Alpha Pack

Página 1 de 16 1, 2, 3 ... 8 ... 16  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Qui Jun 30, 2016 4:42 am

O olhar entediado acompanhava cada movimento dos ponteiros. A perna inquieta balançava sob a mesa e a caneta era sacudida entre os longos dedos, batucando repetidas vezes contra o caderno.

Três segundos. Dois. Um. Ao mesmo tempo que o longo ponteiro dos segundos se movia junto com o menor e marcava as 16hs em ponto, Damien Scott saltou de sua cadeira. Em um movimento extremamente ágil, o caderno e a caneta foram deslizados para dentro da mochila aberta e que foi rapidamente driblada para ser pendurada em um de seus ombros.

- Scott! – A voz do professor ainda tentou chamar, mas com passos apressados, Damien deixou a sala para trás sem lhe dar atenção.

Os corredores já estavam vazios pela hora. Apenas algumas salas eram ocupadas com algumas disciplinas extracurriculares, mas qualquer aluno normal, ou ao menos que Damien pudesse julgar normal, já estavam há quilômetros de distância daquele lugar.

A detenção era certamente a tortura preferida dos professores. Damien sequer acreditava que o castigo daquele dia havia sido justo. E daí que ele tivesse estacionado sua moto na vaga do diretor? Aquela lata velha sequer deveria estar visível nos terrenos da escola, era ridículo demais e Damien estava lhe prestando um favor em obriga-lo a estacionar mais longe.

Ainda assim, por mais injusto que fosse o mundo, ali estava ele, um dia inteiro perdido, trancafiado em uma sala entediante. O céu ainda estava claro e demorariam algumas horas para que a cor alaranjada se espalhasse pelas nuvens, mas Damien já se sentia derrotado pelo sistema.

Toda aquela palhaçada de educação de primeira qualidade era uma grande asneira. O pai mandava uma grande fortuna todos os meses para que seu lugar estivesse garantido na Constance Billard School, se certificando de que o único filho tivesse um futuro. Bom, mas para Damien, o pai também era um grande asno.

O ronco da moto soou alto e o rosto de Robert Scott surgiu em sua mente enquanto ele enfiava o capacete sobre os cabelos curtos e escuros. Robert era um detetive na Scotland Yard de uma carreira invejável, querido por muitos amigos e de uma família perfeita ao enfrentar o segundo casamento com uma mulher alguns anos mais jovem. Mas tudo que Damien tinha do pai era seu cheque mensal, alguns cartões e presentes de aniversário. Ele sequer se lembrava quando havia sido a última vez que haviam se encontrado.

Debby Scott, a ex-mulher que havia decidido manter seu sobrenome, era uma mãe solteira que não media esforços para cuidar do filho, mesmo com os seus longos plantões na enfermaria do Hospital Central de Nova York.

Depois do divórcio, Debby decidiu que não havia mais motivos para continuar na Inglaterra. Ela havia deixado os Estados Unidos para seguir a carreira de Robert, mas nunca havia gostado de fato da sua vida em Londres. Quando as complicações da separação finalmente chegaram ao fim, não havia nada mais que a prendesse na terra da rainha e, embora não tivesse sido uma decisão fácil de se aceitar, Damien sabia que não poderia ficar e seguir uma vida com a nova família do pai.

A verdade era que ele odiava os Estados Unidos. Nova York parecia ser o próprio inferno trazido para a superfície. O trânsito era infinito, as ruas abarrotadas de táxi tornavam os movimentos de sua moto quase impraticáveis. Os metrôs eram lotados e fedorentos, e os prédios eram a única vista de qualquer janela que se olhasse. O Central Park, tantos amavam, não passava de um canto cheio de mendigos e cocô de pombo. Nas calçadas, as pessoas estavam sempre apressadas demais para olhar o próprio caminho, e rabugentas demais para se desculpar dos próprios erros.

Além de odiar a cidade, Damien odiava a própria escola. A Billard era uma das escolas particulares mais tradicionais do West Side, cheia de riquinhos e riquinhas com pais e mães importantes, todos de nariz em pé. Bom, quase todos.

- Você viu que quase quebrou o retrovisor daquele táxi?

Apesar das ruas já lotadas com o horário, Damien conseguiu chegar ao lugar combinado com poucos minutos de atraso. A mochila ainda estava presa em seus ombros e ele parou a moto na beira da calçada, puxando o capacete entre suas mãos. Instintivamente, ele girou a cabeça para trás, procurando algum retrovisor amarelo caído, mas encontrou apenas a confusão de carros de sempre.

Para variar, Dan Clarkson estava exagerando. Diferente de Damien, que tinha os cabelos mais curtos e lisos, os cachos de Dan eram largos e grandes, caindo sobre sua testa pálida. Clarckson era alguns centímetros mais baixo que Scott, mas o que não era nada admirável, considerando a altura exagerada dele.

Apesar do outono, a temperatura começava a baixar com a proximidade da noite, e Dan exibia um sobretudo preto e meio gasto. Damien ainda vestia o uniforme da Billard, mas a camisa social branca havia sido puxada para cima da calça cáqui. Um terno estava caído sobre seus ombros, exibindo o logo da escola sobre o peito esquerdo. A gravata era listrada de vermelho e dourado, as mesmas cores da logo, mas também estava frouxa, lhe dando um ar relaxado.

Ignorando o comentário do amigo, Damien saltou para fora da moto e o acompanhou pela calçada, até descerem por uma escadinha escondida, que dava acesso a um bar subterrâneo. A placa sobre a escada, escrito “Underground” era a única coisa que indicava o estabelecimento, mas os dois rapazes tinham domínio perfeito e poderiam chegar até ali de olhos fechados.

Assim como Scott, Dan também frequentava a Billard. Mas diferente de tantos outros alunos, o rapaz precisava manter suas notas sempre altas para não ter a chance de perder a bolsa de estudos. O pai de Dan também trabalhava como enfermeiro no hospital central, mas foi apenas na escola que os dois rapazes se tornaram amigos.

Dan era um excelente aluno e de uma inteligência invejável, o que havia feito Damien torcer o nariz em um primeiro momento. Para sua grande surpresa, apesar do futuro brilhante que o rapaz certamente teria pela frente, ele sabia agir como um perfeito adolescente inconsequente quando queria, sem parecer ter a alma acorrentada a tanta futilidade como todos os outros rapazes da escola.

Os dois entraram no bar mal iluminado e assumiram dois bancos em frente ao balcão. Atrás da orelha de Dan, um cigarro ainda intocado era exibido, mas o cheiro de nicotina de seu sobretudo denunciava o seu vício. Damien já havia dito infinitas vezes o quanto aquele hábito era nojento, mas Dan simplesmente abria um sorriso torto e dizia que até mesmo Hemingway era fumante. Dan e seus malditos ídolos literários.

- E aí, Joe! – Damien sorriu enquanto apoiava as palmas das mãos sobre o balcão pegajoso, seu sotaque britânico se arrastando pelo bar.

- O que vocês estão fazendo aqui, moleques? – O velho dono do bar resmungou por trás de sua barba horrorosa, já puxando duas canecas e as enchendo de chopp.

- Estávamos com saudade, Joe! – Dan completou, tirando o seu sobretudo e o jogando sobre o balcão.

- Malditos moleques. Estão cansados de saber que não sirvo bebidas para menores de idade.

O olhar significativo que Joe lançou apenas serviu para que os dois rapazes gargalhassem enquanto as bebidas eram postas na frente de cada um. Um pequeno brinde foi feito antes que dessem o primeiro gole no líquido gelado, permitindo que as frustrações se dissipassem.

***

Quando Dan e Damien finalmente deixaram o bar, algumas horas depois, o sol já havia desaparecido entre os prédios de Nova York e as ruas já começavam a se tornar quase tranquilas, embora ainda estivessem distantes de estarem vazias.

Clarkson seguiu o caminho oposto aos carros, caminhando pela calçada por mais três quarteirões até chegar em casa. A moto de Damien continuava estacionada na beira da calçada, mas sua vista turva e a falta de equilíbrio em seus passos foi o suficiente para lhe alertar que não seria uma boa ideia voltar dirigindo para casa.

A quantidade infinita de taxis era exibia com uma oferta quase repugnante, mas Damien se recusava a ser mais um naquela multidão de robôs. A distância dali até o apartamento que dividia com a mãe não era nada absurda e ele poderia facilmente buscar a moto no caminho para a escola, na manhã seguinte.

A gravata já estava praticamente aberta em seu pescoço e a camisa social inteiramente amarrotada. Até mesmo a calça cáqui agora exibia alguns respingos da cerveja, mas no meio das pessoas que andavam pela calçada, Damien era apenas mais um. Ele era invisível na escola, no meio de tantos riquinhos de merda, de tantas menininhas metidas, não era de se admirar que fosse invisível naquele mundo que era Nova York.

Damien permitia que seus pés o guiassem de forma automática enquanto seus pensamentos lhe distraíam. O álcool era o combustível perfeito para lhe fazer pensar em praticamente tudo. No merda do pai, na mãe exausta de tanto trabalho, em Dan e seu fanatismo com a literatura e nos anos que faltavam para ele terminar a droga da escola e finalmente se ver livre para fazer o que bem entendesse. Embora ele não soubesse exatamente o que queria fazer da vida.

Em um momento de distração, uma sombra projetada em uma das paredes de um beco fez com que ele estreitasse a vista embaçada. Por um segundo, ele achou que fosse apenas um mendigo revirando uma lata de lixos, mas a chance de ser algo mais fez com que seus passos se tornassem mais lentos e mudassem a direção até o beco.

O lugar estava completamente escuro e o cheiro podre da lixeira aberta era sufocante, mas ele tinha certeza que havia algo se mexendo entre as sombras. Seu coração começou a bater mais rápido, mas Damien não sabia dizer o porquê. Aquela droga daquela cidade era infestada de sem-teto e animais de rua. Provavelmente era algum cão sarnento que lhe passaria alguma doença.

Mesmo assim, os passos lentos de Scott permitiram que ele entrasse cada vez mais no beco. Um encanamento de um dos prédios estava quebrado e pingava uma água de esgoto, formando uma pequena poça no canto. Uma grande ratazana passou correndo em direção a rua, fugindo de alguma coisa.

Damien estava quase desistindo quando uma pilha de caixas de papelão escorregou até tombar no chão, se espalhando pela imundice com um forte ruído.

- Olá? Tem alguém aí? – Seu sotaque britânico ecoou mais uma vez, e Damien se arrependeu no segundo seguinte. Se fosse algum ladrão, o imbecil certamente pensaria que ele era um turista cheio da grana e tentaria roubar os dez dólares em sua carteira.

Seus lábios se espremeram e ele prendeu a respiração quando percebeu a sombra novamente. No começo, era apenas uma pequena curvatura na parede, até crescer e se tornar tão alta quanto o próprio Damien.

