor vontade de comemorar. Parecia um crime preparar uma festa quando aquele seria seu primeiro aniversário sem os pais.

Porém, assim como todo o dinheiro e legado deixado pelos Russel, ela também tinha obrigações. Não estava na Inglaterra apenas a passeio e precisava prezar pelos negócios do pai. Sabia perfeitamente que Dimitri muitas vezes havia enfrentado situações que o desagradava apenas porque era necessário.

Com um suspiro, ela agarrou o pingente onde carregava a foto dos pais, pendurado em seu pescoço. Sabia que uma das situações que desagradava o pai era ela mesma. Nada deveria ser mais difícil do que criar uma filha sabendo que não era sua, mesmo assim o homem não havia dado as costas.

Enfrentar um jantar com a alta sociedade britânica não seria nada, comparada ao sacrifício dele.

- Pode escolher, Meredith. Confio em você. Peça ajuda de quantos elfos forem necessários.

Meredith confirmou com a cabeça, observando a jovem subir as escadas com seu semblante sério. Sabia que todo o trabalho ficaria consigo, mas intimamente, torcia para que Olivia tivesse forças para enfrentar sua única responsabilidade com aquela ocasião, que seria apenas comparecer no jantar oferecido.
avatar
Alexia Romanoff

Mensagens : 89
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Danika Lehmann em Dom Dez 20, 2015 7:42 pm

A grande maioria das pessoas diria que aquele era um subemprego, uma função pouco digna para um bruxo. De fato, o trabalho não exigia magia, tampouco muita inteligência. Mas era aquele emprego que pagava as contas de Barbara Robinson, então ela não se deixava abater pelas críticas ou pelos olhares de desprezo.

Aliás, era fácil ignorar a repulsa quando Barbara já havia nascido e crescido sob um estigma de inferioridade. Desde sempre, a moça aprendeu que a sociedade bruxa era composta por camadas e que ela estava localizada na base daquela complexa pirâmide, bem ao lado dos trouxas. Algumas pessoas mais radicais se arriscariam a dizer que um “aborto da natureza” era um ser ainda mais desprezível do que um trouxa comum, visto que não herdara a magia mesmo tendo pais bruxos.

A maioria dos desafortunados que carregavam tal “maldição” optava por dar as costas ao mundo da magia e vivia entre os trouxas, como iguais. Por várias vezes, Barbara pensou em tomar tal decisão, mas a mãe a fazia reconsiderar. A Sra. Robinson ainda era uma mulher jovem, mas sua saúde se tornara frágil depois que sua vida quase fora ceifada por um surto de varíola de dragão. A mulher precisava de poções curativas e de ajuda para as tarefas mais penosas. Apenas por ela, Barbara continuava fazendo parte daquele mundo que não a queria por perto.

Ao contrário da maioria dos jovens da sua idade, Barbara não carregava consigo as mágicas lembranças de Hogwarts. Ela nunca havia recebido uma coruja de Hogwarts, nunca pisara no castelo, não tinha uma varinha. Tudo o que ela sabia fora ensinado pela mãe e era apenas o suficiente para que a garota soubesse se virar sozinha.

Por isso, não foi fácil arrumar um emprego. Aos dezoito anos, Robinson só tinha experiência em servir mesas e a limpar o chão quando surgiu a oportunidade de um emprego um pouco melhor. Algo que a colocaria um pequeno degrau acima de um elfo doméstico.

A oferta veio de um velho amigo da Sra. Robinson. Terry Von Hants era bastante conhecido por sua loja no Beco Diagonal. A “Von Hants Potions” vendia literalmente todos os ingredientes possíveis de serem usados numa poção, além de frascos de poções complexas já prontas. A loja também aceitava encomendas e vendia caldeirões e fogareiros fantásticos. Era um ponto de parada obrigatório para qualquer bruxo disposto a fazer uma poção de excelente qualidade.

Terry sempre conseguiu fazer sozinho todo o trabalho da loja, mas começou a sentir o peso do serviço quando atingiu uma idade mais avançada. Foi por isso que contratou a jovem Robinson como balconista e limitou-se ao trabalho direto no preparo das poções. Não demorou para que o dono do estabelecimento tivesse a certeza de que aquela fora uma excelente escolha. Barbara conhecia todos os ingredientes, era gentil com a clientela e responsável com suas obrigações.

A jovem já estava há quatro meses no novo emprego quando se atrasou pela primeira vez. Não fora fácil acordar depois de ter passado boa parte da noite ao lado da mãe. A Sra. Robinson estava enfrentando novamente mais uma das crises da varíola e não fora fácil abaixar a febre alta que fazia a mulher delirar.

Apesar do cansaço, Barbara estava disposta a enfrentar mais um dia duro atrás do balcão da Von Hants Potions quando saiu de casa apressada.

As ruas do Beco Diagonal já estavam cheias, embora ainda fosse cedo. Apesar da pressa, Barbara precisou conter a velocidade dos passos para não escorregar nas ruas de pedra ainda úmidas pela neve que caíra à noite e agora começava a derreter.

Enquanto andava pelo caminho que repetia todos os dias, a jovem Robinson acenava para um ou outro conhecido por quem passasse. O lado positivo de sua condição de “aborto” era que Barbara não tinha dúvida de que toda a gentileza que recebia era desinteressada.

A loja especializada em poções ficava um pouco mais afastada dos principais pontos do Beco Diagonal. A porta da Von Hants Potions ficava há poucos metros da entrada para a mal frequentada Travessa do Tranco, mas Terry nunca fez questão de mudar a localização do estabelecimento. O dono da loja não se incomodava nem um pouco com os lucros que vinham da clientela duvidosa da Travessa.

Um suspiro escapou dos lábios de Robinson quando a garota avistou da esquina um homem parado diante da porta fechada da loja. Provavelmente era um cliente pronto para recuar ao encontrar o estabelecimento ainda fechado.

- Espere!

A voz feminina ecoou num grito antes que Barbara terminasse de percorrer a distância até a porta numa corrida. A moça estava ofegante quando alcançou a fachada da Von Hants Potions e lançou um sorriso constrangido ao cliente.

- Perdoe-me, estou um pouco atrasada hoje. Mas não vou deixar que vá embora de mãos vazias.

Ao contrário do que seria normal, Barbara não usou uma varinha para destrancar a porta. De dentro do bolso da pesada capa que usava, a jovem retirou um chaveiro e destrancou a porta de maneira mais “tradicional”, empurrando a pesada madeira para abrir o acesso à loja.

- Entre, por favor. Eu já vou acender a lareira!

Mais uma vez, a garota não usou magia. Usando as próprias mãos, Robinson ajeitou a lenha e acendeu a lareira para amenizar um pouco o frio congelante daquele princípio de inverno londrino. Só quando a temperatura no interior da loja se tornou mais agradável, Barbara retirou a pesada capa com capuz que usava sobre as roupas.

Só então, o cliente poderia perceber que se tratava de uma moça ainda bem jovem. Robinson tinha um corpo magro e traços extremamente delicados. Os cabelos castanhos iam até abaixo de seus ombros e tinham um tom escuro na sombra, embora adquirissem um brilho mais claro à luz do sol. Os olhos da moça eram verdes, o nariz perfeitamente desenhado. Mas, sem dúvida, o detalhe mais marcante do rosto da menina era o sorriso. Barbara tinha os lábios muito bem torneados e possuía aquele tipo de sorriso amplo que exibia até os dentes mais posteriores. Os dois dentes da frente eram ligeiramente maiores que os demais, contribuindo para que o sorriso da moça parecesse ainda mais adorável.

Naquela manhã, a jovem usava uma comportada saia acinzentada e uma blusa de botões branca. Como o frio exigia uma maior proteção, Barbara completara o visual com meias grossas e uma bota de cano alto. Mas o rapaz não teve muito tempo para notar as roupas simples dela, visto que logo Robinson pegou o avental de couro de dragão jogado sobre o balcão e se cobriu com ele.

- Desculpe mesmo pelo atraso. – Barbara se colocou atrás do balcão e puxou um bloquinho de anotações – Pode falar. O que vai querer hoje, senhor?
avatar
Danika Lehmann

Mensagens : 109
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Connor Ward em Dom Dez 20, 2015 10:05 pm

A maior lembrança que Rodolphus Lestrange guardava de seu único encontro com aquela que deveria ser sua esposa era o frio. Ele era pequeno demais para notar a decoração fina da casa dos Russel ou para se lembrar dos rostos estranhos que vira naquele dia. Mas o frio da Noruega era intenso demais para ser esquecido.

Os jardins dos Russel estavam cobertos de neve. Os flocos continuavam a cair e se acumulavam nos parapeitos das janelas fechadas e era num daqueles montinhos brancos que os olhos do pequeno Rodolphus estavam presos. O garoto já tinha desistido de brincar lá fora quando notou que o frio continuava forte mesmo no interior da casa, com as lareiras acesas e o sistema de aquecimento funcionando ativamente.

As duas mulheres conversavam na sala, aquela típica conversa vazia das damas da alta sociedade. Joias, vestidos, festas, a admiração pelos maridos ricos e poderosos, os filhos perfeitos. Nada que pudesse prender a atenção de um garotinho de sete anos.

Atrás da porta do escritório fechada acontecia uma das conversas mais importantes da vida de Rodolphus, e ele simplesmente foi excluído daquela decisão por ser uma criança.

Não era incomum que as famílias bruxas tradicionais fechassem acordos de casamento sem levar em consideração as vontades dos filhos. Mas o Sr. Lestrange e o Sr. Russel ultrapassaram todas as expectativas ao fecharem aquele negócio de forma tão precoce. Rodolphus tinha sete anos e Olivia estava prestes a completar três anos quando seus pais decidiram que eles deveriam passar o resto da vida juntos.

Como se fosse apenas mais um bom negócio, o acordo de casamento foi comemorado com um drinque. Os Lestrange ficaram para jantar e foi depois da sobremesa que Rodolphus, entediado com a conversa dos adultos, deslizou silenciosamente para fora da sala de jantar dos Russel.

Sempre aos cuidados de Meredith, Olivia brincava no tapete da sala. Suas mãozinhas gorduchas empilhavam blocos coloridos com extremo cuidado e ela só desviou a atenção da brincadeira quando um par de pernas surgiu diante dela. A garotinha ergueu a cabeça vagarosamente até encarar o rosto do menino.

Meredith, já ciente dos termos do acordo daquele dia, apenas observou a primeira interação das duas crianças.

- Oi...? – Olivia arriscou um cumprimento, meio desconfiada.

- Oi. – a resposta soou breve e igualmente receosa.

- Tudo bem?

- Não. – Rodolphus enfiou as mãos enluvadas dentro dos bolsos – Estou com frio.

A ruivinha pareceu intrigada com aquela reclamação. Já acostumada ao frio norueguês, Olivia sabia que aquela estava longe de ser uma das noites mais geladas do país.

- Sou a Olivia.

- Rodolphus.

- Você mora aqui perto?

- Não. – os olhos escuros se arregalaram – Ainda bem. Aqui é muito frio!

Aquela inocente conversa de duas crianças que ainda não compreendiam o poder de suas famílias e a complexidade do futuro que os aguardava terminou quando o Sr. Lestrange surgiu na sala e chamou o pequeno Rodolphus. O pai sorriu ao vê-lo conversando com Olivia e mencionou que os dois formavam um casal bonitinho. Rodolphus só entenderia o teor daquele comentário anos depois.


Os dois prometidos nunca mais se viram, mas o acordo permaneceu. O Sr. Lestrange apareceu algumas poucas vezes na Noruega após o trato, mas sempre a negócios, sem a companhia do filho. O combinado era que, no aniversário de dezoito anos de Olivia, depois que ela completasse seus estudos, os dois jovens se encontrassem e formalizassem o acordo com um anel de noivado.

