Alpha Pack

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Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Qua Jul 13, 2016 1:00 am

Por longos minutos, Maximilian manteve os olhos fixos na televisão. As cenas do filme se sucediam sem que o dono do apartamento soubesse dizer nada sobre a história que se passava a sua frente. Toda a sua atenção e os seus instintos estavam voltados para o interior do quarto.

Não era possível enxergar o cômodo escuro através da porta entreaberta, mas Max não precisava ver Samantha para se sentir afetado pela presença dela. O perfume da garota já estava impregnado em todos os cantos do apartamento com tal intensidade que Cavendish duvidava que aquele cheiro um dia se dissiparia. Mesmo da sala, Maximilian escutava com perfeição o som ritmado da respiração de Sam, denunciando que a garota já havia encontrado o caminho até o sono.

Apesar do cansaço físico e mental, Max não adormeceu tão rápido quanto Archibald. O céu de Nova York começava a se clarear timidamente no horizonte quando o rapaz finalmente foi vencido pela exaustão. As pálpebras pesadas cederam à força da gravidade e Maximilian adormeceu. A mente abalada e a posição pouco confortável na poltrona fizeram com que ele mergulhasse num sono dolorido e agitado.

Embora tivesse adormecido há pouco tempo, Cavendish mostrou que estava com o sono leve quando acordou com o ruído de Samantha abrindo a porta do banheiro. Max se remexeu na poltrona e fez uma careta ao sentir o corpo dolorido, obrigando-se a alongar o pescoço para recuperar parte dos movimentos petrificados pela dor.

- Tudo bem, eu precisava mesmo acordar. Eu tenho que terminar umas encomendas, estou bastante atrasado com alguns trabalhos que preciso entregar esta semana. Só preciso de uma dose extra de café e estarei pronto para começar.

Enquanto falava, Max colocou-se de pé e alongou as costas doloridas antes de caminhar até a cozinha. Apesar de suas palavras otimistas, o semblante cansado de Cavendish mostrava que nem mesmo várias doses de café forte o deixariam bem disposto para trabalhar naquela manhã.

Em menos de um minuto, o rapaz já abastecia a sua cafeteira com uma quantidade extra de pó.

- Não se preocupe com a camisa. É uma blusa muito antiga, eu praticamente nem uso mais.

Com a desculpa de preparar o café, Cavendish evitava olhar na direção de Samantha. Mas ele não precisava fixar a atenção nela para ter certeza que aquela blusa velha esquecida em sua gaveta ficava absurdamente sensual modelando as curvas de Archibald.

A mágoa ainda era enorme, mas ainda assim Max tinha medo de fraquejar naquela decisão de colocar um ponto final naquele relacionamento. Ter Sam tão perto, sentir o perfume dela e assistir a garota desfilando pelo apartamento eram tentações grandes demais para um rapaz que não havia tido tempo de superar o fim abrupto da relação.

A despedida foi distante e, embora o cheiro de Samantha continuasse intenso no apartamento mesmo após a partida da garota, Max sentiu uma queda incômoda na temperatura quando ficou sozinho na sala. Era impressionante como Sam havia se tornado importante na vida dele com pouco tempo de convivência, mas Maximilian estava disposto a seguir seu caminho sem ela e superar aquela perda dolorida.

O que Max não sabia era que Samantha havia deixado o apartamento depois de descobrir mais um dos segredos que ele escondia dela. Obviamente mentir sobre a verdadeira cor dos olhos não era algo tão grave quanto a traição protagonizada por Archibald, mas Sam estava muito perto de descobrir que as lentes de contato eram apenas a ponta de um gigantesco iceberg de mentiras e segredos.

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- Eu já disse que não vou falar sobre este assunto. Já chega.

A voz firme e cortante de Cavendish fez com que Jack erguesse as mãos em um gesto defensivo. Desde que sentira o cheiro de Samantha no apartamento do melhor amigo, o beta insistia para que Max desabafasse e contasse sobre a visita da garota, mas depois daquela resposta atravessada o rapaz finalmente aceitou que não conseguiria tirar nada do Alpha.

- Ainda é muito cedo, Max. – Jack fez uma breve careta enquanto olhava a fachada conhecida do prédio – Voltamos pra casa muito tarde ontem, o moleque deve estar ferrado no sono.

- Iremos acordá-lo, então.

Não era tão cedo assim, mas aquela era uma manhã de domingo que sucedia uma grande festa. Além disso, a noite anterior fora o início da primeira lua-cheia de Damien Scott. Era de se esperar que ele estivesse dolorido e mais cansado que o normal naquele momento.

O Alpha, contudo, ignorou as ponderações de Jack. Além daquele ser um assunto importante, o mau humor de Maximilian não permitia que ele valorizasse o sono de ninguém. Por mais que não quisesse descontar suas frustrações em Scott, Max era incapaz de se comportar com a sua costumeira simpatia quando seguiu os passos de Jack.

Os dois rapazes subiram as escadas externas do prédio e tiveram que escalar um lance de janelas até alcançarem o quarto de Damien. Jack respirou fundo ao ver o volume do corpo de Scott debaixo dos cobertores e bateu três vezes no vidro da janela, alertando o rapaz sobre a presença deles.

A julgar pelo semblante fechado do Alpha, Max estava ali para discutir sobre o grande problema causado por Scott na noite anterior. Por sorte, ninguém havia se machucado e o segredo deles continuava protegido, mas o Alpha precisava garantir que o mais novo membro de sua alcateia não comprometesse novamente o grupo com tamanha irresponsabilidade.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Qua Jul 13, 2016 1:35 am

Nem se quisesse, Francesca teria tempo de deixar a humilde casa dos Sullivan mais apresentável para receber a visita da amiga. Quando acordou – bem mais tarde que de costume graças à noite de sábado agitada – a mensagem de Samantha já estava no celular da garota, o que significava que Archibald provavelmente estava a caminho da vila onde a colega vivia, no Brooklyn.

A casa onde Francesca morava com o pai e o irmão era minúscula perto da mansão dos Archibald. A garota tinha a ligeira impressão de que toda a área de sua casa caberia facilmente na sala da cobertura de Samantha. Os móveis também eram simples demais quando comparados à decoração moderna e sofisticada dos Archibald. Embora todos os cômodos estivessem organizados e impecavelmente limpos, Francesca não sabia se a amiga conseguiria se sentir à vontade naquele ambiente tão simples.

Mas já era tarde demais para sugerir outro local para aquele encontro. Além disso, Francesca estava ansiosa demais para adiar aquela conversa. Embora conhecesse Samantha há pouco tempo, Sullivan sentia que podia confiar à nova amiga suas dúvidas e incertezas sobre Damien. Sam era discreta e inteligente o suficiente para ajudar Francesca a buscar respostas para aquela estranha situação.

Paolo já havia saído para “trabalhar”, embora a caçula duvidasse que um vendedor pudesse ter tanto serviço a ponto de precisar preencher uma manhã de domingo com trabalho. Na opinião de Francesca, o irmão mais velho estava gastando seu tempo com namoradas ou então com amigos, o que era totalmente aceitável para um rapaz jovem. Os filhos dos Sullivan tinham assumido responsabilidades demais após a doença do pai, era de se esperar que Paolo precisasse de um pouco de tempo só para si e Francesca jamais o julgaria por isso.

Richard não pareceu incomodado ao saber que a filha receberia a visita de uma amiga naquela manhã. Antes ele não gostava da ideia de dividir espaço com novas pessoas, que provavelmente ficariam assustadas ou curiosas com a sua situação delicada. Aquela aceitação tão tranquila mostrava que, talvez, o Sr. Sullivan estivesse consolidando um processo de aceitação das próprias limitações.

Quando ouviu batidas na porta, Francesca estava terminando de fazer o café. O cheiro gostoso da bebida já estava espalhado por toda a casa quando a garota abriu a porta para Samantha, cumprimentando-a com um sorriso gentil.

- Eu não achei que teria fôlego para aparecer aqui tão cedo, Sam! Eu fui embora tarde e a festa ainda não parecia perto do fim!

Sullivan obviamente notou que a amiga parecia exausta e bastante abatida, mas acabou concluindo que Sam estava apenas cansada por ter passado boa parte da madrugada em claro.

- Eu só vou terminar de servir o café para o meu pai. Já vamos para o meu quarto fazer o “trabalho de História”.

Archibald notaria que aquela mentira era necessária ao entrar na sala e perceber que as duas não estavam sozinhas.

Sentado em uma cadeira de rodas, o Sr. Sullivan cumprimentou Samantha com um sorriso simpático. O pai de Francesca parecia ter pouco mais de quarenta anos. Era um homem forte, de ombros largos e traços marcantes. A caçula havia herdado dele as íris esverdeadas. Alguns poucos fios brancos salpicavam os cabelos escuros e a barba por fazer.

Além da óbvia incapacidade de andar, algumas cicatrizes marcavam o rosto e o pescoço do Sr. Sullivan, como se fossem marcas de garras. Mas o detalhe mais chocante da aparência de Richard era a ausência do braço direito. O membro do homem fora amputado na altura do cotovelo e o aspecto cicatrizado do coto mostrava que aquele era um trauma antigo.

- Esta é a famosa Samantha...? – a voz rouca atraía a atenção para o pescoço de Richard, onde havia a cicatriz de uma traqueostomia – A Francesca tem falado muito bem de você. Imagino que isso signifique muito, já que nenhum outro colega da Constance Billard tem merecido tantos elogios da Fran.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Qua Jul 13, 2016 3:20 am

A primeira noite de lua cheia havia chegado ao fim e Damien Scott não havia experimentado nada que justificasse toda preocupação de Max ou Jack. Com exceção dos sentimos mais intensos e do cansaço exagerado em seu corpo, em nenhum momento sua consciência havia vacilado ou ele tivesse pensado que perderia o controle.

Para Damien, a noite havia sido mais agradável do que ele podia se lembrar. A festa de Samantha havia sido uma breve passagem para que ele pudesse aproveitar o que realmente importava, e a companhia de Francesca se mostrara mais uma vez o melhor remédio para os seus problemas.

Scott nunca havia se sentido daquela forma por garota alguma. Ele sequer sabia que era possível se sentir tão dependente de alguém, mas tinha certeza que não poderia mais ficar longe de Francesca por tempo demais.

Era o perfume dela em suas roupas e as lembranças recentes da noite ao lado dela que faziam com que Scott dormisse com um sorriso preso em seus lábios. O rapaz estava completamente largado em sua cama, um dos braços pendendo para fora do colchão. Seu peito nu estava virado para baixo e o lençol cobria até a metade das suas costas, enquanto seu rosto amassado no travesseiro denunciava seu sono tranquilo.

Mesmo com a audição incrível de um lobisomem, a mente lenta e envolvida pelo sono de Damien fez com que ele levasse um tempo longo demais para ser despertado pelas batidas na janela. Quando finalmente compreendeu que o barulho vinha da escada de incêndio e não do seu sonho, Scott ergueu o rosto com uma ruga entre as sobrancelhas e olhou com confusão ao redor.

Ele piscou algumas vezes, adaptando a vista com a claridade que entrava pela janela, e bufou quando reconheceu o rosto de Jack e Max.

- Tá de sacanagem? – Ele resmungou enquanto jogava o lençol para o lado e deslizava para fora da cama.

A janela foi aberta e imediatamente a brisa fresca da manhã de domingo invadiu o interior do quarto. Sem se preocupar em vestir uma camisa, Damien voltou para a cama e liberou a passagem para os rapazes.

- Mas que merda vocês estão fazendo aqui? Aliás, quando vocês vão aprender a usar a porta?

- Você atenderia se a gente simplesmente tocasse a campainha? – Jack, que entrou por último, já havia puxado a cadeira da escrivaninha para se sentar, sentindo-se muito à vontade.

- Não. Mas é esse o ponto.

Apesar da expressão de mal humor, Damien não conseguia controlar a própria felicidade. O rosto de Francesca ainda estava fresco demais em sua memória quando ele se sentou com as costas apoiadas na cabeceira e puxou o celular do criado-mudo. Sem perceber que um sorriso começava a brotar em seu rosto, ele tocou na tela até que o nome da menina surgisse.

- O que estão fazendo aqui, afinal? Não tem nada melhor pra fazer do que ficar entrando no meu quarto pela janela?

Enquanto resmungava, os dedos de Scott tocavam rapidamente a tela enquanto ele escrevia uma mensagem para Francesca: ”Já está sentindo a minha falta? Aposto que está.”.

- Só queríamos ter certeza que tá tudo bem com você, moleque. Não é qualquer um que enfrenta uma lua cheia e fica tão de boa. Não que você esteja de boa, fofinho. – Jack riu, entregando o apelido que ele escutara na noite anterior. – Essa sua cara de demente mostra que você não está nada bem. Parece que comeu pó de fada.

- Eu disse que vocês não tinham com o que se preocupar. Estava tudo sob controle. Não tinha a menor necessidade de ficar segurando vela a noite inteira. – Damien estreitou os olhos para Jack. – Aliás, a Francesca percebeu que você estava dando uma de babá.

O celular de Damien vibrou e ele prontamente se pôs a escrever uma nova mensagem para Francesca. ”Sem babá hoje. Podemos nos ver mais tarde? Preciso ver você.”

A mente de Scott estava focada nas palavras que digitava e ele pensava de onde vinha aquela necessidade desesperada de rever Sullivan. Os dois estavam separados há poucas horas, mas Damien já sentia que estava perdendo um tempo precioso demais longe dela.

Por estar tão entretido com a memória de Francesca, Damien só notou que Jack havia se levantado da cadeira e estava ao lado da sua cama quando a mão do rapaz puxou a barra do lençol e o tirou por completo da cama.

- O que é isso???

A voz de Jack verbalizou o que a mente de Damien gritava enquanto ele encarava a cama suja de terra e seus pés arranhados.

- Eu estive com você o tempo todo. Para onde você foi depois que deixamos a Francesca em casa?

O olhar de Damien estava fixo na grande quantidade de terra negra manchando sua cama enquanto ele procurava desesperadamente se lembrar como havia chegado em casa. Porém, a última lembrança que tinha era de ter deixado Sullivan na vila. O resto da noite era um completo vazio em sua mente.

- Eu... eu não lembro.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qua Jul 13, 2016 3:56 am

Samantha havia dormido apenas algumas horas depois de uma noite agitada, mas não era o cansaço acumulado da festa ou a insônia que lhe provocavam a aparência abatida e a falta do brilho nos olhos. Mesmo depois de um longo banho e de ter tentado esconder o desastre de seu rosto com maquiagem, era notável como Archibald não parecia a mesma menina alegre de sempre.

Mesmo quando sorria e fazia aparecer as covinhas, a tristeza com os últimos acontecimentos fazia com que o sorriso não alcançasse seus olhos, tornando o gesto mecânico, feito apenas para manter a educação.

- Famosa? Bom, se o senhor quis dizer insistente e extremamente inconveniente, então sei que estamos falando da mesma pessoa.

Ela se esforçava para soar simpática, mas temia que a voz rouca denunciasse o seu abalo. Uma grande travessa de vidro foi esticada na direção de Francesca enquanto Samantha caminhava pelo interior da sala.

- Eu trouxe um pedaço do bolo. Espero que vocês gostem. E algumas trufas também.

- Trufas no café da manhã? – O Sr. Sullivan deslizou sua cadeira para acompanhar as meninas até a cozinha. – Já gosto dela, bambina.

Sam esperou que Francesca terminasse de preparar tudo para o pai até que as duas finalmente pudessem subir até o sótão. Mesmo com a simplicidade do lugar, Archibald não se sentia intimidada ou deslocada. Ela nunca havia se importado com o luxo e uma das provas era como se sentia bem quando estava na casa de Max.

