Viva Las Vegas!

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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Michaela Moccia em Qui Abr 27, 2017 11:35 pm

Se havia alguma parte de Michaela que ainda se agarrava na esperança de ver Connor tentando corrigir o pesadelo que ele criara naquela noite, Mika a viu sendo esmigalhada diante dos seus olhos.

As palavras diretas e sinceras de Ward atingiam como doloridos tapas que a obrigava a enxergar a realidade. É claro que a polícia de Las Vegas não movimentaria uma investigação tão minuciosa se não houvesse o mínimo de suspeita sobre Alessio Moccia. E Mika se sentia uma tola por não ter enxergado o óbvio antes.

Mas se já era indigesto o suficiente precisar lidar com a traição de Connor e com a ideia do pai na cadeia, Mika definitivamente não estava preparada para refletir sobre os erros de Moccia naquele momento. Ela certamente explodiria e Connor não estava ajudando em esfregar nos seus olhos a verdade por trás do luxo da famiglia.

Os olhos verdes estavam cobertos por uma nova camada de lágrimas, mas o rosto de Michaela estava contorcida em apenas decepção. Uma ruga havia se formado entre as sobrancelhas claras e por um longo período ela apenas sustentou o olhar de Ward.

O que ela mais queria era que aquele pesadelo chegasse ao fim. Queria poder olhar para Connor outra vez sem precisar enxergar toda a mentira que os dois tinham vivido nos últimos meses. Queria ao menos ter tempo de compreender o que estava sentindo. Mas quando as palavras saíram de sua boca, a decisão já parecia tomada sem ao menos ela ter consciência da própria escolha.

- Tente ver as coisas de outra maneira agora. Esse casamento... – Mika apontou com o indicador para o espaço entre ela e Connor. – Só aconteceu porque um bandido da pior espécie te obrigou. Então absolutamente tudo sobre nós dois está errado.

Mika sentia a garganta fechar ao compreender o rumo que aquela conversa estava levando. Mas era tarde demais para voltar atrás. A bolsa jogada sobre a cama foi recolhida e, com o celular na outra, ela se levantou.

O rosto, apesar de abatido, mostrava que a decisão estava tomada e que ela não voltaria atrás. Mika caminhou até a porta e só parou quando se viu diante de Connor, sem fazer nenhum esforço para retirá-lo do seu caminho. Se Ward tivesse o mínimo de respeito por aquele relacionamento fracassado, simplesmente se afastaria.

- Não tem casamento para reconstruir, Connor. Isso aqui estava fadado ao fracasso de qualquer forma.

As sobrancelhas claras foram arqueadas e Mika precisou respirar fundo antes de concluir com as palavras que a machucavam ainda mais, mas que ela sabia não existir outra opção.

- Caso eu não tenha sido clara, eu não quero ver você, ou falar com você ou nem mesmo ouvir o seu nome. Não quero saber o que você tem a dizer ou o tipo de amor que você acha que sente. Porque quando eu olho para você, só o que eu enxergo é a pior coisa que já me aconteceu. E eu vou lamentar todos os dias por ter me deixado iludir por você.

Mika sequer piscava enquanto encarava os olhos castanhos. Ela sabia que ia desabar a qualquer momento, por isso se viu obrigada a desviar as íris esverdeadas para a porta atrás do marido enquanto usava toda a sua concentração para continuar firme.

- Agora saia do meu caminho. Como eu disse, estou tentando minimizar o estrago que você causou na minha vida.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Sex Abr 28, 2017 12:50 am

Quando o barman serviu a quinta dose de whisky no copo de Connor Ward, o policial já enxergava o balcão embaçado. A música alta da boate não o incomodava mais, assim como Connor nem sentia mais o corpo dolorido depois da briga com Cameron Lahey. Ele estava anestesiado pela bebida, mas também pelo impacto da realidade que precisava enfrentar agora. A missão havia sido finalizada com sucesso, mas Ward não conseguia enxergar-se como vencedor depois de ter perdido Mika.

Em uma cidade como Las Vegas, não foi difícil encontrar um estabelecimento sem nenhuma ligação com os Moccia. Aquela boate periférica estava longe de ser luxuosa e badalada como o cassino onde Connor trabalhara nos últimos meses, mas ofertava ao policial a privacidade e o teor de álcool que ele precisava para enfrentar aquele pesadelo.

Exatamente por ter fugido de qualquer lembrança dos Moccia, Connor não conseguiu disfarçar a surpresa quando uma voz familiar soou ao seu lado.

- Por um momento eu achei que fosse uma bebedeira para comemorar a vitória. Mas aí olhei com mais atenção pra sua cara de pomba atropelada na estrada e mudei de opinião...

Mesmo no ambiente escuro da boate, não era difícil reconhecer Fred Brown. Os cabelos avermelhados eram bem incomuns, assim como os óculos redondos. Certo de que Fred fazia parte do grupo de pessoas que queriam vê-lo morto depois daquela traição aos Moccia, Connor somente girou os olhos enquanto virava mais um copo de bebida.

- Finalmente eu saquei de onde veio o seu desempenho durante o atentado. Um tira, hm? É quase reconfortante. Por um momento eu achei que você fosse um matador de aluguel ou algo neste estilo.

- O que você quer, Frederich?

Ward quase não reconheceu a própria voz rouca e arrastada que deixava escancarado que o policial havia bebido muito mais do que deveria.

- Frederich? Ui, precisamos de tanta formalidade, policial Ward? Achei que fôssemos amigos.

- E eu achei que você fosse fiel aos Moccia. Já avisou ao Cameron que eu estou aqui? Ele vai adorar saber que eu estou bêbado e distante da delegacia.

- Ele já fez um estrago e tanto na sua cara. Mas não. Eu não estou aqui como membro da famiglia Moccia e nunca fui um grande fã do trabalho do cãozinho. Eu sempre fui grato a Don Alessio pela chance que ele me deu, mas tenho lido muita coisa nos jornais... Eu nunca pensei que havia tanta sujeira por trás de tudo isso, Connor. Não quero mais fazer parte desta história.

Embora Fred parecesse sincero, Ward não conseguiu se animar com a possibilidade de ter saído daquela história com um bom amigo. O vazio deixado por Michaela era sufocante demais e não seria preenchido com tamanha facilidade.

- Acabou. Ela me mandou sumir da vida dela.

Como um típico bêbado, a voz arrastada de Connor falhou ao fim daquele desabafo. Mesmo sem a certeza de que Fred estava lhe oferecendo uma amizade sincera, Ward despejou nele as suas frustrações. Com quem mais ele falaria, afinal? Seus colegas estavam entusiasmados demais com o sucesso da missão, Dennis Flynn agia como se o casamento de Connor fosse parte do plano para destruir os Moccia. Matilda tinha as próprias preocupações depois que Cameron fora libertado sob fiança. Não restava mais ninguém.

- Desculpe a sinceridade, chefe, mas ela fez o que precisava ser feito. Você realmente acha que isso ia dar certo? Don Alessio pode ser um criminoso, mas antes disso ele é o pai dela. Eu não acho que uma garota conseguiria dormir tranquilamente ao lado do cara que condenou o pai dela a morrer na cadeia. Sempre ia rolar uma mágoa, vocês não seriam felizes com este fantasma rondando o relacionamento.

- Eu juro que não a usei, Fred. Eu me apaixonei por ela. De verdade. Você não tem noção de como está doendo.

Uma das sobrancelhas ruivas se arqueou acima dos aros dos óculos enquanto Fred olhava os copos vazios enfileirados ao redor de Connor.

- Qual é o plano, chefe? Mergulhar numa ressaca para que a sua cabeça exploda e você pare de pensar nela? – a ausência de uma resposta fez com que Fred retirasse o copo das mãos de Ward – Vamos sair daqui. Eu te levo pra casa. Eu não avisei o Cam, mas muito provavelmente alguém vai avisá-lo até o fim da noite.

- O dono deste bar não tem nenhuma ligação com os Moccia.

- Chefe. – Fred girou os olhos com impaciência enquanto jogava algumas notas no balcão para pagar pela bebida consumida pelo amigo – Quando você vai aprender? Vegas é o quintal dos Moccia. Se quer mesmo sobreviver, sugiro que saia desta cidade. Mesmo preso, Don Alessio tem mais poder que a polícia.

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De forma bizarra, quase as mesmas palavras de Fred foram repetidas por Dennis Flynn no dia seguinte. Os óculos escuros usados por Connor eram uma tentativa de disfarçar a ressaca e a dor de cabeça latejante que o consumiam naquela manhã, quando ele se sentou em frente a Flynn. Mas o chefe não parecia se importar com a aparência abatida de Ward.

- Já pedi uma transferência para Miami. Você começa na próxima semana. Provavelmente você terá que voltar como testemunha no julgamento, mas isso também já está acertado.

- Como é??? – a mente lentificada de Connor demorou a compreender aquela orientação – Miami??? Eu não quero sair de Vegas!

- Você pode pedir para voltar para cá em cinco ou sete anos, quando a poeira abaixar. No momento, o mais sensato é tirar você do radar dos Moccia. Você e a sua irmã.

A boca de Ward já estava aberta para discordar daquela decisão, mas a menção à irmã fez o policial reconsiderar. Connor não se importava em viver constantemente em perigo, mas ele não queria aquela vida para Matilda. Não era justo que a irmã vivesse sob o risco de ser assassinada pela famiglia Moccia.

- Eu não posso simplesmente sair de Vegas em uma semana, Flynn. Tenho um milhão de pendências. Relatórios, depoimentos, contas para pagar, o apartamento no meu nome... – a garganta de Connor se apertou, mas a voz continuou firme – ...o casamento. Eu não posso simplesmente sumir da cidade sem resolver tudo isso.

- Está decidido, Connor. – Dennis estava sério quando fixou os olhos no policial a sua frente – Você vai para Miami. Nós vamos resolver tudo por aqui, você pode enviar seus relatórios por e-mail. Eu já passei o seu caso para um advogado e ele vai cuidar de tudo. Anulação, divórcio... não sei como ele vai resolver isso. Mas só precisamos da sua assinatura em um papel quando tudo estiver resolvido. No momento você só precisa arrumar as suas malas e ir embora.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Cameron Lahey em Sex Abr 28, 2017 2:08 am

Se Matilda havia apunhalado Cameron pelas costas, as palavras que ele ouvia naquele dia nada mais era que o girar da faca ainda cravada em sua coluna pelos dedos da mulher que ele acreditava ter amado.

A garganta de Lahey queimava e ele sequer conseguia engolir a própria saliva sem parecer que estava sendo enforcado. Se havia alguma parte que o havia levado até aquele hotel sem ser pela busca de vingança, ali estava a resposta que ele merecia ouvir.

Não havia nenhuma explicação para a traição e Belmont. A única justificativa era a estupidez e cegueira de Cameron por não ter notado desde o começo que ele era apenas um peão em um jogo de xadrez, sendo movimentado pelos dois irmãos que se empenhavam em destruir sua família.

Todos os momentos ao lado de Matilda, todas as noites, as declarações e o relacionamento que vinham construindo não passavam de mentiras. As confidencias e as declarações feitas por Lahey tinham sido em vão, quando ele acreditou que realmente havia encontrado alguém para compartilhar a sua vida, alguém que o compreendesse e não julgasse pelo seu passado.

As risadas que ele acreditava ter arrancado espontaneamente de Matilda, ou as vezes que o assunto simplesmente desaparecia e os dois continuavam se encarando entre os lençóis. Ou os gestos carinhosos sempre que Lahey tentava furtar algum biscoito do armário enquanto Matilda preparava o café. Os banhos interrompidos nas manhãs quando esqueciam da água caindo e se concentravam apenas em mergulhar nas carícias. Nada daquilo havia sido real. E Cameron nunca se sentiu tão traído e destruído em toda sua vida.

Nem mesmo o fato de ter crescido em lares adotivos ou passado a maior parte da adolescência na rua conseguia ser uma lembrança tão dolorosa. E a comparação com Alec era apenas o golpe final.

A Matilda por quem ele se apaixonara se sentiria enjoada com alguém como Alexander. Mas a mulher que estava a sua frente apenas reforçava como aquela Matilda era uma ilusão. A governanta por quem Lahey era perdidamente apaixonado não existia e, pela primeira vez, ele finalmente enxergou Matilda como mais um dos traidores dos Moccia.

Sem pensar no que estava fazendo, apenas com um movimento brusco e cego, Lahey puxou a arma como o profissional que era. Em um salto, ele estava de pé no meio do quarto, com Belmont sob a sua mira.

Todo o seu corpo travou no instante em que ele teve consciência do que estava fazendo. Ele nunca tivera dificuldade em puxar o gatilho antes, mas mais uma vez, Matilda exercia um poder sobre ele que o tornava fraco.

Apesar da hesitação, Cam pareceu mais ameaçador quando continuou parado com os dois braços erguidos, apontando a arma para Matilda, há poucos passos de distância. O resto do mundo desapareceu, assim como qualquer consequência que pudesse existir. Ele só queria que aquela mulher fria e cruel a sua frente desaparecesse para que ele pudesse ter a ex-namorada de volta.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Sex Abr 28, 2017 2:44 am

Quando concluiu que seria executada por ter roubado uma joia do cofre de Don Alessio Moccia, Matilda não tentou fugir do seu destino. A governanta havia explicado a situação ao patrão, mas em nenhum momento implorara pela própria vida. Naquela noite, porém, quando a arma de Cameron foi apontada na direção dela, Belmont sentiu um medo gelado se espalhar por cada célula do seu corpo.

É claro que ter Cam do outro lado da arma era terrível, mas Matilda sabia que não era apenas isso que ela temia. O orgulho de Belmont não permitia que ela implorasse pela própria vida, mas naquele momento talvez não fosse somente a vida dela que estivesse em jogo.

Ainda não era uma certeza, mas a possibilidade existia e não era desprezível. Vários sinais já estavam presentes e Matilda não conseguia ignorar aquele sexto sentido sufocante. Os sinais e o atraso em seu ciclo sempre tão regular podiam ser somente reflexos da tensão dos últimos dias, mas Belmont não conseguia descartar a possibilidade de Lahey tirar duas vidas ao apertar o gatilho naquela noite. E parecia desesperadoramente injusto condenar um ser inocente a aquele destino horrível.

Foi um instinto incontrolável que fez com que Matilda recuasse um passo e erguesse as mãos num gesto de rendição. A voz dela soou firme, mas sem o sarcasmo que a moça usara no discurso cruel que acabara de fazer.

- Eu sei que este é o seu trabalho, mas tem algo que você precisa saber antes de tomar esta decisão.

No fim das contas, Matilda não sabia se aquilo faria diferença. Era óbvio que Cameron estava furioso e que a sede por vingança o deixava cego. Os dois nunca haviam falado sobre construírem uma família, sobre filhos. Belmont sequer sabia a opinião dele sobre crianças. Talvez Cameron reagisse mal àquela notícia mesmo se os dois estivessem juntos e felizes. Ainda assim, ele precisava saber. E talvez fosse a única chance dela de escapar da fúria de Lahey.

- O enjoo que eu tive naquela noite, enquanto voltávamos para a mansão... – a ex-governanta respirou fundo antes de completar o raciocínio – Tem piorado nos últimos dias. E eu tenho tido outros sintomas incomuns.

Graças à sintonia que os dois possuíam como namorados, Cameron conhecia a intimidade de Matilda. Ele sabia quando não era um bom dia para provocá-la, ou quando era uma boa ideia chegar em casa com chocolates. Exatamente por saber o quão regular era o ciclo de Belmont, aquela informação definitivamente não seria irrelevante.

- Eu estou atrasada. Doze dias atrasada.

Como se não tivesse sido clara o bastante, Matilda verbalizou diretamente as suas suspeitas sem desviar a atenção dos olhos azuis que a encaravam com absoluto ódio naquela noite.

- Eu acho que estou grávida. Só achei que você gostaria de saber disso antes de ir em frente. – Belmont ergueu um dos ombros antes de novamente tocar no ponto fraco de Cameron – Está pronto para acrescentar um demônio como este na sua consciência, Lahey?
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Michaela Moccia em Sex Abr 28, 2017 4:41 am

- Tem que ter alguma coisa que a gente possa fazer!

Os olhos verdes de Michaela estavam arregalados em ansiedade, mas o advogado do outro lado da mesa não parecia nada abalado. Com uma postura séria e profissional, o homem respondeu com a calma conquistada pelos anos de experiência cuidando de casos delicados para famílias ricas.

