Bloody Type

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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Dom Out 16, 2016 11:44 pm

- Está tudo bem.

A voz de Petrus só soou depois de quase um minuto inteiro. O instinto aflorado por Summer Fields fora muito mais forte que o normal, o que também obrigou o vampiro a se concentrar por um tempo mais prolongado até conseguir recuar os caninos e abrir a boca sem expor aquele detalhe monstruoso de sua maldição. Era como se, por alguns minutos, Montgomery tivesse voltado a ser um recém transformado com pouco controle sobre os próprios instintos.

O rapaz forçou um sorriso antes de mover as pernas e voltar para perto da barraca. As mãos geladas pegaram o urso de pelúcia gigantesco do vendedor mal humorado e o grande prêmio da noite foi entregue nos braços de Summer. Antes que a menina pudesse insistir em ajudá-lo naquele mal estar, Petrus inventou uma mentira que explicaria o seu comportamento estranho naquela noite.

- Foi só uma tontura, Summer. Eu estou bem, já passou. Eu juro que está tudo bem, ok? Não precisa se preocupar.

Naquele breve incidente, Petrus encontrou a oportunidade perfeita para escapar de mais uma sessão de tortura com comida humana. Não era agradável a ideia de mentir tão descaradamente para Summer, mas aquilo ainda era melhor do que contar à menina uma verdade que só faria mal a ela.

- Eu não deveria ter comido a tortinha.

Antes que Fields pudesse concluir que o rapaz não aprovara o sabor dos doces que ela vendia na festinha de Halloween, Montgomery completou a confissão com uma falsa entonação envergonhada.

- Não me entenda mal, estava deliciosa. Mas eu tenho diabetes. Não quis recusar para não te deixar chateada, mas acho que foi doce demais para um dia só.

A crença da morena na possibilidade da própria prima ter envenenado a tortinha arrancou um sorriso mais amplo de Petrus e o rapaz usou aquilo como pretexto para retornar com uma conversa mais leve. A breve desconfiança de Summer só confirmava a teoria dele de que Letitia Mitchell era completamente louca.

- A minha tortinha não estava envenenada, mas eu vou tentar alertar o Alaric de que a sua prima é capaz de ir até o fim nessas ameaças malucas. Agora é sério, Summer, o que há de errado com ela? Eu ainda não acredito que ela tentou me esfaquear antes mesmo que eu abrisse a boca na loja naquele dia!

Petrus ainda estava inseguro com os próprios instintos quando deu mais um passo na direção de Summer e se atreveu a deslizar a mão sobre os ombros dela, guiando-a gentilmente enquanto os dois caminhavam pelas demais barracas. O calor da pele de Fields ainda provocava formigamentos inéditos no vampiro, mas agora Montgomery ao menos tinha mais controle do que estava fazendo.

- Quer beber alguma coisa, ou quem sabe damos uma volta no trenzinho? – o rapaz soou sincero e divertido quando ergueu um dos ombros antes de completar – Sempre morei em cidades maiores, você terá que me explicar o que vocês fazem para se divertir em Bar Harbor...
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Seg Out 17, 2016 12:12 am

- Mas é claro que eu não me venderia por tão pouco.

O olhar de Alaric foi sustentado com firmeza. O coração de Letitia estava acelerado, mas a loira não dava ao vampiro nem mais um sinal de que estivesse amedrontada ou afetada pelo joguinho de sedução dele. Pelo contrário, a bruxa repetia o mesmo comportamento cuidadosamente programado de Montgomery, como se eles estivessem em uma complicada partida de xadrez.

A próxima jogada de Letty foi limpar o glacê dos seus lábios com o próprio indicador. Num gesto provocativo, a moça limpou o dedo com uma demorada lambida antes de se voltar para Alaric.

- Você acabou de dizer a primeira verdade desde que nos conhecemos. Eu estou certa. Aliás, eu sempre estou certa. Você realmente acha que eu faria esta proposta se tivesse dúvidas de qual seria a sua reação? Eu te conheço há dez minutos e já consigo prever seus movimentos. Deve ser muito frustrante ser tão previsível, não é?

A garota deslizou para um ponto vazio da superfície da mesinha onde Summer colocara as tortas e se sentou ali, cruzando as pernas para reduzir a exposição gerada pelo vestido curto escolhido para a fantasia daquela noite.

- Eu jamais faria esta proposta para o seu irmão. Ele provou esta noite que tem coragem o suficiente para se sacrificar em prol dos seus objetivos. Mas você, Ricky...? Você é o tipo de cara que não tem coragem de colocar um dedinho para fora da sua zona de conforto. É como se eu oferecesse asas para um peixe capaz de sobreviver fora da água. Ele nunca terá asas simplesmente porque não pode vencer as limitações da sua própria natureza. É como você, que nunca será nada além de um imortal chupador de sangue...

Numa jogada ainda mais arriscada, Letitia se inclinou para ajeitar a gola da camisa de Alaric que ficara embolada pelo vento. Seus dedos quentes roçaram na pele gelada do vampiro enquanto um sorrisinho tranquilo surgia nos lábios da jovem bruxa.

- Não perca mais o seu tempo, então. Eu posso me encarregar sozinha das vendas das tortinhas enquanto você seleciona a sua vítima por aí. Quer uma sugestão? A filha do prefeito é linda e tem um cérebro de volume comparável a sua coragem.

Antes que Letitia pudesse completar seu discurso com mais uma provocação, uma voz grave e familiar soou às costas dela, obrigando a loira a descer da mesinha para encarar o recém-chegado.

O rapaz parecia ter por volta dos vinte e cinco anos. Era alto, tinha os músculos bem definidos de alguém que praticava exercícios físicos com regularidade. Os cabelos pretos estavam atrapalhados e a barba por fazer lhe davam um ar ainda mais maduro. Os olhos profundamente verdes desceram pelo corpo de Letitia, sem esconder o interesse nas formas realçadas pela fantasia de diabinha.

- É sério que deixaram você encarregada da venda de doces? O povo desta cidade realmente não tem um pingo de juízo.

- Mike!!! – o queixo de Letitia caiu e seus olhos se arregalaram – Você não me disse que estava no Texas???

- E estava. Terminei ontem o meu trabalho por lá e dirigi sem pausas até Bar Harbor. – Mike Arterton abriu um sorrisinho sarcástico – Você melhor do que ninguém sabe o que é pisar no acelerador sem medo de morrer, não é, Lets?

A princípio, o jovem caçador não pareceu ter notado que o rapaz com quem Letitia conversava era o vampiro que motivara a mensagem chamando pela ajuda dele. Como não queria que a festinha de Halloween se transformasse em um banho de sangue e tiroteios, Mitchell colocou seu melhor sorriso nos lábios e tentou disfarçar o seu desconforto em ver um vampiro tão perto de um caçador.

- Tortinha? – uma das tortinhas de chocolate foi empurrada para as mãos de Mike – Logo a Sum vai voltar para assumir as vendas e a gente poderá conversar. Até lá, sugiro que dê umas voltas por aí. As barraquinhas estão realmente legais este ano.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Out 17, 2016 12:24 am

Ao perceber que Petrus já estava se recuperando e que não havia nada de grave acontecendo, Summer também se permitiu sorrir e balançou a cabeça quando assumiu que havia ido longe demais nas suas teorias e do envolvimento de Letitia no repentino mal-estar do rapaz.

- A Letty é... intensa.

A risada divertida soou novamente com a descrição da prima e um pouco da tristeza do olhar de Summer sumiu quando ela procurou pelo rosto de Petrus, trazendo na lembrança os momentos loucos, mas também as melhores fases de Mitchell.

- Mas ela não é má pessoa, eu juro. Acho que o seu irmão só consegue despertar o pior dela. E como eu disse, ela é intensa.

O comentário a respeito da pequena cidade fez com que o sorriso de Summer vacilasse. Não havia nenhuma provocação nas palavras de Petrus, mas ao constatar como a cidade era sem graça e sem emoções, Summer se sentia sendo incluída naquele mundo que não tinha nada a oferecer para um rapaz como Montgomery.

Era como se a qualquer instante Petrus fosse ser capaz de enxergar que ali não tinha mesmo nada bom o bastante para prender a sua presença, então ele seguiria com a sua vida e deixaria Summer novamente no fim do mundo.

- É basicamente isso que você já viu. As mesmas pessoas, todos os dias, fazendo as mesmas coisas.

Desta vez, os olhos azulados se estreitaram ao encarar o rapaz ao seu lado. Bar Harbor realmente não tinha muito o que oferecer, mas aquilo não mudava o fato de que Petrus e Alaric estavam ali, quando poderiam estar em tantos lugares melhores ao redor do mundo.

- Mas vocês não vieram até aqui atrás de diversão, não é?

Foi a vez da morena erguer um dos ombros. Ela parou a caminhada para se colocar diante de Petrus. O vento contrário fez com que mais algumas mechas soltassem do seu penteado e voassem para seu rosto, grudando em seu lábio úmido. Com um movimento ágil, Summer puxou os fios para atrás da orelha, precisando inclinar o pescoço para encarar o rapaz.

- Não vai me dizer que estão aqui passando as férias? Até recebemos alguns turistas no inverno, quando as estações de esqui estão abertas, mas fora isso a cidade fica completamente morta.

Ao terminar de falar, Summer se lembrou que não era uma verdade absoluta. De fato, no inverno a cidade ficava mais movimentada de turistas. Mas dentre tantas festividades tediosas que a cidade promovia, havia uma em particular que Summer gostava.

Os lábios dela se formaram em um bico de um sorriso contido quando Summer finalmente se lembrou de alguma coisa boa que poderia enumerar em Bar Harbor.

- Tem a queima de balões no próximo final de semana. Todo mundo se reúne ao redor do lago e solta uma lanterna de papel. Parece extremamente bobo, mas eu garanto que é um espetáculo à parte.

Os olhos dela passearam pela praça até encontrar a prima mais uma vez. Ela sabia que estava indo longe demais com aquela conversa, e por mais que não quisesse se afastar de Petrus, temia que Letitia fosse começar uma nova cena.

- Eu preciso voltar. Mas foi divertido, Petrus. Obrigada, estava mesmo precisando.

Em um gesto mais ousado que não combinava com a boa moça de uma cidade pequena, Samantha se inclinou na ponta dos pés e depositou um rápido beijo no canto dos lábios de Montgomery, se afastando em seguida para estudar a reação dele.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Seg Out 17, 2016 1:04 am

Petrus provou que nem toda a sua experiência de vida servira para transformá-lo em um bom mentiroso quando sua mente não conseguiu selecionar nenhuma desculpa aceitável para aquela viagem até Bar Harbor. Já estava claro para o vampiro que Summer desconhecia por completo o mundo sobrenatural, então era mesmo impossível encontrar alguma lógica na presença de dois rapazes jovens naquela cidadezinha sem nenhum grande atrativo.

Um dos ombros de Montgomery se ergueu e ele tentou forçar um sorriso. A melhor desculpa que veio à cabeça dele era fraca, mas ainda assim era melhor que deixar a moça cultivar dúvidas em sua cabeça.

- Procuramos uma cidade pequena exatamente porque a nossa intenção é descansar. O Ricky se envolveu numas confusões e ele precisa esfriar a cabeça. Bar Harbor pareceu o lugar perfeito para encontrarmos uns dias de paz.

A consciência de Petrus doía em jogar aquela culpa em cima do irmão, mas não parecia haver outra maneira de resolver o problema. Se Summer Fields ainda não sabia a verdade sobre o assassinato dos seus pais, não cabia a Montgomery desabar naquela cidade para jogar aquela bomba sobre ela.

O beijo de Summer foi um gesto completamente inesperado para Petrus. Por vários segundos, ele permaneceu tão imóvel e chocado com aquele gesto que esqueceu-se até mesmo de simular os movimentos respiratórios que se obrigava a repetir de forma rítmica sempre que interagia com um humano.

Quando finalmente conseguiu reagir, Montgomery ainda não raciocinava com clareza. Ele obedecia a um instinto quase tão incontrolável quanto a sua sede por sangue quando deu um passo adiante, aproximando-se mais da menina. O ursinho de pelúcia formava uma pequena barreira entre eles, mas nem isso evitou que Petrus levasse a mão carinhosamente até o rosto de Summer e a segurasse com delicadeza pelo queixo antes de se inclinar para cobrir os lábios dela com um beijo de verdade.

O local público e o receio de que Letitia Mitchell fizesse um escândalo para entrar para a história de Bar Harbor obrigou Petrus a ser mais breve e mais sutil do que ele gostaria. Mas, apesar da interrupção precoce do beijo, o rapaz parecia satisfeito quando afastou o rosto para encarar os traços bonitos da menina.

Summer parecia ainda mais bela iluminada pela luz do luar e com as bochechas levemente coradas depois do beijo. Os dedos frios acariciaram gentilmente uma das bochechas macias antes de quebrarem aquele contato com a pele quente da morena.

- Eu não perderia o evento das lanternas por nada. Desde que você vá comigo, é claro.

Depois de tantas décadas naquele estilo de vida e sem grandes objetivos pela frente, Petrus havia chegado à conclusão de que suas emoções humanas haviam ficado para trás naquele passado remoto. Seus únicos prazeres agora se resumiam a sangue, algumas doses de bebidas e eventualmente uma noite de sexo com uma mulher qualquer que teria a memória adulterada depois de saciar os instintos primitivos dele.

Mas o beijo suave de Summer Fields havia revivido algumas emoções que Montgomery julgava ter perdido para sempre. Ele não a enxergava apenas como uma fonte de sangue fresco, muito menos como a dona de um corpo bonito no qual ele poderia se aliviar. Pela primeira vez em muitos anos de apatia e conformismo, Summer fazia com que Petrus se sentisse verdadeiramente animado com uma novidade em sua existência vazia.

Ao lado de Summer, o Montgomery mais novo não se sentia mais como um velho aprisionado em um corpo eternamente jovem, tendo que saciar instintos que a sua mente não aprovava mais. Era como se ele voltasse a ser o rapaz de vinte anos que havia sido brutalmente atacado há setenta anos, quando a fazenda onde ele vivia com a família fora invadida por um clã de vampiros sedentos.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Seg Out 17, 2016 1:28 am

Talvez fosse só o instinto de Alaric que já o alertava que não deveria gostar de Mike, afinal, nunca um caçador e um vampiro poderiam ter qualquer tipo de amizade. Mas mesmo desconhecendo aquele importante detalhe sobre o moreno a sua frente, o loiro imediatamente estreitou o olhar ao perceber o interesse do outro homem no corpo de Mitchell.