Assim que entrou no quarto de Sullivan, Archibald retirou a bolsa atravessada contra o peito e a colocou sobre a escrivaninha da menina. Ela olhou ao redor, com as mãos apoiadas na cintura, antes de comentar.

- Esse lugar é incrível, Fran. Tem todo um charme... Talvez você só precise pintar o teto com alguma cor alegre. Posso te ajudar a decorar e deixar a sua cara.

Ela estava sendo sincera enquanto olhava o lugar com admiração. Mesmo sendo muito menor que o seu quarto, dos móveis simples e das tábuas que rangiam sob seus pés, Samantha não tinha dúvidas de que com alguma pintura e talvez uma iluminação mais apropriada, o lugar fosse se tornar incrível.

Seu olhar finalmente pousou em Francesca e Archibald se sentou, cruzando as pernas. As mãos foram apoiadas sobre o joelho coberto pela calça jeans, exibindo as unhas pintadas em um tom escuro.

- Mas então, o que rolou na festa, afinal? Não me diga que o Scott andou aprontando... – Samantha tentava ignorar a vozinha em sua mente que insistia em perguntar sobre Max.

Francesca havia sido clara em dizer que havia algo errado tanto no colega de escola quanto com Cavendish e uma curiosidade crescia em seu peito para saber o que a amiga tinha a dizer sobre Max. Falar sobre ele, mesmo que fosse um assunto qualquer, era o máximo que ela teria, e por isso não jogaria aquela oportunidade fora.

- Eu sempre soube que tinha algo errado, desde aquele dia da entrevista... Mas as peças simplesmente não se encaixam. Na verdade, o quebra-cabeça parece cada vez mais confuso!
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Qui Jul 14, 2016 12:39 am

Apesar da simplicidade, o quarto de Francesca estava muito bem organizado. A única janela estava aberta, permitindo que um vento fresco circulasse pelo cômodo e o distanciasse do clima abafado e escuro de um sótão comum. A cama já estava arrumada, coberta por uma colcha branca estampada com minúsculas flores em cor de rosa. O pequeno armário da caçula dos Sullivan não conseguiria acomodar nem um décimo das roupas de Samantha, mas era mais do que o suficiente para a quantidade de peças da dona daquele quarto.

- Este lugar já melhorou muito. Quando compramos a casa, aqui era um depósito de velharias cheio de morcegos. Como só temos um quarto de verdade, eu encarei este sótão como um desafio pessoal para que meu pai pudesse ficar bem acomodado lá embaixo.

A voz tranquila de Francesca mostrava que, para ela, aquilo não fora um sacrifício tão pesado. No fim das contas, o sótão havia se transformado em um quarto simpático e Richard contava com todo o conforto que precisava devido às suas limitações físicas.

Depois de um suspiro, Sullivan sentou-se no meio da cama e dobrou as pernas sobre o colchão. A calça de algodão confortável permitia tal elasticidade. Os cabelos castanho avermelhados presos em uma trança mostravam que a menina ainda não tivera tempo para ajeitar os fios depois da última noite agitada.

- Eu sinceramente não sei explicar nada, Sam. Te chamei para conversar na esperança que você me ajude a entender toda essa confusão envolvendo o Damien e o Max. E agora também o tal do Jack, que embora seja simpático consegue ser a pessoa mais inconveniente da história da humanidade.

Com os lábios grossos curvados em uma careta, Francesca contou para a amiga sobre a decisão de Jack em acompanhá-la em um programa com Damien, que teoricamente deveria ser um encontro.

- No meio da noite ele inventou uma desculpa e saiu da mesa, mas ficou bebendo no balcão. Pode parecer loucura minha, Sam, mas eu tive a nítida impressão que, mesmo de longe, o Jack estava acompanhando a minha conversa com o Scott, sabe? Era como se ele estivesse nos vigiando. Ou vigiando o Damien, eu não sei...

Sem pressa, Sullivan mencionou para Samantha todas as desculpas fracas que Scott havia usado para justificar a presença do amigo. No mesmo contexto de explicações frágeis, Francesca relatou a forma como Damien sempre se esquivava das perguntas ou respondia de forma vaga quando questionado sobre o que houvera no banheiro da Constance Billard há algumas semanas.

- Você não acha estranho pensar que o Scott e o Max não se conheciam e agora estão tão próximos a ponto do Damien arrastar o melhor amigo do Max para um encontro? E você precisava ver os dois juntos, Sam. Eu não sei explicar, mas não parecia uma amizade comum, sabe?

Francesca precisou de um pouco mais de tempo para selecionar as melhores palavras que explicavam a cena que ela havia presenciado na cobertura dos Archibald.

- Era como se o Max tivesse alguma autoridade sobre o Scott. Ele usou um tom imponente e o Scott, mesmo com toda a insolência própria dele, nem ousou questionar. O Damien não aceita ordens nem dos professores, é estranho demais que ele obedeça sem questionar um cara que conhece há poucos dias!

Por enquanto, a caçula dos Sullivan estava abordando de forma prática e racional aquele assunto. Mas os olhos verdes adquiriram um brilho de ansiedade e Francesca apertou uma mão na outra antes de ter o impulso de mencionar os detalhes mais bizarros daquela história. Mesmo correndo o risco de parecer louca aos olhos da amiga, Francesca reduziu o tom de voz e reuniu coragem para falar naquele assunto.

- Pode parecer loucura, Sam, mas eu ouvi nitidamente um uivo naquela tarde. Eu estava muito nervosa, é claro, mas pareceu tão nítido! Depois, quando espiamos o banheiro, eu fiquei me perguntando se dois caras conseguiriam causar tanto estrago em tão pouco tempo. Por outro lado, um animal selvagem não teria desaparecido por completo em poucos minutos. A história do Max não faz sentido, mas a do Damien também não. Para mim, os dois estão mentindo e foram tolos o bastante para não combinarem de contar a mesma história.

Francesca pareceu ainda mais tensa e agitada quando finalizou seu discurso. Sua voz soou tão baixa que Samantha teria que praticamente ler os lábios da amiga para compreender suas palavras.

- Eu estou com umas ideias muito doidas, acho que estou influenciada por umas bobagens que vi num caderno velho do meu irmão. Preciso que você me arraste de volta pro mundo real antes que eu pire de vez, Samantha.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Qui Jul 14, 2016 2:24 am

Ao contrário de Damien e de Jack, Maximilian permaneceu de pé durante aquela conversa. A posição altiva parecia contribuir ainda mais para o ar de superioridade do Alpha, aliada aos traços dele curvados em uma expressão mortalmente séria. Embora Cavendish fosse um líder justo e amigável, ele sabia que existiam momentos em que sua autoridade deveria ser imposta. E, sem dúvida, a atitude que Scott tivera na noite anterior merecia uma repreensão mais severa.

- Como você pode dizer que estava tudo sob controle quando nem sabe falar o que fez na última noite, Scott? Não ter noção dos próprios passos me parece uma definição irrefutável de descontrole.

O Alpha cruzou os braços, sem tirar o olhar sério do recém-transformado. Por estar usando uma camisa de mangas curtas, aquela posição realçava ainda mais os músculos bem torneados dos braços de Maximilian. Embora aquela fosse uma conversa tensa, a voz de Max soava perigosamente contida.

- Você acha que isso é uma brincadeira, Scott? Você realmente acha que o Jack teria perdido boa parte da noite na sua cola se a situação não fosse preocupante? É claro que você não tem a mais remota noção do perigo ao qual está expondo as pessoas ao seu redor e a você próprio. Mas o MÍNIMO que eu esperava de você é que levasse esta situação a sério e confiasse no nosso grupo. O Jack disse com todas as letras que você deveria se resguardar ontem. E o que você fez? Você se meteu numa festa lotada.

A pausa feita por Cavendish tinha a finalidade de fazer com que Damien refletisse sobre aquelas palavras. Ficou claro que Max não esperava por uma resposta quando o Alpha continuou o seu discurso antes que o rapaz tivesse a chance de abrir a boca.

- Você parou para pensar na tragédia que poderia ter acontecido se você se transformasse em um ambiente fechado, lotado de pessoas? Não me venha com essa bobagem de que tudo estava sob controle porque isso é mentira. Aí está a prova de que você tem tanto controle quanto o infeliz que te atacou no beco...

O indicador de Maximilian apontou na direção dos pés sujos do rapaz. Embora não soubesse ao certo o que o rapaz fizera no restante da noite, Max sabia que não deveria ter sido nada tão grave. Com informantes em vários pontos da cidade, o Alpha já saberia se tivesse acontecido algum ataque na noite anterior.

- Se você é egoísta o bastante para não se importar com os estranhos que cruzam o seu caminho, pense ao menos nas pessoas que fazem parte da sua vida. Você não se lembra do que aconteceu na última madrugada porque permitiu que o lobo dominasse por completo a sua mente. O lobo ficou no comando, Scott. O mesmo lobo que não hesitaria em matar a sua mãe ou a Francesca. Com elas você se importa? Como você se sentiria se acordasse na manhã seguinte com as mãos sujas de sangue e com o cadáver de uma das duas estraçalhado ao seu lado?

O olhar espantado que Jack lançou na direção de Cavendish deixava claro que o Alpha estava sendo duro demais com o membro mais novo da alcateia. Geralmente, Maximilian não usava palavras tão chocantes, mas o humor dele não contribuía para uma conversa mais sutil. Além disso, Max já havia notado que Damien tinha a personalidade muito forte e apenas as verdades mais cruas e diretas poderiam convencê-lo a respeitar a hierarquia da alcateia.

- Quando você concordou em entrar para a alcateia, eu deixei bem claro que temos regras que precisam ser cumpridas. Ontem você quebrou um dos nossos principais elos e desobedeceu a uma ordem superior. Isso é inadmissível, Scott. Se você não está pronto para cumprir as regras do grupo ou não concorda com a forma como nós nos organizamos, a sua escolha é simples. Seja um lobo solitário.

Os olhos de Jack, que já estava arregalados, quase saltaram para fora do rosto dele após aquela sugestão. O beta sacudiu a cabeça em negativa e virou-se para Damien, a expressão de pânico indicando que aquela definitivamente não era a escolha mais sábia.

- Se você quiser continuar conosco, será bem-vindo à alcateia. – Max fez uma pequena pausa, novamente esperando que Scott absorvesse aquelas palavras – Mas, se ficar com a gente, terá que obedecer às regras. Nós vamos te dar todo o apoio, as orientações e a segurança que você precisa no começo. Mas essa ajuda tem um preço, Scott. Você precisa respeitar a sua posição na alcateia e, principalmente, contribuir para a segurança de todo o grupo. Você está expondo um segredo que é de todos nós quando perde o controle das transformações, some no meio da madrugada e volta para casa sem a mínima ideia do que fez nas últimas horas.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qui Jul 14, 2016 2:53 am

Samantha ouvia atentamente cada um dos relatos de Francesca, incluindo-os em uma linha do tempo na sua cabeça, ligando cada evento com as próprias ocorrências enquanto tentava encontrar algum sentido naquela história cada vez mais confusa.

Em partes, era um alívio saber que não era a única que via tantas pontas soltas nas mentiras contadas por Scott e Cavendish. Ao menos sabia que não estava enlouquecendo ou obcecada demais graças ao seus sentimentos por Max. Mas quanto mais se afundavam naquele assunto, mais angustiada Archibald se sentia, desesperada pela verdade.

- Eu não acho que seja loucura, Fran. Eu também escutei o uivo naquele dia. Ninguém consegue acreditar que um animal tenha aparecido, destruído apenas aquele banheiro e desaparecido em seguida. Para mim, nunca houve ninguém lá dentro, além do Max e do Damien.

Um suspiro escapou dos lábios de Sam e ela baixou o olhar, encarando o chão de madeira. Era possível ver um pouco da iluminação sob as tábuas por algumas frestas, dependendo do ângulo de sua cabeça. O rosto de Max surgiu novamente em sua mente, provocando um nó na boca do seu estômago.

Além da tristeza dos últimos acontecimentos, cada vez que se lembrava que Cavendish tivera coragem de mentir a respeito do ocorrido naquele dia, Samantha se sentia traída. Racionalmente, ela sabia que não tinha esse direito, principalmente levando em consideração os próprios erros.

- O que mais me incomoda é a necessidade dos dois de mentirem a respeito do que aconteceu. Afinal, o que pode ser tão ruim para os dois tentarem esconder? Seja lá o que for, é importante o bastante para unir os dois. Porque é exatamente esse o motivo para essa amizade repentina, um está encobrindo o outro.

Samantha levou o polegar até os lábios, mordiscando a pele lateral do dedo enquanto refletia em todos os acontecimentos estranhos. Talvez Max fosse apenas um mentiroso compulsivo, o que justificava até mesmo as lentes de contato em seu banheiro. Mas seria muita coincidência que Damien sofresse do mesmo problema ou que simplesmente concordasse em manter as mentiras de Cavendish.

- Tem outra coisa também... – Samantha ergueu o olhar até pousar em Francesca.

Sua voz baixou para um sussurro rouco, mostrando seu receio de dizer as palavras seguintes em voz alta.

- Eu sei que o Max pratica corrida, mas naquele dia... – Sam pausou, apertando os lábios enquanto sacudia a cabeça. – Ele passou por mim e chegou no banheiro em uma velocidade muito estranha, Fran. Eu diria até que foi fora do normal.

Archibald ergueu a mão e deslizou os dedos pelos fios castanhos, jogando-os para o lado em um gesto de frustração.

- Bom, eu confesso que não sei o que pensar. Quais são as suas ideias muito doidas? Com certeza estão mais próximas da verdade do que a minha mente travada sem conclusão alguma.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Qui Jul 14, 2016 3:35 am

O comportamento frio e duro de Max estava surpreendendo e ao mesmo tempo irritando Damien. Ele já sentia a frustração se espalhando pelo seu corpo cada vez que tentava recuperar o espaço em branco de sua mente, mas se deparava com um muro bloqueando as lembranças. Sua cabeça começava a doer com aquele esforço e Cavendish definitivamente não estava ajudando com aquele sermão.

Scott odiava receber ordens. Ele se sentia extremamente incomodado em ter que obedecer alguém, principalmente se fosse algo contra sua vontade. Nunca foi um filho obediente e definitivamente colecionava detenções por ignorar as ordens dos professores. Autoridades não tinham valor algum para ele.

Quando concordara em participar da alcateia de Cavendish, o rapaz havia se mostrando um bom amigo e uma mão esticada para lhe ajudar. E Damien sabia que precisava de ajuda, que aquele desafio era algo que não poderia enfrentar sozinho. Mas o comportamento que Max vinha demonstrando estava longe de ser o mesmo rapaz que o ajudara nos primeiros dias. Ele demonstrava ser agora um líder exigente, sem o companheirismo de antes.

Scott trincou os dentes enquanto cogitava recusar a ajuda de Cavendish. Talvez ser um lobo solitário não fosse ser tão ruim assim. Ele vinha demonstrando bastante controle, mais do que deveria se esperar de um novato, e sabia que era graças a presença de Francesca. Se estivesse sempre por perto da garota, não teria com o que se preocupar.

Mas os pés e o lençol sujos de terra mostravam que seu controle não era tão inabalável assim. Bastou que ele se afastasse de Sullivan por alguns minutos para que o lobo assumisse e Damien jamais se perdoaria se tivesse machucado alguém.