A morte precoce de Dimitri poderia colocar tudo a perder e foi apenas nisso que Lestrange pensou quando foi informado sobre o falecimento dos Russel. Ele não lamentou a perda de um amigo ou a má sorte da órfã. Tudo o que lhe preocupava era que o vantajoso acordo através do qual ele colocaria as mãos em parte da fortuna Russel poderia ser desfeito.

A herdeira dos Russel logo perceberia que a sociedade londrina conseguia ser ainda mais lamentável que os bruxos de sangue puro da Noruega. Uma guerra de motivações duvidosas eclodia no Reino Unido, mas não havia nem mesmo uma família bruxa “tradicional” inglesa que questionasse os benefícios daquela luta.

E é claro que todos pareciam muito interessados na pobre órfã que possuía uma fortuna incalculável. Olivia estava há poucas horas em solo inglês quando começou a receber as primeiras corujas trazendo cartas repletas de bajulações e falsas ofertas de amizade. Era óbvio que todos queriam estar próximos da jovem atordoada que, sem o apoio dos pais, poderia não saber como gastar a fortuna que herdara.

Ao invés de mandar uma carta recheada de adulações e falsidades, o Sr. Lestrange decidiu resolver aquele problema pessoalmente. Tão logo soube que Olivia Russel já estava no Reino Unido, Gaspard Lestrange bateu à porta da nova mansão e foi atendido por Meredith.

Feitas as apresentações, o homem foi levado à sala e um dos elfos lhe serviu um copo de um refinado hidromel enquanto o Sr. Lestrange aguardava pela dona da casa.

No segundo andar, Meredith informou a jovem patroa sobre a presença do homem e ousou acrescentar, em entonação mais baixa.

- Ele provavelmente veio saber se a senhorita vai honrar o acordo feito por seu pai. Já sabe o que vai fazer com relação a isto, Srta. Russel?
avatar
Connor Ward

Mensagens : 108
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Severus Snape em Seg Dez 21, 2015 12:38 am

Lucius Malfoy observava atentamente cada movimento da jovem com um olhar intrigado. O seu precioso tempo poderia ter sido poupado se ela tivesse simplesmente sacado a varinha e terminado com as atividades banais para atendê-lo.

Por mais de uma vez, ele pensou em virar as costas e ir embora. Era ultrajante precisar esperar tanto para um simples atendimento. Se tivesse opção, teria seguido o caminho da Travessa do Tranco para comprar todos os ingredientes que precisava, mas conhecia a Von Hants há anos e sabia que apenas ali encontraria tudo de uma vez.

Exatamente por conhecer o estabelecimento, Malfoy franziu a testa quando o rosto da balconista foi revelado. Mesmo nos tempos de Hogwarts, era ali que ele e muitos colegas compravam os ingredientes que vinham listados na carta da escola. Mas era a primeira vez que via uma jovem atendente por trás do balcão, ocupando o lugar do velho Terry.

Quando a morena finalmente parou lhe dirigindo toda a atenção, uma sobrancelha loira foi erguida e Lucius se aproximou do balcão, deixando que os olhos azuis passeassem pelas prateleiras atrás dela.

- Preciso de uma balança de latão, duas dúzias de ovos de fadas e um punhado de sanguessugas.

Não havia bom dia, ou sorrisos simpáticos. Sua voz era rouca, mas saía pausada e com perfeita dicção. O nariz era reto, mas estava sempre erguido, olhando a quem quer que fosse com superioridade. Era notável por suas vestes que vinha de uma família rica. Sua capa negra o protegia do frio e os sapatos estavam molhados pela neve derretida das calçadas.

Lucius tinha traços bonitos e poderia ser considerado um excelente partido, sempre atraindo olhares das moças que cruzavam seu caminho. Mas bastasse olhar por uma segunda vez para notar a arrogância em sua expressão.

Era exatamente com esta soberba que os olhos azuis pousaram na atendente. Por poucos segundos, Malfoy a analisou da cabeça aos pés, sem se preocupar se estava sendo indiscreto. Intimamente, ele julgava se seria confiável fazer o pedido seguinte, exatamente a razão que o levara a deixar o conforto de sua cama tão cedo.

Se fosse o velho Terry a sua frente, Lucius já teria o vidrinho desejado em suas mãos. O dono da loja era discreto em suas vendas ilegais, mas o nobre bruxo não sabia até que ponto sua empregada participava daquela parte dos negócios.

Por fim, decidido de que não voltaria para casa com a viagem perdida, ele encostou as mãos na borda do balcão, a única coisa que o separava da jovem. Sem as luvas, era possível notar a palidez em sua pele, mas as unhas limpas e em um formato impecável para um homem, com os dedos longos pressionando o canto da madeira.

- E um vidro de Veritaserum.

Malfoy procurou qualquer reação no rosto da moça a sua frente, atento para qualquer alteração. Era proibida a comercialização do Soro da Verdade, mas ele nunca havia tido problemas em conseguir na Von Hants Potions.
avatar
Severus Snape

Mensagens : 87
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Alexia Romanoff em Seg Dez 21, 2015 1:09 am

- Eu não estaria na Inglaterra se não soubesse, Meredith.

Olivia se limitou a responder enquanto passava pela governanta de encontro ao visitante. Quando ela alcançou a sala, logo encontrou a figura do homem bem vestido que analisava os quadros com o copinho de hidromel em seus dedos. Foi preciso pigarrear para que sua chegada fosse notada.

Gaspard se virou imediatamente e seu rosto logo se abriu em um sorriso quando os olhos se fixaram na ruiva. O copinho foi deixado em uma das mesinhas e ele logo se aproximou da dona da casa, ajeitando o próprio terno.

- Olivia? Como você cresceu! Está cada dia mais parecida com a sua mãe!

A ruiva permaneceu parada, sem esboçar qualquer reação. A sombra que passou diante de seus olhos com a menção de sua semelhança com Octavia foi quase imperceptível. Apesar do semblante sério, sua voz soou polida enquanto ela indicava um dos sofás ao homem.

- Seja bem-vindo, Sr. Lestrange. No que posso ajudar?

Enquanto Gaspard se acomodava em um sofá, Olivia caminhou até uma poltrona próxima, se sentando de forma elegante. As pernas estavam levemente inclinadas para o lado, unidas, e a coluna reta. Uma mão foi pousada no braço da poltrona e a outra sobre os próprios joelhos cobertos pelo vestido negro de veludo.

- Eu precisava me certificar pessoalmente de que você está bem, de que não precisa de nada. Viver em um país estranho, completamente sozinha, depois de tudo que aconteceu...

A cada palavra, a jovem Russel continuava encarando o homem sem demonstrar qualquer sentimento. Ela estava acostumada com adulações, até mesmo dos mais ricos e nobres. Por mais nova que fosse, sabia perfeitamente reconhecer o interesse por trás das palavras de carinho e preocupação.

- Acabei de perder os meus pais, Sr. Lestrange. Como esperaria que eu estivesse?

Normalmente, Olivia tentava manter o nível de falsidade naquelas conversas, mas sentia que era um insulto a sua inteligência que Gaspard realmente esperasse enganá-la com palavras vazias.

- Sim, sim, é lógico. Me perdoe. Por falar nisso, recebeu as minhas flores de condolências?

Nos primeiros dias após a morte dos seus pais, a mansão havia se enchido com flores de diversas partes do mundo. O cheiro ainda estava impregnado na mente da jovem órfã, que imediatamente associava aquele perfume com o momento mais doloroso de sua vida.

- Sim, recebi.

Um silêncio se instalou nos segundos seguintes enquanto Olivia encarava o homem sem piscar. Gaspard se remexeu desconfortável em seu lugar e pigarreou antes de retomar a palavra.

- Eu sei que não há momento ideal para tocar neste assunto, Olivia. Mas preciso saber sua posição em relação ao acordo que tinha com seu pai. Dimitri e eu sempre fomos grandes amigos e era um sonho ver nossas famílias unidas.

Ela sabia que aquilo estava longe de ser um sonho idealizado apenas por fins afetivos. Para os Lestrange, era inquestionável o quanto ganhariam com o casamento arranjado, mas Dimitri também pensara nas conquistas que teria na Inglaterra, expandindo seus negócios se tivesse o apoio dos Lestrange.

A jovem Russel tinha todo o ouro que precisava para jamais pensar em trabalhar ou precisar de um marido. Ela poderia dar as costas a tudo aquilo, se recusar a aceitar um casamento sem amor. Mas respeitava demais a memória de seu falecido pai para descumprir um de seus acordos.

- O acordo segue exatamente como planejado, Sr. Lestrange.

Foi notável como os ombros de Gaspard relaxaram com as palavras da ruiva.

- Vou oferecer um jantar para as principais famílias bruxas da Inglaterra no meu aniversário e iremos oficializar o noivado, exatamente como o senhor e o meu pai planejaram.

- Não preciso dizer o quanto fico feliz em ouvir isso, Olivia. – Gaspard se inclinou para frente e tocou o braço da menina, apoiado na poltrona. – E por favor, não hesite em nos procurar para o que precisar. Somos sua família agora.
avatar
Alexia Romanoff

Mensagens : 89
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Danika Lehmann em Seg Dez 21, 2015 1:11 am

- Balança, ovos de fadas, sanguessugas...

Barbara repetiu enquanto registrava os pedidos de Malfoy com uma caligrafia bonita em sua caderneta. É claro que ela poderia memorizar aqueles itens, mas preferia anotar para refazer a lista de estoque no final do dia. Desde que Robinson começara a trabalhar para Von Hants, a loja jamais sofrera falta de nenhum ingrediente exatamente porque a garota tinha total controle do que entrava e saía do estabelecimento.

A balconista não precisou olhar duas vezes para Malfoy para ter certeza de que se tratava de um bruxo de sangue puro. As vestes do rapaz eram nitidamente caras, mas era o comportamento de Lucius que o denunciava. A arrogância parecia fazer parte de cada célula do rapaz e ele a encarava como se Barbara fosse um pequeno inseto desprezível.

A grande verdade é que Robinson estava tão acostumada com aquele tipo de tratamento que nem pensou em se ofender. Ela era um aborto e não esperava nada muito além disso.

Os olhos verdes só se ergueram novamente para a figura de Malfoy quando o rapaz se arriscou a fazer aquele último pedido.

Embora nunca tivesse pisado em Hogwarts e nem soubesse como era uma aula de Poções, Barbara sabia perfeitamente bem o que era a Veritaserum. E ela sabia também que seu uso só era permitido em situações especiais, principalmente em julgamentos de bruxos perigosos. A venda para civis era considerada ilegal, mas Terry Von Hants não era o tipo de homem que media riscos quando havia um bom lucro na jogada. Por isso, o soro da verdade – e outras poções igualmente restritas – eram vendidos na Von Hants Potions de forma clandestina. Cada gota saía por uma pequena fortuna.

Geralmente, aquele tipo de negócio ilegal era tratado diretamente com Terry. Mas o dono do estabelecimento só costumava aparecer no fim da tarde. E, definitivamente, aquele cliente não aceitaria bem a ideia se Barbara pedisse a ele que voltasse em outro momento.

- Eu não demoro.

A jovem pousou mais um olhar demorado em Lucius antes de dar as costas ao balcão. Usando uma pequena escada, Barbara alcançou a prateleira mais alta de uma das estantes e pegou a balança. Qualquer bruxo teria feito o item levitar até o balcão, mas a moça precisou retornar para colocar o objeto diante de Lucius.

De volta às prateleiras, Barbara colocou luvas para selecionar as sanguessugas e os ovos de fadas solicitados pelo rapaz. Os itens foram cuidadosamente embalados e colocados ao lado da balança.