Suas pernas travaram diante da sombra, mas estava escuro demais para ele perceber os contornos perfeitos. Tinha apenas certeza que era alguém grande e alto, forte o bastante para derrubá-lo.

Todo o sangue desapareceu de seu rosto e ele se sentiu petrificado quando um uivo alto e cortante ecoou, vindo da sombra. O que aconteceu em seguida foi rápido demais. Damien viu o reflexo de um rosto com grandes dentes e profundos olhos azuis se iluminando por um segundo antes de sentir uma forte dor em sua costela.

A sombra avançou em sua direção e Scott caiu no chão, sujando ainda mais o seu uniforme. A pequena poça de esgoto inundou sua calça clara, mas nem mesmo o fedor o incomodava mais. Seu corpo inteiro estava concentrado na dor absurda em sua costela enquanto ele tentava entender o que havia acabado de acontecer. A sombra já havia desaparecido e as pessoas passavam apressadas há poucos metros, na calçada iluminada. Dentro do beco imundo e escuro, Damien erguia a mão suja de sangue diante dos seus dedos enquanto o pânico se espalhava em suas veias.
avatar
Damien Scott

Mensagens : 300
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Qui Jun 30, 2016 11:56 pm

Apesar da idade já bastante avançada, o Chevrolet Impala 1967 atraía olhares quando circulava pelas ruas, principalmente de amantes de carros que sabiam reconhecer que estavam diante de uma relíquia. A lataria estava impecável, não havia nenhum ponto amassado e nenhum risco que maculasse a pintura preta. A grande maioria das peças era original de fábrica, mas os donos haviam feito algumas substituições para aperfeiçoar ainda mais o modelo. O som do motor era discreto, o carburador era moderno e os amortecedores eram novos, o que proporcionava aos seus proprietários uma viagem confortável e silenciosa.

Sem dúvidas, o Impala era o bem material mais precioso da família Sullivan. Os três membros daquela pequena família moravam de aluguel, não possuíam imóveis ou heranças e levavam uma vida sem nenhum tipo de luxo. Mas era como se o carro também pertencesse à família, como se fosse mais um dos filhos de Richard Sullivan. O primogênito, visto que Richard havia comprado o veículo antes de conhecer a esposa e do nascimento dos dois filhos.

Paolo e Francesca tinham crescido vendo o pai tratar o Impala como o bem mais precioso da família. Depois da trágica morte da Sra. Sullivan – que fora enterrada na cidade natal na Itália – Richard se apegou ainda mais ao carro e transferiu para o Impala todo o amor que lhe fora ceifado de forma tão precoce pelo destino. Embora tivesse se tornado viúvo bastante jovem e tivesse que cuidar sozinho de duas crianças pequenas, Richard nunca cogitou a ideia de se casar novamente. Antonella havia sido uma mulher única e era tolice pensar que ela poderia ser substituída.

Toda aquela adoração que o pai tinha para com o carro acabou sendo transmitida a Paolo. Apesar de ser um rapaz jovem, o primogênito dos Sullivan jamais trocaria o velho Impala por um modelo mais novo ou esportivo. Quando Richard passou as chaves do carro ao filho, Paolo encarou aquele presente como o legado mais precioso que poderia receber dos Sullivan.

Aos dezessete anos, Francesca gostava do carro e sabia admirar o valor daquele modelo antigo. Mas ela tinha dificuldade para entender a adoração que o pai e o irmão mais velho tinham com aquele veículo.

Naquela tarde, a jovem já esperava pelo olhar estreitado do irmão quando ela ocupou o assento do carona com uma rosquinha em mãos. Paolo encarou os minúsculos farelos que caíam das mãos dela como se fossem um lixo imundo e profano caindo sobre o terreno imaculado do estofado.

- Estou com fome. – a moça se justificou, dando de ombros – Não tive tempo de almoçar.

- E não poderia ter terminado de comer fora do carro?

- Achei que você estivesse com pressa. Mas devo ter me enganado, já que estamos aqui perdendo tempo com esta discussão idiota.

Os irmãos Sullivan formavam uma imagem bonita de se ver. Ambos possuíam o mesmo tom incomum de cabelos castanhos avermelhados. A pele pálida realçava as íris verdes da família. As origens italianas maternas se faziam presentes nos traços marcantes dos irmãos, nos lábios mais volumosos e nos temperamentos quentes.

Paolo tinha vinte e cinco anos. Muitos diriam que ele já havia passado da idade de seguir o próprio caminho e ter uma vida independente. Mas era realmente isso o que o rapaz estava fazendo até seis meses atrás, quando Richard sofreu um acidente grave que quase custou a sua vida. Diante de tamanha tragédia, Paolo se viu na obrigação de voltar para dentro de casa para cuidar da irmã caçula e do pai, que saíra daquele “acidente” sequelado.

Com dezessete anos, Francesca era uma filha que não dava desgostos à família. Apesar da personalidade forte, a caçula era uma moça responsável que não costumava se envolver em confusões. Desde muito cedo, a caçula dos Sullivan havia assumido o papel de mulher da casa. Mas foi depois do acidente com Richard que Francesca encarou com ainda mais firmeza aquelas responsabilidades. Com o Sr. Sullivan impossibilitado de trabalhar, era Francesca que cuidava de TODOS os detalhes da casa enquanto Paolo se responsabilizava pelas contas. Não era incomum que a moça ficasse sem almoço por ter gastado todo o seu tempo cuidando do pai e da pequena casa alugada que os três dividiam no subúrbio de Nova York.

- Eu odeio esta cidade... – Francesca resmungou enquanto Paolo dirigia pelas movimentadas ruas do Brooklyn – Sinto saudades de casa.

- Vou precisar que você seja mais específica, irmãzinha. Eu não consigo me lembrar de nenhum lugar que eu possa chamar de “casa”.

O silêncio de Francesca mostrava que, no fundo, ela concordava com o irmão mais velho. Desde que os dois filhos de Richard Sullivan se entendiam por gente, a família não costumava ficar mais que alguns meses na mesma cidade. Nas lembranças de Francesca existiam dezenas e dezenas de cidades, de casas, de escolas e de colegas. Mas nenhuma daquelas memórias era especial o bastante para que ela conseguisse selecionar qual daqueles fora o seu verdadeiro lar.

Contudo, de todas as cidades que ela já conhecera, Nova York parecia a mais inadequada para aquele papel. Era injusto que, logo agora que eles queriam se estabelecer de verdade em um canto, escolhessem logo aquela metrópole barulhenta.

- Não fique reclamando tanto. – Paolo ficou mais sério e fez uma pausa para terminar de fazer uma curva mais acentuada – O papai já está se sentindo péssimo com tudo isso.

- Eu estou reclamando com você, não disse uma palavra para ele! – Francesca se defendeu de forma mais exaltada – Eu jamais faria isso, Paolo!

Nova York não havia sido uma escolha aleatória. Os três Sullivan certamente prefeririam estar em uma cidade mais calma do interior, mas era na metrópole que Richard teria acesso ao tratamento e à reabilitação que precisava depois do acidente.

A tragédia havia acontecido há cerca de seis meses. Francesca estava na escola quando ligaram para avisar que Richard fora levado para o hospital da pequena cidade onde os Sullivan estavam há poucas semanas. O olhar tenso e desesperançado dos médicos deu a Francesca a certeza de que ela se tornaria órfã, mas Richard surpreendeu a todos com a sua força e determinação de viver.

Um ataque de lobos foi a história oficial. Aos olhos de todos, Sullivan trabalhava como representante comercial de algumas marcas e por isso vivia viajando pela região. Numa dessas viagens, o homem havia montado acampamento numa mata e foi surpreendido por uma alcateia. Somente Richard e Paolo sabiam que a história não era exatamente aquela, mas a mentira foi mantida porque as autoridades precisavam de uma explicação convincente e também para poupar Francesca da verdade sobre os “negócios” da família.

Quando deu entrada no hospital, os ferimentos de Richard eram tão numerosos que tornava difícil o reconhecimento da vítima. A internação foi longa e cheia de complicações. Por mais de uma vez, os médicos pediram a Paolo e Francesca que não tivessem muitas esperanças. Mas, no fim das contas, Richard voltou para junto dos filhos. Mas ele carregaria para o resto da vida as marcas daquele ataque. Além de algumas cicatrizes espalhadas pelo corpo, durante a fuga Sullivan havia rolado por um barranco e teve uma lesão grave na coluna que o prendeu a uma cadeira de rodas.

Um velho conhecido de Nova York havia encaminhado Richard para uma renomada clínica de reabilitação, mas era notável que Sullivan não parecia animado. Para um homem sempre tão ativo, era uma tortura se ver preso no próprio corpo estragado. Richard assistia de forma inconsolável os filhos se desdobrando para cuidar de tudo e, mesmo que Paolo e Francesca forçassem sorrisos e nunca reclamassem, o pai sabia que eles não estavam felizes naquela nova vida.

- Mas que merda é essa, Paolo???

A exclamação de Francesca ecoou pelo carro antes que ela se virasse para o irmão com um olhar irritado. Paolo havia acabado de estacionar o Impala diante do requintado prédio onde funcionava a Constance Billard School. Quando o irmão a chamou para conhecer a escola onde Francesca havia sido matriculada, a última coisa que a garota esperava ver era um colégio particular do West Side. Não era preciso nem ultrapassar os portões para perceber que se tratava de um ambiente elitizado onde ela definitivamente não se encaixava.

- Constance Billard School.

A resposta óbvia do irmão foi seguida por um sorrisinho debochado que deixou Francesca ainda mais furiosa. Os olhos verdes fitaram novamente o prédio enquanto ela sacudia a cabeça, ainda sem acreditar que Paolo estava falando sério.

- De onde veio esta ideia estúpida? Ou melhor, de onde vai sair o dinheiro para bancar esta ideia estúpida!?

- É provavelmente o melhor colégio de Nova York. Eu sei que geralmente não podemos dar o melhor a você, mas isso não significa que você não mereça, Fran. Você é fantástica e tem um futuro brilhante. Muitas portas serão abertas para você se esta escola fizer parte do seu currículo, irmãzinha. Tudo o que o papai e eu queremos é que você seja feliz e chegue aonde merece estar.

Desta vez não havia nenhum pingo de ironia na declaração do irmão, o que fez com que Francesca recuasse daquela entonação hostil. Ela sabia melhor do que ninguém o quanto Richard e agora Paolo se sacrificavam pelo bem estar dela.

- Não podemos pagar. – a voz de Francesca soou de forma mais calma e racional – Ainda mais agora que o papai precisa de remédios, de fisioterapia... É loucura, Paolo.

- Não vamos pagar nenhum centavo. Pelo contrário, o diretor curtiu tanto o seu histórico que mencionou que você deveria se candidatar ao cargo de monitora de matemática para ter uma bolsa e ganhar uns trocadinhos.