Seu olhar estava fixo nos próprios pés enquanto as palavras duras de Cavendish o atingiam com mais força do que um soco. Ele se lembrava com perfeição de quando havia se descontrolado, minutos antes de destruir o banheiro da escola. Se naquela noite algo tivesse acontecido e dessa vez não tivesse ninguém para impedi-lo de machucar Francesca, seria uma culpa que Scott carregaria consigo para o resto da vida.

Receber ordens poderia ser terrível, mas nada se compararia ao remorso. Se Max pudesse ensiná-lo a ter pleno controle, ele abaixaria a cabeça para o Alpha sem pensar duas vezes.

- Isso tudo é novo para mim. – Damien finalmente sussurrou, sentindo-se derrotado. – Eu sei que não é desculpa, mas achei que tivesse tudo sob controle. Eu me mantive humano a noite inteira, você precisa admitir que isso é alguma coisa...

Ele ergueu o olhar para encarar o Alpha, desejando profundamente que aquilo realmente tivesse algum significado positivo.

- Eu sei que consegui me controlar por causa dela. Sei que não foi só coincidência.

Os pés sujos de Damien deslizaram para fora da cama e ele se colocou de pé, diante de Max. Apesar da diferença de idade, os dois tinham quase a mesma altura e o mais novo encarava o Alpha com a mesma seriedade, embora com mais humildade do que o normal.

- Se eu só consigo me controlar quando estou com a Francesca, é questão de tempo até que, mesmo com ela, o controle desapareça. E eu não posso machucá-la, Max. Se eu for um solitário, sei que o lobo vai acabar aparecendo, mais cedo ou mais tarde.

O orgulho de Scott não era nada quando comparado ao medo do que o lobo dentro dele pudesse fazer com Sullivan.

- Vou fazer do seu jeito. Sem mais desobediências daqui em diante. Você só precisa me garantir que ela sempre vai estar em segurança.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Sex Jul 15, 2016 1:41 am

O caderno mencionado por Francesca havia chegado às mãos da garota de forma acidental. Os Sullivan estavam naquela nova casa há menos de uma semana quando a menina tirou um sábado para fazer uma faxina em todos os cômodos. Richard estava na sala e Paolo havia saído quando a caçula começou a limpeza no quarto do primeiro andar.

Quando Francesca puxou a cama para varrer o canto do quarto, o ruído de um objeto caindo no chão chamou a atenção dela. As mãos da garota resgataram do piso de madeira o velho caderno, que provavelmente estava escondido no canto do colchão.

A curiosidade fez com que a menina abrisse a capa de couro e folheasse as páginas já amareladas. O conteúdo, escrito na caligrafia de Richard, deixou a filha petrificada por longos minutos. Além das palavras chocantes, o caderno contava com desenhos e descrições detalhadas de um universo completamente diferente do “normal”.

O caderno chegava a ser um pouco cruel e aterrorizante, mas Francesca tentou convencer a si mesma de que tudo aquilo era obra de um adolescente entediado e com a imaginação fértil. Quando Richard era jovem, as opções de lazer eram bem mais restritas. Como não possuía celular, não tinha fácil acesso à internet e nem vivia na era do shopping center, Richard provavelmente se divertia criando histórias de terror em um velho diário.

Embora o conteúdo daquelas páginas parecesse incomodamente real e provocasse arrepios na garota, a curiosidade foi maior e Francesca escondeu o caderno sob a blusa para conseguir levá-lo para o seu quarto. Desde então, a menina folheava as páginas e lia aquelas histórias com um misto de medo e fascinação. Apesar de tudo, os relatos eram muito bons. Era como ler um livro de terror de excelente qualidade.

- Você vai ter certeza que eu estou ficando louca...

Enquanto falava, Francesca ergueu-se da cama e foi até o seu armário. O caderno estava escondido na última gaveta, sob várias camadas de roupas. Era notavelmente um objeto velho, com a capa de couro já bastante gasta, as folhas amareladas e a tinta da caneta já meio apagada em alguns pontos da leitura.

- Eu comecei a ler como um passatempo, mas acho que fiquei impressionada com algumas partes e comecei a ter ideias esquisitas. Na verdade, o que eu mais quero é que você me diga que tudo isso é uma grande bobagem, Sam.

Antes de entregar o caderno para Samantha, Francesca folheou as páginas até chegar à história que mais havia incomodado. Os olhos verdes deslizaram rapidamente pela caligrafia de Richard antes que o objeto fosse passado para as mãos de Archibald.

“Gallup – Novo México, 28 de setembro de 1983.

Nesta noite, eu finalmente localizei o covil dos lobos. O grupo era formado por quatro monstros e eles se escondiam em uma fazenda abandonada a oeste do condado. A julgar pelas condições do local, eles não estavam aqui há muito tempo. Isso também explica a quantidade limitada de rastros em uma cidade tão pequena.

Não foi difícil me livrar dos dois mais jovens. Os lobos recém-transformados costumam ser mais fortes e violentos, mas agem movidos puramente por instintos e possuem uma transformação incompleta, limitada ao surgimento de garras, presas pontiagudas e pêlos no rosto e braços, além dos olhos amarelos. Eles atacam sem nenhuma estratégica. Basta uma boa mira para pará-los com uma bala de prata cravada no meio da testa. A prata queima o corpo de um lobo, mas para garantir a morte da fera é aconselhável que se arranque por completo a sua cabeça.

O terceiro monstro me deu um pouco mais de trabalho. Tratava-se de um lobo mais experiente, um beta bem desenvolvido, com pleno controle de seus instintos. Ele inicialmente escondeu-se e tentou me surpreender no celeiro. Se eu fosse menos experiente, certamente teria me tornado mais uma das vítimas de Gallup. Mas, depois de tantos anos neste negócio, atrevo-me a dizer que tenho instintos quase tão apurados quanto os das criaturas que extermino. Quando o beta armou o ataque, eu já esperava por ele com o dedo no gatilho.

Como eu já esperava, o maior desafio da noite foi abater o Alpha. O líder da alcateia é sempre o lobo mais forte, possui uma transformação completa e tem pleno controle de toda a sua selvageria. Ele já estava transformado quando eu o localizei no campo de milho. O monstro tinha facilmente mais de dois metros de altura, o corpo todo coberto por pêlos negros, o rosto animalesco com enormes garras e dentes pontiagudos. Mesmo na escuridão da noite, era possível notar os seus olhos vermelhos como sangue.

O uivo potente da fera ecoou por todo o campo. Ele estava furioso e ferido depois de ver a sua alcateia dizimada. Apoiado apenas nas patas traseiras, o Alpha inclinou o tronco antes de saltar na minha direção, já pronto para uma mordida letal. A expressão dele deixava claro que ele me mataria, eu sequer teria a chance de me tornar um deles. Estávamos distantes um do outro, mas essas são criaturas dotadas de habilidades anormais quando se trata de força, agilidade e velocidade. Também possuem os sentidos apurados, principalmente olfato e audição.

Antes que eu pudesse pensar, já senti o hálito quente do lobo próximo demais. Foi num reflexo salvador que apertei o gatilho. A bala de prata perfurou o crânio, abrindo um buraco na região entre os dois olhos vermelhos. O Alpha foi ao chão, mas continuou se remexendo. Eu fixei meus olhos naquelas íris vermelhas demoníacas enquanto usava o meu punhal para cortar fora a cabeça do lobo.

Depois do último suspiro, a forma dele mudou. Os olhos se tornaram castanhos e o lobo deu lugar a um menino magricela de no máximo vinte anos. Seria um crime imperdoável se aquele não fosse o líder dos monstros que já haviam matado mais de dez pessoas na pequena cidade de Gallup.

Eu queimei os corpos e enterrei os restos para não deixar rastros. Um bom caçador nunca deixa vestígios dos seus trabalhos.”


Francesca analisava com extrema atenção cada uma das expressões da amiga enquanto Samantha lia aquela história. O caderno estava recheado com aqueles relatos sobrenaturais, mencionava uma infinidade de monstros e contava até com alguns desenhos. Parecia um livro de ficção, mas aquela história sobre lobisomens prendera a atenção de Sullivan. Mesmo repetindo para si mesma que era uma grande bobagem, a menina não conseguia deixar de fazer comparações entre aquela história e o que vinha acontecendo com Damien.

O uivo, o banheiro da Constance Billard completamente destruído, o elo entre Scott, Jack e Max, o fato de Scott obedecer Cavendish sem questionar...

Também era impossível não se perguntar como Damien havia localizado com tanta facilidade a farmácia em que Francesca entrara naquela madrugada, ou como ele havia conseguido escalar a casa dos Sullivan para chegar à pequena janela do sótão. Tal explicação também se encaixava na sensação de que Jack ouvia a conversa da mesa, mesmo há metros de distância.

Era uma grande loucura, mas aquela hipótese explicava melhor os últimos acontecimentos do que as mentiras de Damien e Maximilian.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Sex Jul 15, 2016 2:39 am

A fúria com o comportamento irresponsável de Damien na noite anterior se dissipou no instante em que Maximilian notou o quanto o recém-transformado estava sofrendo. Embora Scott fosse um adolescente inconsequente e demonstrasse uma imensa dificuldade em cumprir ordens e aceitar as regras da alcateia, naquele instante Max conseguiu enxergar nele um jovem completamente confuso e abalado com as mudanças bruscas que aconteciam em sua vida.

Era óbvio que Scott estava dividido entre a sua personalidade forte, os instintos que adquirira com a maldição e o elo indestrutível criado com Francesca Sullivan. A marcação já seria um momento complicado na vida de qualquer lobisomem maduro. Era de se esperar que aquela situação virasse a existência de um recém-transformado ao avesso.

- Realmente não foi uma coincidência. Você e a Sullivan estão marcados.

Apesar de manter uma entonação séria, a expressão de Max se amenizou enquanto o Alpha explicava para Damien a natureza daquele instinto que ele desconhecia.

- A marcação é algo que pode acontecer com qualquer lobo, você só teve o azar de marcar uma garota logo depois de receber a maldição. Por mais que a Sullivan funcione como uma âncora, ela desperta os seus instintos mais primitivos e faz com que você tenha ainda mais dificuldade de se controlar quando está longe dela.

- É um lance bizarro. – Jack se meteu na conversa ao notar que Scott ainda não havia compreendido a intensidade daquele termo – Quando ocorre uma marcação, é como se os instintos de um lobo escolhessem uma pessoa como o centro do seu universo. Ela se torna a coisa mais importante da sua vida, é um elo sentimental que vai existir para sempre, não importa o que aconteça. Ela te torna mais forte, mas ao mesmo tempo te deixa mais vulnerável quando não está por perto.

O beta fez uma pausa e piscou um dos olhos para Damien, abrindo um sorrisinho divertido antes de completar.

- A boa notícia é que algo muito parecido ocorre com ela. Mesmo que a garota não tenha a maldição, é como se ela fosse “contaminada” pela intensidade do seu instinto. O seu amor é correspondido, ela também sente que nada importa mais do que você.

Era impossível para Maximilian não se lembrar de Samantha enquanto Jack descrevia os sentimentos de um lobo marcado. Cavendish não enxergava no seu relacionamento com Sam toda aquela irracionalidade que existia em uma marcação. Mas era uma verdade que Archibald só precisara de alguns dias para se tornar muito importante na vida do Alpha. E era muito nítida a impressão de que sua memória jamais permitiria que as lembranças de Sam se perdessem na cabeça de Max, mesmo com o passar do tempo.

Mesmo com aquelas ideias incômodas na mente, Cavendish tentou se concentrar no problema do recém-transformado.

- Mesmo com esta conexão tão forte, não é garantido que você nunca machucaria a Sullivan. O lobo dentro de você também gosta dela, mas isso não faz dele um ser menos selvagem. Ele é um monstro irracional que não pode concluir que a pele da Francesca é delicada demais para as suas garras e presas.

- É por isso que você precisa aprender a se controlar. – Jack também estava mais sério quando completou – No começo é complicado mesmo, moleque, mas com o passar das luas você aprende a manter o domínio da mente mesmo quando o seu corpo é tomado pelo lobo. E, depois de alguns meses ou anos, você se torna capaz de controlar até mesmo as transformações físicas.

- Estamos aqui para te ajudar nisso. É menos complicado quando não se está sozinho. – o Alpha manteve uma entonação menos ríspida ao completar – Mas precisamos que você colabore e faça a sua parte, Damien. Só você pode evitar que a Sullivan se machuque.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sex Jul 15, 2016 3:23 am

Olhos vermelhos. Força. Rapidez. Garras. Caçadores. Lobos. Aphas. Betas. Balas de prata???

A cabeça de Samantha girava enquanto ela tentava organizar os pensamentos. O relato do diário em suas mãos parecia se encaixar perfeitamente em algum filme bizarro ou algum seriado novo que ela pudesse assistir no Netflix. Era fácil deduzir que a história era contada por um caçador de lobisomens, uma história muito bem contada aliás.

Archibald era apaixonada por fatos e pela lógica. E em toda sua vida, nunca houve lógica alguma imaginar em criaturas sobrenaturais dividindo o mesmo universo que eles. Definitivamente, era uma ideia completamente absurda encaixar a história do diário nas suspeitas que estavam tendo a respeito de Max e Damien.

Apesar da loucura daquela teoria, o que mais intrigava Samantha era fazer conexões com as semelhanças do diário e as pontas soltas de Cavendish e Scott. O banheiro destruído definitivamente exigia uma força absurda.

Ela se lembrava da mãe contando a respeito da investigação policial que havia chegado a conclusão de que o ataque havia sido causado por um animal, graças as marcas de garras e os tufos de pelos. E poderia jurar ter visto um reflexo vermelho nos olhos de Max, na primeira vez que estivera em seu apartamento. A lembrança da caixinha de lentes de contato voltou a sua mente, desta vez parecendo muito mais relevante do que antes.

A velocidade com que Cavendish havia passado por ela para chegar até Damien no dia do incidente não podia mais ser ignorada. Eram muitas coisas que, quando somadas, eram bizarras demais.

Damien e Max se contradiziam em contar a história do que havia acontecido no banheiro e os rapazes obviamente estavam guardando um segredo. Mas lobisomens?

- E se não for uma loucura tão grande assim?

A voz de Samantha saiu em um chiado quando o pensamento acabou escapando pela sua garganta. Os olhos ainda estavam presos nas páginas amareladas do diário e seu coração estava acelerado a cada segundo que passava, permitindo que sua mente absorvesse aquela ideia tão absurda.

- É lógico que é um absurdo e que estamos ficando malucas com esses dois. – Sam ergueu o rosto para encarar a amiga, mas a palidez em seu rosto demonstrava que ela estava cada vez mais crente. – Mas por mais surreal que seja, faz algum sentido, não faz?

O diário foi fechado com calma, como se Archibald tivesse medo de que algum monstro fosse escapar de suas páginas. Ela deslizou o objeto com calma até a escrivaninha de Sullivan antes de se colocar de pé, caminhando de um lado ao outro pelo quarto.

- Eles obviamente têm um segredo. E se tudo que está escrito aí for verdade... – Ela apontou para o diário, como se o acusasse por toda angustia que sentia. – Max é o líder, ou o Alpha, que seja. Eu pensei ter visto um reflexo vermelho nos olhos dele uma vez. E hoje eu descobri que ele usa lentes de contato. O que não seria nenhum crime, a não ser que ele estivesse tentando esconder as tais “íris cor de sangue”.

Sam parou diante de Francesca e juntou as mãos, como se estivesse rezando, e as levou até os lábios, sem ao menos se importar em justificar como havia descoberto as lentes de Max naquela manhã.

- Fran, pensa bem... Se Max é mesmo o tal Alpha, isso explicaria porque o Damien o obedece como um cachorrinho treinado. Pelo que tá escrito ali, ele precisa obedecer.