Robinson já esperava por uma péssima reação quando pousou os olhos esverdeados no rosto do bruxo a sua frente enquanto explicava porque o valioso vidrinho de Veritaserum não estava junto com os demais pedidos feitos por ele.

- As poções prontas ficam no armário pessoal do Sr. Von Hants. Hoje ele só chega à tarde. Se o senhor quiser, basta deixar o seu nome que eu peço ao Sr. Von Hants que deixe o vidro separado. O senhor pode buscar mais tarde, ou amanhã cedo.
avatar
Danika Lehmann

Mensagens : 109
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Connor Ward em Seg Dez 21, 2015 1:32 am

A figura do Sr. Lestrange não era exatamente estimuladora para uma jovem na posição de Olivia. Ela não sabia como era a aparência do seu futuro marido e a imagem do pai de Rodolphus estava longe de despertar ideias otimistas na jovem.

Gaspard era um homem inegavelmente elegante, vestia roupas refinadas, exibia uma pele e cabelos bem tratados. Contudo, os elogios a sua aparência acabavam aí. O Sr. Lestrange era um homem mais baixo que a média e tinha uma barriguinha bastante avantajada. Os cabelos estavam numa fase de transição entre um castanho desbotado e o grisalho. Seus olhos eram miúdos demais para o tamanho avantajado do nariz. Quando ele sorria, uma carreira de dentes amarelados e tortos era exposta.

Se o filho fosse minimamente parecido com o pai, a herdeira dos Russel não teria muito o que admirar em seu noivo.

- Eu acho excelente a ideia do noivado coincidindo com a sua festa de aniversário. Serão dois eventos memoráveis! Mas eu realmente acho que devemos promover um encontro um pouco menos formal antes da festa...

O sorriso amarelado do Sr. Lestrange se alargou e ele levou uma das mãos ao rosto, ajeitando o cavanhaque enquanto falava.

- Você e Rodolphus eram crianças quando se viram. Seria muito impessoal um reencontro diante de uma plateia, no meio da festa de noivado.

Gaspard realmente acreditava que o que tornaria a situação “impessoal” seria aquele reencontro e não o fato dos dois jovens serem obrigados a trocar alianças sem saberem nada um sobre o outro.

- Por que não janta conosco amanhã, querida? Ruth ficará exultante se eu disser que você aceitou o convite. Imagino que esteja cansada da mudança, mas será apenas um jantar mais informal para que você já se sinta parte da nossa família.

Como se Olivia fosse uma jovem tola e apaixonada, Gaspard completou com a certeza de que aquilo poderia influenciar positivamente na decisão dela.

- Rodolphus está ansiosíssimo para te rever. – a mentira saiu naturalmente pelos lábios de Lestrange – Ele era muito pequeno, mas a sua imagem ficou gravada na cabeça dele, sabia? Aposto que nem mesmo nos sonhos mais otimistas do meu filho você chegaria a Londres tão bonita, querida! Será uma agradável surpresa para o meu Dolphus.
avatar
Connor Ward

Mensagens : 108
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Severus Snape em Seg Dez 21, 2015 1:35 am

Enquanto Barbara andava de um lado ao outro catando os ingredientes, Lucius se sentiu impaciente mais uma vez. O dono da loja normalmente sacudia a varinha e o pedido começava a se montar sozinho enquanto ele registrava os gastos a serem cobrados. A atendente levava tempo demais executando tudo manualmente, o que logo despertou sua atenção.

Quando ela subiu na escada, Malfoy a olhou de corpo inteiro mais uma vez. Seu olhar se fixou nos bolsos e no avental dela, onde normalmente bruxos guardavam a varinha, mas não havia nada. Parecia impossível que Terry deixasse sua loja nas mãos de um aborto, mas nenhum bruxo em sã consciência andaria sem a própria varinha.

Inconscientemente, Lucius torceu o nariz como se o ar tivesse ficado repentinamente fétido. Ele prendeu a respiração, receoso que pudesse aspirar alguma doença por estar tão perto de alguém sem um pingo de magia em suas veias.

Os ingredientes foram finalmente espalhados sobre o balcão, e no momento em que se deu conta da ausência da poção desejada, Barbara explicou. Os olhos azuis se estreitaram e ele a encarou ameaçadoramente.

Era ultrajante dizer que Lucius Malfoy não conseguiria o que queria, que havia deixado sua casa com uma simples tarefa e voltaria de mãos vazias. Ele definitivamente não estava acostumado a receber não como resposta, principalmente vindo de uma aberração.

- Eu não vou voltar mais tarde. Você ao menos sabe com quem está falando???

Ouvir que ele precisava deixar o nome havia atingido seu ego diretamente. Não havia ninguém importante no mundo mágico que não conhecesse os Malfoy. Ter que se apresentar para alguém tão insignificante era o cúmulo.

- O Sr. Von Hants sabe quem eu sou. Ele sabe que quando preciso de alguma coisa, não pode ser mais tarde. Então volte lá para dentro e pegue o meu vidro de Veritaserum.

A capa foi movida para o lado, revelando a varinha negra presa em suas vestes. Lucius não costumava usar a força para conseguir o que queria, ele apenas apelava para duelos quando era extremamente necessário ou durante missões. Mas sua irritabilidade só aumentava.

- Se você presa pelo seu empreguinho medíocre e pretende continuar colocando comida na sua mesa, vai pegar a minha poção agora. Tenho certeza que o Sr. Von Hants vai entender. O que ele não vai aceitar é perder um cliente de tantos anos por ter uma empregada tão incompetente.

Ao invés de puxar a varinha, Lucius retirou do bolso de sua capa uma sacolinha de veludo verde, colocando-a sobre o balcão. Pelo barulho que ecoou, seu conteúdo estava recheado de moedas de ouro.

- E ele definitivamente não vai aceitar deixar de receber minha pequena fortuna por causa da sua insolência. – Um sorriso torto cortou seus lábios. – Se for rápida o bastante, deixo uma gorjeta gorda o suficiente para você aguentar até o final do mês.
avatar
Severus Snape

Mensagens : 87
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Danika Lehmann em Seg Dez 21, 2015 1:55 am

Quando Malfoy explodiu, a balconista apenas deu um passo para trás e cruzou os braços enquanto era bombardeada por uma série de ofensas injustas. Lucius não era o primeiro bruxo de sangue-puro que se zangava por ser atendido por um aborto ou por ouvir não de uma “aberração” como ela.

Embora já estivesse habituada a ouvir tais disparates, Barbara se recusava a absorver aquelas ofensas. Na maioria das vezes, a garota simplesmente abaixava a cabeça para evitar uma discussão e se esforçava para pensar que a magia não fazia pessoas lamentáveis como o rapaz a sua frente serem melhores do que ela.

Mas não havia como ignorar a postura ameaçadora do bruxo. Lucius parecia bem disposto a levar aquela discussão às últimas consequências.

- Não acho que o Sr. Von Hants perderia um cliente por causa disso. – a insolência de Barbara chegava a ser perigosa, mas era a sua única arma naquele momento – É uma questão bem simples. Não existe outro estabelecimento de confiança que venda “alguns” itens disponibilizados pelo Sr. Von Hants. Se o senhor não comprar daqui, não comprará em lugar algum.

Robinson se manteve afastada do balcão e com os braços cruzados, mas seus olhos fitaram a sacolinha verde com um nítido interesse.

Se ela fosse tão honesta, não aceitaria trabalhar numa loja que comercializava poções clandestinas. Barbara tinha os seus conceitos, mas também sabia a importância do dinheiro, ainda mais para alguém como ela, que não possuía coisa alguma.

- As ordens do Sr. Von Hants são claras. Determinadas poções, incluindo a que o senhor tanto deseja, ficam no armário pessoal dele, no qual eu não estou autorizada a mexer.

Os olhos verdes se ergueram para o rosto de Lucius e, apesar da aparência delicada e juvenil, Barbara não parecia tão inocente quando completou.

- Estas moedas pagam pela poção. – a moça indicou o saquinho cheio de moedas de ouro – Mas não pelo meu serviço. Se o senhor realmente quer que eu desobedeça a uma ordem clara do meu patrão, terá que me recompensar melhor. Com um pagamento adiantado, é claro.

Intimamente, Barbara sabia que era uma burrice comprar aquela briga com um bruxo. Se Malfoy sacasse a varinha, ela não teria a menor chance de sair inteira daquela loja. O único trunfo da balconista era a certeza de que homens como Lucius davam um imenso valor à discrição e às aparências.

Um escândalo e a suspeita de ter agredido um aborto geraria uma investigação contra Lucius no Ministério da Magia. E a última coisa que Malfoy desejaria naquele contexto de guerra era um auror seguindo seus rastros.


Última edição por Barbara Robinson em Seg Dez 21, 2015 1:57 am, editado 1 vez(es)
avatar
Danika Lehmann

Mensagens : 109
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Alexia Romanoff em Seg Dez 21, 2015 1:57 am

Era de se esperar que a jovem estivesse curiosa com a aparência ou a personalidade de seu futuro marido. Mas para Olivia, aquela era apenas uma árdua tarefa que precisava ser concluída.

Sua vontade era recusar o convite do jantar, mas não havia desculpa a ser dada, de modo que no dia seguinte, a jovem Russel estava usando um de seus vestidos negros diante da mansão dos Lestrange. Pela primeira vez, ela se perguntou como Rodolphus deveria ser.

Ela era pequena demais quando eles se encontraram pela primeira e última vez, e não guardava lembrança alguma daquele que viveria ao seu lado para sempre. Intimamente, Olivia havia criado a figura de um homem em sua mente para associar ao nome de Rodolphus. Mas esta figura não tinha rosto ou formato totalmente definido.

Em sua mente, Rodolphus apenas representava tudo que ela queria evitar. Por mais que amasse o pai, havia presenciado todos os dias as dificuldades do casamento dos Russel.

Assim como ela, Octavia havia se casado nova demais com Dimitri, em um casamento negociado entre as famílias. Por mais que amasse a filha, o homem não direcionava o mesmo amor e carinho para a esposa.

A falta de afeto e a frieza do marido levaram Octavia a se envolver com outro homem e ela estava disposta a fugir de casa quando descobriu a gravidez surpresa. O Sr. Russel tinha todos os motivos para expulsá-la, mas não seria apenas o nome da esposa que seria usado durante as fofocas. Sua família estaria manchada para sempre, tanto pela traição da mulher quanto da sua incapacidade de ter filhos.

Mais uma vez, pensando nos negócios e no peso de seu sobrenome, Dimitri aceitou Octavia com aquela criança bastarda e com o tempo aprendeu a amar a filha que adotou para si. Com a mulher, seu comportamento só piorou ao longo dos anos. Os dois se mantinham como a família perfeita diante de qualquer um, mas Olivia vivia sob o mesmo teto e sabia o quanto a mãe sofria naquela vida vazia.

Quando pensava no futuro marido, era a tristeza da mãe que Olivia via refletido em seus olhos. Ela estava fadada ao mesmo destino de viver sem amor, presa em um casamento de aparências.

Por pior que fosse o comportamento de Dimitri com a esposa, Olivia sempre foi incapaz de odiá-lo ou culpa-lo. Apesar de tudo, os dois se amavam como verdadeiros pai e filha. Porém, havia sobrado para Rodolphus aquela frustração.

Não era preciso conhece-lo, quando intimamente ela culpava o homem que estaria ao seu lado como se ele fosse o responsável pela tristeza de Octavia e em breve a sua própria.

Quando o elfo doméstico surgiu, Olivia retirou o seu casaco e esfregou as mãos, já sem luvas. Logo a imagem de Gaspard surgiu na saleta de entrada da mansão, e atrás dele, a imagem da mulher magra e de cabelos negros que provavelmente seria Ruth.