- Não vamos pagar? – o olhar descrente de Francesca buscou pelo rosto do irmão – Como quer que eu acredite nisso, Paolo? Olha esse prédio, essas pessoas, esse bairro! Dinheiro é quem dá as ordens por aqui.

- O papai conhece o dono da escola. Quando ele soube do acidente e que estávamos vindo para Nova York, ofereceu uma vaga pra você. Não pense que é caridade. Ele deve um enorme favor ao papai.

Era difícil imaginar que tipo de favor um homem rico e influente poderia dever a um simples vendedor. Mas Francesca já havia notado que o Sr. Sullivan tinha amigos no país inteiro e sempre havia alguém que lhe devia um grande favor. Richard geralmente desconversava quando a filha fazia perguntas e Paolo seguia pelo mesmo caminho do pai.

- Que tipo de favor?

- Não faço ideia. – Paolo destravou as portas do carro – Agora desça e vá buscar seu uniforme e a lista de materiais. Temos que organizar tudo e fazer as compras antes de voltarmos para casa. Você começa amanhã cedo.

- Eu terei que usar esse uniforme ridículo?

O rosto de Francesca se contraiu numa careta quando algumas garotas passaram pela calçada com uma saia xadrez em tons de preto e cinza. A camisa de botões branca exibia o logo da escola no canto esquerdo e recebia o acréscimo de uma gravata borboleta listrada de vermelho e dourado. As meias brancas chegavam aos joelhos e os sapatos pretos tinham pequenos saltos que faziam um incômodo “toc-toc” ao caminhar.

- Qual o problema? – era evidente que Paolo segurava o riso – Vai ficar uma gracinha.

O dedo do meio de Francesca foi erguido na direção do irmão, arrancando uma gargalhada de Paolo. Aquela discussão poderia ter se alongado pelo resto da tarde, mas a moça deslizou para fora do carro ao se lembrar que o pai estava sozinho em casa. A secretaria do colégio já estava ciente da nova aluna, então Sullivan encontrou seus uniformes e a lista de livros já separados. A visita daquela tarde não durou mais que dez minutos, mas Francesca sabia que na manhã seguinte voltaria ao prédio para ficar.

O colégio não combinava em nada com Francesca e ela tinha certeza de que não seria fácil se adaptar ali e provavelmente não faria nenhum amigo. Mas Paolo não ouviu nenhuma reclamação quando a irmã retornou ao carro com um semblante sério.

Francesca encarava aquilo como um sacrifício que teria que fazer para agradar o pai. Parecia justo depois de todos os sacrifícios que Richard já fizera pelos filhos.
avatar
Francesca Sullivan

Mensagens : 99
Data de inscrição : 23/04/2016

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Sex Jul 01, 2016 1:58 am

O espelho refletiu a imagem de um rapaz jovem quando Maximilian Cavendish parou diante da pia, o corpo coberto por somente uma toalha branca amarrada ao redor de sua cintura. Os cabelos castanhos molhados depois do banho adquiriam um tom mais escuro e pareciam mais lisos do que realmente eram, mas os cachos fatalmente começariam a surgir quando a umidade dos fios evaporasse.

Apesar do vapor espalhado por todo o banheiro, era possível notar que Cavendish era um rapaz atraente. Qualquer um diria que seus músculos bem definidos e a barriga reta eram fruto de muito esforço em uma academia, mas a verdade era que aquele fora um presente “gratuito” de sua transformação.

Com uma das mãos, Maximilian limpou o espelho embaçado e perdeu alguns poucos segundos olhando para o reflexo do próprio rosto. Os traços bonitos combinavam com seu porte atlético, com os ombros largos e a fisionomia jovem. Mas havia um detalhe de sua aparência que não combinava com a imagem perfeita que o espelho refletia. Seus olhos tinham um formato amendoado bonito e eram estreitos. Mas as íris profundamente vermelhas marcadas por pupilas em forma de fenda davam a Max um ar ameaçador e bizarro que não combinava com seus belos traços.

As íris tão vermelhas quanto sangue fresco fitaram Cavendish pelo espelho até que o rapaz desviou o rosto e abriu uma das gavetas. Seus longos dedos tatearam o interior da gaveta ligeiramente bagunçada até encontrar o que desejavam. A embalagem onde Maximilian guardava as lentes de contato foi aberta e, em menos de dez segundos, o espelho do banheiro refletia um par de inocentes olhos azuis.

Embora morasse sozinho naquele pequeno apartamento localizado nas imediações do Central Park, Cavendish só retirava as lentes para tomar banho ou para dormir. Era difícil prever quando um vizinho apareceria para pedir um favor, ou quando o porteiro subiria com alguma carta ou encomenda. O mais sensato era garantir a segurança daquele segredo, só assim Max continuaria tendo a paz tão necessária para lidar com aquela transformação e com as responsabilidades advindas dela.

A aparência de Cavendish mostrava um rapaz jovem, certamente ninguém lhe daria mais que vinte anos. Mas sua postura firme e o olhar maduro refletiam uma segurança que não costumava existir nos outros rapazes da sua idade. Era como se ele já tivesse nascido para ser líder.

Quando alguém bateu à porta do apartamento, Max já havia se vestido. A calça jeans surrada era confortável, assim como o casaco de moleton. Alguns cachos começavam a se enrolar nos cabelos ainda úmidos e os pés estavam descalços, mas o rapaz não parecia ligar para este detalhe quando abriu a porta. Ele já sabia quem estava do outro lado e não havia necessidade de formalidades com um velho amigo.

- Tem pizza?

- Oi pra você também, Jack.

Os dois amigos trocaram um riso cúmplice enquanto Jack entrava no apartamento com as mãos enfiadas no bolso do seu casaco. Como líder de uma pequena alcateia, Maximilian podia dizer que tinha bons amigos a quem confiaria a própria vida. Mas Jack era muito mais que um simples beta. Eles eram como irmãos.

- Estou com fome, cara.

- Você sempre está com fome. – Max indicou a geladeira com um movimento de cabeça – Tem lasanha no congelador e um resto de torta de carne na geladeira.

- Valeu!

A cozinha era o primeiro cômodo do pequeno apartamento de Cavendish. Somente uma bancada separava aquele espaço de uma sala, onde havia duas poltronas reclináveis diante de uma enorme televisão anexada à parede. Um rack abaixo da TV tinha uma invejável coleção de DVD’s de filmes e seriados. Na parede no fundo da sala havia duas portas. Atrás de uma delas ficava o quarto de Max e a outra dava acesso ao banheiro.

Era um apartamento muito pequeno, mas parecia ideal para um rapaz que morava sozinho. Maximilian levava uma vida discreta, não recebia muitas visitas e nunca recebera nenhum tipo de reclamação dos vizinhos. Nenhum dos moradores daquele prédio jamais imaginaria o perigo que existia por trás das falsas íris azuladas.

- E então...? – Cavendish se encostou na bancada enquanto via o amigo enfiando um generoso pedaço de torta de carne no micro-ondas – Descobriu mais alguma coisa?

O assunto sério foi o bastante para fazer com que Jack se concentrasse naquela conversa e afastasse um pouco a atenção da comida. Mesmo com o cheiro gostoso que vinha do micro-ondas e se espalhava pelo apartamento, Jack não se dispersou.

- O Ted achou o solitário. – Jack sentou-se na pia antes de completar – Ele disse que o cara estava assustado, que atacou por sentir-se acuado e que prometeu que sairia de Nova York e que isso nunca mais aconteceria. – o rapaz deu de ombros – O Ted disse que não temos que nos preocupar com ele, que é só um recém transformado que fez cagada. Nada demais.

- Infelizmente eu terei que discordar, Jack. Não enxergo o que aconteceu como “só” uma cagada de um lobo jovem. Ele atacou uma pessoa na nossa área de proteção. Quero que fiquem de olho para garantir que o tal solitário vai mesmo se mandar daqui.

Apesar daquela ser uma ordem clara, Max não soava autoritário. Ele era um líder nato que sabia que a fidelidade de sua alcateia deveria ser conquistada com respeito e não com ameaças e terror. A forma como Jack concordou prontamente com as palavras de Cavendish indicava que para ele aquela posição de subordinado não era um problema. Era o seu papel naquela sociedade, afinal.

- E quanto à vítima? – Maximilian assumiu um semblante mais preocupado – Já identificaram?

- Não. Ele desapareceu, Max. Já vasculhamos todos os registros dos hospitais e não há nenhum sinal dele. Também não encontramos nenhum óbito suspeito. O Ted tentou arrancar alguma coisa do solitário, mas o cara disse que estava escuro, que tudo aconteceu muito rápido. Ele só soube dizer que era um homem jovem e que tinha um sotaque diferente. Britânico, talvez...

Aquilo não ajudava muito. Em Nova York, deveriam existir centenas, talvez milhares de rapazes jovens com sotaque britânico. Poderia ser um turista ou um inglês que se mudara para a América para trabalhar ou estudar. Eles estavam em uma das cidades que mais recebia estrangeiros e turistas em todo o mundo. Era como procurar por uma agulha em um palheiro.

- Se ele tiver sobrevivido, logo saberemos. – o tom de Max se tornou mais sombrio e ele completou no exato instante em que o micro-ondas apitava – Só espero que a primeira notícia dele não venha associada a mais um ataque. Não é fácil limpar a sujeira de recém-transformados.

Cavendish sabia o quanto era difícil conter os instintos de um lobo transformado há pouco tempo. As habilidades surgiam rápido demais e de forma descontrolada. Era comum que os instintos mais selvagens aflorassem acima do controle racional do lobisomem. Não era raro que os recém-transformados machucassem seriamente seus amigos ou familiares ou até os matassem sem intenção.

Exatamente por isso, Max havia colocado toda a sua alcateia no rastro da vítima que fora atacada no beco sombrio. O objetivo dele era localizar o rapaz antes que a transformação se concretizasse para oferecer a ele apoio e um lugar na matilha.

Muitos lobisomens optavam por uma vida solitária, mas aqueles que tinham família, amigos e queriam continuar vivendo em sociedade sabiam que precisavam do apoio e da proteção que só um Alpha oferecia a sua alcateia.
avatar
Maximilian Cavendish
Admin

Mensagens : 97
Data de inscrição : 13/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sex Jul 01, 2016 4:01 am

O sol já havia se posto há algum tempo. Os corredores estavam mergulhados em silêncio, a escuridão sendo interrompida apenas pelas luzes de emergência sobre as portas. Era um cenário quase assustador andar pela deserta Constance Billard, tão diferente do ar burguês que ocupava cada centímetro enquanto os alunos andavam de um lado ao outro, mas por algum motivo, Samantha Archibald preferia a escola naquela hora da noite.

A porta da sala de multimídia estava fechada, mas era possível ver a luz acessa de seu interior escapando pelas frestas. Embora a luz central já tivesse sido encerrada, uma luminária de escritório estava acessa, somando com a luminosidade de três grandes monitores ligados.