Se sentindo muito agitada, Archibald deslizou para a cama, sentando ao lado da amiga. Ela dobrou uma das pernas, se sentando sobre o tornozelo. Seus olhos brilhavam em expectativa.

- Eu não sei o que a gente pode fazer para provar essa teoria ou descarta-la de vez. Mas você já parou que tem um outro problema em mãos? – Sam fez uma pequena pausa, arqueando as sobrancelhas. – Se isso for mesmo verdade, seu pai é um caçador de lobisomens?
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Sab Jul 16, 2016 2:15 am

Por estar tão focada em Damien, Francesca ainda não havia parado para pensar no que aquela bizarra desconfiança sobre Scott significaria para os Sullivan. Se aquele diário não era uma obra de ficção e o sobrenatural era uma realidade, isso também significava que Richard Sullivan estava totalmente envolvido naquele estranho mundo.

Quando Samantha levantou aquela questão, os olhos esverdeados de Francesca se arregalaram. O rosto da garota perdeu toda a cor e seu queixo caiu enquanto várias peças soltas se encaixavam na sua mente.

Tudo fazia sentido agora. Os Sullivan mudando de cidade repetidamente, o arsenal que Richard guardava consigo, os sumiços inexplicáveis do pai, os horários estranhos do “emprego” de Richard e Paolo... Todas as pontas soltas que Francesca acumulara ao longo de toda a vida agora finalmente podiam ser explicadas.

Os olhos da caçula dos Sullivan se encheram de lágrimas quando ela se lembrou do “acidente” que o pai sofrera durante uma caçada com os amigos. Nunca havia ficado claro para os médicos se tinha sido um ataque de ursos ou lobos. Richard nunca falava sobre o assunto e alegava ter perdido a memória do dia do ataque. Mas agora era óbvio para Francesca que o pai se tornara uma vítima das criaturas que caçava. Muito provavelmente, fora um ataque de lobisomens.

Esta conclusão fez com que Francesca experimentasse a pior sensação de toda a sua vida. A menina simplesmente não sabia como se sentir diante da certeza de que seu pai quase fora morto por uma criatura que compartilhava os mesmos instintos que agora Damien possuía. O mundo estava desmoronando sob os pés de Francesca com a certeza de que ela ficaria bem no meio de uma guerra entre Damien e os Sullivan.

- O meu pai é um caçador de criaturas sobrenaturais.

Não havia mais dúvida na entonação da menina. As peças se encaixavam com tanta perfeição que Francesca tinha certeza de que aquele diário era real, que o sobrenatural existia e que a profissão dos homens da família Sullivan era exterminar aqueles monstros. Um arrepio fez a garota estremecer quando veio à sua mente a lembrança de Paolo encostando uma arma na cabeça de Scott. Agora a caçula não tinha mais dúvidas de que o irmão teria apertado o gatilho se soubesse toda a verdade sobre Damien.

- Ele tem uma coleção de armas e eu fui tola o bastante para acreditar que era apenas uma herança de guerra do avô dele. Nunca ficamos muito tempo na mesma cidade porque meu pai precisava seguir os rastros dessas criaturas pelo país. Ele ficou doente...

Francesca precisou de uma pausa para recuperar o fôlego. Ainda era muito difícil falar sobre a tragédia ocorrida com Richard.

- Ele disse que estava numa caçada com alguns amigos. Eu sempre achei que fosse uma caçada normal, mas agora faz sentido. Estávamos no Kansas, não tem relato nenhum de ursos ou espécies de lobos selvagens na região. Meu pai provavelmente foi atacado por... – Francesca reduziu a voz para sussurrar aquela palavra – ...lobisomens.

Por mais que as coisas estivessem muito claras na cabeça de Francesca, ela sabia que precisava de uma prova concreta para acreditar que Damien havia mesmo se tornado um “lobo”.

A ideia de questioná-lo de forma mais direta não parecia muito promissora. Assim como vinham fazendo, Scott e Max poderiam sustentar a mentira mesmo diante de um interrogatório. Também não parecia uma ideia muito inteligente seguir os passos de rapazes que podiam se transformar em feras a qualquer momento.

O caderno dos Sullivan estava fechado sobre a escrivaninha do quarto, mas Francesca já havia lido aquele relato de Gallup tantas vezes que as palavras ainda estavam frescas em sua mente. Os olhos verdes se iluminaram quando a menina se lembrou de uma das passagens escritas pelo pai.

- Prata. – Francesca repetiu a exata frase de Richard – A prata queima o corpo de um lobo.

A ansiedade da garota se refletia nas íris esverdeadas quando Francesca encarou a amiga. A filha dos Archibald sem dúvida poderia ajudar naquela ideia.

- Eu não tenho nenhum objeto feito com prata pura, mas imagino que você possa conseguir algo com mais facilidade. Só temos que fazer um deles tocar num objeto de prata, Sam. É a prova que precisamos.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Dom Jul 17, 2016 2:48 am

Mesmo depois que Max e Jack deixaram seu quarto, horas e horas depois do que pareceu uma dolorosa sessão de terapia, Damien permaneceu deitado em seus lençóis sujos, pensando em todos os acontecimentos e repetindo mentalmente cada uma das frases do Alpha e do Beta.

Cada vez mais, aquele mundo se tornava mais familiar, sendo ainda mais fácil começar a aceitar suas limitações. A maldição da mordida trazia consigo poderes incríveis, ele poderia sentir uma folha cair no chão há metros de distância caso se concentrasse, e poderia sentir odores não só das coisas, como também dos sentimentos. Jack havia comentado que quando alguém sentia algo muito intensamente, como medo ou raiva e ansiedade, um odor particular era deixado para trás, tornando mais fácil para um lobisomem seguir seus rastros.

Sua visão noturna era uma novidade que ele também havia se surpreendido. Mesmo na escuridão, era como se seus olhos se adaptassem para enxergar quase como se tivesse um binóculo de infravermelho. A força e o reflexo eram, sem dúvidas, o que ele mais gostava.

Mas não eram apenas os benefícios que agora Scott carregava em seu DNA. Um lobo sempre estaria adormecido em seu peito, e ele sabia que mesmo se chegasse ao nível de controle de Max ou Jack, sua mente sempre estaria em alerta com aquele perigo. Estava gravado em sua memória a imagem da criatura refletida no espelho, com os dentes e garras, seu rosto contorcido e coberto de pelos.

O pior peso era, com certeza, o medo do que ele pudesse causar para as pessoas ao seu redor. A imagem de Francesca ensanguentada em seus braços começara a assombrá-lo no instante em que Max havia mencionado e agora estava grudado na parede de sua memória, como uma lembrança assustadora de algo que nunca havia acontecido, mas era possível.

Damien levantou em um sobressalto, sentindo que enlouqueceria se permanecesse ali se torturando. Em um gesto brusco, ele arrancou os lençóis sujos, expondo o colchão, e os embolou em seus braços antes de seguir pisando duro até a lavanderia. Em questão de minutos, Scott havia tomado um banho e deixado a casa para trás, com o pensamento fixo em Sullivan.

Já passava da hora do almoço quando Scott garantiu que o Impala não estivesse estacionado na frente da casa dos Sullivan. Por um segundo, ele analisou a possibilidade de escalar a parede como havia feito na outra noite, mas a claridade do dia era um risco muito grande que não poderia ser ignorado.

Respirando fundo, Damien tocou a campainha e endireitou a coluna quando a porta foi aberta, revelando um homem na cadeira de rodas. Era fácil identificar as semelhanças entre o Sr. Sullivan e a filha caçula, mas eram as diferenças que faziam Scott manter o olhar preso no homem a sua frente.

As marcas de garra fizeram seu estômago se contorcer e por um instante ele pensou estar tendo um pesadelo. A cadeira de rodas era facilmente o item menos chamativo na figura do homem, mas Damien tentava um esforço absurdo para não encarar a ausência de um braço.

- Então...? – O Sr. Sullivan perguntou com a voz arrastada, quando Damien passou tempo demais em silêncio.

- Oi! Ahn... oi! Eu sou... vim ver... ahn... – Damien lançou um olhar ansioso por cima do ombro do homem, vendo o interior da sala. – A Francesca está?

- Damien?

A voz feminina no interior fez com que Damien enrugasse a testa, se surpreendendo ao ver Samantha Archibald. Seu rosto se iluminou quando ele viu, logo ao seu lado, os cabelos castanhos-avermelhados de Francesca.

- Acho que o seu amigo perdeu a fala, Francesca. – O Sr. Sullivan deslizou a cadeira de rodas para o lado e Damien sentiu o rosto esquentar.

Samantha continuou encarando com estranheza para ele, mas para seu imenso alívio percebeu rápido demais seu desconforto, se adiantando para a porta com os braços erguidos.

- Você está atrasado! Começamos o trabalho de história sem você, estamos quase terminando na verdade.

Scott quase se entregou ao perguntar que trabalho de histórias era aquele, mas quando sentiu as unhas de Samantha afundarem em sua pele, o puxando para dentro da casa, Damien percebeu que a menina estava lhe fazendo um grande favor.

Ele lançou um sorriso nervoso na direção do pai de Francesca, que o encarava de forma curiosa, enquanto ele era arrastado até o quarto da menina, no andar superior. O cômodo era exatamente como ele se lembrava, com a diferença de que agora era banhado pela luz do dia que entrava pela janela.

Embora estivesse satisfeito pela intervenção de Archibald, Scott não havia atravessado o Brooklyn para ficar com uma terceira pessoa no quarto, atrapalhando o pouco tempo que tinha com Francesca.

- Trabalho de história? – Ele perguntou com zomberia, enquanto Sam fechava a entrada do quarto que vinha pelo chão.

- O pai da Francesca tem uma arma, sabia?

- Pois é, o irmão dela já fez questão de me mostrar pessoalmente.

Seu olhar finalmente pousou em Francesca, suavizando sua expressão irônica. Eles haviam se visto há poucas horas, mas Scott já se sentia enlouquecido de saudade dos beijos e carícias da menina.

Ignorando a presença de Samantha, Damien se inclinou para depositar um beijo suave nos lábios de Francesca, afagando carinhosamente seus cabelos sedosos.

- O que você está fazendo aqui? – Samantha perguntou, sem se importar se estava atrapalhando o momento do casal.

Um suspiro pesado escapou dos lábios de Scott e ele se manteve de costas para a colega, encarando apenas Francesca e se dirigindo para ela.

- Eu só precisava ficar um pouco com você. Combinei com a minha mãe que iria até New England com ela, minha avó torceu o pé e precisa de ajuda com umas coisas pelo resto da semana.

A mentira saía da boca de Scott com facilidade. A mãe da Sra. Scott morava na Califórnia e estava transbordando saúde. Sua avó paterna estava do outro lado do oceano, tomando o chá das três com seus hábitos britânicos. Mas Francesca sabia pouco sobre sua família para imaginar que aquela viagem seria mais uma das ordens de Maximilian.

O Alpha lhe alertara repetidas vezes sobre os perigos da lua cheia, e uma cidade tumultuada como Nova York não era o lugar ideal para um lobisomem recém-transformado passar seus dias mais difíceis.

Damien ainda acreditava que teria o controle, mas havia prometido obedecer às regras da alcateia, e aquilo incluía se isolar em New England durante aquela semana. A cidade, embora relativamente próxima de Nova York, era rodeada de florestas e com uma movimentação infinitamente menor, minimizando os riscos de uma transformação descontrolada.

Imaginar passar a próxima semana longe de Francesca, dormindo em um colchão de molas que rangiam em um hotel barato, sem qualquer familiaridade, lhe causava um profundo desanimo. Mas quanto antes Scott tivesse o controle daquela situação, logo ele não apresentaria mais riscos para Sullivan.

- New England? – Samantha se intrometeu, cruzando os braços contra o peito.

Sua presença se tornava cada vez mais irritante para Damien, que sentia os segundos preciosos com Francesca passando, sem recuperação.

- É, Samantha. New England. – Ele bufou sobre o ombro quando se virou para encarar Archibald, mas novamente suavizou o olhar quando acariciou o rosto de Francesca. – São só alguns dias. E podemos nos falar por mensagem o tempo todo. Você nem vai perceber que eu fui embora.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Dom Jul 17, 2016 3:55 am

- Você foi duro demais com o moleque. Sim, ele fez uma grande burrada. Mas é só um recém-transformado que, além de todas as dificuldades da maldição, também precisa lidar com uma marcação. Não deve ser fácil pra ele, Max.

Depois de tantos anos de amizade, era muito raro que Maximilian e Jack discordassem em qualquer assunto. Além do respeito que possuía pelo Alpha, Jack tinha pensamentos bem semelhantes aos do amigo. Naquele dia, porém, o Beta se encheu de coragem para se opor ao comportamento que Cavendish tivera com o novato.

Ninguém negaria que Damien havia cometido um erro sério na noite anterior e precisava ser repreendido com firmeza. Mas Jack achou que era desnecessário tratar o garoto com tanta rigidez. Chegava a ser uma tortura descrever para um lobo a imagem da garota com quem ele era marcado morta pelas mãos dele.

- Agora você vai querer me ensinar como eu devo agir, Jack? Se está insatisfeito com a forma como eu lidero o grupo, você tem a mesma opção que dei ao Scott.

As palavras duras de Cavendish ecoaram no apartamento silencioso. Os dois tinham acabado de voltar para o prédio de Max e Jack estava espiando os itens da geladeira quando recebeu aquele corte gelado do amigo. O beta ergueu o tronco e acertou a postura enquanto fechava a porta da geladeira, ignorando a tentadora fatia de pizza que Maximilian guardara em uma das prateleiras.

Quando voltou os olhos para o melhor amigo, Jack exibia uma expressão séria que não lhe era comum. Mesmo diante dos piores problemas, o rapaz costumava conservar o seu típico bom humor. Mas não existia nem a sombra daquela leveza quando o Beta tomou a palavra.

- Você não se tornou um Alpha por causa da sua força, muito menos porque tínhamos medo de você. O seu lugar foi conquistado por respeito e admiração, Max. E você vai perder isso se continuar agindo como um babaca.

Um brilho avermelhado iluminou as íris do Alpha, mas nem mesmo isso intimidou Jack. Mesmo sabendo que Maximilian era infinitamente mais forte e mais ágil, o Beta manteve a postura firme. Jack não estava ali como um membro da alcateia. Ele era apenas um bom amigo disposto a dar conselhos.

- Eu não sei o que rolou entre você e a tal garota esta noite. Se não quer me contar, tudo bem. Mas você não tem o direito de descontar a sua frustração no moleque, em mim ou em qualquer outra pessoa.

A fúria de Max foi se dissipando na medida em que o rapaz chegava à conclusão de que as acusações de Jack tinham fundamento. Como Alpha, Maximilian tinha o dever de repreender Damien pelo erro da noite anterior, mas realmente não havia necessidade daquele comportamento hostil. Scott não era o primeiro recém-transformado que fazia bobagem e Cavendish jamais havia sido tão duro com nenhum outro lobo antes daquela manhã.

Além disso, era inaceitável que Jack fosse tratado daquela forma autoritária quando estava claro que a intenção do amigo era apenas ajudar.

- Desculpe. – o semblante de Max se suavizou e ele deixou escapar um suspiro cansado – Me desculpe, Jack. Eu estou com a cabeça cheia, não dormi quase nada, estou exausto. É claro que não estou falando sério, eu não saberia o que fazer se você deixasse a alcateia.

