Bloody Type

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Mensagem por Michaela Moccia em Sab Out 15, 2016 9:30 pm

A cor alaranjada do pôr do sol ainda cobria os céus da pequena cidade de Bar Harbor, no Maine. O reflexo daquela tonalidade nas águas do principal lago que banhava as margens do centro da cidade formava uma paisagem de tirar o fôlego, assim como as folhas amareladas das árvores.

Definitivamente o Outono era uma das épocas mais bonitas de se visitar o Maine. A temperatura estava agradável e, com o início da noite, um vento fresco soprava. As calçadas eram pouco movimentadas, mas seus moradores andavam com tranquilidade, sem preocupações graças ao baixo nível de violência.


A principal rua do centro era onde se concentrava basicamente todo o comercio da pacata cidade. Os poucos restaurantes se misturavam as lojas de roupas ou as destinadas a equipamentos de pesca. Algumas portas fechadas já eram conhecidas dos moradores, e só seriam abertas quando o inverno chegasse, prontas para vender equipamentos de esquiar.

Aquela era a rua que Summer Fields mais frequentava. Todas as manhãs ela entrava na lanchonete com a reluzente placa azul que trazia o nome “Alice’s”, atendia as mesas enquanto carregava hambúrgueres gordurentos e milk-shakes sem gosto para os mesmos clientes até que o sol não estivesse mais no céu. Então ela caminhava até o fim da rua antes de pegar o ônibus até o bairro mais afastado, onde dividia a casa com a prima.

Alice Trevor, a dona da pequena lanchonete, era uma senhora sorridente que sempre ficava atrás do caixa. Nunca havia reclamado de qualquer coisa no trabalho de Summer em todo o último ano em que a menina trabalhara como garçonete em seu estabelecimento.

Mas também, qualquer um que olhasse para a jovem Fields diria que era impossível reclamar de qualquer coisa vinda dela. Os gestos eram contidos, o sorriso doce e a excelente memória que nunca errava um pedido. A lanchonete poderia não servir os sanduíches mais deliciosos, mas a pouca variedade de opções no Maine não permitia que seus fregueses reclamassem.

A educação e a aparência angelical de Summer Fields não dava margens para que os frequentadores do Alicia’s desconfiassem do passado conturbado da jovem garçonete. Summer era bonita e estava com idade para estar ingressando na faculdade, mas o futuro brilhante que poderia ter foi drasticamente deixado de lado quando ainda estava na escola.

Summer ainda acordava no meio da noite com os pesadelos. Sempre que as pálpebras se erguiam no meio da noite, ela procurava por todo o sangue que via em seus sonhos, apenas para encontrar os lençóis perfeitamente limpos, sem vestígio da noite terrível em que perdera seus pais.

A antiga casa onde Summer havia passado toda a sua infância já havia sido vendida, mas ela ainda se lembrava com bastante detalhe de ter encontrado os corpos do Sr. e Sra. Fields caídos, sem vida. O pai estava jogado na escada que dava acesso ao segundo andar e a mãe parecia ter tentado correr, apenas para morrer na cozinha.

Cada centímetro do primeiro andar da casa estava encharcado de sangue e gravado na perfeita memória da única filha do casal. O assassinato dos Fields havia chocado a pequena cidade, tão livre de atrocidades. E Summer, que não tinha condições de se mudar, ainda era vista como a pequena órfã que dera trabalho para as autoridades locais ao enfrentar o luto com um comportamento inapropriado.

Por mais de uma vez após a morte dos pais, Summer foi levada até a delegacia por se envolver em brigas e seu comportamento só foi capaz de mudar graças ao apoio da única família que havia restado. Foi apenas para dar o sossego merecido à prima Letitia que Summer aprendeu a controlar o próprio temperamento e se dedicou a se tornar uma pessoa melhor.

- Não se esqueça do seu pedaço de torta, Summer. Coloquei um a mais para a Letty.

Todos os dias, ao fim do expediente, a velha senhora Alicia lhe empurrava um saquinho com o lanche que deveria levar para casa. Por sorte, as tortas eram as únicas coisas que realmente valiam a pena de se comer na lanchonete e eram feitas pela própria dona todas as manhãs.

- Obrigada, Sra. Trevor. É a preferida da Letty, ela vai adorar. Bom descanso!

- Igualmente, minha boneca!

A sineta da lanchonete soou quando Summer abriu a porta e saiu para a calçada. O vento fresco fez com que ela puxasse a jaqueta jeans mais perto do corpo antes de iniciar o costumeiro caminho até o ponto de ônibus.

Definitivamente, aquela era uma cidade digna de um cartão postal. Mas era com imensa lástima que Summer seguia seu caminho, sem se importar com a beleza natural da sua cidade. Para ela, não havia nada de bom no Maine. O mundo era enorme e havia tanto a ser visto, mas ela estava presa naquela cidade parada no tempo, vivendo os mesmos dias em loop, sem nada que animasse sua vida, sem nada que a alegrasse de verdade.

Quando chegou em uma esquina, Summer parou enquanto aguardava o sinal de pedestre liberar seu caminho. O carro estacionado na calçada refletia seu reflexo e ela se virou para encará-lo, como se estivesse diante de uma completa estranha.

Os cabelos castanhos, que haviam passado o dia inteiro presos, finalmente encontravam a liberdade caindo em largas ondas pelos ombros cobertos com a jaqueta jeans. Summer não era muito alta e as bochechas eram levemente salientes, o que deixava seu rosto mais redondo, embora o corpo fosse magro. Os olhos azuis pareciam sem vida, cansados como se pertencessem a uma senhora já cansada de viver. E nos lábios fartos e bem desenhados não havia a menor sombra de um sorriso.

As roupas eram simples, mostrando que além da felicidade, também faltava luxo na vida de Summer. Ela não usava maquiagens ou brincos e a única joia pendia em seu pescoço era o velho cordão prateado que a mãe carregava quando era viva.


- Você não está pensando em roubar este carro, está?

A voz masculina soou às suas costas, obrigando Summer a se virar para encarar o rosto de Ezra Pattinson. O rosto de Ezra era conhecido desde a época de escola, mas era o fato do rapaz ser o filho do delegado que acabou fazendo com que ele se aproximasse de Summer.

Em algumas das tantas vezes em que Summer fitou detida, esperando pela prima para poder ser liberada, Ezra havia aparecido na delegacia para almoçar com o pai e acabara se interessando pela bonita encrenqueira atrás das grades.

A amizade foi surgindo com o tempo, mas enquanto Ezra esperava pela chance de ser visto mais do que um amigo, Summer estava mais do que contente em tê-lo apenas naquele cargo. O jovem Pattinson poderia ser atraente e um dos rapazes mais promissores da pequena cidade, mas ele representava tudo que Summer mais temia: que ela acabaria se envolvendo com um Sr. Perfeito, estabelecendo uma vida pacata e morreria naquela cidade sem ter um pingo de emoção em sua vida sem graça.

- Claro que não. – Summer girou os olhos, inclinando para um carro ainda mais novo do outro lado da rua. – Aquele lá faz mais o meu estilo.

O sinal vermelho fez com que os carros parassem e Summer atravessou na faixa de pedestre, com Ezra em seus calcanhares. O rapaz enfiou as mãos no bolso da calça e apontou com o queixo para a sacola que a amiga carregava.

- Hambúrgueres outra vez, han? Você e a Letitia deveriam comer um pouco de comida de verdade. Podem aparecer para jantar lá em casa, meus pais vão adorar.

- Purê de abóbora e milho cozido? – Summer franziu o nariz e sacudiu a cabeça em negação. – Obrigada, prefiro o McColesterou da Alicia.

- Você vai morrer antes dos trinta desse jeito, Sum.

- Promete?

Ao perceber que havia soado mais mórbida do que pretendia, Summer abriu um largo sorriso e balançou a cabeça, sacudindo os largos cachos castanhos.

- Você só está com inveja porque precisa comer o frango grelhado da sua mãe enquanto eu devoro as tortas de morango.

- Apenas fale com a Letitia, ok? Vocês serão bem-vindas a qualquer hora.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Cameron Lahey em Sab Out 15, 2016 10:27 pm

Os lábios estavam bem pressionados contra a pele do pescoço da morena, impedindo que qualquer gota de sangue escapasse, fazendo uma sujeira desnecessária. O gosto já perfeitamente conhecido invadiu sua boca, trazendo a familiar sensação de prazer enquanto o líquido quente descia pela sua garganta.

A mulher em seus braços estava perfeitamente imóvel, sem dificultar a simples tarefa da sua alimentação. Mas os olhos negros demonstravam que ela estava viva enquanto encarava o céu estrelado sobre suas cabeças.

A pequena casa localizada a beira do lago, no canto mais afastado da cidade, estava desocupada há meses. A imobiliária não tivera o trabalho de limpar a poeira acumulada entre as ripas de madeira e não havia lenha suficiente para acender a lareira. O lugar era rodeado por árvores, com exceção dos fundos banhado pelas águas do lago, e mesmo com o início da noite, a escuridão era suficiente para proteger Alaric Montgomery da sua alimentação tão pouco convencional.

Seus cabelos castanhos, quase aloirados, estavam completamente bagunçados e apontavam para todas as direções. As roupas estavam amarrotadas, denunciando que ele havia dormido praticamente todo o dia no sofá empoeirado da nova casa.

Apesar dos descuidos da imobiliária, não havia mais ninguém para culpar pelas garrafas de bebida que se espalhavam pelo chão da sala, denunciando que a noite anterior havia sido bastante divertida.

Uma festa não era exatamente a forma mais adequada para um vampiro socializar. Mas bebidas e a companhia de um potencial par de pernas que serviria como café da manhã no dia seguinte estava no topo da sua lista de prazeres.

Whisky e sangue basicamente eram as duas coisas que mantinham o jovem Alaric de pé e passar um dia inteiro sem suas bebidas era um dia perdido. E mesmo para quem tinha toda a eternidade, Ricky não estava disposto a perder tempo.

Um ruído no interior da casa fez com que Alaric interrompesse a sua refeição, recuando os caninos da pele da sua vítima. Um resíduo vermelho escapou pelos seus lábios e ele imediatamente lambeu o sangue com a língua, no instante em que reconheceu o rosto do irmão.

Era inquestionável como os Montgomery haviam herdado uma boa genética. Com seus aparente vinte anos, Alaric tinha o porte atlético, os cabelos castanhos que quase ficavam loiros sob o sol e os olhos azuis capazes de fazer qualquer mulher suspirar. Mas era o sorriso do primogênito que seria capaz de conquistar qualquer boa garota para seguir o mal caminho.

O sorriso de quem tinha todo o controle do mundo na palma da sua mão era o charme que se destacava em Alaric. E se não fosse um vampiro com setenta anos de experiência e um passado tão podre quanto o esgoto do Maine, ele provavelmente faria as meninas esticarem seus pescoços se oferecendo como refeição sem precisar hipnotiza-las.

- Não me julgue. – O sorriso seguro de Ricky surgiu ao encarar o irmão, mantendo o corpo firme de sua vítima ainda preso ao seu. – Eu estava com uma ressaca ferrada. Precisava de alguns nutrientes.

Os olhos azuis deslizaram para encarar a morena, completamente alheia ao que acontecia na varanda dos fundos da nova casa dos Montgomery. Alaric estudou seu rosto por alguns segundos, se certificando de que ainda havia deixado o suficiente para que a moça tivesse forças para voltar para casa.

Ele a segurou pelo queixo e os olhos azuis encararam fixamente as íris castanhas enquanto falava com firmeza.

- Ontem à noite você conheceu um cara em um bar. Vocês dois beberam e você apagou. Não se lembra de mais nada do que aconteceu. Agora volte para casa e use uma echarpe pelos próximos dias.

Sem dizer uma única palavra, a menina atravessou a porta de vidro que separava a varanda do interior da sala e juntou suas roupas espalhadas pelo piso de madeira antes de deixar a casa até seu carro. Apenas quando o som dos pneus cessou por completo, Alaric assumiu novamente a palavra, se sentando em uma das espreguiçadeiras postas ali para que pudessem admirar a paisagem.

- Que droga de cidade, hein irmãozinho? Isso me faz sentir saudade de Vegas.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Sab Out 15, 2016 11:09 pm

A mão pequena acertou a buzina em cheio e com uma considerável violência, fazendo com que o ruído estridente ecoasse por toda a rua silenciosa. Os dois homens que estavam atravessando a rua, distraídos com uma conversa, tiveram que acelerar os passos numa corrida até a outra calçada para evitar um atropelamento.

O Bel Air vermelho passou voando pela esquina, numa velocidade inesperada para um modelo tão antigo. Mas, embora fosse um carro extremamente velho, o som do motor mostrava que o veículo estava bem cuidado. Vários colecionadores já tinham oferecido muito mais que o valor de mercado para comprarem o Bel Air, mas a jovem dona do carro nunca aceitara nenhuma proposta. O valor sentimental do veículo não poderia ser pago em dólares.


- Sua louca! – um dos pedestres berrou para a motorista – Preste atenção!

O rapaz, que certamente imaginou que seu xingamento seria ignorado, arregalou os olhos quando o vidro do Bel Air foi abaixado antes de chegar à esquina. A mesma mão que acionara a buzina foi posta para fora do carro, com o dedo do meio erguido em um xingamento nada delicado.

- Da próxima vez atravessem na faixa de pedestres, imbecis! Este não é o banheiro da casa de vocês! – o berro ecoou pela rua segundos antes da motorista avançar um sinal vermelho.

Ficou comprovado que a motorista não havia sido inocente naquele quase atropelamento quando, no pequeno caminho do centro de Bar Harbor até a casa que ela dividia com a prima, mais dois acidentes quase aconteceram. Um motoqueiro que quase se chocara com um dos retrovisores do Bel Air também ganhou alguns xingamentos, mas Letitia Mitchell não teve em quem jogar a culpa quando virou o volante bruscamente em uma esquina e quase atingiu um poste.

Por milagre, a loira conseguiu estacionar na frente da pequena casa que dividia com a prima sem matar ninguém e sem danificar a lataria do carro. Qualquer um poderia dizer que aquele havia sido um dia infernal na vida de Letitia, mas, quando ela saiu do veículo, a moça estava serena e sorridente como se estivesse chegando ao fim de um dia normal. Um turno de trabalho, uma passada no mercado para algumas compras, um quase-atropelamento... Nada fora da rotina dela.

Os cabelos loiros estavam presos num coque completamente desleixado no alto da cabeça, a calça jeans estava ligeiramente amassada e a blusa cor de rosa tinha exatamente o mesmo tom dos chinelos usados pela motorista naquela tarde. A bolsa foi pendurada num dos ombros de Letitia para que ela equilibrasse as sacolas do mercado em uma mão só, libertando a outra para destrancar a porta da frente.

- Oi-oi! Chegou cedo hoje! Vem me ajudar com as sacolas!

O sorriso de Letitia se alargou quando ela deu de cara com Summer. Embora as duas meninas tivessem temperamentos tão distintos, era assombroso notar como elas se davam bem. As duas não tinham sido criadas muito próximas, mas aquela aproximação acontecera após a trágica morte dos pais de Summer. Sem mais parentes por perto, a menina passou a ser uma responsabilidade dos Mitchell e Letty agora a encarava como a irmã que ela nunca tivera.

- Sum, este mundo está uma doidera. Qualquer um hoje em dia pode dirigir, um motoqueiro quase arrancou meu retrovisor hoje! Onde vamos parar?

Assim como Summer, a filha dos Mitchell também havia adiado a ideia de fazer uma faculdade. Depois de se formar no colegial, Letitia começou a trabalhar para se sustentar e não suportava a ideia de que seus pais teriam que voltar a pagar suas contas se ela ingressasse numa faculdade. A loira não ganhava uma fortuna na pequena lojinha esotérica que abrira no centro de Bar Harbor, mas era o suficiente para pagar pelas despesas da pequena casa e da vida simples que levava naquela cidadezinha.

- Que cheiro delicioso é este? A Sra. Trevor mandou torta??? Eu já estava adivinhando! Trouxe Coca-Cola gelada, yoohoo!

As sacolas foram jogadas sem muito cuidado na mesa da cozinha antes que Letitia se virasse de costas para a prima. Os olhos azuis se fixaram no chão, como se estivessem procurando por alguma coisa perdida.

- Luuuuuuucy! Onde está você??? A mamãe chegou!!!

Em poucos segundos, um gato preto surgiu de debaixo das almofadas do sofá e deu um salto gracioso até aterrissar nos braços de Mitchell. Os olhos amarelados tinham o formato de duas fendas e os bigodinhos compridos davam um ar gracioso ao pequeno Lucifer, que recebera um apelido mais “sociável” para que os vizinhos não pensassem que Letitia invocava o demônio tantas vezes ao dia.

- Quem é o anjinho mais lindo da mamãe? – Letty depositou um beijo na ponta do focinho do gato, que ronronou manhosamente – Eu trouxe o seu leitinho enriquecido com dez vitaminas e sete minerais...

A moça pareceu intrigada por alguns segundos e ainda carregava Lucy nos braços quando retornou para a cozinha.

- Quantas vitaminas existem, Sum? A, B, C... acho que não existem dez, existem? Tenho a ligeira impressão de que o leitinho do Lucy é uma farsa. – os olhos azuis giraram com descaso – Ah, dane-se. Ele vai deixar o leite apodrecer de qualquer forma para correr atrás de ratos e pombas. O Lucy não é um bom menino. Eu deveria tê-lo chamado de Gabriel.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Sab Out 15, 2016 11:53 pm

O cheiro metálico do sangue se espalhou por todos os cômodos até atingir os sentidos aguçados de Petrus Montgomery. Mesmo estando no segundo andar do antigo casarão que ele e o irmão tinham comprado a preço de banana – muito provavelmente porque o imóvel estava caindo aos pedaços – o cheiro delicioso não deixou que Petrus tivesse dúvidas de que Alaric estava “se alimentando”.

Portanto, os olhos azuis não refletiram nenhuma surpresa com a cena da varanda. Além de já ter sentido o cheiro, Petrus conhecia muito bem o comportamento irresponsável e nada discreto do irmão mais velho. Depois de muitas décadas, Alaric tinha aprendido a dominar com perfeição a mente humana, mas não era raro que os dois tivessem que se mudar com bastante frequência depois de “descuidos” do primogênito.

- Eu acho sensacional a sua noção de discrição. – a voz de Petrus estava carregada de ironia – Trazer o lanche para casa realmente é uma maneira muito sutil de não chamar a atenção...

Os olhos azuis rolaram antes que Petrus se acomodasse na espreguiçadeira ao lado da ocupada por Alaric. A noite fresca do outono exibia um céu limpo e estrelado, com a lua minguante formando uma espécie de sorriso brilhante na imensidão negra.

- Eu detesto ser o chato da equipe, Ricky, mas desta vez seria muito bom se você não estragasse tudo. Não viemos para Bar Harbor para curtir a vida, muito menos para passar o tempo. Nós temos um objetivo bem definido aqui e teremos que adiar este plano por algumas décadas se você fizer besteira e atrair a atenção de caçadores.

Ao contrário de tantas cidades nas quais os dois irmãos já tinham morado nos últimos anos, a escolha de Bar Harbor não fora feita ao acaso. Eles não estavam ali em busca de diversão, tampouco optaram pelo interior pensando em uma vida mais tranquila, longe do foco de caçadores. Os dois vampiros estavam ali porque seguiam os rastros de um valioso tesouro para a espécie.

Ninguém sabia ao certo do que se tratava a substância, tampouco se ela realmente existia ou se era somente uma lenda tola. Mas vários vampiros experientes confirmaram que uma família de bruxos havia preparado uma poção capaz de colocar um fim na imortalidade dos vampiros.

Depois de exaustivas pesquisas e de revirar várias histórias fantasiosas, Petrus Montgomery havia chegado até uma pista promissora. Um casal de nome Fields havia sido assassinado em Bar Harbor há alguns anos. Ao ler a descrição da autópsia, Petrus não teve dúvidas de que as duas mortes haviam sido causadas por ataques de vampiros. Os rumores de que as vítimas eram bruxos motivara Petrus a insistir naquela visita à pequena cidade.

Montgomery não sabia por onde começar a investigação. Ele ainda não sabia a localização da casa onde os Fields tinham sido assassinados, não fazia ideia de o casal tinha filhos sobreviventes da tragédia. Petrus sequer sabia o que deveria procurar, se eram ervas, um frasco com a tal poção ou simplesmente um livro que explicasse mais sobre a quebra daquele feitiço.

A única certeza do vampiro era que todo aquele esforço valeria a pena se, no fim das contas, ele ganhasse o direito de voltar a ser humano. Depois de setenta anos como imortal, Petrus já começava a ser perguntar qual seria o sentido daquela vida incompleta. Ele queria que seu coração voltasse a bater novamente, queria sentir a plenitude das emoções humanas, queria que seus dedos voltassem a ser quentes e que o seu apetite pedisse por qualquer sabor diferente do sangue.

A ideia de morrer ainda era indigesta e parecia ser um brinde desnecessário à vida humana. Mas até mesmo esta escolha Petrus gostaria de ter. Se ele tivesse nas mãos a maneira de quebrar a sua maldição, o vampiro poderia colocar um fim na própria existência se um dia a exaustão que ele sentia no momento atingisse o ápice.

- Precisamos de malva. E não faça esta cara, Ricky. Você sabe que precisamos.

Malva branca. A delicada flor muito utilizada para fazer chás medicinais tinha uma utilidade desconhecida para o público comum. As pétalas costumavam ser utilizadas enquanto o resto da planta era descartada, mas para os vampiros a parte mais importante era o caule. Era no caule que ficavam localizados os nutrientes estranhamente semelhantes ao sangue humano. As mesmas vitaminas, as mesmas concentrações de minerais.

O gosto não era tão bom, assim como também não havia a adrenalina de escolher e render uma vítima. Mas os nutrientes ao menos serviam para que a sede não se tornasse insuportável e para que os vampiros não ficassem cegos pela tentação. Tudo o que Petrus precisava era que ele e Alaric tivessem tranquilidade e a concentração voltada para o enigma que rondava a morte dos Fields.

- Amanhã cedo podemos dar uma volta pelo centro. É uma cidade pequena, com certeza vamos encontrar uma lojinha ou um mercadinho que venda ervas medicinais. Compraremos a malva e mais algumas bobagens para não chamar a atenção, certo? – Petrus buscou pelos olhos do irmão, agora mais sério – Eu já fiz muita coisa por você, Ricky. Agora estou pedindo que faça este sacrifício por mim. Eu preciso desta resposta. Por favor, não estrague tudo.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Michaela Moccia em Dom Out 16, 2016 12:35 am

Qualquer jovem aproveitaria um dia de folga para poder se encontrar com os amigos, talvez assistir alguma estreia no cinema ou virar a noite em alguma festa, usando o álcool como desculpa para as risadas abobadas.

Summer Fields tinha a idade adequada para se encaixar em um grupinho de meninas, se arrumar de forma chamativa e voltar para casa apenas com o dia amanhecendo, carregando os saltos nas mãos. Mas nem por um segundo essa opção era cogitada nos seus dias de folga.

As tarefas domésticas eram divididas com Letitia, de modo que não havia nenhuma tarefa muito pesada a ser feita quando a morena não estava servindo batatas-fritas na Alice’s. Por isso, se ocupar na pequena lojinha de artigos exotéricos parecia uma boa opção quando comparada com a ideia de passar o dia olhando para o teto ou aspirando os pelos de Lucy das almofadas.

Uma das maiores e gritantes diferenças entre as duas primas estava exatamente na lojinha onde Letty passava praticamente todos os seus dias. As prateleiras estavam abarrotadas de ervas, amuletos, baralhos e incensos para os mais diversos fins, mas para Summer, tudo aquilo não passava de uma grande piada.

É claro que ela não dava a sua opinião tão abertamente para Letitia, mas Summer era extremamente cética e acreditar que uma pedrinha com uma aparência bem vagabunda pudesse espantar mau-olhado ou que um incenso tinha o poder de limpar as más energias de um ambiente era demais para ser aceito por ela.

Apesar disso, os dias que passava ao lado de Letitia costumavam ser os mais divertidos. Com exceção do cheiro de ervas que a incomodava por todo o dia, ela e a prima sempre conseguiam sair para almoçar juntas e, enquanto a loira estivesse ocupada atendendo algum cliente, Summer se dedicada a leitura de algum dos seus livros clássicos de romance.

Naquele dia, sentada em um dos banquinhos atrás do balcão, Summer evitava ao máximo atrapalhar a prima no atendimento de duas senhoras enquanto devorava as páginas de Rei Arthur.

Os pés estavam apoiados no banco da frente, antes ocupado por Letitia, e Summer enrolava uma mecha do cabelo escuro com os dedos enquanto os olhos azuis deslizavam pelas linhas, completamente concentrada e incapaz de escutar o que acontecia ao seu redor.

As duas senhoras agradeceram o troco de Letty e saíram da lojinha, enquanto a porta era mantida aberta por um rapaz alto e de olhos claros. Uma das senhoras apalpou o braço do rapaz em agradecimento antes de seguir seu caminho pela calçada, e para surpresa de Letitia, o rapaz entrou na loja acompanhado.

Summer ainda estava tão concentrada em seu livro que se surpreendeu quando sentiu seu olhar sendo atraído para cima. Ela ainda estava com uma das mechas no dedo quando pousou o olhar nos dois rapazes, se fixando mais alto.

Bar Harbor era uma cidade pequena demais e Summer havia vivido toda a sua vida ali, de modo que ela soube de imediato que aqueles dois rapazes eram de fora. Era ainda mais surpreendente que eles estivessem entrado exatamente em um lugar tão atípico como a loja de Letty, o que fez com que Summer ignorasse o filtro social e falasse exatamente o que estava na ponta da sua língua.

- A loja de equipamentos de esqui só abre daqui dois meses. Se estão procurando artigos de pesca, é do outro lado da rua.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Cameron Lahey em Dom Out 16, 2016 1:04 am

Não era exatamente um segredo o desejo de Petrus em descobrir o “Santo Graal” que o tornaria humano outra vez. Alaric até conseguia compreender os motivos do irmão para aquele desejo um tanto ambicioso, mas não significava que ele concordava ou também compartilhasse daquele desejo.

Levar uma vida prolongada e imortal poderia ser o desejo de muitos humanos. Mas após algumas décadas, com os arrependimentos se acumulando aos pesadelos, a única coisa que ele aprendera com a vida de vampiro era viver sem um objetivo.

Humanos tinham um ciclo a cumprir. Eles nasciam, passavam por diversas fases, adoeciam, corriam perigos. Eles precisavam viver, pois tinham tempo limitado. Como vampiros, Alaric e Petrus haviam sido poupados daquela lamúria. Mas também haviam sido destinados a não se importar.

Alaric carregava consigo diversas lembranças ruins em meio a poucas que realmente valeriam a pena. Mas ele encontrou naquele vazio uma desculpa para bebidas sem controle e encontros casuais com mulheres sem importância alguma. A vida sem objetivo estava boa o bastante, desde que continuasse daquela forma.

Mas aquilo não significava que ele iria se colocar no caminho de Petrus. Seu irmão era a única coisa que realmente tinha algum significado naquela vida louca, o único que o acompanhara entre as fases boas e ruins. Em todas aquelas décadas, nem sempre havia sido um mar de rosas para os dois, mas ainda assim, eles só tinham um ao outro.

- Relaxa, Pete! – Um sorriso preguiçoso apareceu no rosto de Alaric enquanto ele admirava a paisagem a sua frente. – Considere isso como uma despedida, como os humanos fazem antes de começar uma dieta.

A prova de que aquela promessa não era formada por palavras vazias foi quando, no dia seguinte, antes mesmo que Petrus precisasse lembra-lo da visita a cidade, Alaric já estava pronto ao volante do carro para que eles fossem até o centro.

A camisa azul tinha mangas compridas e alguns botões apenas na altura da gola. Era inteiramente lisa e moldava com perfeição o corpo atlético do Montgomery mais velho, combinando com a calça preta. O relógio em seu pulso apontava que ainda estava cedo, mas o céu da pequena cidade já estava ensolarado.

Exatamente como previra, a cidadezinha escolhida por Petrus parecia vir de um filme tedioso e sem ação alguma. Os pedestres andavam sorridentes pela calçada, cumprimentando uns aos outros. Os carros andavam em uma velocidade anormalmente lenta e cada um dos prédios vivia em harmonia com a arquitetura antiga.

- Arg, esse lugar é tão tedioso que me dá vontade de enfiar uma adaga no meu peito e sair rasgando.

Ao notar o olhar do irmão, Alaric encolheu os ombros e ergueu as mãos, na defensiva.

- Eu disse que ia me comportar. Isso não quer dizer que eu vou ser legal.

O carro foi estacionado em uma vaga na beira da calçada e os dois começaram a caminhar, lado a lado. Logo foi possível notar que a simpatia dos cidadãos não era apenas para seus conhecidos. Diversas pessoas passaram cumprimentando os Montgomery como se já se conhecessem desde a infância, o que despertou ainda mais estranheza de Ricky.

- Finalmente! – Ricky rolou os olhos e apontou para a lojinha exotérica quase escondida entre dois prédios. – Nunca pensei que fosse ficar tão feliz de encontrar um lugar como esse. Agora vamos lá comprar a droga do hambúrguer de soja, já que você está me proibindo de comer picanha.

O sorrisinho de deboche acompanhou os lábios de Alaric até a entrada da loja. O interior era exatamente como ele já havia imaginado. Lugares como aquele não costumavam ser muito diferentes, independente do tamanho da cidade. O cheiro familiar das ervas invadiu seu nariz, mas o único ponto diferente estava atrás do balcão.

Lugares como aquele normalmente eram gerenciados por velhas, mães solteiras ou bruxas com alguns quilos a mais. Era a primeira vez em quase um século que Alaric se deparava com uma atendente jovem e surpreendentemente bonita. Até mesmo aos olhos de um vampiro experiente, Letitia Mitchel não se encaixava com o padrão de uma bruxa, o que logo o levou a concluir que a menina havia sido apenas contratada pela verdadeira dona para o trabalho.

- Esquece o que eu disse... – Ele sussurrou, se inclinando na direção do irmão antes de alcançarem o balcão. – O lugar não é tão ruim quanto parece.

Apenas quando chegaram diante do balcão, os olhos azuis deslizaram para notar a morena sentada. O sorrisinho convencido apareceu novamente em seus lábios e ele enfiou as mãos nos bolsos, ativando o charme que Petrus conhecia tão bem.

- Eu realmente tenho cara de pescador, lindinha?

Ele sacudiu a cabeça até pousar novamente os olhos cinzentos na loira, como se esperasse pela segunda opinião.

- Essa é inédita. Algumas pessoas costumam perguntar se sou modelo ou ator. Mas pescador?

- Você está certo. – A morena voltou a falar, se mantendo sentada com um livro em suas mãos. – Pescadores precisam ter o cérebro maior que uma ervilha. Modelo definitivamente combina mais com você.

O comentário ácido poderia abalar a confiança de um rapaz comum. Mas Alaric já tinha quase um século de experiência para se deixar levar tão facilmente. Ainda com o sorriso nos lábios, ele encarou a loira fixamente.

- Acho que a sua namorada está com ciúmes.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Dom Out 16, 2016 3:05 am

A fachada de vidro não escondia as prateleiras lotadas da pequena loja de Letitia Mitchell. O letreiro voltado para a calçada exibia o nome “Sol & Magia – Produtos Místicos e Religiosos” com letras coloridas, destacando a loja em uma calçada sóbria onde só existiam lojas de roupas e sapatos.

O cheiro das ervas acumuladas no estoque da loja era suavizado por vários incensos, que Letitia acendia várias vezes ao dia para não perder aquele clima esotérico que a maior parte dos clientes buscavam ao entrar ali.

Os produtos eram os mais diversos possíveis. Pedrinhas coloridas que prometiam vários tipos distintos de energia. Ervas para chás com promessas de curas para várias enfermidades. Duendes em miniatura para dar boa sorte. Livros das mais diversas crenças e religiões, assim como uma infinidade de revistas sobre signos do zodíaco. Anéis, cordões, amuletos, velas coloridas... Era uma loja completamente abarrotada de pequenas bobagens nas quais poucas pessoas acreditavam.

A própria Letitia não acreditavam nos produtos que vendia. Ela, melhor do que ninguém, sabia que uma erva era só uma planta com gosto ruim, que uma vela verde nada mais era do que parafina tingida, que signos do zodíaco era uma grande e lucrativa invenção. Mitchell sabia que seus produtos não tinham nenhuma utilidade nas mãos de humanos. Eram os seus poderes que tornavam tudo aquilo especial.

Mas se aquela era a vida dela, por que não lucrar com a única coisa que ela sabia fazer? Sempre que a culpa ameaçava atormentá-la, a loira se obrigava a comparar o seu trabalho com a loteria. As pessoas compravam bilhetes mesmo sabendo das chances praticamente nulas de vencerem. Assim como também compravam bobagens esotéricas mesmo sabendo que nada daquilo funcionaria.

Tudo o que Letitia precisava fazer era fingir que confiava nos poderes dos seus produtos para continuar pagando as contas em dia. E era impressionante como o número de clientes vinha aumentando gradativamente nos últimos tempos. Chegava a ser triste a ideia de que as pessoas estavam tão descrentes com a própria vida que depositavam a sua fé em bobagens.

- Acho que o meu marido está me traindo.

Uma das clientes confessou num sussurro chateado enquanto Letitia embalava as velas e incensos que ela solicitara. Os olhos da loira se ergueram para a mulher e o coração dela se apertou com a pergunta que veio a seguir.

- Você tem alguma coisa que vai fazer com que ele me ame de novo?

- Não.

Qualquer vendedora se aproveitaria daquela dor para empurrar promessas falsas e valiosas para aquele coração ferido. Mas Letty simplesmente não tinha coragem de alcançar seus lucros em cima de sofrimento.

- Não existe nenhuma magia que restaure o amor. A senhora terá que fazer isso sozinha. – a moça encarou a mulher com mais firmeza – Se a senhora ainda acha que o seu casamento tem salvação, converse com o seu marido, abra o coração. Se ainda houver amor, ele brotará.

Mitchell entregou a sacola para a cliente enquanto abria um sorriso de encorajamento e indicava os produtos que a mulher já havia pagado.

- Aconselho a acender o incenso de rosas antes da conversa. O aroma acalma o coração e vai dar à senhora toda a inspiração que precisará para este momento tão importante.

Por estar tão concentrada nas duas clientes, Letitia só notou a presença dos dois rapazes quando eles já estavam em frente ao balcão. Assim como Summer, a primeira impressão da loira foi a de que os jovens tinham entrado na loja errada. A maioria esmagadora dos clientes da lojinha de Letty eram mulheres, e os poucos homens que eventualmente entravam ali definitivamente não costumavam ser jovens e atraentes.

A surpresa de Mitchell, contudo, logo deu lugar a uma impaciência indisfarçável. Sem a menor dúvida, a loira não se sentia nem meramente atraída por caras tão convencidos e arrogantes como o loiro galanteador, cheio das piadinhas. A resposta ácida de Summer mostrou que a prima também não pretendia ceder aos galanteios, o que deu a Letitia a tranquilidade para colocar um fim naquela palhaçada.

Enquanto Alaric tentava controlar a situação com seus galanteios baratos, o outro rapaz se aproximou do balcão e apoiou a mão sobre a superfície de madeira. Petrus provavelmente estava distraído com as prateleiras abarrotadas de bobagens e não conseguiu reagir a tempo de afastar a mão quando um punhal prateado surgiu inesperadamente na frente dele.

O balcão inteiro tremeu quando a ponta do punhal foi cravada milimetricamente entre dois dos dedos do rapaz. Os olhos de Petrus quase saltaram para fora do rosto e ele finalmente afastou a mão como se tivesse levado um choque violento.

- VOCÊ É LOUCA, GAROTA??? PODIA TER ME ACERTADO!!!

- Eu tentei acertar. Minha mira é péssima.

O rapaz conferiu os dedos, como se quisesse ter a certeza de que Letitia realmente não o acertara com o punhal que permaneceu cravado sobre a superfície de madeira do balcão. Não era a primeira vez que Petrus entrava em uma loja esquisita como aquela, mas sem dúvida era inédita a ideia de ser atacado pela vendedora antes mesmo de abrir a boca.

- O que querem aqui? – Letitia desviou seu olhar gelado para o outro rapaz – Eu não gosto de forasteiros na minha loja. E nem estou com paciência para gracinhas, então é melhor darem meia volta.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Dom Out 16, 2016 3:28 am

- Malva!!!

Petrus praticamente berrou de desespero depois de quase perder um dedo de forma gratuita. Se eles estivessem em outra cidade, certamente o rapaz optaria por sair da loja daquela maluca para procurar outro estabelecimento. Mas Bar Harbor era uma cidadezinha minúscula e muito provavelmente eles não encontrariam aquela erva em mais nenhum outro lugar.

- Malva? – a loira manteve no rosto um olhar desconfiado.

- Malva branca. Eu preciso de seis ou sete mudas. Você pode me arrumar isso sem tentar me esfaquear de novo, por favor?

Era muito difícil que rapazes jovens conhecessem as ervas medicinais pelos nomes. Sempre que um cliente improvável entrava ali, começavam as perguntas bizarras sobre as propriedades das ervas e o interrogatório sempre terminava com Mitchell dizendo que eles não encontrariam nada ilegal naquelas prateleiras. Mas Petrus Montgomery parecia saber muito bem do que precisava naquela manhã.

- E para que você quer mudas de malva branca? – uma das sobrancelhas da atendente se arqueou e ela estreitou os olhos, sem esconder que estava desconfiada.

- Você sempre pergunta aos seus clientes sobre os motivos das compras? – desta vez, Petrus sustentou o olhar da loira, já irritado com o comportamento meio insano dela.

- Só para os idiotas metidos a galãs.

Os olhos azuis pousaram em Alaric durante aquelas palavras, deixando claro que a crítica era dirigida mais a ele do que a Petrus.

Como precisava muito daquelas ervas, Petrus reuniu toda a sua paciência e forçou um sorriso para a atendente, tentando abrandá-la com a sua habilidade de domínio sobre os seres humanos. Alaric costumava ser muito melhor naquele quesito, mas o caçula também confiava no próprio poder de sedução.

- Minha avó costumava fazer chá de malvas brancas para nós dois. Ajuda a relaxar e nós definitivamente precisamos de uma boa noite de sono depois de uma longa viagem.

- Tire este sorriso ridículo do rosto. São vinte dólares, pagamento adiantado.

O sorriso de Petrus se quebrou e ele pareceu sinceramente chateado por ter falhado tão miseravelmente na tentativa de seduzir a loira. Talvez fosse apenas uma questão de falta de prática, mas era frustrante que Letitia não se mostrasse nem meramente abalada por ele. Depois de trocar um olhar com o irmão, Petrus voltou a atenção para a morena, na esperança de que Summer pudesse poupá-lo daquela conversa maluca com a dona da loja.

- Você pode buscar as malvas pra mim? Com os caules, por favor... – uma nota de vinte dólares foi posta sobre o balcão num gesto rápido, como de Petrus quisesse evitar mais um golpe do punhal prateado de Letty – É sério, só queremos isso. Vocês só precisam me dar as malvas e nós sairemos da loja.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Michaela Moccia em Dom Out 16, 2016 4:41 pm

Se as prateleiras da pequena loja de Letitia eram abarrotadas e desorganizada, não era nenhuma surpresa que o estoque fosse um caos ainda maior. O sótão tinha praticamente o mesmo tamanho do andar inferior, com a diferença de um teto muito mais baixo, o que obrigava até mesmo Summer, que não tinha uma altura muito avantajada, precisar se esgueirar.

A iluminação era fraca e vinha de uma única lâmpada que foi acesa após a menina puxar uma cordinha. A janela minúscula que tinha vista para a rua estava tão empoeirada que quase não permitia a luminosidade natural do dia para contribuir em sua busca pela malva.

Summer fez uma careta ao passar pelas prateleiras abarrotadas de vidros dos mais diferentes conteúdos. As caixas também se acumulavam pelo piso empoeirado de madeira, mas ela foi diretamente até a mesa cumprida que ficava sob a janelinha do sótão. Bandejas cobertas com terra aproveitavam o pouco sol que entrava por ali para alimentar o pequeno cultivo de diferentes plantas.

Plaquinhas pequenas estavam enterradas em cada uma das terras, indicando o nome de cada planta, de modo que Summer só precisou passar os olhos azuis uma por uma até encontrar a letra de Letitia para a “Malva”. Os artefatos que a prima usava no plantio estavam jogados em um canto e foram rapidamente usados para que ela colhesse cuidadosamente algumas malvas, com o cuidado de trazer até mesmo a raiz antes de embrulhá-las em um jornal velho.

Summer estava terminando de deslizar os dedos pelo jornal quando a manchete chamou sua atenção. Os rapazes no andar inferior foram imediatamente arrastados para longe dos seus pensamentos quando ela se viu mergulhando mais uma vez no pesadelo das lembranças de um ano atrás.

Letty certamente não sabia que aquela matéria estava ali, ou teria tido o cuidado de se livrar da notícia do assassinato dos tios. Os olhos claros encararam demoradamente a foto que trazia a família feliz, antes da tragédia, enquanto sua mente a obrigava a reviver o dia mais infeliz da sua vida. A única coisa capaz de trazê-la de volta a realidade foi quando a única lâmpada que iluminava o sótão estourou, trazendo a escuridão ainda mais intensa ao local.

Summer se encolheu imediatamente, procurando por qualquer coisa errada no interior do sótão para justificar aquele acidente, mas quando ela encontrou o lugar ainda vazio, chegou a conclusão de que era apenas resultado da fiação elétrica ridiculamente velha.

Com os dedos ágeis, Fields terminou de embalar as malvas e atravessou o sótão com devido cuidado de não pisar nos cacos da lâmpada estourada. Quando chegou de novo ao andar inferior, trazia uma mancha empoeirada no vestido e uma expressão levemente assustada.

- Está na hora de fazer uma reforma, Letty. A lâmpada do estoque acabou de estourar e quase me matou. Eu poderia ter perdido um olho, sabia?

A malva embrulhada no jornal foi deslizada sobre o balcão, em direção dos dois rapazes, e desta vez Summer abriu um sorriso mais simpático, o mesmo que usava enquanto estava trabalhando como garçonete.

- Tente manter o seu amigo de boca fechada na próxima vez. A mira da Letty pode ser ruim, mas ela é bastante insistente.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Dom Out 16, 2016 5:39 pm

Letitia Mitchell se orgulhava dos seus vastos conhecimentos sobre os mais variados tipos de ervas. Apesar da pouca idade, a loira já tinha uma considerável experiência com todos os chás que vinham das flores, caules ou raízes de praticamente todas as plantas de uso medicinal. Exatamente por isso, Letitia não entendia por que aqueles dois rapazes precisavam de malvas.

O chá das flores brancas era bastante popular entre os amantes de ervas. Assim como Petrus Montgomery dissera, as substâncias presentes nas pétalas claras tinham um importante poder de relaxamento e ajudavam os clientes a terem uma longa e agradável noite de sono, além de restabelecer as forças depois de um dia potencialmente desgastante.

Mas era muito estranho que dois rapazes tão jovens buscassem por aquelas propriedades das ervas. Eles muito provavelmente estavam na fase de aproveitar o máximo da vida e não de buscarem por uma boa noite de sono e restabelecimento de forças. Aliás, nenhum dos dois parecia abatido ou extremamente cansado.

Além daqueles raciocínios lógicos, Letty confiava muito no seu sexto sentido. E um pensamento muito forte e insistente martelava a cabeça da loira com a certeza de que as pétalas das malvas não seriam utilizadas da forma “padrão” por aqueles dois rapazes. A primeira hipótese da bruxa era que aqueles dois imbecis tinham descoberto algum poder alucinógeno daquela erva, mas Mitchell simplesmente não tinha como provar que suas malvas seriam utilizadas de maneira ilegal.

Como sabia que havia algo por trás daquela inocente compra de ervas, Letitia deixou que a prima se afastasse para buscar as malvas no estoque enquanto ela permanecia atrás do balcão, com a mesma expressão desconfiada e os olhos azuis estreitados para os dois rapazes a sua frente.

- De onde vocês vieram, afinal? O que estão fazendo em Bar Harbor?

A pergunta era bem pertinente, visto que a pequena cidade não era conhecida por atrair turistas. Os poucos que eventualmente apareciam eram pessoas mais velhas em busca de alguns dias de tranquilidade. Letitia não conseguia pensar em nenhum atrativo que agradaria dois irmãos tão jovens e atraentes.

- Você sempre interroga os seus clientes ou só faz isso quando se sente atraída por eles?

Um sorrisinho debochado surgiu nos lábios de Petrus e ele usou aquela provocação como uma desculpa para não precisar responder às perguntas da loira. Uma das sobrancelhas finas de Letitia se arqueou antes que a resposta ácida soasse.

- O que te faz pensar que eu me sinto atraída por vocês? Eu tentei arrancar o seu dedo apenas para tirar a sua mão suja do meu balcão, não pretendia guardá-lo na minha agenda. – os olhos azuis buscaram pela mão de Petrus antes que Letty completasse com uma entonação maliciosa – Dizem que há uma certa similaridade no tamanho dos órgãos nas extremidades de um homem. Seus dedos são bem finos, hm?

Letty fechou a mão e ergueu apenas o dedo mindinho, numa insinuação maldosa sobre o tamanho das “extremidades” do rapaz. Os olhos de Petrus se estreitaram tanto quanto os da loira, mas o retorno de Summer colocou um fim precoce naquela discussão.

Era muito fácil acreditar que o sistema elétrico da loja estava velho e danificado o suficiente para ser responsabilizado por uma lâmpada estourada. Mas aquela informação fez com que Letitia voltasse um olhar desconfiado para a prima.

As primeiras manifestações de magia na filha dos Mitchell tinham acontecido há muitos anos, quando Letty ainda era uma criança pequena. Mas a loira ainda se lembrava com clareza do pouco controle que ela tinha sobre as portas dos armários se abrindo, lâmpadas estourando, objetos que flutuavam ao seu redor sempre que ela estava eufórica ou irritada.

Os pais de Summer eram bruxos magníficos e poderosos, mas a filha nunca havia demonstrado nenhum talento para a magia. Os próprios Sr. E Sra. Fields costumavam manter Summer afastada do mundo sobrenatural e era evidente que a morena havia bloqueado muitas memórias depois da trágica morte dos pais. Mas Letty sempre se perguntava se não haveria poderes adormecidos dentro da prima. A magia dos Fields era poderosa demais para que a filha não tivesse herdado nem mesmo um pouco daquele dom.

- Se eu souber que estão usando as minhas malvas para ficar doidões pela cidade, eu vou até o inferno para acabar com vocês.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Cameron Lahey em Dom Out 16, 2016 6:08 pm

O comportamento atrevido de Letitia Mitchel poderia ter pego Petrus de surpresa, mas ao invés de causar algum espanto no Montgomery mais velho, Alaric apenas abriu um largo sorriso e continuou observando a cena com os braços cruzados.

A jovem loira atrás do balcão parecia indefesa demais, de modo que sua atitude ousada era um sinal de que ela não tinha a menor ideia de que estava diante de dois vampiros que poderiam facilmente inverter aquela situação.

Não que Alaric ou Petrus costumassem causar caos por onde passavam, principalmente considerando que estavam diante de duas meninas magrinhas que não tinham nada além da atitude. Mas era engraçado ver que Letitia realmente achava que estava no controle da situação.

Um risinho nasalado escapou de Alaric quando Letitia continuou com as provocações, fazendo a insinuação sobre as “extremidades” de Petrus. A loira definitivamente tinha uma personalidade forte que não combinava com sua aparência delicada.

- Não se preocupe, loirinha. Você não precisa de uma desculpa e definitivamente não precisa ir tão longe pra me encontrar de novo.

O sorriso convencido de Alaric era inabalável, e sua confiança só se destacou ainda mais quando ele ousou se inclinar para frente e atravessou o braço pelo balcão, passando do limite perigoso onde Petrus já havia corrido perigo, até que seus dedos tocassem rapidamente o queixo de Letitia.

- Caso não tenha tido tempo para reparar enquanto estava ocupada tentando esfaquear o meu irmãozinho, meus dedos são bem mais avantajados.

Antes que Mitchel pudesse reagir com mais um movimento brusco e violento, o que Alaric não duvidava em nada que poderia acontecer, ele recolheu o braço e guardou os dedos protegidos no bolso da calça.

- Se quer um conselho, você deveria ser um pouco mais gentil com os seus clientes. Talvez devesse tomar um pouquinho do chá, você mesma.

Alaric sabia que deveria apenas calar a boca e não prolongar a situação. Ele havia prometido a Petrus que iria ser o mais discreto possível, mas era impraticável continuar calado diante da personalidade desafiante de Mitchel.

Quando os dois irmãos alcançaram a calçada, Alaric puxou os óculos de sol para cobrir os olhos e se inclinou por cima do ombro para encarar o interior da loja mais uma vez antes de se voltar para Petrus, com uma entonação mais séria.

- Quase sinto saudade do tempo em que você identificava uma bruxa há quilômetros de distância. Elas estão ficando cada vez mais malucas... e gostosas.

Os Montgomery começaram a caminhar pela calçada enquanto Alaric explicava a sua conclusão.

- Vai me dizer que você não percebeu? Primeiro achei que a maluca fosse só uma funcionariazinha. Mas nem a pau que uma simples humana saberia tanto sobre ervas ou ficasse tão desconfiada com uma simples malva.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Dom Out 16, 2016 6:49 pm

Apesar das cenas inusitadas no interior da loja, Petrus Montgomery se sentia profundamente aliviado quando chegou à calçada carregando o embrulho que continha as valiosas malvas. Alaric ainda tinha se alimentado na noite anterior, mas o caçula já sentia os sentidos cada vez mais aflorados pela sede.

Sempre que ficava muitos dias sem se alimentar, Petrus precisava lidar com aqueles instintos incontroláveis. Sua garganta ardia e a mente só conseguia se concentrar nas batidas dos corações de qualquer humano que atravessava seu caminho. No auge da sede, o vampiro conseguia sentir até mesmo o cheiro metálico do sangue que corria dentro das veias das pessoas ao seu redor.

Embora o chá de malvas não chegasse perto de ser tão delicioso quanto o sabor de um sangue quente e agitado pela adrenalina, os nutrientes ao menos serviriam para que Petrus recuperasse a sanidade e o controle dos próprios pensamentos. Tudo o que ele precisava era ser discreto e se concentrar no objetivo que o levara até a pequena cidade de Bar Harbor.

- Bruxa...? Aquela maluca?

Também já usando os óculos escuros que reduziam o incômodo causado pela luz solar, Petrus virou a cabeça para trás e observou a fachada da loja se distanciando a cada passo dos rapazes na direção oposta da calçada. Logo os lábios de Petrus se curvaram em um sorriso desdenhoso que deixava clara a sua descrença nas hipóteses do irmão. Em setenta anos como vampiro, Petrus já havia conhecido várias bruxas. Mas nenhuma delas se parecia física ou psicologicamente com a balconista maluca da lojinha esotérica.

- É só uma humana idiota que acredita em pedrinhas do amor, trevos de quatro folhas e signos do zodíaco. Esse tipo de bobagem danifica o cérebro, provavelmente foi isso que a deixou louca. Ela é jovem demais, Ricky. E muito pouco discreta para ser uma bruxa. Aliás, vocês tem muito em comum. Você se afeiçoou a ela porque compreende muito bem de comportamentos insanos e espalhafatosos.

O Montgomery mais novo fez uma pausa em seu discurso para entrar no carro. Alaric ocupou o banco do motorista enquanto, no lado do carona, Petrus abria o embrulho para conferir as mudas de malvas. Logo o cheiro forte das flores se espalhou no interior do veículo e o vampiro estava tão concentrado nas pétalas que seus olhos demoraram a enxergar as letras do jornal usado para embalar o produto.

- Mas que droga é esta?

Petrus puxou o jornal e o esticou sobre a coxa, tentando desamassar o papel para conseguir ler a notícia sobre a morte do casal Fields. Era uma coincidência bizarra que, no meio de tantas folhas de jornal, justamente aquela fosse a escolhida para embrulhar as malvas encomendadas pelos vampiros.

- Acredita nisso, Ricky? – o jornal foi estendido para que o motorista conseguisse ler o título da matéria – A coincidência é tão grande que começo a ponderar sobre a sua hipótese das duas garotas serem bruxas. Será que elas desconfiaram?

O semblante de Petrus refletia uma sincera preocupação enquanto o vampiro deslizava os olhos pelas linhas. A tinta já estava fraca em alguns pontos da matéria, assim como o papel amassado também contribuía para dificultar a leitura. Mas aquele jornal local antigo deu a Montgomery uma informação que o vampiro não havia encontrado em nenhuma das fontes em que pesquisara sobre o assassinato dos Fields.

A leitura daquele trecho foi feito em voz alta para que Alaric também tivesse acesso à valiosa novidade sobre o caso.

- “A princípio não há evidências que apontem para nenhum suspeito, segundo os investigadores. A única filha do casal, uma menor de 16 anos, não estava na residência no momento do crime e seu álibi foi confirmado por várias testemunhas.”

Dezesseis anos. Petrus só precisou de alguns poucos segundos para fazer os cálculos e concluir que a órfã já deveria ser uma moça com quase vinte anos. Eram grandes as chances da garota não morar mais em Bar Harbor depois daquela tragédia, mas ela era sem dúvida um promissor ponto de partida naquela jornada. Se ela tivesse seguido os passos dos pais e se tornado uma bruxa, muito provavelmente a jovem teria acesso à informação que Montgomery buscava com tanto empenho.

- Temos que localizá-la.

Como já conhecia bem os métodos nada sutis do irmão mais velho, Petrus decidiu que deveria fazer aquela parte do trabalho sozinho. A filha dos Fields muito provavelmente era uma jovem bruxa poderosa e marcada por uma tragédia. Alaric estragaria tudo se a abordasse de forma direta ou se tentasse arrancar a verdade dela sem a cautela necessária.

- Eu vou localizá-la. – Petrus se corrigiu sem rodeios. Depois de quase um século de convivência, não havia motivos para que ele escondesse nada do irmão – Você vai acabar fazendo besteira, Ricky. Talvez seja até mesmo a maluca da loja! Esta parte do plano exige um pouco mais de cautela, então deixa comigo. Vou sondar discretamente os rastros da tal garota e te manterei informado, mas prefiro agir sozinho.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Dom Out 16, 2016 7:23 pm

O arrepio que eriçava a pele de Letitia Mitchell persistiu mesmo depois que os dois rapazes viraram as costas e saíram da loja. Qualquer um poderia dizer que ela havia se arrepiado em resposta ao toque de um rapaz atraente, mas a verdade ia muito além de uma mera atração.

Os dedos que seguraram seu queixo estavam gelados. Bar Harbor era uma cidade conhecida por seu clima mais temperado mesmo nos meses de verão. Os invernos costumavam ser rigorosos e sempre nevava muito, o que atraía muitos turistas para as suas pequenas estações de esqui. Mas aquela manhã não estava fria o bastante para justificar os dedos gelados de Alaric Montgomery.

Finalmente o sexto sentido aflorado da bruxa fez algum sentido na cabeça dela quando a sua mente chegou à conclusão mais óbvia. A pele gelada, o comportamento galanteador, a forma como os dois rapazes tentaram dominar a situação... Letitia ainda não entendia porque eles precisavam de malvas, mas a bruxa não tinha mais nenhuma dúvida de que acabara de ver dois vampiros.

- Vamos fechar a loja. Agora.

Quando a surpresa finalmente cedeu lugar ao pânico, Letty saiu de detrás do balcão e praticamente correu até a porta, girando a chave para trancá-la por dentro. Portas e janelas jamais deteriam vampiros determinados a atacar, mas o fato dos dois terem se afastado sem mostrar as presas era um indício de que eles não planejavam um ataque. Pelo menos ainda não.

Na maior parte das vezes, Letitia não costumava temer as outras criaturas sobrenaturais. Como bruxa, ela conhecia poções e maldições que poderiam enfraquecer qualquer um que tentasse atacá-la. Mas a experiência negativa com os tios mostrava que nem sempre a bruxaria conseguia conter os poderes de um vampiro. Os Fields eram bruxos excelentes, mas nem isso impediu que suas gargantas fossem retalhadas num banho de sangue que marcara para sempre a história daquela pequena cidade.

- O que está esperando, Sum!? Me ajude a apagar as velas e os incensos.

A última coisa que Mitchell queria era que Summer soubesse que elas estavam correndo o mesmo risco dos Fields na noite do assassinato. Por isso, Letitia colocou nos lábios o seu melhor sorriso e tentou justificar aquela mudança brusca nos planos com mais uma de suas bizarrices.

- Acabei de me lembrar que hoje é o dia de oferendas ao deus da prosperidade. Eu preciso cumprir uma promessa e atirar algumas flores no lago. Além disso, é o seu dia de folga e não deveríamos passar o dia todo atrás do balcão. Depois que eu resolver as pendências das minhas oferendas, podemos comprar um pote enorme de sorvete e passar a tarde na frente da TV fazendo maratonas de séries.

Geralmente, Letitia tinha um comportamento mais discreto e cuidadoso quando a prima estava por perto. O raciocínio da loira era simples. Na cabeça dela, Letty não estava enganando Summer. Aquela verdade era escondida da garota apenas para que Sum não sofresse ainda mais com a revelação da violência sofrida por seus pais. Se Sum já não conseguia superar a ideia de que os Fields tinham sido retalhados por uma faca, seria ainda mais chocante pensar nos pais sendo atacados por monstros sanguinários com enormes presas sugadoras de sangue.

Naquela manhã, porém, Letty estava tão aflita para tirar logo a prima do cenário onde os vampiros estiveram que a bruxa usou seus poderes para acelerar a partida. Summer estava de costas quando Letitia moveu os dedos e fez com que uma corrente de ar se espalhasse pela loja, apagando as velas coloridas que faziam parte da decoração.

- Prontinho! – as chaves do Bel Air deslizaram sozinhas pelo balcão até chegarem às mãos da loira – Vamos, vamos, Summie. Pode deixar essa bagunça espalhada aí, amanhã eu arrumo tudo. Ou não.

Enquanto Summer organizava a própria bolsa para que elas pudessem partir, Letitia puxou o celular do bolso e estava mais séria quando enviou uma mensagem para um velho conhecido.

“Sugadores em Bar Harbor. Sim, eu tenho certeza. Sim, eu quero você aqui imediatamente.”

Mitchell odiava ter que pedir ajuda, mas aquilo definitivamente era um problema grande demais para uma jovem bruxa. Mike Arterton era um caçador que aparecera pela primeira vez em Bar Harbor depois das mortes dos Fields. No começo, Letty imaginou que Mike seria um problema sério, mas o rapaz não havia feito nada mesmo depois que descobriu os poderes da loira. Pelo contrário, ele se dispôs a ajudar a proteger Summer dos vampiros e agora chegara a hora daquela promessa ser cumprida.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Cameron Lahey em Dom Out 16, 2016 7:35 pm

A personalidade leve de Alaric mais uma vez se mostrou em evidência quando ele não demonstrou o menor abalo com a decisão do irmão de seguir com aquele plano arriscado sozinho.

Quase um século de convivência já havia sido suficiente para provar que Petrus conseguia ser insistente no que queria e que nada se colocaria no seu caminho durante aquela missão. Por saber o quanto aquilo realmente significava para o caçula, Alaric apenas se esforçou mais uma vez a simplesmente não atrapalhar.

- Outch, Pete... Quem vê, até diz que você não confia em mim!

O sorriso de deboche iluminava o seu rosto enquanto ele observava a pacata rua por onde dirigia. Não havia sinal de nada errado na tranquila Bar Harbor. Os moradores pareciam ser bastante entediantes, sem sinal de grandes bruxos, vampiros ou criaturas por perto. Petrus tinha seus motivos para começar a sua missão por ali, mas aos olhos de Alaric, aquele era o último lugar do mundo onde procuraria por uma milagrosa magia capaz de transformar vampiros em humanos outra vez.

- Você sabe que se for depender do seu charme, eu tenho muito mais chance de me aproximar da bruxinha.

Alaric fez apenas uma pausa para esperar o irmão acreditar na sua brincadeira antes de tranquiliza-lo com uma gargalhada, denunciando que ele não estava com nenhuma intenção de atrapalhar seus planos.

- Relaxa, bebezinho. Eu vou ficar fora do seu caminho. Vai ser como se eu nem estivesse aqui.

Uma ruga se formou entre as sobrancelhas bem desenhadas de Ricky e ele se virou para encarar o irmão quando pararam diante de um sinal vermelho, no último cruzamento antes de chegar até a rua que rondava o lago principal.

- Apenas me prometa que se não for atrás da loirinha psicopata, vai deixar eu me divertir um pouco? Eu prometo que serei discreto, Pete, mas qual é! Olha só essa cidade!

Ele apontou para os moradores que passeavam na calçada, sorridentes, carregando suas sacolas de comidas ridiculamente saudáveis. Uma mulher parada na faixa de pedestres estava vestida com o uniforme da guarda local e ajudava uma velhinha a atravessar a rua com toda a simpatia do mundo.

- Eu vou enlouquecer aqui! Preciso de um desafio... Não vou atrás do sangue dela nem nada, já tenho toda a malva que preciso. – O sorriso se transformou em uma careta quando os olhos cinzentos pousaram nas plantas no colo do irmão. – Juro que ninguém vai nem perceber!

***

Bar Harbor era a descrição perfeita de uma cidadezinha do interior, do tipo que tinha os dias mais movimentados na pracinha principal da cidade com festividades locais pelos motivos mais bobos.

A comemoração de Halloween havia movimentado toda a cidade e levado não só as crianças a sair nas ruas, como também os adultos e idosos que se aglomeravam na decorada praça para assistir a festividade.

A escola local havia preparado uma apresentação no palco central e as crianças eram aplaudidas pelas fantasias mais bobas que Alaric já havia presenciado. Os postes de luz estavam decorados com morceguinhos de papel, bruxas que voavam em suas vassouras e fantasminhas. Haviam abóboras iluminadas por todos os cantos e algumas barraquinhas se aproveitavam para fazer suas vendas.

Os olhos cinzentos acompanhavam toda a movimentação com tédio. Ao contrário de Petrus que tinha um objetivo, aquela festa apenas significava que Alaric poderia sair um pouco da casa afastada por onde havia passado os últimos dias.

Os dois irmãos estavam camuflados em um ponto movimentado da praça e fingiam assistir a apresentação das crianças no palco quando um grupo formado por uma família se afastou de uma das barracas, liberando a visão de uma pilha de tortas e de um rosto sorridente já conhecido.

Summer Fields estava com toda sua atenção em registrar a compra que havia acabado de fazer que não notou quando os Montgomery se aproximaram. O grande sorriso nos lábios de Alaric mostrava que ele estava satisfeito com aquele encontro do acaso.

- Hey! Então quer dizer que está no ramo das tortas também?

Os olhos azuis se ergueram e passaram de um irmão ao outro, estudando sua inusitada chegada antes de responder.

- Não entendo nada de malvas, mas aqui eu posso garantir que a torta de morango vai ter um efeito melhor do que qualquer erva ou planta.

A morena agia com a educação exigida de uma vendedora, o que mostrava que ao menos ela sabia ser profissional, diferente da loira alucinada.

- Onde está a loirinha? Acabei de passar por uma pessoa com a máscara do Jason, aposto que é ela, hm?

Summer vestia um longo vestido branco e os cabelos presos, mas a maquiagem que a deixava com uma exagerada aparência pálida denunciava a fantasia da Mulher de Branco. Um sorrisinho mais divertido apareceu em seus lábios quando ela apontou com o queixo para um ponto atrás dos irmãos.

Antes mesmo de se virar, Alaric já sabia que encontraria a loira da loja exotérica em suas costas.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Michaela Moccia em Dom Out 16, 2016 8:05 pm

Por ter uma personalidade completamente atípica, Summer não desconfiou em nada da atitude ligeiramente suspeita da prima após o encontro com os dois rapazes na loja de artigos exotéricos. Não seria a primeira vez que Letitia agia de forma bizarra, de modo que a morena simplesmente encarou apenas como mais um dos surtos “perfeitamente normais”.

Apenas alguns dias haviam se passado desde o encontro dos dois irmãos, mas Fields já havia mais uma vez mergulhado na rotina tediosa de sua vida, onde nada de novo acontecia na pequena Bar Harbor e ela se via presa em um futuro sem emoções, sem possibilidade de sair daquele lugar onde seria sempre assombrada pela tragédia da cidade.

O sorriso mecânico estava em seu rosto enquanto atendia aos clientes durante a festividade do Dia das Bruxas. A lanchonete ainda estava aberta, mas Alice havia encarregado a sua funcionária mais confiável a responsabilidade de levar uma quantidade variada de tortas para serem vendidas durante o festival.

A fantasia obviamente não havia sido ideia dela, mas Alice praticamente a intimara a entrar no clima exigido do Halloween, onde a senhora garantia que aquilo fazia os clientes se sentirem mais a vontade e envolvidos com a mágica do momento.

Para Summer, não havia nada de mágico em se vestir com um vestido velho e fazer de conta que era um fantasma, mas o emprego era tudo que tinha para ajudar nas despesas da casa, o que não fazia sentido contrariar as vontades da velha Trevor.

Quando os olhos claros pousaram mais uma vez nos Montgomery, Summer tentou esconder a surpresa de vê-los novamente ali. Os dois definitivamente não combinavam com o fim do mundo que era Bar Harbor, e ela poderia jurar que já haviam seguido a viagem para algum lugar mais interessante.

- O seu amigo não sabe mesmo ficar com a boca calada, hm?

O sorriso divertido apareceu em seus lábios, já prevendo o desastre que poderia acontecer com o temperamento forte de Letitia. Apesar de tentar parecer só mais uma menina que se divertia naquela festividade, bastasse que um bom observador a encarasse por alguns segundos para perceber que nenhum sorriso era capaz de iluminar os tristes olhos azuis.

Ela cortou um pedaço da torta de pêssego e a empurrou na direção dos rapazes, demonstrando que não teria o mesmo comportamento pouco amigável do outro dia.

- Apenas faça com que ele mantenha a boca ocupada. O Xerife está por perto e eu não vou conseguir encobrir uma cena do crime se a Letty resolver assassinar o seu amigo no meio de todo mundo.

- Letty? – O mais velho perguntou, sem abalar o largo e confiante sorriso, satisfeito por ter o mínimo de informação sobre a loira.

- Letitia.

O que poderia ser uma explicação a pergunta de Alaric, era apenas Summer chamando pela atenção da prima, como se quisesse lembra-la de que estavam em público e que não deveria cometer nenhuma loucura.

- Titi! – Alaric sorriu ainda mais, se voltando para a loira. – Um nome tão fofinho quanto você. Sabe bem como esconder os chifres, em diabinha?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Dom Out 16, 2016 8:20 pm

Era quase um insulto para uma bruxa participar de uma ridícula festinha de Halloween. A forma como as pessoas encaravam aquelas lendas era ridícula e Letitia não conseguia acreditar que os adultos realmente achavam engraçado colocar vestidos roxos, chapéus pontudos e narizes compridos e cheios de verrugas em suas filhas.

Mas Mitchell morava em Bar Harbor, então isso significava que ela não tinha muitas opções de divertimento para se dar ao luxo de dispensar o evento de Halloween. Além de uma festinha onde ela poderia interagir com os amigos e vizinhos, sempre havia muitos doces. Naquele ano, em especial, o instinto de proteger a prima era a principal motivação que levara Letitia para fora de casa.

E a jovem bruxa percebeu que seus receios não eram infundados quando os olhos sempre atentos a Summer captaram a imagem dos dois rapazes que se aproximavam da barraquinha onde a moça vendia as tortas de Alice Trevor. Mike Artenton havia respondido ao seu chamado, mas estava terminando um serviço no Texas, então Letitia teria que se virar sozinha na delicada tarefa de proteger a prima enquanto o caçador não chegava.

A melhor saída parecia ser fingir que não sabia a verdade. Letty não tinha dúvida de que estava diante de dois vampiros, mas ainda não conseguia entender o que eles estavam fazendo em Bar Harbor. Era tolice iniciar uma guerra estando em tamanha desvantagem, então cabia a Mitchell o papel de mais uma garota tola que caía facilmente no domínio daquelas criaturas sanguinárias.

- Eu odeio ser chamada de “loirinha”. E odeio ainda mais que estranhos idiotas me chamem por apelidos.

Quando os dois vampiros se viraram, encontraram Letitia de braços cruzados. Ao contrário da prima, a fantasia escolhida pela loira para a noite de Halloween não era nada discreta. O vestido vermelho colado ao corpo contornava todas as suas curvas. Sobre os fios claros, Mitchell havia colocado um arco também vermelho do qual saíam dois chifrinhos que piscavam, exatamente como a pontinha do rabo preso na parte de trás do vestido. A maquiagem carregada realçava o ar nada doce da “diabinha”, assim como as botas de cano alto que protegiam suas pernas do vento frio que soprava na praça.

- Não sei como funcionam as coisas no lugar de onde vocês vieram, mas aqui nós costumamos nos referir às pessoas pelos nomes. Eu sou Letitia Mitchell. E esta é a minha prima, Summer Fields.

A menção ao sobrenome dos Fields não fora feita por acaso, muito menos por descuido. Letitia queria avaliar se haveria alguma surpresa e se os vampiros realmente sabiam com quem estavam lidando. A forma como os olhos do moreno se arregalaram fez com que Letty tivesse que conter um sorriso satisfeito.

O choque dele deixava claro que eles sabiam quem era Summer, mas que só agora descobriram que estavam diante da sobrevivente do ataque aos Fields.

O medo de Letitia era que os dois se atirassem no pescoço de Summer naquele mesmo instante, mas a reação discreta deles só serviu para deixar a bruxa ainda mais confusa. Se eles realmente pertencessem ao mesmo clã que matara os pais da menina, o mais lógico era pensar que retornariam à cidade para terminar o serviço. Mas, ao contrário do que era de se esperar, o vampiro soou gentil e cuidadoso quando pegou a tortinha de pêssego oferecida pela vendedora.

- Vou confiar na sua sugestão, realmente parecem deliciosas, Summer. Eu sou Petrus, e este é Alaric, meu irmão mais velho. Não liguem para o Ricky, minha mãe deixou que ele caísse de cabeça. Algumas vezes.

- Não vai provar, Petrus? – Letty apontou para a tortinha, como se desafiasse o rapaz a comê-la – São as melhores da cidade, não faça esta desfeita para a Sum.

Mitchell sabia que os únicos nutrientes que alimentavam aquelas criaturas estavam no sangue. Alguns vampiros eventualmente comiam ou bebiam alguma coisa, geralmente apenas para se misturar melhor entre os humanos. Mas todas as fontes eram unânimes em dizer que aquilo era uma tortura para a espécie. E se aquele hábito não natural fosse repetido com muita frequência, havia o sério risco de complicações mais sérias e até mesmo alguns relatos de morte ao longo da história sobrenatural.

E, de fato, Petrus parecia estar mastigando um pedaço de madeira seca quando deu uma mordida na deliciosa tortinha da Sra. Trevor. O rapaz abriu um sorriso forçado para Summer, com os lábios lambuzados de chantilly, tentando disfarçar o quanto era difícil engolir a gosma em sua boca.

- A de morango também é sensacional. – Letitia pegou uma tortinha com cobertura de morango e a empurrou para as mãos do loiro – Prove, Alaric. É de matar!
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Re: Bloody Type

Mensagem por Cameron Lahey em Dom Out 16, 2016 8:45 pm

Algo na forma com que Letitia colocava as palavras fazia com que um alarme soasse na cabeça de Alaric. A loira havia sido extremamente rude no primeiro contato e repentinamente mudava sua jogada para parecer simpática, oferecendo pedaços de tortas?

Se o Montgomery ainda tinha alguma dúvida de que estava lidando com uma bruxa, ele teve certeza absoluta que Mitchel não era uma simples humana quando o sobrenome de Fields veio a tona. Ele poderia não estar tão empenhado naquela missão quanto Petrus, mas já tinha ouvido sobre os Fields tantas vezes que poderia ele mesmo narrar a história sobre a trágica morte do casal.

Se os Fields estavam envolvidos com magia, aquilo colocava Summer e Letitia bem no meio do furacão, o que permitia que a loira o encarasse como era de verdade. Se a loira ainda tinha alguma dúvida sobre a natureza dos dois irmãos Montgomery, ela estava apenas tentando reunir os fatos para provar sua teoria. Alaric não tinha a menor intenção de dar de mão beijada aquela verdade para uma bruxa.

Seus olhos se estreitaram enquanto ele encarou a loira da cabeça aos pés, estudando a fantasia tão apropriada para a personalidade perturbadora que ela tinha. Por fim, ele abriu mais um sorriso, mostrando que não jogaria a toalha tão facilmente naquela batalha.

- Quando você diz assim, até parece que envenenou a torta, Titi. E considerando como tentou esfaquear o meu irmão da última vez, não pode me julgar por recusar a oferta.

As palavras soavam como uma brincadeira, mas era a sua forma de escapar daquela tortura de comer um alimento destinado aos humanos. Petrus já havia quase se entregado com a careta ao dar a primeira mordida e Letitia teria apenas mais motivos para desconfiar deles se o mais velho repetisse o gesto.

Por isso, antes que a loira acreditasse que ele estava apenas fugindo da sensação desagradável de comer a torta de morango, ele emendou com naturalidade.

- Mas se você me mostrar onde eles escondem os whiskys por aqui, eu deixo você ficar com a minha parte. Eu mataria por uma dose pura...

Os olhos cinzentos quase brilharam ao incluir aquela ameaça vazia em suas palavras, apenas completando a brincadeira iniciada por Letitia. Alaric não tinha a intenção de matar ninguém, mas também era a sua forma de mostrar para a bruxa que ele também podia entrar naquela brincadeira.

- E então, capetinha... Que tal mostrar que você também sabe ser agradável e mostrar ao seu novo amigo onde encontrar uma bebida de verdade? Sem veneno, por favor.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Dom Out 16, 2016 8:55 pm

O paladar tão diversificado dos humanos fazia com que Petrus Montgomery sentisse saudades do sabor doce do açúcar, do azedo encontrado em algumas frutas, do sal que temperava a carne que sua mãe preparava nos almoços de domingo. Agora, tudo o que seus instintos aceitavam de bom grado era o gosto metálico do sangue.

Setenta anos tinham se passado, mas Petrus ainda se lembrava de algumas sensações humanas desagradáveis. Quando era apenas um garotinho, o filho caçula dos Montgomery tivera o azar de dar uma profunda golada em um leite azedo. O reflexo de vômito fora incontrolável e Petrus havia cuspido imediatamente o líquido branco talhado para fora da boca.

A tortinha oferecida por Summer provocava no vampiro exatamente a mesma sensação de nojo. Seus instintos não encaravam aquilo como algo comestível e cada célula do corpo de Petrus implorava ao vampiro que não engolisse aquela coisa. Mas a presença de Fields e Mitchell impossibilitava qualquer reação extremada como aquela. E seria muito suspeito cuspir a torta logo depois que Alaric inventara uma desculpa idiota para não provar o doce.

Para manter o disfarce intacto, Petrus deveria se comportar como um rapaz normal. E era evidente que as tortinhas vendidas por Summer faziam sucesso entre os humanos.

- Deliciosa.

Montgomery parecia uma vítima da pior tortura da humanidade quando deu mais uma enorme mordida na torta e mastigou somente duas vezes antes de engolir aquela gosma, desejando que aquele inferno terminasse mais rápido.

- Uau, ele está devorando tão rápido, deve estar com fome! Dê mais uma tortinha pra ele, Sum. Por minha conta.

A “gentileza” de Letitia não deixava dúvidas de que a loira já sabia a verdade. Summer, ao contrário, reagia com naturalidade e sem nenhum pingo de malícia. Sem dúvida, Petrus se sentia muito mais inclinado a gostar da prima morena. A bruxa maluca e torturadora combinava muito mais com o perfil irresponsável de Alaric.

- Não precisa, Summer. Eu agradeço muito, mas uma tortinha só já basta. Não posso exagerar demais, senão vou perder em uma noite todo o trabalho de uma semana inteira na academia.

Embora seu interesse nos Fields inicialmente se resumisse à lenda de que os pais de Summer haviam descoberto a “cura” para a sua maldição, agora que estava diante da menina era impossível para Petrus manter-se emocionalmente distante da tragédia que acontecera na vida dela.

Ele também já havia matado, na maior parte das vezes quando era imaturo demais e estava cego pela sede. Mas era evidente que o assassinato dos Fields não fora obra de vampiros recém-transformados. Aquelas mortes tinham sido cuidadosamente planejadas por mentes que queriam muito mais que o prazer vindo do sangue humano.

E aquela atrocidade havia deixado Summer sozinha e completamente vulnerável. Os Montgomery estavam ali apenas atrás de respostas, mas qualquer vampiro mal intencionado teria fácil acesso à garota caso desejasse terminar o serviço.

- Quando você tiver uma folga no trabalho, quer me acompanhar até a barraquinha de jogos, Sum? Eu gostei particularmente do jogo das argolas.

O convite soou naturalmente logo depois que Alaric chamou a loira para uma dose de whisky, como qualquer rapaz comum abordaria uma moça por quem estava interessado. Petrus sugeriu uma bobagem que não parecia ser nem meramente perigosa. Os dois só se divertiriam num local público, jogando argolas em alvos e, com sorte, ganhariam um ursinho de pelúcia.

Pela reação de Letitia, contudo, parecia que Petrus tinha convidado Summer para ser a vítima de uma chacina. Os olhos de Mitchell se estreitaram e ela sacudiu a cabeça em negativa, respondendo pela prima.

- Não, ela não quer.

- Eu perguntei para a Summer. – Petrus abriu um sorrisinho para a loira – O seu convite foi feito pelo Alaric, então a sua resposta deve ser dada para ele. O meu convite felizmente foi dirigido para a sua prima e eu acho que ela é grandinha o suficiente para responder por si mesma.

- Ela não vai a lugar algum com você. Eu não vou deixar.

As palavras possessivas de Letitia fizeram Petrus voltar um olhar falsamente surpreso para a morena.

- O que há entre vocês? A sua prima realmente tem o poder de escolher os caras com quem você pode sair, Summer?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Michaela Moccia em Dom Out 16, 2016 9:26 pm

Até mesmo por alguém que estava acostumada com a personalidade pouco sociável de Letitia Mitchel, Summer pareceu surpresa quando a loira assumiu a postura defensiva diante dos irmãos Montgomery.

Era compreensível que Letty tivesse sido tão pouco amigável com eles na loja ou continuasse fuzilando o loiro com palavras ácidas, já que Alaric vinha demonstrando um particular interesse em desafiar a loira. Mas Petrus não havia feito nada de errado para receber aquele comportamento hostil.

Com os olhos estreitos em confusão, Summer procurou pelo rosto da prima, em busca de alguma explicação que a fizesse compreender aquele comportamento. Mas aos olhos inocentes da jovem Fields, Letitia estava apenas agindo extremamente cuidadosa. Mesmo que a diferença de idade entre as duas fosse quase inexistente e que Letty tivesse uma personalidade maluca, Summer já havia presenciado na prima diversas vezes o seu instinto protetor.

Para Summer, a prima estava apenas a protegendo do interesse pouco inocente de um rapaz. Os outros meninos de Bar Harbor não apresentavam perigo e o único rapaz que já havia demonstrado interesse na órfã da cidade era o filho do Xerife, por quem Fields não parecia retribuir os sentimentos.

Petrus, por outro lado, era um dos rapazes mais bonitos que Summer já havia visto e vinha de fora da cidade. Parecia ser exatamente tudo que ela precisava para escapar um pouco da claustrofobia provocada pela cidadezinha. O fato de Letitia querer impedir aquele encontro só atiçou ainda mais a rebeldia adormecida da menina.

- A Letty só deve estar com o nível de açúcar meio baixo.

A forma com que a morena encarava a prima mostrava que ela ainda estava tentando desvendar aquela acidez gratuita. Como a única explicação lógica que Summer encontrou era que a prima não queria ficar a sós com Alaric, ela tentou não forçar a sua vontade.

- Mas eu não poderia mesmo aceitar. Preciso ficar aqui até que as tortas acabem e não quero prender você a noite toda.

Os olhos azuis estudaram o rosto de Petrus enquanto algo se remexia no seu estômago. Há tanto tempo que Summer se sentia apática que aquela simples reação a pegou de surpresa. Petrus não era tão ousado ou provocativo quanto o irmão, mas também era completamente diferente de tudo que existia em Bar Harbor. Algo nele soava como um alerta de perigo, mas era exatamente o que atraía Summer.

- Não seja por isso! – Alaric ergueu as mãos como se tivesse acabado de resolver uma complexa equação matemática. – Eu e a Diabinha podemos ficar de olho nas coisas enquanto vocês crianças vão se divertir.

Como um bom menino, Alaric apoiou os dois dedos na testa como se fosse um escoteiro se apresentando a um superior.

- Prometo que vou ficar longe das tortas se a Diabinha prometer se livrar de todas as facas.

Alaric se voltou para a loira, abrindo o seu sorriso mais sedutor possível, embora já começasse a desconfiar aque aquilo só servia para irritar Letitia ainda mais.

- O que me diz, Titi? Com toda essa multidão em volta, não é como se nós dois fossemos simplesmente nos matar em meio as tortas, né?
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Dom Out 16, 2016 9:53 pm

Letitia se arrependeu daquela explosão no instante em que notou como soara possessiva e autoritária. Por mais que amasse a prima e quisesse protegê-la, Letty não tinha o direito de fazer escolhas por Summer. A morena não tinha ideia de que estava diante de dois exemplares da mesma espécie que matara seus pais e definitivamente não era o melhor momento para aquela revelação. Portanto, tudo o que Summer via era a prima sendo loucamente protetora e impedindo-a de se divertir com um rapaz bonito e simpático.

Quando Mitchell achou que tudo se resolveria com aquela recusa da prima, Alaric surgiu com uma solução perfeita para o problema da barraquinha de tortas. A sugestão dele fez com que Letitia novamente fuzilasse o rapaz com um olhar mortal, mas a loira precisava admitir que Ricky tinha uma parcela de razão em suas palavras.

Era muito improvável que dois vampiros – aparentemente maduros e em pleno controle de seus instintos – protagonizassem um banho de sangue em praça pública, com centenas de testemunhas, câmeras fotográficas e celulares por toda parte. Havia um código da espécie que exigia que o segredo de sua existência fosse mantido e os Montgomery seriam caçados e mortos como ratos de esgotos se toda a sociedade dos vampiros fosse exposta ao mundo por causa dos dois.

Era óbvio para Letitia que os dois irmãos Montgomery não eram inocentes e que não estavam em Bar Harbor ao acaso. Mas insistir naquela guerra só desgastaria a amizade com Summer e faria a prima desconfiar da verdade que Letty se esforçava tanto para esconder dela.

- Vai, Sum. Você tem quinze minutos. Depois disso, eu não posso garantir que você não encontrará partes do corpo deste imbecil misturadas às tortinhas.

Extremamente contrariada, Letitia não viu outra saída senão acompanhar a prima com o olhar enquanto Summer e Petrus se afastaram, seguindo na direção das barracas de jogos. Os dois mantinham uma distância segura entre os corpos e em nenhum momento se afastaram do ponto mais movimentado da praça, mas ainda assim Mitchell só relaxou depois que o casal chegou diante da barraquinha do outro lado da rua e Petrus pagou pelas argolas para que pudessem iniciar a brincadeira.

- Que tal pararmos com esse joguinho ridículo?

Com a voz anormalmente contida, Letitia cruzou os braços e ergueu um pouco o queixo para conseguir encarar o rosto bonito de Alaric.

- Eu saquei que tipo de monstro você é no instante em que colocou essa mão gelada e nojenta em cima de mim. E você também deve ter percebido que eu não sou uma garotinha tola e ingênua ao notar que o seu poderzinho ridículo de sedução não funciona comigo. Meus amuletos de proteção são perfeitos. Graças a todos os deuses, aliás! Eu me mataria se um dia caísse na sua lábia podre.

Os olhos profundamente azuis da menina se estreitaram até se transformarem em duas fendas. Mesmo agora que acabara de confessar o seu conhecimento sobre a natureza dos Montgomery, Letitia não parecia intimidada. Apenas seu coração acelerado denunciava a adrenalina que corria em suas veias com aquele perigo e Letty detestava pensar que os sentidos aguçados de Alaric permitiriam que ele notasse aquele detalhe.

- O que vocês querem em Bar Harbor? Já não foi o bastante o que fizeram com os meus tios? A Summer não sabe de nada. Nada mesmo. Na cabeça dela, os pais foram mortos por assaltantes psicopatas. Vocês não vão conseguir tirar nada dela simplesmente porque não há nada a ser tirado.

Aquela era uma dúvida que atormentava a cabeça de Letitia desde a trágica morte dos tios. Não fazia sentido que os Fields tivessem sido vítimas de vampiros aleatoriamente. Mitchell tinha certeza de que havia algo muito mais sério por trás daquela história, mas as dúvidas da loira denunciavam que ela também não fazia ideia do envolvimento dos tios com uma possível cura para a maldição dos Montgomery.

- Qual é o problema dos chupadores com a gente, hein? Me fala o que você quer que eu te dou. Tudo para você sumir daqui e eu nunca mais ter que lidar com gente da sua laia... – os olhos de Letty giraram e ela quebrou o clima sério com uma provocação – Sempre gostei mais do sangue quente dos lobos.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Cameron Lahey em Dom Out 16, 2016 10:28 pm

Alaric estava disposto para negar até a morte as suspeitas de Letitia. Em nenhum momento a palavra “vampiro” foi dita com todas as letras, mas a loira não deixava dúvidas de que havia descoberto seu grande segredo.

O Montgomery mais velho poderia passar mais algumas horas se divertindo com insinuações de que a loira havia enlouquecido, de prolongar a noite com piadas afiadas, dizendo qualquer coisa que desviasse o foco da conversa para a verdade. Seu sorriso já estava preso nos lábios enquanto ele escutava o discurso de Mitchell, esperando pelo momento certo para interrompê-la.

O que o rapaz não esperava era ouvir as acusações a respeito do ataque aos Fields de forma tão direta, já explicando a lógica para a presença dos dois vampiros na cidade. Mas ao contrário da lógica de Letitia, Alaric chegou a se ofender por pensarem que ele tivesse alguma ligação direta a tragédia dos pais de Summer.

Pela primeira vez desde que se colocara diante de Mitchell, o sorriso de Alaric desapareceu e ele assumiu um semblante mais sério. Os olhos cinzentos demonstravam um pouco de todo o pesado passado que ele carregava consigo quando não usava sua máscara de segurança, mas a culpa do brutal assassinato que acontecera na cidade não estava na sua conta.

Alaric não era inocente. Ele tinha sangue demais para assombrar suas noites. Ao contrário de Petrus, mesmo depois que aprendeu a controlar os seus instintos de um recém-transformado, o mais velho continuou aumentando a sua lista de vítimas.

Seus ataques basicamente aconteciam em ladrões, estupradores ou as piores raças que não deveriam existir na humanidade. Em alguns casos, até mesmo doentes em seus leitos de morte serviam como desculpa para que ele se alimentasse. Mas a verdade é que cada uma das suas vítimas ainda estava gravada em sua mente, assim como o arrependimento que o acompanharia pela eternidade.

Como não havia mais motivos para continuar mentindo, Ricky desviou o olhar da loira para encarar as tortinhas diante da barraca. Ele apoiou uma das mãos na superfície fina de madeira e se virou para ficar de frente para a bruxa, sem mais o ar conquistador de antes.

- Pete e eu não temos relação alguma com o que aconteceu com os seus tios. Acredite ou não, isso tudo é uma grande coincidência.

Os olhos cinzentos deslizaram pela multidão até encontrar as costas do irmão e de Summer. O riso leve da morena era a prova de que as palavras de Letitia eram verdadeiras. Ela realmente não fazia ideia do mundo sobrenatural que fazia parte. Porque se também suspeitasse da natureza dos Montgomery, jamais se sentiria tão a vontade ao lado da mesma espécie que havia destruído sua vida.

- Nós não estamos atrás de confusão, Diabinha. – Um sorriso surgiu no canto dos seus lábios, mas sem a sombra da superioridade de antes. – Por que outro motivo você acha que compramos malva branca? Os humanos estão fora do nosso alcance e a gente também só quer ser deixado em paz.

Por mais que seu segredo tivesse sido revelado, não cabia a ele dizer o real motivo que havia levado os Montgomery até Bar Harbor. Se Letitia ou Summer soubessem a verdade, independentemente de estarem em posse da cura que Petrus tanto cobiçava, seria o fim do seu irmão.

- Você quer saber o que eu quero?

Um brilho passou pelos olhos de Alaric quando o sorriso convencido voltou a surgir. Ele deu um único passo em direção da loira, e foi apenas por estarem atrás da barraquinha de tortas que ninguém notou quando sua mão pousou na cintura dela, a puxando para mais perto.

- Que tal dizer que droga de feitiço é esse que você fez? Eu já vivi o bastante para saber que bruxas não são tão gostosas assim...

As íris cinzentas desceram pelo corpo de Letitia sem a menor inibição e Alaric mordeu o lábio inferior ao se deliciar com cada uma das curvas da bruxa.

- Lobos têm carrapatos e um péssimo cheiro de cachorro molhado. Desafio você a repetir um absurdo desses depois que passar uma noite comigo. Posso provar que não tenho nada contra gente da sua laia e ainda fazer você desistir desse preconceito absurdo.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Liam Mellish em Dom Out 16, 2016 10:29 pm

A risada melodiosa de Petrus Montgomery ecoou quando ele acertou a terceira argola no mais valioso dos alvos e recebeu como resposta um olhar contrariado do dono da barraca. A insatisfação do homem fez com que Petrus ignorasse suas habilidades afloradas e se esforçasse para errar os lançamentos seguintes, forjando uma sorte de principiante naquele joguinho tolo.

- Ah, droga! – Petrus curvou os lábios numa careta de desaprovação depois de errar a quarta argola e receber somente um balão colorido como prêmio – Eu comecei muito bem! Vamos tentar de novo, agora é a sua vez.

O rapaz empurrou mais uma nota de um dólar sobre o balcão, solicitando mais cinco argolas coloridas para que Summer também brincasse. Enquanto a garota se concentrava em seus lançamentos, o vampiro voltou a sua atenção inteiramente para ela.

Summer Fields era uma agradável surpresa daquela jornada em busca de uma cura. A órfã da tragédia que acometera os Fields era bonita, bem acima dos padrões das garotinhas do interior. Mas era a sombra nos traços bonitos que prendia a atenção de Petrus. Aos olhos de todos, Summer fingia ser uma sobrevivente que tentava levar a vida adiante. Mas a tristeza refletida pelas íris azuis denunciava que a menina ainda era atormentada por pesadelos.

Pela primeira vez em anos, Petrus se sentiu culpado pelo sofrimento de alguém. Nas últimas décadas, Montgomery vinha se esforçando muito para não tirar vidas inocentes e usava o seu domínio sobre os humanos para se alimentar sem precisar machucar ninguém e sem chamar a atenção para os próprios ataques. Não era exatamente uma questão de honra. Petrus apenas percebera que conseguia ficar mais tempo no mesmo lugar se mortes estranhas não começassem a atrair a atenção de caçadores.

Mas o sofrimento oculto nas feições de Summer Fields fazia com que Petrus novamente se enxergasse como um monstro que usava vidas inocentes para matar a sua sede de sangue. E aquela culpa, contraditoriamente, fazia com que Montgomery se sentisse ainda mais disposto a levar o “plano Fields” até o fim. Somente a cura daquela maldição poderia fazer com que Petrus se livrasse definitivamente daqueles instintos.

Quando um segundo balão colorido foi entregue para Summer, o vampiro acordou de seus devaneios e pediu mais uma rodada de argolas, agora disposto a ganhar um prêmio melhor para a garota.

- Desta vez vamos jogar juntos, para dar sorte...

Os olhos azuis, um tom mais escuros que os de Summer, se concentraram no alvo mais elevado da parede atrás da barraca antes de um lançamento perfeito. A argola girou várias vezes no ar até se encaixar com perfeição exatamente no ponto desejado por Petrus.

- Sua vez. – a argola vermelha foi entregue a Summer – Tente acertar no mesmo lugar.

Quando a argola lançada pela morena também se encaixou no alvo, Petrus vibrou com uma sincera admiração. Fields teoricamente não havia usado nenhuma habilidade “anormal” para conseguir aquele feito, o que tornava o lançamento dela fantástico. A terceira argola, lançada pelo rapaz, também fez companhia às duas primeiras e agora Summer teria um último lançamento para garantir os prêmios mais valiosos da barraca.

- Concentre-se! – um risinho grave escapou pelos lábios do rapaz quando ele notou um discreto tremor no braço da menina – Respire fundo! É como fazer um lançamento de basquete, você precisa manter a calma e a postura firme. Eu vou te ensinar...

Petrus se colocou atrás da garota e deslizou as pontas dos dedos pelo braço de Summer até alcançar a mãozinha trêmula da menina. Os dedos de Montgomery estavam gelados, mas aquilo podia ser facilmente explicável pela inocência do turista que saíra para curtir a noite de Bar Harbor sem colocar um casaco. A calça jeans, os tênis e a camisa de botões e mangas curtas certamente não era o bastante para proteger ninguém que vento frio que circulava pela praça no final de outubro.

- Estique mais o tronco para retificar a coluna... – as palavras foram ditas num sussurro, perigosamente próximas ao ouvido de Summer – Mantenha os olhos no alvo, não perca a concentração.

Quando se aproximou de Summer Fields, Petrus planejava iniciar uma amizade que poderia facilitar os seus planos de desvendar os segredos daquela família de bruxos. O que ele não esperava com aquela aproximação era se tornar uma vítima do próprio plano.

Com aquela proximidade, Petrus ouvia com perfeição as batidas ritmadas do coração da moça. Seus instintos eram capazes de acompanhar o calor do sangue que circulava pelo corpo de Summer e emanava da pele macia dela. Os olhos azuis imediatamente se abaixaram e buscaram pelo pescoço macio enquanto seu corpo ignorava a saciedade incompleta das malvas brancas e implorava pelo sabor do sangue da menina.

Montgomery sentiu com perfeição o exato momento em que seus caninos se projetaram, mas a sua própria voz berrou um “não” que ecoou dentro de sua mente entorpecida, obrigando-o a recuar abruptamente para evitar uma tragédia que colocaria tudo a perder.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Saphir Wegener em Dom Out 16, 2016 10:59 pm

- Quantos anos você tem?

A pergunta soou num tom de desafio enquanto uma das sobrancelhas de Letitia se erguia num arco perfeito. Os lábios dela também se curvaram num sorrisinho enquanto seus olhos deslizavam pelo corpo do vampiro com uma expressão maliciosa que mostrava que a bruxa não pretendia recuar naquele joguinho que Alaric insistia tanto em protagonizar.

- Eu gosto de caras mais velhos, mais experientes... Mas tudo tem limite, não é? Não acho nada sexy a ideia de ir para a cama com um senhor que pode ter repetido esses mesmos galanteios baratos para a minha vovozinha.

As palavras ácidas foram finalizadas com uma expressão enojada, como se Alaric realmente tivesse a aparência de um velho enrugado que jamais atrairia a atenção de uma moça jovem como Mitchell. Era um grande esforço para Letty fingir estar enojada com o corpo perfeito e bonito do jovem rapaz a sua frente.

A seriedade com a qual Alaric garantira que os Montgomery não pertenciam ao mesmo clã que assassinara os Fields foi o bastante para que a bruxa acreditasse nele. O vampiro já havia mostrado que usava o humor e aquele ridículo comportamento galanteador como armas de defesa. Por isso, era fácil acreditar nele quando a máscara caía e Alaric falava com mais seriedade.

Mas aquela confissão só aumentava a confusão na cabeça de Letitia. Se os dois vampiros não estavam ali para terminar o serviço com Summer, era ainda mais difícil entender a motivação que os levara até aquela cidadezinha no fim do mundo.

- Você realmente quer dormir comigo ou simplesmente não consegue se controlar diante de uma mulher?

As perguntas diretas da bruxa mostravam que aquela conversa não a deixava nem meramente constrangida. Durante uma pequena pausa no discurso, os olhos de Letitia se iluminaram quando uma ideia maldosa passou pela mente dela. Já que era óbvio que Montgomery não estava disposto a lhe fornecer respostas, a loira concluiu que só restava a opção de se divertir com ele.

A mesma tortinha de morango que Alaric dispensara há alguns minutos foi novamente estendida na direção dele, desta vez sem que Letitia tentasse disfarçar que aquele era um desafio.

- O seu poderzinho de sedução não funciona com uma bruxa, Sr. Cullen. Você terá que se sacrificar para provar que realmente merece uma chance.

Depois de assistir Petrus se torturar com uma daquelas tortinhas, Letitia tinha absoluta certeza de que Alaric recuaria daquele desafio e era com isso que a loira contava quando completou.

- Se você comer tudinho sem fazer caretas, vou abrir a janela do meu quarto esta noite para você e prometo que não direi nenhum “não”, você terá tudo o que quiser. É uma promessa. Mas, por outro lado, se você não fizer este “sacrifício” ficará provado que você quer dormir comigo assim como quer transar com qualquer menina que surja no seu caminho. Então, poupe-me dos seus galanteios e vá treinar seus poderes de sedução com uma dessas tolas que vão se jogar aos seus pés.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Michaela Moccia em Dom Out 16, 2016 11:19 pm

Antes de toda a tragédia que havia caído sobre os Fields, Summer levava uma vida perfeitamente normal. Ia a escola, tirava boas notas, mas dava os ocasionais problemas aos pais quando resolvia se estender até mais tarde nas ruas por causa de algum namoradinho. Por isso, mesmo depois de ter se afastado do mundo e perdido o interesse em qualquer um que se aproximasse, ela não era uma menina completamente inocente incapaz de perceber quando um rapaz estava investindo.

Ao contrário das vezes em que Ezra tentara se aproximar, Summer se sentia empolgada com a ideia de Petrus estar interessada nela. O rapaz era atraente, diferente de tudo que a pequena cidade de Bar Harbor tinha a oferecer e era incrivelmente tentador se render as investidas, por mais que ele pudesse simplesmente ir embora no dia seguinte, a deixando novamente largada naquele pequeno fim de mundo.

Quando as mãos de Montgomery pousaram em sua cintura e a voz soou perigosamente perto do seu ouvido, Summer abriu um sorrisinho, parecendo sinceramente divertida com a situação. Os olhos azuis estavam fixos exatamente no ponto onde as outras três argolas haviam ido parar. Em sua mente, Fields já estava vendo a quarta argola ali, mas foi com surpresa que ela arremessou o objeto, sentindo um formigamento nas pontas dos dedos.

Um leve vento soprou, jogando algumas mechas soltas do seu cabelo balançarem. Era uma sensação estranha e jamais experimentada antes, como se ela estivesse respirando de verdade pela primeira vez. Mas logo Summer concluiu que era apenas o frescor da noite e comemorou som um risinho quando a quarta argola concluiu o arremesso perfeito.

Por estar concentrada em sua jogada, ela não notou quando Petrus se afastou, e foi com grande surpresa que ela se virou para encará-lo, sem encontrar a mesma comemoração no rosto dele.

- Você está se sentindo bem?

Summer esticou o braço até tocar a testa fria de Montgomery. A interpretação pela baixa temperatura imediatamente veio pela noite mais fresca do outono, o que logo fez com que ela deduzisse que aquele era o motivo para que Petrus não estivesse se sentindo bem.

- Tem alguma coisa que eu possa fazer por você? Uma água? Ou uma bebida mais quente?

Os olhos azulados passearam ao redor até encarar a barraca com as tortas, encontrando a prima ainda conversando com Alaric. A piadinha ácida de Letitia poderia ser só mais uma das suas esquisitices, mas por um segundo, o queixo de Summer despencou e ela encarou Petrus outra vez.

- A Letty não envenenou a torta! Envenenou?

A morena imediatamente sacudiu a cabeça, se arrependendo daquele pensamento absurdo. Claro que Mitchell nunca faria nada tão grave, principalmente considerando que elas sequer conheciam os Montgomery.

O atendente atrás do balcão estava completamente alheio a cena do casal, ainda segurando o grande urso conquistado pelo desempenho dos jovens com uma expressão rabugenta.
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Re: Bloody Type

Mensagem por Cameron Lahey em Dom Out 16, 2016 11:40 pm

- Sr. Cullen, jura?

O descontentamento no rosto de Alaric era nítido. Suas sobrancelhas estavam franzidas e o nariz enrugado em desagrado com aquela comparação. A cabeça foi balançada em negação antes que ele completasse.

- Bom, a maioria das garotas até gostaria dessa associação. Mas você não é como a maioria das garotas, não é?

Desta vez, os olhos azuis estudaram a jovem bruxa com mais atenção, indo além da aparência física. Desde o primeiro contato com Letitia Mitchell, Ricky já havia notado que ela era completamente fora do comum.

O desafio não foi recebido exatamente com surpresa. Ele poderia não estar esperando por aquela oferta, mas a loira já vinha demonstrando que era capaz de agir de forma completamente inesperada. Quando ele esperava que ela surtasse e agisse de uma determinada maneira, Mitchell seguia exatamente pela linha oposta.

Sem se afastar dela, Alaric abriu a caixinha de uma das tortas e estudou a aparência impecável do doce. Se ele fosse humano, não pensaria duas vezes em se deliciar com o açúcar misturado com o sabor particular das frutas. Quem quer que fosse a cozinheira, era inquestionável o seu capricho.

Para um vampiro, não importava a aparência daquela comida. O alimento destinado a humanos era simplesmente intragável e ele só havia treinado o seu corpo para aceitar o whisky. Mas parecia ser um sacrifício realmente pequeno se fosse para seguir adiante com o desafio da bruxa.

Por longos segundos, Alaric apenas encarou o pedaço de torta, estudando as suas opções. Por fim, ele levou o dedo indicador até a cobertura branca e levou a mão até o pequeno espaço que havia sido mantido entre ele e a bruxa. Os olhos ainda estavam pregados na cobertura em seu dedo quando ele chegou até uma definição.

- Você se venderia mesmo tão fácil só por uma tortura sem graça?

O foco de Alaric finalmente saiu da cobertura branca para o rosto da menina, do outro lado do seu dedo. Ele já não trazia mais o sorriso superior, mas a encarava com astúcia de quem estava diante de uma partida de xadrez, calculando seu próximo movimento.

Lentamente, ele esticou o braço até que o glacê fosse espalhado sobre o lábio inferior da bruxa. Ele podia escutar as batidas do coração dela, mas era impossível dizer se finalmente a estava afetando ou se era apenas medo por estar diante de um vampiro.

De uma forma ou de outra, Ricky se surpreendeu quando ele mesmo ficou tentado em capturar a boca suja de Letitia. Normalmente o seu interesse nas humanas começava pelo calor do sangue, mas mais uma vez a bruxa se mostrava diferente.

Antes que acabasse seguindo por um caminho perigoso demais, Alaric respirou fundo e recuou um passo, voltando a exibir o sorriso perfeito na máscara de alguém que não se importava com nada e ninguém.

- Você está certa, Diabinha. Não é você. Serviria qualquer uma. Definitivamente não vale o sacrifício.
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Re: Bloody Type

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