Os olhos castanhos deslizavam atentos de uma tela a outra enquanto Samantha estava inteiramente concentrada no trabalho a sua frente. Uma xícara de café estava firme em seus dedos, mas o líquido já havia esfriado enquanto ela revisava a capa da revista digital estampada no monitor principal.

Graças a grande fortuna mensal que os pais davam para a Constance Billard, a sala de multimídia era perfeitamente equipada, capaz de atender a excelentes profissionais. Duas grandes mesas eram enfileiradas nas paredes, exibindo computadores modernos e adequados para edições gráficas. Um tripé exibia uma filmadora de última geração em um canto preparado para realizar entrevistas para o site da escola. Em um outro canto, sofás e pufes se mutuavam para momentos mais relaxantes e uma cafeteira moderna era usada várias vezes ao dia pelos estudantes responsáveis pela revista da escola.

Para Samantha Archibald, aquele definitivamente era seu canto preferido na escola inteira. Ela havia passado praticamente toda sua vida academia na Constance Billard, dona de um currículo admirável e imensamente orgulhosa pelo seu posto de editora-chefe na revista digital. Ela era responsável por todo conteúdo semanal que era divulgado, coordenava a pequena equipe de quatro pessoas e não tinha a menor dúvida de que aquele seria o seu futuro.

Era de se esperar que a filha de Lydia Archibald fosse seguir o ramo jornalístico. Embora Sam não fosse fã número um do conteúdo da W., preferindo temas muito mais complexos do que o ramo artístico, moda e beleza, ela sabia reconhecer o trabalho da mãe, responsável por todo conteúdo de uma das maiores revistas da América.

Lydia, além de assumir a diretoria da W. Magazine, empenhava com perfeição seu papel de esposa de Trevor Archibald, treinador dos Yankees. Talvez, por esses dois cargos lhe consumirem demais, sua responsabilidade como mãe poderia não ser tão admirável. Não havia dúvidas de que Lydia amava sua única filha, mas entre governar o mundo midiático e posar como a bela esposa de um dos ícones de beisebol, não sobrava tempo para ela se preocupar tanto com Sam.

Naquela noite, Lydia e Trevor estavam tão envolvidos em um dos eventos esportivos do outro lado da cidade, que sequer havia notado que, mesmo tão tarde, a filha ainda não estava em casa. Era comum que Samantha se esquecesse das horas quando estava na sala de multimídia, mas nunca havia sido repreendida por chegar tarde em casa, e não podia negar que gostava daquela sensação de liberdade.

Archibald tinha o mundo aos seus pés. Dinheiro jamais seria um problema em seu futuro. Ela tinha uma educação de primeira e cada um dos seus próximos anos perfeitamente arquitetado. A vida em uma das coberturas do East Side com vista para o Central Park não era nada difícil.

Por não ter nada com o que se preocupar, Samantha se deliciava com as horas avançadas na frente do computador. O fone de ouvido estava preso em suas orelhas e a música pop tocava alta enquanto ela finalizava as edições para a revista que iria ao ar na manhã seguinte.

Um ruído distante a obrigou a puxar um dos fones e uma ruga surgiu em suas sobrancelhas enquanto ela se concentrava, esperando qualquer sinal. Longos segundos se passaram até que um novo barulho quebrasse o silêncio da escola. Com um movimento ágil dos dedos, ela retirou o fone por inteiro e arrastou a cadeira de rodinhas, se distanciando da mesa.

Ela já havia ficado tarde da noite por diversas vezes e sabia que raramente alguém interrompia seu trabalho. O segurança que fazia a ronda já havia notado sua presença e não voltaria para incomodar, mas mesmo assim, Samantha se viu caminhando até a porta para se certificar.

A cabeça foi enfiada para fora da sala, balançando os cabelos negros enquanto ela girava de um lado ao outro, tentando enxergar algo entre as sombras. Não havia sinal de mais ninguém por perto, o que ocasionou um grito quando uma mão roçou seu pulso de repente.

- Hey, hey, calma! Sou eu!

A mão rapidamente deslizou para a boca de Samantha, a impedindo de chamar a atenção do segurança. Seu corpo inteiro já tremia e os olhos estavam exageradamente arregalados quando o rosto de Caleb Stark entrou em foco, fazendo seus ombros relaxarem.

Ao perceber que a menina não faria nenhum escândalo, Caleb a soltou, abrindo imediatamente um largo sorriso. O movimento de seus lábios era natural demais, o que tornava sua aparência ainda mais irresistível.

Se a Constance Billard tinha um pequeno príncipe para representar sua realeza, Caleb Stark definitivamente era dono daquele papel. Com seus cabelos castanhos claros, quase aloirados, e os intensos olhos azuis, Caleb arrancava suspiros de qualquer menina. Seu porte atlético era ainda mais reforçado com a camisa branca suada e os fios que grudavam em sua testa.

- O que você está fazendo aqui? – Sam levou a mão até o peito, sentindo a pulsação ainda acelerada.

- Estava no treino de lacrosse. O que você está fazendo aqui?

O olhar de Samantha passou pela aparência de Caleb. Só após seu comentário, ela notou que ele também estava ofegante e suado, indicando que havia terminado recentemente alguma atividade física.

- O treino terminou há pelo menos uma hora. – Ela lançou um rápido olhar ao relógio na parede da sala de multimídia enquanto voltava para o seu interior, terminando de salvar seu trabalho.

- Eu sei, mas eu sabia que você ia ficar até tarde... Então aproveitei para continuar na academia e te esperar.

O sorriso irresistível estava novamente em seu rosto, fazendo os olhos azuis brilharem. Samantha tinha mesmo tudo, inclusive o rapaz mais bonito do East Site para chamar de namorado.

- Não dava pra ter tomado um banho antes? – Ela resmungou, franzindo o nariz, mas o sorriso divertido em seus lábios mostrava que ela não se importava com aquela surpresa.

Caleb conseguia ser ainda mais sexy com aquela aparência desleixada e ela não seria louca de recrimina-lo por aquela surpresa.

- Certo, Lois Lane, na próxima vou manter isso em mente.

Ele permaneceu sorrindo enquanto Samantha desligava os monitores e puxava a mochila para um dos ombros. Antes que ela pudesse seguir o caminho para fora da sala, Caleb a puxou pela cintura, mantendo-a firme contra seu corpo.

- Vou levar você em casa. Bobby já está lá fora esperando.

Ter um motorista em uma limusine apenas lhe aguardando não era nada de outro mundo para os estudantes da Constance Billard. Apesar disso, Samantha sempre optava por fazer o percurso de bicicleta. A pouca distância entre o prédio e a escola era suficiente para lhe dar a sensação do vento contra o rosto sem dar tempo para cansar. Além de ser infinitamente mais rápido do que enfrentar o trânsito de Nova York.

Apesar de não gostar da ideia de deixar a bicicleta no pátio da escola, ela sabia que era uma guerra perdida. Caleb jamais permitiria que ela voltasse para casa sozinha, tão tarde da noite, e se ofereceria imediatamente para busca-la na manhã seguinte.
avatar
Lucinda Clearwater

Mensagens : 574
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Sex Jul 01, 2016 4:47 am

Sua mente estava girando, lutando bravamente para encontrar novamente o foco, como se estivesse solta no universo e tentando se fixar em algum ponto sólido. Enquanto sua consciência aos poucos se recobrava, Damien se esforçava para lembrar o que havia acontecido. Ou melhor, o que estava acontecendo.

Um barulho constante de água foi a primeira coisa que seu cérebro foi capaz de processar. Estava chovendo e parecia já chover há bastante tempo, de forma constante. Estava tudo escuro, mas logo ele compreendeu que estava apenas de olhos fechados. Então, meio segundo antes de erguer as pálpebras, ele se lembrou.

Em uma avalanche de memórias, ele se lembrou do beco escuro, da sombra, da ratazana, a poça fedorenta e a mordida. No instante em que a lembrança da mordida voltou para sua mente lenta, a dor veio junto e ele arregalou os olhos, suas pupilas se contraindo imediatamente em dois pontos azuis.

Com os olhos abertos, Damien Scott percebeu que não estava chovendo. Ele não se lembrava como havia chegado ali, mas estava sentado no box do próprio banheiro. O chuveiro estava aberto e caía com a água gelada constante sobre seus cabelos e ombros. Todo o caminho até a casa era um grande enigma para sua mente confusa, mas ele sabia que havia se sentido grato pela mãe não estar em casa e que havia se arrastado até o banho gelado porque sentia sua pele queimar.

A temperatura ainda estava elevada e ele sentia um grande calor, como se labaredas de fogo estivessem correndo junto com seu sangue nas veias. A água gelada não era suficiente para acalmar aquela sensação.

A gravata, o blazer com o emblema da escola e a camisa branca manchada de sangue e sujeira estavam jogados no chão do banheiro. Os sapatos haviam sido retirados já dentro do box e estavam encharcados, no lado oposto. A calça cáqui havia escurecido alguns tons por causa da água e o seu peito nu permitia que as gotas descessem livremente.

Com o corpo trêmulo, Damien se arrastou pela parede até se colocar de pé e desligou o registro do chuveiro. Sem se importar se estava molhando o banheiro inteiro, ele cambaleou para fora e encarou o próprio reflexo. Estava extremamente pálido e claramente aterrorizado. Alguns comprimidos da mãe foram furtados e ele tomou, na esperança de aliviar a dor. Se inclinando para o lado, ele encarou o reflexo do próprio corpo no espelho até encontrar a ferida.

A aparência estava ainda mais assustadora. Grandes buracos se enfileiravam na marca perfeita de uma enorme boca. O sangue vermelho-escuro ainda estava vazando, se diluindo com a água de seu corpo. Um curativo horroroso, causado pelas mãos trêmulas, foi feito antes que ele se arrastasse até a própria cama, na esperança de que os remédios da mãe fizessem algum efeito.

Qualquer um que olhasse aquele ferimento lhe mandaria direto ao hospital. A própria mãe, acostumada com tantos casos complexos no hospital, não conseguiria evitar o nariz de franzir, mas Damien esconderia aquilo a todo custo.

A mãe certamente lhe arrastaria até o Hospital Central como se ele fosse um menininho incapaz. Mas o que ele diria quando os médicos finalmente fossem lhe examinar? Nem ele sabia o que havia acontecido. Havia sido atacado por uma sombra? Uma criatura?

Um flash surgiu em sua mente com o rosto perfeito da criatura. Estava escuro, mas por um segundo ele havia enxergado com perfeição. O rosto parecia de um homem, mas haviam costeletas que iam até seu maxilar. Os olhos definitivamente não eram humanos, de um amarelo quase cintilante. Mas o mais assustador era a lembrança dos dentes grandes e ameaçadores do predador. Ninguém jamais acreditaria naquela história. Nem ele acreditava.