- Você realmente não exagerou quando disse o quanto ela está bela, Gaspard.

Russel logo reconheceu o sorriso falso nos lábios da Sra. Lestrange quando ela se aproximou, a abraçando brevemente.

- Espero não ter chegado cedo demais. – Olivia puxou alguns fios ruivos que haviam grudado em seus lábios com o vento gelado de fora da mansão.

- Não seja boba, minha querida. Você chegou na hora exata.
avatar
Alexia Romanoff

Mensagens : 89
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Severus Snape em Seg Dez 21, 2015 2:29 am

Seus dedos chegaram a apertar a borda da varinha quando a atendente lhe respondeu com tanta petulância. Era muita coragem ou muita tolice que ela tivesse tamanha ousadia em falar com um bruxo daquela forma, especialmente um Malfoy.

Mais do que pelo fato de ficar sem a poção, Lucius estava disposto a fazê-la pagar pelas suas palavras quando o discurso da morena mudou. Uma sobrancelha loira foi erguida e a varinha foi recolocada em seu lugar até finalmente ser deixada de lado.

Se havia algo que os Malfoy pregavam além da importância de um sangue-puro, era que todo mundo tinha o seu preço. E pela aparência do aborto a sua frente, era um preço perfeitamente acessível a ser pago com a fortuna de sua família.

Ele poderia terminar aquela conversa sem dar um único tostão para a insolente balconista, mas a necessidade da poção era maior e não poderia esperar simplesmente por questão de orgulho.

- É claro...

Lucius repetiu as últimas palavras dela, alargando seu sorriso torto. A mão que antes tocava a varinha vasculhou o bolsinho interno de seu casaco. Quando a palma da mão foi novamente estendida, as moedas de ouro refletiram diante dos olhos verdes de Barbara.

O valor era quase insignificante para um Malfoy, mas ainda assim era uma pequena fortuna para pessoas normais. Como se não significassem nada, as moedas foram jogadas sobre o balcão, algumas rodando para longe com um ruído pesado. Foi pelo barulho que ele percebeu que uma havia caído no chão, fazendo seu sorriso frio se alargar ainda mais ao imaginar a morena precisando catar todo o dinheiro.

- Imagino que seja o suficiente? – Ele perguntou, levando uma das mãos até os cabelos loiros, colocando alguns fios maiores atrás da orelha. – Agora, se você não se importa, eu realmente não tenho o dia inteiro para ficar conversando com um aborto da natureza.

Lucius enfiou as duas mãos nos bolsos e encarou Barbara de cima. Sempre autoritário e com as expressões frias, ele ainda continuava atraente, como se tivesse o mundo inteiro na palma da mão.

- A minha poção? – Ele repetiu, as sobrancelhas erguidas para enfatizar sua impaciência.

- Lucius?

O rapaz se virou para encarar a jovem que havia acabado de entrar na loja, permitindo que um vento gelado entrasse pela porta aberta.

Narcisa Black era o oposto da balconista. Desde sua aparência, com os cabelos loiros e os olhos cinzentos, até as vestes extremamente caras. Em sua mão direita, a menina exibia um grande anel de diamantes. Ela partilhava da mesma arrogância do rapaz quando se aproximou, ignorando completamente a presença de Barbara.

- Cissy? O que está fazendo aqui?

- Eu estava acompanhando a Bella, vi você pela vidraça.

A loira finalmente pareceu perceber a presença de Barbara e olhou por cima do ombro de Lucius para encará-la de cima a baixo. Mais esperta que o rapaz, seus olhos cinzentos logo se fixaram na cintura da balconista, percebendo a ausência da varinha.

- Bella me disse que o Sr. Von Hants havia contratado um aborto, mas eu realmente não acreditei. – Ela torceu o nariz em uma careta de nojo e continuou falando como se a falta de magia também tornasse a jovem surda. - Como essas criaturas conseguem sobreviver?

Malfoy soltou um suspiro e olhou para trás, encontrando o rosto de Barbara mais uma vez. Por mais que concordasse com a opinião da loira, era desagradável ter Narcisa por perto quando estava resolvendo assuntos importantes como aquele. Ele sabia que Cissy fazia questão de se manter afastada de qualquer coisa relacionada aos Comensais da Morte, o que era um imenso alívio para Lucius.

Para ele, a noiva deveria se manter em casa, apenas se certificando de que tudo estaria perfeito quando ele retornasse.

- Já estou terminando aqui, Cissy. Se quiser, me espere no Caldeirão Furado e podemos tomar um chá, sim?

As íris cinzentas rolaram de insatisfação diante do comentário.

- Como se algum dia eu fosse pisar naquele lugar imundo, Lucius. O Beco Diagonal está cada vez mais mal frequentado.

Mais uma vez, ela lançou um olhar de nojo para a atendente, mas logo fungou, se ajeitando para sair.

- Apenas se certifique de levar uma poção desinfetante para não levar germes de um aborto para perto de mim, está bem?

Lucius observou os cabelos loiros balançarem enquanto Narcisa deixava a loja e, no momento em que a porta se fechou, ele voltou a atenção para Barbara. Os olhos passearam pelo balcão e ele constatou com insatisfação que ainda não tinha o Soro da Verdade.

- O que mais está esperando? Além de abortada, é idiota também?
avatar
Severus Snape

Mensagens : 87
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Connor Ward em Seg Dez 21, 2015 2:36 am

A Mansão Lestrange era quase uma réplica da nova casa de Olivia na Inglaterra. Os cômodos eram grandes, os móveis novos e não havia economia na decoração. Um lustre suntuoso, repleto de pedrinhas parecidas com diamantes, iluminava a vasta sala para onde a ruiva foi levada. Mas, ainda assim, o cômodo parecia escuro e impessoal.

As paredes estavam abarrotadas de quadros contendo imagens dos velhos antepassados da família. Era notável que Gaspard havia herdado seus traços dos velhos parentes, ao passo que a família de Ruth era ligeiramente menos medonha. Ainda assim, não havia nem mesmo uma figura bonita o bastante para mudar a visão de Russel sobre aquela família.

O entusiasmo do casal Lestrange estava refletido em cada gesto de Gaspard e Ruth. Era notável que eles olhavam para Olivia e enxergavam uma mina de ouro. Os Lestrange já eram absurdamente ricos e possuíam um dos maiores cofres do Gringotts. Mas dinheiro nunca era demais na visão de Gaspard. E a influência do sobrenome Russel fora da Inglaterra poderia lhe abrir muitas portas.

- O jantar será servido em breve. – Ruth fez um gesto para que a convidada se acomodasse em um dos confortáveis sofás – Podemos aproveitar para conversarmos enquanto esperamos.

A Sra. Lestrange se sentou diante da futura nora e cruzou as pernas num gesto elegante. Só então, a mulher se deu conta de que não conhecia Olivia e, portanto, não tinha nenhum assunto em comum com a moça. Um sorriso nervoso surgiu nos lábios de Ruth e ela repetiu o que Olivia já deveria estar farta de ouvir.

- Você se parece tanto com a sua mãe, querida. – o semblante de Ruth se tornou forçadamente pesaroso – Eu lamento muito pelo ocorrido. Saiba que pode contar sempre conosco. Afinal, somos uma família agora.

A conversa das duas mulheres foi interrompida por passos pesados adentrando a sala. Ao se virar, Olivia daria de cara com a versão mais jovem do Sr. Lestrange. O rapaz era uma cópia do pai, a única diferença marcante era o fato de ser consideravelmente mais alto que Gaspard. Mas os olhos miúdos eram os mesmos, assim como o nariz avantajado e os cabelos castanhos opacos. A barriga era tão roliça que estufava os últimos botões da camisa e, definitivamente, aquele tom pastel do tecido não caía bem nele.

- Querido, venha conhecer a Olivia.

Ruth se colocou de pé e sorriu, fazendo um gesto para o filho. O rapaz encarou a ruiva com um nítido interesse e abriu um sorriso quase tão amarelo quanto o do pai. A mão dele estava suada quando os dois jovens se cumprimentaram com um aperto de mãos.

- Muito prazer, Srta. Russel.

- Ora, você pode chamá-la de Olivia, querido! – Ruth soltou um risinho estridente – Logo ela será sua cunhada e não fará sentido chamá-la de Sra. Lestrange, não é?

Ao notar o olhar perdido e meio assustado da ruiva, Ruth repetiu aquele risinho agudo e sacudiu a cabeça em negativa.

- Não! Não, não, querida! Este é Rabastan, meu caçula! Rodolphus teve um imprevisto nos negócios e saiu no fim da tarde. Mas ele já deve estar chegando!

Apenas um ano separava o nascimento dos dois irmãos Lestrange. Portanto, não era de se esperar que os dois fossem muito diferentes. E a figura de Rabastan só tornava a situação ainda mais desesperadora. Definitivamente, não havia de onde surgir beleza naquela família.

Um elfo minúsculo passou pela sala equilibrando acima da cabeça uma bandeja com taças de bebida. Uma segunda criatura logo surgiu com deliciosos bolinhos de cenoura, mas Olivia não conseguiria provar a iguaria se não fosse rápida. Gaspard e Rabastan pareciam envolvidos numa disputa pessoal de quem comia mais e mais rápido.

Ruth discursava demoradamente sobre suas ideias para a festa de noivado quando a porta se abriu. De costas para a entrada, Olivia escutaria os passos se aproximando lentamente da sala até que a Sra. Lestrange exclamou.

- Rodolphus, quanta demora! A Olivia estava te esperando!

Contrariando todas as expectativas, a ruiva não veria uma cópia de Rabastan quando se virasse. Rodolphus Lestrange era tão alto quanto o caçula, mas não havia nem mesmo a sombra de uma barriga por baixo do refinado paletó. Ao contrário, o primogênito dos Lestrange tinha um corpo muito bem cuidado. Seus cabelos eram mais escuros e ondulado, perfeitamente penteado. Os olhos também eram escuros, mas tinham um formato amendoado. O nariz era simétrico, os lábios bem desenhados. E o sorriso exibia dentes brancos e alinhados.

O único pequeno defeito na aparência de Rodolphus era a barba por fazer. Mas até mesmo este detalhe parecia contribuir positivamente, dando-lhe um ar mais maduro.

- Que Olivia?

- Olivia Russel! – Gaspard quase se engasgou com a bebida. – Sua noiva!

- Ah, sim. – os olhos escuros se voltaram para a ruiva com mais curiosidade do que propriamente interesse – Quanto tempo, han?

Rodolphus tinha uma voz gostosa, ligeiramente rouca e arrastada. Havia um ligeiro sotaque afrancesado na maneira como ele pronunciava algumas sílabas. O restante da família não parecia ter o mesmo sotaque do rapaz, mas bastava olhar ao redor para se ter a certeza de que Rodolphus não parecia em nada com os demais Lestrange.
avatar
Connor Ward

Mensagens : 108
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Danika Lehmann em Seg Dez 21, 2015 3:23 pm

O orgulho não era um dos defeitos de Barbara Robinson. Por isso, a morena não viu problema algum em se abaixar para catar as moedas que rolaram para fora do balcão. É claro que Malfoy tivera a intenção de humilhá-la com aquele gesto, mas para Barbara não fazia diferença. Ela estava habituada a receber aquele tipo de tratamento e não pretendia recusar aquela gorjeta que era quase o valor de seu salário mensal na Von Hants Potions.

Quando se colocou de pé novamente, com as moedas bem guardadas no bolso do avental, Barbara deu de cara com Narcissa Black. Pela primeira vez naquela manhã, a balconista se sentiu mal com a própria aparência. A beleza e a elegância de Narcissa transformavam Robinson num inseto insignificante e asqueroso. E foi exatamente este o pensamento da loira ao encará-la.

