Bloody Type

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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Sab Out 22, 2016 11:06 pm

Os olhos azuis escuros estavam fixos na garota e Petrus não piscou uma vez sequer enquanto se aproximava dela com passos cuidadosos. Ao invés de se sentar ao lado de Summer, o vampiro agachou-se em frente à menina e a encarou alguns centímetros abaixo do rosto dela. A voz grave soou calma, sem ser contaminada pela fúria ou pela decepção de Fields.

- Vida medíocre? Como você é capaz de falar isso logo depois de descobrir que existe uma poderosa magia dentro de você, Summer? Você ainda não entendeu que a sua vida é muito mais que essa rotina pacata que você construiu em Bar Harbor?

Quando conheceu Summer, Montgomery teve a impressão de que estava diante de uma humana ingênua e completamente inofensiva. Exatamente por isso, Petrus decidiu que a pouparia da verdade sobre a morte dos Fields e sobre o mundo sobrenatural que a cercava. Mas agora, depois de descobrir que Summer herdara os poderes dos pais, não fazia sentido mantê-la afastada dos planos que o destino reservara para ela.

Mesmo com o receio de ser rejeitado, Petrus ousou erguer uma das mãos. Seus dedos gelados foram guiados até o rosto delicado de Summer e secaram cuidadosamente as lágrimas que ainda manchavam a pele pálida da menina.

- Os seus poderes são incríveis, não os meus. Eu sou apenas uma criatura refém dos próprios instintos. Você pode fazer escolhas, você pode controlar tudo ao seu redor, só precisa de um pouco mais de treinamento e de paciência.

O fogo que ainda crepitava na lareira e a garrafa de whisky espatifada eram provas de que os poderes de Summer eram diversificados. Se ela conseguisse controlar a magia que exalava em momentos de fúria e revolta, certamente se tornaria uma bruxa tão poderosa quanto seus pais.

A frieza era um efeito colateral inevitável das décadas de frustração. O corpo de Montgomery estava condenado a ser eternamente jovem, mas a sua mente já havia vivido experiências demais e não abrigava mais a consciência de um garoto. Foi o raciocínio de um homem extremamente maduro e inteligente que fez com que Petrus enxergasse que ele poderia se beneficiar da raiva que Summer demonstrava naquele momento.

Ela ainda não era uma bruxa poderosa, mas tinha o potencial de se tornar uma das melhores. E Montgomery definitivamente preferia tê-la como amiga do que como uma inimiga. Mesmo que Summer ainda não tivesse a resposta que Petrus tanto desejava, ela estava mais próxima daquele segredo do que qualquer outra pessoa.

- Eu posso te ajudar com isso. Eu não tenho a sua magia, mas já conheci muitos bruxos, já li muitos livros sobre o tema, eu conheço bem a teoria...

Antes que Summer questionasse as verdadeiras intenções de Montgomery com aquela oferta tão generosa, o vampiro finalizou o discurso de forma racional. Petrus não queria colocá-la contra a família, muito menos articulava aquele plano com o intuito de manipular a mente dela. Seus argumentos soavam com uma inegável lógica quando o vampiro completou.

- Talvez eu não seja o melhor instrutor que você poderia ter, mas eu não tenho nenhum motivo para tentar privar você de nada. Seus pais certamente tentaram te proteger e te dar uma vida calma. Sua prima e seus tios seguiram no mesmo caminho. Eu, por outro lado, só vou me beneficiar se você se tornar uma bruxa poderosa.

Um discreto sorriso surgiu nos lábios bem desenhados de Petrus quando ele finalizou o raciocínio depois de uma breve pausa.

- Eu não vou te tratar como uma garotinha indefesa prestes a se quebrar. Você vai dar as costas a esta vida comum em Bar Harbor. Não é isso que você quer, Sum?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Dom Out 23, 2016 12:28 am

A cor alaranjada do pôr do sol cobria os céus de Bar Harbor e refletia na água clara do grande lago. A estrada principal que ia da entrada da cidade passava pela nova residência dos Montgomery e seguia ainda por um longo caminho rodeado por longas árvores até chegar a área mais movimentada.





O caminho do centro até a afastada casa dos irmãos Montgomery era rapidamente percorrido por dez há quinze minutos de carro, mas se tornava uma distância considerável quando alguém decidia seguir o caminho a pé.

A caminhada poderia ser apreciada pelos humanos para apreciar a vista, porque independente do quão pacata a pequena Bar Harbor poderia ser, ela era igualmente bela. As montanhas distantes estariam cobertas de neve nos próximos meses e as folhas amareladas do outono já teriam desaparecido, e ainda assim a cidade teria o seu charme.

Para alguém que já havia visto diversos tipo de beleza, Alaric já não via tanta graça em admirar o pôr do sol. Talvez tivesse alguma poesia para os mortais ver que mais um dia havia chegado ao fim. Mas para um vampiro de tantas décadas e com a eternidade diante dos seus olhos, a paisagem era facilmente dispensada e trocada por uma série de xingamentos baixinhos.

O Montgomery mais velho poderia facilmente encurtar a distância usando a sua super-velocidade. Mas a promessa que havia a Petrus de que não chamaria a atenção era resumida em mais xingamentos enquanto ele caminhava tediosamente como um perfeito humano, carregando a sacola de compras em seus braços.

A sacola de papel estava abarrotada com pão, leite, alguns ovos e enlatados que certamente estragariam, já que a dieta de um vampiro não permitia aquele consumo. Mas seria estranho demais que os dois jovens chegassem na cidade e não visitassem o único mercadinho disponível. Como os rapazes já tinham bastante experiência em se esconder entre os humanos, aquela era apenas uma das tarefas banais que precisavam fazer para manter o segredo.

O peso das compras, é claro, era indiferente para um vampiro. Mas Alaric já começava a se incomodar pelo simples fato de que agir como um humano era entediante. E somado aos motivos para que ele xingasse Petrus naquele fim de tarde, estava a brilhante ideia do irmão de usar o carro.

Montgomery provavelmente teria seguido todo o caminho até a casa xingando o irmão quando algo na deserta estrada fez com que seu raciocínio mudasse. O carro estava parado no acostamento e o corpo magrinho de uma mulher estava de costas para ele, provavelmente analisando o motivo de vir tanta fumaça do motor.

O rapaz parou a sua caminhada apenas para admirar aquela visão por alguns segundos. Ele chegou a olhar por cima do seu ombro, se certificando de que a estrada continuava inteiramente deserta, sem sinal de nenhum outro carro ou pessoa.

Lentamente os seus lábios se curvaram em um sorriso malicioso quando encontrou ali a vingança perfeita pelo que o irmão havia feito ele passar.

- Malvas brancas, o cacete. Você nunca mais vai me deixar sem o carro outra vez, irmãozinho.

A sacola de compras foi ajeitada nos braços de Alaric e ele passou as mãos nos cabelos loiros, fazendo com que os fios apontassem para todas as direções em um ar desleixado que o deixava ainda mais atraente. A camisa preta tinha apenas alguns botões próximos da gola e as mangas estavam repuxadas até a altura dos cotovelos. Montgomery era absurdamente bonito, mas foi o sorriso conquistador que colocou nos lábios que era capaz de fazer qualquer mulher se derreter.

Claro que Alaric poderia facilmente dispensar qualquer um dos seus atrativos e conquistar a sua presa apenas utilizando a hipnose, mas sempre era mais divertido envolve-las da forma mais natural antes de atacar.

- Problemas com o carro? – Ele perguntou quando já estava próximo o bastante para a menina escutá-lo.

Os fios loiros dela também refletiam com a luz do sol que se punha, e Alaric já estava empolgado com a sua alimentação antes mesmo dela se virar.

- Eu posso ajudar. Já está quase anoitecendo e não é o melhor lugar para uma moça ficar sozinha.

O sorriso que tentava ser simpático, mas que carregava o seu ar de conquista, foi imediatamente desfeito quando a menina se virou e o rosto delicado entrou em seu campo de visão. A palidez do rosto de Alaric se tornou ainda mais em destaque e a sacola de compras escorregou dos seus braços, fazendo com que as latas rolassem pelo asfalto, assim como a garrafa de leite estourasse, manchando seus tênis com o líquido branco.

- Não é possível.

Para um vampiro, não era nenhum absurdo acreditar em fantasmas. Mas definitivamente Montgomery não esperava ser assombrado pelo passado que jurava estar morto e enterrado, principalmente no fim de mundo de Bar Harbor.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Out 23, 2016 1:17 am

O mais sensato a fazer era dar um fim àquela loucura, sair da casa dos Montgomery e voltar para a proteção do seu lar, ignorar tudo que havia descoberto naquela noite e seguir a sua vida normalmente. Claro que a dor e tristeza provocada por saber que sua vida era uma mentira não desapareceria em um estalar de dedos, mas ainda parecia uma ideia mais razoável do que fazer um pacto com o diabo.

Ignorando qualquer lado sensato que seu cérebro tentava impor, o coração de Summer deu um salto diante da proposta de Petrus. Ela estava condenada a uma vida tediosa, presa naquela cidadezinha, sem esperanças de conseguir sair daquele buraco. Mas era irônico que logo Montgomery tivesse surgido como uma luz no fim do túnel.

Ele era um vampiro, havia se aproximado dela apenas com a intenção de roubar a grande e milagrosa descoberta dos seus pais que ela sequer sabia que existia, e ainda se aproveitara para se alimentar do seu sangue em um momento de fraqueza. Petrus não havia dado muitos sinais de que poderia confiar nele. Mas era sua única esperança.

Aquele mundo novo era assustador e qualquer um teria corrido na direção contrária. Mas ao menos ainda era uma opção melhor do que a vida medíocre de uma garçonete em uma cidade pequena, presa em dias que se repetiam quando internamente sabia que era capaz de muito mais.

- Está bem.

O tom decidido em suas palavras não combinava com os olhos rasos pelas lágrimas, mas Summer não deixava a menor dúvida de que se arrependeria daquela escolha.

- Nós dois temos coisas a ganhar com esta parceria. Eu não posso garantir que vou te dar o que você quer, mas me ensine a ser tão grande quanto acha que consigo ser e eu não vou descansar até te dar uma resposta.

O brilho nos olhos azuis não era mais proveniente do choro desesperado ou da dor da descoberta. Pela primeira vez desde que entrara em luto pela morte dos pais, havia um sinal de esperança no rosto de Fields, como se ela finalmente voltasse a ter um motivo para viver.

Contudo, aquele brilho que também minimizava a parte morta que Summer trazia consigo, fazia nascer uma sombra até então adormecida em sua alma. A inocência e a depressão aos poucos davam lugar para a ambição de aprender ao máximo sobre aquela nova magia, de finalmente deixar de ser a pobre coitada que havia perdido os pais e que não tinha um futuro.

- Mas isso não quer dizer que vamos ser amigos. Você não precisa mais fingir que quer se aproximar porque gosta de mim. Nós vamos trabalhar juntos, mas é isso. Só isso.

***

Encarar Letitia depois de descobrir toda a verdade havia sido uma tarefa mais complicada do que Summer havia imaginado. Mitchell não escutou com todas as letras que Summer havia descoberto sobre o mundo com bruxas e vampiros, mas misteriosamente voltou a encontrar na prima o mesmo comportamento rebelde de anos antes.

Summer quase não ficava em casa e as poucas palavras que trocava com a loira eram curtas e objetivas. Se tentasse iniciar algum diálogo, Fields sabia que explodiria com a prima e colocaria nela a culpa por ter vivido em segredo toda a sua vida. Para que Mitchell não tivesse a chance de arruinar os seus encontros para as lições de magia com um dos detestáveis vampiros, Summer se esforçou para não vomitar tudo o que tinha para dizer para a prima.

Como desculpa para aparecer em casa, ela começou a pegar plantões extras na lanchonete e normalmente saía do trabalho para encontrar Petrus. As poucas reuniões que começaram a acontecer sempre eram marcadas na casa afastada dos Montgomery ou em algum ponto do lago onde não houvesse risco de serem flagrados.

Naquele fim de tarde, Summer estava terminando de servir hambúrgueres em uma das mesas quando a sineta da porta tocou, anunciando a entrada de mais um cliente. Ao erguer a cabeça em direção da entrada, ela não se espantou ao reconhecer o rosto de Mongtomery, já que os dois haviam marcado mais uma das aulas para aquela noite.

Ao invés de parar para dar atenção ao vampiro, Summer voltou para sua posição atrás do balcão e continuou servindo a bebida das pessoas que se sentavam nos banquinhos altos. O sorriso mecânico estava em seus lábios e a jovem Fields parecia dedicada ao trabalho, como se seu mundo inteiro não tivesse se transformado nos últimos dias.

Os cabelos escuros estavam trançados e caía em um dos ombros. O uniforme listrado em rosa e branco era ainda mais cafona do que o restante da lanchonete, mas nem mesmo a sua aparência mais desleixada evitava que um dos rapazes a encarasse com um olhar diferenciado.

- Você esqueceu a minha torta de pêssego, Sue.

- Você come essa bendita torta todos os dias, Ezra. É meio impossível esquecer.

Summer girou os olhos enquanto puxava o prato com a torta da mureta que dividia o balcão da cozinha, onde os cozinheiros empurravam os pedidos feitos. A torta foi colocada diante de Ezra e o filho do delegado imediatamente abriu um largo sorriso, como um cãozinho que ganha o seu desejado prêmio.

- Bom, eu não sei como seria a minha vida sem essa torta, Sue.

A rotina parecia ser mesmo uma coisa de todos os moradores de Bar Harbor, de modo que Summer não podia culpar o velho amigo por se sentir feliz e satisfeito com um detalhe tão bobo. Ela, por outro lado, enlouqueceria se continuasse mais alguns anos naquela mesmice.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Dom Out 23, 2016 1:20 am

A fumaça esbranquiçada que vinha do motor obrigou Saphir Wegener a tossir várias vezes e se afastar alguns metros do carro para recuperar o fôlego. O Honda Civic prateado não parecia ser tão velho ou estar malcuidado, mas naquele fim de tarde o carro havia obrigado a motorista a parar no acostamento depois de uma pane no motor. Parecia o fim “perfeito” para aquele dia cansativo.

Estar de volta a Bar Harbor era como uma tortura para Saphir. O motor do carro parecia refletir o desespero que ela sentia com a ideia de passar um mês inteiro na casa onde havia sido criada. Desde que fora aprovada no curso de Arquitetura em Yale, a filha caçula do prefeito Wegener só pisava em sua cidade natal nas férias e recessos, e ainda assim era comum que Saphir inventasse cursos de verão que reduzissem ainda mais a sua permanência no interior.

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensava, Saphir não fugia de Bar Harbor por desprezar a simplicidade da pequena cidade do Maine. Seu problema era, especificamente, dentro da casa dos Wegener. A mãe de Saphir havia assumido integralmente o papel de “primeira-dama” e sua vida agora se resumia a festas, viagens, compras e salões de beleza. O irmão mais velho se aproveitava do poder conferido ao cargo do pai para colecionar confusões em seu histórico. O delegado, um velho amigo da família, já estava mais que habituado a esconder os pequenos delitos cometidos por William Wegener.

A grande verdade era que Saphir só voltava para casa todos os anos por causa do pai. Jonathan Wegener era um bom homem e o melhor pai que a garota poderia desejar. O cargo de prefeito de Bar Harbor lhe conferia uma quantidade absurda de obrigações, o que reduzia consideravelmente o tempo que ele passava com a filha. Mas Saphir ainda achava que aquele sacrifício valeria a pena. O sorriso do pai ao vê-la chegar em casa era impagável.

Como só encontrava no pai o apoio de que precisava, Saphir não hesitou em ligar diretamente para o prefeito quando o motor do Honda Civic resolveu boicotá-la. A situação foi explicada brevemente, com a típica entonação de alguém que não fazia a menor ideia de como resolveria aquele problema. Embora dirigisse razoavelmente bem, Saphir nunca havia precisado levantar o capô do carro para nada.

- Quando foi a última revisão?

A voz do prefeito soou num tom de repreensão do outro lado da linha. Ele já esperava por uma resposta nada adequada antes mesmo que a filha confessasse.

- Provavelmente no dia em que eu o tirei da concessionária.

- Saphir... Você alguma vez, nos últimos dois anos, repôs a água do motor?

- Pai. O senhor sabe a resposta, então pare de me torturar. Pode mandar alguém aqui para me ajudar? Estou no acostamento, há uns dez minutos do centro. Foi uma viagem longa, eu estou exausta e louca por um banho. Por favor, hm?

Antes que a resposta de Jonathan soasse, Saphir ouviu uma voz masculina atrás de si. Alaric havia se aproximado tão silenciosamente que a loira não o notara e por isso se sobressaltou antes de virar o corpo na direção do recém chegado.

Embora tivesse vivido em Bar Harbor durante toda a sua infância e adolescência, Saphir não se surpreendia quando visitava a cidade e encontrava rostos desconhecidos. Ela já vivia em Conneticut há quase cinco anos, estava prestes a se formar no curso de Arquitetura. Embora a cidadezinha governada pelo Sr. Wegener fosse bastante pacata, muitas caras novas tinham chegado nos últimos anos.

Inicialmente, Saphir imaginou que o rapaz a sua frente fosse mais um daqueles rostos novos que ela desconhecia. Mas a reação esquisita dele ao olhar para ela obrigou Saphir a se questionar se havia se esquecido do rosto de um velho colega ou vizinho. Era improvável que ela não se lembrasse de um rapaz tão atraente, mas talvez aqueles cinco anos tivessem modificado as feições do “conhecido” a sua frente.

- Ahn... – Saphir voltou a atenção para o celular novamente, apenas para finalizar a chamada – Já encontrei ajuda aqui, pai. Está tudo bem, ok? Logo estarei em casa, eu te amo.

O aparelho foi enfiado no bolso traseiro da calça jeans antes que Saphir forçasse um sorriso para o rapaz a sua frente. Ela parecia uma garota comum com sua calça jeans escura e uma blusa rendada preta. O casaco que compunha o uniforme de Yale estava amarrado na cintura de Wegener e lhe dava um ar despojado que combinava com o par de All Star em seus pés. Os fios loiros estavam soltos e já um pouco bagunçados pelo vento. Os óculos de grau com uma armação preta eram o detalhe final daquela aparência de uma estudante exemplar.

Mesmo encarando o recém chegado com muita atenção, a loira não fazia a menor ideia de quem ele era, ou de onde se conheciam. Mas ela concluiu que seria uma grande indelicadeza demonstrar estranhamento diante de alguém que certamente sabia quem ela era e estava tão surpreso em revê-la.

- Oi! Nossa, que bagunça! – a moça se agachou para resgatar algumas latas e devolveu a sacola para as mãos de Alaric – O leite infelizmente é um caso perdido. Mas eu posso compensar este prejuízo te dando uma carona até a sua casa. Você só precisa me dizer que sabe consertar isso...

O indicador de Saphir indicou a fumaça que continuava escapando pelo capô do veículo. O sorriso dela se tornou mais constrangido antes que a jovem confessasse.

- Tem uma enorme chance de ser um superaquecimento por falta de água. Faz muito tempo desde a última vez que conferi isso na minha última encarnação.

Não era preciso ser um bom observador para notar que Saphir estava se esforçando muito para fingir naturalidade naquela conversa. Era tão óbvio que a loira não sabia com quem estava lidando que ela mesma decidiu abandonar aquela postura e suspirou antes de encarar o rapaz.

- Me desculpe. Me desculpe mesmo, mas eu não estou me lembrando de você. Cinco anos fora de Bar Harbor, você sabe... Yale frita o cérebro das pessoas! Nós estudamos juntos? Se você me disser o seu nome, talvez eu consiga resgatar esta memória.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Dom Out 23, 2016 2:03 am

A risada soava como uma música gostosa aos ouvidos de Alaric e preenchia todo o quarto. Por mais que adoraria passar a noite inteira ouvindo aquele som, o rapaz se apressou em cobrir os lábios rosados da mulher para abafar o barulho, enquanto ele próprio precisava controlar o riso.

- Xiiiu! Eles vão te escutar!

Para se certificar de que a casa inteira continuava dormindo, o rapaz saltou para fora da cama e correu até a porta. A cabeça foi colocara para fora do corredor, olhando de um lado ao outro, mas o casarão continuava no mais profundo silêncio, sem sinal de que os pais ou o irmão tivessem despertado.

Satisfeito, ele voltou a subir no colchão até prender a mulher sob o seu corpo, encarando o rosto bonito e delicado. A única e fraca iluminação vinha da vela presa no suporte e apoiada no criado-mudo, mas era suficiente para deixar o tom loiro dos fios que se espalhavam pelo seu travesseiro ainda mais atraentes ao toque.

Cada um dos traços de Annabeth Kendrick era feito para forma o rosto perfeito de um anjo, se não fosse o sorriso malicioso e travesso que ela trazia nos lábios. Aquele vestígio era suficiente para fazer qualquer homem saber que não estava de uma simples mocinha inocente. Annabeth era única e ninguém poderia julgar o jovem Montgomery por estar apaixonado.

- E daí? Se eles acordarem, eu farei com que se esqueçam que me viram aqui.

O tom desafiador de Annabeth trazia o ar selvagem que tanto atraía Montgomery. Mas não era apenas a personalidade forte da jovem que a tornava diferente de qualquer outra. Alaric sabia a verdade por trás dos olhos claros. Ele sabia que o coração de Kendrick jamais poderia saltar com tanta força quanto o seu, simplesmente porque o dela não batia há anos. E ainda assim, ele só conseguia se sentir ainda mais envolvido com a vampira, ao invés de teme-la.

O riso aos poucos foi silenciando até que restasse apenas um leve sorriso no rosto de Montgomery. Os olhos acinzentados encaravam o rosto dela enquanto uma das mãos acariciava a pele fria. A única falha daquele relacionamento mágico estava no quarto em frente.

Annabeth era perfeita demais para pertencer a um único homem. Mas o coração enciumado de Alaric não gostava de pensar em dividi-la com o próprio irmão. Ele gostava de acreditar que era o único na vida de Kendrick, mesmo que notasse os olhares insinuantes que a mulher lançava a Petrus durante a luz do dia. O que realmente importava era que quando a noite caía, era em sua cama que a mulher estaria.

- Diga que eu sou o seu preferido.

Ele pediu em um sussurro, fazendo o sorriso de Annabeth se alargar com uma cruel satisfação. Ela adorava aquele jogo, adorava ter os homens se arrastando aos seus pés e se deliciava com a inocência do pobre Alaric que tinha esperanças de ser especial.

- Por que?

A pontada de desespero apareceu nos olhos azuis e não havia mais nenhuma tentativa de sorriso enquanto ele sustentava o olhar. Apenas o medo de que aquele momento mágico chegasse ao fim.

- Apenas diga, Beth. Por favor.

O risinho voltou a ecoar pelo quarto. A loira se inclinou para frente, sustentando o corpo com os cotovelos. Ela mordia o lábio inferior enquanto roçava o nariz na bochecha e no pescoço de Montgomery.

- Pare de fazer drama. Deite-se comigo e não toque neste assunto outra vez.

O desespero e a vontade de insistir naquele assunto desapareceu como mágica da mente de Alaric. O pensamento ainda estava lá, mas era incapaz de incomodá-lo outra vez. Como apenas um humano, Montgomery se entregou a hipnose de Annabeth e voltou a sorrir antes de rolar com ela pela cama.


O rosto a sua frente era idêntico. Cada traço, cada curva. O mesmo tom de loiro, exatamente os mesmos olhos claros e o perfeito contorno dos lábios. Era o rosto angelical que ele tanto conhecia, com a diferença de que não havia ali o sorriso malicioso.

A aparência era sem dúvida a de Annabeth Kendrick, sem os esvoaçantes vestidos ou os espartilhos da época. Os óculos, o all star, tudo contribuía para o ar moderno daquela década, mas eram artefatos que poderiam ser facilmente manipulados.

A única coisa que gritava em sua mente para alertá-lo de que aquela ali não era a mesma mulher que ele havia conhecido quando ainda era humano vinha do som perfeito das batidas do coração.

A mente de Alaric trabalhava veloz para compreender o que estava acontecendo. Sua primeira hipótese foi que Annabeth havia encontrado a solução que Petrus tanto desejava. Ela havia surgido em Bar Harbor e agora era uma humana.

Aquela teoria seria mais fácil de aceitar se Annabeth não tivesse desaparecido há tantos anos e se a mulher a sua frente não fosse tão diferente como era semelhante da antiga vampira. Ele definitivamente estava diante de outra pessoa, mas não estava preparado para enfrentar aquele fantasma sendo esfregado em seus olhos.

- Não. – Alaric finalmente saiu do seu choque e balançou a cabeça, ainda parecendo atordoado. – Não, nós não nos conhecemos. Eu só... Você se parece com uma velha amiga, é só.

A sacola foi recebida novamente em seus braços e sua mão fria roçou levemente nos dedos da menina. O contato foi breve, mas foi suficiente para Montgomery perceber a temperatura tão diferente da que ele conhecia em Annabeth.

No fundo da mente de Ricky, uma vozinha ainda gritava, insistindo que poderia ser uma das velhas brincadeiras de Annabeth. Kendrick era conhecida por ser tão maldosa quanto encantadora, mas ainda assim, o desaparecimento dela há tantos anos continuava sem explicação.

Se estivesse diante de uma completa estranha, Alaric estaria apenas fazendo um vexame. Mas não aceitaria estar diante da velha paixão fazendo novamente um papel de bobo. Ele não era mais o rapazinho inocente que se deixava levar por um belo par de pernas. Annabeth não tinha o direito de surgir apenas para manda-lo de volta ao passado. Por isso, se estivesse diante apenas de uma humana, aquela ousadia seria fácil de corrigir.

Com um passo mais rápido que um homem normal seria capaz de dar, Montgomery parou diante da desconhecida e a tocou no rosto. Os olhos cinzentos procuraram diretamente pelas íris claras diante de si e ele não piscou diante daquela hipnose.

- Eu quero ouvir a verdade. Qual é o seu nome? O que está fazendo aqui? Quem mandou você aqui?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Dom Out 23, 2016 2:09 am

Racionalmente, Petrus dizia a si mesmo que tudo aquilo não passava de um acordo vantajoso para ambas as partes. Ele possuía o conhecimento que falta à Summer e que poderia ajudá-la no controle dos próprios poderes. Em troca daquele auxílio, Montgomery ganhava uma valiosa dívida de uma bruxa que, se seguisse o caminho dos pais, seria extremamente poderosa.

Mas no fundo o vampiro sabia que as coisas não eram tão simples assim. Embora ele realmente pensasse em obter lucros com a magia de Summer, era inegável que ele também mergulhara naquele trato por apreciar a companhia da menina. Fields pensava que Petrus só havia se aproximado dela para desvendar o segredo dos seus pais e para saciar sua sede de sangue. O vampiro não havia desmentido aquele mal entendido porque era mais seguro, para os dois, que aquela interação se resumisse a um companheirismo de negócios.

Naquele fim de tarde, contudo, foi difícil conter uma potente onda de ciúmes. Petrus já havia vivido o bastante para reconhecer o típico olhar de um rapaz apaixonado. Ezra simbolizava aquele mundinho pacato e a rotina chata da qual Summer queria desesperadamente fugir, mas nem isso amenizou o ciúme que se apoderou de Montgomery.

Normalmente, Petrus entrava na lanchonete e esperava pacientemente até que Summer servisse o último cliente, sem interferir no trabalho dela. Naquele dia, porém, o vampiro se viu invadido por uma vontade louca e imatura de mostrar a Ezra que o rapaz estava pisando em um terreno perigoso.

Com um sorriso frio nos lábios, Montgomery se sentou num dos banquinhos altos que rodeavam o balcão principal. Ele parecia um cliente como qualquer outro, exceto pelo fato de não se sentir nem meramente tentado pelas delícias espalhadas pelo balcão. Sua atenção estava voltada inteiramente para Summer quando a voz grave soou.

- Já cheguei, Sum. Mas não precisa ter pressa, eu vou te esperar bem aqui.

Ficou claro que Petrus havia alcançado o seu objetivo quando Ezra olhou dele para Summer, completamente confuso e desconfortável em saber que a menina havia marcado algum tipo de encontro com o forasteiro naquela tarde. O filho do delegado foi discreto e não fez perguntas diretas, mas o olhar indagador dele deixava muito claro que ele precisava de mais informações para entender aquela história.

Ninguém poderia julgar Ezra por se sentir ameaçado. Qualquer rapaz ficaria desconfortável em disputar a atenção de uma menina com Petrus Montgomery. Ninguém em Bar Harbor sabia muita coisa sobre os irmãos que agora viviam no casarão na beira do lago, mas era notável que as mulheres não eram indiferentes à beleza incomum dos jovens.

Naquela tarde, Petrus chamava a atenção com uma roupa incomum, mas que caía no corpo dele com uma perfeição inimaginável. A calça de linho era preta e tinha um corte perfeito, como se tivesse sido feita para o corpo do rapaz. A camisa branca de botões estava impecavelmente lisa, com as mangas dobradas até a altura dos cotovelos. Mas o detalhe pouco usual das roupas vinha nos suspensórios que subiam retos pelo peito do vampiro e se cruzavam nas costas dele.

Algumas pessoas diriam que Petrus estava atrasado em algumas décadas na moda, mas era bizarro como aquilo caía bem na aparência de Montgomery.

- Meu avô tem uma roupa igual a esta. Legal.

Ezra não controlou a própria língua e decidiu mencionar o único defeito que conseguia enxergar na imagem do outro rapaz. Ao invés de se sentir ofendido, o sorrisinho de Petrus se alargou antes que a resposta soasse com uma confiança anormal para um rapaz com tão pouca idade.

- Aposto que foi o diferencial para que a sua avó se apaixonasse por ele.

- Talvez. Na década de cinquenta...

- Algumas coisas nunca mudam.

O clima se tornou pesado enquanto os dois rapazes se encaravam com semblantes nada amigáveis. Petrus só precisaria de dois segundos para vencer aquela disputa, mas ele sabia que perderia Summer para sempre se arrancasse todo o sangue que corria nas veias do filho do delegado. Por isso, Montgomery decidiu mudar a direção do seu ataque e novamente voltou os olhos para Fields, desta vez com uma expressão mais leve.

- Está tão estranho assim, Sum?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Out 23, 2016 2:56 am

A antiga Summer, que desconhecia a sua história e poder, que não tinha grandes objetivos além de uma generosa gorjeta de seus clientes mais fiéis, jamais teria coragem de insultar um cliente, mesmo que fosse para criticar suas roupas da forma mais polida possível.

A menina provavelmente gaguejaria até conseguir abrir um sorriso e dizer qualquer coisa agradável que viesse à sua mente, arrumando uma forma de não desagradar a nenhum dos dois rapazes.

Mas a raiva que ainda a acompanhava desde a noite das lanternas não permitiria que Fields agisse como a boa moça de sempre. Ela havia notado a forma com que Petrus encarava e desafiava Ezra, e por saber que o vampiro ganharia facilmente aquela disputa se os dois estivessem em uma briga física, Summer se sentiu na obrigação de dar um pouco de vantagem ao amigo.

- Bom, não é que esteja estranho... Só algumas décadas atrasado. E você é alto demais para usar suspensórios. Fica parecendo um personagem de comédia em um filme preto e branco.

Ezra havia acabado de levar o seu refrigerante a boca e ainda tentou evitar a catástrofe pressionando os lábios para conter a risada, mas o resultado foi inevitável. O líquido foi cuspido de forma exagerada enquanto seu rosto se contorcia em uma expressão de puro prazer, junto com a risada que finalmente ecoou.

Ao invés de se sentir satisfeita com aquela reação, Summer estreitou os olhos e repreendeu a reação exagerada do amigo. Com impaciência, ela puxou um pano para limpar a superfície respingada pela bebida de Ezra enquanto bufava, mais uma vez sem parecer a garçonete que se esforçava para agradar todos os clientes.

- Que legal, Ezra! Eu acabei de limpar o balcão. Muito obrigada!

Aquela repreensão mostrava que, apesar do seu comentário, Summer também não estava disposta a assumir o lado do amigo naquela briga. O filho do delegado e o vampiro recém-chegado a cidade eram os extremos que representavam a vida de Fields e ela definitivamente não estava inclinada a correr de volta ao que Ezra representava.

- Uau, foi mal, Sue!

A risada de Ezra imediatamente morreu ao ver a reação incomum da amiga, que girou os olhos antes de apoiar uma das mãos no balcão, se colocando de frente para os dois rapazes outra vez.

Embora tivesse começado provocando Petrus, Summer também não estava disposta a alimentar falsas esperanças na antiga paixão de Ezra. Ela não queria que o amigo saísse perdendo naquela provocação, mas também temia que cortar Montgomery por completo reacenderia alguma esperança no amigo.

Foi apenas por isso que Summer se inclinou sobre o balcão e beijou rapidamente os lábios de Petrus. O beijo não estava nem perto dos carinhos trocados antes que seu mundo se transformasse por completo, mas foi o suficiente para Summer se lembrar da textura e da temperatura fria que já havia experimentado.

Se Ezra ainda tinha alguma dúvida do envolvimento da amiga com o forasteiro, ele recebeu sua resposta de camarote. Era incômodo fazer aquilo com o amigo, mas ainda era melhor do que vê-lo se arrastando como um cachorrinho quando Summer via cada vez menos chances de continuar em Bar Harbor quando tivesse concluído sua missão junto a Petrus.

Sem se afastar do vampiro, ela continuou inclinada sobre o balcão e evitou encarar Ezra enquanto sussurrava na direção de Montgomery.

- Eu vou me trocar. Não vou demorar, mas acha que consegue ficar calado pelos próximos dez minutos? Ou preciso apelar e enfiar uma torta pela sua garganta?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Dom Out 23, 2016 11:42 pm

No instante em que o vampiro tocou seu rosto e cravou os olhos cinzentos nela, a consciência de Saphir Wegener foi imediatamente desligada. Ela permaneceu de pé no meio da estrada, acordada, mas os olhos azuis vidrados não deixavam dúvidas de que a loira estava hipnotizada.

Como qualquer ser humano comum, Saphir não era imune aos poderes de um vampiro experiente e não apresentava nenhuma resistência àquela “invasão” de Montgomery. Isso era mais uma prova de que aquela garota não possuía os mesmos dons da antiga Annabeth Kendrick.

Os lábios de Saphir se mexeram e deles saiu uma voz mecânica com as respostas exigidas por Montgomery. A entonação da jovem continuava suave como de costume – e era uma voz bizarramente idêntica a de Annabeth Kendrick – mas as sílabas foram formadas sem qualquer tipo de controle consciente da mente dela.

- Meu nome é Saphir Wegener. Eu nasci e cresci em Bar Harbor. Voltei para passar uns dias com a minha família.

Nem mesmo Annabeth Kendrick conseguiria mentir sob o efeito da hipnose caso tivesse se tornado uma humana. Além do mais, era muito improvável que a antiga vampira compartilhasse o mesmo desejo de Petrus. Ao contrário do Montgomery mais novo, Annabeth sempre fora encantada com os próprios poderes, com a juventude eterna e com a maneira como conseguia controlar todos ao seu redor. Era muito difícil acreditar que ela daria as costas para tudo aquilo e se tornaria uma das humanas tão facilmente controláveis que ela tanto desprezava.

Com a mesma facilidade com a qual Alaric controlara a mente da garota, o encanto se quebrou no instante em que o vampiro afastou a mão. Os olhos profundamente azuis da filha do prefeito piscaram duas vezes antes que seu cérebro reassumisse o controle da situação. O sorriso tranquilo de Saphir deixava claro que a menina não fazia ideia do que acabara de acontecer ali.

- Eu me chamo Saphir.

A garota se apresentou de forma gentil, sem imaginar que Alaric havia acabado de arrancar aquela verdade diretamente da cabeça dela. O sobrenome foi propositalmente escondido porque, ao contrário da mãe e do irmão, Saphir detestava ser reconhecida pelo cargo importante ocupado por seu pai naquela pequena cidade.

- Terei uma dívida eterna com você se me ajudar a consertar o carro. Vim de Conneticut dirigindo e estou exausta, tudo o que eu quero é chegar em casa.

Ao se referir ao seu destino final, Wegener olhou na direção da estrada que levava à região mais central de Bar Harbor, no sentido oposto ao casarão onde os irmãos Montgomery viviam agora.

- Mas é óbvio que te darei uma carona antes de seguir meu caminho. – uma das sobrancelhas claras da moça se arqueou acima do aro dos óculos – Desde que você me diga o seu nome, é claro. Realmente não te conheço. Está em Bar Harbor há muito tempo?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Seg Out 24, 2016 12:15 am

O beijo foi uma surpresa totalmente inesperada para Petrus, ainda mais depois que a garota havia iniciado o discurso dando crédito ao filho do delegado naquela disputa tola entre os rapazes. Mas nem mesmo o choque por aquele comportamento imprevisível de Summer amenizou as demais sensações geradas pelo breve contato.

O corpo de Montgomery imediatamente reconheceu o calor e o sabor que ele havia experimentado na noite das lanternas. O coração de Petrus não tinha mais a capacidade de reagir mesmo diante de um estímulo tão profundo, mas o arrepio que percorreu a pele dele deu ao vampiro a gostosa sensação de que seu corpo não estava inteiramente morto. Ele ainda era humano na última vez que viu seu corpo se arrepiar daquela maneira e era inevitável a gratidão que Petrus sentia por Summer proporcionar a ele mais uma dose da humanidade perdida há tantas décadas.

Era óbvio que Fields havia tomado aquela iniciativa para eliminar de vez as esperanças do amigo. Qualquer rapaz poderia se sentir ofendido por ser usado daquela maneira, mas Montgomery não pensava em fazer uma cena. Pelo contrário, a maneira que Petrus encontrou para “punir” a garota por aquela jogada foi repetir o gesto dela.

Ainda com o balcão separando os dois corpos, o vampiro se inclinou na direção de Summer para tomar os lábios dela num beijo mais prolongado. O trunfo dele era saber que Summer não recuaria, já que ela queria passar a Ezra a mensagem de que o rapaz deveria desistir dela. Se Fields queria usá-lo, Petrus se sentia no direito de aproveitar-se ao máximo da situação.

Sob o olhar chocado de Ezra, os lábios do casalzinho se uniram num beijo mais prolongado. A sintonia demonstrada por eles passava a mensagem de que Petrus e Summer já haviam treinado aquela interação antes. Os dedos compridos de Montgomery deslizaram pelo rosto delicado da menina, num contraste violento com a pele macia e quente de Fields. Quando os lábios finalmente se afastaram, Petrus acariciou o queixo de Summer com o polegar e piscou um dos olhos, num gesto provocante que arrancaria suspiros de qualquer menina.

- Sem tortas, por favor. Eu prometo me comportar.

As palavras foram sussurradas apenas para Summer e os lábios bonitos do vampiro se curvaram num sorrisinho divertido que não passava muita credibilidade à promessa que ele acabara de fazer.

E, de fato, tão logo a garota sumiu de vista, Montgomery virou a cabeça na direção de Ezra. O filho do delegado era uma criança tola quando comparado a um vampiro experiente e poderoso, mas Petrus se sentia rebaixado a um rapazinho inseguro quando o assunto era Summer Fields. Naquela tarde, tudo o que Petrus queria era vencer a tola disputa por uma garota.

- Bom, acho que no fim das contas ela gosta dos suspensórios. Mas não aconselho você a ingressar nesta moda, cara. Você sabe, não fica bem em todo mundo...

O semblante de Ezra se fechou, mas o rapaz estava tão chocado e se sentia tão derrotado que não tinha mais forças para estender aquela discussão. O filho do delegado simplesmente não tinha mais cartas para lançar sobre a mesa depois de ver que o forasteiro só precisara de alguns dias para arrancar de Summer os beijos com os quais Ezra sonhava há tempos.

Quando Fields surgiu novamente no salão principal da lanchonete, já sem o ridículo uniforme que usava para trabalhar, Petrus seguiu os passos dela. Ainda se aproveitando da presença de Ezra, Montgomery deslizou um braço pela cintura da menina e a puxou delicadamente para mais perto do seu corpo enquanto os dois caminhavam até a saída.

O carro dos Montgomery estava estacionado bem na esquina do estabelecimento e foi destravado pela chave que Petrus arrancara do bolso das calças. Num gesto cavalheiresco que poucos rapazes usavam atualmente, o vampiro abriu a porta do passageiro para Summer.

- Exploda depois que virarmos a esquina, Sum. O idiota do seu amiguinho está perto da janela. Você não quer dar esperanças a ele, quer?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Seg Out 24, 2016 12:16 am

A verdade arrancada pela hipnose era apenas mais um dos fatos para se somar a lista que provava que a mulher a sua frente não era Annabeth Kendrick. Mas mesmo se a mente de Alaric quisesse insistir que a antiga paixão estava mais uma vez brincando com sua inteligência e seu coração, era impossível negar as gritantes diferenças entre a vampira e a humana a sua frente.

A aparência física era inegável, mas não havia o brilho de maldade por trás das lentes dos óculos e o sorriso de Saphir era puro. Nem mesmo Annabeth seria capaz de esconder a malícia que existia em seu sangue, de modo que a farsa precisava ser descartável.

Apesar de aceitar que estava diante de uma pessoa completamente diferente da que havia conhecido anos antes, Alaric ainda não conseguia compreender o tamanho da coincidência. Em tantas décadas vividas, era a primeira vez que ele se deparava diante de um caso como aquele, com uma cópia quase fiel.

Por sorte, a jovem a sua frente não podia notar o leve tremor em suas mãos e como não o conhecia, não podia identificar no fundo dos olhos cinzentos como ele ainda procurava por uma resposta enquanto se esforçava para agir naturalmente.

- Alaric. Alaric Montgomery. Eu prometo que darei o meu melhor.

A sacola de compras foi passada para os braços da menina e Alaric puxou ainda mais as mangas da camisa enquanto analisava o motor a sua frente. Os dedos pálidos deslizaram por alguns pontos enquanto ele se certificava de descartar as opções mais óbvias, como o combustível.

Enquanto trabalhava para identificar o que havia de errado com o motor, Ricky buscou a loira novamente com o olhar, sem saber se conseguiria se acostumar com a semelhança da humana com a vampira. Provavelmente se não fosse pela lembrança de Annabeth, ele já teria bebido algumas gotas de seu sangue ao invés de bancar o bom samaritano.

- Cheguei em Bar Harbor há algumas semanas. Estou aqui com o meu irmão, Pete. Aparentemente ele tem um péssimo gosto por cidades pequenas.

Um sorriso brincou nos lábios de Alaric e ele desviou o olhar novamente para o motor, sabendo que não conseguiria sustentar aquela expressão tranquila por muito tempo enquanto encarasse Saphir.

Era ainda mais bizarro ter uma conversa casual com uma humana. Aquilo definitivamente não estava nos seus planos, mas Montgomery não conseguiria simplesmente dar as costas e seguir o seu caminho como se não tivesse acabado de cruzar com uma cópia de Annabeth.

- Ainda bem que não é uma mudança definitiva. É uma questão de tempo até irmos embora, e eu juro que da próxima vez, eu vou escolher o destino.

Ele terminou de fuçar no motor e fechou o capô antes de se virar para a loira, limpando os dedos sujos na calça escura. Com o queixo, Montgomery apontou o agasalho amarrado a cintura dela, aos poucos voltando a recuperar sua confiança, aquela que era impossível existir diante de Annabeth.

- Yale, han? Talvez Connecticut seja um bom destino.

A sacola foi recebida novamente em seus braços e Alaric inclinou a cabeça em direção ao banco do motorista. A cada segundo ele estudava os movimentos de Saphir, convicto que realmente estava diante de outra pessoa.

- Pode tentar ligar outra vez?

A porta do motorista permaneceu aberta enquanto Saphir assumia o volante. A chave foi girada e o ronco natural do motor ecoou, indicando o sucesso do breve trabalho de Montgomery.

Alaric permaneceu em pé, do lado de fora do carro e apoiando um dos braços na porta aberta. Era impossível agir como o velho predador diante da cópia de Annabeth, mas ele também não conseguia se sentir como o tolo rapaz de antes da sua transformação. Saphir não despertava o pior do vampiro, como também não trazia de volta a fraqueza do humano.

- Talvez algumas aulas de mecânica em Yale possam te salvar da próxima vez. Não posso prometer estar sempre por perto.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Out 24, 2016 12:40 am

Como uma criança birrenta, Summer assumiu o banco do passageiro com um grande bico nos lábios e os braços cruzados. Durante os primeiros quilômetros percorridos, ela permaneceu calada, apenas encarando a paisagem da rua sendo encoberta pela noite que se aproximava.

O carro de Montgomery já estava rodeando o lago quando a voz da bruxa finalmente ecoou em seu interior, os cabelos livres da trança balançando enquanto ela girava a cabeça para encarar o motorista.

- Só para esclarecer as coisas, eu não fiz aquilo porque queria magoar o Ezra ou porque queria me jogar nos seus braços.

Summer precisou desviar o olhar para a vista frontal do carro quando seu coração deu um salto com a lembrança do beijo, se esforçando para dizer a si mesma que era ridículo se sentir daquela forma por alguém como Petrus. Da última vez em que havia se deixado levar pelo desejo de beijá-lo, havia acabado com dois furos no pescoço e servindo de jantar para o vampiro.

- Ele é um bom amigo. Só precisa entender que é só isso. E definitivamente não merece ser arrastado para a confusão que a minha vida está nesse momento.

A entonação de Fields mudou quando o carro parou diante de uma bifurcação. Ela ergueu um dos braços e apontou para o caminho oposto que Petrus deveria seguir para pegar a estraga que o levaria de volta a casa do lago.

- Por ali. Nós vamos passar em outro lugar antes.

O caminho pelas ruas tranquilas de Bar Harbor foi dito pela bruxa até que entrassem em um bairro mais residencial. As duas fileiras de casas eram idênticas e pareciam ter saído de um filme. A grama verde estava bem aparada, em algumas das casas haviam brinquedos de crianças espalhados, mas em todas elas demonstrava que seus residentes eram famílias que encontravam na pequena cidade o seu lar.

O carro de Petrus seguiu até o final da rua até parar diante da única casa que não estava tão bem cuidada. A placa de “Vende-se” fincada no gramado estava gasta pelo tempo e não havia nenhuma luz no interior ou móveis na varanda para descrever um pouco da personalidade de seus moradores.

Montgomery não precisaria ser um gênio para deduzir que aquela era a casa em que Summer havia vivido antes da grande tragédia. Com um olhar receoso, Fields saiu do carro e encarou o lugar que ainda consultava em sua mente para reviver as lembranças boas e ruins.

As mãos foram enfiadas nos bolsos traseiros do jeans enquanto ela esperava Petrus se aproximar. O uniforme havia sido trocado por roupas mais confortáveis, e além das sapatilhas, Summer vestia uma bata rendada rosa, que terminava alguns dedos acima do cós da calça, fazendo com que a pele da barriga reta fosse exposta conforme os seus movimentos.

Não havia mais a mesma implicância da lanchonete quando Summer procurou pelo rosto de Petrus. Estar diante da casa que havia vivido com os pais trazia de volta a tristeza que Summer havia tentado esconder, mas ela não se permitiria voltar a ser a pobre menininha. Não agora quando seu mundo estava completamente diferente.

- Eu andei pensando... Se meus pais eram mesmo tão poderosos ao ponto de ter descoberto uma cura milagrosa... Eles precisavam praticar, estudar, trabalhar todos os dias com a magia.

As ondas escuras dos seus cabelos deslizaram pelo seu ombro quando ela inclinou a cabeça para a casa, explicando o seu raciocínio.

- Se a verdade estava bem diante do meu nariz o tempo todo, o que mais eu não estava querendo enxergar? Talvez eu encontre mais respostas aí dentro.

Ela puxou uma das mãos do bolso e levou até o pescoço, de onde puxou uma correntinha. Escondida por dentro da blusa, Summer revelou a chave da casa, completando com um sorriso triste.

- A casa ainda está no meu nome. Nunca conseguimos vender. Bar Harbor é uma cidade pequena demais para as pessoas esquecerem o que aconteceu aí dentro.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Seg Out 24, 2016 12:43 am

O amplo sorriso de Saphir iluminou todo o rosto dela quando o motor respondeu normalmente. A fumaça esbranquiçada havia se dissipado por completo, indicando que o rapaz havia obtido sucesso em sua tentativa de resolver o problema. Depois de uma viagem tão longa, era difícil para Wegener disfarçar o quanto ela estava aliviada em pensar que só gastaria mais alguns minutos até estar debaixo de um chuveiro.

A vontade da garota era pisar no acelerador e seguir seu caminho até a casa do prefeito, mas é claro que Saphir não negaria uma carona ao seu salvador. Era o mínimo que ela poderia fazer depois que Alaric amenizara a sua espera e a ajudara a economizar uma pequena fortuna com um mecânico.

- Vamos, entre. Eu vou te deixar em casa, Alaric.

Normalmente, Saphir teria receio de oferecer carona a um completo desconhecido. Mas ela estava em Bar Harbor, aquela cidade pacata onde todos se conheciam há anos. Era muito improvável que um homem perigoso tivesse buscado por um lugar tão pacato, onde seus crimes jamais passariam despercebidos.

- Não posso julgar o seu irmão. Eu também não resisto ao charme de uma cidade pequena. Sinto saudades de Bar Harbor.

Wegener ainda não sabia para onde o rapaz estava indo, mas assim que Alaric ocupou o banco do carona a loira fez uma manobra para retornar com o carro, guiando-o na mesma direção seguida pelo rapaz antes daquela interrupção na estrada.

As duas pistas estavam desertas, mas ainda assim a loira não se mostrou intimidada. É claro que ela não fazia ideia de que estava ao lado de uma criatura muito mais perigosa que qualquer criminoso comum.

O sol começava a se por no horizonte, dando uma coloração alaranjada ao céu. Os únicos ruídos do lado de fora do carro vinham do vento que se chocava contra as árvores e dos grilos que começavam a sua típica cantoria vespertina no mato que cercava a estrada. Parecia o cenário perfeito para que Montgomery acrescentasse mais uma vítima a sua extensa lista, mas Saphir não fazia a menor ideia do risco que corria dentro daquele carro.

- Vou me formar no fim do próximo semestre. Arquitetura.

O rosto delicado da menina se contorceu numa pequena careta enquanto a mente dela reproduzia um pensamento que estava se tornando frequente nos últimos meses. Wegener ainda não tinha decidido qual seria o seu destino após a formatura, exatamente porque a escolha não era tão fácil.

- Eu não pensei muito antes de escolher o curso, sabe? Só agora vejo que foi uma escolha meio incompatível com o meu desejo de voltar a viver no interior. Que tipo de trabalho eu arrumaria em Bar Harbor? No máximo coordenaria algumas restaurações... As coisas nunca mudam por aqui, você já deve ter notado.

Ao contrário de Summer Fields, que estava desesperada para fugir da rotina rígida da cidade do interior, Saphir não usava uma entonação de crítica para se referir à constância de bar Harbor. Ela gostava daquele clima pacato e ameno, de sair nas ruas e conhecer todos os rostos que a rodeavam.

E, mais uma vez, aquilo colocava a loira numa posição completamente oposta a Annabeth Kendrick. A vampira que Alaric conhecera no passado era uma nômade que já havia conhecido o mundo inteiro e que não dava as costas para nenhuma aventura.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Seg Out 24, 2016 1:07 am

Como Saphir precisava se concentrar na estrada a sua frente, Alaric tinha ainda mais liberdade para estuda-la. Sentado no banco do carona, podia ouvir com perfeição cada uma das batidas do coração humano, lhe lembrando constantemente que ele não estava diante de Annabeth.

Ocasionalmente, o rapaz erguia o braço para passar as instruções para a motorista e o carro seguia rodeando o lago pelo caminho que ele aprendera nas últimas semanas. Quem olhasse para Alaric Montgomery com a sacola de compras em seu colo, juraria que ele era apenas um belo rapaz que estava preso na pequena cidade para acompanhar o irmão, sem sonhar que o vampiro já havia rodeado o mundo nas últimas décadas.

As diferenças entre Annabeth e Saphir se tornavam mais e mais gritantes cada vez que a jovem universitária abria a boca para falar, tornando um pouco da sua vida moderna mais real na mente curiosa de Montgomery.

- Bom, eu estou aqui nas últimas semanas e ainda não encontrei nada que poderia me trazer saudades.

A confissão não soava como uma crítica pelo gosto de Wegener pela cidade, mas apenas uma ponta da verdade que Alaric não costumava compartilhar. Desde o seu primeiro dia em Bar Harbor, ele gostava de implicar com o irmão sobre como a cidade era pacata.

- Talvez você possa mudar as coisas por aqui.

A escolha das palavras de Alaric poderia soar como uma cantada barata, mas ele estava apenas sendo sincero mais uma vez. A presença de Saphir não poderia ser tão aleatória, uma simples obra do acaso. Mas independente do que fosse, ele finalmente teria com o que se ocupar enquanto o irmão procurava pelo Santo Graal.

Para amenizar a seriedade do seu olhar, ele abriu um sorriso, o mesmo que usava quando queria encantar alguma moça sem precisar apelar para a hipnose. Poderia ser um sorriso simples e sem grande emoção, mas definitivamente contribuía na aparência atraente do jovem rapaz.

- Restaurações podem até ser legais, mas talvez você consiga trazer um pouco da modernidade que esse lugar merece. – Ele apoiou a cabeça contra o banco e continuou encarando a loira, demonstrando com o seu sorriso que estava brincando. – Uma casa noturna não faria nada mal. Ou um cassino?

O carro finalmente parou diante da casa ocupada pelos Mongtomery e Alaric soltou o cinto de segurança, ficando livre para se virar na direção da motorista.

- Obrigado pela carona, Saphir.

Os olhos cinzentos baixaram para o câmbio da marcha até encontrar o celular da menina apoiado entre algumas moedas. Mesmo correndo o risco de parecer ousado demais, ele não hesitou em puxar o aparelho em suas mãos, digitando o próprio número na tela.

- Vamos fazer o seguinte... Eu não posso prometer estar sempre por perto, mas preciso me certificar de que o meu conserto vai durar até você chegar em casa.

Depois de salvar o próprio número com o nome “Ricky”, ele devolveu o celular para a dona. Um dos seus braços foi apoiado no banco dela e estava formigando pelo desejo de tocá-la outra vez, mas ele conseguiu se conter, se limitando a explicar o apelido.

- Alaric é um nome muito velho. Nem todos têm a sorte de ter um nome legal como você. Pode me chamar de Ricky. Me ligue caso dê algum problema com o carro outra vez. Ou se resolver construir aquele Cassino. Já estive em Vegas e garanto que posso contribuir com excelentes ideias.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Seg Out 24, 2016 1:32 am

Aquela era uma chance dourada para Petrus. Sem a menor dúvida, o melhor lugar do mundo para procurar pelas respostas que o vampiro tanto desejava era a antiga casa dos Fields. Montgomery sabia que o clã responsável pela tragédia que transformara Summer em uma órfã certamente havia revirado a casa em busca da “ameaça” criada pelos Fields, mas ainda assim Petrus tinha a esperança de encontrar algo dentro daquelas paredes.

Se o vampiro pensasse somente nos próprios interesses, suas pernas o guiariam até a casa abandonada sem nenhum tipo de hesitação. Mas ficou claro que Petrus se importava muito com a garota que o acompanhava quando ele se colocou diante da menina e buscou pelo olhar entristecido dela.

- Eu imagino que você ouviu muitas e muitas pessoas dizendo que compreendiam a sua dor.

A voz grave de Petrus soou em uma entonação baixa. Contudo, como a rua estava silenciosa, não era difícil que aquelas palavras chegassem até aos ouvidos de Summer.

- Geralmente o luto vem acompanhado por palavras vazias, que não refletem nem mesmo uma parcela da dor que nos despedaça por dentro. Nenhuma das pessoas que tentaram te consolar entendiam o seu sofrimento, Summer. Mas eu sei muito bem qual é o tamanho da sua dor.

Muitas décadas tinham se passado, mas ainda era difícil para Petrus tocar naquele assunto. Na verdade, o vampiro não costumava falar sobre aquilo nem mesmo com Alaric. Naquela tarde, contudo, ele estava decidido a abrir uma exceção para a filha dos Fields. Summer precisava saber que os dois tinham algo muito importante em comum.

- Eu tinha dezenove anos, faria vinte na semana seguinte. Morávamos no interior, meu pai tinha uma propriedade rural afastada do centro da cidade. Eu estudava na capital, mas já tinha finalizado os meus estudos e voltei para assumir os negócios da família depois que o meu pai ficou doente.

Era muito difícil finalizar aquela história, então Petrus desviou o olhar para o chão. O corpo dele foi apoiado contra a lataria do carro enquanto sua voz entoava o trágico fim de sua família.

- A casa foi invadida. Eu não sei ao certo quantos eram. Seis, sete... talvez mais. Alguns empregados foram mortos, outros transformados. Eles matavam os mais fracos, aqueles que não certamente não sobreviveriam à transformação. Ricky e eu éramos jovens e saudáveis, as vítimas perfeitas.

Uma sombra cobriu os olhos azuis, deixando a coloração das íris um tom mais escuro antes que Petrus concluísse a história.

- Meu pai estava muito doente e não teve nenhuma chance. Ele foi morto diante dos nossos olhos porque a raiva é um potente combustível que dá a força necessária para sobreviver à transformação. Também tentaram transformar a minha mãe, mas ela não sentia raiva quando foi mordida. Ela estava com medo, desesperada, tomada pela dor depois de ter assistido à morte do meu pai. O corpo dela não resistiu e rejeitou a mudança.

Descrever o ataque era como reviver uma parcela do pesadelo que o assombrava há décadas, mas Petrus sabia que aquilo era necessário para que Summer acreditasse nele. As palavras selecionadas por Montgomery não eram vazias e sem sentido como tudo o que a órfã dos Fields escutava desde a morte dos seus pais.

- Eu sei como você se sente, Summer, simplesmente porque vivemos o mesmo pesadelo. No meu caso, tudo aconteceu há muitas décadas, mas ainda dói sempre que eu preciso tocar nesta ferida. Lamento te informar, mas a dor nunca vai embora por completo. Por isso eu não posso te julgar se isso for demais para você.

A cabeça de Montgomery se moveu na direção da casa, indicando que o vampiro se referia à ideia de Summer em retornar ao palco do seu pior pesadelo.

- Eu concordo que existe a chance de encontrarmos as respostas ali. Mas vou entender se você ainda não estiver pronta. Não precisamos fazer isso, Sum.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Seg Out 24, 2016 2:11 am

- E o meu pai?

- Trabalhando. Ele ligou para avisar que houve um imprevisto e vai atrasar, mas garantiu que chega a tempo do jantar.

- Minha mãe?

- Um evento beneficente no centro de convenções. Ela não garantiu presença no jantar. Parece que vai haver um bingo, depois um jantar para os organizadores do evento... É provável que ela só volte para casa no fim da noite.

- William?

- Bom... – a governanta ficou sem graça, mas decidiu falar a verdade já que Saphir conhecia muito bem a fama do irmão mais velho – Ele saiu ontem à noite para outra daquelas bebedeiras com os amigos. Chegou em casa depois que o sol já tinha nascido e se trancou no quarto. De vez em quando eu passo lá e confiro se está tudo bem, mas ele continua com um sono pesado.

“Bebedeiras” era uma maneira sutil da governanta se referir às festas que William Wegener frequentava nos arredores da cidade. Bar Harbor não oferecia a farra que o rapaz tanto gostava, mas Will e os amigos já eram conhecidos nas cidades vizinhas pelas confusões que aprontavam. Não era raro que o filho do prefeito passasse dias fora de casa, que voltasse bêbado como um gambá depois de uma noitada e que dormisse em delegacias após se envolver em brigas ou ser encontrado em posse de drogas ilícitas.

Lucilla já trabalhava para a família Wegener há muitos anos e acompanhara o crescimento das duas crianças. Mas nem mesmo ela era capaz de ignorar o quanto William estava se tornando uma companhia desagradável nos últimos tempos. O comportamento amplamente inadequado do rapaz só reforçava a falta que Saphir fazia naquela família.

- Eu estava com saudades. Fiz o bolo de milho quando soube que você estava a caminho.

A confissão da governanta soou meio envergonhada, mas foi um desabafo tão doce e espontâneo que arrancou um largo sorriso da garota. Sem nenhuma formalidade, Saphir envolveu a velha governanta num abraço apertado e beijou o topo da cabeça dela, aproveitando-se do fato de Lucilla ser uma mulher baixinha.

- Eu também estava, vovó Lucy. Ninguém me mima assim em Yale, sabia?

Ao invés de ocupar seu lugar na mesa de jantar, Saphir acompanhou a governanta até a cozinha e sentou-se num dos bancos altos que rodeavam o balcão. Lucilla serviu para a loira um generoso pedaço do bolo de milho e uma xícara de café quente. O olhar curioso que a mulher lançou ao celular de Saphir obrigou a garota a explicar o destino da mensagem que acabara de enviar.

- Estou avisando o meu herói que cheguei bem em casa. – Saphir soltou um risinho anasalado antes de explicar – Meu carro estragou na estrada, quase chegando aqui. Coincidentemente, um rapaz passava por perto e me ajudou a consertar. Ele disse que está de passagem pela cidade. Alaric Montgomery.

- Ah, sim. Um dos irmãos. Eu já ouvi falar deles, alugaram o velho casarão dos Richmond.

Saphir não ficou surpresa pela governanta ter acesso àquela informação. Eles estavam em uma cidade minúscula na qual nenhum forasteiro passava despercebido. Era óbvio que dois rapazes jovens e bonitos atrairiam a atenção e o interesse dos moradores de Bar Harbor, tão pouco habituados a novidades.

- O que tem a me dizer sobre eles? – Saphir tentou soar natural, mas era evidente que estava ansiosa pela resposta da governanta.

- Praticamente nada. – Lucilla deu de ombros e completou a xícara de Saphir com mais café depois que a menina tomou um gole da bebida – No começo, pensei que eles causariam algum problema e que estavam em busca de aventura e farras. Mas os dois tem sido muito discretos. Provavelmente só querem aproveitar as férias para descansar.

A filha dos Wegener havia passado poucos minutos na companhia de Alaric Montgomery, mas havia sido o bastante para Saphir descartar a possibilidade do rapaz ter procurado Bar Harbor para descansar. Ricky não parecera nem meramente satisfeito com a inércia da cidadezinha.

- Um deles tem sido visto com alguma frequência na companhia da menina dos Fields. Algumas pessoas comentaram que ele a acompanhou na noite das lanternas.

- Qual dos dois?

Mais uma vez, Saphir precisou se esforçar para esconder o interesse. Era bizarro sentir ciúmes de um rapaz que ela acabara de conhecer e com quem trocara uma dúzia de frases, mas a loira não escondeu de si mesma a insatisfação de pensar em Alaric e Summer juntos.

- Não sei. – Lucilla ergueu um dos ombros – Eu só os vi uma ou duas vezes, não sei quem é quem.

Um sorriso menos espontâneo surgiu nos lábios de Saphir e ela empurrou os óculos que teimavam em escorregar até a ponta do seu nariz. Racionalmente, a loira se obrigou a deixar aquele assunto de lado. Não fazia o menor sentido se sentir incomodada com a ideia de que o rapaz que a ajudara naquela tarde estava se relacionando com uma velha amiga.

- E como está a Summer? – Saphir soltou um suspiro de pesar – Eu sempre mandava mensagens para ela, mas as respostas começaram a ficar cada vez mais breves e desinteressadas. Ela continua muito deprimida, não é? Imagino que seja uma tristeza insuperável.

Mesmo que não tivesse um ótimo relacionamento com a Sra. Wegener, Saphir nem gostava de pensar na possibilidade de perder a mãe. O pai, então, seria uma dor incomparável.

Saphir e Summer tinham sido boas amigas na infância, mas se afastaram um pouco durante a conturbada adolescência da filha dos Fields. Logo depois, a loira foi aprovada em Yale e aquela distância abriu um pequeno abismo entre as antigas amigas. Saphir até tentou se reaproximar depois da tragédia com os Fields, mas nunca mais encontrara abertura para reconstruir a velha amizade da infância.

- Vou mandar uma mensagem para ela também, avisar que estou na cidade e que seria legal se a gente se encontrasse... – a mão de Saphir deslizou pela bancada até acariciar a pele enrugada dos dedos de Lucilla – Mas só farei isso depois da segunda fatia do bolo. Está perfeito, vovó Lucy, como sempre!
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Out 24, 2016 2:38 am

Quando Summer ainda estava presa naquela vida entediante e sem perspectiva dias melhores, a chegada de Petrus Montgomery na cidade havia sido recebida como um pouco de emoção para a rotina repetitiva e sem ação.

O rapaz era atraente, parecia ser mais experiente e já havia visto mais do mundo do que a pequena Bar Harbor. Qualquer garota se derreteria diante dele e Summer se sentia lisonjeada por ter se destacado aos olhos azuis de Montgomery.

A noite das lanternas havia transformado a visão do príncipe encantado. De certa forma, Petrus transformou a sua vida pacata e lhe fez enxergar um mundo completamente diferente. Mas era conflitante deseja-lo, cada vez que se lembrava de como ele havia sugado o seu sangue no fim da noite.

A narrativa sobre como Petrus e Alaric haviam sidos transformados foi a primeira coisa capaz de fazer Summer voltar a enxerga-lo como um homem. Seu coração se comprimiu diante da tristeza dele e os olhos azuis acompanharam a verdade sendo refletida no rosto bonito, sabendo que estava diante de um rapaz, e não mais do monstro que tentava se convencer que existia.

Não foi mais com a raiva ou com a tristeza que Summer encarou Petrus naquela noite. O rosto da menina demonstrava como ela se sentia ligada a Montgomery. Os dois eram apenas vítimas de tragédias e nunca pareceram tão próximos como naquele momento.

- Eu nunca vou estar pronta. – Summer confessou, sabendo que reviveria seus pesadelos no instante em que pisasse na antiga casa. – É exatamente por isso que precisamos entrar lá. Você precisa de respostas e eu preciso evoluir. Nós vamos fazer isso.

No instante em que destrancou a porta, a mão de Summer deslizou tateando a parede até alcançar o interruptor. Os abajures laterais foram acesos, revelando as sombras dos móveis, todos cobertos por lençóis brancos.

Não havia mais nenhum vestígio de sangue, nenhum rastro de que ali havia acontecido um cruel assassinato. Mas a mente de Summer recriava a cena que ela havia visto ali pela última vez. Petrus provavelmente era capaz de ouvir as batidas aceleradas do seu coração, exatamente como reagia quando mergulhava nos pesadelos que a despertava durante as madrugadas.

Os primeiros passos foram os mais difíceis, mas logo Summer se obrigou a focar na missão de vasculhar a casa com outros olhos. Quando eles terminaram de percorrer todo o primeiro andar, o sol já havia desaparecido dos céus e a noite cobria a pequena cidade de Bar Harbor.

Não havia nenhum sinal de que poderosos bruxos haviam vivido ali. Apenas o que havia sobrado da família desfeita. Na companhia de Petrus, Summer subiu as escadas até o andar dos quartos. Como sabia que não encontraria nada no cômodo que havia sido seu, ela seguiu direto até o quarto principal.

Ali, os móveis também estavam cobertos e as luzes dos abajures não eram suficientes para iluminar todo o cômodo, sem a ajuda da luz natural do dia. Summer revirou as gavetas, procurou sob a cama e até ergueu o antigo colchão dos pais atrás de pistas, mas não havia nada de anormal.

O armário que já havia sido preenchido com os vestidos da Sra. Fields estava vazio e Summer teria seguido em frente se uma pequena fina adesiva colada no fundo da madeira não tivesse chamado sua atenção.

Ela não havia reparado naquela pequena imperfeição quando os armários estavam cheios, mas agora era mais fácil notar a pequena diferença. Com um instinto que ela ignorara a vida inteira, Summer entrou no pequeno armário e apalpou a madeira, dando soquinhos com os nós dos dedos. O barulho oco lhe deu a certeza de que havia achado alguma coisa.

- Petrus! – Summer chamou, sem deixar de deslizar os dedos pela madeira. – Me ajude aqui!

Antes que o rapaz surgisse por trás dos seus ombros, Summer encontrou um fino trilho grudado ao chão. Com um pouco mais de força, o fundo do guarda-roupa deslizou como uma porta de correr, abrindo uma passagem que ela jamais havia imaginado existir.

O queixo de Summer caiu quando ela deu mais um passo pelo guarda-roupa, entrando em um cômodo tão pequeno quanto o corredor. O lugar estava escuro, mas a luz que vinha da luminária do quarto era suficiente para enxergar a sombra de algumas prateleiras, todas abarrotadas por caixas, objetos e livros.

No fundo do estreito corredor havia uma mesinha, suficiente para apenas uma pessoa, mas parecia ser usada como uma estação de trabalho.

Com o coração acelerado pela adrenalina, Summer buscou pelo rostro de Petrus, perplexa com o sucesso daquela descoberta.

- Nós achamos.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Ter Out 25, 2016 12:12 am

Não havia mais nenhum vestígio dos assassinatos que aconteceram no interior da casa dos Fields. O chão estava coberto por uma camada de poeira, mas não havia nem mesmo uma mancha de sangue no piso ou nas paredes repintadas. Um possível comprador que não conhecesse a trágica história da família que morara ali poderia ser facilmente enganado, mas este não era o caso de Montgomery.

Os instintos aflorados de Petrus não permitiam que o cheiro passasse despercebido. O odor estava misturado a um forte resquício de tinta e água sanitária, mas um vampiro experiente não teria dúvidas de que a casa não havia perdido por inteiro os vestígios do sangue dos Fields.

As batidas aceleradas do coração de Summer mostravam que a menina estava enfrentando um poderoso demônio. Por saber o quanto tudo aquilo era difícil para a jovem bruxa, Petrus a poupou daquele detalhe desnecessário e agiu como se não houvesse nada errado com a casa.

Como se inconscientemente os dois quisessem abreviar o tempo de permanência dentro do imóvel, Montgomery e Summer seguiram em direções opostas enquanto começavam a tarefa de vasculhar os cômodos. Tudo aquilo acabaria mais rápido se os dois se dividissem e se concentrassem na missão de encontrar qualquer pista sobre o “trabalho” secreto dos pais da moça.

A casa já estava escura quando Petrus deixou a cozinha para trás e seguiu caminho pelas escadas que o levariam até o segundo andar. Era difícil esconder a frustração depois de ter examinado a sala, o escritório do Sr. Fields e a cozinha sem encontrar nem mesmo um pequeno detalhe que apontasse na direção das bruxarias executadas pelos donos da casa.

Ao contrário de Summer, Petrus não demonstrou desinteresse pelo quarto que um dia pertencera à garota. Enquanto a filha dos Fields empurrava a porta do quarto principal, Montgomery ficou parado no corredor, bem em frente ao cômodo que Summer ignorara. O vampiro sabia que eram mínimas as chances de encontrar qualquer pista no quarto da menina que desconhecia o mundo sobrenatural na época em que vivia ali, mas era enorme a tentação de guardar na memória alguns pequenos detalhes do cômodo.

Os lábios dele se curvaram num sorrisinho enquanto Petrus analisava o típico contraste existente na vida de um adolescente. Era óbvio que a garota que dormia ali estava em uma fase de transição, com bichinhos de pelúcia dividindo espaço com pôsteres de bandas e maquiagem.

O vampiro teria perdido mais tempo tentando imaginar como fora a vida da pequena Summer se não fosse a voz dela chamando pelo nome dele. A urgência na entonação dela fez com que Petrus a alcançasse em uma velocidade anormal para um humano, bem a tempo de ver o instante em que o cômodo secreto era revelado.

Os olhos de Montgomery estavam arregalados quando ele acessou aquela passagem secreta por dentro do armário da Sra. Fields. Logo o cheiro de ervas e de livros velhos atingiu seus sentidos, dando-lhe a certeza de que estava na estação de trabalho de uma bruxa poderosa.

O local estava escuro, mas ainda assim era possível enxergar livros empilhados nas prateleiras, pequenos caldeirões na bancada, estoque de grãos, ervas e raízes cuidadosamente separados e etiquetados em pequenos recipientes. Uma ansiedade imensa invadiu o peito de Petrus como uma onda incontrolável de um maremoto. Ele nunca havia chegado tão perto de uma possível cura para a sua maldição.

- Vamos aproveitar que já anoiteceu e levar tudo para o carro. As pessoas vão achar estranho se você começar a voltar à casa com frequência, temos que tirar isso daqui.

Era óbvio que, em uma cidade tão pequena quanto Bar Harbor, logo alguém notaria que Summer Fields estava passando tempo demais na casa onde os pais foram mortos. Havia muito material para ser analisado naquele cômodo secreto, mas Petrus tinha razão em dizer que o mais sensato era tirar aquelas coisas dali. A casa estava à venda e seria um desastre se, por um descuido, os vendedores da imobiliária descobrissem o grande segredo dos Fields.

- Vamos levar tudo para a minha casa.

A oferta soou desinteressada. Por mais que Petrus estivesse ansioso para encontrar respostas, nenhuma descoberta que o vampiro fizesse sozinho teria valor sem os poderes de uma bruxa. Ele não esconderia nada dela simplesmente porque precisava de Summer para que aquele sonho pudesse se concretizar. Sua oferta tinha o único objetivo de manter Letitia afastada daquela descoberta. A loira ainda não sabia que a prima estava mergulhando na bruxaria, mas certamente chegaria àquela óbvia conclusão se Summer chegasse em casa carregada de artefatos mágicos.

- Poderemos trabalhar com mais segurança e privacidade se levarmos tudo para a minha casa. O sótão está vazio, você pode remontar este cômodo lá. Será um ótimo lugar para continuarmos o seu treinamento, Sum. – os olhos azuis novamente deslizaram pelas prateleiras – Agora temos muito material de estudo.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Ter Out 25, 2016 1:55 am

No instante em que pisou no interior de casa, Alaric puxou o celular e discou o número do irmão. O bipe soou algumas vezes antes que a voz robótica da secretária eletrônica o atendesse.

Aquele era um assunto delicado demais para ser deixado em um aparelho, mas não foi por se incomodar pela modernidade que o Montgomery mais velho não foi adiante para compartilhar a novidade com Petrus. Ele ainda estava acompanhando o carro de Saphir se afastar quando um velho sentimento, que ele jurava já ter superado, voltou para assombrá-lo.

Sapir não era Annabeth. Ele já havia se convencido daquele detalhe. Mas a filha do prefeito havia ressuscitado sentimentos e lembranças já enterrados há décadas. Alaric estava tão acostumado a sua vida de vampiro, de quem poderia ter o que bem entendesse, que ele se sentia um tolo pela insegurança irracional que começou a assolá-lo.

O caminho de Saphir e Petrus sequer havia se cruzado, mas Alaric já se sentia enciumado com a ideia de que a história do passado fosse se repetir. O relacionamento dos dois irmãos não era sempre um mar de rosas, e décadas se passavam para comprovar que eles brigavam e faziam as pazes como qualquer familiar. Mas o elemento “Annabeth” era um risco grande demais para a amizade construída entre os dois.

- Pete. – Alaric falou contra o aparelho, depois de perceber que havia ficado mudo por longos segundos durante a gravação. – Precisamos conversar. Temos surpresas na cidade.

Sem maiores explicações, Alaric tocou a tela do iPhone para encerrar a ligação, se sentindo inquieto e sem saber quais mais novidades Bar Harbor estava preparando para ele.

***

O outono trazia para Bar Harbor noites mais frescas e com bastante vento. As grandes árvores que rodeavam a casa dos Montgomery se curvavam e chacoalhavam as folhas umas nas outras, provocando pequenas ondulações no lago.

Para um humano, poderia ser incômodo se sentar no início de uma madrugada como aquela, às margens do lago, sem precisar de pelo menos um casaco. Mas Alaric Montgomery ainda vestia a mesma roupa leve que usara no breve encontro com Saphir, naquele fim de tarde. A pele naturalmente fria do vampiro não se incomodava com a temperatura mais baixa, mas era nítido nos olhos cinzentos que alguma coisa estava tirando o sono do vampiro.

A audição aguçada permitia que Alaric escutasse a movimentação interna da casa, mas era exatamente a presença de Summer Fields que estava lhe deixando irritado. Ele ainda não havia tido tempo de conversar com Petrus sobre a grande semelhança de uma humana aleatória na cidade com a velha conhecida dos dois.

De certa forma, manter aquele segredo era a sua maneira de continuar tendo Saphir apenas para si. Mas Bar Harbor era uma cidade pequena demais e seria inevitável que Petrus e a filha do prefeito acabassem se esbarrando.

Alaric estava sentado em uma das espreguiçadeiras, encarando a escuridão do lago. Sua perna balançava inquieta e ele lançava olhares insistentes para o interior da casa, mas nada parecia surtir efeito para que o irmão finalmente lhe desse atenção. Embora não acreditasse muito no destino, talvez fosse aquela maneira que a vida tentava lhe dizer para manter o segredo, ao menos por aquela noite.

As pálpebras de Alaric cobriram suas íris claras e ele reviveu o encontro com Wegener naquela tarde. A forma como ela sorria e as palavras ecoaram mais uma vez na sua mente. Quando pensava nos detalhes, era quase ridículo apontar as semelhanças com Annabeth, mas Alaric começava a temer que sua mente estivesse lhe traindo.

O Montgomery mais velho era movido pela impulsividade, que naquela noite havia chegado em um novo patamar. Não havia nenhum motivo racional, apenas o intenso desejo de ver com seus próprios olhos que Saphir era mesmo real, e não produto de sua mente enlouquecida depois de tantas décadas.

Desta vez, em posse das chaves do carro, Alaric deixou a casa em meio a escuridão da madrugada e seguiu em direção ao centro da cidade. O vento forte e as horas que já haviam se passado desde que Saphir passara por aquele mesmo caminho não contribuía para que ele a seguisse pelo rastro, mas o sobrenome era tudo que ele precisava para saber que deveria se dirigir até a casa do prefeito.

Seus sentidos confirmaram que ele estava no lugar certo quando o carro foi estacionado em uma sombra da rua tranquila. O perfume que ele havia conhecido naquele dia estava ainda mais intenso, e era mais uma das grandes diferenças de Annabeth. O cheiro que ele havia conhecido em Saphir era mais delicado e suave, sem os exagerados perfumes que Beth precisava usar em sua época.

Mais uma vez, Alaric se viu sentado em meio a escuridão, se perguntando o que estava fazendo ali. Ele passou quase quinze minutos inteiros dentro do carro, escutando o barulho do vento e dos insetos. Algumas vozes soavam distantes, indicando que algum morador ainda estava acordado, mas a casa que realmente lhe interessava estava mergulhada no mais profundo silêncio.

Nunca, em todas aquelas décadas, Alaric havia agido de forma tão irracional. Ele costumava se levar pelos impulsos quando queria alguma vítima, mas o que destoava do seu padrão é que, embora desejasse desesperadamente rever Saphir, não era o sangue dela que aguçava os seus sentidos.

Nenhum dos vizinhos foi capaz de notar ou ouvir quando Montgomery deixou o carro e surgiu, instantes depois, na janela de onde vinha o perfume de Saphir. A cidade tranquila de Bar Harbor e o vento fresco daquela noite haviam incentivado a menina a deixar a janela aberta, permitindo que Alaric fosse ainda mais adiante naquela loucura.

Mesmo na escuridão do quarto, a fraca luz do luar permitia que ele observasse alguns detalhes no cômodo. Mas era o pequeno embrulho no centro da cama que atraía toda a sua atenção.

Com a habilidade que apenas um vampiro seria capaz, Alaric se aproximou da cama até sentar na beirada do colchão, fazendo a espuma afundar alguns centímetros. Ele não tinha mais o coração batendo para reagir com aquela visão, mas era impressionante como todos os demais sentidos sabiam responder.

Os fios loiros estavam espalhados sobre o travesseiro e Saphir tinha uma expressão tranquila no rosto, fazendo com que Alaric sentisse curiosidade sobre o que ela estava sonhando. Ele ergueu uma das mãos e atingiu todos os seus limites quando tocou o rosto adormecido da jovem.

Mais uma vez ele foi capaz de sentir a temperatura agradável e a pele macia ao seu toque, e sem perceber, um discreto sorriso surgiu em seus lábios.

- Você é completamente diferente dela. De onde você surgiu? É uma péssima brincadeira do destino.

Os olhos cinzentos se perdiam em cada traço de Saphir. Alaric se inclinou para frente, apoiando uma das mãos na lateral o corpo da menina e fazendo o colchão afundar mais um pouco. Ele se manteve alguns centímetros acima dela, completamente perdido em uma atração completamente inédita.

Quando a menina começou a se remexer na cama e as pálpebras tremeram para indicar que ela estava despertando, Alaric a tocou mais uma vez pelo queixo e sussurrou, utilizando a hipnose.

- Não precisa ter medo. Continue calma. Eu não vou machucar você.

Ele mordeu o lábio inferior ao perceber que aquelas palavras não eram tão verdadeiras quanto gostaria que fossem.

- Você não deveria ter cruzado o meu caminho, mocinha... Não faz mesmo ideia do tipo de monstro que eu sou, não é?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Ter Out 25, 2016 2:21 am

Mesmo se Summer enumerasse os motivos para não confiar em Petrus, ela não tinha muita opção com o que fazer com todo aquele material descoberto. Ele tinha razão em dizer que as pessoas suspeitariam se ela começasse a frequentar o cenário do seu pior pesadelo, além de que seria impossível ficar tranquila imaginando que qualquer um poderia ter a mesma sorte e descobrir o cômodo secreto da Sra. Fields.

Levar para casa definitivamente não era uma opção. Ela ainda não estava pronta para explicar para Letitia que estava trabalhando em conjunto com um vampiro depois de descobrir a verdadeira essência de sua família. A prima definitivamente surtaria e Summer não aceitaria ter qualquer obstáculo no seu caminho para aquele aprendizado.

Por isso, sem pensar duas vezes, Summer concordou em carregar todo o vasto material da mãe para o carro de Petrus, tendo como destino final a casa dos Montgomery. E embora já fosse tarde demais para prolongar aquela noite com alguma aula, Fields se sentia ansiosa demais para simplesmente dar as costas ao rapaz e mergulhar a cabeça no travesseiro. Seria impossível dormir.

Após um demorado e barulhento telefonema com Letitia, Summer explicou que chegaria mais tarde em casa naquele dia. A prima ainda não aceitava a ideia de ter Petrus como uma sombra de Summer, tentou argumentar por infinitas formas, mas no fim Fields ganhou a discussão alegando de que não era mais um bebê que precisava dos cuidados. Era maior de idade e por mais que amasse e respeitasse a prima, não iria se submeter as ordens como uma criancinha.

Como Letitia não podia usar os argumentos mais lógicos do tipo “mas ele é um vampiro”, sem expor o próprio segredo, Summer ganhou mais algumas horas para mergulhar um pouco na descoberta daquela noite.

Seria impossível organizar todos os livros e artefatos em uma única noite, de modo que mesmo com as caixas ainda fechadas em um canto do sótão, ela não hesitou em se acomodar em uma poltrona empoeirada perto da janelinha que tinha vista para o lago, com um dos velhos diários que estavam misturados aos livros.

- É a letra dela...

Sum sussurrou, sem desviar o olhar das páginas envelhecidas. Os dedos deslizaram pelas linhas, reconhecendo cada uma das curvas dos “S” e dos “M”, cada traçado dos “T”. As páginas basicamente eram tentativas de feitiços ou poções, em alguma ou outra data, Malía Fields descrevia os artefatos que passava a ter posse.

A riqueza dos detalhes fazia Summer perder o oxigênio em alguns momentos, desesperada para absorver todos o conhecimento que a mãe tinha. O cansaço já começava a pesar, mas nem isso desestimulava a menina em continuar a leitura.

- Eu ainda não encontrei nada sobre a cura, mas é impressionante as coisas que ela era capaz de fazer.

Desde que descobrira a verdade, Summer vinha se perguntando o que havia levado os pais a optarem por não lhe contar a verdade. Talvez fosse mesmo para protege-la, como Petrus havia sugerido. Mas vendo como os pais eram poderosos só reforçava a ideia de que eles simplesmente não achavam que ela seria capaz de ser metade do que eles eram.

- Eu não sou imortal como você, Petrus. Se você quer mesmo que eu chegue até o resultado esperado algum dia, vamos precisar aumentar a frequência das aulas. Eu já perdi a minha vida toda, tenho muito tempo perdido para recuperar.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Ter Out 25, 2016 2:32 am

Depois de tanto tempo fora de casa, Saphir Wegener chegava a estranhar a tranquilidade da pequena cidade sempre que voltava para visitar a família. O cair da noite trazia consigo um profundo silêncio, quebrado apenas pelo uivo suave do vento e pelas cigarras e grilos que cantavam na escuridão dos jardins. Sem motores de carro, sem buzinas, sem festas barulhentas agitando as casas vizinhas... Em Bar Harbor, Saphir se entregava a um sono profundo e reparador que raramente alcançava em Conneticut.

Naquela noite em especial, o sono da loira era ainda mais pesado que o normal graças à exaustão gerada pela viagem. Depois de um agradável jantar na companhia do pai, a garota havia perdido mais alguns minutos conversando com o Sr. Wegener, mas não demorou a pedir licença, já dominada pelo sono.

O clima fresco do outono não era desconfortável, mas a janela aberta obrigava Saphir a se encolher debaixo de um edredom. Somente a parte superior de seu tronco estava visível, evidenciando as duas alças finas da camisola de seda branca e o início do decote. Os óculos estavam cuidadosamente pousados sobre o criado mudo e a ausência deles só reforçava o quanto o rosto dela era idêntico ao de Annabeth Kendrick.

O sono profundo que a embalava e a discrição do vampiro fizeram com que a garota continuasse alheia ao fato de que não estava mais sozinha no quarto, mesmo depois que o colchão se afundou alguns centímetros com o peso de Alaric. Toda a casa dos Wegener estava silenciosa e mergulhada na escuridão, mas a luz de um poste alinhado à janela de Saphir permitia que o “invasor” notasse alguns detalhes do cômodo.

Era um quarto amplo e confortável. A cama fora feita para uma moça solteira, mas não era tão estreita quanto o esperado. Um enorme guarda-roupa ocupava praticamente toda a parede oposta à janela. O chão era coberto por um carpete bege e as paredes brancas contribuíam para o ar sóbrio do cômodo. Uma TV de plasma fora anexada à parede em frente à cama e havia uma mesinha de estudos num dos cantos. Os únicos detalhes que remetiam à infância da dona do quarto era uma gatinha de pelúcia cor de rosa largada sobre a poltrona e uma foto de uma menina sorridente num porta-retratos sobre a mesa de estudo.

Annabeth Kendrick já era uma vampira experiente quando passou pela vida dos irmãos Montgomery, mas naquela noite Alaric teria uma amostra bem palpável da aparência que a antiga amante tivera na infância. A garotinha da foto tinha um sorriso amplo e os olhos azuis – responsáveis pela escolha do seu nome – brilhavam vivamente. Os cabelos claros caíam em ondas perfeitas pelos ombros da pequena Saphir e sua bochecha estava um pouco amassada pelo rosto do homem que a abraçava na foto.

A caçula não se parecia em nada com o prefeito. O homem de cabelos negros tinha os olhos castanhos, o nariz afilado e a barriga roliça. Nem mesmo um dos traços de Saphir tinha vindo do pai, mas a princípio não parecia ser um detalhe tão estranho, visto que a menina poderia ter herdado a aparência da Sra. Wegener.

Mesmo tão imersa no sono, Saphir se remexeu na cama quando a voz grave do vampiro ecoou pelo quarto. Independente do encontro amigável que tivera com Montgomery naquela tarde, é óbvio que a loira despertaria aos berros no instante em que abrisse os olhos e visse um estranho sentado em sua cama. Por isso, ficou evidente que ela já havia se rendido à hipnose no momento em que os olhos azuis se abriram e encararam a figura a sua frente com tranquilidade.

Como havia acontecido naquela tarde, a garota não era mais dona da própria consciência quando apoiou as mãos no colchão e se colocou sentada na cama. O edredom escorregou até a cintura dela, exibindo mais uma faixa da camisola branca e agora deixando à mostra todo o decote da peça leve.

Os olhos azuis não piscavam e estavam fixos no rosto de Alaric. A mão de Saphir parecia ter vida própria quando ela ergueu o braço e acariciou o vampiro, os dedos pequenos deslizando suavemente da bochecha até o pescoço dele.

Como qualquer humana, Saphir estava totalmente entregue à influência exercida pelo vampiro quando inclinou-se na direção dele. Seus lábios se curvaram num breve sorriso antes de entrar em contato com os lábios gelados de Montgomery, iniciando um beijo que tinha tudo para ser idêntico às antigas carícias de Kendrick, mas no fim das contas era bizarramente diferente.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Qua Out 26, 2016 12:49 am

Como de costume, as ruas de Bar Harbor estavam calmas quando Petrus alcançou a calçada que o levaria até a lanchonete. As poucas pessoas que cruzaram o caminho dele lhe ofertaram sorrisos gentis, numa clara manifestação de que os Montgomery já começavam a ser aceitos como parte daquela pequena população. É claro que nenhuma daquelas pessoas imaginava que Bar Harbor estava abrindo suas portas para dois monstros sanguinários.

Quem poderia imaginar que o jovem Petrus Montgomery representava algum perigo? Além dos traços bonitos, do sorriso educado e daquela postura anormalmente formal para um rapaz aparentemente tão jovem, o caçula dos Montgomery tinha um comportamento exemplar na cidadezinha. Sempre que aparecia em público, Petrus agia de maneira gentil, não se envolvia em farras ou confusões. Alaric ainda chamava a atenção com seu jeito galanteador e sua língua mais afiada, mas nem mesmo esta ressalva poderia ser feita sobre o irmão mais novo do rapaz.

Naquela tarde, Petrus parecia ainda mais animado que o normal para ajudar Summer com seu treinamento. Agora os dois tinham dezenas de livros e infinitas anotações que serviriam para nortear os avanços da magia da garota. O sótão do casarão onde os Montgomery viviam ainda estava bastante bagunçado, mas era uma questão de tempo até que aquele espaço se transformasse em uma perfeita estação de trabalho para uma bruxa.

- Encontrei um livro sobre ervas no fundo de uma das caixas. – a voz de Petrus soou contida para não chamar a atenção de mais ninguém, mas o brilho nos olhos denunciava o entusiasmo do vampiro – É fantástico. Podemos separar um tempo para tentarmos preparar uma das poções. Você vai pirar se não fizer uma pausa na telecinese.

Nos últimos dias, Summer vinha fazendo progressos notáveis na magia de telecinese, mas Montgomery sabia que aquilo exigia muito da mente da bruxa e a deixava exausta depois de poucas horas de treinamento. A garota estava ansiosa demais e certamente não concordaria em reduzir o ritmo das atividades. Como “tutor”, a ideia do vampiro era sugerir que Fields intercalasse as magias mais desgastantes com treinamentos mais leves e o livro de poções da Sra. Fields surgira como uma solução para aquele dilema.

Como já vinha se tornando uma rotina, Petrus e Summer saíram juntos da lanchonete e seguiram lado a lado pela calçada. O carro de Montgomery estava parado na esquina e foi na direção dele que os jovens seguiram. Obviamente aquela proximidade já tinha se tornado assunto na pequena Bar Harbor. Todos já comentavam que a órfã dos Fields passava muito tempo na companhia do forasteiro, mas a fofoca não tinha um tom de maldade. A maioria das pessoas parecia satisfeita em pensar que, depois de tanto sofrimento, Summer começava a trilhar um caminho menos tortuoso. Assim como qualquer garota de sua idade, ela tinha o direito de viver uma paixão.

- Eu passei no mercado. – Petrus explicou quando os dois chegaram diante do carro e Summer viu as sacolas espalhadas no banco traseiro – Comprei frutas e uns congelados, mas também tem pão, queijo e presunto caso você prefira fazer um sanduíche. Também comprei suco, refrigerante e chocolate.

O sorriso de Montgomery se tornou mais constrangido quando ele confessou, desta vez em entonação mais baixa.

- Eu demorei a me tocar que você deve morrer de fome na minha casa, então vou deixar algumas coisas na cozinha a partir de agora. Desculpe por isso, depois de tanto tempo eu simplesmente me esqueço desses “detalhes”.

Havia uma nítida amargura oculta naquelas palavras. Petrus tinha a certeza de que havia se tornado um monstro sempre que se esquecia de coisas tão básicas sobre os humanos. A maior parte de sua existência ocorrera na forma de um vampiro, mas ainda assim Montgomery se sentia culpado por ter perdido as memórias do rapaz que fora brutalmente atacado há mais de setenta anos.

A mão pálida do vampiro tocou a maçaneta do carro e ele estava prestes a repetir o gesto de abrir a porta do carona para Fields quando uma voz suave soou, vinda da esquina.

- Summer!

O arrepio que eriçou os pelos da nuca de Petrus foi imediato. Aquela voz o arrastou brutalmente de volta para um passado que o rapaz imaginou que jamais seria resgatado, mas Montgomery se obrigou a ser racional. Quando se virou na direção da pessoa que chamara por Summer, Petrus estava certo de que veria uma garota qualquer com uma voz bizarramente parecida com a de Annabeth Kendrick. A última coisa que o rapaz esperava era que a voz não fosse a única semelhança entre elas.

(...)

- Mas e o Ricky?

A voz de Petrus Montgomery soou insegura enquanto a vampira o cercava dentro do celeiro, como a grande predadora que era. O rosto corado do caçula mostrava que seu sangue ainda era quente e que seu coração ainda batia naquela época. A sua frente, estava uma moça loira com um esvoaçante vestido preto e um espartilho que realçava a sua cintura fina e seus quadris mais largos.

- Ele não está aqui. – Annabeth olhou para os lados de forma teatral – Está?

No começo, Petrus não aprovara aquele relacionamento conturbado de Alaric e Annabeth. Para o caçula, o irmão estava cometendo um enorme erro ao se aproximar de uma criatura como Kendrick. Mas bastou que a vampira cruzasse o seu caminho para que Petrus compreendesse as motivações do irmão mais velho.

Ela era estupidamente bonita e sabia muito bem como colocar um homem aos seus pés. Além da hipnose, Annabeth abusava de suas curvas, das palavras sedutoras e do encantamento daqueles jovens inexperientes.

- Seu irmão não é o meu dono. Aliás, ninguém é... – as mãos delicadas de Kendrick puxaram Petrus pela barra das calças – Eu sou dona das minhas vontades. E o que eu mais quero agora é você, querido.

Petrus havia resistido aos olhares, toques e insinuações por muito tempo, mas naquela noite no celeiro Annabeth venceu a racionalidade do rapaz. Alaric foi deixado de lado e Petrus sequer se lembrava da existência de uma noiva quando a vampira o jogou sobre um monte de feno e lhe deu uma amostra dos motivos pelos quais Ricky era louco por ela.

Por muito tempo, Annabeth Kendrick foi o principal motivo das divergências entre os dois irmãos Montgomery. Quando a loira desapareceu sem deixar rastros, Alaric e Petrus ainda precisaram de muitos anos para reconstruir a amizade e a confiança abalada. Era uma ironia do destino que o fantasma de Annabeth retornasse logo agora que os dois irmãos estavam tão bem.

(...)


- Oi! – a cópia perfeita de Annabeth Kendrick parou diante de Summer com um sorriso doce que não combinava com a imagem que Petrus guardava da antiga amante – Eu cheguei em Bar Harbor ontem. Te mandei uma mensagem, você viu?

O coração da loira batia, o som rítmico de cada batimento atingia os ouvidos aguçados de Petrus, deixando-o ainda mais confuso. Montgomery só percebeu que estava encarando a recém chegada com uma insistência incômoda quando Saphir abriu um sorriso sem graça para ele.

- Oi. Eu não conheço você. É novo na cidade?

Normalmente, Petrus teria se esforçado para manter um comportamento discreto e “normal”. Mas o vampiro não resistiu à tentação de puxar a mão de Saphir. Com aquele cumprimento meio forçado, Montgomery queria ter certeza de que realmente estava diante de uma humana. Os dedos quentes eram opostos à pele fria de Annabeth, mas ainda assim era muito difícil acreditar naquela coincidência.

- Sim. Petrus Montgomery, muito prazer.

- Saphir Wegener, Sum e eu somos amigas de infância.

Quando mencionou a amiga, Saphir parecia querer lembrar o rapaz de que ele estava acompanhando outra garota e que, portanto, era absurdamente inadequado encará-la com tanto interesse. A loira queria se reaproximar de Summer, mas Petrus estragaria tudo se continuasse agindo como um babaca e fizesse Fields sentir ciúmes dela.

- Espere... Montgomery? – Saphir abriu um sorriso mais animado – Você deve ser o irmão do Alaric.

A garota não entendeu o que havia dito de errado quando viu os olhos azuis escuros se estreitarem ameaçadoramente. Petrus ainda não entendia o que estava havendo ali, mas acabara de ter a certeza de que Ricky já havia conhecido aquela “aberração” e escondera a verdade dele. Era como voltar ao passado em que os dois eram inimigos que duelavam pela mesma mulher.

- Você conheceu o Ricky, então...

- Sim. Ele me ajudou ontem, quando o meu carro estragou na estrada.

O comportamento estranho de Petrus acendeu um alerta na cabeça de Saphir e a loira decidiu que era mais sensato se afastar antes que Montgomery fizesse qualquer bobagem que magoaria Summer. Com um sorriso mais mecânico, a loira se virou para a amiga antes de completar.

- Estou com um pouco de pressa agora, Sum. Mas vou te ligar mais tarde pra gente marcar alguma coisa, ok? Sinto a sua falta.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Qua Out 26, 2016 2:01 am

Quando se deixou levar pelo impulso de invadir o quarto de Saphir naquela noite, Alaric só queria saciar a intensa vontade de rever o rosto que ele já tinha gravado em sua memória, talvez se certificar de que estava apenas enlouquecendo e que a menina que ele havia conhecido naquela tarde não era tão semelhante a Annabeth quanto ele havia acreditado.

Mas Wegener conseguia ser a cópia e ao mesmo tempo o oposto de Kendrick. Mesmo sob o efeito da hipnose que a impediria de surtar por ter um completo estranho em seu quarto, ainda era possível identificar a doçura em seu olhar. A hipnose tinha o poder apenas de fazer com que o humano obedecesse ao vampiro, ao ponto de não temer mesmo quando as presas estavam fincadas em alguma veia a procura de sangue. Mas em todos aqueles anos, era a primeira vez que Alaric via alguém agir espontaneamente, sem alguma ordem.

O beijo fez o mundo de Montgomery girar. Ele não tinha mais o coração para saltar contra o peito, mas a sensação era muito semelhante a de quando estava vivo. Annabeth era capaz de mexer com cada um dos sentidos do jovem, mas aquele beijo era completamente diferente de tudo que Alaric já havia experimentado. Se ainda restasse qualquer dúvida de que Saphir e Annabeth não eram as mesmas pessoas, a hipótese foi completamente anulada ao sentir o sabor dos lábios suaves.

Se Alaric tivesse metade da honra de um bom homem, ele teria se esquivado daquela carícia, sabendo que estava se aproveitando de um momento completamente vulnerável da humana. Mas ele apenas se convenceu de que não havia forçado Saphir a iniciar aquele beijo e simplesmente se entregou ao desejo que tentava negar até então.

Os braços rodearam a cintura de Saphir e ele a puxou para mais perto do seu corpo. A coberta ainda criava uma fina barreira entre eles, mas aquilo só contribuía para que Alaric sentisse ainda mais o calor que vinha da menina.

Seus lábios se movimentaram lentamente, se deliciando com a sensação criada pelo beijo. O sabor era completamente diferente do de Annabeth, mas a velha paixão havia sido varrida para longe dos seus pensamentos, impossibilitando que ele desse continuidade às comparações.

Alaric ergueu uma das mãos até tocar o ombro quase nu de Saphir. A pele dela era incrivelmente macia e perfeita ao toque, e a tentação foi tão grande que mais uma vez ele não se limitou em deixar os dedos escorregarem pela alça fina, deixando o ombro inteiramente livre.

A pele branca possuía pequenas pintinhas marrons e Alaric não resistiu em desviar os seus lábios até depositar um beijo ali. O perfume dos cabelos e ainda do sabonete indicando o banho ainda fresco deixaram sua mente girando. Os lábios foram pressionados contra o ombro magro e correram com um trilho de beijos até o pescoço de Saphir.

A jugular parecia pulsar, ainda mais quente e tentadora, mas o sangue dela era a última coisa que Montgomery desejava naquele momento. Ele afastou o rosto lentamente até conseguir encarar os olhos azuis outra vez. Montgomery não precisava do coração batendo em seu peito para demonstrar em seu olhar como ele se sentia vivo naquele momento.

Um brilho completamente fora do comum cobria as íris cinzentas e os lábios estavam curvados em um pequeno sorriso orgulhoso. Com mais calma, seus dedos deslizaram pelo rosto de Saphir, livrando sua face de alguns fios loiros e teimosos que haviam se atrapalhado durante o beijo.

O gesto poderia ser uma bobeira para qualquer casal depois de trocar um beijo, mas Alaric nunca pareceu tão carinhoso quanto naquele breve momento.

- Você foi a melhor surpresa que eu já tive nas últimas sete décadas, loirinha.

Ainda com os dedos acariciando o rosto de Wegener, Alaric se inclinou para frente e depositou um breve beijo na testa dela.

- É melhor voltar a dormir agora. Amanhã você não vai se lembrar de nada disso.

Com um pensamento travesso, Montgomery mordeu o lábio inferior e sacudiu a cabeça, se corrigindo imediatamente.

- Na verdade, você vai pensar que isso foi só um sonho. Está bem assim?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qua Out 26, 2016 3:03 am

Saphir Wegener era uma das provas de que um dia Summer Fields havia tido uma adolescência normal, antes da tragédia que transformara por completo o seu mundo. A loira havia sido uma grande amiga na época de colégio e as duas construíram juntas muitas lembranças felizes.

Era comum que a caçula dos Wegener e a filha única dos Fields passassem as tardes juntas, em meio as tarefas escolares e gargalhadas por assuntos aleatórios. Os rapazes também faziam parte dos tópicos que as meninas tanto gostavam de discutir, mas era sempre assuntos relacionados ao futuro que elas perdiam mais tempo.

Summer planejava se inscrever para as mesmas universidades que Wegener e as duas prometiam que, mesmo se acabassem em lugares completamente diferentes, não deixariam que a distância abalasse a amizade. Quando Saphir seguiu seu caminho para Yale e Summer continuou na pequena Bar Harbor, a filha do prefeito ainda tentou manter a sua parte da promessa, deixando para Summer a responsabilidade sobre o distanciamento que inevitavelmente aconteceu.

Por mais que sentisse saudade da velha amiga, Summer não conseguia olhar para Saphir sem pensar na vida que ela havia perdido. Wegener não tinha nada em seu caminho que a impedisse de ingressar em Yale, saindo do pequeno fim de mundo que era Bar Harbor. Para Summer, Saphir representava tudo que ela não poderia ter e era doloroso demais tentar manter a amizade.

Agora que as cicatrizes começavam a se fechar, Summer sabia que havia sido infantil ao se isolar daquela forma e se sentia grata que Saphir não tivesse lhe virado as costas por completo. O único motivo que levara a bruxa a não responder as mensagens da filha do prefeito era por estar ocupada demais com as descobertas sobre o seu novo mundo.

O encontro daquela tarde tinha tudo para ser amigável e a brecha necessária para que as amigas reconstruíssem o antigo relacionamento, mas foi o comportamento de Petrus que se destacou.

Montgomery sempre agia sem chamar atenção, era discreto e não parecia compartilhar a mesma personalidade galante do irmão mais velho. Por isso, para Summer foi uma imensa surpresa quando Petrus pareceu tão interessado em Saphir.

Desde a noite das lanternas, Summer havia imposto uma distância entre ela e Petrus. Os dois interagiam com frequência e em alguns momentos chegavam a se divertir, como se estivessem construindo uma nova e bizarra amizade, mas pareciam já ter deixado claro que o que havia acontecido era apenas por interesse de Montgomery em se aproximar da bruxa em sua busca pela cura.

Entretanto, ao ver como Petrus estava interessado em Saphir, Summer se viu diante de um incômodo que era difícil descrever. Ela e o rapaz não tinham nenhum compromisso, mas ainda era difícil aceitar que ela não havia chamado a atenção dele da maneira que havia interpretado nos primeiros dias. Para Petrus, ela continuava sendo apenas a menininha do interior que só havia chamado sua atenção pela associação do sobrenome à cura milagrosa.

Saphir, por outro lado, era bonita, conhecia o mundo fora de Bar Harbor e não parecia danificada pela tragédia familiar. Qualquer rapaz se encantaria pelo sorriso doce ou pelos brilhantes cabelos loiros, enquanto Summer continuava escondida pela sombra da mediocridade.

- Desculpe não ter respondido antes, Saphie! Imaginei que fosse ficar um pouco mais com os seus pais.

Saphir sempre havia lhe tratado com imenso carinho e atenção, o que só deixava Summer ainda mais constrangida por ter se afastado da amiga de infância.

- Podemos nos ver amanhã? Temos muito o que colocar em dia.

O sorriso de Summer era semelhante ao gesto mecânico que usava para atender aos clientes da lanchonete, mas apenas porque ela se sentia imensamente envergonhada diante de Saphir. Depois que a loira se afastou, Summer entrou em silêncio no carro e nenhuma palavra foi trocada até a casa dos Montgomery.

Ela não precisava pressionar Petrus e criar um inquérito para o motivo dele ter se comportado tão estranho com Saphir. A última coisa que queria era ouvir alguma resposta ácida do rapaz ou, ainda pior, precisar responder qualquer curiosidade que ele tivesse a respeito da filha do prefeito para se aproximar dela.

Porém, o silêncio não pôde ser prolongado quando os dois finalmente chegaram em casa e se depararam com a presença de Alaric. O loiro estava jogado no sofá, a televisão passando o noticiário do fim da tarde e toda sua atenção voltara para o iPhone em suas mãos.

As sobrancelhas claras do rapaz foram arqueadas quando o irmão e a bruxa entraram em silêncio pela sala e ele abriu um sorrisinho torto.

- Que foi? A pequena Hermione errou algum feitiço novo?

Como já começava a se habituar com as piadinhas de Alaric, Summer apenas girou os olhos enquanto passava em direção a cozinha, carregando uma das sacolas de compras com as frutas.

- A culpa não é minha dessa vez. Ele está assim porque a minha amiga não se jogou nos pés dele nos trinta segundos de conversa.

Summer já estava de costas e não notou como o olhar de Alaric mudou ao procurar pelo rosto do irmão. Ele não precisava saber sobre a amizade de Summer e Saphir para deduzir que Petrus finalmente havia se esbarrado com a cópia de Annabeth.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Qua Out 26, 2016 6:44 pm

Não era a primeira vez que Saphir sonhava com um momento mais íntimo ao lado de um rapaz, mas nunca nenhum daqueles sonhos havia sido tão intenso e realista quanto naquela noite. Ao despertar nas primeiras horas da manhã seguinte, a filha dos Wegener sentiu suas bochechas esquentarem com a lembrança vívida do beijo e dos lábios frios deslizando por seu ombro e seu pescoço. Sua pele novamente se arrepiou e foi inevitável o reflexo de tocar os lábios estranhamente sensíveis, como se realmente tivessem sido beijados com vigor nas últimas horas.

A janela entreaberta era um detalhe intrigante, mas o quarto de Saphir ficava no segundo andar da casa. Era muito improvável que Alaric Montgomery tivesse escalado as paredes para invadir o cômodo. Além disso, as palavras que ecoavam na memória de Saphir eram ilógicas demais. O Alaric de seus sonhos dissera algo sobre as últimas sete décadas, contrariando a aparência tão jovem do rapaz.

Um sonho. No fim das contas, Saphir se convenceu de que não poderia ter sido nada além de um sonho. Montgomery era um rapaz atraente e havia sido um tanto quanto galanteador no breve encontro na estrada. Certamente aquela imagem ficou gravada no subconsciente da loira e sua mente produziu aquele sonho realista o bastante para deixar suas pernas bambas até a manhã seguinte.

O maior problema é que agora Saphir não sabia se seria capaz de disfarçar o constrangimento quando cruzasse mais uma vez o caminho de Alaric. Seria inevitável olhar para ele e não se lembrar das imagens vívidas daquele sonho íntimo.

Aquele dilema ainda atormentava a filha do prefeito quando mais um problema se somou à lista de preocupações da garota. O encontro com Summer tinha tudo para ser o momento ideal para que as duas meninas se reaproximassem, mas Saphir retornou para a casa dos Wegener com medo de que a amiga estivesse chateada depois do comportamento inadequado do “namorado”.

Lucilla havia comentado que Summer passava muito tempo na companhia de um dos rapazes forasteiros. Era um alívio pensar que a amiga não estava interessada justamente pelo cara com quem Saphir começara a ter sonhos quentes, mas a reação esquisita do Montgomery caçula era uma ameaça à velha amizade das meninas.

Wegener não negava que Petrus fosse um rapaz atraente, mas ela nem cogitava a ideia de se aproximar dele. Além do provável interesse de Summer no rapaz, Saphir já estava ocupada demais tentando entender por que sua mente criava sonhos íntimos com um rapaz que ela só vira uma vez na vida.

- Um dólar pelos seus pensamentos.

A voz grave tirou Saphir daqueles devaneios. Seu sorriso se alargou quando o pai entrou em seu campo de visão e ocupou a espreguiçadeira ao lado da dela, bem em frente à piscina profundamente azul. O vento do outono não fazia aquela água cristalina parecer tentadora, mas Saphir gostava de simplesmente se sentar naquele ponto do jardim para tomar sol.

- Meus pensamentos não valem nem isso, pai. – os olhos azuis giraram e Saphir estendeu a mão, unindo seus dedos aos de Jonathan – Chegou cedo hoje.

- Na verdade só passei para ficar um tempinho com você. Tenho um jantar de negócios à noite.

Embora sentisse falta do pai, Saphir não reclamou por ser deixada sozinha novamente. O Sr. Wegener era um homem ocupado que levava muito a sério o seu trabalho na frente da prefeitura de Bar Harbor. Era notável que ele estava se esforçando para fazer companhia à filha durante aquela visita, ao contrário da mãe e do irmão da moça.

- Ainda não vi a mamãe. Ela chegou tarde, estava dormindo quando eu saí e agora já saiu de novo. Achei que iríamos almoçar juntas...

Foi notável o constrangimento do Sr. Wegener. Ele tinha bons argumentos para ficar fora de casa, visto que seu trabalho lhe exigia demais. Sua esposa, contudo, estava trocando a companhia da filha por compras, chá com as amigas e eventos sociais dispensáveis.

E o agravante era saber que aquele descaso não começara nos últimos tempos. Desde sempre, a Sra. Wegener foi uma mãe dedicada para William e mimava – até demais – o filho mais velho. Em contrapartida, Saphir recebia migalhas de atenção e nunca recebeu o reconhecimento merecido por ser uma ótima filha e sempre ter dado motivos para a família se orgulhar de suas vitórias.

Jonathan sabia muito bem qual era a razão de tamanha discrepância na criação dos dois filhos, mas lhe partia o coração ver que a esposa não fora capaz de amar Saphir como se ela fosse a garotinha que os Wegener perderam aos seis meses de gestação. No começo, Jonathan imaginou que a dor da perda do bebê ainda era muito grande para a mulher e que ela logo abriria seu coração para Saphir. Mas aquilo nunca acontecera. Saphir nunca fora maltratada naquela casa, mas a mãe também nunca se esforçara para demonstrar que a amava.

- Eu vou falar com ela. Você vai ficar poucos dias, ela tem que aproveitar a sua companhia.

- Deixa, pai. – Saphir ergueu um dos ombros e forçou um sorriso – Ela está ocupada com as coisas dela, eu não quero incomodar. Além do mais, decidi aproveitar esta visita para dar mais atenção à Summer. Nós nos afastamos muito, mas acho que a nossa amizade ainda tem salvação. Eu a encontrei por acaso esta tarde e ela me pareceu menos deprimida. Não é o tipo de coisa que se supera, mas é bom saber que ela decidiu seguir em frente.

- Ela é uma excelente menina. Fico orgulhoso em saber que você quer ajudá-la.

A cabeça de Saphir se sacudiu em negativa e ela apertou a mão do pai carinhosamente antes de discordar de Jonathan.

- Não estou fazendo isso só pela Sum. Quero que voltemos a ser amigas porque eu sinto a falta dela.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Qua Out 26, 2016 7:23 pm

- Eu realmente achei que, depois de tanto tempo, nós dois tínhamos superado este problema, Alaric.

A voz grave de Petrus soou numa entonação contida, mas a expressão carregada do vampiro deixava muito claro que aquela não seria uma conversa amigável. Era impressionante como a simples lembrança de Annabeth Kendrick continuava poderosa o bastante para recolocar os irmãos em guerra.

No passado, eles duelavam pela atenção e pelo “amor” da vampira que, no fundo, só queria brincar com os sentimentos dos dois. Annabeth não escondia a satisfação de ver dois irmãos em lados opostos de uma guerra na qual ela era o maior prêmio ao vencedor. Sem nenhum pudor, ela provocava os dois e os atiçava com seu poder de sedução. Naquela época, Alaric e Petrus eram apenas dois rapazes jovens, imaturos e inexperientes que se deixavam levar por aquele jogo maldoso e permitiam que aquela mente fria os manipulasse.

Mas tudo havia mudado depois do ataque sofrido pelos Montgomery. O sofrimento daquela nova “vida” obrigou os irmãos a se reaproximarem e a reconstruírem os laços fraternos. Annabeth se transformara em uma sombra de um passado esquecido. Ou pelo menos era isso que Petrus achava até descobrir que Alaric estava escondendo dele a bizarra semelhança de uma moradora de Bar Harbor com a antiga amante que se alternava nas camas dos dois.

Embora ainda não soubesse explicar por que Saphir Wegener era uma cópia de Annabeth Kendrick, Petrus deixou aquele dilema de lado para se concentrar no maior problema de toda aquela história bizarra. O silêncio de Alaric era uma prova de que o irmão ainda não confiava nele por inteiro, não quando o assunto era a antiga amante.

- O que foi que eu perdi? Há quanto tempo você sabe disso? Aliás, você sabe o que é isso?

Aquela era uma discussão particular que deveria acontecer com um pouco mais de privacidade, mas Petrus simplesmente não conseguiria esperar que Summer saísse da casa para pressionar o irmão por respostas. Não seria a primeira vez que Annabeth e Alaric se uniam para zombar dele – assim como a vampira fazia o mesmo contra Ricky quando se juntava ao caçula. Mas, desta vez, Petrus se recusava a agir como o rapazinho tolo que perdoava aquelas brincadeiras maldosas em troca de uma mulher em sua cama.

- Ela está viva. Ela é humana. Você realmente acha uma coincidência que uma vampira surja como uma humana justamente na cidade onde teoricamente foi descoberta a cura? A minha única dúvida é até onde você está envolvido nesta sujeira, Alaric! Vocês dois estão juntos nisso todo o tempo enquanto eu procuro por respostas como um idiota?

Na cabeça de Petrus, a principal hipótese que explicava aquela loucura era que Annabeth participara do grupo que matara os Fields. Se o clã havia descoberto a verdade e a vampira experimentara a “cura”, fazia sentido que o coração dela batesse e que ela tivesse recuperado a humanidade. Saphir Wegener era doce demais quando comparada a Kendrick, mas Petrus conhecera a vampira bem o bastante para saber que ela era uma excelente dissimuladora.

Nem todo o autocontrole de Petrus foi o suficiente para impedir que sua voz se elevasse diante de tamanha traição. As palavras se tornaram mais ásperas e, por um momento, Montgomery se esqueceu que Summer Fields estava na cozinha, há poucos passos daquela discussão séria entre os irmãos.

- Mais de setenta anos se passaram. Mataram os nossos pais, jogaram esta maldição sobre as nossas cabeças. Foram necessários muitos anos para que voltássemos a confiar um no outro. Eu confiei em você porque achei que, assim como eu, você tinha deixado de ser um garoto idiota encantado por um par de pernas. Mas agora eu vejo que eu me enganei.

A expressão de Petrus exibia um imenso desprezo quando ele sacudiu a cabeça em negativa e prendeu os olhos escuros na imagem do irmão.

- A Annabeth terá que se contentar em manipular somente um tolo agora, porque a única coisa que senti ao olhar para ela foi vergonha pelos erros do passado. E, claro, uma profunda decepção por saber que você traiu a minha confiança. Você jogou fora setenta anos de cumplicidade por causa de uma vadia que sempre se divertiu às nossas custas, Alaric.

Um sorriso sem emoção surgiu nos lábios de Petrus e ele passou a mão nos cabelos num gesto nervoso que bagunçou os fios castanhos.

- Está pronto para ouvir o que você sempre desejou escutar, Ricky? A Annabeth é toda sua. Ela é a última mulher do universo que eu quero no meu caminho. Vocês dois se merecem.
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