Ainda sentindo o corpo queimar, Damien afundou o rosto no travesseiro, ainda com a calça molhada, e só adormeceu graças aos remédios.

***

- DAMIEN SCOTT!!!

O sol entrava forte pela janela e Damien já estava em Nova York tempo o bastante para saber que nas primeiras horas da manhã, nunca havia tanta luminosidade. Com o olhar confuso, ele levantou o tronco no instante em que a mãe entrava no quarto.

Ela ainda vestia a calça verde do hospital e os cabelos pretos e cacheados estavam presos com um elástico. Sua aparência cansada mostrava que ela havia acabado de chegar de um dos seus plantões, mas ainda tinha energia o suficiente para estar furiosa.

- SÃO QUASE DEZ HORAS, DAMIEN!

O quê? Damien girou a cabeça até encontrar a mesinha de cabeceira, mas o despertador não estava ali, diferente de todas as manhãs. Com um semblante confuso, um novo flash surgiu em sua mente, lhe lembrando que o som irritante o havia incomodado de tal maneira que ele havia arremessado o despertador para longe.

Seus olhos se arregalaram ao encontrar os milhares de pedacinhos que um dia haviam composto o despertador, se espalhando sobre o carpete no lado oposto da cama. A marca na parede mostrava que o impacto havia sido forte demais.

- ATÉ QUANDO VOCÊ VAI CONTINUAR SENDO TÃO IRRESPONSÁVEL COM O SEU FUTURO???

A cabeça de Damien começava a latejar e ele levou a mão até o ouvido, sentindo a voz da mãe perfurar os seus tímpanos.

- Para de gritar! – Embora estivesse desesperado, ele era incapaz de falar mais alto que um sussurro.

- PARAR DE GRITAR? – A mãe soou ainda mais furiosa. – VOCÊ JÁ PERDEU AS PRIMEIRAS AULAS! EU TRABALHEI A NOITE INTEIRA PARA ENCONTRAR VOCÊ DORMINDO ATÉ AGORA?

Damien precisava sair dali. Se a mãe continuasse gritando, ele tinha certeza que sua cabeça iria explodir. Era como se a voz dela pudesse penetrar diretamente na sua mente, como um megafone colado ao seu tímpano.

Cambaleando e com os indicadores pressionando os ouvidos, ele deslizou para fora da cama e tombou até o banheiro. O pânico voltou a se espalhar pelo seu corpo ao perceber que estava sem camisa, exibindo o curativo bem diante do nariz de Debby.

- Droga! – Ele protestou baixinho, sabendo que era tarde demais quando a porta do banheiro foi aberta sem o menor pudor.

O ruído novamente fez com que Damien saltasse, mas a fúria da mãe já havia desaparecido, dando lugar para a preocupação.

- O que é isso?

Ignorando sua aflição, Damien levou os dedos trêmulos até o esparadrapo, puxando-o delicadamente. Sem a menor paciência, a Sra. Scott atravessou o banheiro e puxou ela mesma o curativo, e, para a grande surpresa dos dois, revelou a pele inteiramente lisa e perfeita, sem nenhum arranhão.

- O quê...? – Damien deslizou os dedos pela pele, como se ela de repente fosse descascar e revelar a ferida horrenda da noite anterior.

Completamente alheia a confusão do único filho, Debby respirou fundo, falando entredentes.

- Damien. Escola. Agora.

Pisando duro, ela deixou o banheiro, batendo a porta violentamente atrás de si. O baque foi recebido como uma bomba aos ouvidos de Scott, que novamente se encolheu.

Sentindo-se completamente aéreo, acreditando que estava enlouquecendo, Damien vestiu um uniforme limpo de forma automática e deixou o pequeno loft no Brooklyn, caminhando até o bar onde a moto estava estacionada. O restante do caminho até a escola parecia ser a prova de uma grande maratona.

Pior do que qualquer ressaca que ele já tivesse tido em toda sua vida, cada ruído daquela barulhenta cidade parecia penetrar sua mente e arranhá-la quase que fisicamente. Mais do que qualquer outro dia, as pessoas pareciam fazer ainda mais barulho.

Ele quase caiu da moto enquanto um cachorro, há um quarteirão de distância, latia de forma insistente para um vendedor de jornais. A buzina de um carro quase o cegou, de tão alta. Ele podia escutar cada uma das marteladas de uma obra que estava acontecendo no topo de um edifício. E perdeu o fôlego quando percebeu que um homem, na esquina, acendeu um isqueiro para poder fumar.

Quando achou que perderia a mente antes de finalmente chegar na escola, a escadaria da Constance Billard finalmente surgiu diante dos seus olhos. Damien tinha certeza que não sobreviveria ao fim daquele dia. Sua vida não parecia mais a mesma e ele sentia como se estivesse sob efeito de drogas. Talvez tivesse exagerado na medicação da mãe. Talvez tivesse bebido além da conta na noite anterior e a mordida e a sombra tivessem sido apenas parte de um sonho extremamente vívido.

Respirando fundo diversas vezes, Scott andou apressado pelos corredores, tentando ignorar os ruídos constantes. Ele conseguia ouvir o giz deslizando pelo quadro negro, mesmo estando no corredor deserto. Quando uma página de um livro era virada, tirava sua concentração do caminho que estava fazendo até a própria sala de aula.

Apesar de estar completamente conturbado com sua audição repentinamente sensível, sua mente, seus olhos e seu corpo foram ágeis o bastante para prever, no instante em que virava o corredor, que alguém iria tombar com seu corpo.

Seus braços imediatamente se ergueram e seguraram os ombros da menina a sua frente, impedindo que os dois se chocassem. Apesar disso, ele foi incapaz de evitar que um dos livros carregados pela menina escorregasse, cortando o ar de forma surpreendentemente lenta aos seus olhos. Uma de suas mãos se soltou do ombro dela e rapidamente aparou o livro, antes que ele se chocasse contra o piso.

O queixo de Damien caiu e ele arregalou os olhos diante dos próprios reflexos, e estava abismado demais com a própria esquisitice quando finalmente focou o olhar no rosto desconhecido da menina a sua frente.
avatar
Damien Scott

Mensagens : 300
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Sab Jul 02, 2016 12:06 am

Mais de duas horas de atraso e um semblante visivelmente exausto. Definitivamente, aquela não era a melhor maneira de iniciar a sua jornada na nova escola.

Ao contrário de Damien, o atraso de Francesca não se devia a uma manhã de sono prolongado. Aliás, ela havia dormido poucas horas quando um terrível ruído ecoou pela casa dos Sullivan e colocou um fim precoce no necessário descanso da jovem. A madrugada ainda estava pela metade quando Paolo e Francesca enfiaram Richard no Impala e o levaram até o hospital mais próximo.

Depois de oito pontos na testa, seis horas de observação e uma tomografia normal, Richard recebeu alta no começo da manhã. Os filhos até tentaram poupá-lo de uma merecida repreensão por entenderem que era enorme o nível de frustração do Sr. Sullivan com aquela nova vida cheia de limitações. Mas os médicos não fugiram da tarefa de exigir que Richard fosse mais responsável com a própria saúde. A tentativa de poupar os filhos de levá-lo ao banheiro no meio da madrugada acabou causando um acidente que obrigou Paolo e Francesca a perderem o resto da noite num hospital.

Só depois que garantiu que Richard ficaria bem, a caçula dos Sullivan tomou um banho rápido e se obrigou a vestir o ridículo uniforme da Constance Billard School. O atraso já era grande demais e não permitiu que Francesca perdesse mais tempo tomando café. Um cupcake comprado numa padaria próxima ao ponto de ônibus era a única coisa que preenchia o estômago da jovem quando Francesca chegou aos portões do novo colégio.

Enquanto caminhava pelos longos corredores, a novata se arrependeu por ter feito uma visita tão breve no dia anterior. Agora que já estava bizarramente atrasada para as aulas, Francesca não tinha ideia de onde ficava a sala na qual ela deveria estar. Como todos os alunos e os professores estavam dentro das salas, Sullivan não tinha sequer a opção de pedir informações sem interromper uma das aulas.

Quando passou diante de uma fileira de armários e reconheceu o cadeado em forma de coração em uma das portas, Francesca teve certeza de que estava vagando em círculos pelos infinitos corredores da escola.

De dentro da mochila surrada – que era oposta às bolsas de grife usadas pelas meninas que frequentavam aquele colégio – Sullivan retirou a folha com seu quadro de horários para conferir o número da sala. Ela já havia perdido as duas primeiras aulas, que eram respectivamente Literatura Inglesa e Biologia. Mas a aula de matemática havia começado há dez minutos. Francesca só precisava encontrar a maldita sala para evitar ganhar mais uma falta naquele primeiro dia.

- Sala 108-C2.

Os lábios de Francesca se contraíram numa careta depois que ela repetiu para si mesma o número da sala. Que tipo de código era aquele? Por que aquela maldita escola não simplificava as coisas e simplesmente numerava as portas das salas de forma crescente ou decrescente? Era por isso que ela estava andando em círculos sem encontrar a sala de matemática.

Com uma das alças da mochila pendurada no ombro, Francesca retomou a sua busca pelos corredores. Uma das mãos segurava com firmeza a folha com o quadro de horários enquanto o outro braço equilibrava os livros adquiridos recentemente. Por estar tão concentrada na difícil tarefa de encontrar alguma lógica na numeração das salas, a garota só percebeu que não estava mais sozinha no corredor quando um par de braços fortes a seguraram pelos ombros, impedindo que os dois corpos se chocassem.

Apesar da reação rápida do colega, o impacto fez com que um dos livros de Francesca se desequilibrasse e escorregasse na direção do chão. Para Sullivan, tudo aconteceu rápido demais e, portanto, os reflexos do rapaz foram absurdamente surpreendentes.

A boca dela se abriu em completo espanto quando Damien agarrou o livro antes que ele atingisse o piso. Os olhos verdes acompanharam os movimentos dele com uma expressão de incredulidade, mas Francesca se obrigou a pensar que era a mente dela que estava mais lenta que o normal depois de uma noite em claro.

- Uau. Obrigada.

Por mais que quisesse manter os pés no chão naquela nova escola, Francesca não deixou de notar como o colega parecia interessante. Além dos traços bonitos, o rapaz era alto, tinha um físico de atleta. Provavelmente era um dos riquinhos populares da Constance Billard que nunca olhariam duas vezes para uma garota como ela. Apesar desta certeza, era impossível para Sullivan conter aquela admiração.

- Me diz que você está indo para a aula de matemática, por favor! – os olhos verdes giraram com alguma impaciência enquanto Francesca sacudia a folha em sua mão – Já dei três voltas neste andar inteiro e não acho a maldita sala 108-C2.