Letitia era uma psicopata que havia acabado de cruzar o seu caminho, mas se mostrava uma diversão atrativa para o tempo que ele passaria na cidade. Ainda assim, não justificativa o comportamento possessivo que surgia em Alaric, como se ele tivesse que provar a Mike que ninguém mais tinha o direito de encarar a loira daquela forma.

Mike não precisava saber que estava diante de um vampiro, mas a tensão presente na leitura corporal do loiro era suficiente para mostrar que algo estava acontecendo entre os dois. E com o mesmo instinto possessivo, o caçador abriu um sorrisinho e se recostou sobre a mesa onde as tortas eram servidas, recebendo o doce que a loira lhe oferecia.

Com bastante naturalidade, os dentes de Mike afundaram na superfície macia do doce e ele engoliu uma generosa mordida com uma expressão de prazer que nenhum vampiro seria capaz de fingir.

O Mongtomery mais velho já estava conformado com a sua vida eterna cheia de restrições, mas pela primeira vez ele desejou poder estar na pele de um humano. Era ridículo, mas ele queria poder agir da mesma forma com um estúpido doce ao invés de ser motivo de piadas para Letitia.

- Tudo bem, Lets. Eu espero.

Como estava perdendo aquele jogo, Alaric não viu outra opção a não ser vestir a sua máscara perfeita de confiança. Ele cruzou os braços, levando uma das mãos até o queixo liso, coçando a pele fria enquanto observava aquela disputa muda pela atenção da bruxa.

- Parece que você vai ter que deixar a janela aberta de qualquer forma, hein Lets?

A provocação não seria compreendida por Mike, mas aquilo só tornava a escolha das palavras ainda mais atraentes que apenas Letitia compreenderia a insinuação referente ao desafio de segundos antes.

- Letty, você não pode simplesmente sair distribuindo tortinhas por aí!

A voz zangada de Summer soou às costas de Alaric, o fazendo se virar para encontrar a morena carregando um generoso urso de pelúcias ao lado de Petrus. O sorriso superior conseguiu se alargar ainda mais em um ar zombeteiro quando os olhares dos dois irmãos se encontraram, em uma nítida implicância muda.

- Oi Mike. – Summer tentou suavizar a sua bronca com um sorriso ao se aproximar da bancada, tentando organizar a bagunça criada por Letitia e Alaric.

- Sua prima tentou me empurrar uma também. – Alaric começou, com um forçado ar de inocência. – Mas eu não pude aceitar. Eu falei, “Esse é o trabalho da Summiezinha, não vamos fazer bagunça, Diabinha.”. Mas acho que ela só gosta de distribuir tortas por aí.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Out 17, 2016 2:05 am

O quarto de Summer Fields parecia ter o rastro de um furacão. As portas do closet estavam abertas e praticamente todas as suas roupas estavam jogadas sobre a cama, depois de terem sido experimentadas e lindamente rejeitadas. Nenhuma das suas peças simples parecia ser suficiente para aquela noite, o que era um caso inédito na vida da jovem órfã.

A pequena cidade de Bar Harbor não exigia nenhum desfile de moda e sua vida pacata que se resumia ao trabalho também não pedia por roupas luxuosas. Mas naquela noite, absolutamente tudo que ela vestia parecia gritar “boa menina do interior”, e não era aquela imagem que queria passar para um rapaz como Petrus.

Como Letitia ainda não havia voltado do trabalho, não tinha ninguém na pequena casa para escutar os seus resmungos a cada nova peça trocada. Summer ficou ainda mais furiosa quando olhou o relógio e viu que já estava atrasada para o evento das lanternas que aconteceria na cidade.

- Perfeito. Tudo que eu precisava. – Ela resmungou ao encarar a roupa que vestia, em completa desaprovação.

As sapatilhas baixinhas não ajudavam em nada na sua altura e o vestido branco parecia ter sido feito para assistir as missas de domingo. A saia feita por um tecido leve terminava alguns dedos acima dos joelhos e não havia nenhum decote para dar margens a fantasias. A parte de cima do vestido era bordada com minúsculas pedrinhas prateadas e quase fazia o cordão herdado da mãe se confundir.

Diferente da noite de Halloween, Summer não usava nenhuma maquiagem além de um batom rosado e os cabelos estavam soltos nas longas ondas brilhantes que emolduravam o rosto bonito. A aparência era exatamente de uma boa menina, mas era tarde demais para tentar se trocar.

Quando finalmente alcançou o deck de madeira que circulava o lago, boa parte da cidade já se encontrava no local. Os lugares haviam sido quase todos ocupados por toalhas com cangas e as pessoas se sentavam com algumas bebidas ou petiscos antes de começarem a montar as lanternas disponibilizadas pela equipe do festival.

Antes mesmo de ir procurar por Petrus, Summer se direcionou até a mesinha onde as lanternas eram distribuídas ainda desmontadas e sorriu com sua simpatia mecânica enquanto assinava o seu nome já reservado.

Os postes de luz que em breve seriam apagados ainda permitiam que toda a extensão do deck estivesse iluminada, deixando mais fácil o trabalho de Summer em buscar por um lugar onde esticar a própria toalha. Ela havia acabado de forrar o tecido vermelho em uma das pontas mais extremas e se colocou de pé para buscar por Petrus.

Durante todo o dia, foi impossível evitar que pensamentos ruins atravessassem sua mente. O receio de que Montgomery não fosse aparecer, de que tivesse desistido de assistir um espetáculo entediante de uma cidadezinha careta a assombrava a todo instante.

Não seria nenhuma surpresa para a cidade de Summer decidisse ficar ali sozinha o restante do espetáculo, afinal, quando não estava acompanhada de Ezra ou Letitia, era comum que a jovem órfã fizesse tudo sozinha. Mas ela saberia sobre aquela rejeição e ainda não estava disposta a lidar com a perda da única coisa que a fizera se sentir viva em anos.

Os receios de Summer desapareceram quando seu olhar finalmente cruzou com o rosto conhecido de Petrus e foi impossível conter o sorriso de alívio mesclado com a felicidade em vê-lo outra vez. Fields permaneceu em pé na ponta do deck, pisando na ponta da toalha, até que o rapaz estivesse a sua frente.

- Tive sorte em conseguir um dos melhores lugares. Você ainda chegou com tempo suficiente para montar a sua lanterna antes de apagarem as luzes.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Seg Out 17, 2016 2:22 am

De dentro da minúscula bolsinha que compunha a sua fantasia, Letitia retirou uma nota de dez dólares e a colocou sobre a bancada antes de dirigir um de seus olhares atrevidos para a prima, tendo alguma dificuldade em encontrar o rosto delicado de Summer parcialmente oculto pelo urso gigantesco.

- Pronto, isso paga pelas tortinhas que estou distribuindo por aí. Agora as tortinhas são minhas e isso me dá o direito de entregá-las para quem eu quiser.

As últimas palavras também faziam parte das insinuações que somente Alaric poderia compreender sobre o significado oculto daquelas tortinhas. Sem dar ao vampiro tempo para mais uma de suas piadinhas maldosas, a mão de Letty se fechou sobre o tecido da camisa de Mike Arterton e ela saiu de perto da barraquinha de doces, arrastando o caçador para longe dos irmãos Montgomery.

- Tem certeza de que é uma boa ideia deixar a Sum sozinha? – Mike deu uma olhada por cima dos ombros, completando seu discurso ainda com a boca cheia de chocolate - Os chupadores não estão por perto? Aliás, quero que me conte tudo sobre eles. Como descobriu?

A bruxa conteve uma careta ao pensar no quão perto os vampiros estavam de sua prima, mas depois daquela breve conversa com Alaric a loira havia descartado a possibilidade de Summer ser um alvo da dupla de irmãos. O Montgomery mais velho era a criatura mais arrogante e irritante que já cruzara o caminho de Letitia, mas ele havia soado transparente como água cristalina quando garantiu que não queria fazer mal a Fields. E Letty confiava muito naquele sexto sentido que a fizera acreditar em Alaric.

- Relaxa, ok? Eu nem devia ter te mandado aquela mensagem. Eu surtei quando achei que a Sum estava em perigo, mas está tudo bem. Eu acho.

- Ok. Em primeiro lugar, é claro que você tinha que me avisar. Se um desses monstros está rondando a cidade, a Sum corre perigo. Em segundo lugar, preciso de mais detalhes para aceitar que realmente está tudo bem. E, por fim, você não surtou. Você já nasceu surtada, Lets.

Os olhos azuis giraram com aquela provocação, mas Letitia tentou se concentrar quando finalmente chegou a um ponto menos movimentado da praça, onde poderia conversar mais abertamente com o amigo. Depois daquela conversa com Alaric, Mitchell estava mais tranquila e não achava mais que a presença de um caçador era necessária. Mas agora já era tarde demais e Mike tinha vindo de muito longe para aceitar que estava tudo bem sem nem mesmo investigar aquela história esquisita.

- Por enquanto, está tudo sob controle. Eu achei que o clã responsável pela morte dos meus tios estava de volta, mas me enganei. Investiguei um pouco mais nos últimos dias e me pareceu que eram apenas vampiros comuns, sem nenhuma ligação com a tragédia da Sum.

- Não existem vampiros comuns, vampiros bonzinhos, vampiros malvados. Todos eles fazem parte da mesma espécie parasita que sobrevive sugando sangue humano, Letitia.

A entonação mais séria de Mike indicava que o caçador não iria ceder. Como qualquer bom caçador, Arterton era o tipo de homem que não acreditava que monstros mereciam uma segunda chance. Mas o rapaz ficou completamente desarmado quando Letitia repetiu a argumentação dele, desta vez trocando o foco para outra espécie sobrenatural.

- Não existem bruxas boas e más. Todas elas fazem parte da mesma espécie desprezível que usa a magia em benefício próprio e não pensam duas vezes antes de fazer mal a pessoas inocentes.

- Você sabe que é completamente diferente, Lets.

- Não é diferente, Mike. Você me deu uma chance e eu provei que não me encaixava na sua visão sobre as bruxas. Porque é tão difícil acreditar que outros seres sobrenaturais só querem viver em paz, sem causar danos a ninguém?

- Não existe nenhuma maneira de sobreviver sem machucar ninguém quando o que te mantém vivo é o sangue que corre nas veias de outras pessoas! Você vai mesmo defender a espécie que retalhou seus tios em mil pedacinhos?

- Não estou defendendo ninguém, Mike. Eu só quero julgar com argumentos e não com preconceitos. E preciso de tempo para entender o que está havendo e construir os meus próprios argumentos. Lamento muito ter te arrastado até aqui para nada.

Quando deu as costas ao caçador, Letitia deixou claro que aquele assunto estava encerrado. Ela não tinha a menor dúvida de que Arterton continuaria em Bar Harbor e tentaria investigar sozinho sobre a possível presença de vampiros na região. Os Montgomery já tinham provado que sabiam ser discretos, portanto a bruxa teve a certeza de que Mike muito provavelmente não encontraria nenhum rastro que o levasse até os dois irmãos.

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Já começava a anoitecer, mas Letitia Mitchell ainda não tinha a menor previsão para fechar as portas da loja. Naquela noite, estava marcado o evento anual das lanternas de Bar Harbor e Letty sempre acompanhava a prima naquela festividade, mas a bagunça espalhada pela loja era grande demais até mesmo para os padrões nada organizados da bruxa.

Para imensa surpresa de Mitchell, Summer não pareceu chateada quando a loira ligou para avisá-la de que não conseguiria participar do evento naquele ano. Pelo contrário, Fields reagiu com naturalidade e parecia até animada quando anunciou que iria sozinha e que tiraria fotos para depois mostrar a ela.

A reação de Summer fora esquisita, mas nem por um momento Letitia imaginou que a prima tinha planos muito mais interessantes para aquela noite, planos que não incluíam uma loira enlouquecida como vela de um encontro amoroso. Sum não costumava agir como uma menina apaixonada e, na cabeça de Letty, se algum dia a prima surgisse com um namoradinho ele atenderia pelo nome de Ezra. O filho do delegado era um rapaz bonito e gentil que Letty gostaria de ver ao lado da prima, para salvá-la da depressão que a assombrava desde a morte dos pais.

A razão de tamanha bagunça na loja fora a chegada de um fornecedor bem no fim da tarde. Mitchell já se preparava para trancar tudo quando o homem chegou trazendo dezenas de caixas lotadas de ervas e uma coleção inteira de duendes e filtros dos sonhos que agora se aglomeravam no chão da loja, dificultando até mesmo os passos de Letitia que empurrava as mercadorias de um lado para outro.

Ao notar que as calçadas estavam escuras e desertas – provavelmente porque toda a cidade já se encaminhava para as margens do lago, Letitia concluiu que era seguro resolver aquele problema de forma mais “prática”. Os dedos delicados se moveram num gesto delicado antes que duas caixas levitassem alguns metros acima do chão. A ideia da bruxa era guiar as caixas até o estoque na sobreloja, mas a porta que se abriu subitamente obrigou Letty a abandonar aquela ideia.

O gritinho assustado dela soou juntamente com o ruído das caixas de madeira se espatifando no chão e espalhando as ervas secas em várias direções, agravando consideravelmente a bagunça da loja.

Os olhos azuis estavam arregalados quando Letitia olhou para a porta e ela não tinha ideia de como explicaria a queda das caixas do outro lado da loja quando sua visão captou a conhecida imagem de Alaric Montgomery. Por mais furiosa que a bruxa estivesse com aquela entrada repentina, era um alívio pensar que o vampiro não faria mil perguntas sobre as caixas caídas tão distantes de Mitchell.

- Só podia ser você! Olha só a bagunça que você fez, seu idiota infeliz! Eu deveria estourar os seus miolos. Aliás, talvez eu faça isso. Será fácil construir um voodoo com os fios do seu cabelo. – Letitia abriu um sorrisinho sugestivo – Você acha mesmo que eu só estava arrumando a sua camisa naquela noite, peixinho?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Seg Out 17, 2016 2:56 am

Era impossível para Petrus Montgomery não se sentir ansioso para o evento daquela noite. Podia parecer bizarro para um rapaz com vinte anos e era ainda mais chocante se fosse levado em consideração que Petrus já tinha quase um século de vida, mas a grande verdade era que aquele seria o primeiro encontro de toda a existência dele.