- Ainda há um longo julgamento pela frente. Infelizmente, no momento a única coisa que eu posso fazer é preparar o seu pai pelo que está por vir.

- Você conseguiu tirar o Cam em um dia! Qual é o problema? Não importa quanto custe a fiança, eu estou disposta a pagar!

O homem engravatado fechou a sua pasta e cruzou os dedos sobre a papelada que ele havia acabado de organizar. A fama de Albert Pullman no mundo da advocacia era bem merecida. O maior advogado criminal dos Estados Unidos receberia uma significativa fortuna por defender os Moccia, o que impedia Mika de compreender o motivo de demorar tanto tempo para conseguir tirar seu pai da prisão.

- Para a nossa sorte, não haviam provas contra o Sr. Lahey. Ao contrário do seu pai e do galpão apreendido. Cameron vai precisar participar de todo o processo de perto e explicar o envolvimento nisso tudo, mas enquanto não tiverem provas, ele responde em liberdade.

Embora as palavras de Pullman fizessem sentido, Michaela ainda não conseguia aceitar a ideia do pai preso em uma cela. As notícias reportadas nos jornais eram horrorosas e por uma dúzia de vezes, ela ficara enjoada por imaginar que Alessio realmente era culpado por todos aqueles crimes. Mas ainda era indigesto demais imaginá-lo em algum uniforme presidiário, contando os minutos para pegar um pouco de sol em um dia.

Além do mais, Mika não tinha mais Connor por perto e Cameron estava mais ocupado vivendo como um vampiro dentro de seu apartamento. O que fazia com que a filha de Alessio Moccia ficasse sozinha, contando apenas com a ajuda de Leoncio cada vez que precisava enfrentar os abutres de jornalistas desesperados por uma foto ou um depoimento da herdeira do falido império Moccia.

Por longos minutos, Mika permaneceu em silêncio, cutucando as cutículas nervosamente. Ela só notou que aquilo começava a parecer estranho quando Albert ameaçou terminar de guardar suas coisas para levantar.

- Eu preciso de mais um favor, Sr. Pullman.

Os olhos verdes buscaram o homem com ansiedade, e Albert esperou que a menina desse continuidade com a sua paciência admirável.

- Como o senhor já deve saber, eu me casei há poucos meses. Com Connor Ward.

Se aquela era uma novidade para Albert, o homem definitivamente sabia esconder suas emoções quando apenas concordou profissionalmente com a cabeça, sem qualquer vestígio de interesse em uma fofoca.

- O policial responsável pela investigação. – Ele concluiu, voltando a aguardar pela explicação de Michaela.

- Eu preciso saber os meios legais para terminar esse casamento. Obviamente eu fui enganada, isso deve contar ao meu favor, não?

O homem ergueu um dos ombros ao responder com praticidade.

- Sim, um processo de divórcio nunca é fácil, mas preciso admitir que na sua situação, conseguiríamos encurtar alguns meses.

Intimamente, Mika ainda não sabia se aquela informação deveria lhe deixar aliviada ou angustiada. Em partes, ela precisava colocar um ponto final naquela loucura com Connor Ward. Mas a ideia tão formal de documentar o fim daquela história ainda era assustadora.

- Mas se me permite acrescentar, talvez a senhora consiga tirar alguma vantagem dessa história.

As sobrancelhas de Mika se arquearam em confusão, o que incentivou o advogado a explicar seu ponto de vista.

- Entenda, a senhora hoje tem um visto permanente por ser casada com o Sr. Ward. Seus direitos são os mesmos de qualquer cidadão americano. Mas um divórcio significa que voltaria a ser uma imigrante que precisa justificar a sua presença. E com todo o cenário em que a sua família se resume ao seu pai, o governo pode decidir manda-la de volta para a Itália.

Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas de Mika e ela cruzou os braços, em uma clara atitude defensiva enquanto se remexia na cadeira.

- O que exatamente está dizendo?

- Se o seu pai realmente for condenado, eles podem deportá-la. Isso significa que você não teria direito de voltar ao país nem mesmo para visita-lo. – O homem fez uma pausa antes de continuar, novamente com o seu tom de voz prático. – É claro que podemos abrir um processo se tomarem por este caminho, existem meios para tentar mantê-la no país. Mas é um risco.

- Então a sua sugestão é que eu continue casada com o desgraçado que mentiu para mim e armou a prisão do meu pai?

- A minha sugestão é que se aproveite legalmente da única coisa que o Sr. Ward lhe fez de bom.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Sex Abr 28, 2017 6:12 am

- Isso é um absurdo!!! É inadmissível! Depois de todo o trabalho que tivemos, de todo o risco que nós corremos! Eu não acredito que um juiz concordou com este argumento estúpido! Todo mundo sabe que esse desgraçado não está doente! Eu vou pedir a cassação da licença do médico que fez este relatório falso!

Os berros de Dennis Flynn ecoavam por toda a sala de reunião e eram acompanhados pelo som oco dos socos potentes que o investigador acertava sobre a superfície da mesa para pontuar os seus gritos. O restante da equipe ocupava as cadeiras ao redor e os semblantes de todos estampava a derrota com a notícia que agora ilustrava as manchetes dos principais jornais do país.

Um juiz havia concedido a Alessio Moccia o direito de cumprir o restante de sua pena – de 35 anos de prisão – em regime domiciliar. Tudo graças a um longo e detalhado relatório médico que afirmava que a saúde do mafioso estava seriamente comprometida. Segundo o médico, Moccia sofria de uma grave insuficiência cardíaca que exigia que uma longa lista de medicamentos fosse obedecida rigorosamente, assim como a realização periódica de exames e consultas. O mesmo relatório afirmava que as condições de vida na prisão eram precárias e acelerariam a morte do paciente.

Com esse documento em mãos, tudo o que os advogados dos Moccia precisaram fazer foi argumentar com o juiz que Alessio estava sendo condenado a uma pena mais severa do que a definida pelo tribunal. Ao invés dos 35 anos, o mafioso estava cumprindo uma pena de morte.

- A promotoria já pediu uma revisão do caso, Flynn. Uma junta médica vai reavaliar os exames e o Moccia vai voltar para a cadeia se ficar provado que isso é um golpe.

A voz sensata de Rachel Walsh tentou trazer algum grau de racionalidade para aquela reunião, mas Dennis estava inconsolável. Flynn era o chefe da “Operação Moccia” e havia dedicado mais de uma década de trabalho naquele caso. Era frustrante ver Don Alessio livre depois de cumprir pouco mais de um ano de prisão.

A condenação de Alessio já havia sido uma derrota indigesta para a equipe. Flynn queria colocar atrás das grades todos os envolvidos no esquema criminoso da “famiglia”, mas teve que se contentar em trancafiar somente o mafioso. Don Alessio Moccia havia confessado boa parte dos seus crimes, mas em sua confissão não havia o nome de nem mesmo um cúmplice. O mafioso alegou que sempre havia arquitetado tudo sozinho e que nenhum dos seus funcionários conhecia a verdade sobre seus esquemas fraudulentos.

- Tudo isso é uma palhaçada! – Dennis acertou mais um soco que fez a mesa estremecer – Fale alguma coisa, Connor! O que acha disso?

Todos os olhos da mesa se voltaram para Connor Ward, sentado ao lado do chefe. O distintivo do policial agora carregava as iniciais do distrito de Miami, mas Connor fora chamado às pressas para a reunião da equipe de Las Vegas depois daquela grande novidade.

- Acho que você cuspiu no meu café, Flynn. Aliás, tem pingos de saliva por toda a mesa. Se continuar exaltado assim, também vamos precisar de um relatório médico para solicitar a sua internação em um sanatório.

O copo com uma dose dupla de café foi deixado de lado enquanto Connor se recostava de forma mais relaxada na cadeira. O último ano na divisão de Homicídios da polícia de Miami havia feito bem para Ward. Quando saíra de Las Vegas, Connor estava um trapo, abatido, fora de forma, deprimido e desesperançado. Por outro lado, o Ward que retornou à equipe naquela tarde parecia revigorado.

O clima quente de Miami servira para deixar a pele do policial mais corada. Como não trabalhava mais como um espião, Connor havia se dedicado mais aos treinamentos da polícia e seu corpo refletia de forma positiva o resultado dos exercícios regulares. A discreta barriguinha havia desaparecido por completo, os músculos dos braços do rapaz estavam bem definidos, seus ombros pareciam mais largos.

O humor de Ward também havia sofrido mudanças bruscas. No passado, ele estaria tão furioso e descontrolado quanto Flynn diante daquela injustiça. Agora, contudo, Connor tinha maturidade para saber que não valia a pena se exaltar. Alessio Moccia era um homem absurdamente poderoso e quase dois anos de prisão já era uma vitória. No fundo, Ward esperava que os advogados encontrassem uma brecha muito antes daquele prazo.

- Concordo com a Rach. A promotoria está em cima do caso. Se for mesmo um golpe, ele volta para a cadeia. Não há muito o que fazer no momento.

- “Se”??? – os olhos de Flynn quase saltaram para fora do seu rosto – Como assim, Connor? Você realmente está cogitando a possibilidade desse velho maldito estar doente??? É óbvio que isso é um golpe!

- O Moccia não é mais um rapazinho, viveu de forma desregrada, fumava como uma chaminé. Não me parece tão absurda a chance de um cara assim ficar doente. Eu não estou dizendo que sim, nem que não. Prefiro esperar que médicos competentes façam isso.

- Eu não acredito que você está defendendo o Moccia! – mais um soco potente ecoou pela superfície da mesa – Logo você, Connor!? Já se esqueceu de tudo o que aconteceu? Você precisou largar a equipe e mudar de cidade, a sua irmã teve que fugir e trocar de identidade. Até hoje você precisa marcar o campo “casado” quando preenche qualquer maldito formulário porque aquela vadiazinha ainda usa o seu nome para obter cidadania americana!

O semblante de Ward se tornou mais sério, mas nem assim o policial se exaltou. A situação com Michaela era sem dúvida o detalhe mais delicado de toda aquela história. Quando os papéis do divórcio foram liberados, o advogado de Connor encontrou a mansão dos Moccia vazia porque Mika havia retornado às pressas para a Itália. Todas as tentativas de localizá-la foram frustradas, as audiências eram adiadas sistematicamente e agora um processo de divórcio litigioso se arrastava na justiça.

O fato de ser judicialmente casado ainda não causava muitos transtornos para Ward. Mas era um aborrecimento constante e se tornaria um grande obstáculo caso Connor conhecesse outra mulher no futuro e quisesse se casar novamente. Por enquanto, a certidão de casamento não era um empecilho para os seus relacionamentos casuais. Mas é óbvio que Ward preferiria que a situação fosse esclarecida.

- Eu sabia que teria que fazer sacrifícios pela missão. – a voz de Connor soou séria e profissional – Não estou reclamando de nada, Flynn. Mas eu também cansei de ser penalizado. Eu odeio Miami...

Os olhos castanhos giraram enquanto Ward deslizava sobre a mesa um documento oficial de transferência. Não era uma atitude muito sábia retornar para Las Vegas justamente agora que Don Alessio Moccia saíra da prisão. Mas Connor abominava a ideia de continuar em Miami de braços cruzados enquanto a sua verdadeira equipe enfrentava aquele grande problema.

- Estou de volta. E se você fizer mais chiliques, Flynn, vou te trancar no banheiro e assumir o seu lugar.

A notícia sobre o retorno de Connor à equipe foi capaz de resgatar um pouco do bom humor dos colegas. É claro que havia o sério risco de uma retaliação por parte dos Moccia, mas Ward não se importava com aquele perigo. Além de estar novamente ao lado dos amigos, Connor gostava do clima de Las Vegas e, principalmente, queria ficar perto da irmã. Matilda agora morava em uma cidadezinha no interior de Nevada e Ward conseguiria visitá-la com muito mais frequência do que se estivesse em Miami.

O antigo escritório de Connor ainda estava vazio e, portanto, tudo o que o rapaz precisou fazer foi levar as suas caixas de volta. As pilhas de papeis sobre a mesa indicavam que Ward continuava tão desorganizado como de costume, e essa observação fez com que Dalila Williams abrisse um sorriso saudoso enquanto encostava o ombro na porta entreaberta.


- Ainda não sei como você consegue sobreviver em meio ao caos, Conn. Você não mudou nada... – o sorriso da moça se tornou ligeiramente malicioso – Quer dizer, a sua desorganização é a mesma. Você mudou um pouquinho.

- A desorganização faz parte do meu charme, Lila. Não se passaram nem dois anos desde que eu fui embora. Você esperava grandes mudanças?

- Um ano, oito meses e duas semanas. – Dalila buscou pelos olhos do colega antes de confessar – Sim, eu senti a sua falta.

Antes de ingressar como espião na missão Moccia, Connor havia saído com Dalila algumas poucas vezes. A colega era divertida, os dois se davam muito bem e talvez aquela história teria ido adiante se não fosse o furacão Michaela Moccia e o estrago que ela causara na vida de Ward.

Agora, contudo, depois de quase dois anos sem nenhuma notícia da “esposa”, Connor já havia perdido as esperanças de reatar aquele casamento. No momento o seu plano era conseguir o divórcio e seguir com a sua vida. E Dalila Williams surgia novamente como uma excelente opção para um recomeço.

- Ainda existe aquele café na esquina...? – Connor se arriscou numa iniciativa – Podemos dar uma passada lá. O Flynn cuspiu no meu copo e eu não funciono bem sem a minha dose dupla de cafeína de quatro em quatro horas.

- Estamos falando de um estabelecimento que vende café e rosquinhas na esquina de uma delegacia, Conn. É óbvio que ele ainda existe. O dono está a cada dia mais rico, aliás.

Os dois policiais se encararam por alguns segundos antes de soltarem uma risada gostosa com aquela piadinha interna. Apesar de tudo, Ward estava muito feliz por estar de volta em Las Vegas.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Cameron Lahey em Sab Abr 29, 2017 4:50 pm

No instante em que ergueu a arma e colocou Matilda sob a sua mira, Cameron já tinha a certeza de que seria incapaz de atirar. Naquele mero movimento impensado, ele finalmente foi capaz de admitir que independente de qualquer coisa que Belmont pudesse fazer contra si, ele jamais teria coragem de trata-la como uma qualquer.

Era amarga a sensação de derrota, de completo fracasso por ser completamente entregue a uma mulher que o enxergava como nada. Mas aquele era um peso que Matilda deveria carregar consigo. Ele já tinha fantasmas demais para assombrá-lo e não precisava somar mais aquela tragédia em sua vida miserável.

O que Cameron não esperava era ouvir as palavras que saíram da boca de Matilda em seguida. Mesmo com a mente cansada, não foi difícil chegar até a conclusão óbvia, que imediatamente fez o seu mundo girar.

Grávida. Matilda Belmont poderia estar grávida. Nem por um segundo Cameron cogitou que aquele filho poderia não ser seu. Mesmo em meio as decepções envolvendo a governanta, em tantas palavras cruéis que ele acabara de ouvir, a certeza de que ele era o pai fez com que o chão desaparecesse de seus pés.

Com uma expressão chocada, os braços de Cameron despencaram e Matilda finalmente saiu da mira da arma. Um silêncio mortal caiu sobre o quarto enquanto cada pedaço do corpo de Cam tentava absorver aquelas palavras.


Por alguns segundos, Lahey imaginou como seria se aquela notícia tivesse chegado alguns dias antes. E logo a imagem de uma Matilda roliça brincou em sua mente, com cenas de um casal apaixonado que começava a montar uma família. E então Cameron percebeu o quão patético ele estava parecendo.

Ter uma família nunca estivera nos seus planos, e aquela fantasia definitivamente não combinava com seu estilo de vida. Em um outro cenário, o braço direito dos Moccia poderia ter cogitado uma espécie de aposentadoria para abraçar aquela nova realidade. Mas chegava a ser ridículo ter aquele tipo de pensamento quando a Matilda que ele fantasiava não existia.

Depois de tantas mentiras, não seria nenhuma surpresa que aquela fosse apenas mais uma das jogadas de Belmont para brincar com seus sentimentos. A mulher que ele vinha conhecendo nos últimos dias não parecia em nada com a governanta por quem ele se apaixonara. Logo, a cena de uma família entre os dois era uma completa piada.

Cameron havia chegado ao seu limite. Ele não era nada quando o assunto era Matilda. Mas o mínimo que devia a si mesmo era o resto de sua dignidade, sem se deixar ser manipulado daquela forma.