Não seria difícil perceber que Sullivan era uma novata. Além de ser um rosto desconhecido naquele prédio, o estilo simples dela não combinava com o desfile de moda que as alunas do colégio protagonizavam pelos corredores. A mochila já estava bem gasta, era óbvio que os sapatos pretos não eram novos. Qualquer leigo no assunto veria que os delicados brincos de brilhantes eram bijuterias e, ao contrário das meninas que só apareciam na escola com maquiagens impecáveis, Francesca usava somente um brilho discreto nos lábios e uma camada de rímel nos cílios naturalmente longos.
avatar
Francesca Sullivan

Mensagens : 99
Data de inscrição : 23/04/2016

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Sab Jul 02, 2016 2:19 am

Mesmo com toda a alcateia trabalhando duro para localizar a vítima do último ataque ocorrido na região, Maximilian sabia que as notícias poderiam demorar. Aliás, não era seguro afirmar sequer que o tal rapaz havia sobrevivido. Todos torciam para que surgisse alguma novidade que apontasse na direção de um novo lobisomem, mas não era possível descartar a possibilidade de localizar um cadáver caído em alguma vala.

Não havia nenhuma maneira segura de prever quais eram as vítimas com mais chances de sobreviver à transformação. A sobrevivência dependia de um conjunto complexo de variáveis que se somavam. A juventude contava pontos favoráveis, assim como uma boa saúde prévia. Mas a gravidade do ferimento comprometia negativamente a transformação, assim como os cuidados iniciais após o ataque.

Tudo o que Max sabia era que a vítima era um rapaz jovem, e isso lhe dava mais esperanças. Mas não era possível prever a gravidade da mordida, tampouco que tipo de cuidados a vítima estava recebendo naquele instante. Portanto, nenhuma possibilidade poderia ser descartada.

Com Jack liderando as buscas e seguindo os rastros deixados pela vítima, Maximilian sabia que era uma questão de tempo até que as respostas surgissem. E embora torcesse para que o rapaz tivesse sobrevivido, a última coisa que o Alpha desejava era que ele se manifestasse protagonizando mais um ataque selvagem.

Por mais que confiasse em sua alcateia, Max se sentia inquieto com a falta de notícias. Embora aquela não fosse a sua única preocupação de líder, o Alpha estava com a mente focada no último ataque. Sempre que seu celular tocava, ou que alguém batia à porta do seu apartamento ou que uma chamada extraordinária interrompia a programação da grande TV da sua sala, Cavendish logo imaginava que uma tragédia aconteceria.

Foi esta tensão que motivou Maximilian a sair de casa nas primeiras horas daquela manhã. Depois de uma noite agitada com muitos sonhos movimentados, o Alpha decidiu que precisava extravasar toda aquela energia para que o cansaço finalmente permitisse que ele relaxasse.

Os primeiros raios de sol ainda despontavam timidamente no horizonte e eram barrados pelos enormes prédios de Nova York quando Cavendish alcançou a calçada. O rapaz usava uma calça de moletom larga, uma camiseta branca e tênis de corrida. Os cabelos atrapalhados denunciavam que Max não havia usado um pente naquela manhã, mas isso não fez mais diferença no instante em que o rapaz iniciou sua corrida. Mesmo se os fios estivessem impecáveis, o vento que se chocava contra o rosto dele faria o trabalho de atrapalhar o penteado.

Mesmo que ainda fosse muito cedo, era difícil correr pelas calçadas de Nova York. Aquela era uma cidade que nunca dormia, as ruas estavam sempre lotadas de carros e de pessoas apressadas. Exatamente para fugir um pouco de toda aquela confusão, Cavendish havia se instalado em um apartamento próximo ao Central Park. Em menos de cinco minutos de corrida, o rapaz já estava protegido pelo clima mais fresco e pela calmaria do parque.

Sua maior dificuldade era controlar os próprios instintos. Qualquer um que assistisse à corrida de Cavendish ficaria admirado com a velocidade que ele atingia e com seu fôlego inabalável. Ninguém jamais falaria que Maximilian estava usando uma porcentagem irrisória da sua força naquela manhã.

Esta era uma das razões pelas quais, apesar de uma população tão grande, não era tão absurdo o número de lobisomens que viviam na região de Nova York. A maioria dos transformados preferia se instalar numa cidade menor, onde eram pequenas as chances de terem suas identidades reveladas, onde o maior contato com a natureza reduzia aquela avalanche de estímulos de uma grande metrópole.

Max já estava muito bem adaptado à sua condição, mas ele sabia perfeitamente que não era fácil para um recém-transformado lidar com os instintos aflorados de um lobo. A audição sensível era enlouquecedora no começo, assim como o desenvolvimento do olfato, os reflexos rápidos, a mudança bizarra no paladar. Lidar com tudo isso estando no meio da rotina agitada de Nova York era uma loucura, mas para Maximilian nunca houve o pensamento de sair dali. Ainda mais agora, que ele tinha a própria “família”.

Depois de mais de duas horas de corrida, Max já se sentia relaxado o bastante para voltar para casa. O Alpha deixou o Central Park para trás, mas mesmo há alguns metros de distância ele ainda acompanhava com perfeição o ruído do vento se chocando contra as árvores e derrubando das copas as folhas já secas. O cheiro das flores ainda era admirado como se Cavendish estivesse há poucos centímetros de distância das pétalas perfumadas. Seus ouvidos captavam com nitidez as risadas de algumas crianças que passeavam com os pais e o som do vendedor de pipoca que empurrava o seu velho carrinho até o ponto onde trabalhava há décadas.

Mesmo Cavendish, que já estava bem habituado à loucura de Nova York, às vezes se deixava confundir pelo excesso de estímulos recebidos. Foi exatamente isso que motivou o acidente daquela manhã. Por estar ainda tão focado no Central Park, Max não percebeu a aproximação de uma bicicleta. Não havia nenhum carro naquela pequena rua lateral ao parque e o sinal de pedestres liberou a passagem no exato instante em que o rapaz e a bicicleta dividiam o mesmo ponto da rua.

Tudo aconteceu rápido, mas as imagens se sucederam na cabeça de Maximilian como se estivessem em câmera lenta. A roda da bicicleta atingiu a lateral de sua coxa e o fez cair sentado no asfalto. A condutora do veículo freou a tempo de evitar que a bicicleta passasse por cima da vítima, mas a parada brusca fez com que ela perdesse o equilíbrio e derrapasse, caindo por cima de Max. Os braços dele a envolveram num reflexo rápido, evitando que a garota rolasse pelo asfalto e se machucasse ainda mais.

- Você está bem???

Aquela era a pergunta que qualquer um dirigiria à vítima, mas Cavendish não se preocupava com as leves escoriações nos próprios joelhos. Ao contrário, ele parecia muito mais angustiado em perceber que a moça também tinha arranhado os cotovelos naquela queda.

- Precisa de um médico? – os olhos azuis fitaram a rua sem acreditar que nenhum táxi estivesse por perto – Eu vou te levar ao hospital! Quer que eu ligue pros seus pais?

A última pergunta soou depois que Max notou pelo uniforme escolar que estava diante de uma estudante. A julgar pelo emblema da Constance Billard School e pela bicicleta de marca, a jovem certamente pertencia à elite de Nova York.
avatar
Maximilian Cavendish
Admin

Mensagens : 97
Data de inscrição : 13/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sab Jul 02, 2016 4:11 am

Nova York era um completo caos. Não importava o dia ou a hora, aquela cidade simplesmente não parava para respirar e atropelava quem estivesse na sua frente caso não aceitasse seguir o seu ritmo. E Samantha Archibald amava cada canto daquele lugar.

A agitação significava que cada dia poderia acontecer algo diferente, algo novo e interessante. Não havia chance para o tédio e, para uma curiosa nata, as ruas nova iorquinas eram um prato cheio. A cada esquina, ela sabia que poderia encontrar uma história incrível a ser contada.

Como era normal, os fones de ouvido estavam enfiados em suas orelhas e a música tocava alta. O vento se chocava contra sua pele naturalmente pálida e sem maquiagem. Samantha havia apenas pintado os olhos com um discreto delineador e um batom rosado nos lábios, que lhe dava uma aparência um pouco mais saudável. Por saber que chegaria na escola descabelada, os fios escuros haviam sido puxados em um coque frouxo e despenteado e seriam soltos no instante em que pisasse na escadaria da Constance.

A bicicleta era guiada pela ciclovia com habilidade, mas os olhos castanhos vagavam pelas ruas movimentadas, fazendo o seu jogo preferido: adivinhar qual era a história que existia por cada um que cruzava seu caminho. O jovem casal que aguardava o táxi na calçada, será que estavam apaixonados e com planos para o futuro? Ou estavam tendo um caso e traindo seus verdadeiros companheiros? E a velha senhora que carregava uma sacola marrom, vivia sozinha? Ou tinha um marido preguiçoso que estava sentado no sofá de casa, incapaz de ajudá-la a carregar os ingredientes do almoço?

Samantha sabia que cada um carregava consigo uma história a ser contada e ela, com seu olhar curioso, queria desvendar todas elas. Sua atenção se fixou a um pequeno grupo de punks que saíam de uma cafeteria e sua mente imediatamente começou a criar teorias sobre suas vidas quando o acidente aconteceu.

Ela percebeu que o choque aconteceria quando já era tarde demais e o impacto a arremessou para frente. O fone foi arrancado de seus ouvidos e o iPod voou alguns metros pelo asfalto, sendo destruído em seguida por um carro. A roda da bicicleta ainda girava enquanto ela tentava entender o que estava acontecendo. A pele dos cotovelos e joelhos começaram a arder enquanto seu olhar capturava seus livros espalhados e a bolsa caída na calçada.

Baixando o olhar, Sam constatou que sua meia calça estava rasgada e havia um filete de sangue em seu cotovelo, além de um corte mais comprido em seu antebraço, provavelmente provocado pelo guidão.

Apesar da ardência e de ainda estar chocada com que havia acabado de acontecer, ela permitiu que seus lábios se curvassem em um risinho quando compreendeu as palavras do homem com quem se chocara.

Por um segundo, ela imaginou como seria para Lidya ser interrompida em uma de suas importantíssimas reuniões porque a filha havia arranhado o joelho. Ou o pai, no meio de suas negociações com patrocinadores, aparecendo no hospital por um acidente tão bobo. Definitivamente, os Ackerman estavam ocupados demais para um simples arranhão.

- Eu que deveria estar perguntando isso, não? – Sam soou com uma educação que não era tão comum na elite nova yorkina.

Seu olhar finalmente se ergueu para encarar o homem e ela se surpreendeu ao ver que ele era tão jovem e incrivelmente bonito. Seus olhos azuis eram intensos e cada traço de seu rosto formava um desenho perfeito. Os lábios eram cheios e sem nenhum traço de imperfeição, e mesmo os cabelos bagunçados lhe traziam um charme único.