Jack assentiu com a cabeça e curvou os lábios num meio sorriso satisfeito ao ver que o velho Max estava de volta. Aquele era o líder elegido pela alcateia. Um pedido de desculpas sincero era a maior prova de que o orgulho de Max não era maior que o seu zelo pelo grupo.

- Beleza, relaxa. Tenta descansar um pouco, deixa que eu organizo tudo pra nossa jornada até New England.

Já recuperado da tensão do momento, Jack voltou a abrir a geladeira e desta vez não ignorou a fatia de pizza. O pratinho foi posto no micro-ondas e o sorriso do Beta se alargou ao encontrar uma lata de Coca-Cola numa das prateleiras mais baixas.

- Hoje é o meu dia de sorte. – a lata do refrigerante foi aberta e Jack tomou um grande gole – Confesso que tive medo de que a sua geladeira mudasse por causa desse namoro. Você sabe, as garotas tem toda essa mania de coisas saudáveis. Tive um pesadelo bem vívido com cenouras e aspargos caindo como uma avalanche depois que eu abria a porta da sua geladeira.

Quando Jack nomeou o relacionamento de Max e Samantha como “namoro”, um sorriso amargo surgiu nos lábios do Alpha. Definitivamente os dois não tinham chegado nem perto disso. Sam já tinha um namorado oficial. Cavendish, no máximo, fora uma aventura na vida da filha dos Archibald.

- Se é isso que te preocupa, pode voltar a dormir tranquilo, Jack.

- Eu não sei. – o rapaz tomou mais um gole da Coca-Cola – Ela esteve aqui esta madrugada. Isso não diz nada pra você, Max?

Uma das sobrancelhas grossa de Jack se arqueou enquanto ele observava a expressão confusa do melhor amigo.

- Bom... – Jack deu de ombros e fez uma pausa para resgatar a pizza depois que o micro-ondas apitou – Você e o tal namorado ficaram igualmente putos na noite passada, ela enganou vocês dois. Mas ela precisou fazer uma escolha na hora de consertar a burrada. E ela veio aqui, não foi?

Era clara a intenção de Jack em direcionar o melhor amigo para um pensamento favorável a Samantha. Jack havia ficado furioso quando soube que Sam enganara Max, mas agora ele realmente achava que a menina merecia mais uma chance.

- Não me entenda mal, Max. Você é legal, é um cara bem charmoso e bonitão. Se eu fosse uma garota...

- Esta conversa está ficando estranha. – Max acabou rindo enquanto interrompia o amigo.

- Tá mesmo, esquece. – Jack girou os olhos – Resumindo a ideia: você tem as suas qualidades, mas o tal Caleb é podre de rico, tem cara de príncipe e certamente os Archibald aprovam inteiramente o namoro. Se a Sam veio pra cá ao invés de correr atrás do cara, talvez ela não tenha mentido sobre querer ficar com você.

- Ela te deu quanto pra encher a minha cabeça?

Embora aquelas palavras atingissem Maximilian em cheio, o rapaz fingiu um forçado sorrisinho, como se não estivesse levando aquela conversa a sério.

- Nada. Só quero garantir que o seu mau humor não desmonte a alcateia. Você fica meio babaca sem a Sam. Sem ofensas.

Os olhos falsamente azuis giraram enquanto Cavendish dava as costas ao amigo, disposto a seguir o conselho de Jack sobre descansar. Não seria fácil dormir depois de todas as emoções das últimas horas, mas Max sabia que precisava tentar.

Com a porta do quarto fechada, o cheiro de Samantha se tornava quase sufocante. Os lençóis nos quais a garota dormira ainda estavam amassados e foi frustrante para Maximilian deslizar os dedos no tecido e não sentir mais o calor que Sam deixara ali.

Embora não conseguisse ser tão otimista quanto Jack, Cavendish sabia que o amigo tinha uma parcela de razão. Samantha havia cometido um erro grave, mas parecia muito injusto que ela não tivesse uma segunda chance para se redimir.

Quando puxou o celular para seus dedos, Max não sabia se estava tomando a decisão certa. Era especialmente difícil para um líder não ter certeza sobre as suas decisões, e era ainda mais complicado deixar o orgulho de lado e tentar superar uma grande traição. Mas o perfume de Samantha foi o combustível que moveu Maximilian naquela iniciativa. A mensagem foi digitada e apagada várias vezes até que o polegar de Max tocou o “enviar”.

“Eu lamento pelo meu comportamento desta noite. Eu estou muito chateado, mas isso não me dava o direito de te tratar daquela forma. Surgiu um imprevisto no trabalho e terei que fazer uma viagem de poucos dias. Se você ainda estiver disposta a conversar na semana que vem, podemos marcar um encontro na cafeteria.”
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Dom Jul 17, 2016 4:32 am

Francesca Sullivan teve a nítida impressão de que o seu mundo havia parado de girar quando Richard e Damien ficaram frente a frente. Os dois ainda não sabiam o tamanho da rivalidade que os separava, mas as duas meninas não tinham mais dúvidas de que eles pertenciam a grupos opostos de uma guerra sangrenta.

A presença de Samantha na casa dos Sullivan foi o que salvou Francesca de uma síncope. A garota ficou completamente petrificada diante daquele encontro, mas Sam conseguiu reagir a tempo de inventar uma bela desculpa que justificasse a presença de Scott na vila. A voz continuou presa na garganta de Francesca enquanto a amiga puxava Damien para dentro da casa, sob o olhar desconfiado de Richard.

Embora o seu corpo fosse incapaz de reagir rápido, a mente de Francesca trabalhava agilmente. Um milhão de pensamentos brotavam e se chocavam, afundando-a em um mar de confusão.

Tudo o que a garota conseguia se perguntar era se bastaria um encontro rápido como aquele para que Richard descobrisse a verdade. Sem dúvida, ele era um caçador experiente e reconhecia os rastros deixados por lobisomens. Mas será que o pai era capaz de enxergar alguma coisa a mais em Scott? Aos olhos de Francesca, ele era apenas um garoto comum. Mas um caçador experiente sem dúvida não deixaria escapar nenhum sinal.

O pânico da garota começou a se dissipar quando Richard não se opôs à ideia de Damien subir para o sótão com as garotas. Um pai jamais concordaria que sua filha ficasse tão próxima a um lobisomem, longe do alcance das armas dele. Possivelmente, Richard concluíra que Scott era simplesmente o tal rapaz de quem Francesca gostava, o que explicava o constrangimento dele e a surpresa dela com aquela visita, bem como a intervenção da amiga.

Mesmo que Francesca tivesse quase certeza sobre o monstro que vivia dentro de Damien, não havia medo ou nojo no olhar aliviado que ela lançou a ele quando o trio finalmente chegou ao sótão. Era como se Sullivan intimamente tivesse a certeza de que Scott nunca faria nenhum mal a ela.

Sem se importar com a presença de Samantha, Francesca não se esquivou do beijo de Damien. Ao contrário, a carícia foi retribuída e os braços da menina o enlaçaram pelo pescoço, trazendo Scott para junto dela. Os olhos verdes foram fechados com firmeza e Francesca não resistiu à tentação de deslizar a pontinha do nariz pelo pescoço do rapaz, deliciando-se com o perfume da pele dele.

Embora os dois tivessem se visto há poucas horas, Francesca já sentia uma saudade sufocante do colega. Por isso, a ideia de ficar uma semana inteira longe de Damien não foi bem recebida pela menina. Sullivan se desvencilhou do abraço para encarar Scott com uma expressão menos amigável.

- Não diga asneiras. – com as sobrancelhas franzidas, Francesca acertou um tapinha leve no peito de Scott – É óbvio que eu vou perceber que você não está por perto! As suas bobagens me irritam, Scott!

Embora estivesse bastante chateada com aquela repentina separação, Francesca não tinha argumentos para acusar Damien de estar mentindo. Ela sabia muito pouco sobre a família dele, sobre o passado dos Scott, sobre a vida que Damien levava antes de conhecê-la. Embora aquela parecesse mais uma das mentiras do rapaz, Sullivan não podia excluir por completo a possibilidade de realmente haver uma avó precisando de ajuda em New England.

Um arrepio percorreu o corpo de Francesca quando ela pensou que aquela viagem poderia ser uma fuga. Mas a menina só precisou de dois segundos para concluir que Damien não conseguiria dar as costas a ela. Os dois tinham construído um elo inexplicável, mas intenso o bastante para que uma separação definitiva se tornasse a pior das torturas.

- É impressionante como você sempre dá um jeito de escapar sem conversar comigo. – as palavras foram sussurradas apenas para Scott – Eu estou falando sério. Se você não me contar o que está havendo, nem precisa voltar.

Os lábios grossos de Francesca se curvaram num biquinho de insatisfação que deixava bem claro que a menina não estava falando sério sobre não querer que Damien voltasse.

- E avise da próxima vez que for aparecer na porta ao invés de pular a janela. O meu coração não aguenta tanta emoção! Eu estou vivendo muito bem sem ver uma arma apontada para a sua cabeça oca!
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Jul 17, 2016 4:46 am

A mente de Samantha estava agitada e seus gestos eram basicamente mecânicos que ela sequer percebeu que já estava em casa, subindo as escadas em direção ao seu quarto, até que uma mão a tocou pelo pulso.

Com os pensamentos passeando entre lobisomens, prata, Alphas e Betas, Sam foi puxada de volta a realidade quando encontrou o par de olhos esverdeados de Caleb.

O rapaz também parecia que tinha tido uma péssima noite, estava cansado e com algumas olheiras. Seu rosto abatido mostrava que além do cansaço, ele se sentia miserável e ansioso ao mesmo tempo.

- Onde você estava?

O olhar de Sam passou pela mão em seu pulso até encontrar os olhos verdes novamente. Era estranho ver a insegurança estampada no rosto de Stark, principalmente saber que ela era a responsável por trazer aquilo à tona, ofuscando o rapaz perfeito de sempre.

- Estava com a Francesca. O que você está fazendo aqui?

A presença de Caleb era um tanto incômoda. Archibald tinha um milhão de coisas para pensar, dezenas de teorias para ocupar as próximas horas e a última coisa que precisava era mais um conflito com Caleb. Apesar disso, sua voz era amansada pela culpa que a impedia de ser grossa com o rapaz.

- Eu disse que iria aparecer para conversarmos. Te esperei o dia inteiro. Achei que você estivesse com ele.

A dor nas palavras de Caleb fazia o coração de Samantha se espremer. Ela foi obrigada a desviar o olhar e se sentiu agradecida quando ele a soltou. Os dois caminharam juntos os últimos degraus e entraram no quarto da menina em silêncio.

- Já disse que estava com a Francesca, Caleb. Eu imaginei que você não fosse querer me ver tão cedo.

O rapaz meneou a cabeça e mais uma vez acompanhou os passos de Samantha até que ambos estivessem sentados na beirada da cama. Havia uma distância que tornava o clima ainda mais desconfortável, tão incomum para os dois.

- Eu pensei em não vir. Estou muito magoado, Sam... Mas ao mesmo tempo em que eu estava explodindo de raiva, eu precisava muito ver você.

Os olhos castanhos continuaram encarando o chão e Sam foi incapaz de dizer qualquer coisa. Ela estava tão certa de que Stark iria querer pôr um fim naquele relacionamento que agora não sabia como agir diante daquelas palavras.

- Nós já passamos por muitas coisas juntos. Não me pareceu certo simplesmente desistir. Você não quer isso, quer?

Uma ruga havia se formado entre as sobrancelhas de Archibald e ela se sentia cada vez pior. Os sentimentos que sentia por Caleb eram verdadeiros, ela adorava sua companhia e tinha um enorme carinho pelo rapaz com quem passara tantos anos. Mas sabia que não o amava mais, pelo menos não da forma correta. Era Max que seu coração desejava agora, mas mesmo que quisesse lutar para ter um futuro ao lado de Cavendish, ela se sentiria péssima em magoar Stark.

- Caleb...

A voz de Samantha começou, e seu tom indicava que a conversa não seria fácil. Ela ergueu o rosto quando sentiu o celular vibrar em seu bolso. Quando puxou o aparelho em suas mãos, a ideia era apenas desliga-lo para que nada mais interrompesse aquele momento delicado, mas o nome de Max na tela foi o suficiente para fazê-la pausar alguns segundos e ler a breve mensagem.

Sua garganta ficou seca e ela apertou o aparelho com mais força enquanto uma vozinha ria zombeteira em sua mente. No mesmo instante, ela se lembrou de Damien contando sobre a viagem repentina para New England e a mentira se tornou bastante óbvia.

Ali estava ela, jogando todo o seu futuro no lixo, com o rapaz perfeito disposto a lhe perdoar pelos seus erros a sua frente, enquanto seu coração pedia por um mentiroso.

Samantha não poderia dizer com certeza absoluta que a teoria de Francesca era real, mas não havia mais dúvidas de que Scott e Cavendish escondiam grandes segredos a ponto de mentirem sucessivas vezes.

Como ela poderia desejar construir um relacionamento com Max se fosse para viver envolvida em suas farsas? Por mais que seu coração implorasse por ele, Samantha não estava disposta a ser enganada, dia após dia, independente do motivo que forçasse Cavendish a mentir.

- Sam? – Caleb chamou, o desespero tomando sua voz, e novamente Samantha foi trazida de volta a realidade.

Ela forçou um sorriso que pareceu fraco demais, aparecendo uma covinha em uma de suas bochechas, enquanto o celular era deixado de lado.

- Como você pode ser capaz de me perdoar, Caleb? Depois de tudo que eu fiz?

Um sorriso triste também brincou nos lábios de Stark quando ele ergueu a mão para acariciar a bochecha de Archibald com o polegar. O toque era familiar demais, mas ao mesmo tempo parecia extremamente fraternal, sem lhe arrancar os arrepios já conhecidos como acontecia com Max.

- Não estou dizendo que vai ser fácil. Mas temos que tentar, Sam. Não quero perder tudo que construímos juntos.

Se sentindo sufocada com aquela proximidade, Archibald se ergueu da cama e caminhou pelo quarto até parar diante da sua penteadeira. Ela abriu a caixinha de joias, encontrando diversos anéis e brincos. Seus dedos mergulharam entre as joias até puxar um delicado anel de prata. O aro era fino e sem grandes detalhes, mas carregava um pequeno diamante redondo que brilhava fortemente, mesmo na fraca iluminação do quarto.

A peça havia sido um dos tantos presentes de Caleb ao longo daqueles anos e parecia ainda mais errado usá-la naquela história, mas tinha o tamanho perfeito para caber no anelar de Francesca. Um simples toque em Damien enquanto ela usasse o anel, e as duas poderiam deixar para trás aquela ideia absurda de lobisomens.

Com o anel escondido em sua palma da mão, Sam se voltou para Caleb mais uma vez, se sentindo grata pela distância.

- Eu preciso de um tempo para pensar, Caleb. Na verdade, alguns dias vai ser bom para você e para mim.

A decepção era evidente no olhar de Stark. Ele deslizou a mão pelos cabelos loiros, parecendo extremamente torturado com as ideias em sua cabeça.

- Você gosta dele?

Sam espremeu os lábios por alguns segundos. Parecia muita hipocrisia sentir tanta frustração com as mentiras de Max e não encarar a verdade, por isso ela concordou com um movimento da cabeça.

- Gosto. Mas isso não quer dizer que eu vá ficar com ele. Só preciso de alguns dias, mas por nós dois, Caleb. Se a gente for tentar, quero que seja certo. Você consegue me dar esse tempo?

Embora não fosse exatamente a resposta que fora procurar naquele dia, Caleb parecia satisfeito apenas em ouvir que Max não tinha chance no futuro com Samantha.