Cissy era uma moça extremamente bonita, mas parecia ter nascido com o nariz franzido em uma careta de nojo. Era como se a loira vivesse constantemente com um balde de excrementos de hipogrifo pendurado em seu pescoço.

Um pequeno sorriso de divertimento surgiu nos lábios torneados de Barbara quando sua mente fantasiou a imagem de um balde lotado de estrume bem abaixo do nariz de Narcissa. Mas ela foi bruscamente trazida de volta à realidade quando Malfoy ficou novamente sozinho e dirigiu aquelas ofensas ásperas à balconista.

O semblante de Barbara se tornou mais sério, mas ela preferiu não prolongar a discussão. Já havia sido uma loucura exigir dinheiro de Lucius e agora, com as moedas no bolso, a jovem preferia não se arriscar mais.

- Eu já vou pegar, senhor.

O armário particular de Terry Von Hants ficava na salinha anexa à loja, usada para o preparo das poções. Barbara abriu uma das portas e deslizou os dedos suavemente pelos frascos até encontrar o pequenino vidro que guardava a poderosa Veritaserum. Não havia necessidade de comercializar o soro da verdade em grandes recipientes, visto que seu efeito era forte com o uso de apenas uma gota.

Em menos de um minuto, o frasco foi posto sobre o balcão, do lado dos demais ingredientes solicitados por Malfoy. Antes que pudesse falar qualquer coisa com o cliente, os olhos esverdeados da garota notaram um brilho dourado no canto do balcão, sob o seu bloquinho de anotações. Uma das moedas lançadas por Lucius havia se escondido ali.

Tudo aconteceu muito rápido, mas um bom observador notaria que as folhas do bloco se moveram suavemente quando Barbara estendeu a mão na direção da moeda, como se tivessem sido atingidas por uma corrente de vento. A moeda também tremeu, mas foi agarrada pelos dedos pequenos da menina antes que pudesse se movimentar mais.

A definição de aborto da natureza exigia uma ausência completa de magia. Mas, ao que tudo indicava, a balconista da Von Hants Potions não era tão “bem abortada” quanto deveria ser.
avatar
Danika Lehmann

Mensagens : 109
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Alexia Romanoff em Ter Dez 22, 2015 1:53 am

Foi quase imperceptível quando os lábios de Olivia se entreabriram quando Rabastan foi apresentado. Por mais que não tivesse expectativas sobre o noivo, ela se assustou com a imagem do homem a sua frente, quase se arrependendo de ter ido adiante com aquele acordo.

Quando a confusão foi esclarecida, a ruiva deu um generoso gole na taça em sua mão, como se a bebida fosse capaz de fazê-la relaxar após aquele pequeno ataque de pânico. O duelo pela comida entre pai e filho foi completamente ignorado pela jovem, que sem apetite, tinha o pensamento longe.

Se fosse uma moça normal, ela estaria no mínimo achando surreal que só agora estivesse conhecendo o seu futuro marido. Mas para as famílias tradicionais, aqueles acordos eram tão naturais que a ideia de se casar sem amor fazia parte do seu dia-a-dia e não havia nenhuma possibilidade de ocorrer diferente.

Apesar de estar perfeitamente conformada com o seu destino, Olivia começava a sentir seus músculos ficarem tensos e o estômago dar voltas quando sua mente resolveu produzir toda a curiosidade ignorada ao longo dos anos.

No momento em que Rodolphus entrou na sala, a boca da jovem órfã voltou a se abrir em surpresa, mas o motivo era oposto ao de Rabastan. Não havia um único traço que pudesse ligar o homem alto a sua frente com os demais integrantes daquela família.

Dimitri certamente não sabia o tipo de homem que havia escolhido para sua filha, já que o acordo havia sido selado quando os dois ainda eram crianças, mas o pai ficaria orgulhoso em saber que ele era a imagem perfeita para representar suas empresas e o casamento ideal. Rodolphus se encaixava da melhor forma possível na ilusão que deveriam representar para o resto da sociedade.

Olivia depositou a taça quase vazia na mesinha ao seu lado e viro seu rosto para admirá-lo da cabeça aos pés, em silêncio. Ela já havia recuperado a máscara imparcial e sequer tentou esboçar um sorriso.

Passada a surpresa da diferença gritante do primogênito com o restante da família, Rodolphus voltava a ser tudo que ela odiava. Ele era exatamente o que Dimitri um dia foi, e como era incapaz de odiar o pai, aquele sentimento era completamente voltado ao próprio noivo.

- Você está atrasado.

A voz de Olivia saiu baixa e pausada, mas ela não desviou o olhar do rapaz a sua frente. Pôde sentir Ruth Lestrange tensa atrás de si e Gaspard engasgar mais uma vez. Rabastan soltou uma risada nasalada que ele sequer tentou disfarçar, o que arrancou um olhar severo da mãe.

- Dolphus está sempre trabalhando, Olivia. É extremamente dedicado aos negócios... – A mulher se aproximou do filho mais velho e o tocou no ombro, empurrando-o discretamente para o lugar mais próximo ao da ruiva. – Muitas vezes perdeu a hora do jantar para resolver problemas urgentes, não é, querido?

- Mas não se preocupe, Liv querida, depois do casamento, tenho certeza que Rodolphus não chegará tarde em casa. Sem prejudicar os negócios, é claro.

Os olhos cor de mel passaram de Ruth para Gaspard antes de se voltar para o seu futuro marido, analisando-o por um momento.

- É claro. – Ela repetiu as últimas palavras de Gaspard, sem piscar.

Se inclinando para frente, Olivia recuperou a taça largada, mas não voltou a beber o espumante.

- Conseguiu resolver todos os problemas? Seria realmente muito desagradável trabalhar até tarde e ainda não chegar ao objetivo.

Antes que o filho tivesse chance de responder, Ruth soltou uma risadinha aguda, interrompendo a conversa.

- Olivia, minha querida, vocês dois têm tanta coisa para conversar! Imagino que falar sobre trabalho seja a última coisa da lista, não é mesmo?
avatar
Alexia Romanoff

Mensagens : 89
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Severus Snape em Ter Dez 22, 2015 2:23 am

Por mais discreto que tivesse sido o movimento da pequena manifestação de magia da jovem balconista, não passou desapercebido aos olhos de Lucius Malfoy. O rapaz franziu as sobrancelhas e os lábios fizeram um bico por alguns segundos, antes que a voz conseguisse escapar de sua garganta.

- Mas o que...?

A pergunta saiu sussurrada e quase inaudível e era dirigida para ele próprio. Não havia varinha nas mãos da morena, mas poderia jurar que havia acabado de presenciar uma tentativa de feitiço.

Por um segundo, Lucius se perguntou se o caso da garota a sua frente fosse o oposto a um aborto. Pouquíssimas pessoas no mundo mágico eram capazes de realizar magia sem uma varinha e ele julgara de prontidão que a falta do artefato significasse a impureza do sangue da jovem. E se fosse o contrário? Se ela fosse tão forte que não precisasse de uma varinha?

Sem perceber, Malfoy sacudiu a cabeça para espantar aqueles pensamentos tolos. Era impossível que uma simples balconista tivesse uma magia tão poderosa. Certamente havia sido uma corrente de ar mais forte que tivesse passado pelas frestas da porta e movimentado as folhas do caderno. Diante dele, havia apenas uma abortada incompetente.

Apesar de se convencer daquele pequeno acaso, Lucius não desviou os olhos dela enquanto juntava sua pequena encomenda. O balcão estava novamente livre quando sua voz rouca voltou a soar.

- Qual é o seu nome?

Uma vozinha chiou em sua mente, protestando a forma tão natural com que dirigia a palavra para alguém tão insignificante quanto a balconista da loja. Era como se estivesse ultrapassando uma barreira invisível que o separava de pessoas subalternas.

- Apenas para dizer ao Sr. Von Hants que a deixe mais preparada para minha próxima visita.

As palavras foram ditas com o rosto contorcido em uma expressão de nojo, mas Lucius não sabia dizer se aquela explicação estava sendo dada para a jovem ou para si mesmo.

- Espero não ser tão mal atendido na próxima vez.

Seus olhos azuis passearam de cima a baixo da morena mais uma vez, reparando nas roupas simples e gastas que ela usava. Era inquestionável sua origem humilde, o que por si só já era um motivo para que os Malfoy a considerassem inferior.

Quando ele voltou a encarar os olhos verdes, estava mais sério.

- Se bem que minhas gorjetas não lhe fariam mal. Espero que não caia morta de fome até minha próxima visita.
avatar
Severus Snape

Mensagens : 87
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Connor Ward em Qua Dez 23, 2015 1:13 am

Ser o protagonista de um casamento arranjado não era algo que incomodava Rodolphus Lestrange. Aquele conceito fora introduzido muito precocemente em sua vida, de forma que o rapaz não tinha sequer argumentos para questionar tal tipo de acordo. Seus pais haviam se unido num casamento planejado, e o mesmo acontecera com seus tios e seus avós. Se aquilo funcionava para todos, Rodolphus estava certo de que também daria certo no seu caso.

O maior sentimento que Rodolphus nutria pela futura esposa era a curiosidade. As lembranças sobre a Noruega eram muito vagas e o rapaz não saberia dizer nada sobre Olivia Russel.

O herdeiro dos Lestrange subiria ao altar de qualquer forma porque aquela era a sua obrigação. Mas é claro que ele não dispensaria aquele bônus se a noiva fosse uma bela e doce moça.

A primeira impressão sobre a filha dos Russel foi extremamente positiva. Os olhos de Rodolphus, num tom castanho tão escuro que se aproximava do negro, também observaram Olivia da cabeça aos pés quando ele finalmente entendeu quem era a convidada daquela noite. E a visão dela era bastante agradável, com suas feições delicadas, os cabelos ruivos exóticos, os incomuns olhos cor de mel, a postura elegante. Sem dúvida, os dois formariam um casal perfeito. Ao menos visualmente.

Mas bastou que os lábios da ruiva se abrissem para que um pouco daquele encanto se quebrasse. O primeiro comentário dela, feito num tom quase hostil de cobrança, definitivamente não era o que Rodolphus esperava. Que tipo de garota tem a audácia de tratar o futuro marido com tal frieza no primeiro contato dos dois?

A expressão de Rodolphus se fechou, deixando claro que ele não gostara do comentário. Como o rapaz se recusou a dar explicações, Gaspard e Ruth assumiram o discurso emendando um milhão de desculpas que justificavam o atraso do filho mais velho.

Rodolphus se deixou guiar até o sofá e abriu o último botão do paletó para se sentar mais comodamente. O elfo se apressou em levar uma taça de bebida ao jovem patrão, mas o primogênito dos Lestrange apenas bebericou o espumante antes de se voltar para a futura esposa, sentindo o olhar dela pesado sobre si.

- Eu não acho que o trabalho seja uma pauta de conversa tão ruim, minha mãe. – os olhos escuros continuaram fixos na ruiva – A Srta. Russel e eu não nos conhecemos. Não temos nenhum assunto em comum. Se de todas as opções de uma conversa vazia ela escolheu o meu trabalho, que seja.

A taça foi levada mais uma vez aos lábios de Rodolphus e ele tomou um gole mais generoso antes de continuar, ignorando o assombro do casal Lestrange com a forma pouco polida com a qual ele tratava a herdeira dos Russel.

- Respondendo à pergunta, Srta. Russel. Sim, foi uma reunião bastante produtiva. Eu não sou o tipo de pessoa que abandona uma mesa de negócios deixando assuntos inacabados.

A provocação foi finalizada com uma última afronta.