Um sorriso sem vida brotou em seus lábios e os olhos azuis sem brilho baixaram até fitar o carpete que cobria o quarto do hotel. Sua cabeça foi sacudida em negação enquanto a trava da arma era ativada e enfiada na parte de trás de sua calça.

- Pelo menos eu ainda tenho os meus demônios para me manter humano. Seria muito mais lamentável ser como você.

As íris claras foram erguidas e pararam por um breve segundo no ventre reto de Matilda. Mesmo que ela estivesse realmente grávida, era cedo demais para qualquer sinal naquela região. Ainda assim, aquele parecia ser apenas a confirmação de que as palavras de Belmont eram mentirosas.

- Meus demônios podem me assombrar todas as noites quando encosto a cabeça no travesseiro, mas você não vai ter uma vida muito diferente olhando por cima do ombro a cada esquina, esperando que eu termine o meu trabalho. E essa é a melhor satisfação que eu posso ter.

Já não havia sombra de qualquer emoção quando Cameron buscou pelas íris castanhas. A imagem que ele tinha da antiga Matilda já estava desfeita em sua lembrança e ele só conseguia sentir frustração.

- Um dia eu ainda vou conseguir fazer você enxergar que mexeu com o cara errado, Belmont. Você e o seu bebê imaginário.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Michaela Moccia em Sab Abr 29, 2017 7:30 pm

O choro insistente do bebê começava a atrair olhares. A mãe parecia desesperada enquanto tentava acalmar a criança com o balançar dos seus braços, com alguma careta na tentativa de ser engraçada ou com algum brinquedo barulhento em suas mãos, mas nada conseguia minimizar o ruído que interrompia o café da manhã de todos na pequena cafeteria.

- Cameron, eu ainda não tomei a minha dose de cafeína para aturar isso.

Os olhos verdes de Michaela Ward se estreitaram, como se Lahey fosse o responsável pelo incomodo choro do bebê. O cardápio foi colocado de lado e a expressão mal-humorada de Mika mostrava que ela não estava nada satisfeita em estar ali.

O que alguns poderiam interpretar com “ali” sendo a cafeteira barulhenta com um choro chato de um bebê, para Mika se estendia a todo território americano. Ela havia pisado em Las Vegas há poucas horas e já se sentia imensamente incomodada por ter deixado a Itália para trás.

- Eu vou até o balcão pedir para viagem. Minha cabeça vai explodir se continuarmos aqui.

Com um salto, Michaela deixou a mesa e se encaminhou até o balcão. Apenas dois anos tinham se passado, mas a herdeira do falido império Moccia havia conquistado um ar mais maduro em seu olhar, embora o nariz empinado ainda demonstrasse um resquício de arrogância.

De costas para a mesa onde havia deixado Cameron, Mika não notou quando o antigo segurança de Alessio se inclinou para frente e sorriu na direção do bebê na mesa ao lado.

Lahey se abaixou e pegou uma das meias que havia escorregado do minúsculo pé, e quanto abriu um largo sorriso, o choro foi interrompido para que os olhos úmidos do bebê olhassem com curiosidade para o homem.

Quando Mika se voltou com os pedidos em mãos, ela travou diante da cena. Os olhos azuis brilhavam enquanto ele brincava com o pé descalço do bebê. A mãe, uma completa estranha, exibia um sorriso satisfeito por ter visto o choro do seu filho interrompido, mesmo que por alguns minutos.

Dois anos não tinham sido tempo suficiente para que Las Vegas mudasse drasticamente. Algumas lojas tinham sido trocadas, mas basicamente as ruas seguiam os mesmos fluxos com os mesmos engarrafamentos em pontos estratégicos que Mika já conhecia.

O apartamento que um dia teria sido o lar do jovem casal Ward tinha sido organizado de última hora para receber a antiga dona, que não pisava no país há meses. E foi sobre o balcão de sua antiga cozinha que Michaela apoiou a sacola com os bagels e os dois copos de bebida quente.

- Então... Desde quando você se tornou o encantador de bebês?

Os olhos verdes se ergueram do bagel onde ela passava cream cheese para procurar pelo rosto de Cameron como se não estivesse sinceramente curiosa com a cena que havia presenciado há poucos minutos.

- Não começa, Mika. – Cameron puxou um dos bancos para se sentar diante do balcão e puxou para si a própria bebida.

Por mais que Michaela tentasse esconder a verdadeira intenção com aquela pergunta, Lahey sabia exatamente onde ela queria chegar. E não era um caminho que ele gostaria de seguir.

Como sabia que sua abordagem sutil não teria efeito, Mika largou o talher com o cream cheese sobre o prato e agiu da forma mais direta que poderia.

- Você ainda pensa no que aquela vadia te disse, não é?

Lahey não precisava de nomes para saber que a “vadia” era Matilda Belmont. E por saber exatamente que era sobre a ex-namorada que estavam falando, sua expressão se fechou imediatamente. Mesmo depois de tanto tempo, Matilda conseguia ser o único assunto capaz de desarmá-lo.

- Francamente, Cam! Como você ainda pode suspeitar que aquilo fosse verdade? Aquela psicopata mentiu! Os dois mentiram para gente, o tempo todo! Olha só para mim, eu ainda sou a Sra. Ward! Você acha mesmo que a Matilda não mentiria sobre uma gravidez se isso fosse impedir de ter uma bala enfiada na testa?

É claro que Cameron sabia que era mentira. Matilda Belmont havia desaparecido da face da Terra, junto com a sua mentirosa gravidez. Mas mesmo com a certeza de que havia sido apenas mais um dos movimentos daquele arriscado jogo de Matilda, a mente de Cam o traía vez ou outra com a possibilidade de ter um filho.

Como aquele era um assunto que ele preferia não se alongar, Lahey deixou a menina sem resposta enquanto se afastava para a sala. Sozinha na cozinha, Michaela soltou um longo suspiro e baixou o olhar para o jornal abandonado na ponta da bancada.

A manchete mais uma vez trazia o nome dos Moccia, e era por aquele motivo que Michaela havia deixado a Itália e embarcado em um avião para retornar até Las Vegas. Durante quase dois anos, o contato de Mika com o pai havia sido nulo. Embora continuar com o sobrenome de Ward havia sido motivado com a intenção de entrar e sair do país quando bem entendesse, Mika havia se afastado de tudo relacionado aos Moccia nos últimos anos.

Suas conversas com Cameron se resumiam a breves telefonemas semanais, mas qualquer coisa que a ligasse a Alessio era sempre deixado para depois. A mágoa com as mentiras e a decepção com as provas que julgavam Don Alessio como um criminoso eram demais para Michaela tolerar.

Mesmo carregando o sobrenome de Connor, Mika havia começado a reconstruir a sua vida em Veneza. O único parente que havia restado sem envolvimento com as sujeiras dos Moccia era uma prima do seu lado materno, e havia sido sob o teto e proteção dela que Michaela começara a dar os seus primeiros passos independentes.

- Por falar no seu belo sobrenome...

Os olhos verdes foram obrigados a desviar da fotografia de Alessio Moccia do jornal para encarar Cameron que retornava a cozinha. Na foto, o pai não parecia tão doente quanto a matéria alegava, mas Mika havia confiado na palavra de Cameron de que a família realmente precisava se unir naquele momento.

Apesar de toda a mágoa, Mika jamais seria capaz de virar completamente as costas para o pai em um momento tão delicado quanto uma doença.

- O que é isso?

Uma pasta com papéis grampeados foi enfiada na frente do café da manhã de Michaela, mas antes que Cameron pudesse explicar, ela captou as primeiras palavras. Seu estômago se afundou e os lábios imediatamente se comprimiram.

- Bom, parece que já sabem que eu cheguei no país.

- Você sabia que isso iria acontecer, Mika. – Os olhos de Cameron estavam atentos na reação de Michaela, o que obrigou a menina a empurrar os papéis com descaso para o lado.

- Eu só acho engraçado como ele ainda consegue me fazer parecer a vilã dessa história. – Ela rolou os olhos antes de dar uma golada em seu café, tentando esconder o desconforto daquele assunto. – Mas quer saber? É melhor. Pelo menos colocamos de uma vez por todas essa história no passado.

***

O vestido florido caía com perfeição no corpo magro de Michaela Ward. A peça não era ousada ou decotada como a antiga Mika gostava de usar, mas era delicado e a última tendência no verão italiano.

Os cabelos loiros continuavam volumosos e com largos cachos, mas assim como a roupa era mais discreta, a maquiagem também estava mais suave e os saltos eram menores. Era quase como se Mika fosse realmente uma esposa madura que evitava chamar a atenção como uma menininha mimada.

Ela sentia o coração batendo forte contra o peito quando pisou na delegacia e sentiu todos os músculos ficarem mais tensos como se estivesse pisando em um ninho de cobras, mas foi com uma aparente confiança que ela parou diante do atendente.

- Preciso falar com Connor Ward.

O rapaz, que estava reclinado sobre o balcão fazendo palavras cruzadas em um jornal, ergueu o rosto para encarar a mulher a sua frente. As sobrancelhas franziram diante da imagem que não combinava com o tipo de pessoa que frequentava aquele lugar.

- Com o que posso ajudar?

Um sorrisinho surgiu no canto dos lábios quando Michaela notou que o policial a sua frente não havia reconhecido seu rosto. Era um caso inédito, mas talvez depois de dois anos, Las Vegas tivesse finalmente se cansado do assunto Moccia. Afinal, o único rosto que estampava os jornais naquela semana era o de Alessio.

- Diga que é a esposa dele.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Sab Abr 29, 2017 7:58 pm

- Sarah Baker???

A atendente precisou chamar pelo nome de Sarah Baker três vezes para que a moça sentada na recepção se manifestasse. Com um milhão de coisas na cabeça, Matilda demorou a se lembrar que aquele era o novo nome que constava em seus documentos.

A nova identidade era uma exigência do programa de proteção à testemunha. Todos os documentos de Matilda agora continham o nome de Sarah Evelyn Baker, uma nova data de nascimento, nomes falsos de um pai e de uma mãe que não existiam.

Além da nova identidade, a ex-governanta ganhara um novo emprego. A empresa de telemarketing permitiu que Matilda trabalhasse de casa através do telefone e do e-mail, o que também era uma exigência do programa. Quanto menos Matilda circulasse pelas ruas, menor era a chance da moça ser reconhecida por pessoas que levariam notícias do seu paradeiro aos Moccia.

O único detalhe que não parecia tão ideal para a segurança de Belmont era a localização de sua nova casa. Connor tentou convencer Matilda a se instalar o mais longe possível de Las Vegas, mas a moça ignorou aquele conselho quando optou pela pequena e simpática cidade de Beaufort.

Localizada há cerca de três horas de Vegas, Beaufort ficava nos limites do estado de Nevada com a Califórnia. A cidade com poucos habitantes era tranquila, vivia do comércio local e não era muito conhecida em uma região marcada por cidades muito mais badaladas. Embora fosse uma bela e pacata cidadezinha, Beaufort não fora escolhida casualmente por Matilda. A razão que levara a moça até lá atendia pelo nome de Molly Baker.

Aos sessenta anos de idade, “Molly Baker” também era uma vítima inscrita no programa de proteção à testemunha. Depois de décadas de maus tratos, Molly buscou ajuda da polícia para fugir de um marido violento ligado ao tráfico de drogas. A ideia inicial do programa ao unir as vítimas era construir uma história mais sólida para as duas mulheres, mas Matilda acabou encontrando naquela "tia" a salvação para os seus problemas e o reflexo de uma mãe que ela nunca tivera.

Embora as duas vivessem juntas há pouco mais de um ano, já havia entre elas uma sintonia única. Molly era chamada de tia com imensa naturalidade e ninguém que as conhecesse duvidaria daquele grau de parentesco e do carinho que nutriam uma pela outra.

O fato de Beaufort ser próxima a Vegas não era algo que preocupava Matilda. Era mais lógico concluir que os Moccia não a procurariam pelas redondezas. Certamente todos os esforços seriam voltados para a região de Miami, mas a máfia estava enganada ao pensar que Matilda procurara por um abrigo próximo ao irmão.

- Sarah Baker? - a atendente repetiu para a moça que se aproximou do balcão.

- Sim, sou eu. - a nova identidade de Matilda foi mostrada para a outra moça - Eu estava distraída, desculpe.

- O doutor Moore já está te esperando. Você só precisa assinar aqui.

Com um sorriso gentil, a atendente indicou à Sarah Baker uma linha e pediu que ela assinasse o comparecimento à consulta médica. Com cuidado, Matilda desenhou no papel a sua nova assinatura antes de devolver a folha à secretária.

O Dr. Moore também era um dos pilares que sustentava a nova vida de Belmont. Matilda sempre se esforçou para parecer forte diante das adversidades, mas a moça desmoronou quando se viu completamente sozinha, grávida, distante do irmão e com medo da vingança dos Moccia. Se não fosse por Molly e pelo terapeuta, Matilda estava certa de que não teria conseguido enfrentar todos os desafios daquela nova vida.

Como a moça já estava ótima, a terapia se resumia a uma conversa amigável com o psiquiatra trimestralmente. Matilda ainda tinha alguns traumas, mas era evidente que a moça voltava a ser mais firme e confiante em suas decisões. O passado com os Moccia fora deixado para trás e Sarah Baker agora focava toda a sua concentração em sua pequena e nova família.

Geralmente era Molly quem fazia as compras para a casa, mas naquela tarde Matilda se aproveitou da consulta médica para passar no mercado. Sem pressa, a moça encheu o carrinho enquanto riscava os itens da sua lista de compras. Por estar tão concentrada naquela tarefa, Sarah Baker não percebeu quando um outro "cliente" do mercado sacou o celular e tirou uma foto dela.

A imagem mostrava uma moça pensativa diante de uma prateleira de cereais. A ruguinha entre os olhos castanhos refletia a preocupação banal de alguém que somente procura pela melhor marca.

A principal diferença entre Sarah Baker e Matilda Belmont estava nos cabelos curtinhos da moça. Os longos fios que ultrapassavam os ombros da antiga governanta dos Moccia agora alcançavam somente a nuca da jovem e estavam mais lisos. Apesar da gravidez recente, Matilda parecia ligeiramente mais magra do que no passado, com o rosto mais afinado. O vestido justo evidenciava um alargamento muito discreto nos quadris, só perceptível para alguém que conhecesse muito bem o corpo da antiga governanta.

Há um ano, Matilda estava tão tensa com aquele novo estilo de vida que jamais cometeria um erro tão tolo. Naquele dia, porém, a aparente tranquilidade de sua rotina fez com que a moça se esquecesse de pegar a notinha das compras.

Enquanto Sarah Baker saía do mercado carregando duas sacolas de compras, o mesmo homem que a fotografara puxou discretamente para seu bolso a notinha que ela deixara no balcão.

Havia sido uma compra comum. Uma caixa de cereais, suco, um pão de forma, manteiga, algumas frutas e legumes. Mas o detalhe mais importante da notinha vinha no fim da folha. A pomada para prevenir assaduras e os três pacotes de fraldas infantis denunciavam que havia um bebê dividindo a casa com Molly e Sarah Baker.

E o espião sabia o quanto aquela informação era importante quando enviou a foto de Matilda e outra foto da notinha para o celular de Cameron Lahey.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Sab Abr 29, 2017 9:05 pm

- E então nós estávamos lá, bem no meio da cena do crime, e o celular do Derek tocou. A mulher dele berrava tão alto que todos nós escutávamos os gritos histéricos. Ela botou um rastreador no celular dele e simplesmente se recusava a acreditar que o Derek estava num motel coletando provas de um assassinato. “Quem é a vadia??? É aquela secretária vagabunda da delegacia, não é?”

A voz grave de Connor se modificou de forma bizarra para imitar a histeria da esposa do seu antigo parceiro em Miami. Aquela imitação arrancou uma risada gostosa de Dalila e quase fez a moça se engasgar com o gigantesco copo de café que ela tomava na calçada, enquanto os dois caminhavam de volta para a delegacia.

- O Derek me lançou aquele olhar de súplica, e então eu decidi ajudá-lo. – Ward fez uma pausa antes que o sorrisinho torto surgisse em seus lábios – Me aproximei dele e gemi algo como: “Livre-se logo dessa mocreia, benzão. Eu estou no ponto que você gosta.”