Antes de se despedir, o rapaz ainda se inclinou e depositou um beijo no canto dos lábios de Samantha, sussurrando um “feliz aniversário”.

Quando ficou finalmente sozinha em seu quarto, Samantha pegou o celular. Seus dedos tocavam a tela rapidamente até formar a primeira mensagem, com o nome de Max no topo.

”Eu continuo viciada em cafeína. E precisamos muito conversar. Me procure quando voltar.”

A mensagem era quase fria, não demonstrava nem um terço da saudade que Sam já sentia por Max, mas as mentiras que se acumulavam começavam a ofuscar qualquer outro sentimento que ainda nutrisse por Cavendish.

Assim que apertou o botão de enviar, Samantha se pôs a digitar uma nova mensagem, desta vez para Francesca:

Vovózinha doente uma ova. Max também está saindo da cidade. Arrume suas coisas, estamos indo para New England.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Dom Jul 17, 2016 6:45 pm

A presença de Samantha no quarto poderia ser um grande incômodo para Damien, que desejava aproveitar as horas restantes com Francesca antes de ser arrastado por Jack e Max para longe. Mas era a desculpa perfeita para que ele escapasse mais uma vez das perguntas insistentes da menina.

Scott não sabia como poderia fugir da confusão que havia se metido, mas por quanto tempo mais pudesse prolongar, mais tempo ele teria com Sullivan em seus braços. Sabia que seria impossível sustentar tantas mentiras, que a qualquer momento ela poderia se esgotar das meias verdades, mas simplesmente não havia solução para o seu caso.

A explicação de Jack e Cavendish a respeito da marcação era muito bizarra, mas Damien já não se surpreendia mais com cada detalhe daquele mundo novo. Na verdade, achava até que fazia sentido que existisse mesmo um elo tão forte que ligasse ele e Francesca. Apesar disso, Scott não sabia até que ponto aquela marcação era capaz de manter Sullivan ao seu lado se descobrisse a verdade.

Primeiro ela certamente pensaria que ele estava louco, e se algum dia fosse capaz de acreditar, como poderia abraçar um futuro ao lado de um monstro? Quanto mais Damien refletia sobre aquilo, mais certeza ele tinha que Francesca não o aceitaria se descobrisse a verdade. E de uma forma egoísta, ele só queria aproveitar o tempo que a ignorância dela mantivesse os dois juntos.

- Eu não vi o carro do seu irmão na entrada, achei que fosse seguro entrar pela porta. – Damien encolheu os ombros, abrindo um sorriso de lado. – Mas vou manter em mente que você prefere que eu suba pela janela. É muito mais excitante...

Ele piscou o olho, mas seu sorriso se desfez ao escutar o pigarro de Samantha, lembrando aos dois a presença dela. Scott girou o rosto para encarar a colega, demonstrando toda sua irritação em seu semblante fechado.

- Você pode nos dar um minuto, Samantha?

Archibald revirou os olhos, mas deixou que seus pés a guiassem até a janela. Ela se sentou nas almofadas que se acumulavam ali, encarando o movimento da rua, se esforçando para manter a atenção em qualquer lugar que não fosse o casal.

- Estamos fazendo um trabalho de história, lembra? O Sr. Sullivan vai estranhar se eu deixar vocês sozinhos. Mas podem fazer de conta que não estou aqui.

Ela puxou da bolsa um iPod branco e espetou os fones de ouvido em suas orelhas. Damien estreitou os olhos por um instante, mas relaxou quando, mesmo com a pequena distância, ele escutou a música saindo baixinho do aparelho. Ao garantir que Archibald realmente não podia escutar, seus olhos claros se voltaram para Sullivan.

- Eu prometo que vamos conversar assim que voltar, está bem?

As duas mãos de Damien se apoiaram nas laterais do rosto de Francesca e ele acariciou a pele macia com o polegar. Graças a diferença nas alturas, Scott precisava ficar ligeiramente curvado para encarar os olhos verdes diretamente. Aproveitando a proximidade, ele roçou a ponta do nariz ao de Francesca antes de beijá-la rapidamente.

- Vou te enviar mensagens de dez em dez minutos. Assim você não vai precisar sentir falta das minhas asneiras.

Só de pensar em se afastar de Francesca, Damien sentia seu coração se espremer. Ele puxou a menina de encontro ao seu peito e afagou os cabelos castanhos-avermelhados, se deliciando com o perfume já tão conhecido.

- Me prometa que vai sempre me responder com rapidez? E que não vai mais sair no meio da madrugada sozinha? Isso é muito importante, Fran... Preciso saber que você vai estar segura enquanto eu estiver fora, e Nova York é uma cidade perigosa demais, você não tem ideia do quanto.

Embora odiasse a cidade, a violência nunca havia sido um fator que tirasse o sono de Scott. Mas com a descoberta daquele novo mundo, ele tinha pesadelos em imaginar Sullivan tendo o mesmo destino que ele, apenas por estar no lugar errado, na hora errada.

- Volto em alguns dias e venho direto ver você. – Ele se afastou para encará-la novamente.

Se a marcação realmente existia, Damien não saberia dizer, mas ele sabia que o bem-estar de Francesca era sua maior preocupação, e podia ver refletido no olhar dela que seus sentimentos eram correspondidos.

- Não precisa repetir, vou subir pela janela da próxima vez.

Ele piscou um olho antes de roubar mais um beijo, prolongando o contato desta vez.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Dom Jul 17, 2016 10:59 pm

Toda a alegria que Francesca sentiu por rever Damien se dissipou no instante em que seu celular vibrou naquela tarde com a mensagem de Samantha. Os olhos verdes se estreitaram e o semblante da garota se fechou com a certeza de que Scott tivera a audácia de entrar na casa dos Sullivan para enganá-la com mais uma mentira.

Embora as garotas já tivessem um palpite muito sólido sobre a verdade escondida atrás das histórias de Damien e Maximilian, Francesca não estava disposta a esperar que a confissão viesse dos lábios de Scott. Parecia improvável que o colega mudasse o comportamento e decidisse abrir o jogo depois de perder tantas oportunidades de falar com ela.

A verdade que Damien escondia era sem dúvida uma informação muito séria, mas nem por isso Francesca se sentia menos ofendida pelas mentiras. Para a caçula dos Sullivan, era inadmissível que Scott não confiasse a ela o seu segredo e precisasse inventar histórias sobre avós doentes. Embora os dois se conhecessem há pouco tempo, era nítido que existia um elo forte entre eles. Francesca estava colocando em jogo o seu futuro na família Sullivan e o mínimo que ela queria em troca era que Damien fosse honesto naquele relacionamento.

Mesmo sem saber o que encontraria em New England ou como reagiria diante da confirmação daquelas suspeitas bizarras, Francesca mergulhou de cabeça na ideia de Samantha. Era péssimo mentir para o pai, mas a menina tentou se consolar com a ideia de que havia dito uma meia verdade. Richard havia gostado tanto de Archibald que não se incomodou em saber que a filha passaria uns dias na companhia da amiga. Acabou ficando subentendido que as meninas ficariam na casa dos Archibald e aquele foi um mal entendido que Francesca não fez questão de esclarecer.

Quinze minutos antes do horário combinado com Samantha, Francesca desceu para a sala com a mochila nas costas. Ao invés dos livros e cadernos, desta vez a garota levava algumas peças de roupas e pertences pessoais, apenas o suficiente para passar poucos dias fora de casa. O vestido branco estampado com detalhes em vermelho era leve, mas a jaqueta jeans dobrada num dos braços de Francesca indicava que aquela saída não seria tão breve.

- Oi? – Paolo, que havia acabado de chegar, olhou a caçula de cima a baixo – Posso saber para onde você está indo?

- Vou ficar uns dias com uma amiga. – Francesca tentou soar o mais natural possível, mas o gesto de conferir o relógio de pulso acabou denunciando a sua ansiedade.

- Como assim? Que amiga? Onde vocês vão ficar? Quanto tempo você vai ficar fora? O que você pretende fazer nesses dias?

Os olhos verdes da caçula não eram mais que dois riscos quando ela encarou o irmão mais velho, demonstrando toda a sua irritação com aquele interrogatório.

- Eu não devo satisfações a você, Paolo. O papai deu permissão. Se não está satisfeito, converse com ele.

Francesca teve certeza de que aquela discussão não acabaria ali quando Paolo se colocou diante da porta da sala e cruzou os braços, bloqueando a saída principal da casa.

- Suba para o seu quarto e desfaça essa mala. Você não vai a lugar algum.

A entonação firme de Paolo mostrava que o rapaz estava determinado, mas nem isso intimidou a caçula. Francesca soltou um risinho debochado e sacudiu a cabeça em negativa, encarando o primogênito com uma expressão irônica.

- Não seja patético, Paolo. Eu só vou passar uns dias com uma amiga do colégio. Vocês não queriam tanto que eu me enturmasse? Pois é, agora eu tenho uma amiga. O papai conheceu a Sam, ele deu permissão.

- Mas eu não dou permissão. – os olhos do rapaz faiscaram – O papai está fragilizado o bastante para acreditar nessa bobagem, mas eu sei que tem alguma coisa errada nesta história. No mínimo, você está correndo atrás de algum garoto. Ainda é aquele playboyzinho? Eu achei que o meu recado tinha sido claro, mas a inteligência não costuma ser o ponto forte desses moleques riquinhos.

- Paolo.

A voz rouca de Richard soou na porta que separava a sala da cozinha. O Sr. Sullivan empurrou a cadeira de rodas mais alguns centímetros para dentro do cômodo, interrompendo a discussão dos filhos.

- A Francesca falou comigo. Eu permiti que ela passe os dias com a amiga. A menina esteve aqui, é uma boa moça. A sua irmã merece ter uma vida normal. Adolescentes normais tem amigos, frequentam festas...

- ...mentem para os pais e engravidam de babacas. – Paolo completou o raciocínio de Richard – O senhor acreditou mesmo nessa história?

- Eu não preciso te dar satisfações sobre as minhas decisões, Paolo. Eu confio na sua irmã e autorizei o passeio. Assunto encerrado.

Francesca sentiu o estômago afundar com aquela declaração. Richard estava comprando uma briga com Paolo por causa dela e a caçula sabia que não era merecedora de tanta confiança. A decepção do pai seria mortal se o Sr. Sullivan desconfiasse que a filha estava partindo em uma viagem atrás de um namorado que, muito provavelmente, tinha a mesma maldição dos monstros que o condenaram àquela cadeira de rodas.

O clima na casa dos Sullivan se tornou pesado e o ar estava quase irrespirável enquanto os dois homens se encaravam com semblantes fechados. Paolo havia assumido praticamente todas as responsabilidades da casa após a doença do pai, mas o primogênito ainda nutria um respeito por Richard que o impedia de contrariar uma ordem do Sr. Sullivan.

Bastaria uma faísca para que a casa dos Sullivan explodisse, mas Francesca foi salva pelo toque da mensagem em seu celular. A garota soltou um suspiro aliviado ao ver pelo visor que era Samantha avisando que já estava esperando por ela. Richard ganhou um beijo rápido na bochecha e a menina contornou o corpo de Paolo para chegar à porta, evitando os olhos esverdeados do irmão.

- Vamos. – Francesca parecia exausta quando finalmente se viu a sós com a amiga – Eu estou arriscando tudo nesta história, Sam. Então, não volto para casa sem a verdade.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Dom Jul 17, 2016 11:35 pm

Embora aquela viagem estivesse longe de ser um passeio divertido programado pelos três jovens, era nítida a intenção de Jack em trazer um pouco de diversão aos dias que o trio passaria em New England. Enquanto guiava o carro pela calma estrada que os levaria até o interior do estado, o Beta tagarelava sobre os seus planos para os dias seguintes.

- Tem umas trilhas ótimas por lá. Uma delas termina em uma cachoeira que vocês precisam conhecer. E eu já peguei os telefones de todas as pizzarias da região para garantir que as nossas noites sejam animadas.

Jack tinha um carro popular de segunda mão, mas era nítido que cuidava do veículo com muito carinho. A lataria estava perfeita, o interior do carro fora inteiramente reformado e os estofados eram novos. No painel do veículo, havia a foto de Jack abraçado a uma bela moça com traços latinos. A forma como os dois se encaravam não deixava dúvida do quanto o casal se amava.

Mesmo que de forma indireta, Jack mostrava ao recém-transformado que era possível ter uma vida normal. Ele possuía um emprego fixo e ganhava bem o bastante para ter o seu próprio apartamento e um carro. A namorada, que obviamente sabia sobre a maldição do rapaz, não parecia amá-lo menos por causa disso.

- Não precisa ser uma tortura, moleque. Você vai ver que o Max e eu somos divertidos. – Jack fez uma pausa antes de se corrigir – Na verdade, eu sou divertido e o Max só está aqui pra evitar que eu te leve pro mau caminho. Por que não confia em mim, Max?

- Não sei. Porque você pegou o telefone de pizzarias ao invés de tentar escolher um bom hotel, talvez. E também porque tem vodka e tequila no porta-malas.

A entonação bem humorada do Alpha arrancou uma risada melodiosa de Jack. O motorista usou o espelho para encarar Damien no banco traseiro e deu uma piscadela cúmplice para o garoto. Os poucos segundos de silêncio logo foram interrompidos quando Jack ligou o som. Como a estrada estava praticamente deserta, o motorista conseguiu usar uma das mãos para mexer no aparelho até sintonizar o rádio em uma estação.

Tão logo reconheceu uma das músicas melosas do Bon Jovi, Jack aumentou o volume. A careta de desagrado de Maximilian foi instantânea. Enquanto o Beta cantarolava junto com a banda, Max lançou a ele um olhar de total reprovação.

- O que foi???

- Sério?

- Nós três estamos apaixonados, Maxie. Qual o problema?

- E daí? Eu não me tornei mais brega por causa disso.

- Hm. – Jack fez uma longa pausa e novamente buscou pelo reflexo de Damien com um olharzinho cúmplice – Você escutou o Max negando estar apaixonado, Scott? Eu estava só brincando, mas acho que ele acabou de confessar que é verdade.

Ao notar que havia caído naquela armadilha ridícula, Cavendish ficou sem reação por alguns segundos. A sua concordância com a afirmação de Jack havia sido tão natural que Max nem se dera conta do que estava dizendo. Era como se, instintivamente, o rapaz já tivesse aceitado o fato de que estava apaixonado por Samantha Archibald.

- Você é patético, Jack. É como se tivéssemos doze anos de novo!

O som da música foi abafado pelas gargalhadas do Beta. Numa tentativa de exterminar aquele constrangimento, Maximilian girou os olhos e virou o corpo para trás, encarando o mais novo membro de sua alcateia.

- Esta viagem realmente não precisa ser uma tortura, Damien. Mas vou querer que você e o Jack façam pausas nos programas divertidos para que você se concentre na sua transformação. Afinal, você está aqui porque quer aprender a se controlar, não é? Eu vou te ajudar nisso.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Jul 18, 2016 12:24 am

Samantha ainda sentia o cansaço acumulado pesando em seu corpo. A festa de aniversário havia acontecido na noite anterior, mas a sensação era de que semanas já tivessem se passado. Tantas coisas haviam acontecido desde então que sua mente ainda tentava se adaptar com as novidades.

Menos de 48 horas antes, seu relacionamento com Caleb continuava são e salvo, sua atração por Max só aumentava e ela preparava mais uma das tradicionais festas tão aguardadas pelos alunos da Constance. Agora, não só o seu relacionamento perfeito e seguro estava arruinado, como qualquer esperança de ficar com Max também havia sido destruída. Além da grande e absurda suspeita de que Cavendish e Scott fossem seres sobrenaturais, o que parecia só mais um detalhe naquela confusão.