- Deseja saber mais sobre o que eu faço ou para a senhorita basta saber que os negócios vão bem e que a fortuna que se unirá a sua continua prosperando?
avatar
Connor Ward

Mensagens : 108
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Danika Lehmann em Qua Dez 23, 2015 1:44 am

Coisas “estranhas” aconteciam com frequência na vida de Barbara Robinson. Objetos se movimentando sozinhos, portas destrancadas com um simples toque, correntes de vento inesperadas. Quando a garota ficava muito irritada, não era raro que objetos de vidro próximos se espatifassem.

Barbara ainda era uma criança quando tais eventos começaram. Mas a Sra. Robinson sempre garantia que aquelas manifestações eram “suaves” demais e não faziam dela uma bruxa. Como não conseguia controlar bem aquele poder, Barbara se deixou convencer pelas palavras da mãe e acreditou que ela própria era um tipo “anormal” de aborto, que possuía somente um resquício de magia. Isso realmente não parecia ser o bastante para ser uma bruxa.

O que Barbara não imaginava era que todas as crianças bruxas sofriam daquele mesmo problema até irem para Hogwarts e aprenderem a concentrar a magia com o uso de uma varinha. A Sra. Robinson privou a filha de todos esses conhecimentos pelo simples fato de que era mais seguro para Barbara ser um “aborto da natureza”. A garota poderia não estar mais viva se o mundo mágico soubesse que ela fora fruto do tropeço de um dos bruxos mais tradicionais da atualidade.

Exatamente por já estar acostumada com aquelas manifestações de magia, a balconista sequer percebeu os movimentos do bloquinho e da moeda. Barbara se concentrou apenas em guardar o galeão no bolso. Era tudo o que lhe importava naquele momento.

Quando imaginou que finalmente ficaria livre de Malfoy, o cliente a surpreendeu fazendo aquela pergunta. Homens como Lucius não costumavam se importar se abortos tinham nomes, por isso Barbara o encarou como se o loiro estivesse falando em outra língua.

A explicação dele, sobre querer fazer uma reclamação formal, tornou a situação menos esquisita. Mas a morena ainda parecia um tanto desconfiada quando cruzou os braços numa postura defensiva e encarou Malfoy.

- Barbara Robinson.

O sobrenome Robinson não era totalmente desconhecido no mundo bruxo. Os Robinson não eram conhecidos por sua riqueza, mas tinham uma árvore genealógica relativamente limpa e possuíam algumas conquistas importantes na história bruxa dos últimos anos. Mas ninguém nunca ouvira falar de nenhum aborto naquela família.

- Não dispenso as suas gorjetas. – uma das sobrancelhas da garota se ergueu – Nem mesmo as moedas que lança ao chão, senhor. Para mim, elas tem tanto valor quanto qualquer outra.
avatar
Danika Lehmann

Mensagens : 109
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Alexia Romanoff em Qui Dez 24, 2015 3:38 pm

O tom de voz de Rodolphus era desafiador, mas em nenhum momento o semblante de Olívia demonstrou preocupação ou abalo. A taça continuou firme em suas mãos, as bolinhas do gás subindo até a superfície, sem receber a menor atenção da ruiva.


Os olhos cor de mel passearam pelo rosto dele, tentando desvendar toda a história por trás dos belos traços e por alguns segundos, Russel esqueceu completamente a existência dos demais integrantes da família Lestrange presentes na sala. Apenas quando a mastigação de Rabastan se tornou mais barulhenta, sua consciência voltou ao presente, fazendo as pálpebras cobrirem os olhos claros rapidamente.


Com um suspiro, ela se remexeu na poltrona.


- Por ora, é suficiente. Teremos bastante tempo para discutir os detalhes no futuro.


A seriedade com que encarou o futuro marido demonstrava que Olívia não seria com a maioria das mulheres que pouco se importavam com o andamento dos negócios, preocupadas apenas em usufruir de seus benefícios enquanto os maridos ficavam com todo o trabalho.


Por mais que fosse o sobrenome Lestrange que fosse se unir ao seu, ainda era o império dos Russel, construído pelas gerações, que estava em jogo, e ela não tinha a intenção de fechar os olhos para tudo que estivesse acontecendo com o patrimônio erguido pelo seu pai.


Apesar de estar mais do que conformada com seu destino, Olívia não sabia exatamente como devia se portar em uma situação como aquela. Se Octavia estivesse presente, provavelmente diria o quanto ela deveria se comportar docemente, sendo gentil com a nova família, mostrando toda a boa educação recebida desde o berço. Só de pensar na atitude submissa da mãe, a ruiva se revirou incomodada.


Havia presenciado o relacionamento dos pais durante anos e aprendera a repudiar a forma com que a mãe abaixava a cabeça para tudo. Ela estava em uma posição muito diferente a de Octavia. Era ela que tinha todo o poder ali. Se desejasse, poderia dar às costas para a família Lestrange e escolher pessoalmente quem seria o seu marido, ignorando qualquer acordo entre Dimitri e Gaspard.


O pequeno elfo pigarrou, fazendo com que Ruth desviasse a atenção do casal pela primeira vez. A mulher encarou a criatura com uma careta, irritada pela interrupção, e imediatamente ele se encolheu, receoso.


- O jantar já pode ser servido, Madame Lestrange.


A sala de jantar seguia a mesma decoração escura que tanto desagradava Olívia, mas ela se sentou em seu lugar sem esboçar reação enquanto o elo enchia seu prato com a pequena entrada. Quando a criatura finalmente se afastou, seus olhos cor de mel pousaram mis uma vez em Rodolphus.


Desde a morte dos pais, ela não havia mais pensado nele com curiosidade do que seu futuro a aguardava. Era apenas uma obrigação a ser realizada. Era a primeira vez que o olhava com verdadeiro interesse.


- Sua mãe comentou que frequentou Hogwarts. É verdade que eles ensinam Defesa Contra as Artes das Trevas? Isso sempre foi motivos de piadas em Durmstrang. Você sabe, nós estudamos Artes as Trevas, de verdade.


avatar
Alexia Romanoff

Mensagens : 89
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Severus Snape em Qui Dez 24, 2015 7:57 pm

- Barbara Robinson.

Lucius repetiu, a voz arrastada enquanto mais uma vez seus olhos passearam pela mulher a sua frente, estudando todos os seus traços e o menor dos gestos.

Ele já havia escutado os pais comentarem sobre a filha abortada que manchava a árvore dos Robinson, mas nunca havia despertado o menor interesse pela sua existência. Com exceção do velho aborto que cuidava dos corredores de Hogwarts, Malfoy não se lembrava de já ter se encontrado com algum outro antes.

Seus olhos vasculhavam por qualquer sinal que denunciasse a impureza do sangue da moça a sua frente, como se ela pudesse ter algum sinal que lhe marcasse a pele pela falta de magia, mas se não fosse a ausência da varinha, Bárbara poderia se passar por uma bruxa normalmente.

Os cabelos negros caiam sobre seus ombros, balançando com o menor dos movimentos. Os olhos tinham uma coloração única de verde e o nariz arrebitado se harmonizava com perfeição, formando o rosto bonito de uma jovem. Se não fossem as vestes simplórias e a ausência de magia, Lucius seria capaz de admitir que achava Robinson linda.

Mas a única coisa que sua mente conseguia processar era como ficava mais difícil respirar tendo uma aberração da natureza para compartilhar o oxigênio, temendo que a simples proximidade pudesse traze algum dano à sua magia.

Ao percebe que encarava a balconista insistentemente, o rapaz se remexeu, ajeitando as próprias vestes e sentindo o pesinho dos produtos em seu bolso. Inconscientemente ,ele levou uma das mãos até sentir o vidro do Veritaserum sob o tecido do casaco, se certificando de que ainda estava ali.

- Imagino mesmo que cada moeda faça toda diferença para alguém como você. – A arrogância havia voltado a sua voz e lançando um último olhar gelado para a atendente, ele deixou a loja.

As semanas seguintes passaram sem que Malfoy perdesse muito do seu precioso tempo lembrando da balconista da loja de Poções do Beco Diagonal. Sua mente estava mais uma vez focada nas reuniões e nas missões delegadas por Lord Voldemort, cada vez mais frequentes.

Apesar de ter idade suficiente para assumir um papel nos negócios dos Malfoy, Lucius não se preocupava em trabalhar e os pais estavam orgulhosos demais com seu desempenho como Comensal da Morte para se preocuparem com suas atividades fora do grupo de bruxos das trevas.

A única exigência era que não deixasse de lado o compromisso que tinham com os Black. O casamento com Nacissa, apesar de inevitável, era cada vez mais adiado quando Lucius usava a desculpa de sua dedicação a Lord Voldemort.

O filho único dos Malfoy não tinha a menor intenção de fugir de sua obrigação. Estava convencido de que Cissy era uma escolha perfeita como esposa. Além de seu sangue puro e do importante sobrenome, era linda, inteligente e uma capacitada bruxa. Certamente ocuparia o papel perfeito da dedicada Sra. Malfoy.

Mas Lucius achava muito mais estimulante receber o reconhecimento como Comensal do que como o marido que a sociedade esperava que ele fosse. Era muito mais prazeroso enfrentar missões do que se imaginar ao lado de Cissy. Por mais bela que a jovem fosse, pareia ser incapaz de despertar seu interesse. Ela seria apenas um belo prêmio a ser exibido ao seu lado.

O sol já havia se posto e o céu estava negro, anunciando que seria uma noite de tempestade de neve. A mansão Malfoy estava mais silenciosa que o normal, sendo impossível não escutar quando o pequeno elfo cortou a sala, os pés descalços tocando diretamente o piso gelado em direção à cozinha.

O Sr. e a Sra. Malfoy estavam ausentes e o único morador presente além do pequeno escravo era o filho do casal. Lucius estava no grande e imundo porão, revirando os diversos potes sobre a bancada, derrubando alguns com os dedos estabanados. Quando se convenceu de que não encontraria o que precisava, deu um murro contra a madeira, soltando um xingamento.

Atrás de si, um gemido se fez ouvir e ele virou os olhos azuis para encarar o convidado. O homem de meia idade estava amarrado pelos pulsos, os braços abertos e o rosto pálido e ensanguentado.

Era a primeira vez que Malfoy trazia uma missão para o seu teto, mas as coisas estavam começando a sair de controle. Ele sempre era cuidadoso demais para que o ministério não suspeitasse de suas atividades, apagando qualquer rastreabilidade que pudesse levar até seu sobrenome, de modo que trazer um dos professores de Hogwarts sob tortura para sua casa estava além de qualquer perigo já vivido.

O homem já havia passado por horas de tortura sem que ele conseguisse uma informação relevante. O vidro de veneno, próximo passo na sua tortura, estava separado ao lado, mas Malfoy não se arriscaria a ir tão longe sem ter um antídoto por perto. Não que ele prezasse pela vida de um amante de trouxas, mas não poderia se dar ao luxo de que ele morresse sem dar qualquer novidade interessante ao Lord das Trevas.

Com um movimento da varinha, ele conjurou pena e pergaminho, rabiscando rapidamente o pedido de encomenda para a loja de Poções do Beco Diagonal, deixando claro sua urgência pelo bezoar.

Sentindo as pernas trêmulas e o rosto suado, apesar do frio do inverno, ele voltou ao andar superior onde despachou a coruja com seu pedido ao Von Hants. Quando a coruja negra desapareceu nos céus, Lucius apoiou as mãos sobre a janela aberta, sentindo o vento gelado bater contra eu rosto, a camisa branca colada contra seu peito pelo suor.

Só então ele pode perceber o quanto o coração estava acelerado. Seus pais certamente enlouqueceriam se descobrissem que havia um homem sendo torturado em seu porão. Eles apoiavam todas as medidas necessárias naquela guerra que se iniciava silenciosa. Mas também exigiam discrição do filho.