O caçula dos Montgomery completaria vinte anos no mês seguinte quando sua família foi atacada. Seus pais foram mortos porque eram considerados velhos demais para o clã, mas os dois filhos tinham sido “poupados” pelos vampiros. Petrus já era um rapaz maduro que havia tido algumas aventuras com moças experientes da região, mas o único relacionamento sério do rapaz se resumia a uma noiva escolhida por seus pais. Não houvera encontros, eles simplesmente selaram um compromisso que teria sido concretizado se não fosse pela trágica morte do rapaz.

A existência de Petrus a partir daquele dia se resumia a uma busca enlouquecida por sangue. Muitas gargantas tinham sido cortadas pelo vampiro inexperiente e revoltado, que demorou décadas até se acostumar com os novos instintos e com as limitações daquele estilo de vida. Quando finalmente aceitou a sua nova condição, Petrus passou a ser uma criatura que vivia apenas para atender às suas necessidades básicas. Todas as mulheres que passavam pelo seu caminho eram aventuras de uma só noite ou vítimas de seus poderes de dominação.

Pela primeira vez na vida, Montgomey havia marcado um encontro com uma garota de verdade, sem segundas intenções, sem tentar controlar os desejos de Summer com seus poderes sobrenaturais. Portanto, era mais que compreensível que Petrus não se sentisse nem meramente seguro naquela noite.

A primeira atitude dele foi se livrar da companhia do irmão. A última coisa que Petrus precisava era das palavras ácidas e das piadinhas de Alaric estragando aquele momento especial. É claro que o vampiro ainda estava focado no plano de descobrir a verdade sobre os Fields, mas naquela noite ele se permitiria aquele breve vislumbre da felicidade que o destino nunca lhe dera.

A calça preta era clássica demais para um rapaz jovem, assim como a camisa branca de botões. O corte de cabelo mais moderno amenizava um pouco aquela aparente contradição na escolha das roupas, mas o detalhe que fazia Petrus parecer mais jovem foi o amplo sorriso que ele abriu no instante em que avistou Summer Fields.

Podia parecer uma grande bobagem, mas Montgomery sentiu um imenso alívio em saber que Summer não o abandonaria naquele primeiro encontro. A beleza dela não passou despercebida enquanto Petrus caminhava em sua direção, era evidente que, assim como ele, a morena também estava ansiosa para o encontro daquela noite.

- Está lotado, hein? – os olhos azuis escuros deslizaram pelas margens do lago, onde diversas pessoas já se acomodavam – É uma sorte que você tenha encontrado um lugar tão bom.

De fato, o ponto onde Summer estendera a toalha parecia perfeito. Dali, eles teriam uma visão privilegiada do lago e, como ficava próximo ao deck, eles estavam ligeiramente afastados da aglomeração de pessoas amontoadas nas margens.

Petrus cumprimentou a garota com um breve beijo no canto dos lábios antes de se acomodar ao lado dela, ambos sentados sobre a toalha. Montgomery precisou da ajuda de Summer para montar a própria lanterna, visto que não tinha a mais remota ideia de como faria algo assim.

Coincidentemente, os dois tinham acabado de acender as duas lanternas quando as luzes dos postes que circundavam o lago começaram a ser apagadas, arrancando aplausos e assovios dos moradores.

Assim como Summer descrevera ao mencionar o evento, a paisagem ficou maravilhosa quando todas as luzes se apagaram e o lago passou a ser iluminado somente pela lua e pelas lanternas, que começavam a subir até se tornarem pontinhos distantes que se misturavam às estrelas do céu.

- Uau...

A admiração de Petrus era sincera e seus olhos refletiam as luzes que cintilavam no céu acima deles no instante em que o rapaz também soltou a própria lanterna. Foi com um sorriso orgulhoso que ele observou a luzinha acendida por ele levitar até se misturar às demais.

Parecia impossível, mas a beleza daquele evento foi superada no instante em que Montgomery abaixou os olhos e fitou a menina ao seu lado. As luzes amareladas se refletiam no rosto delicado de Summer e o sorriso dela era sincero, diferente dos sorrisos mecânicos que denunciavam a sua depressão.

- Você é assombrosamente linda, Sum.

A declaração soou num sussurro dirigido apenas à garota. Uma das mãos de Petrus deslizou pela cintura dela antes que o vampiro se inclinasse, buscando por mais um beijo que desta vez não precisaria ser interrompido tão precocemente.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Seg Out 17, 2016 3:08 am

Os irmãos Montgomery estavam na cidade há pouco mais de uma semana, mas as ruas pacatas já estavam gravadas na memória de Alaric, de modo que ele não tinha a menor dificuldade em passear pelas calçadas sem seu carro.

Praticamente todos os moradores já haviam se encaminhado na direção do lago, os estabelecimentos fecharam mais cedo e sem a companhia de Petrus, não havia muita coisa que ele pudesse fazer para se distrair.

O que Alaric jamais aceitaria era continuar trancado em casa enquanto Petrus começava a colocar seu plano “Fields” em ação. A festividade que aconteceria as margens do lago não enchia os olhos do Montgomery mais velho, e mesmo sabendo que teria pouca chance de se divertir em algum canto de Bar Habor, ele ainda preferia vagar pelas calçadas em busca de alguma emoção.

Esbarrar em alguma potencial vítima já havia sido descartado de seus planos. A última coisa que Ricky precisava era estragar o plano do irmão e atrair atenção para si. Nem mesmo a garantia de que deixasse sua vítima escapar viva após a hipnose seria suficiente e o risco de arruinar tudo para Petrus o manteve na linha.

Não foi exatamente uma grande surpresa quando Alaric encontrou a pequena lojinha exotérica diante dos seus pés. No fundo, ele sabia que a única emoção que teria naquela noite seria a sorte de esbarrar novamente com a língua afiada de Letitia. Ele só não contava que o destino fosse lhe ajudar tão facilmente, ainda encontrando a luz acesa no interior.

Os xingamentos de Mitchel fizeram o sorriso brotar em Alaric e mesmo que acabasse com a cabeça explodida, ele já se sentia satisfeito por ter quebrado o marasmo.

- Até onde eu sei, vampiros não têm o poder de fazer objetos flutuarem. Mas se você quer me dar mais este crédito, está bem.

O silencio das ruas permitia que Alaric falasse tão abertamente sobre a sua situação. Aquilo normalmente só acontecia quando estava a sós com Petrus, mas era surpreendentemente agradável poder agir naturalmente diante de outra pessoa.

A porta de entrada foi fechada cuidadosamente e Alaric caminhou alguns passos até se aproximar da loira, observando o estrago causado pelas caixas derrubadas. Ele estalou a língua no céu da boca e sacudiu a cabeça em reprovação.

- Se o seu talento com voodoo é semelhante com a sua magia para coisas tão banais, eu não tenho muito com o que me preocupar.

A luz amarelada que pendia no teto da loja fazia os cabelos loiros refletirem ainda mais claros e iluminava o sorriso divertido que Alaric trazia em seu rosto. A camisa xadrez azul estava com as mangas repuxadas até a altura dos cotovelos e os primeiros botões abertos deixavam escapar a camisa branca que ele usava por baixo. Seus cabelos estavam ligeiramente bagunçados pelo vento do outono, mas aquilo só contribuía para que Ricky ficasse ainda mais atraente.

Talvez, se ele não fosse um vampiro ou ao menos não tivesse a atitude tão arrogante, Letitia pudesse ter notado o que praticamente todas as mulheres eram capazes de enxergar. Bastava um olhar mais intenso para que Ricky tivesse sua conquista na palma da mão, mas no fundo, ele quase se sentia agradecido por Mitchell ser diferente. Era ainda mais divertido embalar nas provocações da bruxa.

- E não insulte a minha memória. Nós dois sabemos que você não estava só procurando por uma desculpa para me apalmar.

A voz rouca soava divertida e ele só parou de andar quando finalmente se colocou na frente dela. Desta vez, ele assumiu um ar mais simples, como se estivesse apenas fazendo uma proposta de onde deveriam sair para jantar.

- Não precisa ficar corada, Diabinha. Eu posso tirar a camisa agora mesmo e você pode apalpar o quanto quiser.

Como se fosse realmente seguir adiante com aquele plano, Ricky levou os dedos até os botões superiores, mas antes que soltasse qualquer um deles, ele voltou a erguer os olhos cinzentos para a loira.

- Ou você pode só seguir com o plano original do voodoo. Mas se explodir a minha cabeça, não vou conseguir te ajudar com essa zona toda...

Ele novamente deslizou o olhar pelas ervas espalhadas no piso de madeira e sacudiu a cabeça, fazendo uma expressão exagerada para reforçar o trabalho que a loira teria naquela limpeza.

- Eu recomendaria a não usar magia, considerando que foi onde esse desastre todo aconteceu. E considerando que você é uma bruxa, imagino que tenha algum estoque de vassouras por perto, certo?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Out 17, 2016 3:39 am

Parecia mesmo um sonho estar na companhia de Petrus diante do mágico cenário promovido pelas lanternas que iluminavam o céu. Montgomery era a encarnação de tudo que Summer havia desejado em seus melhores dias, mas de uma fantasia que ela já havia abandonado quando passou a encarar a vida real com outros olhos.

A tristeza que lhe fazia companhia desde a morte dos seus pais finalmente dava uma trégua para que ela pudesse se sentir viva, como se não estivesse fadada a passar o resto dos seus dias servindo hambúrgueres para as mesmas pessoas, sem um pingo de emoção em sua vida.

O lado racional da jovem Fields sabia que aquilo não poderia durar. Logo Petrus seguiria com a própria vida, mas ainda assim ela não estava disposta a abrir mão daquele momento. Se era a única forma de se sentir feliz outra vez, mesmo que só por alguns minutos, Summer não hesitaria.

Seus dedos afundaram nos cabelos de Petrus enquanto ela correspondia o beijo, e mais uma vez ela sentiu a pele fria sob seu toque sendo justificava pelas temperaturas mais amenas. Como não havia motivos para interrupções, o beijo só chegou ao fim quando os pulmões de Summer começaram a protestar.

Ela se afastou apenas o suficiente para encarar o rosto bonito do rapaz, abrindo um sorriso sincero enquanto mordia o lábio inferior, que só contribuía para a sua aparência de menina.

- Bom, é isso. Você já viu tudo que tinha de bom em Bar Harbor. Agora é ladeira abaixo.

A brincadeira foi feita com o corpo de Summer ainda colado ao de Petrus. O contraste da sua temperatura agradável com a frieza dele não incomodava a morena, que estava mais ocupada concentrada nos olhos claros a sua frente.

- Aposto que não é nada comparado aos lugares que você conhece. Mas é o melhor que temos.

O casal deitou sobre a toalha estendida, as cabeças voltadas para o céu iluminado enquanto observavam em silêncio a linda cena. Os cabelos escuros de Summer estavam espalhados sob sua cabeça e a mão unida a de Petrus.

Por longos minutos, eles não falaram nada e Summer permitiu que sua mente vagasse pelas lembranças de todos os anos que já havia visto aquela mesma cena. Era a primeira vez que ela ia àquele espetáculo sem alguém da sua família.

Por praticamente toda a sua vida, Summer fazia companhia para os pais com uma bela tradição familiar. Eles normalmente levavam uma cesta de comida e faziam um piquenique enquanto assistiam as lanternas flutuando. Summer ainda se lembrava de quando era criança e poderia jurar que algumas lanternas insistiam em flutuar sobre a sua cabeça, tornando a noite mágica.

Depois da trágica morte dos pais, Summer achou que jamais seria capaz de ir ao evento anual outra vez, mas se surpreendeu quando ainda conseguiu enxergar a beleza daquele momento ao lado de Letitia.

Petrus era a primeira pessoa sem qualquer relação sanguínea que a acompanhava, e mais uma vez Summer se surpreendia em como se sentia completa com aquele caso inédito.

- Meus pais me traziam todo ano. Era a minha data preferida, eu acabava ficando mais ansiosa por isso do que pelo natal.

Um sorriso nostálgico apareceu no rosto de Summer com aquela lembrança, e embora Petrus não soubesse, era a primeira vez que a órfã mencionava seus pais para alguém. Nem mesmo Letitia já havia ouvido a prima compartilhar alguma lembrança ou simplesmente confessar a saudade que sentia deles. Mas as palavras simplesmente saltavam de sua boca, como se aquela ferida finalmente estivesse cicatrizando.

- Meu pai cantava uma música idiota do Michael Jackson por todo o caminho da nossa casa até o lago. E a minha mãe fazia uns bolinhos de canela que a gente devorava enquanto assistia as lanternas.

O rosto de Summer se virou para encarar o perfil de Petrus e a leveza em sua expressão mostrava que não havia nada mórbido com suas lembranças saudáveis.

- Os melhores bolinhos de canela que já comi. Nunca mais consegui provar um, desde que ela morreu.

Uma sombra passou pelo seu olhar, mas Summer não deixaria que a tristeza voltasse a assombrá-la. Pelo menos não durante aquela noite, por isso ela logo voltou a sorrir e continuar com a parte feliz da sua narração.

- Minha mãe costumava dizer que era a noite mais mágica do ano, que se fizesse um desejo enquanto sua lanterna estivesse se afastando, que ele chegaria até os céus e se tornaria realidade.

Summer girou os olhos para demonstrar a sua incredulidade com as palavras bonitas da mãe e concluiu com seu habitual ceticismo.

- É só papel, ar e fogo. Não tem nada de mágico nisso. Mas era bonito escutar ela falando assim... Quase me fazia acreditar.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Seg Out 17, 2016 3:44 am

- Você realmente não se cansa? Eu te conheço há poucos dias e já estou cansada desse comportamento pomposo e presunçoso. Não consigo imaginar como você consegue permanecer assim depois de tanto tempo. Aliás, quanto tempo...?

Os olhos azuis estudaram o rosto de Alaric como se Letitia fosse encontrar nos traços jovens e bonitos a resposta para a verdadeira idade do vampiro. Depois de uma pausa dramática, a loira lançou a sua sugestão como uma afirmação e não como uma pergunta. A exatidão do número indicava que os poderes da bruxa não se limitavam a caixas flutuantes.

- Noventa e dois. Como eu imaginava, um vovô.

Quando deu as costas sem esperar por uma resposta ou por uma correção, a bruxa quis passar a impressão de que não se importava de verdade com a idade real do rapaz a sua frente. A concentração dela se voltou para as caixas quebradas no chão e, ignorando os conselhos de Montgomery, Letitia repetiu o movimento dos dedos.

Uma corrente de ar forte se transformou em um redemoinho que varreu as ervas espalhadas pelo chão e ergueu todos os pedacinhos no ar até pousá-los dentro da caixa, que também foi reconstruída magicamente diante dos olhos de Alaric. Para Mitchell, também era um grande alívio poder usar os seus poderes na frente de outra pessoa. Além de seus pais e de Mike, mais ninguém sabia a verdade sobre ela, o que obrigava Letty a esconder seus dons na maior parte do tempo.

- Eu vou ajeitar as caixas lá em cima. Fique à vontade. Só sugiro um pouco de cuidado com o Lucifer. Ele não gosta de estranhos. Aliás, ele não gosta de ninguém além de mim.

Atraído pelo próprio nome, o gato preto saltou de detrás do balcão e aterrissou num salto gracioso sobre a superfície da bancada. Assim que os olhos amarelos enxergaram Alaric, os pelos escuros se eriçaram e Lucifer se inclinou na típica postura de ataque dos felinos. Ele fatalmente teria atacado Montgomery se não fosse pela mão delicada que a dona deslizou carinhosamente pelas suas colunas.

- É um maldito chupador, eu sei. Mas está tudo bem, Lucy. O maior perigo que ele me oferece é a chance de me fazer dormir com as bobagens que saem dessa boquinha sugadora de sangue.

Mais algumas caixas levitaram até o segundo piso enquanto Mitchell subia as escadas. Ao invés de perder horas ajeitando tudo em seus devidos lugares, Letitia apenas empilhou as caixas num canto do estoque antes de descer novamente para a loja. Ela teve que rir ao notar que Lucy não havia atacado o seu “convidado”, mas seguia Alaric com os olhinhos amarelos sem nem mesmo piscar.

- Ele te odeia, meus parabéns. Você conseguiu elevar o mau humor do Lucy a um novo nível, Montgomery.

Como sabia que aquilo distrairia o gato, Letitia abriu uma das caixas repletas de miniaturas de duendes. A dona da loja fez uma careta de desagrado para um dos bonecos horrorosos de orelhas pontudas e narizes enormes antes de atirar o brinquedo para Lucifer. O duende foi imediatamente atacado num salto ágil e Lucy rolou pelo balcão enquanto destruía o boneco com suas unhas afiadas.

- Só continuo comprando essas coisas horrorosas porque o Lucy adora destruí-los. E também porque sempre tem idiotas que aparecem aqui atrás de duendes da sorte. A sorte é minha por ganhar dez dólares por cada boneco horrível desse.

A bruxa deslizou até o balcão, colocando-se sentada sobre a superfície empoeirada. Letitia não parecia nem meramente preocupada se aquela sujeira estragaria a sua saia preta, que formava um conjunto com a blusa azul cheia de estrelinhas prateadas que combinavam perfeitamente com o clima esotérico do estabelecimento. As botas de cano alto compunham o visual da bruxa, assim como um pesado colar de pedras.

- O que está fazendo aqui, afinal? As suas aventuras com a anencéfala que o prefeito chama de filha já terminaram? Você não gostou do gostinho do sangue dela? Eu compreendo. Não entendo muito disso, mas acho que os cigarros que ela devora dia após dia devem danificar o gosto do sangue.

Inaugurando mais um capítulo daquelas provocações que os dois protagonizavam desde o primeiro encontro, os olhos de Mitchell desceram lentamente pelo corpo do vampiro.

- Se continuar me perseguindo assim, eu não vou acreditar naquela história de que eu não valho o sacrifício, peixinho.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Ter Out 18, 2016 1:11 am

A prolongada existência de Petrus aliada à falta de planos para o futuro fez com que o vampiro perdesse a sensibilidade para admirar as pequenas belezas da vida. Montgomery simplesmente não se lembrava da última vez que erguera os olhos azulados para admirar o céu estrelado acima de sua cabeça. Naquela noite, a beleza da paisagem era ainda mais realçada pelas lanternas e, principalmente, pela companhia de Summer Fields.

As duas mãos unidas sobre a toalha vermelha formavam um contraste gritante com a cor do tecido. A pele de Summer era naturalmente branquinha, mas Petrus conseguia parecer ainda mais pálido que a garota. Os dedos compridos inicialmente estavam gelados, mas começavam a se aquecer gradativamente graças ao contato com o corpo quente da humana.

Por mais que aquele momento fosse apenas deles, Montgomery se obrigou a ser racional quando Summer começou a falar sobre os pais. Mesmo que as confissões inicialmente soassem apenas como lembranças superficiais, a atenção de Petrus se reforçou para que o vampiro não perdesse nenhuma informação importante que viesse daquele discurso.

A cabeça de Petrus se inclinou de lado para que ele pudesse encarar a menina e seus olhos azuis escuros se fixaram no rosto delicado de Summer, estudando com atenção as suas feições. Foi fácil notar que a garota se sentia saudosa, mas que não estava se torturando com aquelas lembranças felizes.

- Mas é claro que isso é magia.

Com a mão livre, Petrus apontou para as lanternas cintilantes acima deles antes de completar o seu raciocínio.

- Como você pode achar natural que a mistura de papel, ar e fogo se torne algo capaz de voar? Você não acha que é mágico que as nuvens do céu se condensem e caiam na terra na forma líquida? Ou que de um ovo brote uma vida? Eu sei que a ciência é capaz de explicar tudo isso, mas gosto de pensar que não deixa de ser magia só porque um cientista desocupado gastou anos de estudo até entender a lógica atrás de todas as coisas...

Era bizarro que justamente Petrus Montgomery fosse o dono daquele discurso otimista e idealizado sobre as belezas do mundo. A presença de Summer tinha o impressionante poder de fazer o vampiro enxergar o lado positivo de todas as coisas.

Com a atenção inteiramente voltada para Summer, o rapaz se apoiou num dos cotovelos para continuar com os olhos nela. Era impressionante como a filha dos Fields parecia ainda mais bonita vista daquele ângulo, iluminada pelas luzes cintilantes que brilhavam no céu acima deles. Os cabelos escuros espalhados pela toalha pareciam implorar por um toque e Petrus não resistiu à tentação de deslizar os dedos livres nos fios macios.

- Estar aqui com você também é mágico, Sum.

Os lábios de Petrus se curvaram num sorriso doce antes que ele se inclinasse para mais um beijo.

Por um longo tempo, os dois agiram como um típico casal de jovens. Algumas risadas ecoaram pelo deck enquanto os dois conversavam, brincavam e trocavam beijos e carícias, em uma sintonia que Petrus nunca encontrara ao lado de nenhuma outra mulher. As luzes das últimas lanternas já tinham se transformado em pontinhos distantes quando Montgomery e Summer perceberam que eram os últimos que ainda estavam ali, admirando o céu estrelado.

Mesmo que estivessem em uma cidade minúscula e que os índices de criminalidade se resumissem ao assassinato dos Fields, Petrus fez questão de acompanhar Summer até a casa que ela dividia com a prima. Como já estava muito tarde e não havia mais nenhum ônibus ou táxi circulando pelas ruas vazias, os dois jovens enfrentaram a caminhada. Mas a companhia um do outro tornava aquele trajeto bastante prazeroso.

- Eu gosto de Bar Harbor.

Montgomery soltou um risinho anasalado e divertido ao notar o olhar de incredulidade no rosto de Fields.

- É verdade, Sum. É uma cidade simpática. E em que outro lugar do planeta nós poderíamos fazer uma caminhada após a meia noite? Eu gosto da forma como as pessoas daqui cumprimentam a gente como se fôssemos velhos conhecidos. Eu entendo que você já esteja cansada da rotina, mas aposto que sentiria falta daqui.

O sorriso de Petrus se alargou ainda mais quando a expressão de insatisfação se manteve no rosto da menina. Para tirar aquele biquinho dos lábios dela, Montgomery parou na frente de Summer e a puxou para seus braços. Os dois estavam há cerca de três quadras da casa de Letitia, parcialmente ocultos por uma velha árvore cuja copa formava uma sombra ainda mais escura na rua já coberta pela penumbra da madrugada.

- Não faça esta cara. Ou serei obrigado a desfazer esse biquinho.

A promessa foi cumprida no segundo seguinte, quando o vampiro uniu seus lábios aos de Summer. No começo, foi apenas um beijo prolongado como tantos outros experimentados naquela noite. Mas logo Montgomery se viu invadido pelo mesmo formigamento que sentira na praça.

Subitamente, seus instintos se afloraram e as batidas aceleradas do coração de Fields começaram a ecoar nos tímpanos dele, assim como seus dedos passaram a sentir com mais intensidade o calor do sangue que circulava pelas veias dela. A voz da consciência de Petrus novamente repetiu que aquela era uma péssima ideia, mas o vampiro já havia ultrapassado o limite do qual não conseguiria mais voltar atrás.

No começo, ele parecia apenas um rapaz comum empolgado com as carícias de uma menina quando segurou Summer com mais firmeza, enlaçando-a num abraço apertado e encostando o corpo dela no tronco da árvore. Seus lábios desceram lentamente da boca de Fields até o pescoço delicado da menina. Os dedos frios afastaram alguns fios de cabelo antes que Petrus deslizasse o lábio inferior naquela pele macia, sentindo o perfeição o cheiro do sangue quente que circulava ali.

A escuridão da cena e a posição dos corpos não permitiu que Summer notasse o exato momento em que os caninos do vampiro se projetaram. A garota provavelmente só perceberia que algo ali estava muito errado quando sentiu a mordida.

A dor foi breve e não muito intensa, uma adaptação perfeita da espécie para não assustar a vítima. Os braços de Petrus continuaram enlaçando a menina com firmeza, mas no fundo ele sabia que Summer já estava entregue ao seu domínio. Depois que a mordida era dada, nenhuma vítima parecia ser capaz de reagir, mesmo com a consciência de que poderia morrer nas mãos daquele monstro.

Se Summer ainda tivesse alguma dúvida sobre as intenções do rapaz com aquela mordida, a morena logo perceberia que não fora somente uma “carícia” menos delicada de um rapaz excitado. A boca de Petrus se manteve colada naquele ponto e ficou muito óbvio que Montgomery estava sugando o sangue dela.

O sabor era incomparável. Obviamente nenhuma erva poderia substituir o prazer de um vampiro diante de uma generosa dose de sangue quente, mas o gosto de Summer superava as melhores expectativas do experiente vampiro. O sangue dela era quente, ligeiramente adocicado, tão delicioso que Petrus chegou a pensar seriamente na hipótese de sugar até a última gota.

A consciência dele jamais o deixaria em paz se Montgomery se deixasse levar por aquela tentação e matasse Summer Fields, mas o vampiro só conseguiu interromper a mordida quando sentiu o corpo da menina amolecer em seus braços, já começando a ceder à fraqueza. Tão forte quanto o instinto de provar o sangue dela foi o impulso que fez Petrus recuar antes de tirar aquela vida.

O vampiro estava absurdamente assustado consigo mesmo quando encarou o rosto pálido de Summer, os olhos acompanhando um último filete de sangue que escorreu pelo pescoço delicado dela. Os caninos ainda estavam à mostra e manchados de vermelho vivo quando a voz rouca de Petrus ecoou num sussurro pela rua vazia.

- Me desculpe! Eu... eu não deveria ter feito isso!
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Ter Out 18, 2016 3:26 am

- Você deu o nome de Lúcifer pro seu gato???

A incredulidade estava carregada em cada uma das palavras de Alaric. Os olhos estavam arregalados e o queixo caído por mais uma vez ser surpreendido com a personalidade tão atípica de Letitia.

Qualquer um que visse a loira pela calçada e não soubesse dos seus sérios problemas mentais, diria facilmente que ela era apenas mais uma jovem doce, educada, criada para ser sempre simpática e ter o cuidado de não desagradar ninguém.

Era impressionante como, quanto mais Alaric tinha a chance de conhecer a jovem bruxa, mais ele se espantava com a diferença gritante que ela tinha das “moças normais”. E era ainda mais impressionante como aquela personalidade tão difícil só era capaz de deixa-lo ainda mais interessado.

A gargalhada ecoou por toda a pequena loja e Montgomery chegou a jogar a cabeça para trás durante a sua crise de risos. Quando ele finalmente cessou, sua barriga estava ligeiramente dolorida e uma pequena camada de lágrimas cobria os olhos azuis acinzentados, ainda com os lábios curvados em um largo sorriso.

- Você definitivamente vai ficar para a história, Diabinha. Só falta você me dizer que tem a cabeça de um bode como oferenda no andar de cima.

O sorriso preso nos lábios de Alaric ainda lembrava um pouco a sua grande confiança, mas também demonstrava a sincera diversão provocada pelo humor ácido de Mitchell. Quanto mais a loira parecia querer irritá-lo, mais o vampiro se divertia com as trocas de farpas.

Quando ele continuou a falar, entretanto, estava novamente assumindo a postura presunçosa, exibindo um sorriso sedutor enquanto se aproximava da dona da loja. O olhar astuto do gato foi completamente ignorado até que ele estivesse parado diante de Letitia, deixando um considerável espaço entre ela e as prateleiras às suas costas.

- Por que está tão curiosa a respeito da prefeitinha? Se eu já não te conhecesse o suficiente, diria até que está com ciúmes.

Alaric deu mais alguns passos, encurralando Letitia contra a prateleira. Suas mãos estavam enfiadas nos bolsos e ele não demonstrava nenhum real perigo, se não fosse pelo olhar astuto de quem não estava agindo com a mais pura inocência com aquela aproximação.

- Bom, eu disse que você não valeria o sacrifício...

Uma das mãos foi retirada do bolso e Alaric coçou o próprio queixo enquanto estudava o rosto de Letitia, tão próximo do seu. Seus sentidos apurados permitiam que ele escutasse cada uma das batidas do coração dela, o cheiro do xampu que vinha dos cabelos claros e até a essência do incenso impregnado nas roupas dela. As íris cinzentas passaram de um olho ao outro de Mitchell.

- Não disse que desistiria tão fácil.

Os dedos de Alaric deslizaram do seu próprio queixo para o de Letitia, tocando a pele macia e quente que contrastava com a sua frieza. Ele mordeu o lábio inferior enquanto se deliciava com a sensação de ter o corpo da bruxa tão perto do seu.

Ao invés de investir ainda mais naquela proximidade, o olhar de Montgomery finalmente desviou do rosto dela para pousar em um objeto na prateleira, logo atrás dos fios loiros. Como se os dois não estivessem tão perto que poderiam se beijar, a postura de Alaric se tornou mais relaxada e ele puxou com a mão um apanhador de sonhos, com a testa franzida.

- Eu sempre tive curiosidade pra saber se essas coisas funcionam mesmo.

A madeira trançada que formava um círculo foi erguida diante do rosto dos dois, fazendo com que as penas penduradas estivessem bem diante do nariz de Letitia.

- Vou querer um desses. E não me importaria se você resolvesse enfeitiçar só pra garantir que realmente vá funcionar. E enquanto fizer isso, por que não me explica essa história de peixinho?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Ter Out 18, 2016 3:58 am

Mesmo depois que Petrus se afastou, Summer não conseguiu se mover. Os pés continuaram fincados na grama e o corpo inteiro congelado, sem reação alguma. A diferença é que sua mente sabia diferenciar o estado de choque que estava agora para a força sobrenatural que a prendera segundos antes.

Não importava o quanto a jovem Fields fosse cética. Não havia nenhuma explicação na ciência para o que ela havia acabado de sentir. Cada fibra do seu corpo sabia que o que estava acontecendo não era natural. Ela podia sentir o sangue esvaindo do seu corpo, podia sentir as presas suaves de Montgomery em sua pele, mas continuava estática, como uma boa moça lhe servindo a refeição merecida.

Com as mãos de Petrus longe do seu corpo, Summer não teve mais dúvidas de que poderia correr se assim desejasse. Mas sua mente ainda estava tentando processar o que havia acabado de acontecer, procurando desesperadamente pelas explicações cientificas para o que era impossível de aceitar como sobrenatural.

Como se ainda estivesse presa em um sonho, a menina ergueu uma das mãos até tocar o pescoço. O ferimento era minúsculo e não doía, mas foi o toque úmido e pegajoso em sua pele que fez com que ela recuasse a mão, virando os dedos para tentar enxergar no escuro.

O sangue vermelho manchava sua pele até mesmo na escuridão, sem deixar mais nenhuma dúvida sobre o que havia acabado de acontecer ali. Não havia nenhuma explicação lógica a imagem que Petrus exibia naquelas sombras. Era ridículo, impossível e ela certamente havia terminado de enlouquecer. Mas sua mente havia aceitado que estava diante de um vampiro.

Talvez tivesse sido apenas o reflexo, mas quando Summer viu que Petrus estava se aproximando, ela imediatamente recuou, soltando um gritinho baixo de surpresa. A palma da mão estava novamente cobrindo o lugar por onde o rapaz havia sugado o seu sangue, como se aquele gesto fosse ser o bastante para detê-lo.

Summer estava diante de um vampiro, mas a única coisa que conseguia pensar era em como havia sido inocente. Ela não conhecia Montgomery, mas havia se deixado iludir por um completo estranho, andando tão tarde da noite ao lado de um completo psicopata que provavelmente a teria matado para saciar a sua sede.

Um novo passo de Patrus fez com que a menina recuasse, erguendo um dos braços para impor uma distância. Mesmo no escuro, seu rosto estava contorcido em pânico, se odiando a cada segundo por ter se colocado naquela situação.

- Fique longe de mim.

A voz que havia soado com tanta ousadia em sua cabeça ecoou ridiculamente amedrontada aos seus ouvidos e Summer se odiou ainda mais ao perceber que estava prestes a chorar. Ela queria desesperadamente sumir dali, se encolher sob as cobertas como uma criança apavorada e esperar que aquele pesadelo chegasse ao fim. Mas também não queria demonstrar a sua fraqueza para dar ainda mais força ao vampiro.

- Eu estou falando sério. Se você der mais um passo, eu vou gritar.

Aquela não era exatamente uma grande ameaça, porque considerando o pouco que ela sabia sobre os vampiros dos filmes e livros, Petrus seria capaz de destroça-la em questão de segundos. Mas como não sabia absolutamente nada sobre vampiros “de verdade”, acreditar que Montgomery estava mesmo arrependido era sua melhor arma.

A luz do luar era protegida pelos galhos grossos da árvore, mas a vista de Summer já havia se adaptado a escuridão o suficiente para que ela enxergasse o rosto de Petrus com clareza. Era impossível controlar a repulsa ao ver os caninos expostos em uma expressão tão pouco humana. Uma ruga havia se formado entre as sobrancelhas escuras e a respiração de Summer estava rápida e entrecortada.

Um latido soou distante, provavelmente por algum cachorro em alerta. E embora Petrus continuasse imóvel e sem sinal de que a atacaria novamente, Summer se sobressaltou de tal forma que foi como se o rapaz estivesse novamente sugando todo o seu sangue. Mesmo ainda se sentindo mole, ela finalmente sentiu as pernas desgrudando do chão e correu o mais rápido que pôde em direção a casa que dividia com a prima.

Algumas gotas de sangue haviam deslizado até manchar o tecido branco do vestido, mas Summer não deu a chance de esbarrar com Letitia no caminho até seu quarto, onde trancou a porta correndo, atravessando com passos apressados para se certificar de que a janela também estava fechada, como se Petrus fosse surgir de repente para terminar o serviço.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Ter Out 18, 2016 10:59 pm

Embora tivesse a plena consciência de que estava sendo encurralada por um vampiro experiente e que ele poderia tirar a vida de Letitia num movimento mais rápido que os reflexos dela, a bruxa não se mostrou intimidada com aquela aproximação. Durante todo o tempo, Letty manteve um sorrisinho tranquilo nos lábios e apenas acompanhou com um olhar irônico os gestos de Alaric e a maneira como ele se esforçava para tentar seduzi-la.

Os amuletos espalhados pela loja e os feitiços de proteção que Mitchell lançara em si mesma faziam com que a bruxa fosse imune aos poderes de um vampiro. Qualquer garota comum certamente já teria cedido ao brilho dos olhos cinzentos, à voz grave e melodiosa e ao comportamento sedutor de Montgomery. Mas Letitia precisava admitir para si mesma que, mesmo sem a influência daquele poder sobrenatural, Alaric era tentador.

A beleza dele estava acima da média, sem a menor dúvida. E o fato dele ser um vampiro acrescentava um tempero a mais naquela mistura. Era agradável pensar que ele poderia ter a mulher que quisesse, mas continuava seguindo o rastro de uma bruxa. Talvez Alaric fosse motivado apenas pela adrenalina de uma conquista difícil, mas essa não era uma possibilidade que incomodava Letitia. A loira não tinha a menor pretensão de viver um romance com uma criatura como ele.

- Doze dólares.

Os olhos da bruxa seguiram os dedos de Alaric até o apanhador de sonhos que ele acabara de puxar de uma das prateleiras bagunçadas.

- Sem garantias, não aceito devolução caso não funcione. Estou avisando com antecedência que eles nunca foram testados por seres sem alma que dormem dentro de caixões de madeira.

Embora conhecesse muito bem os hábitos de um vampiro, Letitia gostava de provocar Montgomery com aquele tipo de insinuação vinda de filmes e livros fantasiosos. Como ela também detestava ser comparada com bruxas que voam em vassouras e tem verrugas peludas no nariz, era fácil concluir que aquelas lendas tolas irritavam os demais seres do mundo sobrenatural.

A confusão de Alaric com relação ao apelido fez a cabeça de Letitia tombar para trás numa gostosa gargalhada. Um sorriso divertido ainda brincava nos lábios da loira quando ela recuperou o fôlego e voltou a encarar o vampiro a sua frente. Numa clara provocação, Mitchell levou uma das mãos ao peito dele e ficou brincando com os botões da camisa de Montgomery, sem abri-los de fato.

- A sua memória está ruim devido à idade avançada ou é apenas um reflexo da sua dieta rigorosa à base de malvas brancas? Já tivemos esta conversa. Você é um peixinho, lembra? Um peixinho lindo que não aguenta ficar dois segundos fora da água. Mas se isso te consola, saiba que você é muito bom no que faz dentro da sua zona de conforto. Você nunca será nada além de um vampiro, mas é um grande sugador.

As mãos pequenas da bruxa foram pousadas sobre os ombros de Alaric e os dedos deslizaram delicadamente pelos braços dele, acompanhando sem nenhuma pressa o contorno dos músculos evidentes mesmo sobre o tecido da camisa. A expressão divertida no rosto de Letitia indicava que aquilo também fazia parte do jogo e era difícil prever até onde a loira pretendia ir naquela brincadeira.

As coisas ficariam mais claras – ou talvez mais confusas ainda – para Alaric quando Letitia puxou o cordão dourado que ficava pendurado em seu pescoço. De dentro do decote, a bruxa tirou uma chave que foi desacoplada do cordão e estendida na direção de Montgomery. Os olhos azuis giraram com uma nítida impaciência diante do semblante confuso do vampiro.

- Inteligência não é a maior das suas qualidades, eu sei. Mas é frustrante ter que explicar tudo tão detalhadamente, sabia?

A cabeça de Mitchell se moveu lentamente, indicando a porta principal da loja que continuava entreaberta desde a entrada de Alaric.

- Tranque a porta. Assim como você entrou, qualquer imbecil pode entrar sem se anunciar. E, acredite ou não, eu ainda tenho uma reputação a zelar nesta cidade.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Qua Out 19, 2016 1:28 am

Um único salto bastaria para que o vampiro colocasse um fim trágico naquela fuga tola e calasse de uma vez por todas a voz de Summer Fields. Entretanto, enquanto a menina corria desesperadamente para longe dele, Petrus continuou imóvel no meio da calçada. Apenas os olhos escuros acompanharam os movimentos de Summer, como se ele fosse uma vítima dos próprios poderes e estivesse petrificado.

Aquela inércia não permitiu que Montgomery sequer pensasse em limpar a memória de Summer com a hipnose. Sempre que “acidentes” assim aconteciam, Petrus e Alaric costumavam resolver o problema logo após a mordida, fazendo com que as vítimas se esquecessem por completo de todos os acontecimentos das últimas horas. Naquela noite, contudo, Petrus estava chocado demais para assumir qualquer comportamento racional.

O delicioso sabor do sangue ainda estava presente na boca do vampiro, mas nem mesmo isso era capaz de explicar aquele tropeço. Petrus havia decidido pela “alimentação” à base de malvas há poucos dias, não era o suficiente para que ele já estivesse tão louco de sede a ponto de perder o controle das próprias ações.

O que acontecera naquela madrugada fazia com que Montgomery se enxergasse novamente como um vampiro recém-transformado, selvagem, ainda incapaz de controlar os instintos primitivos da espécie. Era chocante que a sua mente tivesse berrado “não” e ainda assim Petrus tivesse ido até o fim naquela loucura.

Mais grave que o descontrole era o fato de que aquele tropeço colocava um fim precoce no plano que levara os Montgomery até a pequena cidade de Bar Harbor. Depois que Petrus revelara seu maior segredo a Summer, eram nulas as suas chances de se reaproximar da menina para tentar sondar a verdade sobre o casal Fields. Naquele exato momento, muito provavelmente a garota estava se desmanchando de chorar nos braços da prima e Petrus sabia que a atitude mais inteligente era sumir do alcance de uma bruxa louca e irada.

A culpa trouxe um gosto amargo à boca do vampiro, mascarando um pouco o sabor delicioso do sangue. Além de se sentir culpado por ter usado Summer daquela maneira cruel depois de um encontro tão doce, Petrus não sabia com que cara iria encarar o irmão e confessar a Alaric que ele arruinara o plano.

O caçula estava tão preocupado com a possibilidade de Alaric estragar tudo que sequer pensou que ele mesmo acabaria fazendo uma grande besteira. Petrus se sentia péssimo por ter julgado o comportamento do irmão tantas vezes e de forma tão injusta. Mas o vampiro começou a se questionar se estava sendo mesmo tão rigoroso em seu julgamento sobre Alaric quando retornou para o casarão que dividia com o irmão e encontrou os cômodos vazios.

Já passava de meia noite e a cidade estava deserta, não havia nem mesmo um bar aberto que justificasse a permanência de Alaric na rua naquele momento.

Se a situação fosse outra, Petrus surtaria com a possibilidade do irmão ter cedido ao tédio e decidido aprontar alguma coisa na cidade. Mas agora, depois do que ele próprio acabara de fazer, Petrus quase torcia para que Ricky estivesse fazendo alguma besteira tão grande quanto a dele. Seria menos desesperador se o erro de Petrus não fosse a única razão para que os dois abandonassem o plano Fields.

Com um peso anormal sobre os ombros, o vampiro desabou no sofá velho da sala, erguendo dele uma nuvem de poeira que seria extremamente incômoda se Petrus ainda respirasse. Os olhos azuis escuros fitaram o teto por um generoso tempo, como se houvesse ali algo mais interessante que a pintura descascada.

A imagem do olhar do medo e da repulsão refletidos no rosto de Summer jamais sairia da memória de Montgomery. Naquele momento, Petrus desejou mais do que nunca ser um humano livre de maldições. Depois dos momentos vividos com Summer naquela noite, tudo o que Montgomery queria era ser o rapaz normal que arrancara sorrisos dela a noite toda e não o monstro selvagem que provara seu sangue num momento de descontrole.

A ideia de rever Summer e ter que lidar novamente com aquela expressão negativa tornava urgente a fuga dos Montgomery para longe de Bar Harbor. Petrus tentou ligar para o irmão, mas foi obrigado a mandar uma mensagem depois que três ligações foram encaminhadas para a caixa postal.

- Onde você se meteu? – a voz de Petrus estava irritada na gravação, mas logo o caçula soou arrasado e com uma entonação derrotada – Eu fiz besteira, Ricky. Precisamos ir embora agora.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Qui Out 20, 2016 2:21 am

- Caixões de madeira?

Alaric franziu o nariz em uma careta forçada, como se Letitia tivesse acabado de falar uma grande besteira de uma realidade que deveria conhecer muito bem. A cabeça loira foi balançada de um lado ao outro em negação antes que ele completasse, ainda com um ar quase ofendido.

- Você está precisando se atualizar, a literatura moderna já provou que nós, vampiros, não dormimos em caixões. Somos bonitões que dirigismos volvos prateados por aí.

Ele ergueu um dos ombros, ponderando por um segundo com a associação que fazia ao “Sr. Cullen”, seguindo a brincadeira iniciada por Mitchell sobre os clichês relacionados a criaturas sobrenaturais. Ao contrário de Letitia, Ricky já havia se acostumado e se divertia com as comparações esdrúxulas que as pessoas tinham sobre vampiros.

- Embora a gente também não brilhe no sol.

Quando a chave da frente da loja lhe foi oferecida, os olhos acinzentados acompanharam com bastante interesse o movimento da mão de Letitia próximo ao decote. Sem o menor embaraço, ele mordeu o lábio inferior ao sustentar o olhar por onde a chave havia surgido até finalmente erguer as íris claras para encarar a menina.

O sorriso de satisfação se espalhou pelo seu rosto. A atitude de Mitchell havia sido repentina demais para que ele comemorasse a vitória antes da hora. A loira já havia provado dezenas de vezes que era surpreendente e aquela poderia ser apenas mais uma emboscada em que ele cairia como um patinho. Mas ainda assim, Montgomery mergulhou de cabeça naquele jogo.

Ele deu mais um passo para frente e desta vez chegou a roçar o seu corpo ao de Letitia. O braço foi erguido até que o apanhador de sonhos fosse empurrado para a prateleira logo acima da cabeça dela. Ao invés de se afastar em seguida, ele apoiou o antebraço na superfície de madeira da lateral da prateleira, deixando seus dedos suspensos roçando no topo da cabeça loira da menina.

Por ser mais alto que a bruxa, Alaric a encarava de cima com um sorriso malicioso nos lábios quando ergueu a mão para tocar o material frio da chave, cobrindo as mãos de Letitia com seus dedos.

- Tranque você.

As palavras foram sussurradas, mas ao invés de se afastar e liberar o caminho para que Letitia cumprisse a ordem, ele se aproximou ainda mais. A chave foi deixada de lado quando ele levou seus dedos até o rosto da menina, sentindo a maciez da pele quente enquanto deslizava em uma carícia até alcançar a orelha dela.

- Tenho certeza que sua magia é melhor do que a cena lamentável que eu vi quando cheguei.

Quando Alaric terminou de falar, seu corpo estava inteiramente colado ao de Letitia. A mão suspensa sobre a cabeça dela finalmente desceu até parar nas costas dela. Os dedos espalmados sobre o tecido leve já podiam sentir os contornos perfeitos do corpo da bruxa e foram ainda mais ousados quando puxaram o corpo dela, impedindo que ela se afastasse.

Os olhos cinzentos encaravam fixamente as íris azuis de Letitia e a cada segundo a brincadeira se tornava mais séria com a expressão intensa de Alaric. Seu corpo inteiro já começava a reagir com aquela provocação, cada vez mais envolvido.

- Tranque a porta, Diabinha.

Mais uma vez, Alaric impediu que a loira cumprisse suas palavras quando abaixou o rosto alguns centímetros até capturar os lábios dela em um beijo intenso.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qui Out 20, 2016 2:56 am

Na rua escura e tranquila em que Summer e Letitia viviam, as casas eram afastadas umas das outras, de modo que nenhum vizinho havia notado a luz que vinha da janela do segundo andar durante a madrugada.

As cortinas estavam fechadas, mas em meio a escuridão, ainda era fácil notar a luminosidade que vinha do quarto de Summer Fields. No interior da casa, os pés descalços pisavam no carpete enquanto ela caminhava de um lado para o outro, sem o menor sono, mesmo com a hora tardia.

A adrenalina ainda corria em suas veias e ela revivia a cena com Petrus, tentando encontrar algum significado, algum detalhe perdido que fizesse sentido. Sua mente trabalhava feroz, mas o pensamento mais constante era que não havia uma explicação lógica para o que havia acabado de acontecer.

As gotinhas de sangue que haviam pingado no seu vestido branco já estavam ressecadas, mas a todo instante Summer parava diante do espelho para conferir as duas feridas quase imperceptíveis. Não havia dor, mas o que mais incomodava Summer era se lembrar do momento em que Petrus sugava seu sangue. O que tornava aquele momento ainda mais assustador era o fato de ter gostado, mesmo que por um segundo, mesmo que ainda não estivesse pronta para admitir.

Summer parou mais uma vez em frente ao espelho oval que refletia sua imagem de corpo inteiro. A mão que tampava seu pescoço serviu para afastar os fios escuros, revelando mais uma vez a imagem que ela já havia decorado.

As pálpebras se fecharam por um segundo e ela reviveu aquela cena mais uma vez. A intensidade das lembranças recentes era tão forte que Summer se sentia novamente sendo transportada para dentro da cena. A única coisa que a trouxe de volta a realidade foi um estalido.

As pálpebras se ergueram de imediato apenas para encontrar o espelho trincado a sua frente, em uma rachadura que cortava seu rosto em diagonal. O susto fez com que Summer recuasse um passo, apenas para que no instante seguinte a porta do quarto, trancada, abrisse abruptamente para bater em seguida, com um forte estrondo.

Os olhos azuis estavam arregalados em pânico, e quando ela achou que havia acabado, a janela abriu em um rápido deslize e as cortinas foram jogadas para trás com uma forte rajada de vento. Summer se virou para procurar uma justificativa para aqueles fenômenos, mas nenhuma árvore da rua parecia se mover, enquanto seus cabelos eram jogados ferozmente para trás.

Pequenos incidentes costumavam acontecer em sua vida, mas era a primeira vez que a bruxa vivenciava com tanta intensidade uma amostra do poder que ela desconhecia. A única coisa em sua mente que explicava o pânico que estava sentindo, atendia pelo nome de Petrus Montgomery.

Não importava se estava no meio da madrugada, se Letitia estava no quarto dormindo ou completamente alheia ao que a prima estava passando. Summer simplesmente não conseguiria dormir e temia o que mais poderia acontecer até que o sol estivesse novamente nos céus.

Sem conseguir raciocinar do perigo que estava correndo, mesmo que estivesse indo em direção exatamente a boca do lobo, ela deixou mais uma vez a casa, desta vez procurando por respostas.

O velho jeep azul herdado do pai estava abandonado na garagem sem utilidade. O salário que recebia trabalhando com garçonete era suficiente para ajudar as despesas da casa, mas usar o carro todos os dias era um luxo facilmente dispensável. Naquela madrugada, contudo, foi a sua salvação.

O caminho que levava até a casa alugada pelos Montgomery era quase todo contornando ao lago encoberto pela escuridão, e Summer não cruzou com nenhum outro carro até avistar a casa cercada por árvores, esquecida às margens do lago.

Ela poderia odiar diversos aspectos sobre a pequena Bar Harbor. Mas precisava admitir que o fato dos moradores saberem praticamente tudo que acontecia naquele lugar havia sido bastante útil. A casa onde os irmãos Montgomery agora ocupavam havia ficado vazia por um longo período, e quanto o lugar finalmente foi ocupado, não faltaram comentários durante alguns clientes na Alice’s.

Summer tremia quase da cabeça aos pés quando parou diante da porta de madeira, protegida pela varanda aconchegante. O vestido branco ainda estava em seu corpo, mas agora a jaqueta surrada que usava na saída do trabalho escondia a mancha de sangue perto da sua gola.

Os cabelos negros haviam ficado bagunçados durante a suspeita ventania em seu quarto, mas era a palidez que mais chamava a atenção em sua aparência quando seus olhos pousaram novamente em Petrus.

Por um segundo, Summer pensou em recuar um passo, talvez fugir de novo. Ela ainda não sabia até onde poderia confiar no rapaz de olhos azuis, mas havia chegado até ali atrás de respostas.

- O que você fez comigo?

Os olhos claros estavam ligeiramente arregalados e Summer torcia uma mão a outra, demonstrando a sua ansiedade em lidar com aquela situação.

- Eu vou... vou me tornar...

A palavra “vampiro” ainda soava tão absurda que Summer quase se xingou por sequer cogitar. Sua mandíbula travou por um instante até que ela conseguisse completar a frase.

- Como você? É por isso que estou fazendo coisas estranhas?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Qui Out 20, 2016 3:11 am

O olhar de Alaric foi sustentado pela garota e a expressão firme e confiante de Letitia não se abalou em nenhum momento. Se tudo aquilo era mesmo só um jogo, os dois mostravam que conheciam com profundidade as regras. A única reação que a bruxa não conseguiu controlar por completo foi o pequeno salto que seu coração deu um segundo antes do beijo acontecer.

Assim como o resto do corpo do vampiro, os lábios de Montgomery também eram frios. Contraditoriamente, aquele beijo gelado conseguiu elevar a temperatura de Mitchell ao ponto de colorir suas bochechas com um tom rosado. Ao invés de se esquivar daqueles toques, Letitia se esticou até conseguir enlaçar o pescoço de Alaric num abraço apertado enquanto acompanhava os movimentos dos lábios dela.

O vampiro não tinha aquele problema, mas foi evidente que o beijo intenso foi o bastante para tirar o fôlego de Mitchell. Ela permaneceu agarrada aos cabelos de Alaric enquanto retribuía às carícias no ritmo ditado por ele. Havia entre eles uma inegável paixão, mas Letitia não era tola o suficiente para encarar aquilo como um gesto de carinho e muito menos amor. Assim como Montgomery já lhe dissera uma vez, ele poderia encontrar em qualquer mulher o que queria dela. E era apenas esse desejo que a bruxa pensava em saciar naquela noite.

Letitia já havia dado infinitas provas de que não era uma garota recatada do interior. Além disso, Alaric parecia ser o cara ideal para uma noite casual. Um rapaz bonito, uma relação sem riscos de uma gravidez indesejada, sem o constrangimento de conviver com ele no futuro. Em breve ele iria embora de Bar Harbor e aquela noite se perderia na memória dos dois.

Ficou muito claro que a bruxa pretendia ir até o fim naquele jogo quando ela moveu discretamente uma das mãos e fez com que o ruído do clique da tranca da porta ecoasse por toda a loja.

O minúsculo sofá colocado no canto da loja definitivamente não era o lugar mais confortável do mundo, mas nenhum dos dois parecia se importar com aquele detalhe quando os corpos desabaram sobre o estofado. Em poucos minutos, várias peças de roupas já tinham sido lançadas para o chão, adicionando mais alguns itens à desordem natural da loja.

Em nenhum momento, Letitia demonstrou desconforto ou insatisfação com os toques de Alaric. Ao contrário, não havia hesitação ou insegurança nos gestos dela, muito menos qualquer manifestação de repulsão por estar com um vampiro. O comportamento natural de Mitchell não inspirava maiores cuidados por parte de Montgomery, Letitia demonstrava que estava plenamente convicta daquela decisão.

Era difícil para Letitia calcular quanto tempo havia durado, mas a escuridão já tinha tomado conta de Bar Harbor quando os dois finalmente se deram por satisfeitos. A única luz acesa no interior da loja vinha da luminária próxima ao balcão, mas algumas velas coloridas terminavam de se queimar em alguns pontos do cômodo, contribuindo para o alívio da penumbra.

Os corpos ainda estavam entrelaçados e apertados no sofá estreito enquanto Letitia tentava recuperar o fôlego. Antes que Alaric tivesse a chance de abrir a boca para fazer um dos seus comentários arrogantes, o mesmo pé que minutos antes o acariciava empurrou uma das pernas de Montgomery para fora do sofá.

- Eu estou com sono. E preciso ir pra casa, já está tarde.

Enquanto falava e se aproveitando da surpresa de Alaric com aquela reação inesperada, a bruxa empurrou também a outra perna do vampiro para fora do sofá, obrigando-o a se levantar para não desabar no chão da loja. Letitia se levantou logo em seguida e recolocou a saia primeiro antes de pegar a blusa jogada num canto do sofá.

Como Alaric não parecia ter entendido se ela estava falando sério ou se era apenas mais uma das provocações que eles faziam um com o outro, a bruxa se utilizou de um feitiço para fazer todas as peças de roupas de Montgomery levitarem até as suas mãos apenas para empurrá-las para Alaric logo em seguida.

- Vamos, vista-se. Não achou que dormiria comigo, achou? Aliás, você dorme?

Os olhos azuis giraram com uma nítida impaciência enquanto Letitia fazia um gesto com a mão, como se estivesse enxotando um cão sarnento que invadira a sua loja. O clique da porta sendo destrancada novamente ecoou enquanto Mitchell tentava empurrar Alaric para longe do sofá. Os sapatos dele já flutuavam próximos à porta, deixando evidente que Mitchell tinha uma certa urgência em tirá-lo dali.

Aquele comportamento bizarro poderia ser só mais uma das esquisitices da bruxa, mas a verdade era que desta vez Letitia tinha uma razão muito lógica para enxotar Montgomery da loja. A loira estava desesperada para tirá-lo de cena antes que os instintos do vampiro percebessem o cheiro do sangue que manchava o estofado velho do sofá.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Qui Out 20, 2016 11:37 pm

Não era raro que Petrus passasse dias inteiros sem nenhuma notícia do irmão mais velho. Embora os dois vivessem juntos e fossem grandes parceiros naquele estilo de vida nada usual, eles tinham rotinas independentes. O caçula conhecia muito bem os hábitos de Ricky e normalmente não se incomodava com os sumiços e as “viagens” do irmão. Mas a ausência do primogênito naquela noite já começava a gerar uma indisfarçável preocupação na cabeça de Petrus.

Definitivamente não havia nos arredores de Bar Harbor nenhuma distração que agradasse Alaric. Os estabelecimentos fechavam cedo, não existia nem mesmo uma casa noturna na pequena cidade. Não seria difícil para o filho mais velho dos Montgomery usar de sua beleza e de seus poderes sobrenaturais para atrair uma “refeição” naquela noite, mas Alaric havia prometido ao irmão que seria fiel à dieta de malvas brancas durante o período em que ficariam no interior.

Esta conclusão fazia Petrus experimentar novamente o gosto amargo da culpa. O caçula jamais se perdoaria por ter quebrado a promessa que ele obrigara o irmão a fazer. Alaric estava se sacrificando por causa de Petrus e de seu plano com os Fields, sem imaginar que o próprio irmão colocaria tudo a perder num momento vergonhoso de fraqueza.

O casarão estava imerso na mais profunda escuridão, mas os olhos azuis não tinham a menor dificuldade em enxergar as sombras fantasmagóricas dos móveis velhos e das árvores refletidas pelos vidros sujos das janelas. Da sala, ele só conseguia ouvir o ruído suave do vento arrastando algumas folhas secas pela rua vazia, sem nenhum sinal do motor do carro que anunciaria o retorno do irmão.

O celular já tinha sido jogado de lado depois que a quinta ligação foi encaminhada para a caixa postal sem que Alaric tivesse respondido à mensagem. No começo, Petrus se apegou à esperança de que o irmão estava bebendo ou fazendo alguma besteira pela cidade, mas aquele sumiço prolongado e não planejado começava a criar cenários muito menos favoráveis na cabeça do caçula.

Os dois tinham sido muito cuidadosos desde a chegada à Bar Harbor, mas agora Petrus já começava a se perguntar se um caçador não teria seguido os rastros deles até a cidade na qual os Fields tinham sido assassinados. Por mais que aquela existência limitada tivesse transformado Montgomery num ser desprovido de grandes emoções, ele se via invadido por um profundo desespero ao imaginar que Alaric poderia estar morto.

A companhia do irmão sempre fora o único consolo de Petrus, desde o começo daquela maldição. Seus pais foram mortos de maneira brutal, ele foi obrigado a se afastar dos amigos e da noiva e precisou dar as costas para todos os planos que construíra para o futuro. O mundo que Montgomery conhecia ficou para trás quando ele assumiu que era um monstro. Mas a única coisa que nunca mudara era o amor e a amizade que o ligavam ao irmão mais velho. Perder Alaric seria o último e o pior castigo que o destino poderia lhe impor.

Por estar tão angustiado com aquela possibilidade, Petrus se sobressaltou ao ouvir batidas na porta. O primeiro rosto que veio à mente do caçula foi o de Alaric, mas aquela ideia foi abandonada no segundo seguinte. Ricky não tinha motivos para bater na porta da própria casa. Mais do que isso, o ruído de um coração batendo na varanda dava a Petrus a certeza de que não era um vampiro do outro lado da porta.

Já estava tarde demais e novamente a mente de Montgomery construiu a imagem ameaçadora de um caçador, mas caçadores também não costumavam bater amigavelmente na porta da casa de vampiros. Petrus não fazia ideia de quem encontraria na varanda quando abriu a porta, mas os olhos azuis captaram a última imagem que o vampiro imaginou que veria naquela noite.

- Summer?

A entonação soou num sussurro absurdamente confuso, era como se Petrus estivesse duvidando da própria sanidade. A única explicação lógica para a presença de Summer ali era que ele havia cedido ao cansaço e entrado em seu estado de hibernação, mas Montgomery logo se lembrou que vampiros não costumavam sonhar naquele tipo diferente de sono. Além disso, o perfume da garota e o calor que o corpo dela emanava eram reais demais.

Quando finalmente entendeu as dúvidas que tinham levado Fields até o casarão, os ombros de Petrus relaxaram. Ainda havia uma ruguinha de angústia entre os olhos azuis, mas ele não negaria explicações mais detalhadas à garota. Era o mínimo que Summer merecia depois de ter sido vitimada pelos instintos selvagens dele.

- Entre. Não podemos ter esta conversa aqui fora.

Petrus terminou de empurrar a porta e abriu espaço para que a garota passasse. Antes que Summer se recusasse ou se mostrasse intimidada com aquela proposta, Montgomery completou de forma direta.

- Se eu quisesse terminar o serviço, teria feito isso debaixo daquela árvore. Eu não vou te machucar mais.

A mordida não era dolorosa e costumava deixar uma marquinha discreta que sumia em poucos dias. Mas Petrus não tinha a menor dúvida de que seu gesto fora uma violência contra a humana. O fato dos dois terem saído juntos naquela noite só tornava o ataque ainda mais desprezível, como se Montgomery tivesse traído a confiança que Summer depositara nele.

Só depois que Fields entrou, Petrus tocou o interruptor e acendeu as luzes do pesado lustre da sala. A claridade o obrigou a semicerrar os olhos e fazer uma careta de desagrado, o que indicava que sua visão já estava muito bem adaptada à escuridão daquela noite.

- Se é isso que te preocupa, fique tranquila. Você não vai se transformar. Não é assim que funciona, Summer.

Muitas décadas já tinham se passado, mas Montgomery ainda se lembrava com perfeição da pior dor de sua existência. Enquanto o veneno se espalhava por suas veias e matava todas as células do seu corpo, Petrus implorou muitas vezes que a morte colocasse um fim naquela agonia. Saber que Summer não enfrentaria a mesma tortura era a única coisa que abrandava a culpa do vampiro.

- Eu só estava com sede e não consegui me controlar. – a expressão de Petrus não escondia o quanto aquilo era vergonhoso para um vampiro experiente como ele – Eu realmente sinto muito. Eu perdi o controle, eu não queria que a noite terminasse assim.

O semblante do vampiro se contorceu numa sincera confusão com as palavras finais de Summer. Ele sacudiu a cabeça em negativa e cravou os olhos nela enquanto tentava entender do que a menina estava falando.

- Coisas estranhas? Que tipo de coisas? Seja o que for, Sum, eu te garanto que não sou o responsável. Não fiz nada além de tirar um pouco do seu sangue, eu te garanto que não te passei a maldição.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Remus J. Lupin em Sex Out 21, 2016 1:44 am

Alaric tinha uma longa e tumultuada experiência com o sexo feminino, de modo que a forma com que Letitia o expulsava da loja com nítida impaciência não era inédito no seu currículo. O vampiro era extremamente atraente e qualquer humana se derreteria aos seus pés sem precisar o uso da hipnose. Mas aquilo não descartava breves relacionamentos com outras vampiras.

As mulheres da sua “raça” costumavam ser mais ousadas que as humanas, mas praticamente todas apenas mergulhava em um joguinho de se fazer de difícil para gravar uma impressão mais marcante na memória do rapaz. Claro, nenhuma delas havia obtido sucesso. Se elas se entregassem de bandeja ou decidissem brincar o jogo, Alaric simplesmente partia para a próxima vítima.

Letitia obviamente vinha se mostrando diferente do padrão humano. A personalidade única era um desafio e a melhor atração que Alaric havia encontrado na pequena cidade. O fato de correr sangue bruxo nas veias de Mitchell apenas tornava aquele interesse ainda mais envolvente.

Historicamente, bruxos e vampiros se odiavam. O que obviamente mantinha o padrão na conturbada relação entre Alaric e Letitia. Mas algo na bruxa sempre o incentivava a continuar naquele jogo de provocações.

Embora não devesse ser nenhuma surpresa o modo como estava sendo expulso, Alaric se surpreendeu quando seu peito se comprimiu em um desapontamento. Ele já não se lembrava mais quando havia deixado de sentir as emoções mais verdadeiras para um humano. Sua vida se resumia ao tédio e alguns momentos de diversão sem realmente se envolver. Não era uma experiência agradável voltar a sentir alguma coisa, se fosse começar logo com a decepção.

O sorriso continuou no seu rosto e, apesar dos gestos apressados da bruxa, ele vestiu a calça com movimentos lentos e a encarando todo o tempo. A camisa foi jogada pelos seus ombros e os botões abotoados lentamente enquanto ele sacudia a cabeça em reprovação.

- Durmo em caixões de madeira, lembra?

Os cabelos loiros estavam ligeiramente bagunçados após a relação íntima, mas o brilho de satisfação ainda preso em seus olhos o deixava ainda mais atraente. O abdome perfeito era liso e aos poucos foi escondido até que o último botão estivesse fechado.

- Me expulsar desta forma faz parecer que você não se divertiu.

Alaric arqueou as sobrancelhas em uma forçada expressão de ofensa. Ainda descalço e com os sapatos presos em seus dedos, ele se aproximou de Letitia apenas para parar ao lado da porta, tocando a maçaneta com a mão livre.

- E você pode dizer o que quiser, mas ninguém consegue fingir aquele gemido tão bem.

O sorriso convencido se alargou enquanto Alaric tentava esconder a sua insatisfação em deixar a loja. Era mais fácil provocar Mitchell do que admitir que aquela noite havia sido completamente diferente de tudo que ele havia esperado. E ainda mais difícil admitir que começava a ver a bruxa de cabelos loiros com outros olhos, de uma forma que ele já havia descartado ser possível.

***

Ao contrário dos mitos sobre vampiro, os Montgomery não tinham a menor dificuldade de andar sob a luz do sol. A claridade incomodava um pouco mais as íris sensíveis, mas eles não queimariam e muito menos brilhariam com a luz natural do dia.

Apesar de não ter nenhuma justificativa fisiológica, Alaric odiava as manhãs. Vampiros não só dormiam como ele também se sentia exausto quando precisava sair da cama antes de um horário decente, vulgarmente conhecido como a hora do almoço.

O mal humor matinal já era um velho convencido, mas surpreendentemente, o Montgomery mais velho sorria abertamente na manhã seguinte. Nem mesmo a tediosa Bar Harbor com seus moradores exageradamente simpáticos era capaz de irritá-lo e ele tinha um sorriso fixo nos lábios enquanto caminhava pela calçada da rua principal.

A temperatura amena do outono permitia que ele vestisse apenas uma camisa verde de algodão e um jeans escuro. Os óculos de sol escondiam as íris cinzentas e os fios loiros estavam levemente arrepiados de maneira desleixada que apenas contribuía para sua bela aparência.

O semáforo estava fechado para os carros e o rapaz atravessou na faixa de pedestres, quando o Bel Air vermelho surgiu. Em um reflexo rápido, Alaric se virou para o carro e chegou a apoiar uma das mãos sobre o metal quente, mantendo o copo de café na outra.

Ele já havia visto o clássico carro de Letitia pela cidade e o sorriso que imediatamente abriu, mesmo após um quase atropelamento, mostrava que aquele encontro não era tão acaso quanto parecia.

Ao invés de xingar a motorista pela freada brusca, Alaric simplesmente contornou o carro e entrou pela porta do carona, direcionando a Letitia o seu melhor sorriso.

- Você sabia que poderia ter me matado se eu já não estivesse morto? Francamente, mulher... O que eu fiz pra você me odiar tanto?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sex Out 21, 2016 2:18 am

Summer ainda não se sentia inteiramente segura por estar a sós na presença de Petrus. Seu coração batia forte contra o peito e a adrenalina corria ferozmente pelo seu sangue, mas ela precisava ter coragem para enfrentar aquela conversa, pois não suportaria mais continuar sem respostas.

Montgomery havia surgido como uma bela atração em meio ao tédio de Bar Harbor, o que Fields não previa era que ele fosse agitar tanto a sua vida ao ponto de fazer o seu ceticismo sobre o mundo desaparecer ao descobrir a existência de vampiros, que deveriam pertencer apenas aos livros.

Os olhos azuis percorreram brevemente pela casa, observando os detalhes como se esperasse encontrar algum clichê como caixões ou morcegos, ou até mesmo espelhos cobertos. Mas além da poeira que cobria os móveis e da decoração impessoal, não havia nada de errado com o local onde os irmãos Montgomery viviam.

Durante toda a conversa, Summer manteve os braços rodeados ao próprio corpo, como um abraço usado para proteger a si mesma. Ela passeava pela pequena sala enquanto Petrus falava, apenas como desculpa para não precisar encará-lo. Havia muita coisa a ser compreendida e se ele tivesse alguma capacidade de ler suas emoções, poderia descobrir o pensamento no fundo da sua mente sobre ter gostado daquele breve momento sob a árvore.

Quando ele chegou ao fim do discurso, entretanto, Summer se viu obrigada a se virar para encará-lo. Sua teoria de que os fenômenos estivessem associados a mordida logo foi jogada por terra, mas ela não sabia até onde isso era um alívio.

Petrus poderia não ser o responsável, mas alguma coisa ainda estava errada com ela. Além do mais, era a primeira vez desde todo aquele pânico que Summer sentia uma pontada de desapontamento por saber que havia apenas “alimentado” a sede de Montgomery. No fundo, ela continuava a mesma menina do interior.

A sala, embora empoeirada, era espaçosa e os sofás ficavam dispostos ao centro, de frente para uma lareira apagada. A porta de vidro que dava acesso a varanda estava fechada e a escuridão encobria a vista do lago do lado de fora.

Summer se encostou nas costas do sofá, ainda com os braços cruzados, e tentou colocar em palavras o que havia acontecido. Ainda era muito absurdo aceitar os fenômenos, principalmente dizê-los em voz alta. Mas afinal de contas, não havia nada ainda mais surreal do que estar contando aquilo para um vampiro.

- Algumas coisas aconteceram esta noite. Depois...

Ela não concluiu a frase, deixando no ar para que Petrus associasse ao que ele havia feito sob a árvore.

- Eu não sei explicar. Só não foram coisas normais. – Summer puxou o ar lentamente até encarar os olhos azuis, resumindo o desastre daquela noite. – O espelho do meu quarto quebrou sozinho. E um vento estranho entrou pela janela, mesmo sem nenhuma árvore balançando na rua... Era quase como se eu estivesse sendo assombrada.

Desta vez Summer conseguiu sustentar o olhar e encarou Petrus quase de uma forma acusadora.

- Eu não sei nada sobre você. Só o que sei é que chupa sangue e que essas coisas aconteceram logo depois de você ter feito o que fez!

A doçura que Summer sempre usava para esconder a tristeza em seu olhar foi deixada de lado conforme ela criava coragem para enfrentar Petrus. O rapaz ainda era um vampiro que poderia facilmente descarta-la. Ainda assim, o pânico começava a desaparecer para dar lugar a uma fúria abafada.

Ela havia confiado nele. Estava se deixando envolver depois de tantos anos, apenas para se surpreender daquela forma. Montgomery não era apenas um vampiro, como havia se aproveitado dela.

- No que você estava pensando? Você queria me transformar ou só iria beber o meu sangue até que eu morresse? Foi pra isso que me chamou esta noite, não é?

As palavras se tornavam cada vez mais carregadas com acusações e Summer deu um passo para frente, se desgrudando do sofá. Os braços gesticulavam enquanto ela falava, mas os olhos estreitados em fúria captaram o reflexo do fogo que surgiu repentinamente na lareira apagada.

Sua cabeça girou lentamente para o fogo que já estalava como se tivessem perdido um generoso tempo com o trabalho da lenha. A cor alaranjada refletia nos olhos azuis enquanto Summer encarava a lareira com uma mistura de medo e incredulidade.

- Foi você que fez isso?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Sex Out 21, 2016 9:15 pm

O pé de Letitia afundou no pedal do freio quando um vulto inesperado surgiu diante do carro. Como de costume, a bruxa não depositava cem por cento de sua atenção no trânsito, mas naquela manhã ela parecia ainda mais desatenta que o normal. Muito provavelmente porque a sua mente não parava de reviver a cena protagonizada justamente pela pessoa que ela quase atropelara.

A freada brusca fez com que os pneus do Bel Air vermelho cantassem pelo asfalto, mas as pessoas que passavam ao redor não deram mais que alguns segundos de atenção à cena, o que deixava claro que a pequena cidade de Bar Harbor já estava habituada às habilidades pouco elaboradas de Letitia Mitchell ao volante.

Os olhos de Letitia estavam tão estreitados que só era possível enxergar um pequeno risco das íris azuis quando Alaric Montgomery entrou no veículo. A naturalidade do vampiro deixava evidente que aquele encontro não fora tão casual quanto parecia e, por um breve momento, Letty se arrependeu de não ter pisado no acelerador ao invés de acionar o freio. Aquilo certamente não o mataria e só serviria para amassar a lataria do carro, mas seriam alguns segundos preciosos de satisfação.

- A sua vida é sempre assim? Você não trabalha, não tem responsabilidades, não assume nenhum tipo de obrigação? Simplesmente fica perambulando por aí e infernizando as outras pessoas? Eu até teria inveja de você se não fosse pelo fato de que aprecio muito as batidas do meu coração e o meu paladar humano.

A bruxa sabia que não adiantaria tentar colocar Alaric para fora do carro, então simplesmente pisou no acelerador e continuou o seu caminho sem perder tempo explicando ao passageiro qual seria o destino final naquela manhã.

- Admito que estou curiosa. Por que continua no meu rastro depois de já ter conseguido o que queria? Bar Harbor deve ser mesmo um buraco entediante.

De fato, a pequena cidade era um reflexo perfeito da calmaria. O que definitivamente não combinava com a maneira tresloucada como Letitia dirigia. Mesmo com pouquíssimos veículos nas ruas, a loira conseguia avançar semáforos, esbarrar o retrovisor em motoqueiros, cair em todos os buracos do asfalto. Era divertido perceber que os pedestres continuavam imóveis nas calçadas sempre que avistavam o Bel Air vermelho, mesmo que o sinal estivesse favorável a eles.

Naquela manhã de sábado, ao invés de pegar a rua principal do centro da cidade para chegar à loja de produtos esotéricos, Mitchell dirigiu por uma rua lateral menos movimentada. Montgomery só compreenderia quais eram os planos da loira naquela manhã quando, na tentativa de estacionar o carro diante de um supermercado, Letitia subiu com um dos pneus em cima da calçada e certamente ganhou mais alguns arranhões feios na calota.

- Vamos, está me fazendo perder tempo!

A habilidade de Letitia não era melhor na direção do carrinho de compras. Enquanto andava pelos corredores do mercado, a loira atropelou alguns pés, esbarrou em outros carrinhos e derrubou alguns produtos das prateleiras.

A princípio, parecia apenas uma manhã comum de compras para Mitchell. Os produtos no carrinho guiado por ela eram básicos e refletiram as necessidades humanas que os Montgomery haviam perdido com a transformação. Um pacote de pão de forma, geleia de morango, uma garrafa de suco de laranja, pó de café. Quando parou diante da prateleira de doces, Letitia não demonstrou o menor constrangimento em acrescentar uma caixa de bombons e cinco barras de chocolate ao seu carrinho. Nem mesmo a mais poderosa das magias tinha o mesmo efeito que o chocolate provocava nela. E, definitivamente, Letty precisava de algumas doses de felicidade agora que começava a se arrepender da decisão tomada na noite anterior.

A sessão de comestíveis foi deixada para trás e a bruxa chegou ao setor de higiene pessoal. Sem demonstrar nenhum constrangimento com a presença de Alaric, Mitchell puxou para o carrinho um pacote de absorventes e papel higiênico. O próximo passo dela foi parar em frente à prateleira com shampoos e condicionadores e, enquanto tentava localizar a sua marca preferida, ela viu o próprio reflexo no vidro de uma das janelas próximas.

O rosto de Letitia se contorceu numa careta quando ela se deu conta do quanto estava desalinhada. Seu rosto estava amassado e sem nenhum pingo de maquiagem, o que mostrava que a bruxa havia saído da cama direto para as compras. Os cabelos loiros tinham sido presos num coque bagunçado e certamente não tinham visto um pente naquela manhã. A calça jeans surrada já teria sido aposentada pela maioria esmagadora de todas as mulheres do universo, assim como a camiseta antiga. O tecido acinzentado já estava muito gasto, mas ainda assim era possível enxergar o logotipo do colégio onde Mitchell se formara. O All-Star branco nos pés dela precisava ser lavado desesperadamente.

Normalmente, Letty não se importava tanto com a própria aparência, mas o visual daquele dia era demais até mesmo para os padrões da bruxa. E era ainda mais incômodo pensar que Alaric estava ali, acompanhando aquele desastre na primeira fila da plateia.

- Imagino que o meu passatempo não esteja sendo divertido pra você. Mas podemos dar uma passada no açougue. Imagino que seja um estímulo mais agradável que as malvas.

Havia uma razão lógica para Letitia ter saído de casa sem nem mesmo dar uma breve olhada no espelho, mas a loira esperava que Alaric não ligasse os pontos ao vê-la jogar uma caixa de analgésicos no carrinho. As palavras de Mitchell continham as provocações de sempre, mas desta vez com o intuito de distrair o vampiro.

- Também preciso passar no hortifruti, mas sugiro que me espere em outro corredor. Preciso comprar alho.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Sex Out 21, 2016 11:52 pm

- Não. Foi você que fez, e você sabe disso.

Ao contrário de Summer, o vampiro não se mostrou surpreso com as chamas alaranjadas que vinham da lareira. Petrus já tinha uma vasta experiência no mundo sobrenatural e não teve dificuldade para reconhecer os poderes de uma bruxa nos relatos feitos pela garota. O fogo na lareira servia apenas para confirmar a hipótese dele.

Summer Fields, assim como seus pais, era uma bruxa. Era estranho pensar que os poderes dela nunca tinham se manifestado antes daquela noite, mas esta aparente contradição não abria brechas para nenhum outro tipo de explicação. Talvez os Fields escondessem a verdade dela para protegê-la ou simplesmente desejavam que a única filha tivesse uma vida normal. Ou talvez os poderes de Summer estivessem tão adormecidos que nem mesmo seus pais desconfiassem de sua verdadeira natureza.

A mordida de um vampiro não tinha o poder de desabrochar os poderes de um bruxo, mas talvez aquela noite tivesse servido para que Summer abrisse os olhos para o mundo sobrenatural. Inconscientemente, a mente dela havia derrubado a barreira da racionalidade no instante em que seus olhos captaram uma imagem que deveria existir somente nos filmes de terror.

- Eu reconheço que as suas acusações são lógicas, Summer. É mesmo uma coincidência muito grande que isto esteja acontecendo depois do nosso encontro. Mas como eu poderia transmitir para você um poder que eu não possuo? Isto é magia. Sua magia. Eu sou apenas um vampiro.

Montgomery usou aquela palavra pela primeira vez, quebrando as barreiras que Summer visivelmente criara para se referir à mordida daquela noite. Não fazia mais sentido tentar esconder a verdade agora que Fields dera o seu primeiro passo dentro do mundo sobrenatural.

Para amenizar um pouco da culpa que sentia pelo ataque sob a árvore, Petrus decidiu que compensaria aquela traição com uma revelação verdadeira. A verdade certamente chocaria Summer, mas a menina precisava daquilo para acreditar em toda aquela loucura que subitamente despencara no colo dela.

- Você é uma bruxa. Assim como vários membros da sua família. Seus avós, seus tios, Letitia, seus pais...

Petrus deu à garota alguns segundos para digerir aquela novidade antes de completar o seu raciocínio com mais uma revelação chocante para Summer.

- É por isso que estou em Bar Harbor. Eu vim por que existe uma lenda de que seus pais eram bruxos poderosos, que criaram uma espécie de magia capaz de reverter isso...

Quando articulou a palavra “isso”, Montgomery abriu os braços, obviamente referindo-se à si mesmo e à maldição que o acompanhava há várias décadas. Antes que a mente confusa de Summer chegasse às conclusões erradas sobre a relação entre os Montgomery e a morte dos Fields, Petrus se apressou em explicar.

- Não foi um assalto, uma vingança e nem nenhuma bobagem que os humanos possam ter inventado. Seus pais foram mortos por vampiros, provavelmente depois que se negaram a revelar o segredo. Eu sei que é difícil acreditar em mim depois do que aconteceu esta noite, Summer, mas eu não tenho nada a ver com isso. Eu nunca conheci os Fields, eu não fazia parte do grupo que veio até Bar Harbor para destruir esta “ameaça”.

O sorriso triste de Petrus evidenciava toda a veracidade de sua frustração quando o vampiro completou, desta vez em entonação mais baixa, como se aquele fosse um segredo que envergonharia toda a espécie.

- Muito pelo contrário. Eu quero esta resposta porque eu gostaria que isso acabasse um dia. Já são sete décadas de culpas acumuladas, de uma existência vazia, de sonhos deixados para trás.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sab Out 22, 2016 7:52 pm

Se Summer soubesse que a descoberta da existência de vampiros no mundo era a ponta do iceberg, ela certamente teria continuado em casa, fechados os olhos e feito de conta de que aquilo tudo não passava de um pesadelo confuso que a atormentaria na manhã seguinte.

Mas nem nos palpites mais absurdos ela teria imaginado o formigueiro em que estava cutucando. As verdades ditas por Petrus a atingiam como socos até deixa-la inteiramente nocauteada, a cabeça zunindo e a sala inteira girando por uma vertigem.

Um filme passava pela cabeça de Summer, revivendo dezenas de cenas aparentemente aleatória em que detalhes bobos começavam a se juntar, esfregando a verdade que ela havia se recusado a enxergar por toda a sua vida.

Mesmo quando os pais estavam vivos, pequenos incidentes mal explicados aconteciam. Como a vez em que o cheiro de queimado se espalhava pela cozinha denunciando que o bolo preparado pela Sra. Fields havia passado tempo demais no forno, e ainda assim tiveram um belo e apresentável bolo decorado para o lanche, sem gosto nem mesmo de fumaça.

Os incidentes inexplicáveis que Summer logo descartava da sua mente passaram a se tornar ainda mais frequente quando passou a morar com Letitia. Ela se lembrava com clareza da vez em que as árvores encheram o quintal com folhas algumas semanas antes do inverno e a prima havia ficado encarregada de fazer a limpeza. A rapidez com que a pilha de folhas se formou e o quintal estava novamente organizado foi surpreendente, mas Summer sempre tentou associar aquilo apenas como mais uma das esquisitices de Mitchell.

Claro que havia sido bastante difícil explicar como o carro da loira continuou rodando por três dias, mesmo sem uma gota de combustível. Mas logo a mente de Fields concluiu de que o medidor do painel estava quebrado.

As peças se encaixavam e Summer já havia passado da negação. Mesmo que quisesse acreditar que Petrus estava mentindo, ele não tinha motivos para brincar com tantos detalhes surreais. A verdade já estava enchendo o peito de Fields, assim como a ira por ter sido enganada toda a sua vida.

Cambaleando, ela rodeou o sofá até cair sentada na almofada fofa e empoeirada. Os olhos azuis estavam distantes com as lembranças, embora estivessem fixos no fogo da lareira. Uma ruga formada entre suas sobrancelhas finas denunciava o esforço da menina em encaixar a nova realidade do seu mundo quando a última revelação a atingiu.

Sua cabeça girou para encarar Petrus e havia uma camada fina de lágrimas nas íris azuladas. Reviver o assassinato dos pais era a parte mais difícil. Ela ainda podia sentir o cheiro do sangue, lembrando exatamente como suas pernas falharam ao encontrar a casa banhada pelo liquido vermelho até finalmente encontrar os corpos dos pais.

Aquela cena era dolorosa o bastante apenas como uma lembrança. Mas a nova informação de que seus pais haviam sido vítimas de vampiro trazia um novo nível de sofrimento para Summer.

Ela só percebeu que estava chorando quando um soluço escapou dos seus lábios em uma tentativa de suspirar. Há anos Fields vinha convivendo apenas com a prostração que já não se lembrava mais como era chegar ao seu limite. Fungando, Summer baixou a cabeça e escondeu o rosto nas mãos pequenas.

- Eles mentiram pra mim. Todos eles. Meus pais, Letty... Mentiram todos os dias.

A dor e a fúria se mesclavam no rosto conturbado de Summer. As emoções faziam com que seu sangue fervesse, e seu abalo emocional liberava a magia recém descoberta que ainda não sabia controlar. Um estalido soou pela sala quando uma das garrafas de whisky de Alaric estourou, espalhando o vidro pelo piso de madeira.

Os olhos azuis se ergueram até encarar Petrus outra vez. Montgomery havia sido o único com coragem de revelar a verdade a ela. Mas aquilo não o tornava melhor do que seus pais ou a prima. E ele era a única pessoa presente onde ela poderia descontar a sua fúria.

- Bom, sinto muito que você tenha vindo parar neste fim de mundo, mas eu não posso ajudar.

Summer ainda estava sentada no sofá, as palavras saindo pelos dentes trincados em uma expressão ameaçadora que não combinava com o delicado vestido branco da imagem de menina do interior.

- Se o que você está dizendo é verdade, meus pais obviamente não confiavam em mim pra contar sobre essa milagrosa cura. Então você pode seguir em frente e tentar sugar o sangue da próxima idiota, eu não tenho nada pra te oferecer.

Os lábios avermelhados pelo choro e pela forma com que Summer os pressionava se curvaram em um sorriso. Mas aquele gesto não lembrava em nada o sorriso feliz de anos antes, muito menos a expressão mecânica que ela usava com as outras pessoas. Era malicioso e fazia Summer parecer uma pessoa completamente diferente.

- Mas se quer o meu conselho? Se eu estivesse no seu lugar, não tentaria encontrar uma cura pra única coisa que me deixaria de ser tão frágil e inocente. Viver eternamente e com poderes incríveis? Não parece exatamente como uma maldição. Tente viver a minha vida medíocre e falamos outra vez sobre maldição.
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