Dalila deixou escapar um guincho antes de soltar uma gargalhada ainda mais potente. Lágrimas de diversão escorriam pelo rosto da policial quando os dois entraram novamente na delegacia devidamente abastecidos com copos de café e um saco lotado de donuts.

- Mentira!!! – Dalila não conseguia parar de rir – Você não fez isso!!!

- O Derek explicou a ela que tudo era uma brincadeira, mas ela continuou me olhando atravessado, como se eu quisesse roubar o marido dela. Aff... – Connor deu de ombros antes de completar – O Derek nem faz o meu tipo. Eu mereço coisa melhor.

- Você é inacreditável, Conn! Meu Deus!

Os dois policiais estavam profundamente distraídos naquela conversa animada e teriam seguido direto para o interior da delegacia se não fosse pelos gestos exagerados que o rapaz do balcão fazia para chamar a atenção de Connor. Somente quando Ward se aproximou do recepcionista, o rapaz se atreveu a abrir a boca.

- Você tem visitas.

Connor não esperava receber ninguém naquele primeiro dia de volta ao trabalho em Vegas. Seus amigos eram basicamente os colegas da equipe e Fred, que ainda não sabia que Ward estava de volta à cidade. Era óbvio que Matilda também não seria louca de pisar justamente ali, então só restava ao policial uma hipótese nada agradável.

- Eu não falo com jornalistas. Diga a eles que a minha opinião sobre o assunto é a mesma da nota oficial divulgada pelo departamento.

- Ela disse que é a sua esposa.

O indicador do rapaz apontou para as cadeiras de espera posicionadas num canto da recepção. Vagarosamente, Connor virou a cabeça na direção indicada pelo colega e seu coração acelerado reconheceu Michaela antes mesmo que os olhos castanhos se acostumassem às mudanças ocorridas nos últimos meses.

Definitivamente, de todas as pessoas do planeta, Mika era a última que Connor pensou que veria na recepção da delegacia. Depois de quase dois anos sem nenhuma notícia da filha de Don Alessio Moccia, Ward estava convencido de que nunca mais a veria. Provavelmente um juiz finalizaria o divórcio e Connor ficaria livre daquele problema mesmo sem uma assinatura de Mika. Era bizarro que Michaela tivesse vindo tão facilmente ao encontro dele.

- Quer que eu peça a alguém para tirá-la daqui? – a voz de Dalila soou às costas do colega enquanto Connor não conseguia piscar diante daquela visão – Acho melhor você não se desgastar com isso, Conn. Ela provavelmente veio se vangloriar da vitória, vai fazer algum escândalo desnecessário... O caso já foi para a justiça, deixe que um juiz termine de resolver esta pendência.

A opinião de Dalila Williams era bastante racional. Independente de qualquer ligação mais íntima que ela tivesse com Ward fora da delegacia, naquele momento a moça estava agindo como uma policial. O medo dela era que Michaela conseguisse provocar o marido ao ponto de Connor fazer alguma bobagem que prejudicasse ainda mais a situação dele no complicado processo de divórcio.

Ao contrário da colega, Ward não tinha aquele receio. Sua vasta experiência com as provocações de Mika davam ao rapaz a certeza de que ele não perderia o controle se aquele reencontro se transformasse em mais uma briga.

A parte racional de sua mente dizia que aquele encontro poderia se transformar em um acordo que facilitaria em muito a vida dos dois. Mas, no fundo, Connor não fugiu daquela conversa porque seu coração absurdamente acelerado não aceitava a alternativa de dispensar Michaela. Depois de quase dois anos sem vê-la, sem ouvir a voz dela e sem sentir seu perfume, Ward simplesmente não conseguiu resistir à tentação.

- Relaxa, Lila. Eu sei o que estou fazendo, hm? E mesmo se as coisas saírem do controle, não teremos um problema tão grande. Ela é minúscula, podemos esconder o corpo em qualquer maletinha. Guarde alguns para mim, sim?

O saco com os donuts foi entregue para Dalila antes que Connor se afastasse da colega. Parecia impossível, mas o coração do policial se acelerou ainda mais enquanto ele se aproximava da cadeira ocupada por Michaela, ao ponto de Ward sentir as pulsações irradiando até a sua garganta.

Era notável como o verdadeiro Connor Ward era diferente do gerente que Mika conhecera. Os ternos baratos não pareciam combinar com ele, mas, por outro lado, Connor parecia muito mais à vontade com a calça preta, os coturnos e a camisa de mangas curtas que deixava à mostra os músculos dos braços. O distintivo no peito e o rádio da polícia preso ao cinto compunham o visual do rapaz naquele dia, assim como os cabelos ligeiramente atrapalhados depois do contato com o vento da calçada.

- Vamos pro meu escritório.

A sugestão de Connor soou antes que Michaela tivesse a chance de abrir a boca. Ward não fazia ideia das motivações que levaram Mika até a delegacia, mas independente do teor da conversa era mais sensato que os dois ficassem a sós. A notícia sobre a “esposa” de Ward já havia se espalhado pelo departamento e vários curiosos já arrastavam seus passos pela recepção na esperança de assistirem ao escândalo.

O toque do celular do policial interrompeu o espetáculo. Connor sacou o aparelho do bolso com a intenção de desligá-lo, mas a imagem exibida na tela de chamada o deixou sem reação por alguns breves segundos. Na foto, Ward carregava um bebê sorridente. Os grandes olhos castanhos brilhavam para o adulto enquanto Connor fazia uma careta divertida. O minúsculo boné azul denunciava que era um garotinho, assim como a pequenina camiseta esportiva do Chicago Bulls – idêntica a que Connor também usava na mesma ocasião.

Connor estava certo de que seus dois segundos de hesitação não tinham causado nenhum estrago quando ele levou o celular ao rosto.

- Oi. Estou um pouco ocupado agora, eu te ligo daqui a pouco, ok?

Antes que a voz de Matilda soasse do outro lado da linha, Ward desligou o celular e o enfiou de volta no bolso, desta vez com o cuidado de manter a tela longe do olhar de Michaela.

- Vamos. – o braço do policial indicou o caminho que Mika deveria seguir – É por aqui.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Cameron Lahey em Dom Abr 30, 2017 1:12 am

- Você tem certeza?

Cameron estava quase soletrando as palavras, como se quisesse fazer com que Michaela compreendesse a profundidade daquela questão. Apesar da forma lenta com que seus lábios se moviam, seu coração estava disparado e as mãos tremiam ligeiramente enquanto ele gesticulava diante da menina.

- Cam, eu não falaria isso para você se não tivesse certeza.

A expressão de Mika demonstrava que ela definitivamente não iria adiante naquele assunto se não tivesse absoluta certeza. Durante aqueles quase dois anos, todas as vezes que Cameron havia dado qualquer indício de como havia ficado perturbado como as coisas haviam terminado com Matilda, Michaela era a primeira a enfatizar o quanto uma gravidez era pouco provável.

Por isso, receber a notícia dos lábios da filha de Alessio de que havia uma possibilidade de existir um bebê naquela história fazia sua cabeça girar. As mãos nervosas se afundaram nos cabelos enquanto ele respirava profundamente.

- Bom, passou pela sua cabeça que pode ser filho do Connor? Que o gerentezinho começou a própria família?

- Connor teria esfregado na minha cara no minuto que eu pisei naquela sala se fosse filho dele.

- Pode ser de algum amigo próximo. Um afilhado?

Parecia bizarro que depois de quase dois anos, Cameron ainda tentasse arrumar desculpas para que aquilo não fosse verdade. Quando uma parte sua vibrava com a possibilidade de que realmente tivesse um filho seu no mundo.

Desde a prisão de Alessio, o império dos Moccia havia sido arruinado. O cassino tinha sido fechado, assim como todos os hotéis e restaurantes da rede. Diversos imóveis tinham sido vendidos, restando apenas aqueles que não estavam ligados diretamente ao nome de Alessio.

O apartamento de Michaela tinha sido uma das poucas coisas que restara, por estar registrado no nome da menina. A mansão havia ficado trancada por mais de um ano e só havia sido liberada depois de um longo processo com três advogados a frente. Como não tinha mais um trabalho que ocupasse o seu tempo mais do que algumas visitas semanais a Don Alessio, Lahey passou a dedicar os seus dias a única coisa que impedia que ele surtasse: a reabertura do cassino.

Depois de quase dois anos, o Cassino Moccia continuava com as portas fechadas. Mas o antigo segurança trabalhava todos os dias para que o lugar pudesse ser reaberto algum dia. Sem Michaela por perto, Alessio tinha apenas Cameron com quem contar e se enchia de orgulho ao ver que o rapaz se empenhava tanto em seguir com aquele caminho.

Apesar das portas fechadas, a decisão de seguir por um rumo mais limpo havia sido apenas uma consequência. Cameron não tinha a intenção de passar o resto dos seus dias em uma prisão, assim como não pretendia decepcionar Alessio.

Por trás dos cadeados que mantinham o cassino fechado, entretanto, as relações de amizade não tinham sido desfeitas por completo. Os Moccia poderiam estar fora da jogada, mas Cameron ainda tinha a influência conquistada por tantos anos de trabalho.

Estar fora do mundo dos crimes era uma transformação na vida de Lahey. Era a primeira vez que ele aprendia a viver daquela forma, o que permitia que pensasse algumas vezes sobre o tipo de futuro que poderia ter. E a ideia de um filho naquela solidão era assustadoramente prazerosa.

- É sério, Cam? Quantas pessoas você conhece que andam por aí com a foto do filho do amigo no celular? – Mika girou os olhos, se colocando de pé. – Se você não está preparado para encarar isso, está bem. Eu só achei que você gostaria de saber.

Os passos de Michaela foram ecoando pelo apartamento até desaparecer pelo corredor dos quartos. Durante quase dois minutos inteiros, Cameron permaneceu sentado na sala silenciosa, apenas sentindo o coração batendo forte contra o seu peito. Quando ele finalmente se mexeu, foi apenas para erguer o celular até seu ouvido.

- Jeremy? – Cam esperou que o homem do outro lado da linha o cumprimentasse antes de completar, parecendo repentinamente com o velho segurança. – Eu tenho um serviço para você.

***

Sarah Baker. O nome soava tão estranho que Cameron poderia ter facilmente ignorado se estivesse na mesma sala por alguém chamando por ela. Porém, a foto na tela do seu celular não deixava dúvidas.

Os cabelos estavam mais curtos, mas era impossível questionar que aquele nariz arrebitado, que a forma com que os lábios estavam franzidos ou a concentração dos olhos castanhos pertenciam a Matilda Belmont. Alguns dias tinham se passado desde que aquela foto havia chegado no celular de Cameron, mas ainda assim, ele não conseguia acreditar no que estava vendo.

O polegar tocou a tela e deslizou para o lado. A foto de Matilda desapareceu, apenas para aparecer a fotografia da nota fiscal do supermercado. Ali estava a explicação para a fotografia que Mika havia encontrado no celular de Ward. Ainda assim, Cameron sabia que precisava ver com os próprios olhos.

O sol quente de verão obrigava Cameron a franzir a testa, mesmo estando dentro do carro e com óculos escuros. A janela do motorista estava abaixada e o braço pendurado para fora, mas não havia nenhum vento naquela cidadezinha.

A casa do outro lado da calçada parecia comum. Só mais uma casa do subúrbio, sem nada de especial. Mas era aquele endereço que ele havia chegado após as pistas iniciais do seu investigador particular. O lugar estava calmo, mas Cameron já estava sentado há quase uma hora sem sinal dos moradores.

Embora não tivesse crescido em bairros familiares como aquele, Cameron sabia que começaria a chamar atenção se continuasse ali por muito mais tempo. Por isso se rendeu a ansiedade e finalmente desligou o carro, caminhando pela grama verde até a entrada da casa.

Cameron Lahey havia mudado naqueles dois anos. As roupas ainda formais escondiam o corpo atlético, os cabelos estavam alguns centímetros maiores e a barba maior lhe dava um ar mais velho e atraente. Ainda assim, não era o suficiente para Matilda deixar de reconhece-lo.

Nos poucos passos que deu até a porta, Cam imaginou qual seria a reação da ex-governanta quando surgisse do outro lado. Ela ainda teria uma arma para se defender? Sutaria e chamaria a polícia?

A mente de Cam ainda criava teorias quando a maçaneta girou, mas não foi a antiga ou nova imagem de Matilda que apareceu. Por um segundo, quando encontrou a senhora idosa, Cameron chegou a recuar um passo para conferir se o número da casa estava condizendo com o endereço que ele havia conseguido. Mas sim, ele estava no lugar certo.

- Oi? – Cam começou, engasgando.

Ele estava pronto para perguntar por Matilda ou Sarah, onde certamente arruinaria tudo, quando a porta terminou de se abrir. O menininho no colo da mulher tinha a mesma idade que Michaela havia comentado. E então Cameron ficou mudo, congelado na pequena varanda da casa, completamente sem reação.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Michaela Moccia em Dom Abr 30, 2017 1:13 am

A fotografia no celular de Connor pareceu apenas um reflexo rápido, mas foi suficiente para que os olhos verdes de Michaela captassem a imagem de um bebê. Seu olhar se estreitou e uma ruguinha surgiu entre as sobrancelhas claras, mas seus passos continuaram decididos pelo caminho que lhe era apresentado.

Se Ward tinha alguma dúvida se a esposa havia flagrado aquele pequeno deslize, ela não demonstrou nenhuma desconfiança quando se acomodou na cadeira diante da mesa do policial.

As pernas foram cruzadas, deixando os joelhos expostos pelo vestido florido, e a bolsa foi colocada de lado para que as mãos livres pudessem ser apoiadas em sua perna. Enquanto Ward se acomodava em seu próprio lugar, Mika estudou o escritório tão diferente do que ela costumava visitar no passado. Por fim, seu olhar pousou no rapaz a sua frente.

Assim como Connor, ela sentia seu coração acelerado. Depois de toda a história vivida pelos dois, Mika chegou a acreditar que aquele reencontro não seria capaz de lhe afetar. O tempo na Itália deveria ter sido suficiente para que ela esquecesse qualquer sentimento que tivesse por Connor, que a única coisa restante seria o desprezo.

Mas a verdade era que rever Connor resgatava lembranças profundas demais, que ela agora sabia estarem apenas adormecidas. O que ela não podia esquecer, entretanto, era que não importava como se sentia em relação a Ward. Ele ainda era o homem que havia mentido para conseguir entregar um bom relatório aos seus superiores.

Se o policial acreditava que aquela visita tinha alguma relação com a novidade a respeito de Alessio Moccia, se surpreenderia ao ver que a intenção de Michaela não envolvia citar o nome do pai.

- O seu amigo pareceu bastante surpreso quando eu disse que era sua esposa. O que foi, Connor? Você saiu do cassino e de repente a filha de um mafioso não é boa o bastante?

As sobrancelhas claras foram arqueadas e logo Michaela abriu um sorriso para denunciar a brincadeira. Era estranho ter aquele tipo de conversa com Connor, quando o último encontro dos dois tinha sido tão desastroso. Mas para Mika, usar seu humor ácido era a forma mais fácil de lidar com aquela situação.

- Eu acabei de voltar da Itália e recebi os papéis do divórcio. Litigioso, ahn?

Mika mordeu o lábio inferior enquanto seu olhar se perdia momentaneamente pelo escritório de Connor. Ela sabia que não poderia julgá-lo por chegar até aquele ponto, afinal havia deixado o país carregando o sobrenome dele. Era surpreendente que a justiça ainda não tivesse decretado um abandono de lar e libertado Ward daquele casamento.

Mas uma parte de Michaela se sentia ofendida com aquela decisão. Ela acreditava que, depois de tudo que Connor havia feito, deveria ter lhe restado ao menos a dignidade de encerrar aquele casamento.

- Não se preocupe, eu não estou aqui para berrar ou encenar o “furacão Mika”. – Ela girou os olhos diante da expressão que usavam para se referir ao seu temperamento. – Mas meu advogado listou alguns pontos...

- Connor, cadê os donuts?

Uma cabeça atravessou por uma brecha da porta do escritório de Connor, mas arregalou os olhos ao perceber que Ward não estava sozinho. Com uma careta, o policial franziu o nariz.

- Ops! Foi mal! Não sabia que estava ocupado.

A porta foi fechada meio segundo depois, mas Michaela já encarava Connor com um ar de zombação. A cabeça inclinada fazia com que os cachos loiros, alguns centímetros maiores do que dois anos antes, roçassem em seu braço apoiado na cadeira.