Sua mente estava rodando em busca de uma solução para o caso que havia criado, mas antes que decidisse qual seria o destino do homem torturado, ele precisava concluir o objetivo de arranca da boca dele as medidas tomadas por Albus Dumbledore em relação aos acontecimentos que começavam a ocupar as manchetes do Profeta Diário.
avatar
Severus Snape

Mensagens : 87
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Connor Ward em Sab Dez 26, 2015 6:01 pm

Quando se sentou na ponta da comprida mesa de jantar dos Lestrange, Rodolphus ainda tentava digerir as palavras da futura esposa. Fora difícil disfarçar a surpresa quando Olivia insinuou que se interessaria pelos negócios do marido no futuro. A maioria das moças que Rodolphus conhecia jamais perderia tempo com assuntos financeiros ao invés de se dedicar a uma tarde de compras ou à organização de um banquete para a alta sociedade.

Depois que o pai ocupou a outra ponta da mesa, Rodolphus trocou um olhar sério com Gaspard. Era óbvio que o primogênito não estava plenamente feliz com a noiva escolhida pelo Sr. Lestrange. A herdeira dos Russel era refinada, bonita e extremamente rica. Mas a ruiva já dava vários sinais de que não seria uma esposa obediente ou doce.

A troca de olhares dos dois homens foi interrompida por Olivia, agora sentada à direita do futuro marido. O rosto de Rodolphus se virou lentamente na direção dela e os olhos escuros a estudaram, como se Russel fosse um jogo de xadrez potencialmente complicado.

- Eu sei.

A pausa que se seguiu às palavras de Rodolphus foi tão prolongada que, por um momento, pareceu que o rapaz deixaria a conversa morrer daquela maneira fria. Mas os lábios dele voltaram a se mexer antes que o silêncio se tornasse ainda mais constrangedor.

- O atual diretor de Hogwarts não aceitaria esta positiva mudança na grade curricular. O problema é que o nome de Albus Dumbledore é extremamente forte dentro do atual Ministério da Magia.

Os lábios de Rodolphus se curvaram num sorriso maldoso, que ironicamente o deixava ainda mais atraente.

- Mas tudo isso está com os dias contados, han? O Ministro vai cair. E o velho Dumbledore cairá com ele. Esta é uma guerra necessária para colocar o Reino Unido de volta no caminho certo da prosperidade. A nossa casa está suja, Srta. Russel. Mas a limpeza já começou. E não vai parar.

- Eu não poderia ter falado melhor, Dolphus.

Do outro lado da mesa, Gaspard abriu um sorriso satisfeito para o filho mais velho. Rodolphus havia sintetizado o sentimento de todos os bruxos de sangue puro. Praticamente todas as famílias tradicionais da atualidade manifestavam apoio às ideias de Lord Voldemort.

O Sr. Lestrange ia fazer mais algum comentário quando o filho mais velho o interrompeu, ainda com os olhos escuros fixos na futura esposa.

- Eu não tive aulas “oficiais” de Artes das Trevas, Srta. Russel. Mas garanto-lhe que domino tudo o que deveria saber sobre o assunto. Como a senhorita bem sabe, os maiores segredos das Artes das Trevas não são encontrados nos livros, han?
avatar
Connor Ward

Mensagens : 108
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Danika Lehmann em Sab Dez 26, 2015 6:33 pm

Geralmente, Barbara Robinson deixava a loja de Poções antes do pôr-do-sol. Era uma importante medida de segurança, ainda mais para alguém na situação dela. Um aborto transitando pelas proximidades da Travessa do Tranco à noite era um convite quase irrecusável para a tragédia.

Naquela tarde, porém, as coisas complicaram. A loja esteve cheia durante todo o dia, Barbara também ficou bastante ocupada com algumas encomendas atrasadas. O Sr. Von Hants não pudera comparecer à loja naquela tarde, então também coube à morena o trabalho de organizar a bancada e separar alguns ingredientes.

O sol começava a desaparecer no horizonte, dando ao céu a típica coloração alaranjada, quando Robinson terminou todas as suas tarefas e finalizou o dia atualizando seus registros de vendas.

Um arrepio frio percorreu a espinha de Barbara quando ela espiou a rua deserta pela janela. As sombras da noite já formavam imagens arrepiantes na calçada e nas fachadas das demais lojas fechadas. O Beco Diagonal estava mergulhado num silêncio sepulcral, o tipo de calmaria que geralmente antecede uma grande tempestade.

A mistura do frio com o medo fez com que Barbara se encolhesse dentro do seu casaco de segunda mão. A garota havia acabado de ajeitar o capuz e terminava de calçar as luvas de lã quando o ruído do farfalhar de asas de uma coruja ecoou no interior da loja.

- Eu já estou suficientemente assustada e atrasada, sabia???

Os olhos verdes se estreitaram e Barbara bufou ao se convencer de que o animal jamais entenderia todo o seu drama. Com um semblante mais ameno, Robinson se aproximou da ave, fez um cafuné nas penas escuras e retirou da pata dela o pergaminho contendo a mensagem do cliente.

Um bezoar.

Um ingrediente simples e barato. Mas sua importância é inquestionável. Barbara sabia bem que o bezoar é capaz de reverter o efeito da maior parte dos venenos e que seu efeito costuma ser rápido e seguro. A urgência impressa na caligrafia requintada do cliente deixava claro que era um caso emergencial.

A surpresa da garota aumentou quando ela leu a assinatura. Depois do breve encontro de semanas antes, Barbara procurara saber quem era Lucius Malfoy e agora não tinha dúvidas de que o rapaz pertencia a uma família rica e tradicional.

Era estranho que um Malfoy precisasse de um bezoar com tanta urgência, mas Barbara não perdeu muito tempo enumerando hipóteses. Num pedaço de pergaminho, a garota escreveu uma rápida mensagem, que foi enfiada num envelope juntamente com o bezoar solicitado pelo rapaz.

Só depois que a ave desapareceu no céu, Barbara parou para pensar na tolice que havia acabado de fazer. Ela abriu um sorriso amargo, rindo da própria ingenuidade. Mas esta mesma ingenuidade a obrigou a esperar mais alguns minutos.

No pergaminho que chegaria às mãos de Lucius, ele encontraria a seguinte mensagem, escrita numa caligrafia feminina delicada:

“Sr. Malfoy,
Envio o bezoar conforme solicitado.
Dispenso o pagamento em moedas desta vez.
Estou presa na loja. O produto e o meu silêncio sobre o seu pedido custam apenas uma “viagem” de desaparatação para casa.
B. Robinson”
avatar
Danika Lehmann

Mensagens : 109
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Alexia Romanoff em Sab Dez 26, 2015 7:31 pm

Olivia escutou atentamente as palavras de Gaspard e Rodolphus, confirmando suas suspeitas em relação a posição dos Lestrange naquela guerra que manchava os jornais do Reino Unido. Ela se remexeu incomodada em seu lugar, lutando para não denunciar os seus receios no menor dos movimentos de seu rosto.

Os Russel eram conhecidos, além da indecente fortuna, pela árvore genealógica impecável, com o sobrenome tradicional e o sangue puro, coberto de grandes bruxos em sua história. Olivia deveria apenas representar a continuidade de seu significado, sem que ninguém desconfiasse do seu sangue sujo.

Quando Rodolphus insinuava a limpeza que deveria ocorrer no mundo mágico, ele sequer imaginava que a futura esposa, o prêmio tão caro que os Lestrange estavam conquistando, estava incluída naquela sujeira.

A ruiva apoiou as mãos sobre o guardanapo de seda em seu colo e encarou o primogênito atentamente antes de puxar sua taça, sobre a mesa, levando-a até os lábios para um gole. Quando recolocou a bebida no mesmo lugar, passou a língua sobre os lábios naturalmente rosados.

- Dedicado aos negócios. Dominante no assunto das Artes das Trevas. Se não tivéssemos um compromisso acertado, diria que está tentando me impressionar.

Ela inclinou a cabeça para o lado, os fios vermelhos roçando em seus braços. Sua aparência doce não combinava com a falta de vida nos olhos cor de mel ou nos lábios que nunca se curvavam em um sorriso, nem mesmo debochado ou provocativo.

- Espero que não esteja se esforçando demais para demonstrar qualquer tipo de perfeição, é inteiramente irrelevante.

Ruth se remexeu desconfortável em seu lugar, sentindo-se incomodada com a forma direta com que Olivia direcionava o assunto. Ao contrário da convidada, ela se esforçava frequentemente para sorrir, mesmo que o movimento dos lábios lhe deixasse ainda mais falsa.

- Rodolphus tem mesmo muitas qualidades, Liv querida.

A mulher, sentada ao lado direito do marido, ergueu a taça na direção do filho, desta vez sorrindo com verdadeiro orgulho.

- Sempre teve notas excelentes, é claro. E é lindo, não acha? O meu bebê sempre foi lindo!

Rabastan, sentado em frente a mãe, soltou uma risada nasalada e engasgou com a própria bebida. Ele passou o guardanapo sobre os lábios, deixando um risco de sujeira no tecido branco e virou-se para a convidada.

- E evidentemente é o filhinho da mamãe. Vai por mim, ainda da tempo de correr. – Ele piscou um olho e enfiou na boca uma generosa quantidade de peixe antes de falar durante a mastigação. – Ainda temos outro Lestrange solteiro, se interessar.

- RABASTAN! – Ruth gritou, perdendo a linha de sua falsa educação pela primeira vez. – Não seja tão inconveniente!

Os olhos cor de mel piscaram várias vezes enquanto encarava o caçula, sentindo-se enjoada apenas com a hipótese de ser ele o seu futuro marido. O prato foi empurrado para longe, discretamente, e foi inevitável concordar com o comentário da Sra. Lestrange: Rodolphus era mesmo lindo, ainda mais se comparado ao irmão.

- Não dê ouvidos ao Basty. – O Sr. Lestrange fez uma careta para o filho caçula, debruçado sobre o próprio prato. – É apenas ciúmes. Dolphus sempre atraiu a atenção das moças, enquanto Rabastan só conseguia chamar a atenção da atendente da Dedosdemel quando pedia para repor o estoque de sapos de chocolate.

Uma sobrancelha clara se ergueu quando Olivia buscou o olhar do futuro marido mais uma vez. O comentário de Gaspard apenas fez com que ela fizesse mais uma associação entre Rodolphus e Dimitri. O Sr. Russel, nem mesmo casado, deixava de atrair os olhares femininos. Apesar de ter sido o crime de Octavia que gerou um fruto fora do casamento, Dimitri também não era um santo.

Cada vez que via seu futuro se aproximando com a realidade vivida entre seus pais, Olivia sentia que estava caminhando em direção de um abismo. Ela tocou o talher pousado ao lado do prato, já sem apetite, e tentou manter a voz pausada de sempre.

- É claro que esta atenção está com os dias contados. Vocês sabem que está no contrato que o casamento seria imediatamente cancelado, sem que os Lestrange tivessem direito a um único tostão, se um caso fosse descoberto, certo?

Os olhos cor de mel passaram por cada um dos ocupantes da mesa antes de se fixar em Rodolphus.

- Inclusive a própria fortuna de vocês seria repassada aos Russel. Então sugiro que nem mesmo a atenção da atendente da Dedosdemel esteja em seus planos, Rodolphus.
avatar
Alexia Romanoff

Mensagens : 89
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Severus Snape em Sab Dez 26, 2015 8:03 pm

O tempo que levou para a coruja ir e voltar, foi suficiente para que Lucius retornasse ao porão, em uma nova tentativa de arrancar informações dadas pelo professor. Mesmo que tentasse usar o Veritaserum, Malfoy precisaria saber fazer as perguntas certas para que ele não driblasse o soro da verdade.