Apesar do cansaço, Archibald se sentia igualmente ansiosa quando parou seu volvo s60 diante da casa do Sullivan. A noite em Nova York já estava um pouco fria, mas New England era muito mais cercada por árvores e montanhas e Samantha sabia que a baixa temperatura estaria aguardando em algumas horas. Por esse motivo, já havia um par de luvas e um gorro repousados sobre sua mala da louis vuitton apoiada no banco traseiro.

No recipiente de copos, dois grandes copos de papelão estavam cheios de café, e antes de dar partida, Samantha deu um gole em sua bebida, indicando a outra para que Francesca se servisse.

- A viagem é longa, só vamos chegar com o dia amanhecendo. E você precisa estar inteira, se quer mesmo descobrir a verdade.

Sem nenhum ruído do motor, o carro deslizou suavemente pelo asfalto até que Samantha deixasse as ruas cercadas de prédios para pegar a estrada. O farol iluminava apenas alguns metros adiante, mas os olhos de Archibald estavam atentos em qualquer movimentação, fora e dentro do carro. Ela inclinou o rosto alguns segundos para a menina ao seu lado e forçou um sorriso, tentando suavizar a tensão que sentia e também via estampada no rosto de Francesca.

- É errado que ele minta para você, Fran. Mas se me permite dizer, eu conheço o Damien há algum tempo e, desde que ele veio da Inglaterra, nunca o vi se comportando assim com garota nenhuma.

A testa de Samantha estava franzida enquanto seu olhar deslizava do rosto de Sullivan para a estrada, sucessivas vezes. Seus dedos estavam repousados sobre o volante e o painel iluminado provocava uma cor azulada em sua pele pálida.

- Ele sempre foi meio isolado, com uma pose de que odiava tudo. Sempre pareceu que era uma grande tortura andar entre a gente, como se todo mundo estivesse julgando ele ou qualquer coisa do tipo, quando na verdade era ele que julgava a gente o tempo inteiro.

Samantha sabia que no fundo, Francesca compartilhava aquela opinião com Scott e precisava concordar que alguns colegas faziam por merecer aquela fama. Mas era incômodo saber que sempre era incluída naquele grupo antes mesmo de ter a chance de se mostrar como era de verdade.

- Mas isso mudou depois que você chegou. Então seja lá qual for o motivo pelo qual Damien anda mentindo, pelo menos você pode ter certeza dos sentimentos dele por você.

O olhar de Archibald passeava entre a estrada escura e o rosto da menina ao seu lado, sorrindo com compaixão.

- O cara é louco por você, Fran. Ele teve uma arma apontada na própria testa e ainda assim teve coragem de entrar na sua casa só para poder se despedir. E ok que ele mentiu, mas me pareceu bastante sincero em dizer que iria sentir sua falta.

Com um suspiro, Samantha tentou ignorar a pontada de inveja que apareceu em seu peito. Caleb sempre fora o namorado perfeito, o que não lhe dava motivo algum para invejar o romance maluco na amiga. Mas era inevitável desejar que Max também pudesse enfrentar as complicações por ela.

Desejando desesperadamente mudar o rumo da conversa, Samantha sorriu mais abertamente e se inclinou até o painel de mídia. O ícone de música foi tocado e em questão de segundos, o ritmo de Sugar invadia o carro ao som do Maroon 5.

- Podemos fazer de conta que não somos duas psicopatas no meio da madrugada caçando lobisomens ou indo atrás do seu namorado biruta? Vamos fazer de conta que estamos de férias.

Ela segurou o volante com uma mão só e apontou com o polegar para o banco traseiro.

- Temos um estoque considerável de salgadinhos e chocolates para durar até o amanhecer e a coleção inteira do Maroon 5 para cantar. Relaxe um pouco, Fran. Seja lá o que estiver nos aguardando, não podemos evitar. Então aproveite enquanto pode.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Seg Jul 18, 2016 12:49 am

Apesar das tentativas de Jack, Damien se sentia miserável, afundado no banco de trás do carro enquanto encarava a escuridão que passava pelo lado de fora da janela. O ar gelado da madrugada entrava graças ao vidro abaixado do motorista, fazendo com que seus cabelos bagunçassem e tornando sua pele fria.

Aquela não era uma viagem de lazer. Ele não queria fazer trilhas e nem conhecer pizzarias ou cantar Bon Jovi com Jack ou Cavendish. Ele só queria poder voltar para Nova York, escalar a janela de Francesca e sentir a temperatura agradável do seu corpo por baixo da coberta, podendo descansar por horas com ela em seus braços.

Mas Scott também queria uma vida normal em que lobisomens, Alphas, lua-cheia e marcações não eram uma realidade, e mais uma vez, ele não podia ter o que desejava. A única coisa que tinha era a esperança de poder aprender tudo com Max e levar o mais perto da normalidade possível.

Enquanto a voz de Jack e Max alcançava sua mente em segundo plano, Damien se manteve sério, com os braços cruzados. Ele desviou o olhar até a foto de Jack abraçado a uma menina. Mais do que controlar seus próprios instintos animalescos, Scott queria aquilo. Queria ter Francesca, sem imaginar que ela fosse sentir repulsa ao imaginar na criatura que ele poderia se transformar.

Com um suspiro pesado, Damien baixou o olhar e puxou o celular do bolso. A tela de proteção trazia a foto de Sullivan em uma careta. Seu nariz estava enrugado e a língua de fora, e ainda assim, ela estava tão doce e incrível que era impossível não sorrir. Seu dedo tocou a tela de vidro, desejando sentir a maciez dos cabelos castanhos-avermelhados.

A viagem foi longa demais, e apesar das cinco horas em que passou no carro, Scott disse poucas palavras. Em alguns momentos, ele se permitiu rir das piadas de Jack e até acrescentou um comentário mais ácido, querendo a todo custo poder entrar naquele clima leve, sem pensar que na verdade estava indo para um treinamento para tentar minimizar seu lado assassino adormecido.

Ainda não havia sinal do raiar do sol nos céus quando Jack finalmente saiu da estrada e reduziu a marcha ao entrar no estacionamento de um hotel. O lugar estava pouco iluminado, com exceção de uma máquina de refrigerantes no segundo andar e de duas luzinhas na entrada da recepção.

Era obviamente um hotel barato e sem luxo. O segundo andar inteiro era um corredor e as portas e janelas dos quartos se enfileiravam, quase todas mergulhadas em completa escuridão.

Jack desligou o carro e se adiantou para a recepção, voltando com as chaves dos quartos em mãos.

- Imagino que não tenha conseguido a suíte presidencial. – Damien torceu o nariz enquanto esticava as pernas e a coluna ao sair do carro. – Sei que não estamos aqui de férias, mas não tinha nenhum lugar melhorzinho?

- Você tem andado demais com os seus amiguinhos riquinhos, hein Scott. – Jack abriu o porta-malas e puxou de lá a própria mochila. – Aqui não é tão ruim, vai por mim. Além de ser mais perto dos bosques, os donos são super discretos. Ninguém vai ligar se um uivo seu escapar, provavelmente vão pensar que só está praticando sexo selvagem.

- Se eles vão pensar isso, eu definitivamente não vou dividir o quarto com vocês.

O ombro de Damien esbarrou no de Jack quando ele foi puxar a própria mala. Uma sacola deslizou para o lado, revelando os destilados mencionados por Max horas antes.

- Algo me diz que poderia acontecer um assassinato aqui que eles também não ligariam. – Damien voltou a resmungar quando os três começaram a subir as escadas.

A mão de Jack pousou em seu ombro, apertando de leve enquanto ele ria.

- Vamos torcer para que não chegue neste ponto, está bem?

O quarto realmente não trazia nenhum luxo, mas mantinha um padrão já esperado por Damien. Haviam duas grandes camas forradas com colchas floridas, além das mesinhas de cabeceira, uma poltrona encardida e uma televisão que ele duvidava seriamente que ainda pegasse algum canal. Duas portas estavam lado a lado, indicando o closet e o banheiro.

O carpete também era escuro e provavelmente não era limpo há séculos, com algumas marcas de cigarros em determinados pontos.

Quando a mochila de Scott foi largada em uma das camas, o céu já começava a adquirir um tom mais claro de azul, o que o incentivou a finalmente deslizar os dedos pelo celular, se permitindo enviar a mensagem que ele havia se controlado durante toda a noite.

”Preciso ser irritante o bastante e te acordar cedo. Prometi que não deixaria você notar minha ausência, então nada mais irritante do que acordar antes da hora com um idiota te enviando mensagens. Bom dia, linda. E não esqueça de pentear os cabelos, você fica pavorosa com esses cabelos para o alto quando acorda. ;-)
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Seg Jul 18, 2016 1:34 am

As palavras de Samantha foram capazes de amenizar boa parte da culpa e das incertezas que Francesca sentia com aquela viagem. Ela nunca tinha sido o tipo de garota que mentia para o pai ou que enfrentava aventuras por causa de um rapaz. Damien Scott fora o primeiro garoto que conseguira acelerar as batidas do coração de Sullivan, então era um consolo saber que ela também havia impactado a vida dele de alguma maneira.

Parecia uma grande loucura deixar Nova York para trás no meio da noite e enfrentar a estrada escura rumo a uma cidade desconhecida. Aquele programa se tornava ainda mais bizarro quando Francesca pensava que o objetivo daquela viagem era provar que o garoto por quem ela estava mais envolvida a cada dia era um lobisomem. Até uma semana atrás, Francesca daria uma gargalhada na cara de qualquer pessoa que tentasse convencê-la da existência de seres sobrenaturais, mas agora nenhuma outra hipótese parecia explicar melhor a situação de Scott.

Embora aquela fosse uma situação delicada e potencialmente perigosa para as duas garotas, Francesca se deixou contagiar pela música e pela companhia agradável de Samantha. As duas meninas tinham algumas semelhanças e gostos em comum, mas nem mesmo as gritantes diferenças entre elas eram capazes de impedir aquela amizade. Apesar do pouco tempo de convivência, Sullivan sabia que podia contar com aquela nova amiga.

Como a temperatura começava a cair na medida em que o carro de Archibald se afastava de Nova York, Francesca fechou o vidro do passageiro e se encolheu dentro da jaqueta jeans. O som de Maroon 5 se tornou ainda mais intenso dentro do veículo fechado, o que obrigou Sullivan a elevar um pouco mais o tom de voz para ser ouvida.

- Eu ainda não entendi bem o que está rolando entre você e o Max. Mas espero que dê certo.

Apesar de Samantha nunca ter falado abertamente sobre o seu relacionamento com Maximilian Cavendish, Francesca não era tão tola a ponto de ignorar os sinais. Sam não tinha motivo algum para manter o contato com um cara qualquer que lhe dera uma entrevista para o jornal da escola. Por mais que as duas estivessem construindo uma bela amizade, Sullivan sabia que Samantha jamais se arriscaria naquela viagem ou colocaria em risco o seu namoro perfeito com Caleb Stark se não estivesse pessoalmente envolvida na confusa história entre Max e Damien. Era óbvio demais que Samantha e Max não eram somente meros conhecidos.

- Tudo bem, Sam. – Francesca voltou o rosto para a motorista e abriu um sorriso compreensivo – Eu não pretendo te julgar por nada. Somos igualmente loucas, estamos juntas na mesma missão.

A mochila de Sullivan havia sido jogada no banco traseiro do carro, mas o celular repousava sobre o colo da garota. Mesmo sabendo que era tarde demais e que Scott muito provavelmente não mandaria notícias no meio da madrugada, Francesca não conseguia conter a tentação de conferir a tela do celular a cada cinco minutos. Sempre que a garota tocava a tela, o celular iluminava aquele lado do carro com uma luz azulada e a ausência de notificações deixava Sullivan frustrada.

O fundo de tela do celular de Francesca ainda exibia uma velha foto da garota abraçada ao seu falecido gatinho de estimação. Mas havia uma imagem de Scott bem escondida em sua pasta de fotos, bem longe do olhar indiscreto de Paolo. Como se a simples visão do rapaz pudesse amenizar um pouco do vazio que Francesca sentia, o arquivo foi acionado e os olhos verdes se perderam na imagem de Damien.

Na foto, o rapaz havia acabado de sair do colégio e já havia afrouxado a gravata que compunha o uniforme da Constance Billard School. Scott fazia uma das suas expressões mais típicas, com os lábios curvados num sorrisinho convencido enquanto os olhos fitavam a câmera com um ar de ironia.

Francesca simplesmente não entendia como havia se apaixonado tão facilmente por ele, mas nem mesmo toda a sua racionalidade impedia que Sullivan suspirasse pelo colega. E Damien só estava alimentando ainda mais os sentimentos dela ao demonstrar que estava igualmente envolvido naquela atração.

Pelos cálculos de Francesca, elas ainda tinham mais duas horas na estrada quando o celular finalmente vibrou no colo da garota, trazendo a mensagem que ela desejara a madrugada inteira. Mesmo sabendo que Damien havia mentido sobre o objetivo daquela viagem, Sullivan se sentia conformada em saber que ele ao menos cumpriria a promessa de não se esquecer dela.

Inconscientemente, quando leu a provocação sobre seus cabelos, Francesca deslizou os dedos nos fios castanhos avermelhados e curvou os lábios grossos numa careta ao perceber que, de fato, eles estavam bastante atrapalhados.

Os primeiros raios de sol começavam a surgir na linha do horizonte e iluminavam a estrada com uma luz alaranjada quando Francesca digitou uma resposta para o rapaz. A rapidez com que Sullivan enviou a mensagem mostrava que ela já estava acordada ou que estava apenas cochilando num sono leve naquela manhã.

“Eu admiro a sua capacidade de reconhecer que é um idiota irritante. Aceitar os próprios defeitos é um passo importante para superá-los. Vai encontrar a minha janela trancada se continuar falando do meu cabelo, fofinho. Ou talvez eu troque de quarto com o meu irmão e ‘esqueça’ de te avisar. Comporte-se aí.”
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Seg Jul 18, 2016 2:19 am

A bolsa esportiva na qual Maximilian guardava as suas coisas foi jogada na cama mais próxima da janela. O Alpha apoiou as mãos na cintura enquanto os olhos falsamente azuis estudavam cada detalhe do quarto onde ele e os amigos passariam os próximos dias. Embora não estivesse habituado a uma vida luxuosa, aquele hotel definitivamente estava muito abaixo da média para Max.

Contudo, não parecia haver uma escolha de hospedagem melhor em New England. Aquele hotel na beira da estrada ficava mais afastado da cidade, o que reduzia bastante as chances de Damien perder o controle e acabar provocando uma tragédia. Além disso, havia um enorme bosque aos fundos do estacionamento, que funcionaria perfeitamente para o “treinamento” que Maximilian pretendia fazer com o recém-transformado. E, por fim, como Jack mencionara, aquele era um hotel que recebia todo o tipo de clientes e, portanto, os funcionários estavam mais do que acostumados a não ver e a não ouvir nada.

- Ainda é muito cedo, a viagem foi longa. Que tal descansarmos um pouco antes de sairmos para explorar a região?

- Fechado. – Jack jogou a sua mochila no sofá encardido – Eu fico com o sofá hoje, mas depois vamos revezar as camas, bonitões. Ou então terão que dividir o colchão comigo, eu não tenho nenhum problema em dormir abraçadinho com vocês. Tenho a mente bem aberta.