- Donuts? Você deixou de gerenciar um cassino por donuts? – Mika girou os olhos e descruzou as pernas, deslizando para a ponta da cadeira. – Enfim, eu prefiro falar sobre isso em algum lugar mais apropriado. Pode me encontrar no fim do expediente? Eu estou no antigo apartamento.

Um bom observador notaria como Michaela havia cuidadosamente excluído a palavra “nosso” para se referenciar o apartamento que dividira com Connor por alguns meses. Então, quando Mika estava quase indo embora sem mencionar Alessio Moccia, ela finalmente concluiu com uma entonação mais suave, sem qualquer indicio de provocação.

- Não precisa se preocupar. Ele não vai ser solto até amanhã. E pelo que o Cameron já deixou claro, vai direto para casa.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Dom Abr 30, 2017 2:12 am

- Oi! – o sorriso de Molly Baker se alargou enquanto ela olhava Cameron de cima a baixo, um pouco surpresa em vê-lo tão bem vestido – Você deve ser o Bruce! Fico muito feliz que tenha vindo mais cedo, a situação está bastante caótica aqui.

Um problema na geladeira obrigara Molly a buscar na lista telefônica pela assistência de um profissional. Bruce Pratt era um dos primeiros nomes da lista e oferecia seu trabalho a um preço bastante razoável. A dona da casa havia combinado de recebê-lo no fim da tarde, mas era uma agradável surpresa ver que o rapaz chegara um pouco mais cedo. As roupas formais não pareciam combinar com aquele tipo de trabalho, mas Molly preferiu não fazer julgamentos sobre as escolhas do rapaz.

Completamente alheia ao fato de que o mundo de Cameron estava desmoronando ao redor do rapaz, Molly abriu mais a porta, dando espaço para que ele entrasse na casa.

- Vamos, rapaz, entre! Eu vou levá-lo até a cozinha.

Não era preciso conhecer Molly para notar que ela era uma boa pessoa. Seu sorriso doce tinha uma pureza natural, assim como os olhos azuis refletiam uma serenidade contagiante. Os cabelos grisalhos contribuíam para aquele ar maduro, assim como as roupas confortáveis que escondiam seu corpo gordinho.

Mas é claro que Cameron não conseguiria notar todos aqueles detalhes com a atenção voltada exclusivamente para a criança nos braços dela. O garotinho parecia ter por volta de um ano. Seus olhos castanhos curiosos encaravam o estranho enquanto a boquinha babava no mordedor em forma de girafa. Como o dia estava quente, o bebê usava uma camiseta branca e uma minúscula bermudinha. Os cabelos castanhos estavam impecavelmente penteados, os pés descalços se debatiam no ar de forma rítmica e ele chegou a acertar um leve chutezinho em Cameron enquanto o homem entrava na casa.

Assim como a fachada anunciava, o interior da casa era simples. Não havia nenhum luxo na decoração da sala e os móveis eram visivelmente antigos. Tudo estava impecavelmente limpo, mas os brinquedos espalhados no tapete indicavam que era impossível manter em ordem uma casa onde vivia um bebê.

- É logo aqui. Pode vir comigo.

Assim que pisou na cozinha, Lahey notou facilmente qual era o problema. O piso ao redor da geladeira estava coberto por uma poça de água e o motor havia parado de funcionar. Molly ajeitou o bebê nos braços de forma mais confortável enquanto explicava a situação.

- Há alguns dias começamos a sentir um discreto cheiro de queimado. Hoje quando acordei a geladeira simplesmente não funcionava mais. Desculpe por tê-lo chamado com tanta urgência, mas a geladeira está cheia. Eu uso insulina e tem medicação suficiente para um mês aí. Não posso perder tudo isso.

Assim como o restante dos eletrodomésticos, a geladeira não era nova. A troca de um motor queimado não seria barato, ainda mais para duas mulheres que viviam da aposentadoria de Molly e do salário modesto que Matilda ganhava em seu novo emprego. O fato de haver uma criança na casa aumentava consideravelmente os gastos do mês.

- Você não trouxe ferramentas? – Molly estranhou as mãos vazias de “Bruce”, mas novamente não desconfiou que estivesse cometendo algum engano – Tem uma caixa debaixo da pia, talvez te ajude.

A dona da casa chegou a abrir a boca para fazer mais algum comentário, mas o choro de um bebê interrompeu o discurso de Molly. O mais bizarro era que o garotinho nos braços dela continuava calmo e interessado no seu mordedor de girafa. O choro vinha do segundo andar e ecoava dentro da cozinha graças ao aparelho de babá eletrônica sobre a pia.

- Dedéééé!

O sorriso do garotinho se alargou, arrancando uma risada de Molly. A mulher depositou um beijo carinhoso na testa do menino antes de concordar com um movimento de cabeça.

- É, a Dedé acordou. Vamos buscá-la? – Molly se voltou para “Bruce” com uma expressão simpática – Eu já volto. Fique à vontade, certo?

Os cinco minutos que Molly levou para retornar à cozinha não preparariam Cameron para aquela surpresa. Com alguma dificuldade, a mulher conseguia carregar um bebê em cada braço. À direita, estava o mesmo garotinho que Lahey já conhecera. No braço esquerdo, Molly equilibrava uma menininha sonolenta. Os cabelos dela eram castanhos como os do menino, mas os olhos profundamente azuis não tinham vindo da mãe. O pijama era um macacãozinho branco estampado com bolinhas cor de rosa e os pés estavam cobertos por meias vermelhas.

- Onde a mamãe deixou o xarope, Dedé?

Enquanto falava, Molly deixou o garotinho no cercadinho armado no canto da cozinha e concentrou sua atenção na menina. O tal xarope estava no canto da pia e, assim que a “tia” o pegou, a garotinha curvou os lábios num enorme bico. Exatamente como Molly temia, a boquinha se manteve fechada quando ela ofereceu à criança uma colherada do xarope.

- Dedé! Só um pouquinho, princesa! Você ainda está gripadinha. – a colher novamente encontrou os lábios da menina firmemente fechados – Deus do céu, como a sua mamãe consegue fazer você tomar isso?

Quando finalmente notou que “Bruce” assistia aquela cena boquiaberto, Molly abriu um sorriso enquanto explicava a situação para o “técnico”.

- São os gêmeos da minha sobrinha. Ela saiu para pagar umas contas e me encarregou de dar o xarope. Ela só esqueceu de me contar o segredo para abrir a boca desta mocinha.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Dom Abr 30, 2017 3:13 am

A desorganização de Connor estava escancarada em cada centímetro do escritório. Em defesa do policial, ele ainda estava se instalando naquele primeiro dia de trabalho, mas Michaela já havia morado com ele. Melhor do que ninguém, Mika sabia que Ward sobrevivia com facilidade em meio ao caos. Os dois já tinham brigado muito por causa das roupas jogadas de qualquer forma no armário, dos sapatos abandonados no meio do quarto, dos copos que Connor deixava espalhados pela casa.

As pilhas de papéis se pareciam com os documentos que geralmente eram jogados no chão para que os dois pudessem se agarrar sobre a mesa no cassino. As caixas com os objetos pessoais de Ward ainda estavam empilhadas ao lado da porta. A superfície lisa da mesa já exibia a mancha de um copo que fora apoiado ali mais cedo. Mas o mais bizarro em tudo aquilo era que o policial não demoraria mais que dez segundos para localizar qualquer documento naquela baderna. A cabeça de Connor definitivamente funcionava bem com aquela bagunça.

- Que escolha eu tinha? Você simplesmente sumiu no mundo carregando o meu nome. Aliás, você não se esforçou nem um pouco para se livrar do meu sobrenome, hm? Achei que não gostasse de “Michaela Ward”.

Assim como Mika, Connor não permitiu que aquele reencontro se transformasse em um acerto de contas lotado de acusações. Se Michaela preferia levar a conversa para o lado das provocações, Ward estava pronto para seguir no mesmo caminho. Era como voltar no tempo e aterrissar na época em que Mika invadia seu escritório no cassino para que os dois trocassem farpas. A diferença era que, desta vez, eles não terminariam a discussão com um amasso no sofá.

- Eu voltei ao trabalho hoje. Tenho um milhão de coisas para fazer, ainda não arrumei um lugar para ficar. Por mais que seja tentador o convite de passar no seu apartamento e correr o risco de levar uma surra dos seus seguranças ou algo neste estilo, eu vou recusar.

Apesar da discordância, Ward manteve um sorrisinho tranquilo nos lábios. O policial se recostou mais confortavelmente em sua cadeira giratória e tamborilou com os dedos na superfície da mesa enquanto estudava a imagem de Mika, como se estivesse diante de um dos suspeitos que ele geralmente interrogava.

- Não há o que falar, Michaela. A situação é bem simples. Ou você assina o divórcio e colocamos um fim no processo, ou deixamos as coisas como estão e aguardamos a decisão do juiz.

Era incômodo ter aquela conversa tão técnica com Mika. O último encontro dos dois fora absurdamente intenso e uma das últimas coisas que Connor dissera à esposa era que a amava. Agora, contudo, eles agiam como estranhos que precisavam chegar a um acordo sobre um contrato de negócios.

- Não sei se você teve tempo de ler o processo, mas o meu advogado deixou bem claro que eu não quero nada. O apartamento é seu, o carro, o dinheiro... Nada disso nunca foi meu e eu não quero complicar o processo com nenhuma exigência. Só preciso que você pare de usar o meu nome e me deixe livre de novo.

De fato, Connor não havia levado do apartamento nada além de seus objetos pessoais. Até mesmo os presentes mais caros que Mika lhe dera ao longo daquele relacionamento foram deixados para trás. A certidão de casamento firmava uma união com divisão parcial de bens, mas no processo de divórcio o policial abria mão de qualquer valor da herança dos Moccia que pudesse ser seu por direito.

- Ou melhor... tem mais uma coisa que eu gostaria muito que você me devolvesse.

O semblante inicialmente sério de Connor passava a impressão de que o policial manteria a formalidade daquela conversa. Contudo, logo o sorrisinho torto brotou nos lábios de Ward antes que ele completasse o raciocínio.

- Eu ficaria muito grato se você devolvesse esse radar que te avisa sempre que eu estou perto de outra mulher. Você não precisa mais dele e essa coisa vai atrapalhar os meus esquemas.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Cameron Lahey em Dom Abr 30, 2017 3:58 pm

Estava um dia quente naquela pequena cidade, mas a ventilação interna da casa funcionava normalmente, o que não explicava porque Cameron se sentia sufocado e ligeiramente tonto. Uma vertigem começava a incomodá-lo e ele precisou se apoiar contra a cadeira da cozinha no instante em que Molly desapareceu pelo corredor com o bebê em seu colo.

A cozinha girava ao seu redor enquanto Lahey tentava organizar os seus pensamentos. Matilda não estava ali, mas aquilo não significava que aquela não era a casa dela. Ou que aquele bebê que ele havia acabado de ver não era o seu filho.

O paletó de Cameron foi retirado e jogado sobre o encosto da cadeira. As mangas da camisa azul foram arregaçadas até os cotovelos e ele se inclinou sobre a pia, abrindo a torneira para molhar o próprio rosto e a nuca, molhando boa parte da própria roupa no processo.

Ele já estava dentro da casa. Não poderia simplesmente sair correndo. O comportamento estranho certamente seria discutido entre as duas mulheres que dividiam aquela casa e Matilda logo chegaria a conclusão de que o ex-namorado havia lhe encontrado. Antes mesmo do pôr do sol, ela desapareceria novamente no mundo. Desta vez, deixando Cameron com a certeza de que seu filho também tinha ido embora.

Com as duas mãos apoiadas na pia, Cameron respirou fundo uma dúzia de vezes enquanto se obrigava a manter a calma. Molly não suspeitava de nada. De alguma forma, por uma imensa sorte do destino, a mulher o confundira com algum técnico e Cameron não desperdiçaria aquela oportunidade.

Quando Molly apareceu novamente na cozinha, Lahey já estava completamente a vontade no papel de um simples técnico. A camisa social também tinha sido retirada, deixando o homem apenas com uma regata branca de algodão justa ao corpo. A geladeira tinha sido puxada para longe da parede e o chão enxugado com meia dúzia de planos.

Sentado ao chão, Cam já exibia um largo e simpático sorriso com a caixa de ferramentas enfileirada a sua frente. Para a sua sorte, o conhecimento técnico que tinha de computadores ajudava a compreender partes do motor da geladeira.

- Me parece que é mais simples do que pensei...

Já havia uma fina camada de suor sobre a testa de Cameron quando ele cutucou o motor com uma das ferramentas e terminou de puxar uma massinha emperrada com as mãos. Os dedos foram erguidos para que Molly visse qual era o problema.

- Papinha ressecada no motor.

O sorriso de Lahey vacilou quando ele inclinou a cabeça para o lado, reaparecendo por trás da geladeira apenas para encontrar Molly com as duas crianças no colo. Com o queixo caído, os olhos claros de Cam passaram do menino até a menina, sem ter a menor dúvida de que eram irmãos.

Mais uma vez, as palavras fugiram de sua boca e Cameron apenas acompanhou o movimento da senhora pela cozinha enquanto cuidava dos dois bebês. Gêmeos. Que sua mente insistia em dizer que eram seus.

Cameron provavelmente teria continuado mudo e sem reação se Molly não parecesse não satisfeita com a rapidez com que ele resolvera o problema da geladeira. Como uma senhora doce e gentil, ela insistiu que não queria incomodar, mas logo uma pequena lista de tarefas tinha sido passada para a mão de Lahey. E embora não fosse nenhum especialista, aquela era a oportunidade para que ele permanecesse mais tempo naquela casa enquanto absorvia a novidade do século.

A tomada do ar condicionado foi consertada quase com a mesma rapidez que a geladeira. A lâmpada da despensa foi trocada, um degrau da escada foi reforçado com dois pregos e, o que mais deu trabalho, o triturador da cozinha foi desentupido depois de uma longa briga entre Lahey e a sobra do jantar da noite anterior que obstruía os canos.

Entre uma tarefa e outra, os olhos de Cameron sempre buscavam pela presença dos gêmeos, e de uma maneira surpreendente, ele se sentia cada vez mais a vontade e útil em meio aquele trabalho doméstico sob o teto daquelas crianças, quase como se estivesse vivendo uma de suas tolas fantasias.

Em uma cidade movimentada como Las Vegas, as pessoas não tinham tempo para serem simpáticas ou gentis. Os vizinhos não se conheciam e cada um estava sempre com pressa com as tarefas da própria vida.

Por isso, era uma experiência inédita para Cameron se sentar na cozinha de Molly no fim daquela tarde. Os cabelos estavam completamente bagunçados, a camisa branca já estava encardida e havia uma gosma que lembrava a sobra do jantar grudada na lateral de sua calça. Mas Cam exibia um sorriso cansado e satisfeito quando a xícara de café foi colocada na sua frente, junto com uma generosa fatia de bolo.

- A senhora não precisava fazer isso, dona Molly. Imagino que já fique completamente sem energia precisando cuidar de duas crianças...

Cam deu um gole em sua bebida e mais uma vez buscou pelos gêmeos que brincavam no cercadinho.

- Então... o pai não está por perto para ajudar? Imagino que seja cansativo ser só a senhora e a sua sobrinha.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Michaela Moccia em Dom Abr 30, 2017 3:58 pm

- O quê? Aquela coisinha?

Michaela girou na cadeira para conseguir olhar por cima do ombro, em direção a porta fechada do escritório de Connor. Mesmo que os dois estivessem a sós, era fácil deduzir que a menina estava se referindo a acompanhante de Ward naquela manhã, provavelmente ocupando alguma mesa no interior da delegacia.

Com o nariz franzido em uma expressão de nojo, Mika se voltou para Connor. Depois da experiência naquele relacionamento, ela sabia reconhecer quando estava com ciúmes. A insegurança e os chiliques de Michaela sempre tinham sido um problema no namoro dos dois. Mas naquele dia, ela tomava o devido cuidado de não transparecer como a ideia de outra mulher com Connor ainda a incomodava.

Era ridículo se sentir enciumada mesmo depois de tudo que tinha acontecido. O casamento dos dois era uma farsa, o namoro fora construído em mentiras. E ainda assim, ali estava ela, como uma menininha incomodada com o fato de Ward estar seguindo em frente.

- Claro que não é nenhuma surpresa. Com exceção de mim, você nunca teve bom gosto para mulheres.