Mordendo o lábio inferior, Samantha se colocou de pé, sentindo a pele repuxar nas áreas feridas. Seu uniforme estava inteiramente amarrotado e rasgado em algumas partes, mas ela pôde notar o pequeno estrago na calça de moletom do rapaz.

Com um semblante mais sério, Sam se aproximou, abraçando o próprio corpo para proteger os braços feridos.

- Estava distraída, a culpa foi minha. Você está bem? Parece que também se machucou.

O caos constante da cidade permitia que todos ao redor continuassem tomando conta da própria vida, ignorando por completo aqueles dois desconhecidos com hematomas.

- Posso fazer alguma coisa para me desculpar? Estou me sentindo péssima pela minha distração e tenho certeza que machuquei você.
avatar
Lucinda Clearwater

Mensagens : 574
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Sab Jul 02, 2016 4:38 am

Damien se obrigava a encontrar a lógica para tudo que estava acontecendo, mas por mais que se esforçasse, nada parecia ser capaz de justificar as reações esquisitas de seu corpo. Ele ainda estava encarando o livro em sua mão, completamente atônito. Seus reflexos nunca haviam sido dos melhores, de modo que ele jamais havia se destacado em esporte algum.

Antes que ele terminasse de processar seu movimento rápido, suas narinas começaram a despertar em seu cérebro um perfume delicado. A distância entre ele e a novata ainda era curta, o que poderia justificar que seu perfume estivesse em seu alcance, mas sem dar um segundo para se recuperar, seus sentidos novamente lhe trapacearam.

Ele podia ver os lábios cheios se movimentando com perfeição, mas a voz da menina chegava em sua mente em um som distante e abafado. Em compensação, um novo som oco e repetitivo começou a latejar em sua mente. Ignorando a pergunta dela, Scott franziu as sobrancelhas enquanto tentava entender que som era aquele.

Longos segundos se passaram quando as íris azuladas finalmente se arregalaram e ele deu um passo para trás, descendo o olhar até o colo da novata. Sem se importar se estava agindo de forma bizarra, Damien encarou o pedaço da pele exposta enquanto o som fazia cada vez mais sentido. Ele podia ouvir com perfeição cada batida do coração acelerado da menina a sua frente.

Seu pomo de adão subiu e desceu enquanto ele engolia em seco, com a certeza de que havia algo muito errado com ele. Mas Damien se recusava a dar um vexame diante de qualquer um daquela escola. A mochila surrada da menina poderia significar que ela não era montada no dinheiro como todos naquela escola, mas não significava que ela era melhor que qualquer um deles e Scott não faria uma cena.

Respirando fundo, lutando com cada fibra do próprio corpo para manter o controle, ele trincou os dentes e fechou os olhos em uma piscada mais demorada antes de voltar a encarar a menina.

Ele não era simpático com ninguém e não seria diferente com aquela desconhecida, mas também não havia motivos para ser um completo babaca. Só o que precisava era atravessar o corredor e alcançar a sala, torcer para que os ponteiros passassem rápido e que aquela doença ou o que quer que fosse, desaparecesse o quanto antes.

- Você está indo na direção oposta.

Damien se surpreendeu ao escutar a própria voz, agradecendo aos deuses por perceber que havia soado com naturalidade. Seu semblante ainda estava pesado e fechado, as mãos tremiam levemente, mas ele sabia que era capaz de enfrentar aquilo.

A cabeça foi inclinada levemente para o lado, apontando uma pequena placa dourada com letras pretas no topo da parede do corredor. Era possível ver o “C3”, e logo abaixo, as setas em direções opostas “C1” e “C2”.

- Você está no corredor 3, precisa ir para o 2. Não é nenhuma fórmula de física para decifrar, sabia? O X da questão está bem aqui.

Scott entregou o livro que ainda estava em suas mãos e contornou a menina para seguir seu caminho pelo corredor. Ele esperou que a distância começasse a se formar antes de respirar fundo, mas o perfume delicado ainda estava tão forte quanto antes, impregnado em suas roupas.

Sentindo a frustração se espalhar pelo seu corpo, seus ombros baixaram e ele se voltou para a menina.

- Eu estou indo para lá. Pode me acompanhar até se acostumar.

Damien esperou que os passos da menina ecoassem pelo corredor antes de voltar a seguir o caminho. Todos os ruídos continuavam intensos e ele tinha certeza que era capaz de ouvir cada canto daquela escola. Para tentar não enlouquecer, Scott fez a única coisa que parecia fazer sentido naquele momento: se concentrou apenas nos sons vindo da menina ao seu lado. Se ele a mantivesse falando, talvez fosse ser capaz de ignorar todo o restante, até mesmo as batidas constantes do seu coração.

- Você é nova. – Não era nenhuma pergunta e seu olhar estudou a menina por alguns segundos enquanto ele se lembrava da voz distante dela. – Tem sotaque. De onde você é?
avatar
Damien Scott

Mensagens : 300
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Sab Jul 02, 2016 5:08 am

Uma das sobrancelhas de Max se arqueou diante de tamanha simpatia. Ele não costumava frequentar os mesmos núcleos sociais do qual a jovem a sua frente fazia parte, mas já cruzara o caminho de várias pessoas como ela. Por isso, a última coisa que Cavendish esperava era pelas palavras leves e pelo bom humor da garota. Havia sido só um acidente no qual os dois envolvidos tinham suas parcelas de culpa, mas Maximilian não esperava que ela encarasse as coisas com tamanha naturalidade.

- Eu estou bem, não se preocupe.

O olhar desinteressado que Cavendish dirigiu aos joelhos ralados por baixo da calça de moletom deixava claro que o machucado não havia sido sério. Pelo contrário, Max já sentia a pele se repuxando discretamente, num claro sinal de que o ferimento já começava a cicatrizar. Era mais uma das vantagens da sua transformação.

Quando o rapaz se colocou de pé, Samantha provavelmente se surpreenderia com a cabeça de Max pairando vários centímetros acima da dela. A camiseta branca não escondia bem os ombros largos, nem os músculos bem definidos dos braços. Era compreensível que, mesmo sendo a vítima, ele estivesse mais preocupado com as repercussões daquele impacto na garota.

Os cabelos atrapalhados e suados, assim como as roupas confortáveis e os tênis de corrida denunciavam o que Cavendish estava fazendo na rua àquela hora. Sem demonstrar nenhuma dor ou desconforto após o atropelamento, Max ergueu a bicicleta caída no chão e a empurrou até a calçada. Apesar da queda, não havia nem mesmo um arranhão na pintura, as correntes continuavam firmes e o guidão alinhado.

- Parece que está tudo bem com ela. Mas infelizmente não posso dizer o mesmo sobre o seu iPod. – ao notar o bom humor da garota, Max ficou mais relaxado e acompanhou a leveza ditada por Samantha – Mas foi tudo muito rápido, ele sofreu pouco.

Os livros de Samantha espalhados pela calçada foram recolhidos, empilhados e entregues à jovem juntamente com a sua bolsa.

- A culpa foi minha também, eu estava distraído e não olhei antes de atravessar. Um erro muito amador para um nova-iorquino. Serei expulso da cidade se descobrirem isso, então tudo o que peço é que guarde este segredo. Eu gosto desta cidade maluca.

Pela primeira vez desde o acidente, Max olhou com mais atenção para a garota. Apesar dos cabelos atrapalhados e das roupas desalinhadas depois daquele impacto, era possível perceber que a jovem tinha traços bonitos. Havia uma enorme harmonia no rosto delicado, no belo sorriso, nos olhos castanhos amendoados destacados com o delineador, nas curvas do corpo escondidas pelo uniforme da Constance Billard School.

Mas era o perfume suave dela o detalhe mais marcante de sua presença. Mesmo ao ar livre e no meio de uma rua bastante enevoada pela fumaça dos carros, Cavendish sentia com perfeição o cheiro da jovem. Era um perfume suave que combinava absurdamente com o cheiro natural da pele dela. Aquela sensação era uma tentação para Max, mas Samantha tinha sorte por estar diante de um Alpha com pleno controle de seus instintos primitivos.

Como qualquer nova-iorquino, Maximilian conhecia a escola pelo nome tradicional e pela fama de ser um dos melhores colégios do país. Mas ele também sabia que as mensalidades eram tão bizarramente altas que somente a nata da elite frequentava aqueles corredores. Mesmo que Samantha estivesse sendo simpática e educada, Max não se deixaria enganar. Era óbvio que a garota a sua frente pertencia a uma família assombrosamente rica.

- Que tal um café...?

O convite soou meio fora de contexto, então Max se viu obrigado a explicar os rumos para os quais conduzia aquela conversa.

- Acho que você não vai chegar a tempo para a aula. E também precisa lavar esses arranhões. Eu conheço um lugar excelente no próximo quarteirão. Posso pedir dois cafés enquanto você usa o banheiro.

Antes que Samantha insinuasse que pagaria pelas bebidas, Cavendish completou.

- Por minha conta. Eu já fiz você perder a sua aula e o seu iPod, acho que um café e uma fatia de bolo é o mínimo que posso fazer para te recompensar minimamente pelo meu descuido. Aliás...

Os lábios bonitos do rapaz se repuxaram num sorriso quando ele finalmente percebeu que os dois estavam conversando sem sequer terem se apresentado.

- Eu me chamo Max. Maximilian, mas os amigos me chamam de Max. E já que vamos tomar um café juntos, vou te incluir no grupo de amigos.
avatar
Maximilian Cavendish
Admin

Mensagens : 97
Data de inscrição : 13/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sab Jul 02, 2016 3:08 pm

Apesar de protagonizar um acidente em uma das calçadas movimentadas de Nova York, de carregar em seus braços a pele esfolada e ardida e as meias rasgadas em seus joelhos, Samantha ainda exibia um largo sorriso que despontava uma covinha em cada uma de suas bochechas, rindo do comentário a respeito de seu iPod já completamente destruído sobre o asfalto.

- Só lamento pela minha coleção do The Fray e do Marrom 5, mas a Internet tá aí pra isso.

O convite para café não foi recebido com tanta surpresa quanto deveria. Intimamente, Sam já estava esperando que o bonito rapaz a sua frente tomasse aquela iniciativa e já sabia que não recusaria a oferta. Exatamente como sempre acontecia com os desconhecidos na rua, Samantha sabia quando havia uma história interessante a ser contada, e algo em Maximilian despertava sua curiosidade mais do que qualquer outra pessoa.

- Se for um pedaço de torta bem grande, talvez eu consiga te perdoar pelo meu iPod. Não se deixe enganar pelo meu tamanho, Max, eu estou sempre comendo.

Archibald estreitou o olhar, forçando um semblante sério, mas logo voltou a sorrir abertamente, mostrando que continuava no clima relaxado. Ela passou a bolsa pelos ombros e puxou a bicicleta para junto de si, se mantendo em pé e com o banco apoiado em seu quadril.