De dentro do bolso, Jack sacou o celular e foi para o banheiro para fazer uma ligação. A audição sensível dos lobos, contudo, não permitiu que o rapaz tivesse muita privacidade enquanto ligava para avisar a namorada que havia chegado bem em New England. A entonação carinhosa de Jack não escondia o quanto ele estava envolvido com a moça. Ao imaginar a dúvida que poderia estar circulando na cabeça de Scott, o Alpha deu a ele a resposta que Damien procurava.

- Os dois também foram marcados. O Jack já era um lobo muito mais maduro quando aconteceu e ainda assim foi difícil pra ele. Eu posso imaginar como você está atormentado em se afastar dela com os instintos ainda tão aflorados.

Sentado na ponta do colchão, Max retirou os tênis e esticou a coluna dolorida depois de tantas horas preso dentro de um carro. O Alpha dobrou o pescoço, estalando-o, e só então continuou o seu relato. As palavras de Cavendish mostravam que ele parecia saber exatamente quais eram os pontos que mais afligiam Damien naquela situação.

- No começo, o Jack teve medo de contar pra ela. Ele simplesmente não suportava a ideia de que a garota poderia se afastar por medo ou por repugnância. Mas não é o tipo de coisa que você consegue esconder de alguém que faz parte da sua vida, então acabou chegando o dia em que ele teve que abrir o jogo.

Apesar daquela história ter acontecido há mais de dois anos, Max ainda se lembrava com clareza do desespero do melhor amigo. Jack sempre fora o seu braço direito, um membro exemplar da alcateia, um lobo com pleno controle de seus instintos. Mas a marcação quase fizera Jack sucumbir. Aquele era um instinto ainda mais potente do que a fidelidade à alcateia.

- A garota pirou no começo, é claro. Ela se afastou e ele... – Max suspirou e fez uma breve careta – ...eu achei que ele morreria. Mas os dois já tinham construído um elo muito forte, ela só precisou de um tempo para aceitar esta loucura e para se convencer de que poderia ser feliz com ele, apesar de tudo. E agora... bom, você está vendo como tem dado certo.

Os olhos de Cavendish giraram e ele soltou um risinho debochado enquanto escutava o melhor amigo se derretendo ao celular.

- Você só precisa ter cuidado na hora de contar pra Francesca. Ela precisa estar pronta para saber a verdade e, principalmente, você precisa estar pronto para garantir a ela que você está no controle da situação e que pode dar a ela uma vida normal.

Maximilian deixou que o seu corpo cansado e dolorido caísse no colchão duro do hotel. Os olhos azuis fitaram o teto enquanto a sua mente insistia em trazer à tona as lembranças de Samantha Archibald. Por mais que a garota tivesse concordado com aquele café na semana seguinte, Max sentira que a mensagem de Sam fora mais fria que o habitual. Não havia entre eles um instinto tão irracional quanto uma marcação, mas Cavendish sentia que seu mundo não seria mais o mesmo se ele perdesse Samantha ou se ele ouvisse dos lábios dela que sua escolha fora voltar para o namorado oficial.

- Damien, eu estou no fim de uma sequência de dias péssimos. Eu não durmo literalmente nada há duas noites. Se você e o Jack quiserem sair pra aproveitar o dia, eu só peço que não se afastem demais da região. Eu realmente preciso dormir um pouco, cara.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Jul 18, 2016 2:42 am

- Max e eu...

Samantha começou com um tom de voz firme, mas as palavras morreram de sua boca quando ela não teve certeza de como terminar aquela frase. Max e ela o quê? Eram apenas amigos? Tinham um caso? Haviam perdido todas as chances de ter um futuro?

Não adiantava tentar se justificar. Por mais que tentasse arrumar desculpas, Francesca sabia e Sam também precisaria admitir em algum momento que não estava ali apenas em busca da verdade ou para ajudar a amiga naquela confusão. Max era a maior motivação para dirigir por cinco horas seguidas, mesmo depois de um dia péssimo.

- É diferente, Fran. Não é como você e o Damien.

Aquele comentário foi o máximo que Sam conseguiu falar sobre Cavendish o resto da viajem. O cansaço acumulado e as dores no corpo, junto com a cafeína que já não fazia mais efeito, começaram a pesar as pálpebras de Archibald quando o céu começou a adquirir um tom mais claro de azul.

Ela já reconhecia a entrada da pequena cidade de New England e os grandes eucaliptos fariam parte de toda a paisagem, até mesmo se seguissem a estrada até o centro, onde o comércio era cheio de pequenos restaurantes em arquitetura pitoresca.

Embora soubesse que a paisagem apenas melhorasse, Archibad não hesitou em inclinar o carro no estacionamento do primeiro hotel que alcançou. O medo de que o sono acabasse sucumbindo e ela provocasse um acidente era a motivação necessária para não fazer cara feia diante da simplicidade do lugar.

- Podemos descansar aqui e depois procura-los pela cidade com mais calma. Há alguns hotéis melhores se continuarmos dirigindo por mais meia hora, mas estou realmente cansada.

Sam se desculpou enquanto subia as escadas de uma das pontas do hotel, depois de pegarem a chave de um dos quartos. O lugar estava abafado, mas em comparação ao frio que fazia do lado de fora, era quase gratificante.

As botas de Samantha foram jogadas para um canto e ela não se importou em se jogar sobre o colchão ainda de calça jeans, espalhando os fios castanhos pelo travesseiro.

- Só preciso de algumas horas para me recompor, Fran. Se quiser comer alguma coisa, vi uma lanchonete no primeiro andar.
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Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Seg Jul 18, 2016 3:34 am

- Você tem certeza que não quer ficar e descansar?

Jack perguntou outra vez, enquanto o cascalho fazia um ruído alto em contato com suas botas enquanto os dois rapazes atravessavam o estacionamento do hotel.

Ainda restavam alguns minutos até o nascer do sol e era necessário forçar um pouco a vista para enxergar em meio ao terreno pouco iluminado, mas a visão noturna de um lobisomem rapidamente se adaptava, permitindo que eles seguissem sem dificuldade até os fundos.

- Não estou com sono. Na verdade, me sinto agitado demais para tentar dormir.

Enquanto Scott falava, uma pequena nuvem branca se formava diante dos seus lábios e ele precisava esconder as mãos nos bolsos da jaqueta preta para se proteger do frio.

Desde a transformação, Damien havia se acostumado a ficar acordado. Durante várias noites ele precisou lutar contra o sono, com medo de perder a consciência e acordar em algum lugar estranho. Foi questão de tempo até que seu corpo se adaptasse com as poucas horas de descanso, só se saciando de verdade quando ele estava ao lado de Sullivan.

Mas algo estava diferente. Desde a noite anterior, Scott sentia uma inquietação em seu peito que apenas havia sido controlada durante as horas em que estivera com Francesca. Agora que a menina estava tão distante, ele sentia que poderia se sufocar a qualquer momento, como se tivesse tomado uma dose extra de cafeína.

- É a lua cheia. – Jack explicou, respondendo aos seus pensamentos mudos. – Tende a melhorar com o tempo, mas é o seu corpo pedindo a transformação.

Quanto mais os dois se distanciavam do hotel e adentravam entre as árvores, parecia que a noite voltava com toda força. O ar era mais gélido e as sombras dos eucaliptos ocultava por completo qualquer sinal do nascer do sol.

- Bom, então é uma boa coisa que eu aprenda a não me transformar logo.

Eles já haviam caminhado por vários metros quando Jack parou, deslizando um saco preto que carregava em seu ombro e deixando-o cair com um baque sobre a terra preta e coberta de folhas secas.

- Quem disse que o que vamos te ensinar é para não se transformar?

Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas bem desenhadas de Scott quando ele encarou o saco, refletindo sobre as palavras do amigo.

- Do que você está falando? Se não vai me ensinar a não me transformar, o que estou fazendo aqui? E o que é esse saco preto, Jack? Não está planejando me matar ou nada do tipo, né?

- Nunca falamos que iríamos te ensinar a não transformar, fofinho. O que você precisa é aprender a se controlar, a ter total domínio do seu corpo, independente da forma em que assumir. Você pode ter as garras e os dentes afiados do lobo e ainda pensar como você, tendo perfeito raciocínio para não machucar a sua fofinha.

Damien permaneceu com os braços cruzados, encarando Jack enquanto o rapaz se dobrava para abrir o saco preto. A expressão de confusão nos olhos de Scott só aumentou quando o rapaz se ergueu com um largo sorriso, exibindo uma bola de tênis em suas mãos.

- Tá de brincadeira, Jack? Eu não vim aqui para jogar!

A resposta de Jack foi um zunido quando a pequena bola foi arremessada com força. Os reflexos de Damien poderiam ser ótimos desde a mordida, mas Jack também era um lobisomem e conseguia ser ágil com seus movimentos, o que provocou uma dor aguda em seu braço quando a bola o atingiu.

- Aaaaai! Você andou bebendo aquela vodka cedo demais, Jack???

- Cala a boca e aprenda, jovem Padawan.

Do bolso interno da jaqueta, Jack puxou algo que parecia ser uma fita preta com um pequeno aparelhinho grudado. Enquanto se aproximava de Damien, ele explicou.

- Isso aqui é um monitor cardíaco. O Max usa para correr no Central Park. E isso aqui... – Ele ergueu a tela do celular onde um aplicativo exibia alguns gráficos e números. – É onde fica registrado cada um dos batimentos cardíacos dele durante a corrida.

A fita preta foi passada para Damien, que continuou encarando o rapaz, sem saber o que a atividade física de Cavendish ou a bola de tênis tinha a ver com o seu treinamento.

- Quando você se transforma, Damien, é porque seus batimentos atingiram um determinado nível que implora ao lobo para surgir. Por isso é mais difícil manter o controle quando você está com raiva ou coisas do tipo. O que você precisa fazer é aprender a controlar os seus batimentos. Se você fizer isso, sua mente se mantem no controle.

- E o que você pretende fazer com isso? – Ele apontou para o saco preto cheio de bolas e o celular.

O sorriso de Jack se alargou quando ele afastou alguns passos.

- Essa é a minha parte preferida do treinamento... Vista o monitor.

Ainda se sentindo contrariado, Scott retirou a jaqueta preta e a pendurou em um dos galhos próximos. Por baixo da camisa cinza de algodão, ele encaixou a fita preta, mantendo o pequeno aparelho na direção do coração.

- Só mais um detalhe...

Jack contornou Damien e puxou suas mãos para trás. Antes que ele tivesse tempo de protestar, uma corda grossa prendia seus pulsos, mantendo-os unidos em suas costas. O coração de Scott começou a bater mais rápido e ele xingou com os dentes trincados quando o rapaz se voltou para o saco de bolas.

- Agora é só você manter o controle.

Uma nova bola de tênis foi arremessada, com mais força que a primeira, e atingiu em cheio a boca do estômago de Scott.

- JACK! – Damien rugiu e imediatamente o aplicativo nas mãos de Jack oscilou, mostrando que os batimentos cardíacos dele estavam aumentando.

- Calminha aí, fofinho. Estamos só começando.

Mais de duas dúzias de bolas foram arremessadas, começando a se acumular ao redor de Damien pelo chão sujo do bosque. O rapaz se contorcia e tentava escapar das bolas da melhor forma possível, mas quase todas elas o atingiam, provocando uma dor instantânea em sua pele.

A cada nova bolada, Damien se sentia mais frustrado e irritado, quase furioso. Ele se sentia como um bobo. Jack certamente estava fazendo aquilo apenas para lhe sacanear e ele, desesperado por respostas, estava caindo feito um patinho.

Quando uma nova bola o atingiu em cheio no olho, Scott rugiu e o som que saiu de seus lábios não era mais humano. Os grandes dentes afiados surgiram em sua boca e seu rosto já estava contorcido, coberto de pelos. Seus olhos estavam mergulhados em um profundo amarelo e, nas suas costas, as garras haviam surgido, mas a corda continuava a prendê-lo.

- Lembre-se de manter a mente no controle, Damien! É você quem manda aqui.

Jack estava parado em seu lugar, mas não sorria mais. Ele sabia que mesmo que aquilo fizesse parte do treinamento, era uma etapa arriscada demais para continuar com as provocações. Seu olhar passava rapidamente do lobisomem a sua frente para a tela do aplicativo. Por longos segundos, o alto número se manteve parado, mas um suspiro escapou pelos lábios de Jack quando reduziu um algarismo.

- Isso aí, Jack... Mostra quem é o fodão aqui!

O coração de Damien batia com força contra seu peito, mas embora ainda soubesse que seu rosto estava transformado, ele sentia que sua essência continuava ali. As garras cortaram a corda e livrou seus pulsos da barreira, mas ao invés de atacar o rapaz a sua frente, ele simplesmente ergueu as mãos diante dos olhos, observando o formato horrível das unhas e dos pelos grossos que cobriam seu dorso.

Com movimentos cautelosos, Jack se agachou para pegar mais uma bola, jogando-a na direção de Scott. Desta vez, ao invés de receber a dor já conhecida, Damien ergueu a mão cabeluda e agarrou a bola no ar, com um excelente reflexo.

Mais uma vez ele encarou sua mão, admirado e ao mesmo tempo assustado. As garras cortavam de leve o tecido amarelo que cobria a bola, e se deixando levar pela fúria, Damien a arremessou de volta, calculando os poucos centímetros para passar zunindo pela orelha de Jack e afundar no tronco às suas costas.

Jack virou sobre o ombro para encarar a bola e rapidamente voltou sua atenção para o monitor. Os números começavam a diminuir de forma impressionante, e com a empolgação assumindo o controle, ele soltou um riso e ergueu o polegar para Damien.

- Boa, garoto!

Uma suave brisa balançou os cabelos dos dois rapazes e Jack ainda estava impressionado com o controle de Damien quando o número subiu repentinamente. Ele imediatamente ergueu o rosto, tentando entender o que havia de errado.

Scott continuava parado a sua frente, mas com a coluna ligeiramente curvada e o rosto virado na direção do hotel. Suas narinas se mexiam enquanto o olfato ignorava os novos odores daquele local desconhecido para se focar em algo que sua mente já estava mais do que familiarizada.

Um ronco escapou do fundo da garganta de Damien quando ele teve certeza de que aquele perfume era o de Francesca. Para o lobo, não fazia a menor diferença se não havia lógica para a presença de Sullivan ali. Todos os seus sentidos lhe diziam que ela estava e exigia que ele estivesse com ela.

- Damien...

Jack chamou baixinho quando os números subiram de forma absurda. Scott curvou, apoiando as duas mãos no chão, e correu como um animal feroz em direção ao hotel.

- DAMIEN!

Desta vez Jack berrou, lutando para manter a mesma velocidade que Scott, mesmo ainda sob sua forma humana. Mas a visão de Damien já estava completamente desfocada, servindo apenas para que ele desviasse dos obstáculos enquanto seu olfato o guiava.

A mente humana já havia desaparecido completamente e ele sequer tinha noção de que havia voltado até o hotel. Eles ainda estavam aos fundos do prédio, onde ficava a máquina de café e salgadinhos próximo de uma das escadas com acesso ao segundo andar, mas já não estavam mais protegidos pelas altas árvores.

O cheiro de Francesca ficava mais forte a cada metro percorrido e foi questão de segundos até que o rosto dela entrasse em foco. Damien não enxergava mais como uma pessoa normal. Sua visão estava amarelada e ele não enxergava as demais cores com a mesma tonalidade. A única coisa que tinha total foco era a figura da menina diante de uma das máquinas, completamente alheia ao monstro que se aproximava.

Como se o humano que ainda existia no fundo de sua mente estivesse tentando lutar para alertá-la, um novo rugido escapou de sua garganta enquanto ele diminuía a distância até Francesca, com os dentes afiados expostos de forma ameaçadora.
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