Viva Las Vegas!

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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Lucinda Clearwater em Ter Maio 02, 2017 3:42 am

- Qual é, Cam, você prometeu!

Michaela era obrigada a sussurrar enquanto se espremia em um canto da sala de estar, pressionando o celular contra seu rosto. Ainda assim, ela não soava menos ameaçadora conforme sua frustração ia crescendo.

- Eu sei, Mika. Mas não vai rolar... Passei o dia revendo as licenças para a reinauguração do cassino e estou com enxaqueca. Aproveite o vinho por mim, sim?

O furacão Mika estava prestes a surgir quando a linha ficou muda, indicando que Lahey havia encerrado a ligação. Os lábios pintados em um batom rosa foram espremidos e Michaela espremeu o celular em seus dedos, como se pudesse alcançar o pescoço de Cameron por ali.

- Está tudo certo, bambina?

A voz de Alessio Moccia obrigou Michaela a se virar. Sua expressão raivosa imediatamente foi substituída por um falso sorriso enquanto ela empurrava o celular para uma mesinha lateral.

- Cameron não vai poder vir. Disse que está com enxaqueca.

- Cam anda muito ocupado ultimamente. – O olhar cabisbaixo de Alessio mostrava que o homem também havia notado a ausência de Lahey no último mês.

- Provavelmente é a pressão de reabrir o cassino.

Mika tentou justificar, embora também não conseguisse compreender as desculpas que Cameron vinha dando nas últimas semanas. Desde que ela partira para a Itália, Lahey foi o único que restou para representar o papel do filho querido que se mantinha fiel ao pai enquanto Michaela se recusava a atender as ligações que vinham do presídio ou qualquer tipo de visita e até mesmo as tentativas de cartas.

O contato entre pai e filha só havia voltado a acontecer com o retorno de Alessio para a antiga mansão. Em um primeiro momento, Michaela precisou admitir que havia ficado chocada com a imagem do pai.

Os fios brancos que antes cobriam sua cabeça tinham desaparecido, dando lugar a uma lisa e brilhante careca. Alguns quilos tinham se perdido e com as bochechas mais caídas, ele realmente parecia abatido e doente. Foi ainda mais assustador ver Cameron empurrando Don Alessio pelas portas da mansão em uma cadeira de rodas.

As fotografias que estamparam os jornais naquela semana realmente mostravam um Alessio Moccia que estava definhando, precisando urgentemente de cuidados. Mas bastou que os primeiros dias passassem para que Michaela mais uma vez se decepcionasse.

Realmente havia um enfermeiro na mansão para garantir os horários dos remédios de Alessio. Além disso, o homem era obrigado a usar uma tornozeleira digital para garantir que ele não se afastasse mais do que um raio de dois quilômetros da mansão.

Mas com exceção desses detalhes, Michaela viu o pai engordando nos dias que se passavam, esbanjando comidas deliciosas regadas com vinhos que ela duvidava fazer parte de uma dieta própria para alguém tão doente. Além do mais, ela poderia jurar que havia flagrado o pai fumando um charuto certa vez.

Apesar de estar bastante óbvio que a doença de Don Alessio não era tão grave quanto o júri havia acreditado, com a ausência de Cameron, Michaela não podia se dar ao luxo de sumir outra vez.

- Bambina... Eu preciso falar una coza...

Mika havia acabado de se acomodar em um dos sofás e se inclinava para se servir com uma dose de café na bandeja a sua frente quando Alessio atravessou o cômodo em seu caro terno italiano para se acomodar ao seu lado.

- Eu sei que fiz muitas cozas ruins na vida... Mas estou tentando consertar as coisas, bambina.

Os dois pares de olhos verdes se encaravam. A menina havia até prendido a respiração, afinal era a primeira vez que Alessio seguia por aquele rumo em uma conversa. Desde que tinham se reencontrado, o mafioso havia agido apenas como um pai que estava com saudades de sua filha que havia ficado tempo demais afastada durante os estudos. Qualquer tentativa de uma conversa mais delicada era sempre interrompida.

- Por isso conversei com o advogado e consegui antecipar algumas burocracias. – Alessio ergueu uma das mãos e tocou o pulso de Michaela com carinho. – Ele conseguiu a sua permanência na América, bambina. Você pode, de uma vez por todas, se livrar daquele imprestável de tuo marido.

Uma ruguinha de confusão surgiu entre as sobrancelhas loiras quando Alessio concluiu aquele raciocínio sem sequer tocar nos próprios erros. Ela já começava a se arrepender por ter deixado escapar durante um jantar que ainda estava legalmente casada com Connor Ward.

- Eu me arrependo totos os dias pelo que fiz com você, bambina. Da forma como obriguei a se casar com aquele canalha!

Se Alessio havia surtado em descobrir que seu gerente e sua filha estavam juntos, ele parecia ainda mais furioso ao mencionar Connor depois de descobrir a verdade sobre seu genro. A familiar veia saltava em sua testa sempre que tentava se referir a Ward e os lábios se espremiam ferozmente.

- E até hoje minha bambina precisa dizer que é casada com aquele rato traidor!

Mika piscou os olhos pelo que pareceu uma dúzia de vezes, tentando entender o que estava acontecendo. Mas os xingamentos de Alessio contra Connor seguiram por mais alguns minutos até que ela saltasse do sofá, estupefata.

- É sério??? Do contrabando de produtos ilegais, da lavagem de dinheiro dos restaurantes, e de mais meia dúzia de crimes que te acusaram, o que você precisa se desculpar é por ter me feito casar com o Connor???

Como Alessio claramente não esperava por aquela reação da filha, ele apenas abriu e fechou a boca algumas vezes, balbuciando sem sentido.

- Bom, mas eu obriguei você a se casar com um policial, han? – A forma com que Alessio ergueu um dos ombros na tentativa de justificar suas palavras realmente fazia parecer com que aquele erro era o pior de todos em sua cabeça.

O queixo de Michaela despencou e ela não tentou mais conter a voz enquanto andava pela sala.

- Desde o meu unicórnio de pelúcia de quando eu tinha seis anos, até a minha festa de debutantes, a minha bolsa Coco Chanel, o meu vestido de noiva! Tudo foi comprado com dinheiro sujo e você quer se desculpar PELO CONNOR???

- Bambina, nom precisa gritar, sí? – Alessio se encolheu no sofá com uma careta de dor e apoiou uma das mãos no peito. - Lembra que tuo papá está doente.

Um urro como de um animal feroz escapou pela garganta de Michaela quando ela deu as costas ao pai. O celular foi resgatado da mesinha de cabeceira antes que ela marchasse até a saída.

- Onde vai, Michaela??? Você prometeu que dormiria aqui para assistirmos a corrida de cavalos na televisão pela manhã!

- Cavalos!!! – Michaela ainda gritava enquanto seguia pelos corredores da mansão. – O Trovão foi com dinheiro da máfia também, né???

Sentado sozinho na sala de estar, Alessio apenas afundou no sofá, com uma careta típica de quem não tinha palavras para escapar das acusações da filha, mas como se estivesse apenas diante de mais uma das birras de Michaela, sem realmente entender o que a magoava.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Ter Maio 02, 2017 3:49 am

- CAMERON LAHEY??? VOCÊ LIGOU PARA CAMERON LAHEY??? VOCÊ FICOU LOUCA!!! COMPLETAMENTE LOUCA!!!

Parecia impossível, mas Connor conseguiu ficar ainda mais histérico quando a imagem do antigo segurança de Don Alessio Moccia surgiu na janela do carro de Matilda. Lahey era a última pessoa a quem Ward pensaria em recorrer. Parecia uma enorme insanidade pedir ajuda a um inimigo declarado, que havia se atracado com ele e ameaçado Matilda quando descobriu a ligação entre os irmãos.

Ao contrário do policial, Belmont mantinha algum controle da situação. A moça estava visivelmente agitada e ansiosa, mas foi com firmeza que ela agarrou o casaco do irmão mais velho e praticamente o empurrou para o banco traseiro. Depois de aberto o espaço no assento do carona, Matilda deslizou para o lado e deixou que Lahey assumisse a direção do veículo.

No banco traseiro, Connor se viu espremido entre duas cadeirinhas infantis, o que mostrava a Cameron que o carro pertencia a Sarah Baker. Os espaços vazios indicavam que as crianças não estavam envolvidas na confusão daquela madrugada, mas ainda assim a voz de Matilda soou para tranquilizar o olhar tenso do motorista.

- Eles estão em Beaufort com a tia Molly. Está tudo bem com eles.

- Exceto pelo fato de que eles vão ficar sozinhos no mundo depois que a mãe, o pai e o tio forem presos... Yooohooo! Posso ser a sua vadia na cadeia, Lahey? Pelo menos já nos conhecemos, han? Ficaria tudo em família!

A risada tensa e irônica de Connor foi finalizada com um gemido choroso enquanto o policial voltava a se balançar para frente e para trás, abraçando o próprio tronco. Matilda lançou um olhar mortal para o banco de trás antes de sacudir a cabeça em negativa e se voltar para o ex-namorado.

- Esqueci de pedir que você passasse no zoológico e roubasse um dardo tranquilizante, Cameron. Mas imagino que uma coronhada na cabeça tenha o mesmo efeito! Eu mesma farei isso se você NÃO CALAR ESSA MALDITA BOCA, CONNOR!

A tensão no carro era quase palpável e não permitiu que o trio se alongasse em uma conversa mais séria. Por estar tão desesperado, Ward só reconheceu o prédio depois que o carro de Matilda já ocupava a mesma vaga que costumava ser dele há dois anos. O policial chegou a pensar em questionar a escolha de Cameron, mas a vaga de Michaela vazia o deixou mais tranquilo. Provavelmente a menina estava na mansão dos Moccia e o apartamento fechado era realmente um bom lugar para aquela conversa delicada.

A porta trancada reforçava a ideia de que não havia ninguém em casa, assim como as luzes apagadas. Para Connor seria difícil retornar ao local que fora o lar dele e de Mika, mas naquela madrugada aquelas lembranças não encontraram espaço em sua mente atormentada por problemas muito maiores. Absurdamente agitado, Ward começou a andar de um lado para outro na sala enquanto Matilda tomava a frente da situação.

- Eu quero propor um trato, Cameron. – a moça começou as negociações com uma calma que não combinava com o descontrole do irmão – Nós oferecemos duas coisas. Eu me comprometo a não dificultar o seu processo de reconhecimento de paternidade.

- VOCÊ VAI NEGOCIAR OS SEUS FILHOS??? – Connor guinchou, completamente fora de si – VAI ENTREGAR OS GÊMEOS PRA ESSE BANDIDO???

- Connor. – Belmont cruzou os braços e depositou um olhar demorado no irmão antes de completar – Como você mesmo disse, nós dois vamos ser presos se o Cameron não nos ajudar. Ele não tem nenhuma razão para me fazer favores, eu preciso dar a ele algo que ele queira em troca da minha liberdade. E você vai fazer o mesmo!

- EU NÃO TENHO NADA QUE ELE QUEIRA!

- Segunda oferta. – Matilda ignorou o irmão e se voltou novamente para Lahey – O Connor vai mudar o depoimento dele. Não tem como retirar as provas do galpão, mas ele vai dizer que inventou as outras acusações para enriquecer os relatórios. Isso não vai inocentar Alessio Moccia de todos os crimes, mas vai causar uma insegurança quanto à veracidade das acusações. É a brecha que os advogados precisam para solicitar um novo julgamento e uma revisão da pena.


- COMO É QUE É??? – a reação de Ward deixava claro que os irmãos não tinham conversado sobre aquele acordo antes da chegada de Cameron – EU... EU NÃO POSSO! VÃO ME AFASTAR DA POLÍCIA, EU VOU RESPONDER UM PROCESSO INTERNO! VOU PERDER TODA A CREDIBILIDADE!

- Connor, querido... – Matilda não economizou nas palavras duras dirigidas ao irmão – A escolha é sua. A outra alternativa é apodrecer na prisão. Você consegue imaginar como é “linda” a vida de um policial na cadeia?

Mais uma vez, os dedos de Connor mergulharam nos cabelos, bagunçando ainda mais os fios castanhos. Completamente fora de si, Ward deu mais alguns passos sem rumo pela sala do apartamento até apoiar as costas na parede. Completamente desamparado, Connor foi escorregando até se agachar no chão, já aos prantos.


Enquanto o rapaz choramingava sobre a grande besteira que havia feito com a própria vida, Matilda buscou novamente pelo olhar do ex-namorado antes de soltar aquela bomba.

- Estas são as nossas ofertas. Em troca disso, nós queremos a sua ajuda, Cameron. – a voz de Matilda vacilou, mas ela conseguiu ir até o fim – Nós matamos a Veronika e precisamos sumir com o corpo e com as evidências.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Remus J. Lupin em Qua Maio 03, 2017 8:52 pm

Cameron se via diante de um estranho quebra-cabeça cujas minúsculas peças estavam espalhadas sobre uma mesa, sem qualquer sentido, sem que ele tivesse nem mesmo perto de descobrir qual era a imagem completa quando todo o conjunto estivesse montado.

O simples fato de Matilda ter ligado no meio da madrugada para ninguém mais que o odiado ex-namorado era pista suficiente para deduzir a gravidade da situação. Mas o estado desesperado de Connor Ward só completava as teorias que rumavam para uma tragédia.

Mesmo com a certeza de que os filhos estavam distantes daquela confusão, seguros e envolvidos em um sono reconfortante há quilômetros dali, Cameron ainda se sentia angustiado com a falta de respostas. Mas bastou que Matilda colocasse suas propostas na mesa para que o foco de Lahey mudasse.

Os olhos azuis estavam arregalados quando deslizaram do policial para a ex-governanta dos Moccia. Por um breve segundo, ele chegou a deixar de lado qualquer preocupação, apenas hipnotizado diante da tentação de poder participar da vida dos filhos. A oferta final era definitivamente surpreendente, mas Cam já havia ficado balançado com a primeira jogada de Matilda.

Enquanto sua mente tentava chegar a óbvia conclusão de que aquilo tudo não passava de um golpe ou uma piada, a explicação de Belmont finalmente ecoou pela sala escura. Mesmo com a agitação da noite, a mente de Lahey não teve dificuldades de se lembrar de Veronika.

A mãe de Matilda e Connor não passava de uma fotografia e uma ficha para Cameron, mas desde que descobrira as atrocidades que a prostituta havia cometido com os filhos, já havia despertado o ódio gratuito do segurança.

- Vocês o quê?!

O queixo de Cameron despencou e ele voltou a encarar Connor, agora finalmente compreendendo o estado devastado do policial. Cam teria todos os motivos do mundo para se sentir ofendido, ou de se negar a se envolver em mais um crime. Ele já precisava lidar com um passado sujo pelos serviços prestados aos Moccia, mas não parecia fazer sentido se enfiar naquela sujeira por dois irmãos que haviam destruído a sua família.

Ainda assim, a proposta de Matilda soava tentadora em sua mente. O lado prático de Cameron sabia que ele seria capaz de limpar a bagunça criada por Matilda e Connor e teria uma recompensa inimaginável. Era um milagre caindo em seu colo que ele não poderia ignorar.

O ar foi puxado lentamente enquanto Cameron apoiava as mãos nos quadris. Sua mente agitada logo começou a trabalhar como nos velhos tempos, como alguém que há muito tempo não andava de bicicleta mas logo reaprendia os movimentos para se manter de pé.

- Eu preciso saber de tudo.

A voz de Cameron estava assustadoramente calma quando seu olhar se voltou para Matilda. Era literalmente um profissional estudando um complexo caso que ele precisava resolver.

- Preciso saber onde começou, se alguém viu vocês, onde foi... Como foi.

As últimas palavras de Lahey foram direcionadas para Connor, mostrando que sua mente afiada já havia encontrado o real responsável por ter acabado com a vida de Veronika.

- Onde está o corpo? Preciso saber cada passo de vocês para garantir que não fique nada para trás...

O discurso de Cameron foi interrompido quando as luzes da sala foram repentinamente acessas. As três cabeças se viraram para encontrar uma assustada e confusa Michaela parada no portal que separava o restante da sala com o corredor que levava aos quartos.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qua Maio 03, 2017 10:12 pm

Depois da discussão e mais uma decepção para a coleção do relacionamento pai-e-filha entre Alessio e Michaela, enfrentar uma noite de sono tranquila estava fora de cogitação. Ainda assim, Mika estava satisfeita por ter enfrentado um táxi no meio da noite se aquilo significasse que ela poderia dormir sozinha, distante de Alessio e sua falta de noção.

Como já era esperado, Mika revirou na cama durante horas até finalmente se entregar ao sono agitado. Por isso, quando as vozes começaram a ecoar pelo seu apartamento, a mente cansada chegou a deduzir que fosse apenas fruto de um sonho confuso. Apenas quando as pálpebras de Mika foram erguidas e ela permaneceu imóvel na cama, ainda escutando os ruídos, ela compreendeu que aquilo era real.

Ainda vestindo apenas a camisola preta, ela deslizou silenciosamente para fora da cama. As vozes se tornavam cada vez mais claras, e mesmo com a expressão sonolenta e com os cachos atrapalhados, Mika já se sentia bastante desperta quando deixou o quarto.

Os pés descalços não faziam som algum enquanto ela se esgueirava pelo corredor. O coração estava acelerado e já começava a se arrepender por ter deixado a mansão do pai naquela noite. Por mais que estivesse aprendendo a viver sozinha naqueles quase dois anos, Mika nunca havia passado por uma situação como aquela.

Em um reflexo, ela agarrou o candelabro que enfeitava um móvel do corredor e prendeu a respiração quando chegou até a sala. Com a mão livre, ela tateou a parede até alcançar o interruptor, mas qualquer que fosse o bandido que esperava encontrar, a surpresa de ver os rostos de Cameron, Matilda e Connor conseguiu superar.

- Cameron???

Os ombros de Mika relaxaram nitidamente e o candelabro de ferro que ela havia erguido foi imediatamente abaixado, como uma arma que não precisava mais ser usada. Por mais bizarra que fosse aquela cena, e completamente inesperado ver Ward e Belmont em sua sala, ainda era melhor do que ver algum assaltante.

- O que você está fazendo aqui?! – Mika ergueu a mão livre e gesticulou na direção de Matilda e Connor. – O que eles estão fazendo aqui?

Com mais calma, Michaela estudou a cena a sua frente. Uma ruguinha surgiu entre as sobrancelhas claras ao notar o estado de Connor, ainda sentado ao chão. Quando sua voz ecoou novamente, já não estava mais tão exigente, mas sinceramente preocupada.

- O que está acontecendo?

- Um candelabro, Michaela? – Cameron não conseguiu conter o tom de repreensão. – Sério? Um candelabro? Achei que tivesse te ensinado melhor que isso.

- O que você esperava que eu fizesse? Aparecesse aqui com uma arma?

O candelabro foi apoiado em uma mesinha lateral e Mika cruzou os braços contra o peito, tentando minimizar a exposição pela camisola curta. Seu olhar mais uma vez parou em Connor, e mesmo que não conseguisse compreender o que estava acontecendo no meio da sua sala naquela madrugada, ela sentia a necessidade de ajudar de alguma forma.

Cameron, por outro lado, já ignorava completamente o estado de Ward. O comentário de Mika pareceu clarear algo em sua mente e, com as sobrancelhas arqueadas, ele atravessou o espaço até desaparecer pelo corredor. Quando surgiu novamente, segundos depois, trazia uma arma em suas mãos, terminando de carrega-la com munição.

- Esse negócio ainda tá aqui??? – Michaela arregalou os olhos ao ver Cam enfiar a arma no cós da calça.

- Eu preciso resolver as coisas. – Cameron ignorou a pergunta de Mika, encarando Matilda diretamente. – Alguém precisa controlar o seu irmão antes que ele borre nas calças.

- Alguém pode me explicar o que está acontecendo?! – O tom exigente de Mika voltou e ela parecia novamente a menina mimada que precisava que seus desejos fossem atendidos imediatamente.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Qui Maio 04, 2017 12:48 am

Quando o policial achou que aquela madrugada não poderia ficar pior, Michaela Moccia surgiu na sala do apartamento e mostrou a ele que o pesadelo estava muito longe de chegar ao fim. O queixo de Connor despencou diante da imagem da esposa inserida naquela cena que, definitivamente, não combinava com a inocência dela.

A óbvia confusão estampada no rosto de Michaela não deixava dúvidas de que a menina não havia escutado a confissão de Matilda. É claro que Mika era esperta o suficiente para perceber que algo muito sério havia acontecido, mas ela não seria uma cúmplice daquele crime se continuasse longe daquela história sórdida.

Por isso, quando Matilda abriu a boca para tentar explicar a presença dos irmãos Ward e Belmont naquele apartamento, Connor saltou do chão e tomou para si as rédeas da situação. As mãos do rapaz ainda estavam trêmulas quando ele passou os dedos nos olhos úmidos, em uma tentativa falha de parecer menos atormentado naquela noite.

- Não! Não se atreva, Matilda! Ela não precisa saber. A Mika não precisa se sujar nesta merda toda. Ela é provavelmente a única pessoa limpa de toda Las Vegas e é melhor que continue assim!

O discurso de Ward deixava claro que a preocupação dele era voltada para Michaela naquele momento. Connor não estava escondendo a verdade para poupar a própria pele, mas para que a ex-esposa não se tornasse uma cúmplice daquele assassinato. Mika era inocente em todos os crimes dos Moccia e Connor não queria que ela se sujasse justamente por causa dele.

Mais uma vez, ficou evidente que Matilda enxergava aquela situação com muito mais racionalidade que o policial. Enquanto Connor continuava agitado e com a mente desfocada, a caçula conseguia manter um profissionalismo semelhante ao de Cameron. Belmont obviamente não tinha a mesma experiência do segurança naquele tipo de assunto, mas sua mente funcionava com uma frieza impressionante naquela madrugada.

- Eu lamento, Conn, mas a Mika já está envolvida. Mesmo que ela não tenha ouvido nada importante, ela nos viu juntos. Se tudo isso terminar mal, ela será uma testemunha. Eu acho que ela tem o direito de saber para poder tomar as próprias decisões. – a antiga governanta dos Moccia fez uma pausa enquanto buscava pelo rosto de Michaela – Ela não é uma criança. Ela vai saber lidar com isso.

Enquanto a irmã falava, a cabeça de Connor continuou se sacudindo em negativa, num claro sinal de que ele não concordava com a opinião de Matilda. Contar a verdade a Michaela era o mesmo que obrigá-la a ser uma cúmplice de um homicídio, já que muito provavelmente a menina não teria coragem de denunciar o marido e Cameron – porque era nítido que o segurança já havia aceitado as propostas feitas por Matilda. Além disso, a oferta de amenizar a pena de Alessio certamente pesaria a consciência da única filha do mafioso.

Mas também era um fato que Connor não queria que a verdade fosse revelada para que Michaela nunca soubesse da atrocidade que ele fora capaz de fazer naquela noite. De todas as pessoas do mundo, Mika era a última que deveria conhecer aquele monstro que Ward deixara dominar seu corpo em um momento de fúria e insanidade.

Um suspiro pesado escapou dos lábios de Matilda e ecoou pelo apartamento. Belmont deslizou seus olhos por todos os presentes antes de fixar a atenção em Michaela. Quando tomou a palavra, a antiga governanta dos Moccia parecia ser a líder de uma reunião de negócios.

- A escolha é sua, Michaela. Se não quiser se envolver em um grande problema, sugiro que dê as costas pra gente, volte pro seu quarto e finja que tudo isso foi só um sonho bizarro. Agora se você decidir ficar, saiba que estará se envolvendo em uma situação que pode te dar uma passagem só de ida para a prisão. – Belmont deu de ombros antes de finalizar – Seja qual for a sua decisão, seja rápida. Cada minuto é precioso e não podemos perder muito tempo aqui.

Com poucos passos, Ward cruzou o espaço que o separava de Michaela. Os dedos de Connor estavam gelados quando ele segurou o rosto de Mika com as duas mãos e buscou ansiosamente pelas íris esverdeadas da menina. Seus polegares giraram sobre a pele dela em uma carícia que o rapaz costumava fazer no passado, em momentos absurdamente mais felizes que o atual.

A agitação do policial se refletia em cada gesto dele, no rosto vermelho e nos olhos castanhos cintilantes de lágrimas. A voz mais grave e rouca era um reflexo da tensão e da exaltação dos últimos minutos.

- Mika, confie em mim. Eu nunca faria nada para te prejudicar, você sabe disso. Volte pro quarto e esqueça que nos viu aqui. Você nunca se meteu nas sujeiras do seu pai e não precisa se afundar em uma lama ainda maior. Por favor, bambina.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qui Maio 04, 2017 3:19 am

Havia um receio sincero refletido nas íris verdes de Michaela enquanto ela encarava Connor com um ar de assombro. Ela só havia visto Ward tão exaltado daquela forma na noite em que Alessio havia sido preso, mas tudo indicava que a cena que se passava na sua sala era ainda mais delicada.

Uma parte de Mika dizia que ela deveria ouvir os conselhos de Connor. Ele parecia desesperado para que ela simplesmente desse meia volta e ignorasse o que estava acontecendo sob o seu teto. Não havia dúvidas de que Ward estava tentando protege-la de alguma coisa.

Por outro lado, a filha de Alessio ainda não havia superado a forma com que fora enganada por toda a sua vida. Descobrir sobre os crimes do pai, o envolvimento de Cameron e a traição de Connor tinham sido as piores coisas em sua vida. E ela não conseguia ignorar a sensação de que, durante todo o tempo, ela era tratada como uma criança ou um bibelô delicado que poderia facilmente ser quebrado.

Embora tivesse motivos para que as pessoas a julgassem daquela forma, Mika aprendera a crescer nos últimos anos e se recusava a voltar ao papel inocente e intocável enquanto o mundo real existia ao seu redor, fora da bolha invisível que a cercava.

As mãos de Michaela foram erguidas e ela tocou os pulsos de Connor em um gesto suave. A ruguinha entre as sobrancelhas era um pedido mudo de desculpas pelo apelo ignorado do marido.

- Matilda está certa, Connor. Eu não sou uma criança e já estou envolvida nisso. Eu quero saber.

Os olhos claros passaram pela sala, sem que suas mãos se soltassem das de Connor. Um arrepio subiu pela sua nuca com a certeza de que estava se metendo em algo sem volta, mas Mika seria incapaz de voltar a viver no escuro sabendo que Cameron e Connor estavam envolvidos em algo juntos.

Lahey mantinha um semblante sério quando cruzou os braços e encarou Michaela. Ele parecia viver um conflito entre poupar a menina, como Connor queria fazer, mas usando a razão e a frieza de Matilda de que já era tarde demais para ignorarem a presença da dona da casa.

- Veronika está morta. – Cameron fez uma pausa para encarar Connor e Matilda antes de concluir. – Eles a mataram. E agora precisam da minha ajuda para limpar a bagunça.

Michaela teve a certeza de que ainda estava em sua cama, presa em um pesadelo estranho e agitado, porque Cameron havia acabado de dizer que Connor e Matilda tinham matado alguém. Como a menina ainda parecia processar aquela informação, ela recorreu a Lahey para explicar um detalhe.

- Veronika? A mulher que você me disse que era a mãe biológica deles?

O fato de Matilda e Connor serem irmãos só foi revelado a Michaela horas depois que seu pai fora levado algemado da mansão. Apenas depois de ter conseguido a liberdade de Lahey, Cameron explicou o elo que existia entre o policial e a ex-governanta.

Como ninguém se apressou em corrigi-la, a verdade finalmente atingiu Michaela. Agora ela finalmente compreendia o desespero e a necessidade de Connor em não envolve-la naquela história. E por mais que ainda precisasse de mais tempo para processar aquela informação, ela sabia que não podia exigir nada.

- O que aconteceu?

A entonação de Mika não era mais exigente, mas com uma surpreendente empatia. Ela tinha todos os motivos do mundo para julgar os dois irmãos, de discar para a polícia naquele mesmo instante. Mas mesmo desconhecendo as ofertas de Matilda para que Cameron participasse daquele jogo, ela não estava disposta a comprar uma guerra.

- É o que eu estou tentando descobrir. – Cameron soou impaciente, puxando o celular do bolso para conferir as horas. – Já estamos demorando demais, não tenho mais tempo para isso.

As chaves do carro que tinham sido largadas sobre o móvel próximo da porta foram recolhidas. Com poucos passos, Cam atravessou o espaço até Matilda, a segurando pelo pulso sem grandes delicadezas.

- Você pode me explicar no caminho. E você... – Ele ergueu a mão com a chave do carro para apontar na direção de Connor. – Apenas tente não surtar. Nós voltamos antes de amanhecer.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Qui Maio 04, 2017 10:39 pm

- Hey, espere!

Matilda estancou os pés no chão, dificultando o trabalho de Cameron em arrastá-la até a saída. Por mais que estivesse ansiosa para limpar logo aquela bagunça, Belmont não queria correr o risco de deixar nenhum rastro para trás. E só havia uma maneira de garantir que aquele trabalho sujo fosse finalizado de forma impecável.

Os olhos castanhos buscaram pela imagem do irmão antes que Matilda se desvencilhasse dos dedos de Cameron e caminhasse até Connor. O policial não estava mais francamente histérico, mas a respiração rápida e o olhar desamparado mostravam que Ward ainda precisava de um tempo para digerir aquele pesadelo. O problema é que cada minuto perdido era valioso demais e podia significar a derrota deles.

Como policial, Connor já havia tirado vidas. No tiroteio do cassino, o antigo gerente empunhava a arma que derrubou vários dos invasores. Mas Matilda sabia que não podia comparar as duas situações. Naquela madrugada, Ward não estava a trabalho e havia tirado a vida da mãe biológica com as próprias mãos em um surto de insanidade. Era compreensível vê-lo tão abalado, mas a situação exigia que Connor voltasse a pensar com a frieza e a racionalidade de um investigador da polícia.

- Mano. – Matilda esperou pacientemente que o olhar perdido do irmão se fixasse nela – Nós precisamos de você. Eu preciso de você. Se você e o Cameron trabalharem juntos, não existe a possibilidade de deixarmos nada passar. Você vai encarar a cena com o olhar da polícia enquanto o Cameron...

Belmont deixou a frase morrer sem uma conclusão, mas Connor não poupou Lahey daquela verdade quando completou pela caçula.

- Ele vai ver as coisas na perspectiva do bandido.

- Exato. – a moça assentiu com a cabeça e soltou um suspiro antes de continuar – Por isso, eu preciso que você fique calmo. Eu sei que foi horrível, todas as nossas lembranças envolvendo essa mulher são terríveis. Mas esta pode ser a última, mano. Se fizermos tudo certo, nunca mais teremos que pensar nela. Eu preciso que você se concentre e pense como um policial nesta noite. Temos que nos livrar de todas as evidências, temos que plantar pistas que apontem para outro culpado. Você precisa vir conosco.

Embora ainda estivesse um pouco tenso quando moveu a cabeça num gesto positivo, Connor parecia mais calmo e mais disposto a ajudar naquele trabalho sujo. Com a naturalidade de alguém que já tinha morado naquela casa, Ward se moveu até a área de serviço e começou a separar os materiais necessários para o serviço pendente naquela madrugada.

Como Michaela já havia se envolvido naquela história, Matilda não pensou em descartá-la dos planos. Aliás, a ajuda de Mika seria muito bem vinda já que o tempo se tornara ainda menor depois daqueles preciosos minutos perdidos. A dona do apartamento só teve tempo de trocar a camisola por roupas mais práticas antes de se ver espremida no carrinho popular de Belmont.

Connor e Michaela se apertaram no banco traseiro, dividindo o espaço reduzido com duas cadeirinhas infantis. O policial carregava consigo um pacote inteiro com sacos de lixo preto, um frasco de desinfetante, uma caixinha com fósforos e sua antiga caixa de ferramentas, que ficara perdida em um canto da área de serviço do apartamento.

- Não achei álcool. – a voz de Connor continuava meio rouca e engasgada, mas era notável que o rapaz estava começando a recuperar a sanidade – Temos que parar em algum lugar para comprar.

- Ok. Tem uma loja de conveniência no caminho. – Matilda, que já havia tirado as chaves do carro das mãos de Lahey, assumiu o volante – Eu vou parar lá e temos cinco minutos para comprar tudo o que estiver faltando.

Os olhos da motorista buscaram pelo espelho central do carro, através do qual ela via Michaela e Connor espremidos no banco de trás. Cameron ocupou o assento do carona depois que Belmont garantiu que estava em condições de dirigir e que eles chegariam mais rápido guiados por alguém que conhecia bem o caminho.

Matilda realmente parecia calma e concentrada quando retornou com o carro para as ruas movimentadas de Las Vegas. O silêncio pesado no interior do veículo parecia exigir as explicações que até agora ainda não tinham sido fornecidas. Sem tirar os olhos do trânsito, Belmont começou a narrativa que Cameron precisava saber para ajudá-los a encobrir aquele crime.

- A volta do Connor para Las Vegas foi noticiada pelos jornais por causa de toda a repercussão da prisão domiciliar de Don Alessio Moccia. Imagino que tenha sido assim que Veronika descobriu onde encontrá-lo.

Pelo espelho central do carro, Belmont viu quando o irmão mais velho se afundou ainda mais no banco. As mãos de Connor novamente se afundaram nos cabelos castanhos, mas o policial manteve o controle das emoções enquanto Matilda continuava a sua história.

- Ela recomeçou com as chantagens, Cameron. Estava exigindo muita grana, ameaçando colocar traficantes no meu rastro... Então Connor e eu decidimos que isso tinha que acabar. A nossa ideia inicial era ir até a casa dela, fazer uma busca de drogas, armas ou qualquer coisa que pudesse garantir que ela apodreceria na cadeia. Só que ela nos pegou em flagrante e as coisas saíram do nosso controle.

Até mesmo Matilda, que até então vinha se mantendo forte e fria naquela situação, demonstrou uma certa hesitação ao se lembrar daquela parte da história.

- Ela voltou para casa mais cedo do que prevíamos e nos encontrou lá. Começamos a discutir, ela disse um monte de merda que nos arrastou de volta para as nossas piores lembranças. Ela me provocou até que eu não aguentei mais e dei uma bofetada na cara dela. Depois disso, ela avançou na minha direção... – Matilda precisou de mais uma pausa antes de concluir – Nós nos atracamos e em algum momento ela se desequilibrou, caiu e bateu a cabeça com força no chão.

Não havia nada de absurdo na narrativa de Matilda, mas as evidências não se encaixavam com tanta perfeição na história dela. Belmont estava intacta naquela noite, a pele delicada da moça não exibia nem mesmo um arranhão. Ela definitivamente não parecia ter acabado de sair de uma briga violenta. Connor, por outro lado, estava com os cabelos desgrenhados e com marcas de unhas no pescoço e nos braços.

Antes que Lahey pudesse questionar aqueles detalhes incongruentes, a voz de Ward soou no banco traseiro. O policial falava baixo, mas com a firmeza de alguém que não está inventando nenhuma mentira.

- Se quer mesmo a ajuda de um assassino profissional, não deveria mentir para o Lahey, mana. – o policial esperou que a atenção de Cameron se voltasse para ele para continuar – A história é esta até o momento em que a Veronika avançou na direção da Matilda. Depois disso, eu me meti no meio das duas. Nós nos atracamos e eu apertei o pescoço dela até que ela ficasse roxa e parasse de se mexer.

O silêncio no carro se tornou ainda mais pesado depois da confissão de Connor. Uma única lágrima escorreu pelos olhos de Matilda, mas a moça se apressou em secá-la. É claro que ela não chorava a perda de uma mãe que nunca a amara, mas toda aquela tensão começava a abalar Belmont. Ela jamais se perdoaria se o irmão fosse condenado porque a defendera. E também havia o risco de Matilda ser presa como cúmplice, já que ela não fizera nada para impedir aquela tragédia. Era muito injusto que os dois pagassem tão caro pela vida de uma mulher que acabara com a infância dos dois e se tornara um constante pesadelo mesmo na vida adulta dos filhos.

- Chegamos.

O silêncio no interior do carro só foi quebrado depois que Matilda estacionou diante de uma lojinha de conveniências de 24 horas. O posto de gasolina em frente à loja estava deserto e só havia um cliente transitando pelo setor de bebidas. A motorista chegou a soltar o cinto de segurança para fazer aquele trabalho, mas Connor abriu a porta traseira antes que a irmã fizesse mais algum movimento.

- Eu vou. Eu estou bem. Não vou demorar.

Matilda assentiu antes de suspirar e se recostar novamente no banco do motorista. Finalmente o corpo dolorido começava a refletir toda a tensão dos últimos minutos, mas a antiga governanta dos Moccia não pensava em desistir do plano.

Era difícil saber se Michaela seguiu os passos de Connor até a loja apenas para fazer companhia ao marido ou se ela notara que o casal no interior do carro precisava de um momento de privacidade. O fato foi que Matilda só voltou o olhar para o ex-namorado depois que os dois finalmente conseguiram ficar sozinhos.

No passado, os dois tinham se unido em missões que provaram que Matilda e Cameron trabalhavam bem juntos. Mas muita coisa tinha acontecido depois disso e Belmont sabia que o ex-namorado não lhe devia nada. Ela havia feito uma proposta tentadora para convencê-lo a participar do “plano Veronika”, mas no fundo Matilda sabia que não era apenas pelos filhos que Lahey mergulhara naquela loucura.

- Ao contrário do que o Connor disse, eu não liguei para você porque precisava de um bandido profissional. Eu liguei porque na minha memória ficou gravada aquela conversa na qual você me disse que eu não precisava resolver tudo sozinha, que eu podia contar com você. Obrigada por isso, Cameron. Eu realmente não iria conseguir sozinha.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Sex Maio 05, 2017 12:52 am

Não parecia haver nada suspeito no rapaz que empurrou a porta e entrou na loja de conveniências naquela madrugada. Não era esperado que nenhum cliente comum aparecesse ali às três horas da manhã, então a leve agitação de Connor Ward era facilmente atribuída a algumas doses de bebida, ou talvez um energético. Quando o balconista viu a menina que seguia os passos dele, as coisas pareceram ainda mais óbvias. Eles definitivamente não eram o primeiro casalzinho que fazia compras “de emergência” no meio da madrugada.

Depois de acenar brevemente para o balconista com traços indianos, Connor pegou uma das cestinhas e se enfiou no meio das prateleiras lotadas de produtos. Só quando se distanciou do balcão o bastante para não ser ouvido, Ward tomou a palavra, ainda sem olhar na direção de Michaela.

- Você deveria ter ficado no carro. Mas tudo bem, ignore a minha opinião. Se ela valesse alguma coisa, você nem estaria aqui.

O desabafo de Connor deixava claro que o policial havia ficado insatisfeito com a decisão de Michaela em se envolver naquela história. Ter Mika ao seu lado naquela situação era um pesadelo quase tão grande quanto a morte de Veronika. Ward nunca se perdoaria se a esposa - que saíra ilesa das sujeiras dos Moccia - acabasse envolvida em um crime tão grave cometido por ele.

Os olhos castanhos estavam focados nas prateleiras em busca dos produtos necessários para o “serviço” daquela noite, mas a concentração de Connor também era uma excelente desculpa para que ele não precisasse olhar para Michaela. O mundo já estava desmoronando ao redor de Ward e ele sabia que não iria suportar toda aquela pressão se visse a decepção estampada nas íris esverdeadas de Mika.

De todas as pessoas do mundo, Michaela Moccia era a última que Connor gostaria que conhecesse a verdade sobre a morte de Veronika. Naquela noite, Ward havia se rendido a um surto de ódio no qual ele extravasara todos os fantasmas do seu passado. Enquanto estrangulava Veronika, ele não era um policial, não era um homem mais forte que a prostituta. Ele era o mesmo garotinho que sofreu os piores maus tratos em sua infância, que apanhou, passou fome e assistiu de perto as barbaridades que a mãe fazia com Matilda sem conseguir defendê-la. Naquela noite fatídica, Connor finalmente tinha força para salvar a irmãzinha.

Contudo, nenhum tribunal levaria os traumas de Ward em consideração. Diante de um júri, ele seria apenas um policial que usara as próprias mãos para matar uma vítima indiscutivelmente mais fraca do que ele. O fato de Veronika estar desarmada naquela noite não abria brecha sequer para uma alegação de legítima defesa. E era esta a visão que Connor temia que Michaela tivesse.

Após dois anos sem qualquer notícia da esposa e depois do acordo de divórcio, Connor não tinha mais esperanças de se acertar com Mika. Era evidente que os dois tinham seguido por caminhos diferentes e que não havia mais nenhuma chance de reconciliação. Mas, ainda assim, Ward se importava com a opinião de Michaela. Era desesperador pensar que, depois daquela noite, Mika se lembraria dele como um homem violento, um assassino cruel escondido sob o uniforme da polícia.

Uma garrafa de vodca foi puxada para dentro do cestinho quando Connor passou rapidamente pela prateleira de bebidas. O policial também acrescentou duas barras de chocolate naquela compra e misturou a garrafinha de álcool no meio de duas ou três de água mineral. Por fim, Ward se encaminhou para o setor de higiene pessoal e não fez a menor questão de esconder os três pacotes de preservativos jogados por cima dos demais itens. Pela primeira vez, o policial dirigiu sua atenção para Mika enquanto murmurava.

- A minha ideia era entrar sozinho e bancar o bêbado solitário da madrugada. Mas a sua companhia mudou o foco da cena. Vamos dar ao público o que ele quer...

O balconista exibia um sorrisinho torto para o casal quando Connor apoiou o cestinho no balcão. O funcionário havia acreditado facilmente que os dois eram só mais um casalzinho que fizera uma parada ali antes de partir para uma animada noite de sexo e bebedeira em algum motel de segunda linha. Se no futuro alguém o questionasse sobre algum cliente com um comportamento estranho naquela madrugada, o balconista provavelmente descartaria aqueles dois jovens.

- Qual a forma de pagamento, senhor?

- Dinheiro...

Connor tirou a carteira do bolso traseiro da calça e, por estar tão desconcentrado naquela noite, simplesmente se esqueceu de um pequeno detalhe. Só quando abriu a carteira e se deparou com a foto, Ward se deu conta de que deveria ter escondido aquele segredo de Michaela.

Mesmo depois de dois anos, Connor ainda guardava na carteira uma foto tirada na lua-de-mel. Na imagem, o casal se apertava para se encaixar na mesma selfie. Mika estava pendurada no pescoço do marido enquanto Ward, com os olhos fechados, depositava um beijo carinhoso na testa dela. A fotografia fora tirada depois de uma briguinha que motivara o surgimento de “Gertrudes”, o que justificava a localização do beijo recebido por Mika naquela ocasião.

Uma nota de cinquenta foi tirada rapidamente da carteira e entregue ao balconista, mas já era tarde demais para evitar o estrago. Michaela acabara de descobrir que, mesmo depois de dois anos de separação, Connor não tivera coragem de se livrar da sua foto preferida.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Remus J. Lupin em Sex Maio 05, 2017 3:47 am

Os olhos azuis encaravam a noite através do vidro fechado do carro. O rosto de Lahey era refletido contra a janela, mostrando um semblante sério e pensativo. A testa franzida denunciava a concentração de Cameron enquanto sua mente articulava os próximos passos daquela noite.

Mesmo depois de toda mentira, manipulação e traição de Matilda, Cameron estava mais uma vez entregue a ex-governanta. E por mais que tentasse se convencer de que o único motivo para estar ali, naquela madrugada, ajudando os dois maiores traidores da família Moccia, era pelo preço que seria pago.

Ainda assim, Lahey não podia ignorar a sensação de alívio que se espalhou pelo seu corpo quando Ward confessou ter sido ele a colocar um fim à vida de Veronika. Desde o passado, Cameron não teria encontrado qualquer dificuldade para fazer o trabalho que caíra nas mãos do policial naquela noite. O passado da prostituta era tão repugnante que Cam teria poupado a todos a tragédia daquela noite em uma ação muito mais limpa. Mas estava grato por saber que ao menos Matilda havia sido poupada.

Claro que Belmont estava envolvida naquela história até o fim. Mas a cena poderia ser completamente diferente se fosse a mulher que precisasse lidar agora com a indigesta ideia de ter ceifado uma vida, se fosse ela completamente transtornada.

Quando a voz de Matilda ecoou pelo carro, o olhar de Cameron continuou preso em um ponto distante da noite. Durante alguns segundos, nada foi dito e quase dava a impressão de que Lahey não havia escutado as palavras dela, mesmo na ridícula distância que estavam dentro do carro.

- Nós sempre fomos bons parceiros de crime, hm?

O rosto de Cameron girou lentamente até que pousasse o olhar sobre Matilda. Não havia nenhuma sombra de sorriso em seus lábios para denunciar a brincadeira e a intensidade nas íris azuis mostrava que Cam estava sendo sincero.

- Não se preocupe, eu não me ofendi com o comentário do seu irmão.

De fato, Lahey não se sentia provocado em ouvir a alfinetada de Ward. Principalmente quando ele levava em consideração que o irmão de Matilda agora teria os próprios monstros para assombrá-lo. A morte de Veronika poderia ser uma conquista, mas Cameron não deixava de se sentir gratificado por ver que Connor agora teria a própria consciência pesada para lhe atormentar, depois de tudo que havia feito contra os Moccia.

Aqueles mesmos sentimentos negativos, entretanto, não refletiam em Matilda. Belmont era tão culpada no fracasso dos Moccia quanto Ward, mas quando olhava para aquela mesma cena daquela noite, só o que Cameron conseguia pensar era que a ex-namorada finalmente estava livre de Veronika.

O lado racional de Cameron sabia que aquele pensamento era um perigo. Era ele, mais uma vez, se deixando cegar pelo que sentia por Matilda. Mas diferente de dois anos atrás, Lahey não permitiria que seus sentimentos atrapalhassem seu julgamento. Belmont pertencia a um passado, a uma grande mancha de decepção e traição e aquilo não iria mudar.

- Mas se quer saber o que eu realmente penso, estou feliz com o que ele fez. Pode ser o meu lado bandido profissional, mas eu lamento por não ter resolvido isso antes.

O olhar de Cameron deslizou até o vidro frontal do carro. Ele estudou o posto de gasolina completamente deserto por alguns segundos antes de se voltar para Matilda. Sua expressão estava mais suave quando ele recostou a cabeça contra o encosto do banco, sem desviar o olhar dela.

- E você? Como está se sentindo? E não me venha com toda esta bobagem que você está encenando para o seu irmão. Eu sei o que é precisar ser forte para segurar a barra, então não tente isso comigo.

Como ainda esperava que Matilda fosse tentar escapar daquela pergunta mais íntima, Cameron não hesitou em completar o pensamento que vinha lhe acompanhando a noite toda.

- Estamos em um mundo melhor sem a Veronika, Matilda. Nossos filhos estão em um mundo melhor, sem que aquela mulher possa jamais fazer qualquer coisa contra eles como fez com você.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sex Maio 05, 2017 4:14 am

Aquilo tudo parecia fazer parte de um sonho muito bizarro. Durante todo o trajeto de carro, Mika poderia jurar que acordaria a qualquer momento, ficaria algumas horas confusa refletindo sobre o significado daquilo e logo iria rir com a imaginação fértil que a colocava na mesma cena que Cameron, Matilda e Connor.

Se a presença de Ward por si só era inusitada, considerando que no último mês os dois tinham se encontrado uma única vez na delegacia, rever Matilda era algo ainda mais bizarro. A última vez que Mika e a ex-governanta tinham se encontrado, Alessio deixava a mansão com algemas em seus pulsos. Desde então, a irmã de Connor havia desaparecido no mundo apenas para surgir em sua sala no meio da madrugada.

A história sobre Veronika havia provocado um frio na espinha de Michaela. Ela não conseguia imaginar Connor perdendo o controle ao ponto de matar alguém. Um conflito reinava no interior de Mika, enquanto ela se corroía em ver o estado abatido de Ward e a vozinha que insistia em dizer que ela não o conhecia.

Depois de ter visto o gerente do cassino se transformar em um policial com uma vida completamente diferente da que ela acreditara, uma vozinha irritante lhe lembrava constantemente que não deveria ser uma grande surpresa assim ver mais uma vez a imagem de Connor sendo transformada.

Mas cada vez que buscava pelos olhos do marido naquela noite, Mika encontrava cada vez mais o homem que ela havia conhecido, mas completamente perdido e precisando da sua ajuda.

- Isso é mais que uma questão de opinião, Connor... – Mika cruzou os braços aquecidos pela jaqueta jeans enquanto o acompanhava pela loja. – O que você esperava que eu fizesse? Voltasse para cama, afundasse a cabeça no travesseiro e sonhasse com vestidos Prada e unicórnios?

Mesmo com a loja vazia, Mika tomava o cuidado de sussurrar, mas sua entonação não parecia em nada furiosa ou decepcionada. Ela realmente sentia a necessidade de fazer Connor entender o motivo de ter tomado a decisão de acompanha-los naquela noite.

As íris esverdeadas giraram quando os pacotes de camisinha foram jogados na cestinha e ela acompanhou os passos de Connor há uma curta distância até o balcão. Mesmo em meio a toda agitação daquela noite, Mika ainda conseguiu fazer uma careta para o atendente quando encontrou o sorrisinho malicioso do indiano.

Ela estava pronta para abrir a boca e dar uma resposta atravessada ao atendente quando a fotografia na carteira de Connor entrou em seu campo de visão. O rosto de Mika se transformou da careta rabugenta para uma expressão surpresa.

Os lábios continuaram entreabertos e os olhos claros presos em Connor até que o troco fosse entregue e as compras enfiadas em sacolas. Seus pés só se mexeram quando a mão de Ward tocou suas costas para guia-la para fora da loja.

Mika se lembrava claramente do dia daquela fotografia. Assim como ela se lembrava de cada briga, cada reconciliação e cada momento ao lado de Connor. O mais marcante ainda era a decepção de vê-lo algemando Alessio, porque havia sido naquele momento que Mika duvidou do amor dos dois.

Mesmo com a confissão e por ter implorado que ela desse uma nova chance ao casamento dos dois, Matilda sempre tivera a impressão de que Connor nunca a amara de verdade. Que o relacionamento dos dois só havia existido como uma forma de se aproximar e destruir o reinado de um mafioso. Mesmo com todas as palavras que Connor havia dito na noite que tudo havia se transformado, era a primeira vez que Mika cogitava alguma sinceridade nos sentimentos dele.

Os dois já estavam há quase metade da distância até o carro de Matilda quando Michaela parou de andar. Ela ergueu a mão e agarrou a manga do casaco de Connor, impedindo que ele desse mais um passo, e só quando os olhos castanhos se voltaram a ela, as palavras saíram de sua boca.

- O Cameron é bom no que faz. Você, melhor do que ninguém, deveria saber disso. Ele está aqui para resolver as coisas. – Mika fez uma breve pausa, sem ao menos piscar enquanto encarava Connor. – E eu estou aqui por você. Porque o Cam pode cuidar de tudo, mas ele não vai te dizer que vai ficar tudo bem. Então eu estou aqui para isso, Connor. Para dizer que vai ficar tudo bem.

Durante todo o relacionamento com Ward, era possível contar nos dedos as vezes em que Michaela realmente tinha baixado a guarda. O tiroteio no casino e o casamento eram exemplos clássicos de como a menina mimada e arrogante conseguia se transformar quando se tratava de Connor Ward.

- E para cuidar desse arranhão no seu pescoço... – Ela esboçou um sorriso, erguendo um ombro em uma tentativa de minimizar o constrangimento daquela cena. – Posso cuidar disso depois.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Sex Maio 05, 2017 11:43 pm

Pela primeira vez naquela noite, Matilda permitiu que seu rosto demonstrasse toda a exaustão que ela sentia. A antiga governanta dos Moccia se afundou mais no assento do motorista, respirou profundamente e levou os dedos aos olhos, coçando-os na tentativa de amenizar aquela sensação de ardência.

Exatamente como Cameron acabara de insinuar, Belmont estava se desdobrando para manter a racionalidade naquele pesadelo. Connor havia perdido completamente o controle e, se Matilda não tivesse sido a mente forte da situação, os dois já teriam feito alguma bobagem que os incriminaria. Mas não era fácil demonstrar tanta frieza diante de um assassinato, mesmo que Matilda no fundo se sentisse muito mais leve em pensar que Veronika nunca mais a atormentaria.

- Eu podia ter evitado isso.

A confissão soou num sussurro. Os olhos castanhos se mantiveram fixos em um ponto qualquer do posto de gasolina deserto e a voz de Belmont só chegava aos ouvidos de Cameron graças ao silêncio profundo no interior do carro.

- Não foi rápido, Cameron. Os dois lutaram por um bom tempo... O Connor estava completamente fora de si, ela se esforçou muito para tentar escapar das mãos dele. E eu continuei parada na frente dos dois, assistindo a cena sem mover nenhum músculo.

Não havia nenhum arrependimento naquela confissão, mas a ruguinha que surgiu entre os olhos de Matilda denunciava que a moça não sairia daquela história sem o seu próprio fantasma. Veronika era a pessoa mais desprezível que já passara pela vida de Belmont, mas mesmo assim Matilda sentia um gosto amargo na garganta com a ideia de que fora responsável pela morte da mãe biológica.

- Eu podia ter gritado, ter sacudido o Connor para que ele voltasse a si, ter puxado ele para trás... Mas tudo o que eu fiz foi assistir a cena até que Veronika parasse de se debater.

Vagarosamente, os olhos castanhos buscaram pelo rosto de Cameron. Uma longa pausa antecedeu mais aquela confissão que escapou pelos lábios da antiga governanta dos Moccia.

- A única coisa que a minha mente conseguia pensar naquele momento era que os nossos filhos seriam mais felizes em um mundo sem a Veronika.

Pela primeira vez, Matilda se referiu aos gêmeos como “nossos filhos”. Poderia parecer um detalhe pequeno, mas aquela expressão já demonstrava que a moça cumpriria a sua palavra e não dificultaria a aproximação entre Cameron e as crianças. Apesar de todo o passado conturbado com o ex-namorado, Matilda sabia que Lahey morreria pelos bebês e jamais faria nenhum mal aos filhos.

- Ela nunca nos deixaria em paz. Viveríamos sempre com medo, sempre esperando que ela surgisse com mais ameaças, exigindo mais dinheiro. Eu não aguentava mais e não queria que as crianças vivessem o mesmo pesadelo. Ela seria eternamente uma sombra no parquinho, ou na saída da escola, em uma viagem de férias... Eu não podia permitir que o Dave e a Dedé passassem por isso, então eu usei indiretamente as mãos do Connor para colocar um fim nesta tortura. Eu sou tão culpada quanto ele, por isso não posso deixar que o Connie se ferre sozinho.

Pelo pouco que Cameron conhecia dos irmãos, já era possível notar que Ward e Belmont eram muito unidos. Matilda havia se arriscado muito ao ingressar na “missão Moccia” para ajudar Connor e o policial voltara toda a sua preocupação para a irmã quando as máscaras dos dois caíram. Portanto, não era exatamente uma surpresa que os dois se unissem naquele momento delicado. Belmont podia ter simplesmente fugido e deixado que o irmão se denunciasse, mas ali estava ela, disposta a sujar as mãos ainda mais para que Ward escapasse ileso daquele crime.

A companhia de Cameron tornava aquele pesadelo mais suportável. Matilda sabia que não podia demonstrar fraquezas ou dúvidas diante do desespero do irmão mais velho, mas Lahey estava ali para ajudá-la a carregar o peso da situação. Como de costume, diante de Cameron não havia a necessidade de encenação, ele sabia que Belmont não era tão forte e destemida quanto gostava de parecer. Era um alívio poder dividir com alguém todo o peso que empurrava seus ombros para baixo. Se Lahey não estivesse ali, certamente Matilda já teria vacilado e cedido à pressão.

- Quando a Michaela apareceu no apartamento, eu achei que tudo estava arruinado. Estou muito surpresa com o comportamento dela. Mas eu realmente não sei se ela terá estômago para participar das cenas que estão por vir. Talvez fosse melhor... – uma pausa foi feita enquanto os olhos de Matilda buscavam novamente pela porta da loja – Mas o que...? Eu não acredito nisso! Esses dois estão de brincadeira, né???

Quando seguisse o olhar de Matilda, Cameron compreenderia a surpresa da ex-namorada. No meio do posto de gasolina deserto, Connor e Michaela ignoravam o resto do mundo enquanto protagonizavam um beijo cinematográfico.

Os olhos de Belmont se estreitaram e ela sacudiu a cabeça em negativa, revoltada em perder mais alguns minutos valiosos. Mas, no fundo, Matilda sabia que a sua revolta era temperada com uma boa dose de inveja. Belmont também queria poder extravasar a tensão daquela forma, mas o abismo criado entre ela e Cameron tornava aquela cena bastante improvável. Além disso, alguém ali precisava ser racional. Enquanto eles perdiam tempo, o cadáver de Veronika continuava abandonado no mesmo apartamento imundo onde Connor e Matilda foram criados.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Sab Maio 06, 2017 12:35 am

O mundo que girava de forma caótica ao redor de Connor Ward entrou novamente nos eixos quando as palavras de Michaela o atingiram naquela noite. O queixo do policial desabou, deixando seus lábios entreabertos enquanto a sua mente tentava digerir o discurso de Mika. Os ombros de Connor visivelmente relaxaram e, pela primeira vez naquela noite, o semblante atormentado sumiu do rosto do rapaz.

Todos que conheciam Michaela Moccia exaltavam a paciência de Connor e o questionavam sobre a sua tolerância para aguentar a personalidade da menina. O próprio Alessio havia forçado aquele casamento como uma espécie de punição que obrigaria Ward a conviver com Mika por mais tempo. Michaela era absurdamente autoritária, mimada, arrogante e egoísta. Mas era nos raros momentos em que ela baixava a guarda que Connor se rendia.

O coração de Ward se aquecia em saber que, por ele, Mika conseguia deixar de ser a herdeira dos Moccia. Aquelas demonstrações de afeto poderiam parecer tolas para um casal normal, mas Connor sabia o quanto era difícil para Michaela deixar de lado o seu orgulho abissal. E ela fazia isso por ele. Só por ele.

Por prolongados segundos, os dois apenas se encararam sem piscar. As palavras de Michaela foram capazes de aquecer o corpo do policial e de lhe trazer de volta a sanidade perdida naquela madrugada sem fim. O mundo de Connor não estava mais desmoronando agora que Mika estava ao seu lado. A simples presença da menina dava a Ward a coragem de seguir adiante naquele pesadelo.

A alça da sacola de compras escorregou até o cotovelo de Connor enquanto ele dava um passo adiante, sem quebrar o contato com os olhos esverdeados da menina. O coração do policial deu um salto dentro do peito quando percebeu o que estava prestes a acontecer ali.

Os olhos se mantiveram presos enquanto as respirações mais pesadas ecoavam pelo posto de gasolina vazio. Exatamente no mesmo instante, os dois exterminaram a pequena distância que os separava e uniram os lábios no encaixe perfeito que ambos já conheciam tão bem.

A saudade não permitiu que eles fossem breves ou discretos. Exatamente como na foto guardada na carteira de Connor, Mika amenizou a diferença nas estaturas se pendurando no pescoço do marido enquanto Ward inclinava o tronco um pouco para frente. Os lábios se moviam com a harmonia invejável de um casal que já havia feito aquilo inúmeras vezes, e ainda assim não se cansava da sensação do beijo.

Era impressionante o poder de Michaela em resgatar Connor do fundo do poço e salvá-lo do pior dia de sua vida. Quando os pulmões imploraram por ar e obrigaram o casal a interromper o beijo, Ward definitivamente não era mais o mesmo homem atormentado que Mika encontrara no chão do apartamento no início daquela madrugada. Um sorriso fácil brincava nos lábios do policial e os olhos castanhos brilhavam enquanto ele levava as mãos ao rosto delicado da esposa e a acariciava com um giro dos polegares.

- Temos que ir, bambina.

Por mais que quisesse arrastar Michaela para longe daquele pesadelo para que os dois aproveitassem cada segundo daquela reconciliação, Connor sabia que não podia fugir das suas responsabilidades. Qualquer chance de um futuro ao lado de Mika dependia de um serviço bem feito naquela madrugada. E a ideia de ter Michaela em seu futuro dava a Ward toda a motivação que ele precisava para se empenhar naquele trabalho sujo.

Com as mãos unidas e os dedos entrelaçados, os dois completaram o caminho até o carro de Matilda. Assim que os dois se acomodaram no banco traseiro e receberam um olhar nada amigável da motorista, Connor percebeu que eles não tinham sido nada discretos. Contudo, ao invés de se sentir culpado ou constrangido, o policial abriu um sorrisinho irônico para a irmã. A piadinha mostrava que o Ward descontrolado havia ficado para trás e que o policial estava pronto para enfrentar as dificuldades daquele serviço.

- O que está esperando, mana? Seja profissional, não podemos perder tempo.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Remus J. Lupin em Sab Maio 06, 2017 4:11 am

A confissão de Matilda só mostrava que, apesar de toda a fachada que ela precisava bancar naquela noite, era realmente dona de uma força impressionante. Qualquer pessoa normal ficaria insano depois dos acontecimentos daquela noite, e mesmo que Belmont se sentisse forçada a ter ocupado aquele papel de liderança, Cameron sabia que não poderia esperar nada menos da ex-namorada.

Suas mãos formigavam com o desejo de interromper o curto espaço que existia entre ele e Matilda. Era quase uma necessidade física poder tocá-la, o que só o fazia ter consciência do tempo em que não sentia o calor e a textura da pele de Belmont sob seus dedos.

Naqueles poucos minutos dentro do carro, Lahey se sentia transportado para o passado onde tinha toda a liberdade do mundo para abraçar ou beijar Matilda. Quando a traição contra os Moccia não existia para obriga-lo a manter distância. Ele queria apenas acabar com aquele abismo que havia sido criado entre os dois.

O peito de Lahey se aqueceu ao ouvir da boca de Matilda a referência aos filhos. A consciência de que agora era um pai já havia dominado Cameron no último mês. Mas ao contrário de tudo que se espera do início de uma paternidade, tudo o que Cam experimentou foi a angustia e o desespero diante da possibilidade de não participar da vida dos filhos.

Aquele detalhe poderia soar bobo aos ouvidos de Matilda, mas significava o mundo para Cameron. Era como se aquela declaração tornasse oficial o fato dos gêmeos serem seus filhos. E Cameron estava disposto a mergulhar naquela nova sensação quando o clima do carro mudou bruscamente.

Os olhos azuis giraram em impaciência quando Connor e Michaela retornaram ao carro, mas assim como Matilda, havia uma secreta pontada de inveja do passo que o policial havia dado naquela noite. Seu coração chegava a bater mais rápido, como se tentasse passar a mensagem de que era possível perdoar a traição dos irmãos Belmont e Ward. O gritante diferencial entre ele e Matilda, entretanto, era que Michaela havia se apaixonado por Connor. Até onde Cameron sabia, ele havia sido apenas parte do jogo de Matilda que chegara longe demais.

- Parece que esse carro está cheio de profissionais, afinal de contas. – Cam resmungou, puxando o cinto de segurança quando o carro começou a se mover.

Quando o som dos pneus denunciou que haviam deixado o posto de gasolina para alcançar a estrada novamente, Cameron se inclinou para frente, ligando o rádio. A música pop encheu o interior do veículo e foi a vez de Lahey lançar um sorrisinho torto.

- O que foi? Não vai fazer diferença alguma no nosso tempo escutar um pouco de Beyonce.

A tentativa de descontrair aquele momento, entretanto, não durou mais do que alguns minutos. Mesmo em uma cidade como Las Vegas, os bairros mais afastados ficavam completamente desertos em meio a madrugada, formando um cenário assustador.

Era notável como eles tinham deixado a zona turista quando as ruas começaram a ser cercadas por prédios abandonados e caindo aos pedaços. Nem mesmo moradores de rua pareciam se aventurar pelas calçadas, provavelmente enfiados em algum abrigo ou algum dos prédios isolados. O máximo de uma movimentação que Cameron presenciou foi um rato correndo entre um amontoado de lixo próximo ao que deveria ter sido um ponto de ônibus algum dia.

O que parecia ser o fim do mundo, era visto por Cameron como um ótimo presságio. Quanto menos testemunhas, maiores as chances de terminarem aquele serviço com sucesso.

Enquanto Cam ainda estudava a rua escura, ele sentiu o carro parando repentinamente. Por um instante, perdido em seus pensamentos, ele chegou a procurar pelo rosto de Matilda com um semblante confuso, até compreender que haviam chegado.

O rádio foi imediatamente desligado e até mesmo Cameron parecia mais tenso quando encarou o prédio que provavelmente serviria como cenário do seu “trabalho” naquela noite.

- Bom, cá estamos. – Ele lançou um rápido olhar para o banco traseiro antes de se voltar para Matilda.

Belmont estava certa que as cenas seguintes não seriam fáceis. Mas Cameron sabia que aquela dificuldade não seria exclusiva de Michaela. Aquele momento atormentaria a ex-governanta para sempre.

- Vocês não precisam subir... – Cameron se revirou no banco para encarar Michaela, se referindo as duas meninas do carro. – Parece que o Ward consegue andar com as próprias pernas agora, nós conseguimos dar conta do recado.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Sab Maio 06, 2017 10:28 pm

- Deixe alguns sacos de lixo aqui. – Matilda explicou diante do olhar confuso do irmão mais velho – Eu vou forrar o porta-malas.

A ideia de enfiar um cadáver no porta-malas do mesmo carro que ela usava para levar as crianças para passear era abominável, mas Matilda sabia que eles não tinham tempo para este tipo de dilema. Aquele serviço sujo precisava ser feito, então era melhor que eles deixassem de lado os detalhes para garantir a eficiência do trabalho.

Quando Cameron e Connor sumiram de vista no interior do prédio, Belmont tentou se convencer que havia ficado para trás por causa de Michaela. Era óbvio que a filha de Don Alessio Moccia não conseguiria participar ativamente do que aconteceria naquele prédio, e também não podia ser deixada sozinha no carro em uma rua deserta e periférica.

Contudo, no fundo, Matilda sabia que não era apenas por Mika que ela ficara para trás. A reação da governanta após a morte de Alec provava que, por mais forte que Belmont tentasse parecer, ela não tinha tanta frieza quanto gostaria para lidar com aquele tipo de problema.

Depois que o porta-malas estava devidamente pronto para receber o corpo de Veronika, Matilda voltou para o assento do motorista. O bairro deserto parecia ainda mais ameaçador graças ao silêncio profundo no interior do carro. Os olhos castanhos buscaram pelo espelho central e observaram a menina sentada no banco traseiro sem que Belmont soubesse como quebrar aquele gelo.

A grande verdade era que, embora as duas tivessem morado sob o mesmo teto durante vários meses, Mika e Matilda nunca tinham construído nada parecido com uma relação de amizade. Michaela era apenas a filha mimada do patrão, enquanto Belmont era somente a governanta da casa e a namorada de Cameron. O único momento de maior proximidade entre as moças fora após o atentado ao cassino, quando Matilda levara Mika até o hospital, ambas sedentas por notícias de Connor.

Naquela madrugada, portanto, elas pareciam duas estranhas que tinham caído de paraquedas na mesma cena. Olhando de longe, não parecia haver nada em comum entre as duas moças. Mas Matilda sabia que havia um laço forte entre elas. As duas amavam os mesmos homens, de maneiras distintas. Cameron era como um irmão para Mika, o que fazia com que elas ocupassem exatamente a mesma posição na história dos Moccia.

- Eu imagino que você vai acabar conhecendo os dois pessoalmente. Mas até lá...

A maneira encontrada por Matilda para quebrar o silêncio pesado do carro foi estender o próprio celular na direção de Michaela. Na tela, dois bebês adoráveis abriam sorrisinhos enormes para a câmera. As roupinhas deixavam claro que era um casal e o garotinho sem dúvida era o mesmo que Mika vira no celular de Connor há algumas semanas.

A foto só reforçava o que Michaela já deveria ter concluído depois de ver as duas cadeirinhas infantis no banco traseiro. Cameron não só era pai, como se tornara pai de gêmeos. Os olhos da menina e o sorrisinho do menino não abriam brecha para que Mika duvidasse da paternidade de Lahey.

A expressão carinhosa de Matilda e o sorriso que brotou nos lábios dela eram típicos de uma mãe coruja. O dedo da motorista deslizou sobre a tela, puxando uma segunda foto em que os bebês estavam sentados sobre a mesa da cozinha, lambuzados com a calda de chocolate do bolinho que fora feito para comemorar o primeiro ano de vida dos gêmeos.

- Eu sei que não é o melhor momento. Definitivamente não é. – os olhos castanhos giraram, mas o sorriso de Matilda não se abalou – Mas é difícil me conter. Se algum dia você tiver um bebê, você também vai agir como uma idiota derretida na maior parte do tempo.

Belmont ficou um pouco mais séria enquanto inclinava o corpo um pouco mais para conseguir encarar Michaela.

- Um pedido de desculpas não muda nada, eu sei. Mas eu realmente lamento por tudo. Você pode não acreditar, mas foi muito difícil para mim. Eu entrei nisso para ajudar o Connie, mas eu me envolvi mais do que deveria. – com um movimento de cabeça, Matilda indicou as duas crianças na tela do celular – Muito mais.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Sab Maio 06, 2017 10:29 pm

Mesmo Cameron Lahey, já acostumado a cenas semelhantes àquela, precisaria de alguns segundos a mais para se situar na minúscula sala do apartamento de Veronika. O lugar era imundo, como se estivesse abandonado há anos. A tinta nas paredes estava velha e descascada em diversos pontos, havia manchas ressecadas no tapete, os móveis pareciam ter sido recolhidos de um lixão.

O cheiro de podridão era sufocante, como se o local não visse uma limpeza há décadas. Garrafas de bebida vazias ou pela metade estavam espalhadas em todos os cantos, havia pratos com restos de comida sobre os móveis, preservativos usados jogados pelo chão. E, bem no meio do tapete corroído da sala, estava o corpo.

Os olhos castanhos de Veronika, idênticos aos dos filhos, estavam abertos e vidrados, totalmente sem vida. A boca entreaberta em uma expressão congelada de pânico mostrava que a morte não havia sido suave para a prostituta. Os cabelos desgrenhados se espalhavam de forma caótica pelo chão, várias unhas da mulher estavam quebradas e as marcas arroxeadas em volta do pescoço dela não permitiriam que nenhum perito deixasse de apontar o estrangulamento como causa da morte de Veronika.

Quando se deparou com aquela imagem, Connor agradeceu mentalmente por Michaela não ter insistido em subir. Mika não precisava ter aquele pesadelo para atormentá-la durante o resto de sua vida.

Embora estivesse mais calmo e centrado no serviço que precisava ser feito naquela madrugada, Connor Ward precisou respirar fundo algumas vezes. Estar de volta naquela casa que lhe trazia as piores lembranças já era uma grande tortura. Mas o policial tentava se convencer de que tudo terminaria bem. É claro que Ward nunca tiraria aquela imagem da memória, mas ele se consolava com a ideia de que o mundo seria um lugar melhor sem Veronika. Os sobrinhos cresceriam sem aquela sombra para atormentá-los, Michaela jamais teria que lidar com as chantagens daquela mulher.

Como profissionais, Connor e Cameron cuidaram de todos os detalhes. A sala foi vasculhada sistematicamente e os dois limparam todos os possíveis rastros. A polícia não encontraria impressões digitais de Connor ou de Matilda, nem mesmo um fio de cabelo foi deixado para trás. Não havia sangue para manchar o chão ou as paredes, então os dois rapazes só tiveram que envolver o corpo de Veronika nos sacos de lixo e enrolá-lo no tapete imundo da sala.

As gavetas foram reviradas e todos os objetos de valor foram enfiados em uma sacola, assim como todo o dinheiro encontrado na casa. Aquele detalhe reforçaria a hipótese de um latrocínio ou de um acerto de dívidas com um traficante. A polícia não teria nenhum trabalho para encontrar as drogas que provavam que Veronika era uma viciada.

Mas a parte mais difícil ainda estava por vir. O corpo de Veronika continha as maiores provas contra o seu agressor. Os arranhões no pescoço de Connor indicavam que o DNA dele seria encontrado sob as unhas da vítima. E só havia uma maneira segura de destruir aquelas evidências. A caixa de fósforos tirada da despensa de Michaela e o álcool comprado na loja de conveniências mostravam que Ward sabia o que fazer mesmo sem as orientações de Cameron.

- Ainda temos duas horas antes que comece a amanhecer... – Ward comentou depois de conferir o relógio de pulso – É melhor fazermos isso enquanto ainda está escuro. Vamos levar o corpo até algum ponto afastado do deserto, queimamos e depois nos livramos do que sobrar.

Embora não demonstrasse a mesma frieza de um assassino profissional, estava claro que Connor havia recuperado a racionalidade. Aquele crime o atormentaria para sempre, mas as palavras de Matilda começavam a fazer cada vez mais sentido na cabeça do irmão. Connor não queria ser preso. Não era justo abrir mão da própria liberdade por causa de uma mulher que o maltratara de todas as maneiras possíveis e que destruiu a sua infância sem nenhuma piedade.

- Eu não me orgulho disso, Lahey.

Os olhos castanhos deslizaram de Cameron para o volume embrulhado no tapete da sala. Connor e Cameron nunca tinham sido amigos e, mesmo nos bons tempos do império dos Moccia, os dois tinham tido pouco contato. O segurança de Don Alessio sempre fora visto pelo policial como um cão que cumpria cegamente as ordens do patrão e depois como um miserável que seduzira sua irmãzinha.

Naquela noite, porém, Connor enxergava além da máscara de Lahey. Talvez por também ter se tornado um assassino, Ward não conseguia mais julgar Cameron de maneira tão rigorosa. Connor havia matado para defender a irmã e os sobrinhos, assim como Cam agia para proteger as pessoas que amava.

- Mas eu também não consigo me arrepender. Eu perdi as contas de quantas vezes vi a minha irmãzinha ser maltratada aqui, nesta mesma casa. Antes eu não tinha forças para salvá-la, mas esta noite eu tive.

Os olhos castanhos novamente buscaram pelo rosto de Cameron. O semblante exausto de Connor não escondia o quanto ele estava abatido depois da tensão das últimas horas, mas era evidente que o policial teria forças para terminar aquele serviço.

- Eu sei que não somos amigos e que você provavelmente nunca vai perdoar a minha traição. Também sei que você não está fazendo tudo isso por mim. Mas eu te agradeço de qualquer forma. – uma breve pausa foi feita antes que Connor completasse o discurso – Eu vou cumprir com a minha parte do acordo.

Era óbvio que o policial estava se referindo ao depoimento que condenara Don Alessio Moccia. Não havia nenhuma maneira de inocentar o mafioso do crime de estelionato depois que o galpão lotado de produtos falsificados foi revirado e vários documentos assinados por Moccia foram arquivados como provas.

Mas Connor podia ajudar o mafioso se retirasse as demais acusações. Se o policial confessasse que não tinha certeza do envolvimento de Alessio nas mortes e torturas encomendadas pelo mafioso, a pena teria que ser recalculada. Os excelentes advogados dos Moccia fatalmente usariam aquela brecha para pedir a anulação da condenação e um novo julgamento, que daria a Alessio mais alguns meses de liberdade para programar a sua defesa diante de um novo júri.

A salvação para Alessio Moccia seria a condenação para a carreira de Ward. O policial perderia toda a credibilidade e o respeito dos colegas, e havia o sério risco de Connor ser afastado definitivamente de suas funções. Um juiz mais rigoroso poderia até condená-lo por falso testemunho. Mas Ward estava disposto a enfrentar tudo aquilo para se safar de um assassinato.

- Acho que eu finalmente entendo você. Às vezes é preciso fazer coisas desprezíveis pelas pessoas que amamos. – Connor se inclinou para carregar uma das extremidades do tapete – Então eu vou até o fim nesta história. Pela Maty, pelos bebês, pela Mika.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Maio 07, 2017 4:28 am

Mesmo em um bairro afastado do centro de Las Vegas, o clima do deserto fazia com que a madrugada fosse fria demais, deixando uma Michaela arrepiada completamente arrependida por não ter vestido um casaco na correria de deixar o apartamento.

Como precisavam ser discretos, o carro estacionado na escura calçada estava desligado, sem que as duas meninas em seu interior pudessem ligar o aquecedor. Os dedos delicados de Mika acariciavam os próprios braços em uma tentativa de se sentir mais confortável, mas era o silêncio constrangedor que tornava toda aquela situação ainda mais desagradável.

A testa de Mika estava franzida enquanto ela encarava a fachada do prédio por onde Cameron e Connor tinham desaparecido. Sua mente confusa tentava organizar os pensamentos agitados para que ela processasse tudo o que estava acontecendo naquela noite, onde o acontecimento menos bizarro tinha sido beijar o policial.

Seria uma grande mentira se Mika dissesse que não sentira saudades de Connor naqueles dois anos. Mas era muito mais fácil ignorar os sentimentos conflitantes entre a saudade e a decepção quando estava na Itália. Na mesma proporção em que era absurdamente difícil ser indiferente aos olhos castanhos, especialmente quando ela via o mundo de Ward desabar.

Quando Matilda tentou iniciar uma conversa, os olhos esverdeados giraram vagarosamente da janela até focar na motorista, tentando voltar ao presente. A tela do celular que lhe foi exibida logo chamou sua atenção, o que obrigou Mika a franzir a testa outra vez.

As pistas estavam bem diante dos seus olhos, mas com todos os acontecimentos daquela noite, teria sido impossível chegar até aquele assunto se não fosse a própria Belmont a levantá-lo. Afinal de contas, a mentira que a governanta havia inventado para escapar ilesa havia resultado em duas crianças.

Mika ergueu a mão e puxou o celular para si, estudando a foto dos gêmeos completamente lambuzados de doces. Era impossível não se derreter diante de uma imagem como aquela. Em suas lembranças, Michaela não se lembrava de algum dia já ter tido qualquer contato com um bebê. Com exceção de completos estranhos nas ruas, dos choros incômodos em aviões ou restaurantes, ela nunca tinha realmente prestado a atenção antes. E precisava admitir que eles eram adoráveis.

- É, eu acho que não preciso ser mãe para entender... – O sorriso de Mika se tornou tão bobo quanto o de Matilda, já completamente apaixonada. – Mas não pense que eu vou deixar você vestir meus sobrinhos com essas roupas caipiras. No próximo aniversário, eles vão estar vestindo Armani e Dolce e Gabbana. Nada menos que isso.

Com uma das sobrancelhas erguidas, Michaela devolveu o celular para Matilda. Ela não entendia nada de bebês, como deveria segurá-los, ou alimentá-los, não compreendia a necessidade de cadeirinhas tão grandes para seres tão minúsculos, ou como eles não conseguiam se equilibrar direito, mesmo estando sentados. Mas se Cameron era o pai daquelas crianças, isso a colocava no papel de tia.

Quando a motorista começou a levar a conversa para um tom mais sério, Michaela não tentou fugir. Seu semblante também se tornou mais sério, mas ela encarou a morena a sua frente com firmeza.

Era a primeira vez que um dos irmãos tocava naquele delicado assunto com ela. Connor havia tentado se explicar na noite em que tudo havia se transformado, mas seu discurso havia se transformado mais em uma acusação que irritara Michaela profundamente.

- Vocês dois foram longe demais. – As palavras de Michaela não deixavam claro se ela estava se referindo aos dois irmãos ou ao envolvimento da governanta com Lahey. – Mas não é a mim que você deve desculpas, Matilda.

Um breve olhar na direção do prédio mostrou que ainda não havia sinais de Cameron ou Connor. Por isso, Mika se sentiu encorajada a seguir com aquelas palavras. Ela respirou fundo e deslizou até se sentar na ponta do banco. Sua testa foi encostada contra o encosto do banco da frente, com os braços cruzados sobre os joelhos.

- O Cameron te amou de verdade. Você foi a primeira e única garota que fez com que ele fosse diferente do cara que eu conheci. E eu não estou dizendo que ele é um santo, o cara é cheio de problemas... Mas ele só fez amar você, Matilda. E você quebrou o coração dele.

O olhar de Mika baixou para as próprias unhas que cutucavam o estofado do banco a sua frente, denunciando que as palavras seguintes eram íntimas e que representavam seu próprio sofrimento.

- Uma traição como essa não é fácil de superar. Você começa a duvidar de tudo que já viveu, de tudo que acreditava. Se sente estúpido por ter se deixado ir tão longe... – Um suspiro escapou dos lábios de Mika quando ela fez uma pausa, erguendo novamente o rosto para encarar a motorista. – Não me interprete mal, essas crianças são a salvação do Cam. Mas vai ser ainda mais difícil para ele estar sempre ligado a você, sabendo que você nunca o amou de verdade.

Os olhos verdes estavam atentos em cada um dos traços de Matilda. As palavras soaram com naturalidade, mas não passavam de uma pegadinha. Lahey tinha certeza de que Belmont nunca o amara de verdade. Ao contrário de Connor, a ex-governanta nunca tentou esclarecer as coisas com o ex-namorado.

Mas depois daquela noite, Mika não tinha mais a mesma certeza de antes. Afinal, se ela tinha errado sobre a história da gravidez de Matilda, não era tolice se agarrar a esperança de que Cameron não havia sido tão descartável assim para a ex-namorada.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Dom Maio 07, 2017 5:30 am

“Você nunca o amou de verdade”

As palavras de Michaela ecoaram no interior do veículo e foram recebidas por Matilda com a mesma potência de uma grave ofensa. Uma ruguinha surgiu entre os olhos da antiga governanta dos Moccia enquanto Belmont abaixava a cabeça, ciente de que não podia julgar Mika por aquela acusação. Depois de tudo o que ela fizera e das duras palavras dirigidas a Cameron, a conclusão mais óbvia era a de que Matilda nunca havia amado o ex-namorado.

Só Matilda sabia o quanto aquela acusação era injusta. Ao lado de Cameron, a ex-governanta havia vivido seus dias mais felizes. Nos braços dele, era fácil se esquecer do passado do segurança, da missão de Connor e das próprias mentiras. Nenhuma declaração de amor saída dos lábios de Matilda escapara de forma leviana. Ela havia amado Cameron como nunca amara outro homem.

- Você realmente acha que eu teria permitido que as coisas chegassem a este ponto se eu não o amasse, Michaela? Você acha que eu teria me envolvido com um dos homens de confiança do seu pai e engravidado dele se tudo fosse um jogo milimetricamente planejado?

Belmont estava séria quando pegou de volta o celular e bloqueou a tela, fazendo desaparecer a adorável imagem dos gêmeos. Depois de quase dois anos, não fazia muito sentido esclarecer aquela situação. E era ainda mais inútil fazer aquele desabafo para Michaela, visto que as duas não eram sequer amigas. Mas Matilda não suportava a ideia de ser julgada tão severamente.

- Você não conhecia nem mesmo o seu marido. Então não venha me analisar como se soubesse o que há na minha mente e no meu coração.

A resposta hostil da antiga governanta só deixava ainda mais claro que Matilda havia se ofendido com as insinuações de Mika. Depois de um dia longo como aquele, Belmont não pretendia levar para casa mais um assunto inacabado. Por isso, a confissão saltou naturalmente dos seus lábios.

- Cam e eu não vivemos uma mentira. Eu o amava, eu fiz o possível para que pudéssemos ficar juntos. No dia do seu casamento, eu implorei ao Connor que deixasse o maldito plano para trás e assumisse aquela nova vida com você, porque isso também me libertaria para ser feliz com o Cameron. Mas, como você bem sabe, o meu pedido foi ignorado e toda esta merda aconteceu.

Sem conseguir encarar Michaela, Matilda se recostou novamente no banco e manteve o olhar na esquina deserta enquanto murmurava as palavras seguintes. Era possível notar pela entonação de Belmont o quanto tudo aquilo ainda a machucava.

- Eu apontei uma arma para ele. Depois, o Cameron fez o mesmo comigo e provavelmente só não atirou porque eu contei a ele que estava grávida. Isso não é o tipo de coisa que se esquece, sabe? No nosso caso não foram apenas mentiras e traições. Nós descemos um degrau a mais nesse abismo e chegamos num ponto em que não dá para voltar atrás.

Mais uma vez, Matilda experimentou o amargo gosto da inveja. Assim como Connor e Michaela, Belmont queria a chance de enterrar os problemas do passado e deixar que o amor fosse mais forte que as mágoas e decepções. Mas aquele passo parecia muito improvável depois que ela e Cameron saíram tão feridos daquele relacionamento.

Era estranho estar ali abrindo o coração justamente para Michaela Moccia, mas Matilda não conseguia evitar o desabafo. Depois daquela noite trágica, tudo o que a ex-governanta queria era se sentir mais leve.

- Você e o Conn tem sorte. Para vocês ainda existe uma chance. – os olhos castanhos voltaram a buscar pela imagem da garota no banco traseiro do carro – Não seja estúpida e aproveite a oportunidade, Michaela. Eu queria muito estar no seu lugar.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Remus J. Lupin em Dom Maio 07, 2017 5:48 am

Cameron não pretendia usar aquele momento para castigar Connor pela traição aos Moccia. Embora ele tivesse em suas mãos a munição perfeita para fazer o policial enlouquecer com os erros que cometera naquela noite e consequentemente pagar por tudo que havia feito contra Michaela e Alessio, Lahey sabia que não podia perder ainda mais tempo. O relógio era um grande inimigo e eles precisavam colocar um ponto final naquela história.

Por isso, o antigo segurança dos Moccia se ocupou com os mínimos detalhes de limpar aquela cena do crime. Nunca era uma tarefa simples lidar com um cadáver, mas era impressionante como Cameron realmente assumia o profissional em momentos como aquele, transmitindo uma frieza que nem sempre era sincera.

Quando Connor iniciou a conversa em um tom mais pessoal, Cameron se viu obrigado a encarar o policial por alguns segundos. A última coisa que precisavam era criar algum tipo de relacionamento devido ao elo que agora unia aquele bizarro grupo. Mas ele precisava admitir que havia algo reconfortante em ouvir alguém dizer que entendia o seu jeito de ser.

- Você está certo, eu nunca vou te perdoar por ter arruinado a minha família, Ward.

Aos olhos da maioria da “famiglia”, Cameron era um grande puxa-saco de Alessio Moccia. Alguns o enxergavam como um cachorrinho que havia sido recolhido da rua e agora protegia a mão que lhe alimentava. E embora fosse recebido e se sentisse tão filho de Alessio quanto Michaela, não era comum ver Cam se referir aos Moccia como sua verdadeira família.

A verdade era tão simples quanto isso. Alessio era seu pai e Michaela como uma irmã. Ele não tinha nenhum contato com qualquer parente biológico, mas aquele parecia ser um detalhe insignificante quando ele já sabia ter uma família de verdade.

- Mas o que você fez essa noite chega perto de uma rendição. – Os olhos azuis evitavam encarar Connor enquanto suas mãos se ocupavam com o embrulho de tapete no meio do apartamento. – Você protegeu a minha nova família.

Anos antes, Cameron teria feito exatamente o mesmo que Connor para proteger Matilda. Ele sequer hesitaria ou perderia o controle como o policial fez. Mas só não havia seguido com seus planos a pedido de Belmont.

- Matilda pode ter sido um erro nessa história toda. Mas meus filhos não são. E por eles estarem em um mundo livre daquela filha da mãe, eu vou ser eternamente grato, Ward. Você se arrependendo ou não.

Mesmo para uma drogada surpreendentemente abaixo do peso, o corpo de Veronika foi carregado com dificuldade, somado ao peso do grosso tapete. Os dois homens precisaram se equilibrar, cada um carregando uma ponta do tapete, descendo os degraus aos tropeços.

Como se tratava de uma vizinhança em que ninguém sabia de nada, nunca via nada e não se importava com nada, mesmo com os ruídos provocados pelas respirações ofegantes e dos tropeços, nenhum rosto curioso surgiu no caminho dos dois rapazes até alcançarem o lado externo do prédio.

A sombra de Matilda logo brotou para fora do carro quando a motorista se apressou em abrir a mala. Uma camada de suor já começava a cobrir a testa de Lahey quando ele e Connor se encarregaram da tarefa de fazer o “tapete” caber no restrito espaço. A forma torta e bizarra que precisou ser assumida para que a mala fosse fechada só fazia o desconforto daquela situação aumentar.

O silêncio que se instalou no carro nos minutos seguintes, enquanto Matilda dirigia novamente, não foi quebrado por nenhuma tentativa de piada ou de música. Era palpável o desconforto de cada um dos presentes diante do volume que passava da mala, se fazendo presente no estreito espaço.

O cheiro do cadáver ainda não era o suficiente para atrair curiosos, mas Cameron sabia que o odor da morte estava presente, deixando o ar podre, tão sujo quanto a consciência de cada um. Não importava quão ruim Veronika tinha sido em vida, ou se quando tudo aquilo acabasse, eles não estivessem arrependidos. A situação era bizarra demais para ser aceita normalmente.

Em questão de minutos, a cidade de Las Vegas foi ficando para trás. A escuridão do deserto se tornou a única paisagem por um longo período e o céu havia atingido o seu limite da madrugada, o que significava que logo o tom de azul começaria a clarear para que o dia começasse.

- Continue dirigindo... – Cameron finalmente interrompeu o silêncio quando Matilda ameaçou diminuir a velocidade. – Se continuarmos por mais vinte quilômetros, vamos ter os canyons para nos proteger. É mais seguro.

Novamente, nenhuma palavra foi dita até que a sombra dos canyons começasse a se formar. O carro de Matilda deixou a estrada e o familiar som dos pneus amassando a areia grossa do deserto chegou aos ouvidos de Lahey. O veículo finalmente parou, e exatamente como Cameron havia dito, estava protegido pelas grandes paredes vermelhas dos canyons.

Mais uma vez, foi trabalho de Cameron e Connor retirar o corpo de Veronika da mala. Os dois dividiram aquele peso enquanto se afastavam alguns metros do carro, e quando estavam longe o bastante para que o fogo não apresentasse nenhum perigo, o cadáver foi jogado no chão, levantando poeira.

Com a respiração ofegante, Lahey apoiou as mãos nos quadris ao passar o olhar por cada um dos presentes. As íris azuladas pousaram brevemente em uma receosa Michaela, alguns passos mais distante que os demais, até encarar Matilda, que trazia a sacola com os itens necessários para que aquela história finalmente chegasse ao fim.

- OK, já chegamos até aqui... – Cam esticou a mão na direção de Matilda, tentando de alguma forma lhe passar segurança e conforto com o seu olhar. – Vamos terminar logo com isso.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Dom Maio 07, 2017 5:51 pm

Depois do serviço pesado naquela madrugada, Connor se sentia anormalmente quente mesmo que o clima noturno de Las Vegas não fosse tão ameno. Por isso, não foi um grande sacrifício para o policial o gesto cavalheiresco de cobrir os ombros de Michaela com o seu casaco.

A temperatura caiu mais alguns graus na medida em que o carro se aprofundava no deserto, mas Ward estava agitado demais para se importar com aquele detalhe. O corpo de Veronika sacudindo dentro do porta-malas a cada irregularidade da estrada era o único som que quebrava o profundo silêncio no interior do veículo.

Quando Cameron finalmente se mostrou satisfeito com um determinado ponto da estrada vazia, o carro parou sobre a areia grossa. Mais uma vez, os dois rapazes se encarregaram do serviço pesado e carregaram o embrulho do tapete até um local mais descampado.

Mesmo que não amasse Veronika, Connor sentia um nó na garganta com aquela cena. Era uma morte muito degradante e não restaria sequer um corpo para ser velado e enterrado. Por outro lado, não havia espaço para arrependimentos. Eles precisavam ir até o fim para garantir que aquele pesadelo jamais voltaria para atormentá-los.

A sacola foi retirada das mãos de Matilda por um Connor que, embora ainda abalado, não demonstrava hesitação. Ele havia começado com tudo aquilo, então era justo que coubesse a ele a tarefa de terminar o serviço.

A garrafa de álcool foi esvaziada sobre o corpo e foi da mão de Ward que caiu o fósforo aceso que deflagrou o fogo. As chamas alaranjadas subiram mais de um metro do chão enquanto o fogo fazia o trabalho de eliminar qualquer evidência que ainda pudesse existir em Veronika.

Era um grande alívio pensar que Veronika nunca mais causaria problemas. Mas Connor entendia perfeitamente a reação da irmã quando se voltou para Matilda e a encontrou pálida, com os olhos vidrados nas chamas e os lábios trêmulos. Num gesto carinhoso, o policial puxou Matilda para um abraço e depositou um beijo protetor na testa dela.

Por longos minutos, os dois irmãos permaneceram imóveis, com os olhos fixos no fogo que destruía o que restava da mulher que os maltratara. Por um breve momento, eles voltaram a se parecer com as duas crianças desamparadas que só tinham uma a outra.

- Fique aqui.

A voz grave de Connor soou num sussurro apenas para os ouvidos da irmã. O crepitar das chamas se misturava ao uivo do vento do deserto, mas ainda assim era possível ouvir com clareza o murmúrio de Ward.

- Foi uma noite longa, você deve estar exausta, mana. Fique no meu apartamento hoje.

No fundo, Connor já esperava por uma resposta negativa antes mesmo que Belmont sacudisse a cabeça. Matilda finalmente tirou os olhos do fogo para encarar o irmão e forçou um sorriso antes de tomar a palavra.

- Quero estar em casa quando eles acordarem. Preciso deles mais do que de qualquer outra coisa, Conn. Vou deixar vocês em casa e enfrentar a estrada para Beaufort.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Maio 07, 2017 9:37 pm

Mesmo diante da tentativa de Matilda em lhe atingir, o semblante de Michaela permaneceu tranquilo, sustentando o olhar da motorista. Se não fosse a exaustão daquela noite e o trabalho macabro em que estavam envolvidas, a menina teria ousado abrir um sorriso diante da resposta de Belmont, que lhe dava a certeza de que o passado entre ela e Cameron não havia sido uma completa mentira.

Não era fácil ouvir que alguém havia tentado convencer Connor a desistir do plano inicial de derrubar os Moccia, sem sucesso. Mas naquele momento, Mika não conseguiria pensar nas confusões do próprio relacionamento. Era mais prático focar em Matilda e Cameron.

- O Cameron nunca teria atirado em você. Se existe alguma coisa capaz de destruir o Cam, é a possibilidade de machucar você.

O comentário de Matilda fez com que Mika se remexesse desconfortável no banco de trás. Não havia nada de sorte entre ela e Connor. E por mais que estivesse ali, ao lado dele em meio aquele pesadelo, não significava que todo o passado estava perdoado e esquecido. Muita coisa havia mudado entre os dois, cada um tinha seguido com a própria vida e a única coisa que parecia mantê-los unidos era um pedaço de papel que mantinha um casamento.

- Vocês têm algo muito maior que sorte, Matilda. Além de terem as duas crianças mais lindas do mundo. Então não seja você estúpida e cabeça dura. – Daquela vez, Mika não impediu um sorrisinho torto de brincar em seus lábios quando ela voltou a apoiar a testa no banco da frente. – Além do mais, qual é o lance de vocês com armas? Nunca viu Sr. e Sra. Smith? Eu não consigo pensar em melhor exemplo de casal do que Brad e Angelina.

A conversa mais leve entre Michaela e Matilda chegou ao fim quando Cameron e Connor surgiram novamente na rua, carregando o embrulho do tapete. Pela primeira vez naquela noite, Mika finalmente compreendeu a intensidade do que estava acontecendo.

Sentada no banco de trás, ela precisava controlar a própria respiração, como se o ar que entrasse por suas narinas fosse podre demais, e quando o carro finalmente parou em meio ao deserto, foi uma das primeiras a saltar para fora.

Por mais que os rapazes estivessem sendo cuidadosos, quando o tapete atingiu o chão com brutalidade, uma mecha de cabelos escuros escapou sobre a areia, sem deixar dúvidas de que ali dentro havia um corpo.

Como se estivesse diante de uma assombração, Michaela permaneceu alguns passos mais afastada do restante do grupo. Ela abraçava o próprio corpo com o casaco de Connor, mantendo a manga grossa sobre o nariz, mais uma vez tentando filtrar aquele ar podre.

Seu estômago estava embrulhado e ela sabia que teria pesadelos pelo resto de sua vida com aquela única cena. Mas era tarde demais para surtar. Aquele inferno parecia finalmente estar chegando ao fim.

Quando Connor e Matilda se aproximaram, Mika se encolheu ainda mais, se sentindo uma completa estranha naquele momento tão íntimo dos dois irmãos. O fogo já havia tomado conta de todo o tapete e fazia suas bochechas ficarem mais quentes, e como não havia mais nada a ser feito, ela não se sentiu culpada em terminar de se afastar daquela cena.

O carro estava há uma distância segura, mas não o suficiente para impedir que a claridade do fogo continuasse em seus olhos quando sentou sobre o capô do carro. A garrafa de vodca que Connor havia comprado na loja de conveniências foi puxada para fora do saco de papel e Mika não pensou duas vezes antes de levar a bebida até seus lábios.

Daquela distância, era quase como assistir a um espetáculo bobo, como a queima de uma fogueira. A bebida descia queimando em sua garganta, mas seus olhos só se desviaram da claridade distante quando o carro balançou sob o peso do corpo de Cameron.

Ela não sabia dizer quanto tempo havia se passado, mas Cameron também parecia ter entendido que aquele era um momento para Connor e Matilda. O rapaz já havia se livrado do casaco e as mangas tinham sido arregaçadas até a altura dos cotovelos.

- Que noite, hm?

Mika estendeu a garrafa de vodca embrulhada em uma sacola de papel na direção de Cameron, que negou com um movimento da cabeça. Os olhos azuis continuavam presos no ponto da claridade do fogo.

- Jura? Você continua com a regra de não beber, mesmo em uma situação como essa?

Não havia nenhum tom de piada, brincadeira ou implicância quando o olhar de Lahey pousou em Michaela, balançando um dos ombros.

- Você não tem ideia de quantas situações como essa eu já enfrentei antes.

A resposta fez o estômago de Mika afundar ainda mais. Ela não se iludia mais sobre o passado de Cameron e Alessio, mas nunca ficaria mais fácil ouvir aquele tipo de confissão. Em resposta, um novo gole da bebida foi dado.

- A única vez em que eu bebi foi a última vez que vi a Matilda.

Cameron não precisava entrar em detalhes. Ele não precisava abrir o seu coração para Michaela saber como ele havia se decepcionado com Belmont. E melhor do que ninguém, ela sabia o que aquilo significava.

Um silêncio se instalou entre os dois por longos minutos, ocasionalmente interrompido pelos pequenos goles que Mika dava. Por fim, ela secou os lábios com o dorso da mão e deixou que as palavras saíssem de sua boca.

- Ela ainda te ama, Cam. É, eu sei, eu disse ainda. – Os olhos verdes deslizaram para encarar o rosto de Lahey. – Ela tentou impedir o Connor de seguir adiante, o que significa que ela te amava, que queria continuar ao seu lado. Não foi tudo uma mentira. Você precisava saber.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Remus J. Lupin em Dom Maio 07, 2017 11:03 pm

O cheiro de queimado estava impregnado nas vestes de Cameron. Nem mesmo o vento do deserto conseguia amenizar o incomodo que aquele odor provocava. Os cabelos de Lahey estavam desalinhados e a roupa informal que ele havia vestido na correria de sair de casa estavam sujas.

O tom azul começava a clarear no céu, indicando que em breve o sol surgiria. Ninguém precisava de mais provas de que aquela noite finalmente havia chegado ao fim. Eles tinham conseguido e agora poderiam seguir em frente apenas com a ideia de que aquele havia sido um bizarro pesadelo.

Até então, Cameron acreditava que cada um sairia dali para seguir com a própria vida. Talvez Michaela e Connor ainda tivessem assuntos a serem tratados. Mas o papel de Cam havia chegado ao fim. Belmont e Ward precisariam cumprir suas respectivas partes daquele acordo, Lahey finalmente poderia participar da vida dos seus filhos e Alessio teria a chance pela liberdade outra vez.

Apesar de ser uma recompensa que ele jamais poderia sonhar, Cameron não conseguia ignorar a sensação de que ainda havia alguma coisa faltando. É claro que ter os gêmeos em sua vida era incomparável. O último mês tinha sido uma grande tortura em pensar no tempo que ele havia perdido na vida de Adelaide e David. E era aterrorizante pensar que Matilda poderia sumir novamente no mundo, sem lhe dar a chance de lutar pelos filhos.

Mesmo diante da possibilidade de poder finalmente assumir a sua paternidade, Cameron finalmente compreendeu o que estava faltando quando Michaela iniciou o seu discurso.

Nos primeiros segundos, os olhos azuis encararam a menina com descrença. Mas logo a esperança passou a transbordar em seu peito. E quando o rosto se voltou para o ponto onde Matilda se aproximava, o coração já estava acelerado em seu peito, de uma forma que não havia ficado nos últimos anos.

- Faça alguma coisa.

Michaela ordenou em um sussurro, escorregando até pisar no chão outra vez. Enquanto Cam deslizava até que seus pés também estivessem pisando na areia grossa do deserto, Mika contornou o carro e entrou até se acomodar no banco traseiro.

Os faróis acessos do carro iluminavam alguns metros do chão avermelhado e ofuscava a silhueta e Cameron, mesmo com o tom cada vez mais claro dos céus. Ele aguardou com as mãos nos bolsos da calça até que Matilda estivesse a sua frente.

- Você vai voltar, não vai?

Cameron não precisava ter escutado a conversa entre os dois irmãos para saber que Matilda ainda enfrentaria a estrada para rever os filhos. Porque ele também sentia uma urgência em ver os rostinhos angelicais dos bebês, adormecidos e completamente alheios a podridão do mundo, perfeitamente inocentes e com a calmaria que Cam precisava sentir.

- Eu sei que você não vai dificultar nada, Matilda. Mas eu preciso vê-los também. Você não tem ideia de como tem sido o último mês para mim...
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Dom Maio 07, 2017 11:28 pm

As cinzas se misturavam à areia fria do deserto quando tudo acabou. As fibras carbonizadas do tapete escondiam o pouco que restava do corpo. Naquele ponto isolado, provavelmente os restos mortais de Veronika não seriam encontrados tão cedo. Com sorte, o vento espalharia o que restara da mulher e a areia esconderia para sempre o segredo dos dois casais.

Era esta a esperança de Matilda quando ela retornou para o carro, ainda envolvida no abraço carinhoso do irmão mais velho. Agora que tudo estava feito, Belmont não conseguia mais esconder o abatimento depois daquela madrugada em claro. Ainda assim, Matilda se sentia pronta para enfrentar três horas de viagem para chegar em casa e rever os filhos. Era insuportável a ideia de passar mais um dia longe de Adelaide e David.

Exatamente por se sentir tão ansiosa para rever os gêmeos, Matilda não conseguiria negar o pedido de Cameron. Para Lahey, provavelmente aquele desejo era ainda mais sufocante já que ele não via os filhos há mais de um mês. Ambos precisavam daquela serenidade e da inocência das crianças para apagarem as últimas memórias traumáticas.

Sem esperar pela resposta de Matilda, Connor se afastou lentamente do casal, deixando claro que não pretendia interferir na decisão da irmã. Um suspiro pesado escapou dos lábios da antiga governanta dos Moccia e ela manteve um olhar perdido na coloração alaranjada que começava a surgir no horizonte antes de finalmente tomar a palavra.

- Está bem. Você e a Beyonce vão me manter acordada até Beaufort.

Sem imaginar que Michaela havia reproduzido para Cameron a conversa pessoal compartilhada pelas duas moças naquela madrugada, Belmont ocupou novamente o seu lugar diante do volante. Os olhos castanhos buscaram uma última vez pelo ponto onde Veronika fora abandonada antes que Matilda desse a partida no veículo.

O trajeto de volta até Las Vegas pareceu mais curto agora que não havia mais um corpo no porta-malas. Belmont atravessou o centro e era impressionante como a cidade parecia mais sem graça de manhã, sem as luzes coloridas das fachadas e o turistas lotando as ruas.

O carro de Matilda só parou quando o grupo chegou diante de um prédio residencial. Não era um bairro muito luxuoso, mas definitivamente era muito superior ao subúrbio onde Connor morava na época em que trabalhava como gerente do cassino.

No banco traseiro, Ward se soltou do cinto de segurança e inclinou-se para despedir-se da irmã com um beijo carinhoso na bochecha. Era inacreditável que, no fim
Das contas, tudo tivesse dado certo nas últimas horas.

- Me avise assim que chegar, mana. Dirija com cuidado e dê um beijo neles por mim.

- Ok. Me ligue se precisar de alguma coisa.

Connor se despediu de Cameron com dois tapinhas informais no ombro do segurança e, quando se voltou para Michaela, foi notável a tensão e o constrangimento que se espalharam pelo interior do veículo.

A insegurança de Connor ficou evidente na maneira como ele abriu e fechou a boca várias vezes, como um peixe fora da água, antes de finalmente encontrar coragem para aquela iniciativa.

- Quer subir um pouco, Mika? Acho que nenhum de nós deveria ficar sozinho depois de tudo o que aconteceu.

A tentativa de Matilda em ajudar o casal no banco de trás não foi nada discreta quando a motorista buscou pelo reflexo de Mika no espelho central antes de resmungar.

- Eu ainda tenho três horas de viagem pela frente, Michaela. Com certeza não vou ficar chateada se não precisar atravessar a cidade inteira pra te deixar no seu apartamento.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Maio 08, 2017 12:39 am

Depois de se envolver em um crime, de ver um corpo sendo queimado e de ter virado a madrugada como cúmplice de um assassinato, a última coisa que Michaela precisava era ter que lidar com todo o drama do relacionamento com Connor.

O beijo trocado no posto de gasolina havia acontecido em um momento de fragilidade de ambos os lados, quando Mika era incapaz de se apegar a tudo que havia sofrido por Connor, apenas para estar ao lado dele quando o rapaz mais precisava.

Agora que a luz do sol tornava tudo mais real, entretanto, Mika não sabia o que aquele beijo significava. Embora soubesse que não estava colocando uma pedra no passado para seguir em frente, ela também sabia que aquele era o pior momento possível para conversarem. Independente de que fim chegasse aquela conversa, o assassinato de Veronika sempre seria o maior marco daquela noite.

Apesar disso, Connor estava certo em dizer que ninguém deveria ficar sozinho. Só de pensar em voltar para o seu apartamento vazio, um calafrio se espalhava pelo seu corpo. O lugar pareceria maior do que o normal, mais frio e mais vazio, e ela já podia se imaginar sendo assombrada pela própria imaginação.

Seguir com Ward poderia não ser a melhor opção, mas era infinitamente mais reconfortante do que enfrentar as horas solitárias depois de tudo que havia acontecido durante a noite. Por isso Mika esticou a mão e apertou delicadamente o ombro de Cameron em uma despedida.

- Eu quero conhecer os meus sobrinhos, Matilda. Então não tente mais mantê-los longe da gente, ok?

Michaela ainda vestia o casaco de Connor quando os dois subiram pelo elevador até o andar do apartamento dele. Os olhos verdes, mesmo cansados, passearam atentos pelo cômodo, sem conseguir controlar as comparações com o antigo lar do gerente do cassino.

- Quem diria que a polícia de Las Vegas pagaria melhor que a máfia, hein?

O sorriso receoso não combinava com a postura sempre autoritária e segura de Michaela. E ela logo fez uma careta ao ouvir as próprias palavras. O casaco foi retirado e colocado no apoio próximo da entrada enquanto ela erguia um dos ombros em um pedido de desculpas.

- Muito cedo para fazer piadas?

Os braços de Michaela foram cruzados contra o peito, em uma clara postura defensiva. Ainda parada próxima a porta, ela voltou sua atenção para Ward, desejando poder voltar às antigas implicâncias e provocações onde os dois sempre sabiam o que fazer ou dizer.

Ao invés disso, Mika apenas ergueu o indicador para apontar na direção do pescoço de Connor, sinceramente preocupada.

- Eu disse que cuidaria disso. É melhor limpar antes que piore. Você tem um kit de primeiros socorros?
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Seg Maio 08, 2017 2:27 am

O apartamento localizado no oitavo andar daquele prédio era nitidamente o lar de um homem. A decoração se resumia aos poucos móveis indispensáveis para qualquer casa. Na sala havia um sofá de três lugares, um rack que sustentava uma televisão e uma mesinha de centro cujas manchas na madeira denunciavam que sua única utilidade era amparar garrafas de cerveja. Não havia nenhum quadro nas paredes ou enfeite sobre os móveis e aquela simplicidade se repetia nos demais cômodos.

Embora tudo estivesse impecavelmente limpo, era gritante o fato de que não havia uma mulher naquela casa. Mas, apesar do ambiente tão impessoal, aquele apartamento ainda era infinitamente melhor que o cubículo onde Connor morava antes de se casar com Michaela.

- Este apartamento não é meu...

Ward deu de ombros enquanto largava as chaves sobre a bancada que separava a sala da cozinha. O corpo dolorido começava a ceder ao cansaço e à pressão daquela madrugada em claro, por isso a entonação do policial não soava nada hostil. Connor simplesmente não teria energia para prolongar aquele pesadelo discutindo com Michaela.

- Lembra do que eu te disse? Não consigo comprar ou alugar um apartamento sem a sua autorização enquanto estivermos casados. Então eu vim morar com um amigo enquanto esta situação não se resolve.

A pergunta de Michaela arrancou um risinho debochado de Connor e ele quebrou um pouco do gelo mergulhando nas provocações que os dois tanto gostavam de fazer no passado.

- Kit de primeiros socorros? É claro que temos... fica no banheiro, bem do lado do condicionador para pontas duplas, atrás do meu creme depilatório. Ah, eu também aprendi a separar minhas cuecas por cor e tipo de tecido. Isso revolucionou a minha vida. – Ward girou os olhos de forma divertida antes de completar – O máximo que consigo te arrumar é um antisséptico e um chumaço de algodão. Isso vai ter que servir.

Connor não conseguiu cumprir nem mesmo aquela promessa pobre e, depois de vasculhar o banheiro inteiro, só conseguiu encontrar um frasquinho de soro e uma toalha limpa. O policial se sentou no braço do sofá e desabotoou a camisa, abrindo espaço para que Michaela observasse os arranhões no pescoço dele.

De longe, alguém poderia até dizer que Ward havia voltado de uma noite particularmente agitada com uma garota de unhas compridas. Mas quem olhasse de perto a profundidade dos arranhões não teria dúvida de que aquilo era resultado de uma luta violenta. O semblante de Connor se contorceu em uma careta dolorida ao sentir o ardor provocado pelo soro, mas não houve uma reclamação verbal.

- Eu lamento muito ter envolvido você nisso, Mika.

Enquanto a menina fazia o trabalho de limpar os ferimentos dele, Ward se aproveitou daquela proximidade para buscar pelo contato dos olhos esverdeados. Connor sabia que o beijo no posto de gasolina havia sido apenas uma forma de extravasar a tensão daquela noite, então agora era difícil saber como se portar diante de Michaela.

- Agora eu sei que é impossível, mas espero que algum dia você consiga esquecer esta noite. Você não deveria ter participado disso. Mas obrigado... teria sido ainda mais difícil sem você.

Em um ímpeto, Connor ergueu uma das mãos e segurou delicadamente o pulso de Mika. O coração dele saltava dentro do peito e, embora Ward soubesse que era um péssimo momento para uma conversa mais íntima com a esposa, o policial também sabia que não teria outra chance como aquela. Ele e Michaela tinham seguido caminhos tão opostos que, se perdesse a oportunidade naquela manhã, Connor nem sabia quando os dois se encontrariam novamente.

Havia uma nítida ansiedade nos olhos castanhos quando Ward inclinou um pouco o rosto para entrar no campo de visão de Michaela. Todo o orgulho foi deixado de lado e Connor não se importava com o fato de estar se humilhando novamente diante dela. Aquele sacrifício valeria a pena se a recompensa fosse ter Mika de volta em sua vida.

- Tem sido muito difícil sem você, Mika. Eu sei que as coisas ficaram complicadas, mas eu ainda acho que podemos consertar. Basta um sinal seu e...

A declaração tão profunda de Connor foi interrompida por passos vindos do corredor. O policial fez uma careta e girou os olhos com impaciência, já esperando por piadinhas quando seu colega de apartamento surgiu na sala, esfregando os olhos sonolentos, com os cabelos ruivos apontando em todas as direções.

- Chefe? Eu ouvi vozes e achei que era cedo demais para te ver acordado.

- Acabei de chegar, Fred. Desculpe se te acordamos.

O antigo funcionário do cassino estreitou os olhos, mas sem os óculos só conseguia ver dois borrões em sua sala.

- Uia... – os lábios de Fred se curvaram em um sorrisinho malicioso – Está acompanhado, então? Desculpe se interrompi alguma coisa. Estão vestidos?

- Não enche, Fred. – uma das almofadas do sofá foi arremessada e acertou em cheio o rosto sonolento do dono do apartamento – Volte pra cama.

- Tá. Mas lembre-se que as paredes são finas e eu me impressiono fácil. Imagino que as “coisas” fiquem violentas com dois policiais em cena. Vai ter que pagar o meu terapeuta se eu ficar traumatizado. Você e a Dalila.

Aquela insinuação fez com que os dedos de Connor formigassem com a vontade de estrangular a segunda pessoa em menos de doze horas. A última coisa que Ward precisava naquele momento delicado com a esposa era que a moça ficasse enciumada e se transformasse no furacão Mika.

- Eu estou com a Michaela, Fred. Que tal colocar os óculos e parar de dizer tanta merda?

- Hm... Michaela? – o ruivo novamente estreitou os olhos na esperança de enxergar melhor – Eu já a conheço?

- Imagino que sim. – a voz de Connor se tornou mais impaciente – Você estava no nosso casamento, afinal.

A mente sonolenta não permitiu que Fred compreendesse de imediato as explicações do amigo. O ruivo piscou algumas vezes enquanto buscava algum sentido naquela conversa e, quando finalmente se deu conta de quem se tratava, o queixo dele despencou.

- MICHAELA MOCCIA???

- Tecnicamente é Michaela Ward, já que ainda somos casados. – antes que Mika chegasse à conclusão equivocada, Connor explicou-se para a moça – É claro que esse idiota não me ajudou em nada naquela época. Nós nos tornamos amigos depois que o cassino fechou, então não perca o seu tempo berrando com ele.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Remus J. Lupin em Seg Maio 08, 2017 3:17 am

Não havia mais o corpo de Veronika para causar o imenso desconforto dentro do carro, mas ainda assim, não foi uma tarefa fácil enfrentar a estrada e as horas seguintes apenas com Matilda.

Muito tempo tinha se passado desde a última vez que Cameron e Matilda ficavam a sós, e era estranho estar em um espaço restrito sem poder esticar a mão para tocá-la. Por mais de uma vez, os dedos de Lahey formigaram com vontade de deslizar as curtas mexas castanhas para atrás da orelha dela, ou de simplesmente entrelaçar os dedos uns aos outros.

A voz de Michaela ainda ecoava em sua mente, lhe garantindo que Belmont havia lhe amado no passado e que aquele sentimento não havia chegado ao fim. Até então, Cameron enxergava na ex-namorada apenas a traição e a mágoa do passado. Mas agora era impossível controlar o próprio coração de acelerar cada vez que os olhos azuis deslizavam para encarar os traços bonitos que moldavam o perfil dela.

Durante mais de uma hora, foi Matilda quem conduziu o carro pela estrada que os afastava de Las Vegas. Mas com a insistência em procurar pelo rosto dela, Cameron notou como as pálpebras começavam a ficar mais pesadas e demoravam mais para se erguer. Belmont podia querer se fazer de forte, mas era notável como estava se rendendo ao cansaço.

- Encoste o carro. Eu assumo daqui.

Não era nenhum pedido de Lahey, e quando ele viu os lábios de Belmont se comprimirem para protestar, se apressou em acrescentar.

- Você está exausta, Matilda. Não precisamos de mais nenhuma tragédia por hoje e você vai provocar um acidente se insistir nisso. Deixe eu dirigir e tente descansar um pouco. Imagino que dormir vai ser a última coisa que você vai conseguir quando chegar em casa.

Diante dos argumentos de Cameron, a motorista realmente não tinha como fugir. Por mais que tentasse insistir em dizer que estava bem, todos os sinais do seu corpo diziam o contrário.

O carro deslizou até o acostamento e Cam imediatamente soltou o cinto, descendo do veículo para assumir o volante. Depois que Matilda estava devidamente acomodada no banco do carona, Cameron olhou pelos espelhos retrovisores e voltou para o caminho que os levaria até os filhos.

Como precisava se concentrar na estrada, era muito mais difícil se render à tentação de procurar pelo olhar de Matilda. Mas ainda era impossível tirar a voz de Michaela em sua cabeça, lembrando constantemente de algo que ele havia aprendido a negar nos últimos anos.

Os polegares de Cameron batiam ansiosos contra o volante enquanto ele lutava contra os próprios pensamentos. Ele precisava de uma distração, ou iria surtar. O motorista se remexeu no banco, pigarreou, olhou pelos espelhos mais uma vez até se render ao desejo de olhar para a mulher ao seu lado outra vez.

A ideia era iniciar alguma conversa que tirasse as distrações de sua mente, mas até mesmo Cameron se surpreendeu quando as palavras saíram espontaneamente de sua boca.

- Eu gostei do corte de cabelo. Combinou com você.

Um xingamento ecoou na mente de Lahey em repreensão pela escolha daquele assunto. Entre gritos na cozinha de um reencontro conturbado e uma noite tentando esconder um assassinato, ele não havia tido tempo de comentar sobre as diferenças que havia notado na nova Matilda.

- Sarah, ahn? – Ele tentou recomeçar. – Foi você que escolheu?

Para um profissional que sabia lidar assustadoramente bem com crimes, Cameron se sentia um tolo cada vez que abria a boca, balbuciando coisas sem sentido. Ele se remexeu mais uma vez no banco e deixou que o silêncio se instalasse mais uma vez. Porém, poucos minutos se passaram até que finalmente se rendesse.

Um palavrão foi verbalizado quando o carro voltou a sair da estrada para o acostamento. O cinto de segurança soltou com um estalo, mas Matilda não teve tempo de perguntar o que estava acontecendo quando Lahey se inclinou, eliminando a curta distância entre os dois.

As mãos ansiosas seguraram o rosto dela e ele só hesitou por uma fração de segundos para procurar pelas íris castanhas antes de beijá-la.
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