Os olhos verdes pousaram em Connor enquanto Michaela o estudava em silêncio. Mesmo depois de quase dois anos, de ter começado uma vida completamente diferente na Itália e de não ter mais o pai ou Cameron lhe fazendo todas as vontades, Mika ainda não gostava de ouvir não como resposta. Principalmente se vinha de Connor, que sempre tivera dificuldades em se curvar diante das suas vontades.

- Se você realmente prefere discutir isso aqui, está bem. – Mika se inclinou para frente e apoiou os dois braços sobre a mesa de Connor, o encarando desafiadoramente. – Eu não vou assinar o divórcio.

Era de se esperar que depois de tudo que Michaela havia passado pelas mentiras de Connor, que ela fosse ser a primeira a querer encerrar aquela história, acabar com aquela história absurda de casamento e recuperar o seu sobrenome.

Mas depois de quase dois anos conseguindo escapar de jornalistas ou de olhares curiosos simplesmente por se apresentar como “Michaela Ward”, ela havia aprendido a gostar daquele sobrenome. Era como se, mesmo depois de tudo que Connor havia feito, ele tivesse deixado algum tipo de proteção que o sobrenome Moccia certamente não traria.

- O advogado está cuidando do meu visto permanente no país. – Ela começou a explicar, suavizando a expressão em seu rosto. – Mas eu ainda preciso de um tempo. São só algumas semanas, Connor. O suficiente para que eles não me expulsem do país logo agora que mio papá precisa de mim. Depois de tudo, acho que você me deve isso.

Mika realmente acreditava que aquela era uma dívida de Connor. Afinal, Alessio pode ter feito por merecer o pesadelo que havia se enfiado. Mas a filha havia apenas sofrido as consequências dos erros de todos a sua volta.

- Ao menos que você esteja planejando se casar nos próximos dias, isso não vai te atrapalhar em nada. E eu prometo que assino os papéis e te deixo livre de uma vez por todas no instante em que conseguir o que eu quero.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Dom Abr 30, 2017 6:15 pm

A pergunta de “Bruce” fez com que o sorriso tranquilo estampado nos lábios de Molly Baker desaparecesse. A mulher se remexeu na cadeira da cozinha de forma desconfortável e tentou disfarçar o quanto aquele assunto era incômodo levando a xícara de café aos lábios para mais um gole. Por fim, Molly repetiu a história que era contada a todos os curiosos que questionavam a ausência do pai dos gêmeos.

- Ele faleceu. Sarah ainda estava grávida quando ele sofreu um acidente, então ele nem chegou a conhecer as crianças. – a mulher logo forçou um sorriso e mudou o rumo daquela conversa delicada – Não nego que é uma loucura ter dois bebês em casa, mas as alegrias também vem em dobro. Todo o esforço vale a pena.

Ingenuamente, Molly começou a tagarelar sobre a rotina das crianças. Como vivia isolada naquela casa e tinha pouco contato com outras pessoas, a Sra. Baker encontrou no técnico um interlocutor perfeito. Bruce não era como os jovens sempre apressados e impacientes demais. Era impressionante como o rapaz parecia sinceramente interessado nas pequenas bobagens que Molly tinha a dizer.

David e Adelaide. Segundo Molly, eram estes os nomes que Sarah dera aos filhos. Os gêmeos tinham completado um ano no último mês, já começavam a ensaiar os primeiros passos e as primeiras palavras. De acordo com a descrição da tia, David era uma criança risonha e levada, quase nunca chorava e tinha a mania de brincar com a papinha – provavelmente era o culpado pelo estrago da geladeira. Adelaide, que ganhara o apelido de Dedé graças à dificuldade do irmãozinho em pronunciar um nome tão grande, era uma criança mais comportada, uma típica bonequinha meiga que gostava de lacinhos nos cabelos.


David se parecia muito com Matilda. Os olhos castanhos eram idênticos aos da mãe, assim como o narizinho arrebitado. Mas os lábios finos geralmente curvados em um sorrisinho travesso não se pareciam com os de Belmont. Adelaide, por outro lado, tinha pouca coisa de Matilda. Os traços femininos delicados até lembravam vagamente a fisionomia da antiga governanta dos Moccia, mas todo o resto era de Cameron. Os olhos profundamente azuis, o narizinho mais afilado, os lábios estreitos. Ninguém que visse os dois juntos duvidaria que Lahey era o pai da garotinha e, consequentemente, do menino também.

A conversa sobre as crianças se prolongava quando um ursinho de pelúcia passou voando entre os dois adultos, há dois centímetros do nariz de Cameron. Molly se inclinou para espiar o cercadinho e não havia a menor dúvida de quem era o responsável pela travessura. Adelaide estava sentadinha, abraçada a uma boneca, enquanto David se equilibrava de pé e soltava uma risadinha divertida.

- Dave! Nós já conversamos sobre jogar os brinquedos! É feio!

A repreensão foi feita em um tom tão carinhoso que alargou ainda mais o sorriso do menino. Era evidente que Matilda só deixava os filhos aos cuidados de Molly Baker porque confiava inteiramente na “tia”. O que Belmont não imaginava era que Molly era ingênua o bastante para permitir a entrada da última pessoa que ela queria ver naquela casa, ao lado dos seus bebês.

Completamente alheia ao que acontecia sob o seu teto, “Sarah Baker” estava tranquila quando entrou pela porta ao fim da tarde. A bolsa foi deixada sobre a mesa enquanto os olhos castanhos vasculhavam os envelopes que ela acabara de tirar da caixinha de correio.

- Cheguei, tia!

A voz de Matilda Belmont ecoou pela casa, tirando de Cameron qualquer dúvida sobre estar no lugar certo. Quando ouviu a voz da mãe, Adelaide também se apoiou nas paredes do cercadinho e ficou de pé, buscando com ansiedade pela imagem da moça.

- Estamos na cozinha! – Molly gritou de volta enquanto abria um sorriso – O moço da geladeira está aqui.

- E a Dedé?

A voz de Matilda agora soou mais próxima, já na porta da cozinha. Como Cameron ocupava a cadeira de costas para a entrada, Belmont não o reconheceu de imediato. Os cabelos dele estavam maiores, ela nunca imaginou que o encontraria ali e sua atenção estava voltada para a garotinha que agora estendia os braços na direção dela, em um pedido manhoso pelo colo da mãe.

- Não teve mais febre. Mas eu não consegui fazer com que ela tomasse o xarope.

- É só misturar com um pouco de geleia de morango, tia. Ela nem percebe a diferença no gosto se você der a colherada toda de uma vez.

A moça que atravessou a cozinha na direção do cercadinho era exatamente a mesma da foto enviada para o celular de Cameron há alguns dias. Os cabelos curtinhos caíam lisos até a nuca de “Sarah”. O corpo magro definitivamente não combinava com o relato de que ela tivera gêmeos há um ano, mas um bom observador notaria um discreto alargamento nos quadris e um volume um pouco maior no busto. Naquela tarde, Matilda usava uma blusa listrada, uma saia jeans e uma sandália de salto confortável que alongava ainda mais as suas pernas. A maquiagem se resumia a um brilho discreto nos lábios. A ausência do antigo perfume floral fora uma mudança necessária para não provocar alergias nos bebês.

Nos braços da mãe, Adelaide se aninhou carinhosamente. A cabecinha foi apoiada no ombro de Matilda, amassando a bochecha gordinha. Só quando sentiu a pele da filha fresca, já sem sinal da febre dos últimos dias, Sarah Baker se virou e finalmente voltou a sua atenção para o técnico. Ela pretendia agradecer pela visita e acertar o valor do serviço, mas a voz ficou presa em sua garganta fechada quando o seu pior fantasma se materializou no meio da cozinha.

A sensação de desmoronamento fez com que Matilda ficasse sem reação por longos segundos. Assim como Cameron lhe dissera uma vez, a antiga governanta não tivera um dia de paz desde o último encontro dos dois. Sempre que precisava sair de casa, Belmont olhava repetidas vezes por cima dos ombros, desconfiava de qualquer olhar mais insistente, evitava conversar com estranhos. Mas ela nunca imaginou que iria dar de cara com Cameron Lahey dentro de sua própria casa, tão perto das crianças.

Cam havia fraquejado uma vez, mas se afastara com uma ameaça. Depois de quase dois anos, era difícil prever o que se passava na cabeça dele. Talvez ele estivesse ali justamente para finalizar o serviço inacabado. O olhar de Matilda para as duas crianças mostrava que ela não temia por si. Mas ela morreria antes de permitir que Cameron fizesse mal aos gêmeos.

- Tire os dois daqui, tia Molly. – Adelaide foi devolvida para o cercadinho, já com um bico de choro que mostrava que ela ainda queria o colo da mãe – Agora!

- O que? – Molly piscou algumas vezes, confusa com a entonação trêmula da sobrinha – Do que está falando? Vocês já se conhecem?

O clima pesado na cozinha foi a melhor resposta que Molly poderia receber. Quando finalmente notou que aquele homem não era somente um simpático técnico de geladeiras, a dona da casa gemeu um “Ah, meu Deus!” enquanto corria na direção dos bebês. David pareceu apenas assustado quando foi puxado bruscamente para o colo da tia, mas Adelaide reagiu com um choro estridente enquanto ainda estendia os bracinhos para a mãe.

Completamente desarmada, Matilda sabia que não tinha a menor chance contra Cameron Lahey. O antigo segurança dos Moccia era mais alto, muito mais pesado e mais habilidoso do que ela. Contudo, Belmont se recusava a ser uma presa fácil e, quando avançou na direção dele, tudo o que ela queria era dar a Molly tempo para alcançar a rua e parar um carro para tirar as crianças da mira de Lahey.

Os socos que acertavam o peito e os braços de Cameron certamente causavam um dano maior às mãos de Matilda do que ao segurança. As unhas compridas deixavam marcas no pescoço exposto de Cam enquanto a moça usava toda a sua força para empurrá-lo para trás. Os dedos de Matilda repetiram o velho gesto de mergulharem nos cabelos de Lahey, mas desta vez não houve uma carícia. Os fios foram puxados com força e Cameron foi vítima de seu próprio veneno quando Matilda usou contra ele um golpe ensinado pelo próprio segurança. Com um movimento ágil, Belmont acertou o joelho no estômago de Cam, deixando-o momentaneamente sem ar.

O som do choro da garotinha foi se afastando na medida em que Molly corria para fora da cozinha. Matilda sabia que Cameron poderia acabar com ela em dois segundos, mas isso não importava mais. Tudo o que ela queria era a certeza de que a vingança dos Moccia não seria estendida para dois bebês inocentes.

- O seu problema é comigo! – no auge do desespero, Matilda puxou da mesa a faca de cozinha que Molly usara para partir o bolo – Não ouse encostar nos meus bebês, Lahey!
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Dom Abr 30, 2017 11:52 pm

Quando Michaela afirmou que não assinaria o divórcio, Connor não conseguiu evitar que os olhos castanhos rolassem com impaciência. Em um primeiro momento, o policial teve certeza de que Mika só estava dificultando as coisas por pura pirraça, como uma forma de puni-lo pelos erros do passado. Não seria a primeira vez que a esposa daria uma demonstração de tamanha imaturidade, afinal.

Contudo, quando uma explicação mais lógica soou no escritório, a expressão de Ward se modificou. Sem tirar os olhos de Michaela, Connor a estudou com mais atenção, refletindo sobre as razões que levavam a garota a querer manter o seu sobrenome por mais algum tempo.


Não parecia ser um golpe. Mika não tinha nada a ganhar com aquele casamento ou com o sobrenome de um simples policial que não tinha muita coisa a oferecer. Por outro lado, agora que Alessio Moccia encontrara uma brecha na constituição e estava fora da cadeia, era de se esperar por retaliações da justiça. O mafioso estava “blindado” com um relatório médico, mas ninguém impediria que Michaela fosse despachada de volta para a Itália se a situação dela no país não se regularizasse.

É óbvio que Connor não planejava se casar nos próximos meses. Seu estado civil não faria muita diferença no começo daquela nova vida que ele reconstruiria em Las Vegas. E por mais que racionalmente o rapaz soubesse que ele não devia nada aos Moccia, era impossível evitar aquela sensação de que Michaela merecia ser recompensada de alguma maneira.

De todos os envolvidos, ela fora a maior das vítimas. Mika perdera a companhia do pai e a admiração que sentia por Alessio e Cameron. Todo o mundo que ela conhecia fora descontruído diante de seus olhos, deixando para trás uma verdade muito incômoda sobre a história da sua família. Além de tudo disso, Michaela perdera também um marido. Apesar do casamento forçado, era óbvio que Mika amava o homem com quem trocara alianças e já tinha traçado planos que tiveram que ser abandonados depois daquela decepção.

Diante de todos aqueles argumentos, o pedido que a garota fazia agora parecia pequeno demais. Connor não queria mais se envolver no caso dos Moccia, mas também não conseguia negar à esposa um favor tão fácil depois de todo o mal que ele causara a ela. O que seriam mais algumas semanas para alguém que já esperara dois anos pelo divórcio?

- Vamos deixar as coisas bem claras, Michaela. Eu não te devo nada. A decisão de acabar com o casamento foi sua. Eu só entrei com o pedido de divórcio litigioso porque não podia continuar oficialmente ligado a uma mulher que desapareceu no mundo carregando o meu sobrenome.

Ward não questionava as razões de Mika, mas também não admitiria dividir com ela a responsabilidade pelo divórcio. Na última conversa dos dois no apartamento, o policial havia implorado por uma nova chance e deixou claro que a amava e que não queria o fim do casamento. Portanto, fora apenas de Michaela a decisão de colocar um fim naquela história.

- Então o que você está me pedindo é um favor. Um favor que eu não vou negar porque sou um cara legal. Ainda não sei se acredito nesta tal doença do seu pai, mas não vou negar a você o direito de ficar com ele caso seja verdade. Vou confiar na sua palavra e pedir o fim do processo. Por você, e não por ele.

Antes que Michaela pudesse concluir que a situação estava resolvida, Ward a surpreendeu com uma pequena reviravolta naquele pedido. Connor estava disposto a fazer aquele favor, mas em troca esperava por uma retribuição da esposa.

- Mas se vamos continuar casados, você terá que cumprir as suas obrigações como esposa.

Uma pausa maldosa foi feita pelo rapaz justamente para que Michaela imaginasse que aquela insinuação era algum tipo de proposta indecente. Quando a familiar veia começou a se manifestar na testa da garota, Connor tomou a palavra e explicou a situação antes que o furacão Mika explodisse em seu escritório.

- Diante da lei, eu continuo casado num esquema de comunhão parcial de bens. Então simplesmente não consigo comprar um carro, um apartamento ou abrir uma conta no banco sem a sua assinatura. Preciso que você me ajude nisso agora que voltei para Vegas.

O velho sorrisinho torto surgiu nos lábios de Ward enquanto ele se recostava melhor na cadeira. A tentação de provocar Michaela era grande demais e o policial simplesmente não resistiu.

- A Gertrudes continua viva, hm? Senti saudades dela.

Na rotina do casamento, Connor havia inventado um nome para a veia que saltava na testa da menina sempre que Michaela ficava irritada. Aquilo costumava enfurecer Mika ainda mais, mas era uma piadinha interna, uma lembrança doce da intimidade que os dois tinham construído naquela época feliz.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Cameron Lahey em Seg Maio 01, 2017 9:11 pm

Cameron já sabia que encontrar Matilda mais uma vez não seria uma tarefa fácil. Depois do dramático fim do relacionamento dos dois, onde cada um tinha chegado ao limite, era de se esperar que aquele reencontro fosse tão traumatizante quanto os momentos finais juntos.

O que Cameron não esperava era que, mesmo depois de quase dois anos, ele fosse imediatamente arrastado para o mesmo homem cego e manipulável que havia se deixado apaixonar por Belmont no instante em que a voz dela começou a ecoar pela casa.

Depois de tanta mágoa, Cam não acreditava mais que Matilda um dia tinha se apaixonado por ele. Ele sabia que havia apenas sido um peão no jogo dos irmãos Ward e Belmont. Mas com o passar do tempo, ele havia aprendido a lidar com aquela decepção. O único motivo de ter cruzado o Arizona atrás da possibilidade de reencontrá-la estava agora em dois pares de olhos inocentes naquela cozinha.