Era fácil conseguir o que queria quando se tinha o menor traço do que perguntar, mas fora isso, a poção permitiria que as palavras fossem escolhidas mais cuidadosamente, sem revelar algo mais significativo.

Assim como a tortura, os gritos haviam cessado. O homem de meia idade havia sido solto, embora ainda tivesse as cordas presas em seus pulsos. Ele estava caído sobre o chão de pedra, molhado com o próprio suor e sangue.

O vidro de veneno estava depositado exatamente em frente aos seus olhos, mas ainda vedado. Lucius já se sentia esgotado pelas horas perdidas quando o pio da coruja lhe chamou a atenção, trazendo o bezoar. O pergaminho foi completamente ignorado pelo bruxo, toda sua atenção voltada a sua tarefa.

Os olhos azuis encararam a pequena pedra em seus dedos, capaz de reverter o efeito do veneno, mas pelo estado do homem, Lucius não tinha mais a convicção de que aquilo daria certo.

Sentindo-se frustrado, ele se agachou em frente ao professor, puxando-o pelo ombro até que ele estivesse sentado, capaz de encará-lo de volta.

- Você é mesmo um grande saco de nada, não é? – Com uma expressão de nojo, ele percorreu o rosto sujo do homem com o olhar. – Nem mesmo Dumbledore confiaria em você.

- Por favor... – A voz do homem soou fraca demais, quase inaudível. – Apenas me mate logo. Eu não tenho nada a lhe oferecer.

Com o nariz franzido, Lucius ergueu a varinha e a apontou contra o peito do professor. Em plena guerra, ele havia capturado alguém completamente insignificante. A sensação de ter perdido tempo e energia o consumia, mas o pedido fez sua mão recuar.

- Hoje não.

Talvez fosse apenas a vontade de contrariar o pedido do homem, mas a varinha foi lentamente erguida até apontar para a testa suada.

- Obliviate!

Um lampejo de luz saiu da ponta da varinha e cegou o refém momentaneamente. Quando o porão foi novamente coberto pela escuridão, o rosto do professor estava lívido, as memórias já varridas de sua mente.

Lucius se ergueu, ignorando a confusão refletida nos olhos sujos do seu capturado.

- Rey!

Ele já estava de costas para o homem, remexendo em sua bancada com os vidrinhos de poções, quando o pequeno elfo apareceu, as mãos unidas e trêmulas, lançando olhares apavorados ao homem desconhecido.

- Leve-o para longe. No litoral, talvez. Em algum lugar isolado. Depois volte para preparar o meu jantar. Entendido?

Suas mãos finalmente tocaram o pergaminho enviado por Barbara, mas ele ainda não havia parado para dar a devida atenção. Lucius virou o rosto para o lado, ficando de perfil até que a voz de Rey respondeu, gaguejando.

- S-Sim, Mestre Lucius.

Enquanto os dedos abriam o pergaminho, o estalido soou às suas costas quando o elfo desapareceu, carregando consigo o homem sem memória. Só então os olhos azuis passearam de um lado ao outro enquanto lia as palavras escritas na caligrafia bonita de Robinson.

- Mas quanto abuso!

O pergaminho foi amassado quando foi enfiado no bolso da calça sem o menor cuidado. Lucius não tinha a menor intenção de atender a um pedido de um aborto, mas o porão estava sufocante demais após a tarde perdida.

A última coisa que ele queria, era continuar na mansão nas horas seguintes. E de qualquer forma, ele precisaria garantir que a atendente da loja de poções não abrisse a boca sobre suas compras um pouco fora do convencional.

Mesmo que ela tivesse dito que dispensava as moedas, Malfoy duvidava seriamente que alguém tão pobre como ela fosse tão difícil de ser comprada.

Quando ele aparatou em frente a conhecida loja, já devidamente agasalhado, sentiu o vento gelado bater contra seu rosto de forma agradável. Apesar do inverno, Lucius havia ficado horas trancado no porão e aquele frescor era imensamente bem-vindo.

A porta da loja foi aberta e ele imediatamente reconheceu o rosto da atendente. Exatamente como da última vez, ela vestia roupas simples e sem sinal algum de varinha.

Ao contrário do que esperava, seus lábios se curvaram em um sorriso, se divertindo com a ousadia da jovem aborto. Se Barbara soubesse o que ele estava fazendo, minutos antes, não o aceitaria tão bem sem ter a menor chance de se defender.

- Você é imensamente corajosa ou igualmente tola.

Lucius se aproximou alguns passos até parar diante da moça, a diferença de altura o fazendo precisar inclinar o pescoço para baixo.

- Como ousa me chantagear? Você ainda não sabe quem sou eu?
avatar
Severus Snape

Mensagens : 87
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Connor Ward em Sab Dez 26, 2015 10:28 pm

Os olhos do primogênito dos Lestrange se estreitaram, fazendo o rosto dele assumir um semblante mais carregado, quando Olivia insinuou que ele estava se esforçando muito para impressioná-la. Talvez aquilo fosse uma verdade, mas era o tipo de coisa que nenhum homem orgulhoso gostaria de ouvir. Era ainda mais incômodo o acréscimo de que tal esforço era irrelevante.

Mais uma vez, Rodolphus encarou o pai do outro lado da mesa com uma expressão insatisfeita. Gaspard se remexeu em seu acento e tomou toda a bebida de seu copo num só gole. As coisas não estavam perfeitas conforme planejado. Olivia deveria estar se comportando como uma dama doce e apaixonada, ao passo que Rodolphus deveria encenar o papel de noivo dedicado e impressionado com a beleza da futura esposa. Aquelas trocas de farpas, definitivamente, não faziam parte dos planos para aquele jantar.

A insatisfação de Rodolphus só aumentou quando o pai fez aquele comentário depreciativo sobre Rabastan. Os olhos escuros se tornaram dois riscos e a respiração do primogênito se tornou mais pesada.

Desde a mais tenra infância, os irmãos Lestrange mostraram que eram muito diferentes. O caçula sempre fora mais gordinho, desajeitado e não muito inteligente. Isso facilitou em muito a vida do casal Lestrange, que depositou todas as suas fichas no futuro do filho mais velho. Mas Rodolphus nunca concordou em deixar o irmão de lado. Apesar das abissais diferenças, os dois rapazes eram amigos e Rodolphus odiava quando os pais tratavam Rabastan com aquele desprezo velado.

Com o humor bastante abalado, Rodolphus escutou aquele último comentário de Olivia. O olhar dela foi retribuído e, mais uma vez, o rapaz fez uma prolongada pausa antes de tomar a palavra.

- Em menos de uma hora, a senhorita já sugeriu que eu não sei lidar com os meus negócios, que eu não conheço o básico das Artes das Trevas e, agora, insinua que não serei um marido fiel.

Um sorriso ácido brotou nos lábios do rapaz, sem atingir os olhos escuros que continuavam estreitados.

- Não acho que seja o meu objetivo impressioná-la, Srta. Russel. Até porque eu nunca precisei me esforçar para impressionar quem quer que seja. E, como a senhorita sabiamente acrescentou, isso é irrelevante. Mas me é muito nítido o seu esforço para menosprezar as minhas qualidades e a seriedade com que eu “encarava” este compromisso.

Rodolphus fez questão de ressaltar a escolha do verbo no passado, deixando claro que a sua maneira de ver aquele casamento começava a mudar. Se Olivia não estava disposta a ser a esposa discreta, obediente e doce que Rodolphus gostaria de ter, ele também não seguiria o caminho esperado dele.

- Eu imagino que não sou a sua única opção, mas é bom que a senhorita saiba que eu também tenho excelentes alternativas a este casamento.

- Rodolphus! – a voz de Gaspard se tornou mais áspera quando o Sr. Lestrange percebeu para onde aquela conversa estava sendo levada – Não é uma questão de opções ou alternativas. Para nenhum dos dois! – o homem forçou um sorriso – Foi um acordo entre velhos amigos. Estou certo de que Dimitri ficaria tão feliz como eu me sinto vendo vocês dois juntos!

Ruth abriu um sorriso falso e encarou o casalzinho com doçura, tentando amenizar o clima pesado criado na mesa dos Lestrange. Gaspard respirou aliviado com o silêncio que se seguiu ao seu discurso, certo de que havia solucionado aquele problema. Mas o Sr. Lestrange se engasgou com o espumante quando a boca de Rodolphus se abriu mais uma vez.

- Eu não vou me casar com esta garota. Se ela já age assim antes do casamento, imagine como será depois, pai. Nós não precisamos disso. Não quando os Black estão loucos para se unirem a nossa família. Se é uma questão de fortuna e influência, continuaremos muito bem servidos com o sobrenome Black.

- Bella? – Rabastan novamente se meteu, desta vez soltando uma gargalhada – A Bella não é mais mansa que a Srta. Russel, irmão.

- Bellatrix reconhece as minhas qualidades. Já é um ponto positivo que não encontro na nossa nobre convidada de hoje. – Rodolphus voltou os olhos frios para Olivia – Se deseja um marido maleável para moldar ao seu gosto, terá que procurar em outro lugar, Russel.
avatar
Connor Ward

Mensagens : 108
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Alexia Romanoff em Sab Dez 26, 2015 10:58 pm

- Não desejo marido de forma alguma, Sr. Lestrange. Como o seu pai mesmo já levantou, este acordo em nenhum momento levou em consideração a minha vontade.

Apesar do clima de tensão criado na mesa de jantar, Olivia mantinha o semblante indiferente e a voz baixa, tranquila, como se nada do que estava sendo discutido pudesse afetá-la.

Ela estava disposta a enfrentar seu destino porque havia sido um acordo feito entre seu pai e Gaspard. Estava mais do que conformada com o futuro como Sra. Lestrange, mas não significava que estava morrendo de amores ou ansiosa para concretizar um casamento com alguém que ela sequer conhecia.

Para piorar, Rodolphus era arrogante e agia exatamente como a maioria dos rapazes de sangue puro e de família nobre, o que só minimizava suas intenções de concretizar aquele contrato.

- Eu estou disposta a fazer a minha parte, em nome do meu pai. Mas não posso obriga-lo a nada, se os Lestrange não conseguem cumprir o que foi acordado.

Mesmo que estivesse encarando Rodolphus fixamente, ela pôde sentir quando Ruth e Gaspard arregalaram os olhos, apavorados com o que estava acontecendo diante dos seus olhos. Aquele jantar era apenas para que os jovens se conhecessem antes de formalizarem a união aos olhos de todos, mas estava seguindo o rumo exatamente oposto.

Por mais que os Black fossem uma excelente referência no mundo mágico, a fortuna ainda era menos da metade dos Russel e ver aquele contrato sendo rasgado não precocemente era desesperador.

Com gestos delicados, Olivia se levantou da mesa, fazendo Gaspard se erguer imediatamente. A Srta. Russel só não soube dizer se foi por educação ou desespero que a ruiva estivesse dando aquele jantar por encerrado.

- Minha intenção sempre foi ser uma esposa presente, sem falhar com as minhas obrigações. Minha mãe me ensinou perfeitamente como devo me portar diante da sociedade, Rodolphus. Mas se também espera uma mulher submissa, que abaixe a cabeça para você, sorrindo sem motivos apenas porque você quer, sugiro procurar em outro lugar.

A ruiva deslizou as mãos pelo tecido do vestido negro, sentindo sua maciez enquanto encarava Ruth e Gaspard com mais suavidade.

- Como já disse, não tenho intenção de falhar a minha parte do contrato, mas não vou obrigar ninguém a se casar comigo. Meu aniversário será em poucos dias, vocês têm até lá para se decidir.
avatar
Alexia Romanoff

Mensagens : 89
Data de inscrição : 20/12/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Marca Negra

Mensagem por Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 1 de 7 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum