The Royals

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Re: The Royals

Mensagem por Danika Lehmann em Sab Out 01, 2016 8:21 pm

O queixo de Danika Lehmann despencou e os olhos castanhos encaravam o cenário maravilhoso sem piscar, como se esperassem que a qualquer momento Antoine Weiss soltasse uma gargalhada e confessasse que estava brincando. A van que levava Nika e a equipe que ela trouxera de Leoben havia acabado de ultrapassar a barreira criada pelos guardas que protegiam a entrada do suntuoso palácio real de Viena.


- Peço desculpas por não ter contado a verdade, mas era uma questão de segurança. Os Kensington são muito discretos, então eu pediria a vocês que, por favor, sejam profissionais. Nada de fotos, autógrafos ou olhares indiscretos. É apenas um jantar para a família e os amigos mais próximos.

- Para a família real!!! – os olhos de Lionel quase saltavam para fora do rosto do garçom.

- Somos uma família como qualquer outra. – Antoine explicou com um ar convencido – Sou sobrinho da rainha. A tia Helena é a pessoa mais formal e discreta que eu conheço, então ela só convidou as pessoas mais próximas para comemorar o aniversário da Amelie.

- A princesa!?? – Lionel ficou ainda mais pálido – Vamos fazer o jantar de aniversário da princesa Amelie???

Embora não fosse austríaca, Danika obviamente já havia ouvido falar sobre os Kensington. A família real era extremamente discreta e Nika não se lembrava de ver o sobrenome deles envolvido em qualquer tipo de escândalo. Cristoph era considerado um bom rei e não era raro que seu nome fosse citado em programas sociais. Helena era uma mulher sofisticada e sempre aparecia impecavelmente elegante, mesmo nas fotos mais informais capturadas por paparazzi.

Mas a romena não tinha tanta informações sobre os herdeiros, o que mostrava que o rei e a rainha eram eficientes na tarefa de preservar a imagem dos filhos. Nika sabia que o filho mais velho se chamava Benjamin Kensington e que o príncipe não morava na capital. A caçula era Amelie Kensington, que morava com os pais, mas raramente aparecia nos jornais em uma foto junto com a mãe.

- O que vamos fazer??? – Lionel parecia um fantasma quando se voltou para a chef.

- Comida. – Danika forçou um sorriso para tranquilizar o rapaz, embora ela mesma estivesse explodindo de ansiedade por dentro – O Sr. Weiss tem razão. É apenas um jantar em família. Somos profissionais e vamos fazer o nosso trabalho, Lion.

Lionel estava há um passo de perder o controle. O jovem garçom só tinha dezenove anos e o restaurante de Nika era o seu primeiro emprego oficial. Para ele, já era um enorme passo trabalhar em um restaurante refinado. Servir um jantar para a família real era algo que excedia todas as expectativas do rapaz.

A ansiedade só cresceu quando a equipe chegou à cozinha, que era tão grande e tão bem equipada quanto qualquer cozinha profissional. Danika precisou de vários minutos até se acostumar com o ambiente amplo, mas logo ela e a equipe do restaurante de Leoben já estavam trabalhando ativamente para servir o jantar daquela noite especial.

Por mais de uma vez, Danika se aproveitou de uma pausa no trabalho para ligar para o namorado. Ela estava muito animada com a novidade e louca para contar para Benjamin que estava cozinhando dentro do palácio real de Viena. Mas, para imensa decepção da romena, ela encontrou o celular de Müller desligado em todas as tentativas.

O cheiro delicioso do jantar já ultrapassava as paredes da cozinha quando a porta se abriu. Danika estava de costas para a porta, mas os músculos tensos de Lionel e seus olhos profundamente arregalados já indicavam para a chef que ela daria de cara com um dos Kensington no instante em que se virasse.

Contudo, os olhos castanhos capturaram a imagem de dois membros da família real quando Lehmann se voltou para a porta. Cristoph Kensington já estava impecavelmente vestido com um terno preto, os cabelos castanhos salpicados de fios grisalhos nas têmporas estavam úmidos e penteados para trás, sem nenhum fio fora do lugar. Ao lado do rei, uma mocinha de uns dezesseis anos não conseguia esconder a própria delicadeza nem mesmo com a maquiagem pesada. Amelie usava o vestido branco escolhido pela mãe, mas havia compensado a peça discreta com os olhos carregados por uma sombra escura e os lábios coloridos de vermelho.

Nika não fazia ideia de como deveria se portar diante da realeza, mas teve certeza de que Lionel estava mais perdido do que ela quando o garçom quase se colocou de joelhos numa reverência exagerada.

- Majestade! Princesa!

Os lábios de Cristoph se curvaram num sorrisinho torto que Danika achou vagamente familiar, mas é óbvio que ela jamais ligaria a imagem do rei ao ex-vizinho de Leoben. Ao contrário do pai, Amelie não conseguiu ser discreta e soltou uma gargalhada sonora antes de se aproximar de Lionel. A princesa quebrou todos os protocolos quando puxou o rapaz pela gravata, colocando-o de volta na posição ereta.

- Menos, cara. A gente só veio roubar alguma coisa pra comer. De preferência essa coisa deliciosa que está cheirando o palácio inteiro! É você quem manda aqui? – Amelie se voltou para Danika – Arruma dois pratinhos pra gente antes dos convidados começarem a chegar? Logo daremos início a uma sequência de discursos, cumprimentos falsos, presentes que eu terei que fingir que são sensacionais... E eu não consigo mentir quando estou com fome.

- É claro. Só um minuto, sim?

Já habituada à nova cozinha, Danika só precisou de alguns minutos para preparar dois pratos para os donos da festa. Alguns dos ingredientes ainda não tinham sido finalizados, mas o prato preparado pela romena já dava uma boa ideia do jantar perfeito que seria servido naquela noite.

As unhas de Amelie, pintadas de preto, ficaram em destaque quando a princesa usou a mão para pegar uma das batatinhas que terminavam de sair do forno. A ansiedade refletida nos olhos da chef se transformou em um profundo alívio quando Amelie roubou a segunda batatinha enquanto abria um sorriso de aprovação.

- Como eu estou feliz por não ver escargot ou ostras no meu jantar! Está vendo, pai, existem cardápios maravilhosos sem moluscos nojentos! Pegue o contato dessa equipe e nunca mais contrate outra.

A última coisa que Danika esperava da família real era que o rei e a princesa fossem simples o bastante para se sentarem na bancada da cozinha para atacarem a comida antes da chegada dos convidados. Mesmo que tentasse se concentrar no trabalho, Nika não conseguia deixar de ouvir a divertida conversa entre pai e filha. Eles realmente eram uma família apesar de todo o ar de nobreza que circundava o título da realeza.

- Seria forçado se eu fingir que derramei molho no vestido sem querer, pai?

- Forçado e ineficaz. Sua mãe comprou três peças iguais já imaginando que você tentaria algo neste estilo.

- Merda.

Lionel interrompeu o movimento de secar as taças de espumante que acabara de lavar quando ouviu o palavrão que saía da boca da delicada princesa. Nika apertou os lábios para conter uma risada e cutucou o rapaz com o cotovelo, incentivando-o a continuar a trabalhar.

Em menos de dez minutos, Amelie se aproximou e colocou os dois pratos vazios dentro da pia enquanto se dirigia à Danika.

- Pode me arrumar uma marmitinha para eu levar para o quarto do meu irmão?

- O príncipe Benjamin está aqui??? – Lionel se exaltou, boquiaberto com mais aquela surpresa.

- Sim, mas ele gosta de meninas. – Amelie respondeu com um sorrisinho maldoso – Que desperdício, cara. Você é bonitinho, eu tinha gostado de você.

Antes que Lionel tivesse uma síncope, Danika começou a preparar um prato para que Amelie levasse para o irmão. Como a relação familiar entre os Kensington parecia tão simples e próxima, a romena não achou que estivesse cometendo um erro quando lançou aquela pergunta.

- Também preparo algo para a rainha?

- Hm... – Amelie fez uma longa pausa antes de responder – Não. Acabei de lembrar que já usei as últimas gotas do laxante no último evento. Além do mais, ela se alimenta de ego e falsidade, então o banquete da rainha vai começar antes mesmo que vocês sirvam o jantar.
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Re: The Royals

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sab Out 01, 2016 9:04 pm

O céu de Leoben estava excepcionalmente azul naquela manhã, sem a menor mancha de nuvens. Apesar do sol que brilhava intensamente logo nas primeiras horas, a temperatura amena e o vento fresco compunham o que parecia ser um dia perfeito.

A claridade do sol refletia sobre as águas do rio e formava o cenário digno de um filme. A pequena delicatessen ficava logo as margens do rio, e como não havia o menor sinal de chuva, algumas mesinhas haviam sido postas na calçada, cobertas por um grande guarda-sol que protegia os clientes.

O cheiro delicioso que vinha do seu interior era tentador e abriria o apetite de qualquer um. Mas o trio que havia acabado de ocupar uma das mesinhas mais próximas da barreira que protegia o Rio não precisava de maiores estímulos para devorar um farto café da manhã.

O macaquinho usado por Charlotte tinha um tecido leve e era curto, expondo suas pernas magras, perfeito para o clima ameno do dia. Os cabelos escuros haviam sido puxados para o lado em uma trança frouxa e a única maquiagem que ela usava era um batom rosado nos lábios. Os olhos verdes estavam protegidos por óculos de sol, escondendo o olhar doce que Charlie lançava para a cena a sua frente.

O vestidinho florido separado por Danika vestia Lisbeth naquela manhã. Mas além daquela peça e do vestido, todo o restante havia sido um toque a mais de Charlotte. As orelhinhas da menina brilhavam com os brinquinhos de pressão que Baviera havia comprado e o chapéu que escondia boa parte dos cabelinhos escuros era usado como desculpa para proteger sua cabecinha do sol, servindo como um item de moda como um extra.

O pedido feito pelo casal havia acabado de chegar e cobria a mesinha redonda com frutas, waffles, sucos e pãeszinhos. Era comida suficiente para um batalhão, mas a presença de Lukas era suficiente para fazer com que eles saíssem dali sem deixar nem mesmo os potinhos de geleia.

Uma das bananas havia sido amassada e era dada na boca de Lisbeth por uma Charlotte completamente desajeitada. Apenas quando a própria Beth desistiu de comer e focou apenas no celular que havia sido colocado em suas mãos, que Charlotte se deu por vencida, se virando para o café em sua xícara.

- Chega de colocar açúcar nesse suco, Luke. – Charlie estreitou os olhos quando viu o namorado abrir outro sachê de açúcar para sua bebida. – A laranja já está doce o bastante.

- Charlotte?

Charlie virou a cabeça para trás em um gesto automático, e mais uma vez, foram os óculos escuros que esconderam as íris verdes se arregalando ao reconhecer o rosto de Antoine Weiss. Por alguns longos segundos, Charlie permaneceu em choque, tentando entender se ela ainda estava em Leoben ou o quê o primo de Benjamin estava fazendo na cidade.

- Eu reconheci a sua voz, o que você está fazendo aqui?

Antoine parecia sinceramente surpreso com aquela coincidência, mas Charlotte já vivia há tempo demais com a família real para não acreditar em tudo que seus olhos enxergavam. O rapaz estava sentado em uma mesa próxima e imediatamente fechou o jornal que lia para se aproximar do casal.

- Tony.

O sorriso mecânico que Charlotte costumava usar na alta sociedade apareceu e ela se levantou para cumprimentar o rapaz. Mas até mesmo os seus gestos calculados demonstravam o quanto ela estava tensa por ter Weiss tão perto de Lukas.

- Este é Lukas. Meu namorado.

A pressa em apresentar Krauss era a sua forma de mostrar a Antoine que não deveria mencionar Benjamin. Weiss era uma pessoa perigosa, mas ainda tinha uma imagem a zelar e não poderia se indispor com um Baviera em uma provocação.

- Namorado???

A surpresa na voz de Antoine fez o coração de Charlie acelerar. Ela continuava a forçar um sorriso enquanto implorava mentalmente para que Weiss se comportasse. Os olhos verdes dele deslizaram de cima a baixo, estudando a aparência de Krauss. Luke poderia ter o mesmo sangue que Benjamin, mas a diferença entre os dois era gritante.

Por mais que já estivesse recuperando o peso após aqueles meses infernais, Luke nunca teria o mesmo ar formal que Benjamin. Suas roupas eram mais simples e ele tinha a aparência de um menino, tão diferente do preparo que Benji havia recebido para um dia assumir o trono, precisando estar sempre se portando como um homem.

Talvez Charlie ainda tivesse alguns créditos com os céus, porque suas preces foram atendidas quando Weiss relaxou e abriu um sorriso educado, esticando a mão na direção de Lukas.

- Antoine Weiss.

O sorriso em seus lábios poderia ser interpretado com simpatia, mas Charlie o conhecia bem o bastante para saber que estava se divertindo com a situação.

- Então você é o cara que fez a pequena Charlie finalmente se desencantar pelo príncipe encantado? – Ele sacudiu a cabeça e soltou uma gargalhada, para completo desespero da menina. – Muito bom, muito bom mesmo. Estou admirado com a sua confiança, amigo. Não é qualquer um que assume um legado deixado pelo príncipe.

Charlotte poderia jurar que Antoine estava escolhendo as palavras para não mencionar o nome de Benjamin. Mas poderia ser apenas a sua paranoia provocada pela bola de neve da mentira criada.
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Re: The Royals

Mensagem por Lukas Krauss em Sab Out 01, 2016 10:01 pm

Os olhos castanhos estudaram com atenção o rosto de Antoine Weiss, mas Lukas não deixou que seu semblante transparecesse o quanto ele estava incomodado com a presença e com os comentários do “amigo” de Charlotte. As mãos dos dois rapazes se uniram num breve cumprimento, mas Luke não fez a menor questão de se levantar durante aquela saudação formal.

O que deixava Krauss mais incomodado era não entender o que Antoine queria insinuar com aqueles comentários sobre um “príncipe encantado”. No começo, Lukas imaginou que o rapaz estava apenas zombando do antigo namorado de infância de Charlotte Baviera, mas logo ficou evidente que havia algo a mais por trás daquelas palavras.

Apesar do imenso desconforto, Lukas reagiu com naturalidade, sem querer dar a Antoine Weiss o gosto de vê-lo irritado ou deslocado naquele assunto. Um sorriso mecânico apareceu nos lábios de Krauss e ele tomou um gole do seu suco de laranja – bem menos doce do que ele gostaria – antes de responder com firmeza.

- Nunca tive problemas com a minha confiança. Acho que é por isso que a Charlie e eu nos damos tão bem.

- Sua filha? – Antoine indicou a garotinha profundamente concentrada num vídeo infantil que rodava no celular de Luke – Ela é uma graça.

- Minha sobrinha.

Foi natural dar aquele título para Lisbeth. Lukas havia conhecido a garotinha quando ela ainda era um bebezinho de colo, mas foi através de Benjamin que Luke se aproximou ainda mais de Nika e Beth, passando a encará-las como parte da família.

Para alívio de Charlotte, Antoine não estendeu demais aquela conversa e logo voltou a atenção para o jornal e para o café da manhã na própria mesinha. A proximidade do rapaz impediu que Lukas pedisse explicações à namorada, mas o comportamento anormalmente sério de Krauss indicava que ele estava incomodado com todo aquele contexto.

Pela primeira vez em muitos dias, Luke se sentiu humilhado pela própria aparência. O rapaz não estava mais com aquele ar pálido e doente, mas também estava longe de exibir os músculos e os traços bonitos do passado. Os cabelos cresciam mais a cada dia, mas ainda estavam frágeis e com algumas falhas, o que justificava o uso do boné naquela manhã ensolarada.

Mas o detalhe com o qual Luke mais lutava para se acostumar estava em seus olhos. Os médicos disseram que aquele era um efeito colateral raro da quimioterapia, mas Krauss tivera o azar de ser um dos pacientes cuja visão era afetada pelas substâncias nocivas do tratamento. Os óculos de grau tinham intensificado o seu ar de menino, mas Luke ainda lutava para se acostumar com aquela vidraça em frente aos olhos castanhos. Lentes de contato já tinham sido compradas, mas naquela manhã o rapaz optara pelos óculos porque o sol forte ressecaria seus olhos e tornariam o uso das lentes ainda mais desconfortável que o normal.

A maneira muda que Lukas encontrou para manifestar todo o seu descontentamento foi pegar outro sachê de açúcar e despejar o pó branco no que restava do seu suco de laranja, lançando um olhar firme para Charlotte como se desafiasse a menina a reclamar daquele deslize na dieta saudável que ela impunha a ele.

- Eu té.

Lisbeth sacudiu o seu copinho infantil lotado de suco e arrancou um sorriso do rapaz. Lukas pegou o copo, tirou a tampa e deu outra dose extra de açúcar para a garotinha, satisfeito por ter ganhado o apoio da sobrinha naquela guerra fria.

- Você sabe aproveitar as coisas boas da vida, Beth. Ursinhos, açúcar. Eu preciso pegar umas aulas de manipulação com você, diabinha. Só não vale contar pro seu papai que o tio Luke te dá doces. Você vai contar isso pro papai?

- Non vô.

- É isso aí! Toca aqui, diabinha!

Lukas estendeu a mão e Lisbeth não precisou de explicações antes de repetir o gesto do tio e acertar a mão dele com um tapinha. Beth foi responsável por manter o clima mais leve e divertido nos minutos seguintes, mas uma sombra voltou a cobrir os olhos de Krauss no instante em que Antoine Weiss se ergueu na mesa ao lado e despediu-se deles antes de seguir na direção do BMW estacionado próximo à calçada.

Só depois que o carro virou a esquina e sumiu de vista, Luke buscou pelo rosto da namorada com uma expressão séria que não combinava com a personalidade leve dele.

- E então, Charlie...? Vai me explicar que lance é esse de príncipe ou terei que esperar por mais um encontro casual com algum amigo seu dizendo um monte de merda que eu não entendo?
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Re: The Royals

Mensagem por Remus J. Lupin em Dom Out 02, 2016 4:02 am

Os olhos azuis que o encaravam através do espelho pareciam pertencer a um completo estranho. A cor das íris eram familiares, assim como o formato acompanhado de cílios grossos, mas toda a essência era de alguém que Benjamin não conseguia reconhecer.

Ele havia deixado o príncipe para trás, prometera a si mesmo que sua vida agora se resumia a Müller, um trabalhador, pai de família que era perdidamente apaixonado pela mulher que tinha em casa, onde os dois construíam juntos os sonhos com o futuro. Mas de alguma forma, a vida que ele jurava não ser a sua sempre arrumava um jeito de arrastá-lo de volta.

Benji sabia que seria impossível manter aquela vida dupla para sempre. Em algum momento, Müller ou Kensington não poderiam mais existir simultaneamente. Ele só temia que fosse perder a identidade errada.

- Uau, você tá um gato.

Como de costume, Amelie entrou no quarto do irmão sem bater. Ela trazia em mãos um pratinho que foi deixado sobre a mesa auxiliar antes de rolar pela cama bagunçada, sem se importar em amarrotar o vestido de festa.

Como se quisesse confirmar aquele elogio, Benjamin encarou mais uma vez o seu reflexo. Os sapatos sociais brilhavam e valiam mais do que um mês do aluguel que pagava quando dividia o apartamento com Lukas. A calça social era de um azul escuro, no mesmo tom do terno, ainda aberto e que revelava o colete de listras cinzas que ele usava por cima da camisa branca. A harmonia da tonalidade de suas roupas fazia com que seu olhar se destacasse ainda mais, e somada com a barba devidamente bem-feita e os cabelos ainda úmidos e penteados para trás, Benjamin conseguia parecer mais velho, como um homem de negócios.

Não havia absolutamente nada de Benjamin Müller no homem do espelho. Sem roupas baratas, muito menos o sorriso relaxado que sempre aparecia na companhia de Danika. Aquele reflexo mostrava o herdeiro do trono, um verdadeiro príncipe, digno do sobrenome Kensington.

- Você está... eu quase arriscaria dizer “uma princesa”, mas seria um tanto redundante.

Benji virou as costas para o espelho, como se sentisse insultado com o deboche da imagem refletida. Ele dedicou toda sua atenção para fechar as abotoaduras em seu pulso enquanto Amelie o estudava.

- E a namorada? Ainda não sabe que você é um Kensington?

- Eu ainda estou vivo, não estou? – Benji abriu um sorrisinho torto, mas nem mesmo seu esforço para brincar com aquilo diminuía o desespero de pensar em Danika descobrindo a verdade.

- Sinto muito ter arrastado você até aqui. Mas eu realmente não queria enfrentar essa noite sozinha.

Benji balançou a cabeça, em um gesto mudo para que a irmã não se preocupasse mais com aquilo. Ele não havia gostado da ideia de deixar Leoben outra vez, mas a oportunidade de Danika também estar ocupada naquela noite havia caído como uma luva. A namorada certamente estaria ocupada demais para criar teorias que levasse a uma nova crise e Benjamin tinha total liberdade para enfrentar mais aquela obrigação.

O prato de comida levado por Amelie foi completamente ignorado por Benjamin. Ele se sentia ansioso em estar novamente no papel do príncipe. No começo da sua mentira, era preciso se esforçar para assumir aquele personagem simples. Mas agora, depois de tanto tempo, era o príncipe que mais parecia uma ficção, uma pausa da sua vida de verdade.

Talvez, se tivesse dado uma única garfada no que Amelie havia levado para ele, Benjamin já tivesse desconfiado da presença de Lehman no palácio. O tempero e o talento da morena eram inigualáveis, mas Benji desceu as escadas para aquele jantar completamente alheio do desastre que estava por vir.

O pequeno coquetel que recebia os convidados já estava movimentado quando ele alcançou o salão. O jantar seria servido na grande mesa principal, que comportava facilmente mais de trinta pessoas. Enquanto os convidados se deliciavam com os aperitivos e a bebida cara, Benji fez o que sabia de melhor: mentiu. Sorriu, foi educado, contou histórias e qualquer um que visse de longe, diria o quanto ele se encaixava naquela vida, muito embora ele estivesse se sentindo completamente deslocado.

A maioria dos rostos já era conhecido pelo príncipe. Alguns primos e tios se misturavam aos amigos mais influentes do rei e da rainha. Outros, entretanto, Benjamin não fazia ideia de onde haviam surgido. A mistura de sotaques mostrava que, apesar do clima íntimo, Helena não havia poupado na distância de suas influências. Para o que deveria ser apenas uma reunião em comemoração de Amelie, contava até mesmo com a presença do primeiro ministro do Reino Unido.

Benjamin estava narrando uma de suas competições de equitação a um dos tios quando o jantar foi anunciado que seria servido. Enquanto os convidados se deslocavam até a sala ao lado, ele sentiu unhas fincando em seu cotovelo, machucando mesmo através do tecido da roupa.

Por ser um gesto tão conhecido, ele não precisou se virar para encontrar o rosto de Helena, sorrindo gentilmente para os convidados que passavam.

- Estou impressionada, meu querido. Achei que depois da nossa última conversa, você não voltaria para casa tão cedo.

Benji continuou sorrindo, sem encarar a mãe, mas um bom observador teria notado seus olhos ficando mais escuros com aquela proximidade.

- Eu vim pela Mel, mamãe.

- Eu sei. – Helena sorriu e cumprimentou uma velha amiga com um movimento da cabeça antes de completar. – Parece que os meus dois filhos declararam guerra a mim.

- Eu não estou em guerra. – Benji balançou a cabeça, se sentindo cansado. Ao contrário de Amelie, ele não tinha estômago para manter uma briga com a mãe, mas também não queria continuar sendo manipulado.

- Ótimo. Então não vai se importar de falar algumas palavrinhas durante o jantar...

A mão de Helena ainda estava firme em seu cotovelo, mas pela primeira vez, Benji se viu obrigado a se virar para encarar a mãe.

- O que você quer? Já preparou o discurso?

- Não seja dramático, Ben. Não estamos no século dezenove. Só é tradição que a família diga algumas palavras bonitas para a aniversariante. Eu mesma diria, mas você conhece a sua irmã... Ela colocaria fogo na mesa se eu tentasse começar.

Ao perceber que o filho ainda estava ponderando, Helena pressionou, o encarando com os mesmos olhos azuis.

- Só estamos entre família, Benjamin. Até isso vai me negar? Algumas palavras, é só isso.

- E você está fazendo isso só pela Amelie? – Foi impossível controlar o deboche em suas palavras, e imediatamente os lábios de Helena se retraíram em um bico.

- Pode parecer que não, mas a sua irmã não nasceu de uma chocadeira. Eu amo vocês dois, Benjamin. Mesmo que não seja recíproco.

Havia um tom de mágoa nas palavras de Helena e desta vez Benjamin se viu obrigado a se virar por completo para encarar a mãe de frente. Embora a rainha sempre tivesse se mostrado mais fria e distante, sem comparar o seu relacionamento com o pai, era impossível negar que Benji a amava. Mesmo com todos os erros e falhas, com a coleção de defeitos, Helena era sua mãe.

- Você está agindo como uma rainha do drama. – Um sorriso brincou nos lábios de Benjamin com aquele trocadilho e ele sentiu os ombros relaxarem quando a mulher a sua frente também se permitiu sorrir. – Você sabe que nós te amamos, mãe. Mesmo você sendo tão...

- Coração de gelo? – Ela arqueou as sobrancelhas ao lembrar como o filho a havia chamado na última briga.

- Intensa. – Benji a corrigiu, depositando um beijo em sua testa. – Vamos jantar. Não posso fazer um discurso de estômago vazio.

Os olhos de Helena brilharam ao ver diante de si o mesmo filho que tanto lhe dava orgulho. De braços dados, os dois caminharam até a sala de jantar. Havia uma enorme mesa preenchida, mas o salão era grande o bastante para que outras mesas estivessem espalhadas, todas cobertas com toalhas elegantes e as melhores louças.

As paredes eram altas e estavam cobertas por quadros que retratavam toda a família Kensington. O lustre no teto era enorme e refletia nas taças e nos talheres de prata. Helena caminhou elegantemente, exibindo seus saltos e o vestido justo ao corpo, que alcançava quase seus joelhos, até a mesa principal.

As duas cadeiras que ficavam ao centro da grande mesa se destacavam e eram ocupadas por Cristoph e Helena. Outras duas cadeiras rodeavam as principais, também com o estofado diferente de todo o restante. Ao lado do rei, Amelie cochichava no ouvido do pai e os dois riam discretamente, compartilhando algumas piadas internas. Benjamin imediatamente ocupou o lugar ao lado da mãe e sorriu para a tia idosa que estava sentada a sua frente.

Depois de tantos canapés degustados durante o coquetel, Benjamin não se sentia faminto, mas era impossível não comer o apetitoso prato principal servido. Talvez, por estar envolvido novamente em seu papel de príncipe, ele não foi capaz de identificar o tempero de Danika em cada uma de suas garfadas.

Ele manteve cada uma das conversas iniciadas pelos parentes ao seu redor. Quando não havia mais nenhum convidado devorando os deliciosos pratos do buffet, Helena fez um sinal para que um dos garçons se aproximasse. Ela cochichou brevemente ao ouvido do rapaz que imediatamente se afastou, fazendo um aceno positivo.

Os pratos sujos foram retirados para que tivesse espaço para o enorme bolo que viria da cozinha. Antes que os convidados tivessem a chance de presenciar a obra de arte em formato de bolo escolhido por Helena para aquela ocasião, a rainha fez um sinal para Benji, informando que havia chegado o momento.

Benji deslizou as mãos suadas pela calça, mas manteve um sorriso nos lábios quando pigarreou e bateu levemente o seu garfo na taça vazia, o tintilar chamando a atenção de todos até que o burburinho fosse diminuindo e cessasse por completo.

O sorriso nos lábios de Helena era enorme e era impossível não notar o orgulho que ela sentia. O que ninguém sabia era que aquele orgulho era dedicado ao próprio plano, e não a filha aniversariante ou ao filho que iniciava o discurso.

- Eu gostaria de pedir um minuto da atenção enquanto falo da minha adorável irmã.

A taça de Benji foi erguida em direção a Amelie, que retribuiu com um largo e sincero sorriso. Mesmo com toda a fachada imposta pela família, era notável como os dois irmãos se amavam.

- Você é uma peste. – Benji apontou com o dedo para a menina, que fingiu uma exagerada reação de ofendida. – Desde o dia que você nasceu, você só tem tornado a minha vida um inferno. Quando a mamãe avisou que a gente teria uma princesinha em casa, eu jamais imaginei que seria na forma de uma capetinha atentada que invadia o meu quarto sem bater.

Cada uma das palavras de Benjamin era acompanhada por um sorriso, que demonstrava que era apenas uma implicância natural de irmãos.

- Você roubou a atenção do papai, provocou o meu tombo quando tentei esquiar pela primeira vez e abriu os estábulos deixando o meu melhor cavalo fugir.

- Eu tinha seis anos! – Amelie se defendeu, soltando uma gargalhada.

- Verdade. – Benjamin concordou, erguendo um dos ombros. – Mas acho que não posso te culpar inteiramente por isso. O papai nunca deixou eu contar para a mamãe, mas deixei você cair do meu colo quando você era bebê.

Foi a vez da rainha fazer uma exagerada expressão de surpresa, arrancando risadas dos convidados. Quando Benjamin narrava aquelas histórias, qualquer um notava que ele pertencia a uma família feliz que fazia aquela implicância saudável. Nenhum dos convidados poderia dizer que Benji se sentia um intruso naquele jantar e que sua verdadeira família estava há quilômetros de distância.

- Acho que é por isso que você quebra todos os paradigmas de uma princesa. A Disney nunca esteve tão errada.

Benji balançou a cabeça em um sinal de reprovação antes de continuar seu discurso.

- Mas acho que, no final das contas, é o que te torna você tão... você, Mel. Você é completamente inesperada. Surpreendente. A melhor irmã que eu poderia ter. Eu te amo, irmãzinha.

A taça de Benji foi erguida, mas antes que os convidados pudessem aplaudir, Amelie também se colocou de pé, os olhos pintados brilhando com emoção. Mesmo quando tentava se fazer de ferro, era notável como a princesa tinha um coração mole.

- E você é o melhor príncipe que a Áustria pode querer, Benjamin.

Havia um recado nas palavras de Amelie. Embora a irmã tivesse concordado e até incentivado sua ideia em abandonar a monarquia, naquela noite ela conseguia enxergar o príncipe que existia por trás dos olhos azuis.

- Ao futuro rei da Áustria! – Helena completou, erguendo uma taça que imediatamente foi seguida por todos os convidados.

Os olhos azuis deslizaram para encarar a mãe em uma reprovação muda. Aquela noite era sobre Amelie, mas de alguma forma, a rainha fazia questão de desviar o foco para seu filho.

- Aos meus queridos filhos. – O rei concluiu, segurando a mão de Amelie de forma carinhosa.

Diante daquele brinde, Benjamin abriu um sorriso ao pai e a irmã. Ele havia acabado de elvar a taça até os lábios quando seu olhar passou pelo salão. As pálpebras já estavam quase se fechando quando ele reconheceu um par de olhos castanhos que o encaravam de forma assombrosa. Todo o sangue fugiu do rosto de Benjamin e ele se sentiu sendo sugado daquele evento, como se estivesse preso em um mundo paralelo, alheio a tudo que acontecia ao seu redor, enquanto sua mente gritava o nome de Danika Lehman.
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Re: The Royals

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Out 02, 2016 4:48 am

Charlotte estava tão acostumada com o relacionamento informal com Lukas que quase acreditou que o breve encontro com Antoine não fosse causar maiores estragos. Mas sua situação com Krauss era completamente diferente agora e ela sabia que não conseguiria escapar por muito tempo das perguntas dele.

Krauss já havia demonstrado sua insatisfação no instante em que Antoine surgiu, de modo que Charlie não pareceu nada surpresa que ele se aproveitasse da primeira oportunidade para tocar no assunto que vinha segurando pelos últimos minutos.

- Ele não é meu amigo.

Aquela não era exatamente a pergunta de Lukas, mas Charlie se sentiu mais segura em começar aquela conversa deixando claro que Weiss não passava de um velho conhecido do qual ela não se orgulhava.

Seria mais fácil inventar mais mentiras ou tentar trocar o assunto. Mas já era incômodo o bastante para Baviera manter um segredo enquanto queria construir um relacionamento ao lado de Krauss. Como havia tanta coisa naquela história que fugia do seu controle, ela decidiu que contaria ao menos a parte que era sua por direito.

No fundo, Charlie sabia que estava apenas omitindo a principal parte da mentira, mas não havia como escapar daquele ponto da história quando Antoine já havia plantado a semente.

- O Tony é primo do meu ex-namorado.

Charlotte era incapaz de encarar Lukas para fazer aquela confissão. Segurando o garfo, ela brincou com uma granola que havia escapado da taça de frutas e cutucou o grão com um interesse profundo.

Durante as longas conversas entre amigos, Charlie havia desabafado sobre o ex-namorado, de modo que não era nenhum segredo para Lukas que a menina já havia se apaixonado antes e vivera um relacionamento conturbado cheio de idas e vindas.

Mas era a primeira vez que Charlotte relembrava o antigo namoro estando oficialmente ao lado de Krauss. Era desconfortável mencionar outro homem na frente dele, principalmente sabendo como seu namoro com Benjamin havia sido um completo fiasco comparando com a boa relação que ela e Lukas haviam construído.

- Você já sabe toda a história. Eu só namorei um cara a minha vida toda e não era exatamente o relacionamento modelo. Eram muitas brigas, idas e vindas, mas de alguma forma, eu sempre achei que a gente ficaria junto para sempre.

A palavra que Marie usava para descrever o relacionamento de Charlotte e Benjamin era sempre a mesma: obsessão. Para a melhor amiga de Baviera, Charlie estava obcecada com a ideia de ser uma rainha que era capaz de perdoar cada uma das brigas com Benjamin, desde que seu tão sonhado futuro continuasse intacto.

Aquela parte foi devidamente deixada de lado durante a descrição de Charlotte para Lukas.

- O que realmente importa é que eu segui em frente, Luke. Ele também.

Desta vez, os olhos verdes encararam Lukas fixamente, querendo garantir ao namorado que não havia mais o menor resquício da antiga paixão e consequentemente nenhum motivo para se sentir enciumado.

Charlie respirou fundo antes de revelar a parte mais importante daquela história, implorando aos céus para que Luke não juntasse mais aquela peça do quebra-cabeça.

- O que eu nunca contei é que eu namorei o príncipe.

Ela torceu as próprias mãos sobre o colo, em sinal de nervosismo. Qualquer rapaz se sentiria ameaçado com a ideia de namorar a ex de um príncipe. A competição era simplesmente injusta. Mas não era só aquele detalhe que importava. Bastava que Lukas pensasse um pouco além do relacionamento dos dois para ver a imagem como um todo.

- Eu estudei no mesmo colégio que o príncipe Kensington. A gente namorou basicamente a vida toda. Então o Antoine só estava surpreso em me ver com você, porque simplesmente nunca me viu com outra pessoa antes.
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Re: The Royals

Mensagem por Danika Lehmann em Dom Out 02, 2016 5:13 am

Os olhos castanhos do rei da Áustria estavam focados no rosto do filho quando todo o sangue desapareceu da cabeça de Benjamin, deixando o rapaz pálido como um fantasma. Por isso, Cristoph só precisou virar a cabeça na direção que o herdeiro olhava para encontrar a jovem chef que coordenava o jantar daquela noite.

Danika Lehmann usava uma dolma impecavelmente branca. Os cabelos castanhos estavam firmemente presos num coque baixo e a maquiagem leve apenas corrigia pequenas imperfeições de sua pele e realçava os olhos castanhos, sem destacar a imagem da cozinheira em meio aos convidados sofisticados daquele jantar. Nas mãos, a romena segurava uma bandeja cheia de taças contendo o champanhe francês caríssimo que sempre era servido junto com a sobremesa nos eventos dos Kensington.

Por estar com a atenção voltada para a moça, o rei teve certeza de que aquilo não fora um acidente. Danika não tropeçou, tampouco deixou que a bandeja escorregasse de seus dedos. A chef simplesmente estreitou os olhos antes de atirar a bandeja com força no chão, atraindo a atenção de todos no salão com o ruído do cristal espatifado e da bandeja de prata que rodopiou algumas vezes pelo piso de pedra antes de finalmente parar próxima à mesa principal.

Uma exclamação geral ecoou logo após o ruído agudo daquele “acidente”. Algumas pessoas taparam a boca com as mãos enquanto cochichavam sobre aquele constrangimento que provavelmente faria com que os Kensington nunca mais contratassem aquela equipe nem mesmo para servir um café.

- Ah, meu Deus! Você se machucou???

Amelie saltou para fora da mesa, completamente alheia ao mundo do irmão que desmoronava. Para a aniversariante que estava de costas para o “acidente”, a bandeja caída havia sido um descuido da jovem cozinheira. E, definitivamente, a princesa não estava irritada com a interrupção de seu jantar.

Sem se importar com qualquer tipo de protocolo, Amelie puxou os braços de Danika e analisou suas mãos delicadas para ter certeza de que a moça não havia se cortado. A bebida cara tinha respingado nas calças brancas da cozinheira, mas por sorte nenhum dos cacos parecia ter voado na direção dela.

- Hey, calma. Está tudo bem! Acidentes acontecem.

Um sorriso compreensivo brotou nos lábios da princesa quando ela notou que os olhos castanhos começavam a se encher de lágrimas. Para Amelie, a jovem cozinheira estava há um passo de cair em prantos pela vergonha de ter estragado o momento mais importante do jantar com aquele deslize. Amelie jamais imaginaria que Nika estava prestes a chorar por descobrir que havia construído a sua felicidade e o seu futuro em cima de mais uma das mentiras de Benjamin. Desta vez, uma mentira imperdoável.

Foi a doçura de Amelie que evitou um escândalo naquela noite. Danika não tinha nenhum motivo para poupar Benjamin daquela exposição negativa, muito menos se importava com o que todos aqueles convidados pensariam sobre a vida secreta do futuro rei da Áustria. Mas a princesa era apenas uma menina doce que não merecia que o foco do seu aniversário fosse desviado para os erros do irmão.

- Desculpe. Eu vou pedir que alguém venha limpar esta bagunça.

A voz engasgada de Nika soou num sussurro, mas ecoou pelo salão graças ao silêncio que reinava entre os convidados. Amelie apertou as mãos dela com delicadeza antes de libertá-las. Como Lehmann deu as costas à mesa sem olhar novamente na direção de Benjamin, Amelie continuou sem imaginar que havia acabado de conhecer a misteriosa namorada que desconhecia a relação de Benji com os Kensington.

- Ih, gente, menos né? Foi só um acidente. Já vão limpar o chão e trazer mais champanhe, então voltemos à festa! Pode continuar falando que eu sou uma irmã sensacional, irmãozinho. Você estava indo bem até a mamãe te interromper!

Nika simplesmente não saberia explicar como teve forças para retornar para a cozinha. Ela estava tão pálida quanto Benjamin, suas mãos tremiam e os olhos castanhos não conseguiam mais segurar as lágrimas. A garganta ardia com uma vontade louca de gritar e chorar ao mesmo tempo, mas Amelie não merecia aquele escândalo, tampouco a equipe que viera de Leoben para ajudá-la naquele jantar.

- O que foi aquilo??? – Lionel entrou na cozinha logo atrás da patroa, extremamente preocupado – Nika, você está bem? O que aconteceu, você escorregou?

- Eu deixei a bandeja escapar, desculpem por isso. Acho que fiquei nervosa em ver toda aquela gente.

Lehmann se odiou ao ouvir a própria voz trêmula e incerta. Ao contrário de Benjamin, a romena mentia muito mal. Era como se o destino estivesse zombando daquela inabilidade de Nika ao esfregar em sua cara como o homem que ela amava conseguia usar uma máscara por tanto tempo.

- Eu não estou passando bem. Vocês terminam sem mim? – os olhos castanhos buscaram pela funcionária mais habilidosa que a ajudava na cozinha – Lydia, você está no comando a partir de agora. Eu realmente preciso sair daqui.

Era irônico, mas Danika se sentia sufocada dentro daquele palácio enorme. Era como se ela estivesse presa em uma sala minúscula e abafada, prestes a morrer sufocada pelas paredes. Um dos garçons se ofereceu para levá-la de volta ao hotel, a própria Lydia fez menção de acompanhar a amiga até a calçada para que chamassem um táxi. Mas Nika simplesmente ignorou todas as vozes quando empurrou a porta dos fundos e sentiu o vento fresco atingir o seu rosto.

A noite já banhava Viena, mas os jardins que rodeavam todo o palácio eram muito bem iluminados. Se a situação fosse outra, Nika certamente perderia um bom tempo admirando aquele jogo de luzes magnífico que realçava as diferentes espécies de flores. Mas os passos apressados não permitiam que a romena admirasse a paisagem enquanto seguia pela passarela que separava os dois lados do gramado e levava até o portão principal.

Não foi possível segurar as lágrimas por mais tempo. Tão logo se viu sozinha naquela caminhada, Danika sentiu as lágrimas quentes escorrendo por seu rosto e pingando em seu queixo. Desta vez, Lehmann não tinha mais dúvida de que seu sonho havia chegado ao fim. Benjamin Müller não era um mentiroso por uma simples razão: ele sequer existia. Em todo o tempo, o homem por quem ela se apaixonara perdidamente era apenas uma farsa criada pelo futuro rei da Áustria, provavelmente em busca da diversão que ele não podia ter como um príncipe.

A cozinheira sequer se importava por ainda estar usando o uniforme. Tudo o que Nika queria era chegar ao portão, pegar um táxi e ir para o hotel. A romena só precisaria de alguns poucos minutos para pegar as suas coisas e voltar para Leoben. Era grande a certeza dela de que apenas um abraço de Lisbeth amenizaria aquela louca vontade de morrer ou de matar o futuro rei da Áustria com as próprias mãos.

Alguns metros ainda separavam Nika do portão quando ela escutou passos que corriam atrás de si. A romena não precisou se virar para conferir, era bizarro como ela já conhecia o ritmo dos passos do namorado, o som de sua respiração ofegante e o perfume que vinha da pele dele. A forma como seu corpo reconhecia Benjamin só contribuiu para que Danika ficasse ainda mais furiosa.

O toque em seu ombro foi igualmente familiar, mas também foi o estopim de uma explosão. Danika girou agilmente sobre os calcanhares e não hesitou nem por meio segundo antes de começar a atingir o príncipe com uma chuva de socos e pontapés. Ela grunhiu como um animal ferido enquanto acertava qualquer pedacinho de Benjamin que ficava ao alcance de seus punhos fechados, ignorando por completo a dor que aqueles golpes fortes provocavam em suas próprias mãos.

Era impossível colocar em palavras todos os sentimentos negativos que a destruíam por dentro naquele momento. Enquanto atacava Benjamin, Nika só conseguiu soltar grunhidos incompreensíveis, misturados aos soluços que faziam todo o seu corpo tremer. Quando a moça finalmente encontrou forças para articular palavras, sua voz ecoou por todo o enorme jardim dos Kensington, carregada com o sotaque que Nika não conseguia conter quando ficava furiosa.

- EU ODEIO VOCÊ! NUNCA MAIS SE APROXIME DE MIM E NEM DA MINHA FILHA!
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Re: The Royals

Mensagem por Remus J. Lupin em Dom Out 02, 2016 6:00 am

Enquanto o ruído das taças e bandeja ecoavam pelo salão, Benjamin permaneceu congelado em seu lugar, sentindo que vivia um dos seus tão terríveis pesadelos. Ele literalmente se sentia fora de órbita, completamente alheio a todos os convidados ao seu redor, ignorando por completo o clima festivo. Tudo que importava era aquele par de olhos castanhos se enchendo de lágrimas.

No instante em que Danika desapareceu no caminho de volta a cozinha, Benjamin sentiu seu corpo estalar e fez menção de correr atrás da cozinheira. As unhas de Helena cravaram em sua perna e a rainha ainda sorria em seu belo disfarce quando se inclinou para sussurrar ao filho, como quem fazia um comentário completamente banal a respeito da desastrosa funcionária.

- Nem pensar. Você vai continuar exatamente onde está, comer o seu bolo e tirar quantas fotos forem necessárias com a sua irmã. Preciso que os dois estejam sorrindo quando aparecerem nas capas dos jornais amanhã.

Os olhos azuis, ainda apavorados, deslizaram até encarar a rainha. Não havia nem mesmo surpresa em seu rosto quando ele concluiu o óbvio. Apenas frustração e raiva por não ter notado antes que Helena já sabia de tudo. Ela sempre sabia.

- Você fez isso.

Era apenas a constatação do óbvio. Não era nenhum ataque de fúria, nenhuma rebeldia. Benjamin simplesmente não conseguia se surpreender com a maldade da mãe. E foi com uma surpreendente calma que ele exigiu apenas uma resposta.

- Por quê?

A rainha desviou o olhar dos convidados e se inclinou na cadeira para encarar o filho, como uma mãe que ensinava a um garotinho alguma coisa bem óbvia sobre a vida, como o perigo de andar de bicicleta na beirada da rua ou porque não poderia comer sorvete antes do jantar.

- O seu lugar é aqui, querido. O povo precisa de você. Sua família precisa de você. Desde o que aconteceu com o seu pai, começaram as especulações sobre a herança do trono. O povo precisa conhecer quem será o seu futuro rei.

- Você não é a minha família.

Mais uma vez, as palavras soaram pausadas e com uma calma anormal. Mas por baixo da mesa, foi com um gesto exageradamente brusco que Benjamin segurou o pulso da mãe e a afastou da sua perna.

A cadeira foi arrastada para trás e até Benjamin deixar o salão, ele teve os passos contidos, seguindo o mesmo caminho por onde Danika havia desaparecido.

Os funcionários ainda tentavam se organizar na cozinha após o sumiço de Danika, mas imediatamente pararam seus afazeres quando o príncipe surgiu. Os olhos azuis deslizaram por cada um dos rostos. Alguns já vistos de longe durante as breves visitas do restaurante, mas nenhum deles pareceu reconhecer o mesmo Müller de Leoben naquele homem elegante.

- Onde ela está?

A voz rouca soava quase fria e controlada, tão diferente do desespero que Benjamin sentia por dentro. Mas ainda assim, exigente e autoritária, demonstrando que mesmo naqueles meses vivendo como um homem simples, ainda existia o príncipe herdeiro adormecido em seu peito.

- A Srta. Lehman não estava se sentindo bem. Nós vamos arcar com todo o prejuízo, é claro...

Lionel começou a tentar se justificar, mas foi deixado sozinho quando Benji atravessou a cozinha e saiu pela porta dos fundos. O vento frio imediatamente atingiu sua pele, mas ele sentia a temperatura corporal elevada depois das emoções daquele jantar.

A calma que Benji tentava impor desapareceu quando ele não conseguiu encontrar Danika. Era como se aquele breve sumiço já fosse o sinal de que ele havia perdido Lehman de vez. Quando ele avistou o ponto distante dos cabelos castanhos que se afastavam cada vez mais, o coração de Benjamin deu um salto e ele não hesitou em correr na direção da namorada.

Não havia o que ser dito. Benji sabia que estava tudo acabado no instante em que viu Danika dentro do palácio. Ele sabia que seria impossível sustentar uma mentira para sempre, mas nem mesmo em seus piores sonhos, aquela revelação havia acontecido de forma tão inesperada e cruel.

Mas o medo de nunca mais ver Lehman, de nunca mais ter a chance de ter a sua família, fez com que Benjamin agisse como um egoísta mais uma vez. Se tivesse o mínimo de respeito a mulher que tanto amava, ele a deixaria em paz de uma vez por todas. Nenhuma desculpa no mundo justificaria o que havia feito, mas ele era incapaz de simplesmente deixa-la partir.

Os socos foram recebidos sem que Benjamin reagisse, nem mesmo tentando se afastar. Seu único protesto foi tentar esticar os braços até conseguir abraçar Danika. Com os olhos fechados, Benji recebia cada um dos socos, mas a dor física não era nada em comparação a tristeza e fúria que encontrava no rosto de Lehman. Saber que ele era o responsável por deixa-la daquela forma era o seu pior castigo.

Enquanto Danika ia enfraquecendo, Benji a puxava mais para perto até que ela estivesse presa em um abraço, as lágrimas molhando suas roupas formais. O golpe final foi ouvir com todas as letras que a mulher que significava o seu mundo o odiava. Ele sabia que não era o calor do momento. Que Danika não estava falando aquilo apenas para feri-lo. Aquela era a verdade. Ela o odiava, porque ele havia sido cruel o bastante para destruir o amor dos dois.

Benji fechou os olhos por alguns segundos, a testa franzida em uma expressão de dor. Ele cambaleou para trás, mas manteve seus braços ao redor de Danika ao erguer as pálpebras. Seu coração estava partido em mil pedaços e ele era possuído por uma vontade desesperada de voltar no tempo e desfazer todos os seus erros.

- Eu quis te contar. Todos os dias, eu pensei em te contar, Nika. Mas eu não suportava a ideia de te perder. Eu não posso te perder.

Uma de suas mãos ousou soltar a cintura dela para tentar secar as lágrimas que manchavam o rosto perfeito. Ser o causador de tamanha tristeza trazia uma dor profunda no peito de Benji, mas ele sabia que nada poderia ser comparado com o que a romena estava sentindo.

- Essa aqui não é a minha vida. – Ele apontou para o palácio e o jardim ao seu redor. – Isso aqui não sou eu. Você e a Beth são a minha família, minha casa está em Leoben. Você precisa entender isso, Danika!

A calma que Benjamin tentava demonstrar diante dos convidados desaparecia a cada palavra. O desespero começava a surgir, junto com a urgência de fazer Danika compreender como ele se sentia.

- Eu sei que eu te dei todos os motivos do mundo para não acreditar em mim, eu sou um crápula, mentiroso da pior espécie. Mas você precisa acreditar nisso! Eu te amo, eu nunca menti sobre nós dois!

Em um gesto desesperado, Benjamin segurou o rosto de Danika com as duas mãos, obrigando os olhos castanhos a encará-lo. Ele aproximou seu rosto até que a testa estivesse encostada na da romena.

- Eu não planejava me apaixonar por você quando cheguei a Leoben, depois tudo aconteceu rápido demais!

O medo de que aquela fosse sua única chance e o desespero de perder a única coisa que realmente importava fez com que Benjamin perdesse qualquer orgulho que tivesse. Em um ato completamente desesperado, ele se abaixou diante de Danika, se ajoelhando diante da Romena enquanto segurava as mãos dela, como se dependesse daquilo para sobreviver.

- Eu preciso que você me perdoe, Danika! Nós dois podemos superar isso! Nós vamos voltar para Leoben e eu prometo que vou deixar tudo isso para trás! Eu só preciso de você e da Lisbeth. Só de vocês!

Sem que Benjamin percebesse, as lágrimas já começavam a rolar pelo seu rosto. Era uma imagem assombrosamente humilhante para um príncipe, mas Benji só se sentia como um homem desesperado que faria qualquer coisa para ser perdoado. Como se aquilo fosse impedir Danika de fugir, ele rodeou seus braços nas pernas dela e afundou o rosto contra a barriga coberta pela dolma, manchando o tecido claro com suas lágrimas.

- Me diz o que preciso fazer para enfrentarmos isso, Danika! Qualquer coisa, eu faço!
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Re: The Royals

Mensagem por Lukas Krauss em Dom Out 02, 2016 6:01 am

O apetite de Lukas, que havia retornado com força total nos últimos dias, novamente desapareceu quando o rapaz escutou aquela confissão. Os olhos castanhos por trás das lentes permaneceram fixos na namorada e Krauss sequer piscava enquanto esperava que Charlotte soltasse uma gargalhada e debochasse dele por ter acreditado naquela história absurda.

- Um príncipe? Um príncipe de verdade?

Mais uma vez, Luke torceu por uma gargalhada de Charlie. Ele aguentaria com gosto todas as gozações que Charlotte fatalmente faria por tê-lo enganado com aquela brincadeira. Mas as risadas não vieram e o olhar firme da namorada confirmaram que a história era verídica. O futuro rei da Áustria era o ex-namorado misterioso de quem Charlie tanto falava.

Nenhuma autoconfiança sobrevivia a um golpe daqueles. Quando tentava imaginar o ex-namorado de Baviera, Luke sempre enxergava um rapaz bonito, rico, com uma vida fácil e um futuro brilhante graças a um sobrenome influente. Ainda assim, Krauss conseguia enxergar nas próprias qualidades as razões para ter conquistado o coração da menina.

Mas uma competição contra um príncipe era algo que ultrapassava os limites da compreensão de Lukas. Em sua memória não havia nem mesmo uma vaga imagem do herdeiro dos Kensington para que Luke pudesse confirmar as suas suspeitas de que ele era um rapaz atraente, mas a aparência dele não tinha a menor importância perto do título que ele ofereceria à mulher que subisse ao altar ao seu lado.

Charlotte havia revelado ao amigo muitas de suas qualidades nos últimos meses, mas Luke também conhecia bem os defeitos de Baviera. Ela era profundamente autoritária, esnobe, prepotente e ambiciosa. O papel de rainha se encaixaria como uma luva naquelas características da menina. Era assombroso que Charlie tivesse deixado de lado aquele futuro glorioso para ficar ao lado de um rapaz que sequer conseguia pagar o próprio aluguel sem a ajuda de um colega de quarto.

- Uau.

O copo de suco foi devolvido à mesa enquanto um sorriso forçado surgia nos lábios de Lukas. Ele parecia profundamente decepcionado, mas não pelo passado de Charlotte especificamente. O rapaz só não conseguia acreditar que havia entrado naquela disputa desleal. Na cabeça de Luke, por mais que Charlie gostasse dele, era óbvio que ela voltaria correndo para o posto de rainha se o herdeiro dos Kensington estalasse os dedos para ela.

- Ainda bem que não estamos na idade média, não é? Eu seria decapitado ou desafiado para uma luta de espadas por pegar a garota do futuro rei.

A brincadeira não soou tão leve e descontraída quanto Luke gostaria, denunciando que o desconforto dele era verdadeiro com aquela novidade. Como nenhum dos dois parecia disposto a alongar o café da manhã depois daquela indigesta confissão, Krauss acertou a conta e eles retornaram para o apartamento.

Durante o trajeto de volta, Luke começou a refletir sobre o futuro rei da Áustria. Ninguém sabia muito sobre o herdeiro dos Kensington desde que ele saíra de Viena, ainda menino, para completar seus estudos em um colégio interno. Krauss não se lembrava de ter visto sequer uma foto do rapaz nos últimos anos. A família real era absurdamente discreta, mas as informações sobre o herdeiro eram ainda mais escassas do que o normal.

A figura do futuro rei era tão esboçada na memória de Lukas que o rapaz teve dificuldades para se lembrar até do primeiro nome do rapaz. Bernard? Belami? Belchior? A cabeça de Luke ainda trabalhava naquela lembrança distante quando o porteiro do prédio surgiu na sua frente e lhe entregou algumas cartas.

- Chegaram algumas pro Benjamin também. Você entrega ou prefere que eu devolva ao correio?

- Benjamin.

Krauss repetiu o nome do irmão, os olhos castanhos se arregalando quando a memória finalmente o presenteou com uma resposta. Mais do que isso, a menção ao nome de Benjamin foi o suficiente para que aquela última peça solta se encaixasse no complexo quebra-cabeça que começara a ser montado no instante em que Benji pisara em Leoben, “coincidentemente” na mesma época em que Charlotte Baviera também aparecera na cidade.

- Sim. – o porteiro pareceu confuso – Benjamin Müller. O rapaz que morava com você.

- Eu sei, Lars, obrigado. Eu sei exatamente quem é ele.

Os olhos castanhos estavam mortalmente sérios quando Lukas buscou pelo rosto da namorada. A pequena Lisbeth no colo do tio evitou qualquer cena no saguão de entrada do prédio, mas a expressão de Krauss deixava claro que ele finalmente havia compreendido a extensão das mentiras de Benjamin e não estava nada feliz em saber que Charlotte Baviera ajudara o ex-namorado naquelas farsas.

- Eu mesmo entrego pro Benji. – Luke pegou os envelopes com a mão livre – Obrigado, Lars.

Dentro do pequeno apartamento, Lisbeth foi posta sobre o sofá da sala, Lukas ligou a televisão e procurou calmamente por um canal infantil que atraísse a atenção da menina. Só depois que os olhinhos azuis estavam fixos na tela, o rapaz seguiu os passos da namorada até o quarto. A porta foi encostada para que Beth não acompanhasse aquela discussão, mas Lukas não conseguiu adiar aquele desabafo por mais tempo.

- E aí, Charlie? Pode confessar... – o sorriso mecânico que surgiu nos lábios de Lukas não combinava com a personalidade leve do rapaz – A sua participação nesta farsa ridícula era algum tipo de condição para você se tornar a rainha da Áustria? Porque isso explica tudo. Que outra razão você teria para entrar neste joguinho do seu namorado? Você e o Benjamin são as pessoas mais doentes e nojentas que já pisaram neste planeta!
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Re: The Royals

Mensagem por Danika Lehmann em Dom Out 02, 2016 3:57 pm

A mente de Danika era uma vítima de um terremoto de informações e lembranças que pipocavam todas ao mesmo tempo, deixando a romena completamente atordoada. Agora que a verdade sobre Benjamin acabara de saltar diante de seus olhos, Nika percebia o quanto fora tola de não ter pensado antes naquela possibilidade.

É claro que Benjamin era um homem nobre. Seu comportamento absurdamente formal e polido era reflexo de uma educação rigorosa imposta a alguém que deveria ter uma postura impecável diante da alta sociedade. Mesmo com o esforço dele em encenar o papel de um rapaz simples era possível notar que Benji tinha gostos refinados demais para um homem comum. Os dois já estavam juntos há quase dois anos e Nika não sabia nada sobre os “Müller”, simplesmente porque aquela família não existia. Danika não conhecia a irmã que Benjamin tanto amava, nunca fora apresentada a nenhum amigo de infância do namorado, não conhecia sequer um colega da faculdade de engenharia que Benji alegava ter feito.

Era óbvio demais que havia algo podre naquela história, mas Nika permitiu que o amor a cegasse. Benjamin parecia ser o homem perfeito e, inconscientemente, a romena não quis remexer no passado dele com medo de encontrar algo que descontruísse aquela imagem. Benji era tudo o que ela precisava naquele momento. Um companheiro carinhoso, fiel e compreensivo que fazia com que Danika se sentisse amada e protegida pela primeira vez na vida. Um rapaz atraente, educado e inteligente que se encaixava nos sonhos de qualquer moça. Um pai perfeito para a pequena Lisbeth.

A vida difícil que Nika tivera antes de pisar em Leoben fez com que a romena se tornasse uma mulher forte, mas também carente. Quando Benjamin surgiu como a solução mágica de todos os seus problemas e anseios, Danika simplesmente se jogou nos braços dele e deixou que o seu coração machucado acreditasse que aquele era o milagre que ela tanto desejava.

Agora a vida cobrava o preço de tamanha ingenuidade. A máscara de Benjamin Müller caiu diante dos olhos de Lehmann e o que restou dele foi um homem desprezível, um mentiroso que construiu um personagem com o único objetivo de se aproximar de um irmão bastardo, provavelmente para garantir que aquele escândalo do pai jamais abalaria o seu futuro reinado.

O que Benji fizera com Lukas fora um gesto vil e nojento, mas nada se comparava à maneira como o futuro rei atropelara os sentimentos de duas pessoas inocentes. Danika entregara a sua vida e o seu coração para Benjamin Müller. Lisbeth agora tinha um pai que sequer existia.

O desprezo que Danika sentia por aquele homem era tão amplo que a romena não se sentiu nem meramente incomodada quando o futuro rei da Áustria caiu de joelhos aos seus pés. Era uma atitude assombrosamente humilhante, ainda mais para um dos homens mais importantes do país. Mas agora Lehmann não conseguia mais acreditar em nenhuma palavra que vinha dele. Ao invés de se compadecer, a romena teve certeza de que aquilo fazia parte de mais uma das encenações perfeitas daquele homem.

- Tudo bem. – um sorriso imensamente infeliz surgiu nos lábios da morena antes que ela completasse – Eu sou só uma parasita do leste que pisou no seu país desenvolvido para ocupar os subempregos aos quais os austríacos não precisam se submeter. Uma ex-viciada, uma mãe solteira. Eu não servi para ser esposa de um empresário, então é claro que também não serviria para ser uma rainha. Quem pode te julgar por isso, Majestade?

Cada palavra escolhida por Danika estava carregada de sarcasmo. Tudo o que ela queria era desaparecer de Viena no próximo segundo, mas agora a romena se via invadida por um desejo imenso de despejar sobre Benjamin todo o ódio que ela sentia por ter sido enganada. Foi apenas o desejo de machucá-lo com aquele desabafo que fez com que Nika não se esquivasse dos braços dele. Ela queria que Benjamin continuasse aos seus pés enquanto ouvia aquele discurso definitivo.

- Eu realmente devo ser uma vadia muito boa para te manter em Leoben mesmo depois que você teve certeza de que o Lukas era só um pobre coitado que nunca ameaçaria o seu futuro brilhante. Aliás, ninguém pode te julgar por achar tudo isso normal. Você aprendeu em casa que um rei pode brincar com os sentimentos das pessoas, pode engravidar uma idiota qualquer e abandoná-la no mundo com uma criança inocente nos braços. Só que eu não sou Hilda Krauss. Eu não quero o papel de amante de um rei perfeito, de um marido exemplar, de um pai amoroso. Eu não aceito ser a sua diversão fora deste mundinho perfeito da nobreza.

Finalmente, Danika se desvencilhou dos braços que rodeavam as suas pernas e deu dois passos para trás, colocando o próprio corpo fora do alcance de Benjamin Kensington.

- Guarde as suas promessas para quem ainda acredita nelas, Majestade. Demorou muito, mas eu finalmente aterrissei na realidade. A única coisa que eu quero de você agora é que suma da minha vida. Não quero mais te ver, não quero mais ouvir a sua voz, não quero mais ter notícias suas. Eu nunca me senti tão feliz por ter nascido na Romênia porque eu nunca serei obrigada a enxergá-lo como um rei. Você será sempre um verme nojento, mais um dos erros do passado que eu terei que esconder nas gavetas mais fundas da minha memória.

Nika deu mais um passo na direção do portão, mas seu coração ferido lhe dizia que todo aquele desabafo ainda não era suficiente. Era preciso um golpe final para que Benjamin se sentisse tão machucado e humilhado como ela se sentia naquele momento.

- Você quer saber o quanto eu te odeio? – aquele sorriso sem emoção novamente surgiu nos lábios de Lehmann – Eu vou te dar um exemplo só para ilustrar melhor a situação. Se nos próximos dias eu descobrir que, por um descuido, eu engravidei de Benjamin Müller, a minha primeira atitude será procurar uma clínica de aborto. Porque eu sou capaz de amar uma criança Volgeman, mas eu jamais amaria nada que venha de você.
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Re: The Royals

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Out 02, 2016 6:20 pm

Charlotte sabia que seu mundo estava desabando no instante em que os envelopes endereçados à Benjamin Müller tocaram os dedos de Lukas. Krauss permaneceu dotado de uma calma surpreendente. Não fez nenhuma cena e conseguiu ser frio o bastante para entrar no apartamento e dar toda a atenção que Lisbeth precisava. Mas algo havia mudado nos olhos castanhos, dando a certeza para Baviera de que ele havia ligado as últimas pontas soltas daquela história.

Quando se afastou para o carro, sua intenção não era fugir, porque simplesmente não havia para onde correr. Ela não devia nenhuma fidelidade ao ex-namorado, mas foi o nome de Benjamin que procurou na agenda do celular, a ligação caindo diretamente na caixa postal.

Seus dedos deslizaram nervosamente pelo rosto enquanto ela tentava digitar uma mensagem para avisar Benjamin. Aquela urgência era apenas a forma de Charlotte evitar uma catástrofe ainda maior. Se Benji voltasse a Leoben ao menos preparado, teria a chance de contar pessoalmente a Danika antes que ela descobrisse da pior maneira.

O celular já havia sido deixado de lado quando Lukas entrou no quarto e o semblante sério de Charlotte mostrava que ela já estava preparada para aquela conversa. Baviera estava sentada na ponta da cama, de uma forma anormalmente formal. Seus braços estavam apoiados nos joelhos e o corpo levemente inclinado para frente, encarando um ponto qualquer do quarto para não precisar sentir o peso dos olhos castanhos.

A ofensa de Lukas, entretanto, obrigou as íris verdes a buscarem pelo rosto do namorado. Ele tinha todos os motivos do mundo para se sentir traído e magoado, mas Charlie não estava preparada para ouvir palavras tão duras vindo de Krauss.

- As coisas não são como você está pensando.

A voz de Charlotte estava rouca e baixa, mas não havia desespero ou a mesma tentativa angustiante de receber o perdão de Lukas. Ao contrário de Benjamin, ela havia desistido daquela mentira há muito tempo e sabia que o que havia feito era imperdoável.

- Nós dois não chegamos em Leoben querendo brincar com você ou a Danika, Lukas. Nada do que aconteceu foi planejado.

Charlotte era naturalmente baixinha, mas sentada na beirada da cama, ela precisava inclinar o rosto para conseguir encarar Lukas. Sua testa estava franzida e a expressão de derrota mostrava que ela não tentaria prolongar as mentiras ou abafar qualquer parte que Lukas ainda não soubesse.

- O Benji só me falou de você uma vez, enquanto estávamos juntos. Ele estava completamente bêbado e nem se lembrou no dia seguinte que ficou choramingando sobre o irmão que ele nunca conheceu. A minha relação com ele não era exatamente como a nossa, ele não me contava as coisas... Mas não precisava ser nenhum gênio para perceber que ele sempre quis te conhecer.

Os olhos verdes baixaram e Baviera encarou suas mãos entrelaçadas sobre o joelho. Era doloroso receber aquele olhar decepcionado de Lukas, mas ao mesmo tempo era um alívio poder tirar aquela mentira do peito.

- Um belo dia nós tivemos uma briga. Mais uma de tantas, que pra mim não fazia diferença alguma. Mas aí no dia seguinte ele sumiu sem dar notícias. Quando eu descobri que ele estava em Leoben, vim atrás dele.

Quando olhava para trás e enxergava as próprias ações, Charlotte precisava concordar com Amelie. Ela era obcecada por Benjamin e a fantasia da realeza. Havia deixado a própria vida e mergulhado em uma mentira que envolvia pessoas inocentes apenas para mostrar sua lealdade ao ex-namorado.

- Quando eu te conheci, ainda não tinha encontrado o Benjamin aqui. Não fazia ideia de quem você era. Você pode não acreditar depois de tudo isso, mas foi uma grande coincidência. Eu só precisava me distrair por uma noite e não fazia ideia que estava indo para a cama com o irmão do príncipe da Áustria.

Um sorriso triste apareceu nos lábios de Baviera quando ela se lembrou do susto que levou ao encontrar Benjamin no apartamento de Lukas naquela noite.

- Eu tinha tirado uma noite de folga na minha busca maluca pelo meu ex-namorado só pra encontrar ele debaixo do seu teto. No dia seguinte eu encontrei o Benjamin e ele me contou que havia descoberto onde você vivia.

Charlotte fez uma pausa ao perceber que estava chegando no momento do seu maior erro. Ela era incapaz de encarar Lukas durante aquela confissão e estava profundamente envergonhada com as próprias escolhas.

- O Benji não queria que eu ficasse. Ele queria se aproximar de você, ter a oportunidade de conhecer o irmão. Acho que no fundo, ele só queria saber se você sabia da existência dele e havia simplesmente optado por não procurá-lo. Na verdade, eu não sei o que ele esperava encontrar aqui, mas posso garantir que você superou todas as expectativas.

Ela mordeu o lábio inferior ao perceber que estava evitando contar a sua introdução naquela mentira, mas precisava assumir a responsabilidade pelos seus atos.

- Ele não me pediu pra ficar. Só o que queria era que eu o deixasse em paz, mas eu garanti que iria ajudá-lo a se aproximar de você. Foi quando eu decidi me matricular na faculdade e ficar mais tempo com você.

A voz de Charlotte perdia a força a cada palavra, porque podia imaginar o que estava se passando na cabeça de Krauss. Ela estava destruindo a base daquele relacionamento. Lukas acreditava que a amizade havia acontecido de forma natural, quando Charlie havia planejado até mesmo o esbarrão no campus.

- Eu posso não saber o que o Benjamin esperava encontrar aqui, mas posso lhe garantir que eu não esperava gostar de você de verdade, Luke. Não sei quando aconteceu, mas em algum momento o Benjamin não era mais o motivo para continuar em Leoben. Eu encontrei em você um amigo de verdade e me apaixonei. Você mudou completamente a minha vida, Luke.

Com um suspiro, Charlotte se obrigou a voltar para a história. Ela sabia que não importava o quanto tentasse se explicar agora. Luke dificilmente a perdoaria com tanta facilidade, apenas com meia dúzia de palavras.

- Quando eu percebi que gostava mesmo de você, não quis mais continuar nessa história maluca do Benji. Eu o alertei diversas vezes, mas não podia continuar olhando pra você sabendo de toda a verdade. Foi quando eu quis ir embora de Leoben.

O silêncio caiu pelo quarto quando Charlotte se calou, deixando que apenas o som da televisão que vinha da sala ecoasse pelo corredor, lembrando aos dois que Lisbeth ainda estava presente.

- Depois você foi diagnosticado com câncer. Quando eu soube que você precisaria de uma medula compatível, liguei para o Benjamin e exigi que ele fosse até Viena. O resto da história você já sabe...

Charlie franziu a testa ao erguer o olhar para Krauss, tentando interpretar o que ele estava pensando, aguardando com ansiedade.

- Não era meu segredo pra contar, Luke. Mas eu também não queria mais me afastar de você. Quando você descobriu que o Benjamin era seu irmão, eu esperei que ele fosse contar toda a verdade. Bom, de qualquer forma, agora você já sabe.
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Re: The Royals

Mensagem por Lukas Krauss em Dom Out 02, 2016 7:53 pm

Era difícil saber se foi a presença de Lisbeth no apartamento que evitou uma briga acalorada ou se era o simples fato de que aquela cena dramática não combinava com a personalidade leve de Lukas Krauss. Luke não ergueu a voz, não soterrou Charlotte com ofensas e acusações, tampouco entregou-se ao desespero ao finalmente descobrir o segredo que fora escondido dele durante toda a sua vida.

Lukas Krauss era um Kensington, um filho bastardo do rei da Áustria. O rapaz estava tão focado nas mentiras de Benjamin e Charlotte que demorou alguns minutos a mais até entender o que tudo aquilo significava. Só agora Luke finalmente compreendia porque Hilda estava disposta a morrer sem revelar aquele segredo. O pai biológico de Lukas não era apenas um homem rico e famoso. Ele era poderoso e seus descendentes tinham o direito de ocupar o trono austríaco. Um bastardo seria um escândalo que abalaria todo o país e não apenas a família perfeita de Cristoph.

Ainda sem a explosão que qualquer um esperaria dele, Lukas se arrastou até desabar sobre a poltrona do quarto. O olhar perdido mostrava que a mente de Krauss ainda lutava bravamente para conseguir visualizar aquela novidade. Todo o drama envolvendo Benjamin e Charlotte foi varrido para o lado enquanto o rapaz tentava entender como Hilda Krauss havia se tornado amante do rei da Áustria.

Hilda sempre havia sido uma pessoa absurdamente simples. A mulher não vinha de uma família rica, tampouco tinha um sobrenome importante. Era apenas uma pessoa comum, com um emprego normal, um salário mensal fixo e uma vida pacata com algumas limitações. Lukas nunca havia visto a mãe cobiçar vestidos caros, colecionar joias, planejar viagens, frequentar eventos sofisticados. Era impossível imaginar qualquer momento em que o caminho dela se cruzaria com Cristoph Kensington ao ponto daquelas duas pessoas tão distintas gerarem um filho.

Mas, independente de qualquer lógica, aquilo havia acontecido. E como se não bastasse todo o mal que Cristoph fizera à amante e ao filho que nunca assumira, Benjamin resolveu acrescentar mais drama ao problema quando arrastou Charlotte, Danika e Lisbeth para aquela confusão. Pessoas inocentes foram envolvidas em toda aquela trama como se o erro de Cristoph Kensington fosse uma avalanche incontrolável que arrastava os sentimentos de qualquer um que entrasse em seu caminho de destruição.

- Sabe por que eu não vou explodir, Charlie?

Os olhos castanhos por trás das lentes se focaram novamente na imagem da namorada e Lukas parecia ter lido a mente de Baviera ao explicar a própria reação anormalmente calma.

- Porque eu me sentiria um idiota egoísta fazendo uma ceninha por causa de um pai que eu nem conheço, de um irmão mentiroso que não merece o meu afeto e de uma namorada ambiciosa que brincou com a minha amizade e com o meu amor. Eu não estou nem perto de ser a maior vítima desta farsa imunda de vocês. A maior vítima está há alguns metros daqui, assistindo desenho animado sem jamais imaginar o sofrimento que está prestes a enfrentar.

O indicador de Krauss apontou na direção da porta entreaberta, se referindo à garotinha que ele acabara de deixar na sala, abraçada ao coelhinho de pelúcia que se tornara o seu brinquedo preferido simplesmente porque fora um presente de Benjamin Müller.

- Aquela criança chama o Benjamin de papai. Será que vocês dois tem a mais remota noção da importância desse gesto tão simples, Charlotte? É claro que não, sabe por que? Porque os dois sempre tiveram um pai.

Pela primeira vez na vida, Lukas desabafou sobre aquele vazio. Hilda havia se desdobrado para que nada faltasse ao filho, mas a lacuna deixada pelo pai ausente nunca fora totalmente preenchida mesmo com todo o amor da Sra. Krauss.

- Nenhum de vocês nunca recebeu uma tarefa “especial” na escolinha enquanto seus colegas faziam um cartão para o dia dos pais. Você e o Benjamin nunca tiveram que explicar para ninguém porque estavam deixando em branco o campo “nome do pai” sempre que preenchiam qualquer tipo de formulário. Vocês nunca precisaram esconder a inveja de um colega que aprendeu a dirigir com o pai, que foi levado pelo pai à final de um campeonato...

Agora que iniciara o desabafo, Luke simplesmente não conseguia mais conter as palavras que ele sempre havia escondido na parte mais profunda de sua mente. Uma das mãos do rapaz arrancou os óculos para que os dedos pudessem esfregar os olhos que ardiam com todo aquele sofrimento nunca demonstrado.

- Quando eu tinha treze anos, o pai de um dos meus melhores amigos morreu num acidente de carro. Acho que foi o único momento da minha vida em que eu fiquei grato por não ter um pai. Porque a única coisa pior que não ter um pai era perder um bom pai daquela forma tão abrupta e violenta. E é isso que o Benjamin fez com a Lisbeth. Ele deu a ela o gostinho de ter um pai apenas para depois privá-la desta felicidade.

A maior mágoa de Lukas era sem dúvida dirigida ao irmão, mas Krauss não pretendia poupar Charlotte daquela culpa.

- E não tente diminuir o seu envolvimento com estas explicações vazias, Charlotte, não tente resumir a sua culpa às mentiras que te levaram para perto de mim. Você sabia quem ele era, você sabia que o Benjamin estava destruindo a vida da Danika e da Lisbeth. Isso deixou de ser um segredo para se tornar um crime. Por amor, por fidelidade, por ambição... não interessa o motivo, você foi cúmplice da atrocidade que o Benjamin fez com aquela criança inocente. Cada lágrima que a Beth derramar quando não tiver mais o “pupai” por perto será responsabilidade sua. Cada desvio que ela tiver na vida por causa deste trauma será um peso nos seus ombros. Não fuja desta responsabilidade, Charlotte. Você é responsável indiretamente por todo o sofrimento daquela menininha.

Charlotte Baviera era uma garota cheia de defeitos e com uma noção muito deturpada da realidade graças à maneira como fora criada. Mas Lukas sempre fora capaz de enxergar as qualidades dela e se apaixonara pela garota que existia por baixo daquela máscara de menina riquinha e mimada. Mas aquele era um erro que Krauss não conseguia ignorar. O egoísmo de Charlie era até divertido quando ela tentava puxar o centro do universo para o próprio umbigo, mas Luke não conseguia achar graça no rolo compressor que Charlie e Benji passaram por cima do coração de uma criança.

- Eu me apaixonei por você, mas não vou terminar este namoro por não acreditar nos seus sentimentos. Isso é irrelevante, Charlie. Independente se você gosta de mim ou se só entrou nesta história para ajudar o Benjamin, eu não te quero mais na minha vida. Eu simplesmente não conseguiria ficar com alguém que não me desperta nem um pingo de admiração.
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Re: The Royals

Mensagem por Remus J. Lupin em Dom Out 02, 2016 11:52 pm

Nika tinha todos os direitos do mundo de se sentir revoltada e traída, de querer se vingar e tentar produzir um pouco da dor que sentia em Benjamin. Mas mesmo sabendo que ele era o responsável pela dor provocada nos dois, seu coração se espatifou como um bibelô de vidro em queda brusca.

Benji ainda estava em choque quando Danika se afastou, mas mesmo sem força alguma ele se colocou de pé, disposto a continuar aquela noite de humilhações para fazer com que ela o escutasse. A única coisa que o impediu de seguir adiante foram os delicados dedos que rodearam seu pulso.

Todo o seu mundo estava voltado para Danika, a dor e a tristeza de ver a sua vida se despedaçando, que ele não havia notado a aproximação de Amelie. A princesa era magra e não teria força alguma para conter Benjamin, mas seu olhar, mesmo lotado de maquiagem, demonstrou que ela já havia compreendido tudo que estava acontecendo e partilhava a dor do irmão.

- Eu preciso ir atrás dela. – Benjamin implorou, os olhos azuis lavados pelas lágrimas.

- Eu sei. – Amelie deu um sorriso triste e concordou com um movimento da cabeça, mas não soltou Benjamin. – Mas hoje não. Ela precisa de um tempo, Benji.

O príncipe ainda virou o rosto para o ponto do jardim onde Danika havia desaparecido, tentado a correr atrás da Romena, mas o gesto suave de Amelie o puxou de volta ao palácio. O caminho pelo jardim era longo, mas quanto mais se aproximava de casa, mais a tristeza era substituída pela raiva. A princesa deslizava a mão pelas costas de Benjamin em uma tentativa de reconforta-lo.

Quando os dois herdeiros dos Kensington chegaram ao palácio, a festa já havia sido encerrada. Mas ao invés de seguir o caminho para as escadas, Benji mudou seus passos até a grande sala de estar.

Helena estava sentada em um dos sofás, bebericando uma xícara de chá tão tranquilamente que não parecia ter acabado de destruir o mundo do seu filho mais velho. O rei, por outro lado, estava em pé, com uma das mãos apoiadas na lareira e encarando o fogo que queimava a lenha. No instante em que escutou os filhos se aproximando, ele se virou para Benjamin, claramente preocupado.

- O que foi que aconteceu? Quem era aquela moça, Benjamin?

Cristoph sempre havia sido uma figura que impunha respeito. Contudo, naquela noite ele foi completamente ignorado quando seu filho atravessou a sala e lhe deu as costas para encarar a mãe.

O primogênito dos Kensington era mais alto do que os pais e se tornava ainda mais assustador por encarar a mãe de cima. Seus punhos estavam cerrados e o rosto manchado pelas lágrimas estava agora furioso.

Helena, por outro lado, não se abalou por um único segundo com a visão ameaçadora do filho. Ela terminou de dar o gole em sua bebida quente, depositou a xícara no pires e lambeu os lábios para retirar qualquer resquício do chá de seu batom intacto.

- Como você pôde? Ela não tinha nada a ver com essa droga toda! Danika nunca te fez nada!

- Eu achei que todos aqueles anos em um internato você tivesse aprendido alguma coisa, Benjamin. Mas você ainda não sabe como as coisas funcionam?

- Alguém pode me explicar o que está acontecendo? – Cristoph se afastou da lareira, se colocando diante da esposa e do filho.

- Você destruiu tudo! – Benjamin ignorou o pai mais uma vez.

Ele não enxergava a sala ao seu redor. Não se preocupava como Amelie parecia assustada há alguns metros de distância ou como o rei estava deslocado naquela cena. A fúria de Danika ainda estava ecoando na sua mente, e somada com a sua própria frustração, era dedicada à rainha.

- Eu? – A rainha riu, sem alterar seu tom de voz. – Foi você quem mentiu para aquela pobre garota, Benjamin. Deixe de ser um pirralho mimado e pelo menos assuma as suas responsabilidades.

- Aquela menina? – Cristoph tentava ligar os pontos, horrorizado. – A chef? O que você fez com ela, Benjamin?

Como o rapaz continuava sem nenhuma menção de responder ao pai, Helena girou os olhos azuis com impaciência até encarar o marido.

- O seu filho tem o mesmo péssimo gosto que você para vadias. Ele estava se divertindo com aquela vagabunda todo esse tempo. – Os lábios de Helena formavam um bico cada vez que ela se referia a Danika, como se tivesse um imenso nojo em pensar no filho com a romena. – Francamente, Benjamin. Já estava na hora de parar com o faz de conta e voltar para a sua família. Você não achou mesmo que eu ia deixar você continuar vivendo com aquela drogada, não é?

As informações que Helena tinha sobre Danika mostravam que a rainha havia feito o seu trabalho de casa. Era impossível e ao mesmo tempo indiferente para Benjamin saber há quanto tempo a sua mentira havia sido descoberta pela mãe. Mas a rainha havia tido tempo o bastante para arquitetar friamente o seu terrível plano.

A resposta de Benjamin veio em um gesto brusco. Helena soltou um grunhido de surpresa e quase saltou do sofá quando sua xícara foi arremessada para o lado, derramando a bebida quente em sua mão, vestes e pelo carpete caro. Amelie, que continuava perto da porta, se encolheu e cobriu as mãos para abafar o grito, mas foi a voz de Cristoph que ecoou sobre o ruído da louça se espatifando.

- BENJAMIN! VOCÊ PERDEU O JUÍZO?

O rei se colocou diante do filho, o impedindo de uma tragédia maior. Mas Benjamin não tentou empurrá-lo para o lado e nem voltou a erguer a mão para Helena. Ele apenas encarou a mãe por cima do ombro do pai, a encarando como se estivesse diante de uma completa desconhecida.

- O papai preferiu encontrar amor nos braços de outra mulher. Eu encontrei a minha família muito longe daqui. Isso aqui... – ele ergueu os braços para se referir ao palácio. – Nunca foi a minha casa. Você nunca foi a minha família. Eu te odeio e você vai morrer sozinha, sem o amor de ninguém. Nem a sua própria filha é capaz de te amar.

Os olhos azuis deslizaram para encarar o rosto assombrado do rei. Se Benjamin não conseguia reconhecer a própria mãe, Cristoph também não conseguia ver nada do filho naquele homem furioso a sua frente. Não havia nada da polidez moldada para um futuro rei.

Quando Benji encarou os olhos castanhos que agora ele sabia serem idênticos aos de Lukas, ele carregava toda a mágoa da sua vida inteira. O segredo que ele havia carregado consigo desde menino o havia sufocado por tempo demais, mas não havia mais motivo algum para se calar. Para proteger a imagem da família? Sua única família havia saído daquele palácio lhe jurando ódio eterno por culpa daquelas pessoas.

- É tudo culpa sua. – Benji deu um passo para trás e encarou o rei com profundo desprezo. – Você teve coragem de abandonar o seu próprio filho por causa dessa mulher. Você é um covarde que não tem o direito de carregar o título de rei! Brincou com a vida de todas as pessoas e é culpa sua que eu tenha essa visão tão distorcida de que posso fazer tudo sem ter que lidar com as consequências.

Não havia cor alguma no rosto de Cristoph, assombrado demais em saber que seu segredo não era tão bem guardado quanto imaginava.

- Eu queria que você tivesse me abandonado no lugar do Lukas. Minha vida seria muito melhor longe de todo esse inferno!

Pisando duro, Benjamin se afastou dos pais, ignorando o olhar atônito e úmido pelas lágrimas de Amelie, sem sequer notar que havia acabado de revelar o segredo da família para a irmã em seu aniversário.
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Re: The Royals

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Out 03, 2016 12:30 am

Charlotte sabia que quando toda a verdade viesse à tona, precisaria lidar com as consequências das suas escolhas erradas. Lukas ficaria furioso, Danika se sentiria traída e nada mais seria igual.

Cada uma das palavras de Krauss era recebida por Baviera em profundo silêncio, porque simplesmente não tinha o que argumentar. Ele estava certo em suas acusações. Ela e Benjamin viviam em mundos completamente diferentes daquele que encontraram em Leoben, e por acreditar que podiam tudo, brincaram com vidas de pessoas inocentes. Benji com o objetivo de conhecer o irmão que havia fantasiado por toda sua vida e Charlotte pela ambição de continuar ao lado do futuro rei.

Era uma dádiva e ao mesmo tempo um castigo que tivessem se envolvido com aquelas pessoas, mas era tarde demais para corrigir seus erros.

O que Charlie não esperava era pela declaração de Luke por um fim definitivo no relacionamento. Depois de tudo que os dois haviam vivido, ela tinha certeza que seriam capazes de enfrentar aquela crise e ficar juntos. Charlie tinha certeza que amava Lukas e havia ficado ao seu lado na pior fase de sua vida. Mas nem mesmo aquilo era suficiente para minimizar o seu erro.

Charlie poderia se humilhar como Benjamin. Poderia implorar que Lukas lhe desse uma segunda chance. Mas ela conhecia Krauss o suficiente para saber que aquilo seria totalmente inválido. Por isso, em silêncio, Charlie apenas concordou com um movimento da cabeça antes de se levantar para arrumar as próprias coisas.

A vontade de chorar era sufocante, mas Lukas não merecia mais aquela dose de drama depois de tanto que havia aprontado em sua vida. A sensação era semelhante a de terem arrancado um pedaço do seu coração, mas Charlotte se esforçou para arrumar todas as suas coisas em silêncio.

Quase meia hora depois, quando uma mala de rodinhas já estava lotada com a maioria dos seus pertences, ela voltou para a sala. Luke havia preparado um lanche para Lisbeth, que continuava assistindo os desenhos enquanto mordia um pedaço de maçã descascada, alheia ao mundo que desabava ao seu redor.

A culpa ao ver o rostinho da criança era sufocante, tão doloroso quanto partir daquele apartamento. Ao parar diante da porta, Charlie puxou o chaveiro da bolsa até encontrar a chave do apartamento de Krauss, separando-a das demais.

Se aproveitando da concentração de Lisbeth inteiramente presa ao desenho, Charlie ousou abrir a boca pela primeira vez, mantendo a distância enquanto Lukas estava do outro lado do balcão que separava a cozinha da sala.

- Eu posso não imaginar o que é crescer sem um pai, mas posso lhe garantir que nesse quesito, você teve mais sorte do que eu e o Benjamin. Meus pais me dão todo o dinheiro que preciso, mas eu nunca recebi uma migalha do amor que a sua mãe tem com você, Lukas. E o Benji? Ele foi afastado de casa simplesmente para não envergonhar a imagem da família.

A menção do apelido de Benjamin fez a cabecinha de Lisbeth se virar para encarar Charlotte, esperando ver o pai a qualquer minuto. Aquele gesto fez seu coração se apertar ainda mais, mas Baviera continuou tomando o devido cuidado para não mencionar o nome do ex-namorado.

- Ele nunca mais foi o mesmo desde que conheceu a Lisbeth. Ele a ama de verdade, Lukas. Não importa o que você ou a Danika possam dizer de agora em diante, ele é o pai dela.

A chave que Charlotte soltou de seu chaveiro foi deslizada pelo balcão e a morena ajeitou a bolsa em seu ombro.

- Sinto muito que você não seja capaz de me perdoar. Você foi a melhor coisa que já me aconteceu.
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Re: The Royals

Mensagem por Danika Lehmann em Seg Out 03, 2016 12:41 am

Já passava de três da manhã quando Danika finalmente sentiu que seu mundo não havia desmoronado por completo. No instante em que caiu de joelhos diante da cama ocupada por Lisbeth, a romena soube que ainda tinha muitos motivos para continuar de pé e seguir em frente. Completamente alheia à bomba que estourara em sua vida, Beth estava profundamente adormecida no meio da cama que um dia pertencera a Benjamin Müller, rodeada por travesseiros e abraçada ao coelhinho de pelúcia. Sua respiração ritmada era o único som que ecoava no quarto escuro e parecia a mais bela música para os ouvidos da mãe.

O braço que se estendeu para tocar numa mecha dos cabelos castanhos ainda estava coberto pelo tecido da dolma. Nika não havia trocado de roupa simplesmente porque não retornara para o hotel. Assim que entrou no primeiro táxi que passou pela avenida diante do palácio real, Lehmann entregou uma pequena fortuna ao motorista para que ele enfrentasse a viagem de volta para Leoben. Ela enlouqueceria se passasse mais meia hora em Viena.

O sono de Lisbeth era pesado, mas a garotinha começou a se remexer na cama no instante em que os soluços doloridos da mãe quebraram o silêncio do quarto. Parado junto à porta, Lukas soube que era o momento de interferir. A última coisa que Beth precisava era ser acordada no meio da madrugada pela mãe em prantos, completamente desamparada e desesperada.

- Vem, Nika... – o rapaz amparou Danika pelos ombros, erguendo-a do chão – Você precisa se acalmar, ela não pode te ver assim.

De volta à sala, Luke retribuiu ao abraço da romena, compartilhando aquela imensa dor com ela. Por mais que Lukas também fosse uma vítima de todas aquelas mentiras, ele simplesmente não conseguia se colocar no mesmo patamar de Nika e Lisbeth. A vida dele continuaria sem maiores intercorrências, nenhum de seus grandes planos para o futuro fora afetado. Krauss havia perdido Charlie, mas tinha o consolo de não sentir pela ex-namorada o ódio profundo que arrancava de Nika aquele choro convulsivo.

- Você já sabia?

A pergunta de Lehmann soou num sussurro engasgado. Não havia um tom de cobrança ou acusação contra Lukas, ela simplesmente queria saber se fora a única a ser enganada até o último momento.

- Eu descobri hoje também. A Charlie se enrolou e eu arranquei a confissão dela.

- Charlie??? – Nika afastou a cabeça para encarar o amigo, visivelmente confusa – Ela sabia?

- Ela e o Benjamin estavam juntos nisso. Os dois são ex-noivos, ex-namorados, eu sei lá como devo chamá-los.

Parecia impossível, mas aquela novidade fez com que a raiva e o desprezo que Danika sentia pelo futuro rei aumentassem ainda mais. Toda aquela farsa era tão imunda que mais lixo aparecia sempre que alguém remexia naquela história.

Com as pernas fracas, Nika deixou o corpo desabar no sofá e encolheu as pernas por cima do assento, abraçando a si mesma. Quando Luke se acomodou ao seu lado, a romena deitou a cabeça no ombro do vizinho numa tola tentativa de reduzir ao menos um pouco a sensação de desamparo. Suas lágrimas tinham secado depois de mais de duas horas de viagem de Viena até Leoben, mas a incapacidade de chorar mais não fazia com que Danika se sentisse melhor.

- Luke. – a voz da romena soou depois de um longo silêncio dolorido.

- Hm?

- Nunca se lamente pela vida que você teve. Acredite em mim, você foi mais feliz que todos eles. Você teve uma mãe carinhosa, uma mãe que te ensinou os valores certos. Você se tornou um homem digno.

- Eu sei. – Luke virou o rosto para dar um beijo na testa de Danika – Eu jamais trocaria a minha vida pela dele.

- Qual é o problema comigo, Luke? Que maldição é essa que só me atrai na direção de homens doentes, de homens que me machucam e destroem o meu mundo?

- Não se culpe pelos erros dos outros, Nika. Você é apenas uma boa pessoa com o dedo meio podre.

Aquele comentário divertido conseguiu arrancar um pequeno sorriso de Danika em meio a aquele grande pesadelo. Não havia nenhum tipo de segunda intenção na maneira como os dedos dos dois se entrelaçaram naquela madrugada. Luke e Nika eram apenas duas almas feridas que precisavam do apoio uma da outra para seguirem em frente.
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Re: The Royals

Mensagem por Lukas Krauss em Seg Out 03, 2016 1:20 am

- Você ficou completamente louco??? O que está fazendo aqui às três horas da manhã???

Hilda soou meio histérica enquanto abria a porta dos fundos para que o rei da Áustria entrasse na cozinha de sua casa. Antes de fechar a porta, a Sra. Krauss se encolheu dentro do robe e esticou o tronco para fora de casa apenas para conferir a rua deserta, na qual não havia nenhuma testemunha para assistir àquela visita inesperada no meio da madrugada.

- São três horas da manhã, Cristoph!

Antes que a mulher pudesse continuar com aquela bronca, Kensington interrompeu o discurso dela com o motivo que o levara até aquele bairro periférico no meio da madrugada fria de Viena.

- O Lukas sabe. Se ainda não sabe, vai descobrir nas próximas horas. Eu só achei que precisava te avisar, você precisa estar preparada para os questionamentos dele.

O pouco sangue que ainda circulava no rosto de Hilda desapareceu depois daquelas palavras. Por mais que soubesse que aquela bomba um dia explodiria, a mulher nunca estaria pronta para encarar o filho sabendo que Luke descobrira toda a verdade sobre o seu envolvimento com Cristoph Kensington.

- Você me garantiu que o SEU filho não contaria!

- Eu não garanti nada, Hilda. Eu apenas concluí que o Benjamin não pretendia contar. Ele teve a chance no momento da doação da medula e não contou. De qualquer forma, não será pelo Benji que a verdade chegará até o Lukas. A namorada dele descobriu. Danika, eu acho que é este o nome. Por que você não me contou que o Benjamin havia se apaixonado??? Eu teria evitado uma grande tragédia!

- Ora, Cristoph! Eu tenho mais o que fazer do que acompanhar a vida amorosa do seu filho. Eu sabia que ele estava com essa moça, mas não achei que fosse nada sério!

- Era sério. Muito sério. E a Helena descobriu antes de mim.

Hilda Krauss cruzou os braços e tentou demonstrar indiferença, mas os olhos verdes refletiram um sincero pesar. Ela conhecia a rainha o suficiente para saber que Helena Kensington havia colocado o pior fim possível no romance do próprio filho. Mas Hilda não tinha tempo para lamentar a má sorte de Benjamin e Danika quando o seu próprio mundo enfrentava um terremoto.

A Sra. Krauss sabia que estava acendendo um pavio no dia em que, aos prantos, ligou para o ex-amante e implorou que Cristoph fizesse um teste para doação de medula óssea. Nem por um momento, o rei pensou em ignorar aquele apelo e estava disposto a colocar em jogo a própria reputação para salvar a vida do filho. Contudo, aquela jogada se tornou desnecessária quando o teste de um “amigo” de Lukas mostrou compatibilidade. Assim que soube que o nome do rapaz era Benjamin, o rei ligou os pontos e descobriu finalmente a localização do filho e as razões para aquele sumiço prolongado.

Mas o que Cristoph não sabia era que havia mais um motivo além do irmão para que Benjamin ficasse em Leoben. Somente naquela noite trágica, o rei da Áustria soube que seu primogênito havia repetido o seu erro de se apaixonar por uma moça simples, totalmente inadequada aos padrões da nobreza.

- O que eu vou fazer? – Hilda murmurou, completamente infeliz – Como eu vou olhar para o Lukas agora que ele sabe a verdade? O que ele vai pensar sobre mim, Cris?

- Ele vai pensar que eu sou um grande idiota por nunca ter tido a coragem de enfrentar o mundo para ser feliz ao lado da mulher que eu amo.

- Pelo amor de Deus, não é hora disso, Cris... – Hilda sacudiu a cabeça e soltou um soluço antes de se entregar ao abraço do amante – O nosso filho nunca vai entender.
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Re: The Royals

Mensagem por Remus J. Lupin em Seg Out 03, 2016 2:22 am

”- Mas acho que, no final das contas, é o que te torna você tão... você, Mel. Você é completamente inesperada. Surpreendente. A melhor irmã que eu poderia ter. Eu te amo, irmãzinha.”

A voz de Benjamin ecoou pelo quarto antes da imagem do jantar sair da televisão, aparecendo uma apresentadora em um programa de talk show. A mulher loira estava sentada com as pernas cruzadas de forma elegante e sorria abertamente para a câmera.

- Eu preciso confessar... Eu estou perdidamente apaixonada pelo príncipe Benjamin. Eu casaria com ele agora mesmo!

As risadas da plateia foram acompanhadas pelo homem de terno ao seu lado. Enquanto eles conversavam, havia uma foto congelada no canto da tela mostrando Benjamin e Amelie. Na legenda, “O novo rosto da monarquia austríaca”.

A conversa banal entre os dois apresentadores estava aparecendo na grande televisão há pelo menos dez minutos. A mesma cena do jantar e do discurso de Benjamin, que ele sequer sabia que estava sendo gravado, era repetida em uma forma apelativa de ganhar audiência. O problema era que em diversos canais, o assunto era o mesmo.

A mídia austríaca estava em polvorosa com a revelação dos rostos dos herdeiros de Helena e Cristoph. Embora os Kensington tivessem sido sempre absurdamente discretos, o povo se mostrava surpreendentemente curioso e em êxtase com aquela revelação.

A imagem da família perfeita era reproduzida sucessivas vezes, acompanhada de comentários exagerados sobre como os Kensington estavam salvando a mancha da realeza moderna. Com tantos escândalos acompanhados pela realeza de Mônaco ou a popular família real Inglesa, os Kensington pareciam ter surgido como o exemplo perfeito para ser usado pelas demais famílias da Áustria.

Se Helena tinha alguma preocupação que o povo havia ficado abalado com a saúde frágil de Cristoph, agora podia ficar inteiramente satisfeita em ver o resultado do seu esforço. Não havia um único cidadão que acompanhasse as notícias da família real que não tivesse ficado suspirando pelas imagens do amor fraternal entre a princesa e o futuro rei.

- Eu daria qualquer coisa para ter nascido um Kensington. – O homem completou, abrindo a boca para continuar seu discurso.

A televisão, entretanto, escureceu repentinamente quando Amelie a desligou pelo controle remoto. Benjamin se virou para encarar o rosto abatido da irmã quando ela se aproximou.

Não havia nenhum sinal da maquiagem pesada nos últimos dias, mas a sombra que estava sempre em seu rosto se encarregava de abafar a beleza angelical da caçula.

- Como você pôde esconder isso de mim, Benjamin?

Benji baixou o olhar e sacudiu a cabeça. Poucos dias haviam se passado desde o desastroso jantar onde seu mundo ruíra e Amelie havia se isolado até então.

- Eles, eu entendo... – A voz da princesa imediatamente ficou chorosa quando ela apontou para o corredor, se referindo aos pais. – Mas você? Eu achei que o que tivéssemos fosse diferente.

Ele simplesmente não aguentava mais ser uma decepção para as pessoas que amava. Lukas não atendia seus telefonemas, Danika provavelmente não abriria nem mesmo a porta caso ele aparecesse em Leoben e Amelie o culpava por manter um irmão em segredo. Até Charlotte havia se afastado.

- Eu não poderia te arrastar para essa confusão também, Mel. O estrago já não foi grande o bastante?

Amelie queria se juntar ao clube que odiava Benjamin. Queria culpa-lo por ser a única a não saber que tinha um irmão no mundo. Mas se desse as costas para Benji, ela também estaria sozinha. E certamente enlouqueceria se não tivesse nem mesmo o ombro do irmão para se apoiar.

Com o queixo tremendo enquanto segurava o choro, ela se aproximou dele até sentar na beirada da cama.

- Como ele é?

A imagem de Lukas Krauss imediatamente surgiu em sua mente. O rapaz com ar de menino tivera seu mundo abalado pelos seus erros. Luke nunca teve a ambição de ocupar o trono, de exigir os seus direitos. Ele levava sua vida simples até Benjamin surgir para bagunçar tudo. Era só aquilo que era capaz de fazer: arruinar a vida das pessoas.

- Diferente de tudo isso. Ele é honesto, gentil e humilde. Mas também é engraçado. Vocês dois formariam uma dupla e tanto...

Um sorriso carinhoso apareceu em meio ao rosto abatido de Amelie quando ela imaginou o irmão que até poucos dias não sabia que existia. Os dois herdeiros permaneceram em silêncio por alguns minutos e foi novamente a princesa quem quebrou o silêncio.

- E a Danika?

Benjamin balançou a cabeça. Daquela vez, ele sabia que Amelie não estava pedindo uma descrição da sua namorada de Leoben. A princesa queria saber se alguma coisa havia mudado desde a dramática cena do jardim real.

- Ainda não me atende. Eu preciso voltar até Leoben.

- Não é uma boa ideia, Benji... A sua cara está espalhada na cidade inteira. Você não vai mais conseguir andar por aí como antes. Se for até a casa dela, vai levar junto uma dúzia de paparazzi. E pelo pouco que eu conheci a garota, acho difícil que ela fique feliz com isso.

Os dedos de Benjamin se entrelaçaram até que ele afundasse o rosto nas próprias mãos. Ele nunca mais teria a mesma vida que antes. Helena havia se encarregado disso. Mas também não podia ficar simplesmente sentado.

- Você não entende, Mel... Eu tenho uma filha lá.

A princesa arqueou os ombros e não tentou esconder a surpresa daquelas palavras.

- Algum dia vocês vão parar de me surpreender?! Que história é essa?

- A Lisbeth é minha filha. Não de sangue, mas é minha, Mel.

Os olhos azuis de Amelie encararam o irmão em silêncio. Ela já sabia o quão sério era o relacionamento do irmão com a romena, mas não fazia ideia de que havia uma criança inocente no meio de todo aquele drama.

Se Benjamin tentasse se aproximar de Danika, seria questão de tempo até que os jornais estivessem reportando calúnias ou criando suas próprias teorias sobre o envolvimento do príncipe.

Foi Amelie que convencei o irmão a permanecer longe de Leoben, para segurança de Danika. Mas não passava um único dia sem que ele tentasse falar com a ex-namorada. As ligações eram de hora em hora, sempre encontrando a caixa postal. Quando não estava tentando falar com Nika, eram as fotos dela e de Lisbeth que Benji passava seu tempo admirando.

A saudade de Danika era sufocante, mas além da necessidade de ter a romena em seu lado, ele sentia que estava enlouquecendo por estar longe de Lisbeth.

Mais de dois meses haviam se passado sem qualquer notícia da filha quando Benjamin apelou para medidas mais drásticas. Aquele era o caminho mais difícil e sua última opção, mas ele não deixaria que Danika e Lisbeth fossem cortadas de sua vida tão facilmente.

Depois de dois meses afastada de Viena, Danika receberia em sua casa o oficial de justiça a convocando para uma audiência. O intuito era simples: a correção do nome do pai na certidão da menina. Os documentos assinados pelo príncipe eram legítimos e sua assinatura não foi contestada uma única vez. Ele só exigia que o seu sobrenome fosse corrigido, junto com um pedido para ver a filha com frequência.
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Re: The Royals

Mensagem por Danika Lehmann em Seg Out 03, 2016 3:38 am

Contrariando o senso comum, o azul era a cor predominante da decoração da festinha de aniversário de três anos de Lisbeth Lehmann Kensington. O restaurante de Danika era o palco da festa infantil que movimentava Leoben naquela tarde. As mesas tinham sido levadas para fora do salão para aumentar o espaço disponível para as crianças correrem e os adultos se acomodavam em mesas menores encostadas nos cantos.

Na parede dos fundos, uma enorme mesa de doces fora montada e um bolo de três andares preparado pela própria Nika chamava para si toda a atenção. Os balões azuis e brancos cobriam todo o teto, do qual também pendiam delicados enfeites prateados que imitavam flocos de neve. Beth estava loucamente apaixonada por Frozen e costumava assistir ao filme duas vezes por dia.

Depois de alguns meses terríveis, a imprensa finalmente parara de perseguir a pequena Lisbeth. Eventualmente ainda surgia algum paparazzi disposto a fotografar a garotinha indo para a creche ou passeando com o pai, mas aquela notícia deixou de ser uma novidade com o passar das semanas.

Ironicamente, aquela bomba que poderia manchar um pouco a imagem imaculada do futuro rei da Áustria só contribuiu positivamente para a fama de Benjamin. A imprensa passou a retratá-lo como um pai exemplar, que amava loucamente a sua princesinha e que assumiu todas as responsabilidades mesmo que Lisbeth tivesse sido fruto de um plano ardiloso de uma mulher interesseira.

Esta foi a imagem que a Áustria teve de Danika Lehmann. Uma estrangeira interesseira que seduziu o pobre príncipe e executou com perfeição o velho golpe da barriga enquanto Benjamin ainda era um rapaz “ingênuo” que terminava seus estudos fora de Viena. E é óbvio que esse “mal entendido” só contribuiu para que o desprezo de Nika por Benji crescesse abissalmente.

Não havia nenhuma maneira de desmentir aquele boato. Danika sabia que só pioraria as coisas se fosse para a imprensa e falasse que Beth não era uma legítima Kensington. Aquilo atrairia a atenção de Friedrich Volgeman e certamente os paparazzi voltariam a atormentar a criança de sorte que conquistara o coração do príncipe sem ter uma gota de sangue nobre.

No fim das contas, Lehmann engoliu mais aquela injustiça pelo bem de Lisbeth. A mãe ainda se arrepiava com a lembrança de como Beth ficara deprimida quando Benjamin não retornou de Viena. Foram semanas inteiras de choro, de despertares agitados no meio da madrugada gritando pelo “pupai”, de refeições abandonadas no prato.

Nika ainda tentou lutar na justiça para manter Benjamin Kensington longe de sua filha, mas a romena desistiu daquela guerra na última audiência, quando a juíza mostrou uma foto de Benji para a garotinha. Lisbeth soltou um “pupai” espontâneo antes de começar a chorar. E ali Danika viu que não podia torturá-la mais. Benji queria ser o pai dela e Beth implorava por ele todos os dias. Era uma guerra que Nika não tinha mais forças para vencer.

A relação entre pai e filha era magnífica. Lisbeth morava com a mãe em Leoben, mas Benjamin ganhara na justiça o direito de compartilhar a guarda da menina. Então não era raro que ele aparecesse na cidade várias vezes por semana e que eventualmente levasse a garotinha para passar um fim de semana em Viena.

No começo, Beth estranhou imensamente não ter mais o pai e a mãe debaixo do mesmo teto, mas a menina não teve outra escolha senão se acostumar com aquele novo cenário em que os pais a amavam perdidamente, mas não trocavam sequer uma palavra nas raras vezes em que se encontravam. Danika controlava a própria agenda rigorosamente para não precisar cruzar o caminho do futuro rei, mas em alguns momentos era simplesmente impossível evitar a companhia de Benjamin.

Era o que acontecia naquela tarde. Não havia espaço para aquela guerra fria dos ex-namorados durante o aniversário de três aninhos de Lisbeth. A festinha estava longe de ser um evento luxuoso da nobreza e Nika só contratara seguranças para evitar a entrada de curiosos e paparazzi. Só os amigos mais próximos de Lehmann e os amiguinhos da creche de Beth tinham sido convidados, mas não havia nenhuma maneira sutil de riscar os Kensington da lista de convidados. Apesar de tudo, a família real agora era a família de Lisbeth.

A esperança de Danika era que os Kensington inventassem alguma desculpa para faltarem ao evento, mas no fundo a romena sabia que eram ínfimas as chances da família real perder o aniversário de Beth. Benjamin mataria pela filha e Lisbeth havia se tornado o xodó da tia Amelie. Helena nem mesmo olhava para a neta, mas Cristoph havia se apaixonado pela menina com a mesma facilidade com que o filho se encantara por ela.

Portanto, não foi uma surpresa para Nika ver aquelas três figuras entrando no salão de festas. Os demais convidados começaram a se cutucar e o burburinho se espalhou pelo pequeno restaurante, mas o ruído foi lindamente abafado pelo gritinho entusiasmado de Lisbeth.

- PUPAAAAAAI!

Como um pequeno furacão, Lisbeth cortou o salão com uma graciosa corridinha antes de se atirar abruptamente nos braços de Benjamin Kensington. Amelie soltou uma risada quando viu o irmão cambalear um passo para trás com aquele golpe enquanto Cristoph dirigia um olhar apaixonado para a doçura da criança.

Ironicamente, Lisbeth ficava mais parecida com Benjamin a cada dia. Ela ainda tinha os mesmos traços delicados de Danika, o sorrisinho meigo da mãe e o formato amendoado dos olhos. Mas as íris metálicas eram idênticas às do pai, assim como os discretos fios claros que salpicavam os cabelos castanhos.


Naquele dia, a aniversariante usava um vestidinho verde e os cabelos estavam presos em duas trancinhas já um pouco bagunçadas depois de tanta agitação. Os pés descalços desconstruíam a imagem de princesinha.

- Oi tia Mel. Oi vuvô Cris!

- Oi, gata! – Amelie se esticou para estalar um beijo na bochecha da menina. Ela era a típica tia que não media esforços para estragar a criança – Frozen, hm? Você é a Elsa ou a Anna?

- Nenhuma.

- Por que??? – Amelie fingiu estar surpresa com aquela resposta.

- Puquê non sô obigada.

- E por que você não é obrigada??? – a expectativa de Amelie cresceu.

- Puquê eu já sô uma pincesa fabulosa!

- Pronto. – Amelie abriu um enorme sorriso de satisfação – A minha missão neste mundo acabou!

- É por isso que a Danika nos odeia. – Cristoph resmungou para a filha, mas era visível que o rei tentava segurar as risadas – Pare de ensinar essas coisas para a menina!

- Ora, papai. Nós sabemos que a Danika nos odeia por outra razão, não venha me culpar por isso.

Não era exagero dos Kensington dizer que Danika Lehmann odiava a família real. Em respeito a Lisbeth, não havia brigas, ofensas ou qualquer tipo de escândalo quando eles se encontravam. Mas a romena também não costumava fazer o menor esforço para bajular o mais alto escalão da nobreza. Naquela tarde, quando se aproximou dos recém chegados, Nika não dirigiu à família real nem mesmo um sorriso.

- Lisbeth. – a mãe mostrou à menina um par de pequenas sapatilhas – Agora.

- Mas mumain!

- Até o parabéns. Depois das fotos você pode tirar. Foi o que combinamos, Beth.

- Tá.

Meio contrariada e sem sair do colo do pai, Lisbeth esticou as perninhas para que Nika recolocasse nos pés dela a sapatilha. Lehmann havia mudado um pouco a aparência nos últimos meses, talvez por uma tentativa de sair do foco da imprensa. Os cabelos castanhos estavam um tom mais claros e agora eram mantidos lisos, alguns centímetros mais curtos que as longas madeixas onduladas do passado.

As roupas mais sofisticadas eram um reflexo dos lucros vindos do restaurante, mas ainda estavam longe de se encaixarem nos trajes usados nos eventos da alta sociedade. Para a festinha da filha, Danika escolhera um vestido estampado de mangas compridas, cujo comprimento da saia chegava pouco acima dos joelhos dela. O decote era profundo, mas uma delicada renda branca reduzia o impacto do corte do tecido. O sapato tinha um salto alto elegante, mas era visivelmente confortável e permitiria a ela passar a tarde correndo atrás de uma aniversariante eufórica.

- Tem uma mesa desocupada nos fundos do salão. – os olhos castanhos se voltaram para Amelie, ignorando os dois homens da família Kensington – Imaginei que iriam preferir um ponto menos tumultuado e mais próximo da mesa principal. Fiquem à vontade.

A “gentileza” da anfitriã se transformava em uma mera formalidade quando dita naquela entonação fria. Era óbvio que Nika só não chutava os Kensington para fora de sua festa porque estava diante do rei e porque Lisbeth sentiria falta do “pupai” naquela data especial.
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Re: The Royals

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Out 03, 2016 3:46 am

- Urg, estou com tanta inveja de você nesse momento.

O grande buquê de flores foi depositado na mesa para que Charlotte Baviera desocupasse as mãos. Marie Price se jogou no sofá, trazendo consigo a última edição da revista W. A revista americana havia sido enviada especialmente para Charlie, trazendo na capa o rosto de Baviera.

- “A pequena grande revelação austríaca – Charlote Baviera conquista as passarelas da Fashion Week na última semana, em Paris, mostrando que tamanho não é documento.”

- Eu me pergunto se algum dia eles vão parar de zombar do meu tamanho. – Charlotte começou a desabotoar os botões do seu pesado casaco e o jogou sobre a cama.

A mala trazida da França ainda estava lacrada e trazia a etiqueta do voo, esquecida em um canto do quarto. Apesar da curta distância entre Paris e Viena, Charlotte se sentia exausta. A semana agitada na capital da moda poderia ser vista como extremamente glamorosa, mas basicamente se resumia a longas noites sem dormir, ansiedade e muito, muito trabalho.

Era a primeira vez que Charlotte mostrava o seu trabalho ao mundo. Para uma socialite que havia abandonado um curso de moda, Baviera surpreendeu as passarelas com seus desenhos exibidos em modelos com pelo menos o dobro da sua altura.

O mundo parecia admirar o talento descoberto na baixinha austríaca, mas quem acompanhava de perto a vida de Charlie naquele último ano sabia como ela havia ido longe em meio a tantos problemas.

Quando voltou para Viena após o dramático fim do namoro com Lukas Krauss, Charlotte acreditava que já havia enfrentado toda a sua dose de castigo. O que ela jamais esperava era encontrar a mansão dos Baviera lotada pela polícia, vasculhando cada um dos cantos da casa. Ela havia chegado na cidade exatamente em tempo de ver o próprio pai sendo algemado.

As contas bancárias congeladas e a investigação do envolvimento de Louis Baviera em um esquema de tráfico de diamantes fez o mundo que Charlotte conhecia desaparecer. Não havia um único centavo que ela ou a mãe pudessem usar durante toda a investigação e foi durante aquele momento difícil que a família descobriu quem eram seus verdadeiros amigos.

Para Charlie, não foi nenhuma surpresa quando os Price se colocaram ao seu lado. Foram os pais de Marie quem financiaram todos os advogados envolvidos no caso. Um ano depois, era a primeira vez que o sobrenome dos Baviera estampava alguma matéria que não fosse sobre os erros de Louis.

Charlotte achou que enlouqueceria. Foram os meses mais difíceis da sua vida. A família real enfrentava seus próprios problemas e durante todo o seu drama, ela só falou com Benjamin em raras ocasiões. Amelie havia ido visita-la logo após o escândalo, mas nada se comparava com a fidelidade de Marie.

Além da falta de dinheiro, Charlie se via sozinha. Poucos meses depois que o pai foi preso, sua mãe entrou com um pedido de divórcio e não foi nenhuma surpresa que, um ano depois, ela estivesse aproveitando as férias longe de Viena com o novo namorado milionário.

Quando via a atitude da mãe, Charlie enxergava seu passado refletido. Um ano antes, ela também faria qualquer coisa pelo status e dinheiro. E apesar de toda a mágoa e pelos erros cometidos, ela era grata por ter conhecido Lukas Krauss. Os meses em Leoben haviam sido o divisor de águas necessário par que ela enfrentasse todo o pesadelo que veio em seguida.

Com o pai na cadeia e a mãe longe, Charlotte procurou na moda a sua forma de não enlouquecer. No começo, os desenhos dos vestidos e dos acessórios eram apenas resultados de rabiscos que fazia na tentativa de esvaziar a mente.

Mais uma vez, foram os Price que ajudaram Charlie naquele novo caminho. O irmão mais velho de Marie havia acabado de voltar de uma viagem de negócios na Arábia quando encontrou os desenhos largados de Charlotte no quarto da irmã.

O empresário podia não entender nada de moda, mas era dotado de um talento especial nos negócios. E mostrou que não era um visionário apenas no ramo do petróleo.

No começo, o investimento de Tobias em Charlotte era extremamente profissional. E foi graças a ele a conquista do espaço de Charlotte na Fashion Week. Mas o rapaz maduro tão focado em negócios não demorou para se encantar pelos tristes olhos verdes.

Desde o desastroso fim com Lukas Krauss, mergulhando em todo o drama familiar, Charlotte não havia tido tempo de pensar em se envolver romanticamente com outra pessoa. Ela ainda estava tentando se reencontrar no novo mundo onde ela não era uma herdeira de um cartel de diamantes e demorou a perceber como os olhares e os toques de Tobias começavam a ficar diferentes.

Marie, por outro lado, não deixou passar desapercebido como o irmão ficava cada vez que falava com Charlotte. Para a loira que agora dividia sua casa com Charlotte, era a melhor oportunidade para fazer a amiga esquecer toda a mágoa dos relacionamentos passados.

Embora tivesse ficado sabendo de cada detalhe das mentiras acontecidas em Leoben, Marie assumiu uma birra sem sentido contra Krauss. Para ela, era tão óbvio o quanto a amiga havia mudado por causa do amor que sentia por Lukas, que era revoltante que o rapaz não tivesse tido coragem de perdoá-la.

Como os filhos de Cristoph faziam parte do passado de Charlotte, Marie acreditava estar apenas fazendo bem para a amiga ao incentivar as investidas de Tobias.

- Eles não estão zombando de você. – Marie virou a página da revista e admirou o vestido exuberante que a Charlotte da foto usava. – Eles te adoram. E francamente?

Ela girou a revista para exibir a fotografia para os olhos verdes.

- Eu quero esse vestido pra mim.

Charlotte riu, jogando os sapatos para o lado antes de se jogar na cama.

- Você pode ter todos os vestidos do meu guarda-roupa, Marie. Só me deixe dormir pelas próximas vinte horas. Eu estou com olheiras terríveis...

Ao invés de sair do quarto de Charlotte e lhe dar o merecido descanso, a loira se jogou na cama, fazendo a morena contorcer o rosto em uma careta.

- Só posso deixar você dormir pelas próximas três horas. O Toby vem buscar a gente para comemorar.

Charlie, que havia tampado os olhos em uma tentativa de descansar a vista, ergueu uma pálpebra para encarar a amiga.

- Outra festa? Não quero festa, Marieeee! Quero dormir!

- Não diga um sacrilégio desses! – Marie girou os olhos, se esticou para frente e depositou um beijo rápido na testa da amiga. – Festas, sempre festas. Você pode dormir quando estiver morta. Ou depois que estiver usando o mesmo sobrenome que o meu.

Uma almofada cortou o ar em uma tentativa de atingir Marie, mas a loira foi rápida o bastante para deslizar para fora do quarto antes de ser atingida.

***

Três horas de sono ainda não era o suficiente para recuperar todo o cansaço acumulado daquela semana, mas Charlotte sabia que não havia escolha. Seria questão de tempo até que Marie entrasse em seu quarto como um furacão e a arrastasse para onde quer que fosse, ainda de pijamas.

Além do mais, um convite de Toby não poderia ser recusado. Charlie ainda não havia decidido como corresponder as sutis investidas do irmão de Marie, mas sabia que devia a ele uma imensa gratidão. Os pais de Tobias e Marie haviam acolhido Charlotte como se fosse da família. Mas era Tobias quem a ajudava a caminhar com as próprias pernas, investindo naquela sua profissão que muitos acreditavam ser um hobby.

Por isso, quando a campainha tocou na enorme casa espelhada de Marie, Charlotte já estava pronta na sala.

Apenas um ano havia se passado, mas era impressionante como Charlotte Baviera não parecia mais a mesma. Os saltos ainda estavam lá para tentar minimizar a estatura baixinha, mas estavam cobertos pela longa saia que quase se arrastava no chão. A saia de cintura alta cobria seu umbigo e o cropped azul deixava uma fina linha da pele branca exposta.

Os cabelos, que antes caíam negros por suas costas, haviam sido cortados e agora alcançavam apenas seus ombros. Os fios também haviam sido clareados com algumas mechas loiras que faziam os olhos verdes se destacar. Mas a maior diferença era na postura de Baviera.

Sua segurança de antes havia sido abalada após a perda do dinheiro da família e o drama envolvendo a família real. Charlotte ainda era uma mulher atraente e estava longe de parecer tímida, mas quem havia conhecido a velha Charlie sabia que havia algo faltando nas íris esverdeadas, como se sua alma tivesse sido rompida de forma irreparável.

Marie, ao seu lado, usava um vestido vermelho com um ousado decote que quase alcançava seu umbigo. Os cabelos loiros também haviam sido cortados e estavam quase na mesma altura que os de Charlotte, mas Price ainda exibia a mesma pose de menina rica que tinha tudo nas mãos.

- Você está atrasado. – A dona da casa reclamou ao abrir a porta, revelando o rapaz do outro lado.

Tobias Price tinha os mesmos cabelos loiros da irmã e idênticos olhos cinzentos. Ele era ridiculamente jovem para um homem de negócios, mas assim como Benjamin, era notável em seu porte que pertencia a uma família rica.

- Você ainda não está pronta. Está faltando uma parte do vestido. – Toby apontou para o grande pedaço de pele exposto no peito da irmã. – Vá vestir um casaco, você não vai sair assim.

- É lógico que vou. – Marie girou os olhos. – Estou fabulosa.

- Na verdade, você está mesmo um pouco exagerada... – Charlotte concordou enquanto se aproximava da porta, sorrindo docemente. – Está me fazendo parecer ridiculamente comum.

Os olhos cinzentos abandonaram a repreensão de um irmão ciumento para encarar Charlotte, imediatamente se tornando mais carinhosos.

- Isso é definitivamente impossível. – Toby balançou a cabeça, aprovando a aparência de Baviera. – Mas vocês duas vão me dar muita dor de cabeça hoje à noite, tenho certeza.
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Re: The Royals

Mensagem por Remus J. Lupin em Seg Out 03, 2016 4:46 am

Todo o esforço de Helena Kensington havia gerado frutos. Alguns dos seus planos foram por água abaixo e ela precisou respirar fundo para manter a pose enquanto era vista por toda a Áustria como a mulher traída. Dotada de uma inteligência e manipulação digna do seu título de rainha, a mulher soube exatamente como tirar proveito até mesmo da situação dramática em que a família passou.

Quando ela achou que tudo estava perdido com a revelação do filho bastardo que por anos havia tentado esconder, Helena se colocou diante do povo como a mulher traída, dona de um enorme coração capaz de perdoar o marido infiel porque amava demais a sua família.

Foi questão de tempo para que os jornais voltassem a reportar os Kensington como um modelo a ser seguido. A rainha havia conseguido manter a família unida e ninguém sabia que, por trás das elegantes paredes do palácio, a única coisa que recebia de seus filhos era um profundo desprezo.

O rei e a rainha sequer dormiam mais no mesmo quarto. E o único esforço que Benjamin fazia para passar a imagem de uma família pacata que enfrentava seus problemas como qualquer outra era poder tirar Lisbeth do foco das mídias sociais.

Quanto mais os Kensington estivessem expostos, o rostinho da inocente Lisbeth estaria sendo acompanhado e apontado por fofocas de pessoas que se esqueciam que por trás de todo aquele drama, existiam seres humanos com sentimentos.

A decisão de continuar em Viena e assumir o seu papel na realeza não havia sido exatamente uma opção. Benjamin simplesmente não tinha mais para onde ir. Ele não podia apenas fugir e começar uma nova mentira. Se tentasse abandonar o seu posto de futuro rei, mais uma vez estaria colocando Lisbeth como alvo fácil de jornalistas interesseiros.

Era irônico que Benjamin um dia tivesse mentido sobre sua identidade para construir uma família em Leoben, mas acabava exatamente onde menos desejava para manter aquelas que ele tanto amava a salvo.

Enquanto ele se comportasse exatamente como o povo queria, Danika e Lisbeth estariam livres da exposição extra desnecessária.

Quando estava em Viena, Benjamin se portava exatamente como o príncipe que Helena o criara para ser. Ele vestia as melhores roupas, era formal e dono de um porte digno da realeza. Era discreto, evitava badalações e mostrava que não era mais um herdeiro apenas torrando o dinheiro da sua família. A imagem do homem responsável o havia transformado no homem mais desejado de Viena.

Mas eram em momentos como o daquela noite que Benjamin se sentia realmente normal. Os olhares sempre o acompanhavam, mas quanto estava de volta a Leoben, quando podia segurar a filha nos braços, Benji se sentia exatamente como o homem que ele havia sido por um curto período de tempo, mas que sabia ser a sua verdadeira face.

Todo o seu mundo girava ao redor de Lisbeth e ninguém ousaria dizer que Benjamin não era apaixonado pela pequena princesa que encantava a quem quer que fosse.

O que ninguém, ou pelo menos quase ninguém sabia, era que Benjamin só se sentia por completo quando seu coração dava aqueles saltos exagerados sempre que estava diante dos olhos castanhos de Lehman.

Um ano inteiro havia se passado e não havia um único dia que Benjamin não tivesse certeza de que amava Danika. Ele sabia que seus erros o assombrariam para o resto da vida. Jamais seria capaz de recuperar o amor e a confiança da ex-namorada. Mas era impossível ignorar a reação do próprio corpo sempre que estava diante dela.

Nem mesmo os olhares gélidos ou a atitude exageradamente formal era capaz de abafar o amor que Benjamin ainda sentia. As revistas de fofoca sempre questionavam se o príncipe estava envolvido em algum romance secreto, mas nenhum paparazzi havia tido a sorte de fotografar o herdeiro do trono com outra mulher que não fosse Lisbeth.

Um ano não havia sido suficiente para fazer todas as feridas provocadas pelo seu erro cicatrizarem. Ele ainda sentia seu peito queimar quando encontrava a fúria refletida no mesmo olhar que já havia lhe lançado expressões tão carinhosas.

Naquela noite, diante da imagem assombrosamente bonita de Danika, não foi diferente. A romena não exibia a mesma aparência do tempo de namoro, mas o tempo parecia ter apenas ajudado aquela transformação, como se também quisesse zombar de Benjamin tudo que ele havia perdido.

Durante toda a festinha, Lisbeth não se desgrudou do pai, e Benjamin se mostrou mais uma vez o pai babão enquanto a acompanhava por todo o salão. O príncipe mostrou que, ali dentro, o seu título era apenas de um pai apaixonado quando não se importou em retirar os sapatos para se agachar junto a rodinha de crianças, participando da interatividade de dois recreadores contratados para entreter os pequenos convidados.

Benji usava uma calça branca que rapidamente foi manchada por algumas guloseimas e pelas mãos meladas de Lisbeth. A blusa era de um azul-marinho com mangas longas, que refletia ainda mais os olhos idênticos aos da criança. Para completar a sua aparência mais relaxada para aquele evento informal, a aniversariante colocou um chapeuzinho que escondia os fios loiros que salpicavam os cabelos de Benjamin. A cara do boneco de neve do desenho poderia ser encantadora em uma das crianças, mas o nariz cor de abóbora que se alongava em 3D, fazendo uma sombra no rosto de príncipe, o deixava com uma aparência quase ridícula.

Sem se importar em ter a cara de Olaf sobre a sua cabeça, Benjamin se manteve ao lado da filha durante toda a brincadeira, se afastando apenas quando todas as crianças foram enfileiradas em uma mesinha para a “hora do lanchinho”.

Quando Benji fez menção de se afastar, Lisbeth girou rapidamente na cadeira e o encarou com uma expressão de choro. A menina já havia visto o seu “pupai” ir embora tantas vezes que, por um segundo, achou que ele estava mais uma vez a abandonando no meio da sua festinha.

Ao perceber a aflição nos olhos azuis, Benjamin agachou diante da filha e brincou com uma das trancinhas.

- Eu só vou ver se a tia Mel não está roubando os seus docinhos. Já volto.

- Non vai bôra?

O coração de Benjamin despedaçava cada vez que ele via aquela aflição no rostinho da filha. Ele odiava a ideia de ter criado aquele trauma em Lisbethh, mas era mais uma na sua grande coleção de erros.

- Não, minha princesa. É claro que eu não vou embora da festa mais legal que eu já vi. Eu prometo.

Benji depositou um beijo carinhoso no topo dos cabelinhos da filha, mas Lisbeth o acompanhou com o olhar enquanto ele se afastava, sem parecer muito convencida.

Ao invés de seguir o caminho até a mesa onde o rei e a princesa estavam, Benjamin vasculhou o salão até encontrar o rosto de Danika. Como sempre, seu coração deu um salto e ele sentiu um frio na barriga como se fosse um adolescente nervoso ao chamar uma menina para o baile. Mas diferente do adolescente, ele sabia que não havia a menor possibilidade de Danika aceitar qualquer convite seu.

Benji ainda havia tentado se explicar a Danika, implorando por perdão nos primeiros meses. Mas por fim, depois de um ano, Kensington se acostumou com a ideia de falar com a mulher que ele tanto amava apenas assuntos relacionados a filha.

Naquela noite não era diferente. Embora tivessem um acordo mudo de que deveriam evitar qualquer diálogo, Benjamin fez questão de se aproximar de Danika naquela noite para iniciar a conversa que poderia facilmente ser resolvida através de Amelie.

- Danika? – Ele chamou, fazendo imediatamente que o grupinho que conversava com a mãe da aniversariante se calasse, estudando o príncipe com nítida curiosidade. – Posso falar com você um instante? A sós?
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Re: The Royals

Mensagem por Lukas Krauss em Seg Out 03, 2016 5:08 am

O grande segredo de Hilda Krauss e Cristoph Kensington continuou afastado das principais páginas dos tabloides austríacos por alguns dias, mas logo não houve mais como esconder a verdade. A última coisa que Lukas Krauss queria era que a sua vida virasse de pernas para o ar, que a imprensa começasse a persegui-lo e que ele nunca mais pudesse pisar em nenhum local público sem ser apontado como o filho bastardo do rei, mas logo Leoben estava lotada de jornalistas que surgiam em qualquer lugar que Luke estivesse.

Luke mostrou que não tinha a menor intenção de reclamar o sobrenome Kensington ou a herança de Cristoph quando decidiu que não mexeria naquela história. Aquela não era a sua vida e Lukas jamais seria feliz no meio da podridão da nobreza. As atitudes de Benjamin e Charlotte só serviram para mostrar a Krauss que ele jamais se encaixaria naquele contexto imundo da alta sociedade onde o dinheiro e o poder ditavam todas as regras.

Embora não quisesse trazer o pai para a sua vida, Luke parou de fugir de Benjamin depois de algum tempo, principalmente porque o caçula estava admirado com a postura de Benji com relação a Lisbeth. Quando o futuro rei enfrentou a mídia para assumir a criança, Lukas soube que ainda havia uma salvação para o irmão. Ele havia cativado Beth, mas também fora cativado por ela e estava disposto a assumir as responsabilidades geradas por aquele afeto.

O passo seguinte foi conhecer Amelie. Luke teve receio de não se dar bem com a princesa, mas bastaram dez minutos de conversa para que os irmãos percebessem que tinham muita coisa em comum. Mel não era uma garota mimada, furiosa por saber que um bastardo estragara a sua família perfeita. Ao contrário, ela era uma figura sorridente e divertida, disposta a acolher mais um irmão em seu coração.

Não demorou para que os dois mais novos se unissem contra Benjamin. Luke e Amelie adoravam imitar o jeito formal do futuro rei, zombavam do vocabulário refinado de Benji e principalmente da maneira como a imprensa o bajulava. Apesar de todo o drama, logo os três irmãos entraram num gostoso clima tipicamente fraterno, lotado de carinho e provocações amigáveis.

A única coisa que não parecia certa na vida de Krauss era a ausência de Charlotte. Luke sentia uma saudade absurda da ex-namorada e por várias vezes pensara seriamente em deixar de lado as mágoas para tentar reatar o relacionamento. Mas a bomba que explodia na mansão dos Baviera tirou de Lukas a coragem de levar mais um problema para a vida de Charlie. Com o pai preso, a mãe envolvida num conturbado divórcio e com as dívidas se acumulando nas costas da única filha, Krauss sabia que a última coisa que a mente de Charlotte precisava era lidar com a atenção que ela receberia da mídia se começasse a ser vista ao lado do irmão bastardo de Benjamin Kensington.

Na tentativa de fugir de toda aquela loucura, de esquecer Charlie e iniciar uma nova fase em sua vida amorosa e profissional, Lukas se candidatou a uma vaga como estagiário em uma empresa de finanças alemã. Quando mandou o currículo, Luke não imaginava que receberia uma resposta em menos de uma semana, com um convite formal para que ele se juntasse à equipe. Muito provavelmente a ligação do nome dele com a família Kensington ajudara muito naquela contratação, mas Krauss não estava em condições de esnobar aquela proposta.

Além da possibilidade de terminar o curso de Economia em uma renomada faculdade de Berlim, a empresa oferecia um salário bastante atraente e uma experiência incomparável para o currículo ainda humilde de Krauss. Por mais que amasse Leoben e que não quisesse se afastar de Hilda e nem dos irmãos, Luke não foi capaz de dar as costas para aquela oportunidade de ouro.

O estágio lhe pagava muito bem, mas também exigia demais dele, de forma que o rapaz só conseguiu pisar novamente em terras austríacas quando conseguiu férias, um ano depois de se mudar para Berlim. Era estranho pisar em Viena depois de tanto tempo, mas uma coisa não havia mudado: Luke ainda não gostava daquela bela cidade recheada de lembranças negativas.

Apenas por Hilda o rapaz fazia o sacrifício de retornar à capital. A mãe era a pessoa mais importante da vida de Luke e, mesmo depois que o rapaz descobrira toda a verdade, a Sra. Krauss continuava sendo um exemplo de vida a ser seguido. Luke só não a santificava porque agora conhecia o maior dos defeitos de Hilda.

- Vamos jantar fora hoje? – Lukas estava almoçando na bancada da cozinha, mas já pensava no jantar.

- É sábado. – Hilda pareceu sem graça – Achei que você ia sair. É isso que os jovens fazem sábado à noite, não?

- Sim. Eu quero sair para jantar com a minha mãe. – uma das sobrancelhas de Luke se arqueou – Mas ela provavelmente está me enrolando porque já tem outro compromisso. Algum evento da igreja?

- Não. Não é nada, eu vou desmarcar, nós podemos ir.

Hilda desviou os olhos para o próprio prato, como sempre fazia quando o assunto mais delicado daquela pequena família vinha à tona. Os lábios de Lukas se contorceram numa careta quando ele finalmente entendeu qual era o problema e o rapaz respirou fundo, tentando controlar a língua. Era muito difícil não julgar a mãe, mas Luke se esforçava muito para aceitar que Hilda ainda amava aquele homem.

- Eu vou ligar para alguns amigos e dar o fora. Relaxa, mãe.

- Lukas... – Hilda estava mortalmente envergonhada quando encarou o filho.

- Mãe, tá tudo bem. Eu não vou dizer que fico feliz, nem que acho isso admirável. Mas você o ama, ele tem um casamento de merda, vocês são adultos. A única coisa que eu peço é que, pelo amor de Deus, tenham cuidado. Se esta bomba explodir, a merda vai voar toda na minha cara e o inferno dos paparazzi vai recomeçar. Eu preciso reforçar as minhas séries na academia antes de começar a sair nos jornais de novo. Tô meio flácido, ando comendo muita besteira na Alemanha.

- Você não vai mesmo ficar chateado? Eu realmente posso desmarcar.

- Relaxa, mulher. Vou sair pra curtir a noite numa balada austríaca. Aprendi a imitar o sotaque alemão, as meninas adoram isso. Yuhuu!

- Você não pensa em ligar para a Charlie?

A mudança brusca na conversa fez Lukas se engasgar com a comida. O rapaz sabia que, mesmo com toda aquela farsa, Hilda continuava sendo uma enorme fã de Charlotte Baviera. Como a Sra. Krauss havia acompanhado de perto o sofrimento da garota durante a internação de Luke, ela não tinha a menor dúvida de que Charlie amava o seu filho verdadeiramente.

- Mãe, não começa. – Krauss ficou mais sério e soltou um suspiro – Já passou muito tempo. Eu tô em outra, a Charlie também. Não deu certo, beleza?

Não houve resposta verbal, Hilda apenas lançou um olhar de pesar ao filho que deixava muito claro que ela não acreditava que Lukas já havia esquecido a ex-namorada. A Sra. Krauss até entendia a mágoa do rapaz e as razões para Luke não ter procurado Baviera naquela época conturbada. Mas agora não parecia haver nenhum motivo para que os dois continuassem separados.

- Você sabe que eu nunca vou gostar de outra menina como gostava dela, não sabe?

- Eu sei. Mas eu também não sou um grande fã do seu “namorado”, então estamos quites. Não falemos mais deste assunto, mãe. Eu odeio Viena e não volto mais aqui se nós dois brigarmos.
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Re: The Royals

Mensagem por Danika Lehmann em Ter Out 04, 2016 3:19 am

Era chocante a capacidade que as pessoas tinham em acreditar cegamente em fofocas maldosas. Mesmo aquelas pessoas que já conheciam Danika Lehmann muito antes de todo o escândalo envolvendo Benjamin Kensington passaram a acreditar na história sensacionalista de que a romena havia seduzido o príncipe austríaco e vitimado-o com o golpe da barriga.

Foi notável para Nika que muitos de seus conhecidos passaram a olhar para ela de forma diferente depois daquele boato. É óbvio que aquela fofoca era recebida de maneira negativa por Nika, mas em nenhum momento a romena pensava em desmentir ou comprar uma guerra para provar a própria dignidade. As histórias maldosas sobre ela tinham pouco valor quando colocadas ao lado da paz de Lisbeth e a mãe da garotinha aguentaria qualquer injustiça para manter a filha longe dos tablóides.

Aliás, também era apenas para evitar um novo escândalo que Danika suportava a presença dos Kensington em sua vida. Embora a romena não tivesse nenhum problema pessoal com o restante da família, o desprezo que ela sentia por Benjamin era grande o bastante para refletir nos demais membros da família real. O amor que Lisbeth demonstrava pela tia e pelo avô também era um potente estímulo para que Lehmann respirasse fundo a cada vez que pensava em manifestar o seu desgosto contra os Kensington.

O que era verdadeiramente complicado era esconder a raiva que, mesmo depois de um ano, Danika ainda sentia de Benjamin. Nem mesmo o tempo foi capaz de amenizar a mágoa gerada pelas mentiras do príncipe e pela forma como ele destruíra o amor dos dois e todos os planos para o futuro. Nem mesmo a maneira como Benji amava Lisbeth e fazia tudo pela filha era capaz de amolecer o coração machucado de Nika.

Sempre que possível, a romena evitava qualquer tipo de contato com o ex-namorado. Benjamin tinha dias específicos para buscar a filha na escolinha e para levá-la para passear e, "coincidentemente", Danika geralmente tinha compromissos agendados exatamente para os mesmos horários. Até mesmo as coisas mais tolas eram resolvidas através de intermediários. Geralmente eram Olga e Amelie que se encarregavam daquela troca de informações para que os ex-namorados não precisassem interagir, mas naquele dia Benjamin ultrapassou as barreiras invisíveis criadas entre eles e dirigiu a palavra diretamente à romena.

O olhar gelado que Nika lançou ao príncipe mostrava todo o seu descontentamento com a quebra daquele acordo mudo. Se os dois estivessem sozinhos, Danika teria coragem de simplesmente virar as costas e deixar Benjamin falando sozinho, mas não havia aquela escolha com tantas testemunhas ao redor. Kensington muito provavelmente havia se arriscado naquela jogada baixa justamente porque sabia que não seria ignorado diante dos convidados da festinha de Lisbeth.

- Com licença, sim? - embora estivesse explodindo de raiva por dentro, Nika lançou um sorriso simpático ao grupinho de pessoas com quem estava conversando - Fiquem à vontade, espero que estejam se divertindo.

O sorriso da anfitriã não vacilou enquanto ela caminhava pelo restaurante, sendo seguida de perto pelos passos de Benjamin Kensington. Danika só interrompeu o seu trajeto num ponto vazio do salão, onde eles poderiam ter a conversa particular solicitada por Benjamin. Quando teve certeza de que ninguém os veria ali, Nika tirou o sorriso do rosto e cruzou os braços numa típica postura defensiva e desconfortável. Era muito estranho se sentir tão incomodada com a presença de um homem com quem ela queria passar o resto da vida há um ano atrás.

- O que você quer?

Sem nenhuma testemunha por perto e distante dos olhos e ouvidos atentos de Lisbeth, Danika não tinha nenhuma razão para manter a cordialidade com o ex-namorado. Sua voz soou anormalmente áspera e com uma entonação impaciente, como se nenhum assunto trazido por Benji pudesse ser interessante para a romena.

- Seja o que for, não é um bom momento. Eu tenho que dar atenção aos convidados, cuidar da Beth, coordenar o trabalho da cozinha. Ao contrário de você, eu não sou uma simples convidada que pode ficar perdendo tempo com conversas idiotas.

Nika abriu novamente os lábios para finalizar aquele discurso e se afastar de Benjamin, mas foi surpreendida quando duas mãos surgiram abruptamente na frente do seu rosto e taparam seus olhos. A surpresa foi tão grande que a romena soltou uma exclamação e se sobressaltou antes de levar os próprios dedos às mãos que escondiam seus olhos. Obviamente era um amigo que fazia uma brincadeira para ser reconhecido, mas Danika não conseguia pensar em ninguém que teria a coragem de interromper uma conversa entre ela e Benjamin com tamanha naturalidade.

- Ahn... - Danika tocou as mãos, que pelo tamanho e pela pele mais áspera certamente pertenciam a um homem - Lukas?

Krauss era uma pessoa que certamente teria coragem de se meter numa briga entre ex-namorados para fazer uma brincadeira tola como aquela. Nika sabia que Luke estava na Alemanha e que, para evitar um encontro com Cristoph, ele não compareceria ao aniversário de Beth. Mas ainda assim ele continuava sendo a melhor opção da moça.

A resposta da pessoa posicionada atrás de Danika foi um estalar da língua no céu da boca, fazendo um "tic-tic-tic" de negação. Era extremamente constrangedor ser "vítima" daquela brincadeira na frente do ex-namorado, mas era ainda pior a sensação de não ter a mínima ideia de um nome para chutar.

- Lionel?

Como Nika havia contratado um buffet, os funcionários do restaurante estavam na festa como seus convidados naquela noite. Lion não tinha exatamente o mesmo perfil brincalhão de Lukas, mas a romena realmente não sabia mais que nome arriscar.

- Tic-tic-tic.

- Ok. Então eu preciso de uma dica. - Nika abriu um sorrisinho sem graça.

- Não sei quem é Lionel, mas eu me sinto ofendido por ter sido confundido com o Luke.

- Franz!!!

Não houve nem mesmo um segundo de hesitação por parte de Danika depois que a romena escutou aquelas palavras. Embora não ouvisse a voz de Franz Von Hants há muito tempo, ele era um amigo querido que jamais sairia de sua memória.

Foi apenas movida por alegria por reencontrar aquele rosto querido que Danika se virou subitamente e se jogou nos braços de Franz num abraço caloroso. Não era nenhum tipo de provocação pelo simples fato de que Nika não se sentia mais ligada a Benjamin para julgar que o príncipe ficaria ofendido ou enciumado com aquela interação tão próxima entre os dois jovens a sua frente.

- O que você está fazendo aqui???

O sorriso de Lehmann era incontrolável e arrancou uma risada melodiosa do rapaz. Franz era um rapaz alto, com músculos bem definidos, os cabelos ruivos mantidos num corte curto e olhos esverdeados. Ele tinha uma postura firme, mas um semblante tão leve quanto o de Lukas.

- Como assim? Você me convidou, lembra?

- E você respondeu que estava na Rússia!!!

- Aff. Moscou é logo ali. - Franz riu antes de deslizar os olhos pelo salão - Qual delas é a Beth? Ela era um bebezinho quando eu a vi pela última vez.

O indicador de Nika apontou na direção da cabecinha da filha, que parecia extremamente entretida com a dinâmica coordenada pelos monitores da festinha. Um grande orgulho se refletiu nos olhos da mãe antes que ela se voltasse para o velho amigo.

- Acho que ela não vai se lembrar de você.

- Pois eu aposto que ela nunca vai se esquecer do tio que deu a ela... - Von Hants puxou do chão uma caixa enorme de presente - ...a primeira bicicleta!!!

O queixo de Danika despencou e os olhos castanhos quase saltaram para fora do rosto dela. Antes que a romena pirasse com aquele brinquedo “radical”, Franz completou com seu jeito relaxado.

- É uma bicicleta minúscula, com rodinhas, acompanhada por um capacete, luvinhas e joelheiras.

- Deus do céu. Ela vai ter um ataque!

O sorriso de Nika sumiu quando ela se lembrou que Benjamin Kensington estava por perto. Como a convenção social obrigava, a romena se viu obrigada a apresentar os dois rapazes.

- Este é Franz Von Hants, o antigo colega de quarto do Luke. Franz, este é o Benjamin, pai da Beth.

A expressão relaxada de Franz se modificou bruscamente. Os olhos verdes se estreitaram de forma ameaçadora e Nika arregalou os olhos antes de pousar a mão no peito do amigo, compreendendo a tempo o motivo daquela reação pouco amigável.

- Não! Não é o pai biológico dela! – as palavras aflitas soaram num sussurro – É uma longa história, Franz.

- Não é o psicopata que batia em você e tentou matar o bebê?

- É claro que não. Relaxa, Franz, está tudo bem. Eu estou muito, muito feliz em ver você! Foi a melhor surpresa do dia, sem a menor dúvida!
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Re: The Royals

Mensagem por Lucinda Clearwater em Ter Out 04, 2016 3:45 am

O líquido desceu ardendo pela garganta de Charlotte e ela imediatamente fez uma careta enquanto puxava o limão. O gosto azedo e forte foi suficiente para minimizar a queimação em sua língua e quando ela ergueu as pálpebras, os olhos verdes estavam ligeiramente ébrios, acompanhados de um sorriso bobo.

- Esta foi a última vez que eu deixo você me convencer a beber tequila.

As bochechas de Baviera estavam ligeiramente coradas pelo efeito da bebida. O lugar escuro com as luzes coloridas que oscilavam parecia piorar o efeito das três doses de tequila que Marie havia feito com que ela bebesse durante uma brincadeira.

A loira a sua frente ainda não parecia afetada pelo álcool, mas Marie não precisava de nenhum estímulo para querer ser o centro das atenções. O vestido cavado atraía os olhares por onde ela passava e Price exibia a mesma confiança que um dia havia pertencido a Charlotte, sabendo que chamava atenção e simplesmente adorando cada uma das investidas dos rapazes.

A música eletrônica ecoava no último volume e as pessoas na pista de dança se acumulavam perto do DJ. Os irmãos Price e Charlotte estavam sentados em um pequeno lounge composto por pufes e sofás, acompanhados de mais meia dúzia dos amigos de Tobias.

Na mesinha em frente ao grupo, os copos e taças se acumulavam, mostrando que nenhum deles estava preocupado com o valor final da conta. As vestes caras e joias que seus acompanhantes vestiam entregava que ali estava uma parcela do seleto grupo de membros da alta sociedade.

Para qualquer um que visse de fora, era nítido que o grupo estava se divertindo. As gargalhadas eram constantes, o assunto nunca acabava e nenhum deles precisava se preocupar com o amanhã.

Marie foi a primeira a se afastar para a pista de dança, logo acompanhada por um casal de amigos. Sentindo-se mais relaxada depois de algumas doses de bebida, Charlotte se deixou levar pela conversa vazia, ignorando a sensação de que aquele não era mais o seu mundo.

A cada minuto que passava, Tobias parecia se sentar mais perto. A mão dele sempre arrumava uma desculpa para tocar em Baviera e, por fim, quando ganhou confiança, ele simplesmente entrelaçou seus dedos aos dela, deixando a mão pousada sobre o joelho exposto pela fenda da saia.

A única reação que demonstrou que Charlotte havia notado aquela proximidade, foi quando os olhos verdes deslizaram para encarar Tobias. Ela não era nenhuma menina inocente para não ter notado antes as investidas de Price, mas foi a primeira vez que Charlie não se esquivou.

Ela poderia usar a desculpa da bebida, mas na verdade Charlotte estava cansada de se sentir uma estranha em sua própria vida. Só o que queria era voltar a ser como era antes de pisar em Leoben. Mesmo que não fosse mais uma herdeira de um cartel de diamantes, ela queria sua confiança de volta, queria se sentir como a mesma jovem que tinha o mundo aos seus pés.

Seu futuro como rainha poderia ter sido arruinado, o homem que ela amava havia lhe afastado de sua vida e ela não era mais herdeira de uma incalculável fortuna. Mas apesar de tudo, ainda era Charlotte Baviera. E talvez Toby fosse exatamente o que ela precisava para se lembrar disso.

- Eu posso não entender nada de moda... – Tobias precisou se inclinar e roçar os lábios no ouvido de Charlotte para que ela conseguisse escutar. – Mas preciso dizer que eu adorei essa sua saia.

Enquanto falava, os dedos de Price deslizaram pela fenda até tocar diretamente a coxa de Charlotte. Tobias era um rapaz atraente, dono de um dos sobrenomes mais importantes da Europa, mas sempre havia se mostrado mais polido, sem grandes investidas na amiga da sua irmã. Naquela noite, depois das doses incentivadas por Marie, ele também parecia disposto a ir mais longe.

- Na verdade você gostou da modelo dentro da saia. – Charlotte o corrigiu, um flash da antiga confiança brincando nos olhos verdes. – Mas aceito o elogio da mesma forma.

A brincadeira fez com que Tobias se sentisse mais relaxado e abrisse mais o sorriso perfeito. Durante toda a conversa que se seguiu, Price se sentiu mais confiante para continuar com os discretos carinhos em Baviera, interrompendo os gestos apenas quando a menina pediu licença para ir ao banheiro.

Charlotte não pretendia levar mais do que alguns minutos, mas a fila de mulheres que aguardava na porta fez com que ela demorasse quase três vezes mais do tempo necessário. O efeito da bebida já estava quase passando quando ela voltava para a mesa com seus amigos, quando os olhos verdes captaram um rosto conhecido.

Era comum que Baviera pensasse estar vendo Krauss. Por dezenas de vezes, no movimento da rua ou em algum restaurante, ela se virava outra vez, na esperança de realmente ter visto Lukas, se decepcionando todas as vezes.

Naquela noite, quando seu rosto se virou mais uma vez para encarar o rosto na multidão, ela tinha certeza que era apenas sua mente pregando mais uma peça até encontrar o par de olhos castanhos a encarando de volta.

No mesmo instante, Charlie se sentiu inteiramente sóbria. O ar escapou dos seus pulmões e ela esperou que a visão de Lukas desaparecesse como uma miragem, mas o rapaz continuava parado há poucos metros de distância, a encarando de volta.

Ela não teve certeza de quanto tempo os dois ficaram parados, apenas se encarando. Mas o mundo só voltou a girar quando um par de braços deslizou pela sua cintura em um abraço e a boca de Tobias mais uma vez roçou seu ouvido.

- Eu acabei de ver um cara enfiando a língua na garganta da minha irmã, Charlie. Por favor, preciso tirar essa imagem da minha cabeça antes que eu arranque meus olhos.
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Re: The Royals

Mensagem por Lukas Krauss em Qua Out 05, 2016 1:30 am

O gelo já derretido deixava o gosto do whisky mais fraco, mas Lukas Krauss já havia bebido doses o suficiente para não notar aquela discreta mudança do paladar. Além do álcool, a música alta o deixava ainda mais entorpecido, como se a sua mente estivesse vagando vários metros acima de sua cabeça. A boate luxuosa era espaçosa e muito bem ventilada, mas ainda assim o rapaz se sentia meio abafado pela aglomeração de jovens que se amontoavam nas mesinhas e na pista de dança. O velho sorrisinho torto surgiu nos lábios de Luke quando ele concluiu silenciosamente que estava ficando velho para aquele tipo de diversão.

Há alguns poucos anos, Lukas seria um reflexo perfeito daqueles jovens entusiasmados que adoravam a música eletrônica alta, que emendavam doses e mais doses de destilados e saíram das baladas com o sol já quente no céu, muitas vezes amparados pelos amigos mais fiéis. Mas agora, diante da boate lotada, Krauss se perguntava por que não havia optado por um simples jantar ou, no máximo, por uma sessão de cinema. A terceira dose de whisky ainda não havia chegado à metade e Luke já decidira que pararia ali. Definitivamente, ele se tornara um dos caras desanimados que não se enquadravam mais naquele ambiente.

A escolha da boate já havia sido duvidosa. Aquele ambiente refinado, lotado de membros da alta sociedade e que cobrava pequenas fortunas por uma dose de bebida não era exatamente o perfil de local que Lukas Krauss costumava frequentar. Mas aquela escolha viera de um dos antigos colegas do colégio com quem Lukas mantinha contato. O rapaz fora o único amigo que respondeu ao apelo de Luke para que virassem a noite na rua e parecia justo deixar que ele escolhesse o lugar. Mesmo encontrando tantos defeitos naquela noitada, Luke ainda preferia estar ali do que correr o risco de voltar para casa e dar de cara com o rei da Áustria saindo de cuecas do quarto da Sra. Krauss.

Por sorte, Lukas percebeu que seu rosto não era tão conhecido e que ele ainda conseguia se misturar aos outros jovens sem ser apontado como o bastardo dos Kensington. Sua imagem fora absurdamente divulgada nos jornais quando a bomba sobre o filho ilegítimo de Cristoph explodiu, mas o Luke que teve suas fotos estampadas nas capas das revistas ainda era um rapaz magricela, com os cabelos curtinhos e ralos, óculos de grau e com as feições ligeiramente abatidas depois de uma leucemia. Para quem não o conhecia, era difícil reconhecer aquelas antigas características no rapaz alto, forte e saudável que bebericava whisky numa boate badalada.

Naquela noite, Krauss parecia um pouco mais maduro com os cabelos castanhos cortados e penteados de forma mais clássica, diferente dos fios arrepiados do passado que pareciam implorar por um pente. A calça preta terminava num par de tênis igualmente escuros e a camisa social de botões acinzentada também não se parecia com as camisetas esportivas que Luke usava em qualquer tipo de evento há alguns poucos anos. Lentes de contato cobriam as íris castanhas, tornando desnecessário o uso dos óculos, com os quais Lukas não se acostumara mesmo depois de mais de um ano de uso.

Mesmo que não exibisse um relógio caro, um tênis de marca ou um celular de última geração, Luke atraía a atenção das meninas ricas que frequentavam a boate. Como já vinha fazendo nos últimos meses, Krauss só planejava uma noite de diversão, acompanhado por uma - ou talvez mais de uma - garota bonita.

Depois de algumas trocas de olhares e conversas superficiais, Lukas já havia selecionado a sua escolhida. A menina de longos cabelos loiros usava um vestidinho branco que não escondia nenhuma de suas curvas perfeitas. As pernas compridas eram bem torneadas e pareciam ainda maiores graças ao sapato de salto usado pela jovem. Luke nem se lembrava mais do nome dela, mas nomes eram um detalhe desnecessário e pouco importante para dois jovens que não iriam mais se falar depois que o dia amanhecesse.

Mas o destino decidiu que aquele era um excelente momento para zombar de Krauss. No instante em que deslizou os olhos pela boate em busca de sua "presa", Lukas deu de cara com o passado. A loira alta e seu vestidinho minúsculo foram varridos para fora da mente de Lukas no instante em que a morena baixinha entrou em seu campo de visão.

Krauss só teve certeza de que aquilo não era uma alucinação porque sua mente não tinha a menor razão para modificar a imagem que ele guardava da ex-namorada. Mas, ironicamente, Luke gostou das modificações que ele nunca imaginou que veria em Charlotte Baviera.

A maturidade nos olhos verdes tomara o lugar daquele semblante arrogante e confiante do passado. As luzes claras nos fios escuros iluminavam mais o rosto de Charlie e faziam a menina parecer menos pálida. Mas, sem dúvida, a mudança mais chocante era no comprimento dos cabelos. O corte moderno certamente era um reflexo da vida sofisticada que Charlotte iniciava no mundo da moda, mas também contribuía para que os traços delicados do rosto dela realçassem aquele inédito ar maduro que a menina mimada que Luke conhecera no passado não possuía.

Os olhos castanhos se prenderam na imagem dela sem piscar, como se Lukas fosse incapaz de perder um milésimo de segundo daquela visão. O rapaz só foi trazido de volta à realidade quando a imagem perfeita que ele tinha diante de si foi manchada com a chegada do dono dos braços que enlaçaram Charlie pela cintura.

Embora Luke não fosse um grande exemplo de responsabilidade e maturidade, ele costumava se orgulhar do seu jeito pacífico e de sua personalidade leve. Krauss era o tipo de pessoa que fazia o impossível para evitar atritos - tanto que estava virando a noite em uma balada para evitar uma discussão com Hilda e Cristoph.

Naquela noite, contudo, Lukas sentiu o seu sangue ferver enquanto assistia outras mãos tocando Charlie. Uma onda violenta de ciúmes fez os olhos castanhos se estreitarem e, inconscientemente, o rapaz fechou os punhos, chegando a marcar a palma das mãos com as unhas.

Racionalmente, Krauss sabia que não tinha o direito de se sentir tão enciumado. Fora dele a iniciativa de terminar o rápido namoro com Baviera e mais de um ano havia se passado desde então. Era mais do que compreensível que Charlotte tivesse seguido com a própria vida, conhecido outra pessoa e se apaixonado novamente. Era isso que Luke também tentava fazer, embora ele estivesse bem distante de alcançar sucesso naquela missão.

Mas a parte irracional na mente do rapaz não aceitava aquelas explicações. Ele nunca havia abandonado por completo aquela sensação de que Charlie era a menina ideal para ficar ao seu lado porque, antes mesmo de se declararem, eles já tinham uma perfeita relação de amizade. Por isso, parecia muito errado vê-la em outros braços. Simplesmente não dava para aceitar aquela ideia e seguir em frente agora que sua mente fora torturada com aquela visão.

O bom senso exigia que Lukas desviasse o olhar, se misturasse à multidão de jovens e agisse como se nada demais tivesse acontecido naquela noite. Mas Krauss não foi capaz de ignorar a ex-namorada. Ele sequer sabia se o rapaz que a agarrava era um namorado ou simplesmente a diversão daquela noite, e foi para tirar esta dúvida cruel que Luke se encheu de coragem e guiou os seus passos na direção do casal.

O sorriso torto brotou nos lábios de Krauss e ele tentou manter a expressão mais leve possível, na esperança de esconder como estava incomodado e enciumado com aquela visão.

- Eu tive que me aproximar para ter certeza de que era mesmo você. De longe você parece um pontinho, Charlie. Não me julgue por ter tido dúvidas.

Sem nenhum constrangimento, Lukas ignorou a presença do possível namorado e tocou na pontinha dos cabelos encurtados da menina.

- Um pontinho de cabelos curtos. - o olhar dele se iluminou com um breve brilho antes que Krauss completasse - Ficou ótimo assim.

Quando não conseguiu mais fingir que os dois não estavam mais sozinhos, Luke se voltou para o outro rapaz com um sorriso simpático, fingindo que não existia aquela vontade louca de estrangulá-lo.

- Lukas Krauss. - como era absurdamente incômodo se apresentar como ex-namorado de Charlie e era pior ainda mencionar que era filho de Cristoph, Luke optou pela saída menos indigesta - Sou irmão do Benji. Você deve conhecer o futuro rei mais amado de todos os tempos.
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Re: The Royals

Mensagem por Remus J. Lupin em Qua Out 05, 2016 2:37 am

Assistir um completo estranho brincando com tanta intimidade com Danika era desconfortável, além da atitude extremamente deselegante pela interrupção da conversa. Mas Benjamin era educado demais para demonstrar a sua insatisfação enquanto assistia a cena como um mero espectador.

O príncipe de Áustria era o reflexo da elegância, parado de braços cruzados e com uma expressão calma até que a atenção de Lehman fosse voltada para ele. Aquele provavelmente era apenas mais um dos amigos de Danika, como tantos outros convidados na festa, e Benji só precisaria aguardar pacientemente até que a morena voltasse a lhe dar atenção.

Entretanto, toda sua calma e polidez desapareceu com as últimas palavras de Franz. Os olhos azuis se estreitaram, mas ao invés de dirigir a sua insatisfação ao homem, Benjamin encarou a ex-namorada em uma expressão de cobrança e indagação.

Ele sabia que o namoro de Danika com o pai biológico de Lisbeth não havia sido a relação mais saudável do mundo. Nas poucas vezes que Volgeman havia cruzado seu caminho, Benjamin não tivera nenhuma dúvida de que se tratava de uma pessoa insana. Danika sempre havia sido extremamente reservada sobre seu passado, mas Benji simplesmente deduziu que ela estava envergonhada demais para falar sobre os próprios erros.

O que nunca havia passado pela sua cabeça era que a ex-namorada sofria maus tratos e muito menos que a vida de Lisbeth havia sido colocada em perigo alguma vez. Ouvir aquela parte da história de um completo desconhecido era o mesmo que uma grande traição aos olhos de Benjamin.

Os olhos azuis deslizaram lentamente, ainda abalados com aquela revelação, até pousar em Franz. Ele já havia ouvido falar do antigo colega de Lukas diversas vezes, mas não se lembrava de ter visto uma única foto alguma vez.

Racionalmente, Benjamin sabia que não fazia sentido algum se sentir incomodado com a presença do antigo amigo de Lukas e Danika. Mas ver que um homem atraente tinha tanta intimidade com a mesma mulher que deveria ser sua lhe causava uma insegurança longe de ser digna para o futuro rei.

Contrariando o semblante sério de Franz, Benji ergueu a mão e abriu um sorriso. Danika poderia conhecer o ex-namorado bem o bastante para saber que aquele não era o seu sorriso mais sincero, mas se ela já tivesse visto o príncipe em ação nas reuniões mais sociais ou nos encontros de política teria encontrado em seus lábios o mesmo movimento que usava quando simplesmente precisava agir como um bom rapaz.

- Benjamin Kensington. Definitivamente não o psicopata que tentou matar um bebê. Talvez eu esteja mais para o futuro rei da Áustria.

Ocupar o trono, carregar o sobrenome Kensington ou pertencer a realeza nunca foram motivos de orgulho para Benjamin. Mesmo antes de conhecer Danika, Benji se sentia saturado com o próprio destino. Por isso, era extremamente raro ver o príncipe enchendo a boca para se referir ao próprio título, como se quisesse mostrar a sua superioridade.

A expressão homicida não estava mais no rosto de Franz, mas nem por isso o rapaz desviou o olhar quando retribuiu o forte aperto de mão, como se o rapaz estivesse dizendo sem emitir uma palavra que ele não se sentia inferior por estar diante de um rei.

- Ah, o irmão do Luke. – Um sorriso mais relaxado apareceu no rosto de Franz quando ele sacudiu a cabeça. – Eu sabia que você era o irmão mais velho, mas você tá bem mais acabado do que nas fotos de revista, cara. Eu nem te reconheci.

Os olhos azuis de Benjamin faiscaram. O jovem herdeiro do trono não tinha nem mesmo trinta anos e era cobiçado por praticamente todas as mulheres da Áustria. Era quase uma piada dizer que sua aparência não estava impecável.

A única motivação que Franz tinha para fazer comentário era a postura de Benjamin. Mesmo ainda tão novo, o primogênito dos Kensington tinha sempre um ar sério e respeitoso demais, como reflexo da educação rígida de toda a sua vida.

- Bom, talvez porque eu esteja mais ocupado com problemas sérios e não tenha tanto tempo para ler revistas sobre celebridades.

O sorriso de Benjamin não vacilou em seu rosto e a tensão entre os dois era quase palpável. Sem interesse em prolongar aquela guerra fria e com o intuito de dispensar logo Franz, Benji se inclinou para frente e puxou a bicicleta embalada para seu alcance, colocando-a atrás do seu corpo.

- Obrigado pelo presente, tenho certeza que a Beth vai adorar. Depois, é claro, de ser inspecionado pela segurança real.

Benjamin não havia implicado com nenhum presente dos convidados, mas ele se sentia na obrigação de criar alguma complicação para Franz, como se quisesse mostrar quem realmente mandava ali.

Os olhos azuis se votlaram mais uma vez para Danika e ele a encarou com uma seriedade que não combinava com a culpa que sempre o acompanhava durante todo aquele ano.

- Nem tente interferir. Você não tem noção do estrago que foi no aniversário de oito anos da Amelie. É regra da família, todo brinquedo perigoso deve ser inspecionado antes e você compraria uma guerra com o chefe da segurança do palácio se tentasse interferir no trabalho dele.
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Re: The Royals

Mensagem por Danika Lehmann em Qua Out 05, 2016 3:19 am

- Isso é ridículo!

Os olhos castanhos se estreitaram de forma ameaçadora para Benjamin. Danika até aceitaria aquele cuidado exagerado com a segurança se Kensington estivesse agindo assim com todos os presentes de Lisbeth, mas a caixa trazida por Franz era o primeiro embrulho com o qual o príncipe implicava. Era óbvio que aquele gesto era muito mais uma provocação do que propriamente uma preocupação com a segurança de Beth.

- Eu estou pouco me lixando para o chefe da segurança do seu palácio. Esta festa é minha, o Franz é o meu convidado e sou eu que avalio quais são os presentes que chegarão até a Beth. Pare com esta ceninha patética, Benjamin.

Franz Von Hants não abriu a boca, mas o sorrisinho debochado que surgiu em seus lábios mostrava que o ruivo estava adorando assistir a cena na qual uma simples moça desmoralizava o futuro rei da Áustria. Embora não soubesse maiores detalhes sobre o envolvimento deles, Franz tinha plena certeza que Nika não era uma interesseira que aplicara o golpe da barriga simplesmente porque ele sabia que Lisbeth não tinha o sangue dos Kensington.

- A Beth está eufórica com a festinha, Franz, então vamos abrir todos os presentes amanhã cedo, quando ela estiver mais concentrada. Mas eu tenho certeza de que ela vai adorar, muito obrigada!

- Eu trouxe um presente para você também. – Von Hants não perdeu a chance de lançar um sorriso irônico na direção de Benjamin – Acho que o presente da Nika não precisará passar por nenhuma vistoria, Majestade. Não vejo nenhum tipo de ameaça escondida atrás das pétalas perfumadas.

Sobre uma das mesinhas próximas ao ponto onde o trio conversava, estava um pequeno buquê de flores. Franz se esticou para pegar o embrulho e já sabia que iria encontrar os olhos castanhos emocionados quando se virasse para Lehmann.

- Você ainda se lembra disso, Franz?

- A minha memória é boa. – Franz tocou numa das rosas de pétalas amarelas antes de entregar o buquê à romena – Eu jamais me esqueceria de uma das histórias mais bonitas que eu já escutei.

Von Hants se referia à uma velha história que Danika compartilhara com ele no passado. Franz estava no apartamento das garotas quando Olga recebeu um buquê de rosas vermelhas de um dos seus tantos admiradores. Sturm ficou empolgadíssima com o mimo, mas Nika comentou que teria preferido ganhar rosas amarelas porque elas simbolizavam o amor na família Lehmann. Na Romênia, a avó de Danika tinha um enorme canteiro repleto de rosas amarelas que rodeava toda a casa. Aquela plantação florida havia sido o presente que o avô de Danika dera à esposa ao descobrir que ela estava grávida do primeiro bebê do casal.

- É difícil superar o seu avô, mas eu quis te dar pelo menos uma amostra do presente dele.

- São lindas, Franz. – Danika se inclinou para sentir mais de perto o perfume das pétalas amarelas – Eu adorei, muito obrigada! Vou colocar num vaso agora mesmo para que não murchem.

Como estava fazendo com todos os convidados, Nika pediu a Franz que ficasse à vontade e que chamasse por ela se precisasse de qualquer coisa durante a festinha infantil de Lisbeth.

Só depois que o amigo se afastou, seguindo na direção da mesa ocupada por Olga e pelos seus antigos colegas de Leoben, Lehmann se voltou novamente para Benjamin. A romena acomodou melhor o buquê de rosas em seus braços antes de estreitar os olhos para o ex-namorado.

- Que cena patética foi essa, Benjamin Kensington, futuro rei da Áustria? Da próxima vez traga uma coroa, será menos vergonhoso do que precisar anunciar seus títulos para parecer mais importante do que realmente é. Aqui você é um simples convidado que só recebeu autorização para entrar porque a Lisbeth sentiria a sua falta. Só isso. Não me mate de vergonha na frente dos meus amigos!

Nika não se sentia nem meramente constrangida depois que Franz deixara escapar mais aquele detalhe sobre o passado dela com Friedrich Volgeman. Depois de tantas farsas e mentiras, Benji não tinha o direito de questionar a ex-namorada por aquela omissão. Ao contrário dele, Danika não havia guardado aquela verdade para enganá-lo. Ela simplesmente queria esquecer todo aquele sofrimento e realmente achava que, nos braços de Benjamin, aqueles fantasmas nunca mais retornariam para assombrá-la.

- Você está me fazendo perder muito tempo. O que você precisa falar é tão importante que não pode esperar o fim da festa?
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