Ter um filho com Matilda mudava completamente a sua posição com o fim daquele relacionamento. Ele não poderia simplesmente seguir com a própria vida agora que tinha bem diante dos seus olhos a verdade. Mas ele também não esperava sentir todo o seu corpo reagir, invadido de lembranças, no instante em que reconheceu “Sarah”.

Mesmo quando viu o pavor se espalhando pelos olhos castanhos, Cameron ainda conseguiu se sentir culpado, mesmo sabendo que Matilda havia procurado tudo aquilo. Ele não reagiu quando Molly se apressou em retirar as crianças do cômodo, porque sabia que aquela precisava ser uma conversa privada. O que chocou Lahey, entretanto, foi como Belmont se transformou em uma fera selvagem em defesa dos filhos. Como se estivesse diante do pior monstro da Terra.

Os monstros do passado nunca deixariam de atormentar Cameron, mas a dor de ver alguém cogitando que ele seria cruel o bastante ao ponto de ferir duas crianças inocentes fez seu estômago se revirar de uma forma jamais vista antes. Nem em seus piores dias, aquela teria sido uma possibilidade para Cam.

- Já chega, Matilda! Para!

Desequilibrando, Cameron tentou se afastar dos socos desengonçados de Matilda e chegou a tropeçar até sentir suas costas se chocando contra a pia no instante em que a faca de cozinha foi erguida. A arma poderia parecer uma piada para alguém com o histórico de Lahey, mas era o mesmo que voltar ao passado, no terreno dos Moccia, com Matilda pressionando uma arma contra sua nuca.

- Pare de agir como uma maluca! Eu não estou aqui para isso!

Os olhos azuis estavam arregalados. Uma das mãos de Cam estava firme contra a pia enquanto ele tentava recuperar o equilíbrio e a outra estava estendida em sinal de rendição, como se obrigasse Matilda a manter uma segura distância entre os dois.

Lahey jamais havia fugido de uma briga antes. E não era por medo que ele não reagia. Mas precisava fazer Matilda enxergar que não havia necessidade para tamanha hostilidade.

- Eu não estou armado! Você pode me revirar se quiser, mas olhe bem para mim!

Mesmo para um profissional como Cameron, era difícil dizer que ele estava em posição de ataque. A regata justa ao corpo seria incapaz de esconder uma arma onde o antigo segurança costumava carregar. A calça suja não apresentava nenhum volume nos bolsos, nem mesmo para uma faca como a de Belmont.

- Eu não estou aqui para machucar ninguém! Eu sei que sempre fiz por merecer o que está se passando pela sua cabeça agora, mas por Deus, Matilda! Como você pode achar que eu seria capaz de machucar duas crianças???

Lahey tinha um histórico impecável em “resolver os problemas” da família Moccia. Mas no tempo em que havia se envolvido com Lahey, Belmont seria incapaz de dizer que ele era realmente cruel ou injusto. Suas vítimas costumavam ser bandidos da pior espécie, assassinos, traficantes. Não seria exatamente a justificativa que o libertaria de uma prisão perpétua, mas nenhuma das vítimas de Cameron era exatamente inocente.

Era mesmo uma grande ofensa acreditar que Cameron pudesse ser capaz de ferir dois bebês que obviamente tinham tudo para ser seus filhos. Mesmo depois de tudo que Matilda havia feito no passado.

- Foi você que sempre me enganou, não o contrário, lembra? – A respiração de Cameron estava agitada e o pescoço ficava gradativamente mais vermelho depois dos arranhões da menina. – Eu sei que disse muitas coisas na última vez que nos encontramos, mas eu não sou mais aquele cara!

Os olhos claros deslizaram por um único segundo pelo caminho onde Molly havia seguido e a expressão de Lahey se tornou mais triste e abalada.

- Eu sou pai. Eu acabei de descobrir que sou pai. Você pode me atacar depois, mas eu ainda preciso de um tempo para absorver isso, ok?
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Seg Maio 01, 2017 10:04 pm

- ELES NÃO SÃO SEUS!!!

O grito histérico de Matilda ecoou por toda a casa com tanta intensidade que as últimas sílabas já soavam roucas, denunciando a garganta arranhada pelo esforço. A faca continuou firme entre os dedos da moça e ela sacudia a mão de forma ameaçadora enquanto gritava, mas manteve a distância entre os corpos e não avançou novamente na direção de Cameron.

- EU DISSE QUE ESTAVA GRÁVIDA, MAS NUNCA FALEI QUE VOCÊ ERA O PAI, LEMBRA??? EU SÓ QUERIA QUE VOCÊ ME DEIXASSE EM PAZ! SÓ QUERIA GARANTIR QUE VOCÊ NÃO ATIRARIA EM MIM!

De fato, Belmont havia tido aquele cuidado no passado. Quando mencionou a possibilidade de gravidez ao ex-namorado, em nenhum momento Matilda dissera com todas as letras que ele era o pai do bebê. Aquela dúvida deveria desmotivar a curiosidade de Cameron e evitar que ele quisesse notícias da criança. Mas agora, depois que Lahey conhecera os gêmeos, era uma grande tolice tentar convencê-lo de que David e Adelaide eram frutos de mais uma traição de Matilda. O sorriso do garotinho e os olhos da menina dispensavam a necessidade de um teste de DNA para confirmar a óbvia paternidade de Cam.

- E MESMO SE ELES FOSSEM SEUS, VOCÊ NÃO TEM NENHUM DIREITO SOBRE ELES! QUER UM TEMPO PRA ABSORVER ISSO??? VOCÊ TERÁ TODO O TEMPO DO MUNDO NA CADEIA PORQUE É PRA LÁ QUE VOCÊ VAI VOLTAR QUANDO SOUBEREM QUE VOCÊ VIOLOU A MEDIDA PROTETIVA, ENTROU NA MINHA CASA E TENTOU FAZER MAL AOS MEUS BEBÊS! MEEEEEUS BEBÊS!

Era a primeira vez que Matilda se descontrolava daquela forma diante do ex-namorado. Nem mesmo após o tiroteio contra o carro dos Moccia a moça ficara tão exaltada. A antiga governanta costumava ser racional e reagira com frieza até mesmo nas vezes em que imaginou que seria executada por seus erros. Mas a mãe que Belmont se tornara não conseguia conter aquele instinto selvagem de proteção.

Os cabelos curtos já estavam atrapalhados depois daquela explosão, o rosto corado da moça estava salpicado com gotículas de suor nas têmporas e sua respiração ofegante ecoava pela cozinha vazia quando ela jogou a faca de volta na mesa. O máximo que ela conseguiria com aquela lâmina grossa era fazer com que Cameron ganhasse alguns pontos superficiais. O silêncio no interior da casa indicava que Molly já tinha conseguido fugir com as crianças e isso era o que realmente importava para Matilda.

- Sugiro que vá embora. Uma prisão em flagrante vai complicar ainda mais o seu processo e é óbvio que algum vizinho já está chamando a polícia depois desta confusão.

A voz rouca de Belmont soou mais contida, mas a frieza na entonação da moça mostrava que ela não mudaria de ideia. Passado o momento de fúria, Matilda se deu conta de que era bobagem esconder a óbvia verdade de Cameron, mas a antiga governanta dos Moccia não fez a menor questão de poupar os sentimentos de Lahey com aquela escolha de palavras.

- É melhor que eles pensem que o pai está morto. Será muito mais traumático explicar aos dois que o pai é um assassino que está atrás das grades. A quem você quer enganar, Lahey? Que exemplo você daria a uma criança? Que valores você ensinaria? Você seria um pai lamentável e eu quero o melhor para os meus bebês. Então dê o fora da minha casa e deixe a minha família em paz. Você não faz parte disso.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Michaela Moccia em Seg Maio 01, 2017 10:47 pm

Michaela havia prometido a si mesma que manteria o furacão interno sob controle naquele encontro com Connor. As coisas deveriam ser resolvidas de forma prática, como uma reunião de negócios, e se ela acabasse explodindo, poderia jogar tudo por água abaixo.

Mas era impressionante a habilidade de Ward em testar os seus limites com meia dúzia de palavras. Tanto no passado quanto agora, bastava encontrar o sorrisinho torto nos lábios dele para Mika sentir a familiar irritação que só ele era capaz de despertar. A mesma irritação que seria resolvida com beijos apaixonados no passado.

Os olhos verdes estavam estreitos quando o comentário a respeito da veia em sua testa foi feito e seus dedos já se agarravam a beirada da mesa em uma tentativa de autocontrole. Mas bastou a breve lembrança das dezenas de vezes que Connor havia feito aquela mesma piada para Michaela se acalmar.

Em um breve vislumbre, ela encontrou o mesmo gerente do cassino do outro lado da mesa, lhe provocando como se fosse apenas preliminares antes que começassem a se agarrar. Mas Mika não deixaria que aquela lembrança se alongasse. Connor e ela não eram mais aquelas pessoas e não fazia sentido se deixar invadir por nostalgia.

- Ainda vou financiar um estudo para provar como só você tem a capacidade de fazer a “Gertrudes” ressurgir das cinzas. Eu juro que ela não apareceu em um único dia enquanto eu estava na Itália.

Como já havia conseguido o seu objetivo com aquela visita, Michaela se colocou de pé para encerrar a conversa. Os dedos deslizaram pelo vestido florido de verão, se desfazendo de qualquer dobrinha invisível.

- Está bem, Connor. Se o seu preço é apenas a minha assinatura, nós temos um acordo. – Mika deu as costas para a mesa e chegou a dar dois passos em direção a saída, mas se voltou para o policial com as sobrancelhas franzidas. – Exceto se for no seu antigo bairro. Eu me recuso a pisar lá outra vez.

As provocações soavam como nos velhos tempos, como se fosse o único mecanismo de defesa que Michaela conseguia encontrar. Ainda assim, era mais fácil do que gritos, choros e ofensas como tinha sido o último encontro dos dois.

- Pensando bem, eu tenho um contato do corretor em algum lugar lá em casa... – Um sorrisinho brincou nos lábios de Michaela quando ela completou. – Viu só? Eu sei cumprir as minhas obrigações como esposa.

Mika estava se sentindo surpreendentemente mais leve depois daquela conversa. Ainda era bizarro estar no mesmo cômodo que Connor e relembrar tantas coisas do passado. Mas em partes, era um alívio saber que Ward não viraria as costas com tanta facilidade.

No instante em que a menina pisou fora da sala de Connor, ela sentiu os olhares curiosos dos demais policiais se voltando para a porta, a estudando em silêncio. Sem se abalar e mantendo o nariz arrebitado, os olhos verdes passaram por cada um dos rostos sem parecer desafiada. Quando encontrou o par de olhos castanhos da mesma mulher que acompanhava Ward na entrada da delegacia, seu sorriso se tornou mais largo e cruel.

Mika olhou por cima do ombro apenas para se certificar de que Connor estava olhando. Então marchou decidida até a mesa onde Dalila Williams estava sentada, dividindo o espaço entre uma pilha de papéis, um computador velho, um telefone e o saco de donuts pela metade.

- Acho que não fomos apresentadas. Michaela Ward. – A mão livre de Mika foi esticada na direção de uma Dalila de olhos arregalados. – E você deve ser a vadia que está dormindo com o meu marido.

O alívio que ela vinha sentindo depois da conversa com Connor havia desaparecido quando Mika precisou mais uma vez lidar com os ciúmes. A filha de Alessio Moccia já havia protagonizado algumas cenas escandalosas, mas era a primeira vez que ela lidava com aquilo com um sorriso debochado nos lábios.

Quando ela se virou em busca de Connor, apenas deu de ombros com uma falsa expressão inocente.

- Estou apenas cumprindo as minhas obrigações, bello.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Connor Ward em Seg Maio 01, 2017 11:46 pm

- Eeeeeitcha lelê...

Qualquer marido iria pirar com um escândalo como aquele em seu ambiente de trabalho, envolvendo uma colega que definitivamente não merecia aquela exposição. Mas Connor sentia tantas saudades de Michaela que era impossível se zangar com aquela cena tão típica do “furacão Mika”. Encostado na porta do escritório, Ward teve que apertar os lábios para segurar o riso e não piorar ainda mais a sua situação. Era muito bizarro perceber que ele sentia saudades até dos surtos da esposa enciumada.

Antes que aquela cena se transformasse em um espetáculo ainda mais memorável, Connor cruzou o espaço entre as mesas. Os olhos estreitados de Dalila indicavam que a policial estava pronta para comprar aquela briga, mas Ward não deu esta chance à colega. Com as mãos apoiadas nos ombros delicados de Michaela, Connor a conduziu de volta até a recepção.

Era evidente que o policial estava se esforçando demais para continuar sério, mas os lábios já começavam a se entortar, prontos para formar o sorrisinho que Michaela conhecia tão bem.

- Achei que você fosse esperta o bastante para não comprar uma briga com uma mulher armada. O sol da Itália fritou o que restava dos seus miolos, bambina?

Era muito nostálgico usar novamente os apelidos carinhosos do passado, mesmo que agora fosse em um tom provocativo. Depois de quase dois anos sem nenhuma notícia da esposa, Connor realmente achou que Michaela Moccia havia ficado no passado. Mas bastou aquele breve reencontro para que as emoções se aflorassem novamente. Como se o destino quisesse castigá-lo pelos erros daquele relacionamento, o amor que ele nutria por Mika era como uma maldição que se recusava a morrer.

- O meu novo número...

De dentro do bolso da calça, Ward retirou um cartãozinho com seus contatos. Obviamente o ex-gerente do cassino havia mudado o número do celular e o e-mail. O campo do endereço ainda estava em branco, o que confirmava a afirmação de que Connor ainda não tinha um lugar fixo para ficar.

- Quando você e a Gertrudes precisarem falar comigo, é melhor ligarem antes. No cassino era fácil calar as intrigas, mas você não conhece esses caras... – os olhos castanhos deslizaram pelo ambiente, indicando a delegacia como um todo – Você acabou de dar a eles munição para uns dois meses de fofoca.

De fato, os colegas encaravam Connor com sorrisinhos debochados quando o policial retornou ao seu posto. A única pessoa que não parecia estar se divertindo às custas do “sofrimento” dele era Dalila. A moça estava mortalmente séria, com os braços cruzados e um olhar fuzilante quando Ward se aproximou da mesa para assaltar o saco com donuts.

- Foi mal, Lila.

- Foi mal??? Aquela louca fez o que fez na frente de todo mundo e é isso o que você tem a me dizer? Qual é, Connor? Você vai deixar que ela encarne o papel de esposa traída? Aliás, o que ela veio fazer aqui? Você pelo menos resolveu a pendência do divórcio???

Uma generosa mordida num donut deu a Connor tempo para pensar na melhor resposta para aquela pergunta. Williams surtaria se soubesse do “acordo” que manteria o casamento por mais algum tempo e suas chances com a colega ficariam arruinadas se Ward deixasse transparecer que gostava da ideia de continuar tendo Mika como esposa. Por isso, o policial demorou um longo tempo até engolir e escolheu com muito cuidado as palavras.

- Chegamos a um acordo. Vou colocar um fim no processo de divórcio litigioso e ela vai assinar os papéis sem causar problemas.

- Sério? – Dalila respirou fundo enquanto descruzava os braços, saindo um pouco daquela postura defensiva – Ótimo, então. Vamos programar uma grande comemoração. Imagino que você vai querer soltar fogos quando finalmente se ver livre dessa maluca. Você deveria ganhar uma medalha por ter feito este sacrifício, Conn.

Propositalmente, Connor não comentou que o “acordo” com Mika exigia que os dois continuassem casados por mais algum tempo.

O sorrisinho forçado do policial deveria ser um gesto de concordância com a colega, mas quem o conhecesse bem notaria facilmente que Ward não encarava aquele casamento como um sacrifício. Pelo contrário, depois daquele encontro com Mika, Connor não tinha a menor dúvida de que vivera ao lado dela os momentos mais felizes de sua vida.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Cameron Lahey em Ter Maio 02, 2017 1:02 am

Melhor do que ninguém, Matilda sabia exatamente como cutucar a ferida de Cameron para que a dor alcançasse seus ossos. Havia sido pelas provocações da ex-namorada que Lahey havia perdido a cabeça por uma fração de segundos e cometera a loucura de coloca-la sob a mira de uma arma. Mas aquele homem angustiado e destruído do hotel não era o mesmo de quase dois anos depois.

Nem por um segundo Cam chegou a duvidar que os gêmeos não fossem seus filhos. Mas ainda assim, quando Belmont terminou de confessar com suas palavras ácidas o que ele já tinha certeza, Cameron sentiu como se algo em seu mundo tivesse se encaixado novamente, como se ele não estivesse mais tão perdido e vazio.

- Você não tem o direito de me julgar, Matilda. Você pode não carregar sangue nas mãos, mas está longe de ser a mulher inocente que merece o prêmio de mãe do ano.

A voz baixa de Cameron soava com um bizarro contraste depois dos gritos de Belmont. Cameron tinha um arsenal de ofensas que poderia retribuir e continuar aquele jogo sujo. Mas Lahey não estava disposto a se afundar ainda mais naquela podridão.

Por ter crescido nas ruas até ser acolhido pelos Moccia, Cameron sabia o que era ter pais horríveis. Sua mãe havia morrido de overdose antes mesmo que ele soubesse escrever seu nome. O pai, com uma vida completamente desregrada, havia abandonado o filho sozinho em casa, apenas para ser encontrado pela polícia dias depois, sujo e faminto, completamente desnutrido e traumatizado antes de ser enfiado em um orfanato.

Cameron e Matilda poderiam dar as mãos naquele passado trágico, e sabiam como ninguém o quanto pais terríveis poderiam causar estragos nas vidas de seus filhos. E era por ter toda aquela consciência que Cam não se afastaria de David e Adelaide. Eles eram seus, e era sua obrigação proporcionar o que fosse de melhor aos dois. Mais do que um sobrenome falso.

- Eu estou farto de você arruinar a minha vida. De achar que você pode controlar tudo e me colocar como o único monstro. Você não tem o direito de mentir, de me enganar e ainda fugir com a única coisa boa que me restou.

A entonação usada por Lahey impedia que soasse com qualquer coisa próximo de uma ameaça. Embora o antigo segurança fosse capaz de conquistar tudo com a brutalidade, com ameaças e exigências, ele não soava nada diferente de um triste desabafo de um homem traído.

Com um semblante cansado, Cameron deu o primeiro passo em direção a cadeira onde havia deixado o paletó. Sua roupa foi recolhida e esticada em um dos braços, em um claro sinal de que ele não pretendia continuar com aquela guerra iniciada por Matilda.

- Eles são meus filhos. Você pode fugir para o outro lado do planeta, eles ainda vão ser meus filhos. Você pode me ameaçar, me esfaquear se quiser, eles ainda vão ser meus. Então engula as suas ameaças, porque eu faço parte disso.

Um sorriso triste apareceu no canto dos lábios de Lahey quando ele concluiu.

- Você fugiu com os meus filhos sem eu saber. Eu duvido que algum juiz me mantenha longe deles agora. São dois anos sem prova contra mim, Matilda. O que você pretende fazer? Dizer a eles sobre o que você viu? Depois de ter ficada calada todo esse tempo? Só vai fazer você parecer cúmplice.

Uma das cadeiras que havia sido derrubada durante o ataque de Matilda foi colocada de pé novamente e Cameron se encaminhou na direção da porta, já sem receios em dar as costas para Belmont, mesmo que isso significasse ter uma faca apunhalada em sua pele.

- Para a minha sorte, eu conheço os melhores advogados do país. Os mesmos que conseguiram a liberdade de Don Alessio. Então, se eu fosse você, sugiro não fugir outra vez.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Matilda Belmont em Ter Maio 02, 2017 1:58 am

As mãos trêmulas de Matilda Belmont encontraram dificuldade na simples tarefa de encaixar as chaves na ignição do carro. Como era uma loucura dirigir pelas ruas movimentadas de Las Vegas naquele estado, a moça respirou fundo e soltou o ar demoradamente por várias vezes, até que seu coração acelerado começasse a bater de forma mais ritmada.

O relógio marcava duas e vinte da manhã. Não era um bom horário para que a mãe de dois bebês estivesse na rua, tão distante de casa. Mas as coisas tinham fugido do controle de Belmont naquela noite. O que era para ser somente uma breve “reunião de família” se transformara em um grande pesadelo.

A antiga governanta dos Moccia estava bastante alterada naquela madrugada, mas parecia um perfeito protótipo de serenidade quando comparada ao homem que abriu a porta e ocupou o assento do carona. Pálido como um fantasma, com os cabelos desgrenhados e um arranhão profundo no pescoço, Connor estava completamente fora de si. O policial balançava o tronco para frente e para trás, passava as mãos freneticamente pelos fios castanhos e choramingava como uma criança abandonada quando voltou os olhos castanhos para ela.

- O que nós vamos fazer??? O QUE NÓS VAMOS FAZER, MANA???

- Você precisa ficar calmo.

A sugestão de Matilda foi lindamente ignorada pelo irmão, que soltou uma risada irônica que reforçava ainda mais a insanidade que o dominava naquela madrugada. É claro que a moça não sentia toda aquela tranquilidade, mas Belmont sabia que alguém precisava assumir o controle do problema no qual os dois tinham se metido naquela noite. Se Connor estava há meio passo de um ataque de pânico, cabia à caçula ser a mente racional daquela situação.

- Merda, merda, merda! Eu estou ferrado! Eu ferrei com tudo! – as mãos agitadas de Connor mergulharam nos cabelos castanhos mais uma vez – Você tem que voltar pra Beaufort, você terá um álibi. Você não precisa ser penalizada. A culpa é minha, os bebês precisam de você!!!

- Connor.

Matilda esperou pela atenção do irmão, mas Ward simplesmente não conseguia se concentrar nela. Foi preciso segurar o rosto do policial e obrigá-lo a encará-la.

- CONNOR! Nós estamos juntos nisso, ok? Eu não vou te deixar sozinho. Nós vamos dar um jeito. – Belmont sacudiu a cabeça em negativa – Ela ferrou com a gente a vida inteira. Não podemos permitir que ela continue nos ferrando mesmo depois de morta!

As palavras de Matilda levaram Connor a voltar os olhos para o prédio caindo aos pedaços do qual os dois tinham acabado de sair. O movimento naquela rua periférica era nulo àquela hora da madrugada, mas logo amanheceria e alguém podia notar a ausência de Veronika. Mesmo se nenhum dos vizinhos sentisse falta da prostituta nas primeiras horas do dia, era uma questão de tempo até que o cheiro começasse a incomodar os moradores do segundo andar.

Como policial, Connor sabia melhor do que ninguém que cenas de assassinato eram minunciosamente vasculhadas. A polícia acharia impressões digitais, fios de cabelo e uma prova inquestionável: o arranhão no pescoço de Ward mostrava que seu DNA seria encontrado sob as unhas da vítima.

Depois de um ano na divisão de homicídios em Miami, Connor havia se especializado em procurar por evidências nas cenas de crimes. Contudo, a sua experiência em esconder as evidências era nula. Matilda também não tinha a menor ideia de como os dois escapariam daquela situação, mas logo a mente da antiga governanta lhe apresentou uma excelente sugestão.

A convivência com os Moccia servira para que Belmont conhecesse bem o trabalho de Cameron Lahey. A namorada do segurança nunca soubera detalhes sobre a maneira como Cam agia, mas ela sabia que Lahey não costumava deixar rastros quando fazia um serviço sujo para Don Alessio. E era exatamente daquilo que os irmãos precisavam naquela madrugada.

A primeira atitude de Matilda foi dirigir para o mais longe possível do prédio caindo aos pedaços onde ela e Connor haviam vivido nos primeiros anos da infância. Quando chegou a uma rua mais movimentada de Las Vegas, a moça encostou o veículo em uma vaga e puxou a bolsa jogada no banco traseiro, tirando dela o celular.

- O que você vai fazer???

- Cala a boca. – Belmont suspirou enquanto digitava o número de Cameron. O nome dele já havia sido apagado de sua agenda há dois anos, mas aquele número continuara gravado em sua memória – Você só precisa ficar quieto, Connor. Eu vou resolver isso.

Cerca de um mês havia se passado desde o trágico reencontro de Matilda e Cameron. O rapaz havia se afastado com a promessa de que não iria desistir dos filhos enquanto Matilda jurou que moveria quantos processos fossem necessários para mantê-lo afastado dos gêmeos. Ainda havia uma ordem de restrição, portanto Cam definitivamente não esperaria receber uma ligação de Matilda no meio da madrugada.

Por um breve momento, Belmont achou que o ex-namorado não atenderia. Depois do quinto toque, contudo, a voz sonolenta de Cameron soou do outro lado da linha, arrancando um suspiro de alívio da moça.

- Oi, sou eu. Matilda.

Aquela apresentação provavelmente era dispensável. Depois de tudo o que Lahey vivera ao lado dela, era óbvio que ele reconheceria a voz que o acordava naquela madrugada. O som de carros e buzinas ao fundo da ligação mostrava que Belmont provavelmente não estava na pacata cidadezinha de Beaufort, o que tornava a próxima explicação dela igualmente desnecessária.

- Ouça, eu estou em Vegas. Estou com um problema sério e preciso da sua ajuda. Será que podemos nos encontrar? Agora?

Havia uma certa urgência na voz de Matilda, mas a moça não parecia francamente desesperada. Ao contrário dela, Connor continuava balançando o tronco para frente e para trás enquanto batia a testa no vidro da janela ao seu lado.

- Eu não ligaria para você se não fosse uma emergência. – a moça fez uma pausa antes de murmurar – Por favor, Cameron.

A Matilda que interrompia o sono de Lahey naquela madrugada não parecia a mesma mulher furiosa e descontrolada do último encontro. Não havia ameaças, gritos, acusações... Pelo contrário, o pedido dela vinha acompanhado por um tom de súplica. Belmont sabia que só um profissional como Cameron poderia livrar os irmãos de apodrecerem na cadeia por causa da morte de Veronika.
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Re: Viva Las Vegas!

Mensagem por Cameron Lahey em Ter Maio 02, 2017 2:54 am

- Então existe a possibilidade?

A voz de Cameron soava ansiosa e o olhar esperançoso era incapaz de desviar do advogado a sua frente. O homem engravatado, entretanto, tomava cuidado em cada escolha de suas palavras, e parecia pisar em ovos ao explicar a situação.

- O que estou dizendo é que seria um processo extremamente longo e desgastante. As brigas pelas custodias dos filhos costumam ser tão ruins quanto divórcios. A sua situação só se torna ainda pior com todo esse histórico...

O discurso do advogado parecia ser unicamente para desmotivar Lahey, mas ele ainda se encontrava agarrado na possibilidade de enfrentar todo aquele inferno se pudesse ter a mínima chance de participar da vida dos filhos.

Depois da visita a “Sarah Baker”, a primeira parada de Lahey havia sido no advogado. O homem que antes tentava resolver os problemas com as próprias mãos agora precisava recorrer a lenta e cruel justiça que ele jamais havia acreditado para tentar solucionar seu dilema.

- Mas existe uma chance.

Cam repetiu seu tom esperançoso, fazendo com que o advogado parecesse completamente derrotado em sua falha missão de fazer o homem a sua frente enxergar o óbvio.

- Uma remota chance.

Se a intenção do advogado era terminar de desestimular Lahey, se surpreendeu quando um largo sorriso iluminou o rosto de Cameron como não acontecia há quase dois anos. Era a primeira vez que ele conseguia ver um propósito na vida desde que perdera Matilda.

- Mas se realmente está disposto a enfrentar esta guerra, Sr. Lahey, tem uma coisa que precisa saber. – O olhar cansado do advogado estudou Cameron por alguns segundos antes de completar. – Sua ligação com Alessio Moccia só prejudicaria o seu caso. Se realmente quiser provar para a justiça que não apresenta nenhum risco aos seus filhos, a imagem de um mafioso não vai ajudar.

***

Depois daquele encontro com o advogado, era impossível para Cameron acordar e enfrentar mais um dia sem ser consumido pela vontade de rever os filhos. Por mais de uma vez ele chegou a se deixar levar pelo impulso de entrar no carro, mas em poucos quilômetros desistia da ideia de deixar Las Vegas e ir até o novo endereço de Matilda.

As orientações do advogado eram claras: Para que realmente existisse a “remota” chance de participar da vida de seus filhos, ele não podia apresentar qualquer tipo de ameaça a Belmont. E visitar uma mulher que estava sob o serviço de proteção de testemunhas era a última coisa que poderia ser apresentado em seu julgamento.

A ansiedade era demais para Cameron aguentar, mas ele precisava se agarrar a ideia de que só estava passando por todo aquele sofrimento para que pudesse dar um pai no futuro dos seus filhos.

Mesmo sendo proibido de vê-los outra vez, David e Adelaide passaram a ser os motivos de tirar Cameron da cama todos os dias. Era torturante não ter nem mesmo uma foto dos gêmeos para poder relembrar os delicados traços ou os sorrisos angelicais. Mas Cameron tentava compensar sempre que passava por alguma loja de brinquedos e um novo ursinho ou um mordedor era comprado. Em um mês, uma pequena pilha de embrulhos infantis havia se formado em sua sala solitária.

Assim como havia sido orientado pelo advogado, Cameron se viu obrigado a se afastar de Alessio Moccia. Era ainda mais triste estar longe de Don Alessio agora que o antigo mafioso havia retornado para casa. Desde a saída da prisão, Alessio e Cameron haviam se encontrado uma única vez, quando o rapaz que havia sido criado como um filho o levou de volta para a mansão.

No primeiro dia da prisão domiciliar de Alessio, Cameron participou do almoço de comemoração. Cam não explicou ao homem que havia lhe tirado das ruas que estaria ausente nos dias seguintes, mas conforme as semanas começavam a passar, ele arrumava desculpas atrás de desculpas para não retornar até a mansão.

Para Alessio, aquela ausência repentina provavelmente não fazia sentido algum, considerando que Cameron havia lhe feito visitas frequentes durante todo o tempo em que estivera preso. Para Lahey, por outro lado, a consciência do que estava fazendo era ainda mais torturante. Mas a ideia de dar as costas para Alessio se tornava menos repugnante quando pensava que a recompensa seria ter seus filhos.

Como o mundo do crime não fazia mais parte da rotina do ex-segurança, Cam não estava mais acostumado a ser acordado no meio da madrugada por “emergências”. Por isso, o sono pesado demorou a ser interrompido com o toque do celular apoiado na mesinha de cabeceira.

O número que apareceu em sua tela era desconhecido, mas em um movimento automático, Cam se sentou na cama para atender a ligação, já com uma ruga entre as sobrancelhas. Seu coração deu um salto contra o peito no instante em que reconheceu a voz de Matilda.

Talvez fosse a mente sonolenta de Cameron ou a inusitada situação de ouvir a voz de Matilda no meio da madrugada, mas a primeira teoria que surgiu em sua mente era que alguma coisa tinha acontecido com os gêmeos.

- Matilda??? O que houve??? O que aconteceu? Foi com os bebês???

Já não havia nenhum vestígio de sono quando Cameron deslizou para fora da cama. Ele precisou prender o celular entre o ombro e o ouvido para enfiar uma camisa por cima da cabeça enquanto tropeçava até a luz do abajur.

- Me diga onde você está! Eu vou buscar você!

Para um profissional como Lahey, seria inteligente ao menos cogitar que aquilo fazia parte de alguma emboscada. Matilda já havia lhe enganado no passado e poderia apenas estar aplicando um novo golpe para garantir sua passagem até a prisão, tirando de vez do caminho o homem que ela odiava.

Mas o desespero de que realmente pudesse ter acontecido algo com seus filhos o consumia de tal forma que Cameron não pensou em nenhuma outra alternativa a não ser socorrer Belmont do que quer que fosse.

Matilda não deu muita explicação além do endereço e por avisar que estava de carro. Mas foi o suficiente para que Cameron descesse de um táxi em menos de quinze minutos exatamente na rua em que os irmãos Belmont e Ward estavam estacionados.

Em meio a movimentada madrugada de uma cidade como Vegas, ninguém suspeitou quando o homem de jeans e camisa caminhou apenas alguns passos até parar diante do carro estacionado.

Cameron se abaixou para olhar o interior e sua expressão se tornou ainda mais confusa ao encontrar Connor no banco do carona. Aquele poderia ter sido o momento de cogitar um novo golpe, se não fosse a expressão conturbada do policial e do olhar ansioso de Matilda.

O que quer que fosse, Lahey sabia que aquele não era o lugar para discutirem. Por isso, antes de exigir explicações, uma sombra cobriu seu rosto, lembrando o Cameron de dois anos antes.

- Coloque o seu irmão no banco de trás. Eu vou dirigir.
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Cameron Lahey

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Re: Viva Las Vegas!

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