- Samantha Archibald. E não, você não pode me chamar de Sammie. – Ela voltou a estreitar o olhar de maneira que estava longe de ser ameaçadora. – Meus amigos me chamam de Sam, mas você só pode me chamar assim depois que eu ver o pedaço da torta.

O caminho até o café foi curto, para o alívio dos joelhos machucados de Samantha. A bicicleta logo foi presa em frente ao estabelecimento e enquanto Max se dirigia até o balcão para fazer os pedidos, ela se apressou a achar o caminho até o banheiro, passando pelas mesinhas ocupadas e se deliciando com o cheiro de cafeína que tomava conta do local.

O queixo de Sam despencou quando ela reconheceu a própria imagem no espelho do banheiro, se xingando mentalmente pelos cabelos atrapalhados. Não era certo uma moça comprometida se preocupar tanto com a própria aparência diante de um rapaz que não fosse seu namorado, mas Caleb sequer havia surgido em sua mente agitada naquela manhã, até porque Archibald sabia que não estava fazendo nada de errado.

Com os dedos ágeis, ela soltou o elástico dos cabelos e deslizou pelos fios castanhos que iam até o ombro em um corte caro e bonito. Os cabelos estavam ligeiramente marcados por estarem presos até então, mas para satisfação de Samantha, aquilo só permitia que eles ficassem com umas ondas bonitas que emolduravam seu rosto delicado.

O blazer azul da escola foi retirado enquanto ela tentava se limpar dos estragos do acidente. A meia calça rasgada foi retirada por completo e enfiada na bolsa, deixando as pernas expostas por baixo da saia. Ao contrário das outras meninas da escola, Samantha não usava os sapatos de saltinho e já havia sido chamada a atenção diversas vezes por sair do padrão ao desfilar com seus keds vermelhos.

Alguns minutos depois, Samantha estava muito mais apresentável com os cabelos soltos e uma nova camada de batom em seus lábios quando voltou ao salão do café. Max já estava sentado em uma das mesinhas de fundo, rodeada por um confortável sofá. A bolsa de Archibald foi jogada para o lado antes que ela também se sentasse diante de uma fumegante xícara de café e de uma generosa fatia de torta.

Seu sorriso se iluminou mais uma vez, sem nem mesmo dar a primeira garfada. As covinhas contribuíam para a simpatia estampada em seu rosto enquanto ela puxava o café até os lábios. A bebida ainda estava extremamente quente, mas Sam precisou fechar os olhos enquanto saboreava o café. Para uma amante de cafeína, ela sabia perfeitamente reconhecer quando a bebida era bem preparada.

- Uau! Isso aqui é divino! – Ela voltou a abrir os olhos e passou a língua pelos lábios, retirando qualquer vestígio da bebida. – Você acabou de ganhar o direito de me chamar até de Sammie, se preferir.
avatar
Lucinda Clearwater

Mensagens : 574
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Sab Jul 02, 2016 7:15 pm

- Eu nunca estive em um colégio grande o bastante para ter o seu próprio esquema de divisão de corredores. – a novata deu de ombros enquanto estreitava os olhos para enxergar as plaquinhas apontadas por Damien – Mas é só mais uma das coisas que eu terei que me acostumar.

De fato, aquela escola era diferente de qualquer outro ambiente que Francesca já frequentara. Durante toda a sua vida, ela havia frequentado dezenas de colégios nas várias cidades pelas quais os Sullivan passavam. Mas a renda humilde de Richard nunca permitiu que os filhos fossem matriculados em boas escolas particulares. Francesca jamais reclamaria daquilo porque sabia o quanto o pai se esforçara por ela e Paolo. Pelo contrário, ela preferiria terminar seus estudos num colégio comum ao invés de ficar perdida nos corredores da Constance Billard School.

O comportamento distante do colega indicava que Damien não parecia muito disposto a conversar. Por isso, Francesca se limitou a seguir os passos dele em silêncio enquanto o rapaz caminhava na direção da sala de matemática. Portanto, foi uma surpresa quando o silêncio foi quebrado justamente por ele.

A pergunta fez com que Sullivan arqueasse uma das sobrancelhas e virasse a cabeça para encará-lo. Sem interromper os passos, a resposta dela soou com algum descaso.

- Eu não sou de lugar nenhum.

Antes que Damien pudesse encarar aquela resposta como um comportamento hostil, Francesca explicou a situação complicada da sua família.

- Nasci no Texas, mas não fiquei lá mais que um ano. Já morei no Colorado, Nebraska, Nevada, Califórnia, Alabama, Ohio, Dakota do Norte, Georgia, Kansas e agora Nova York... então realmente não tenho ideia de que tipo de sotaque eu posso ter. Minha mãe era italiana, mas eu acho impossível que eu tenha sotaque italiano. Eu tinha três anos quando ela morreu, nem me lembro da voz dela.

Embora aquela realidade provocasse uma dorzinha no peito de Francesca, sua voz saiu firme e natural. Qualquer um diria que, depois de tantos anos, a garota sequer sentia falta da mãe. Só ela sabia como era estranha a sensação de sentir saudades de algo que Francesca sequer se lembrava de um dia ter tido.

- Já no seu caso, o sotaque é inquestionavelmente inglês. – Sullivan mostrou que a sua língua era afiada quando completou – Você é mesmo estrangeiro ou é só mais um desses idiotas que gostam de fazer charme forçando um sotaque europeu?

A resposta de Damien teria que ser adiada porque a última palavra de Francesca já foi dita enquanto os dois chegavam diante da porta 108, no corredor C2. A novata se calou bruscamente quando dezenas de olhos a fitaram e o professor interrompeu a explicação para encarar os recém-chegados. Antes mesmo que Sullivan pensasse em se apresentar e pedir desculpas pelo atraso, o homem estendeu o braço e olhou o relógio de pulso com um semblante pouco amigável.

- Dezesseis minutos de atraso. Começo a pensar que o senhor aprecia a minha companhia durante as tardes, Sr. Scott. Vá para o seu lugar e se prepare para mais uma tarde de detenção.

Os olhos verdes de Francesca se arregalaram e ela trocou um rápido olhar com o colega, encolhendo um pouco os próprios ombros. Apesar da personalidade forte e da língua afiada, Sullivan nunca dera nenhum tipo de problema em todas as escolas que ela já frequentara. Seria chocante ganhar uma detenção no primeiro dia na Constance Billard School.

- E você é...? – o professor a encarou de cima a baixo, sem reconhecer a garota que usava o uniforme do colégio.

- Francesca Sullivan. É o meu primeiro dia.

O professor de matemática novamente olhou o relógio num gesto teatral irritante. Apesar de não querer se meter em encrencas logo no primeiro dia, a paciência de Francesca não era exatamente a maior das suas virtudes.

- Não te avisaram que as aulas aqui começam bem antes das 10:46, senhorita Sullivan?

- Eu tive um imprevisto.

A menina precisou de todas as suas forças para manter um comportamento respeitoso. Muito piores que a pressão do professor eram os olhares debochados e os sorrisinhos dos colegas. Definitivamente, Sullivan jamais encararia aqueles abutres como amigos e nem estava disposta a pedir desculpas para aquela gente.

- Que tipo de imprevisto? – o professor insistiu, com a clara intenção de deixá-la intimidada e constrangida – Certamente seu tempo não foi perdido com a própria aparência...

Algumas garotas soltaram risinhos sarcásticos, mas Francesca não abaixou a cabeça. Ela sabia que não deveria se sentir mal pelos sapatos usados, pela mochila gasta, pelos cabelos castanho-avermelhados amassados depois da noite em claro num hospital. Ela não trocaria a própria aparência abatida pelos rostos cheios de maquiagem e pelas escovas progressivas a sua frente.

- O tipo de imprevisto que não é da sua conta, professor.

Só quando ouviu a própria voz, Francesca percebeu que havia pensado em voz alta. Seria muito mais fácil explicar que o Sr. Sullivan era um homem doente e que ela havia passado a madrugada no hospital com o pai, mas Francesca duvidava que aquela história fosse comover aquela gente tão acostumada aos próprios problemas fúteis. Além disso, Richard não merecia que a sua situação delicada e triste fosse exposta a uma plateia tão podre como aquela.

- Boas notícias para o senhor, Sr. Scott. – os olhos do professor se estreitaram e ele não desgrudou a atenção de Francesca enquanto completava – O senhor terá companhia na detenção desta tarde.
avatar
Francesca Sullivan

Mensagens : 99
Data de inscrição : 23/04/2016

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Sab Jul 02, 2016 8:06 pm

O estabelecimento estava longe de possuir o requinte ao qual Samantha estava habituada. Era um café pequeno, com preços bem acessíveis, mas com um cardápio farto e um ambiente agradável e confortável. O delicioso perfume de café estava espalhado em todos os cantos, misturado ao cheiro gostoso dos bolos e biscoitos que terminavam de ser assados no forno da pequena cozinha.

Como o café não estava lotado, Maximilian não teve dificuldade para alcançar o balcão e fazer seus pedidos. Quando Samantha retornou, o rapaz já havia ocupado uma das mesinhas ao fundo. Duas canecas de café quente já repousavam sobre a superfície da mesa, acompanhadas por dois pratinhos de torta.

A escolha de Max não abria brechas para reclamações. A fatia era enorme e ocupava quase toda a área do pratinho. O doce era feito a base de pistache e dividido em várias camadas com mousses de chocolate, creme, recheio de nozes e uma cobertura de chantilly de cappuccino com chocolate meio-amargo.

- Acho que Sam está de bom tamanho. – o sorriso de Cavendish se alargou enquanto ele também tomava um gole do café – Foi uma escolha arriscada, é a melhor torta da casa. Se você não gostasse, eu não teria nenhuma carta na manga.

As palavras de Max e a naturalidade dele naquele ambiente mostravam que o rapaz era um cliente fiel daquele café. Aquele estabelecimento era perfeito para os amantes de cafeína que não podiam gastar fortunas para saciarem o vício. O cardápio sobre a mesinha dividida pelos jovens mostrava preços bem justos, muito mais acessíveis do que nos restaurantes frequentados por Archibald.

O convite para tomar um café fora uma maneira gentil de resolver o acidente daquela manhã, mas a cada segundo Maximilian tinha mais dificuldade para encarar aquele momento como uma mera convenção social.

A companhia de Samantha era extremamente agradável e ela conseguia reunir todas as qualidades que Max admirava em uma mulher. A garota era divertida, bem humorada, conseguia manter uma conversa inteligente, possuía uma voz suave e um temperamento tranquilo. Isso sem mencionar a inquestionável beleza. Era impossível conter um semblante bobo de admiração diante das adoráveis covinhas que surgiam no rosto de Sam quando ela sorria.

Embora não fosse um rapaz galanteador e até preferisse evitar grandes proximidades com estranhos por motivos óbvios, Max se viu incapaz de conter a atração que brotava por Samantha Archibald. A jovem era uma escolha errada em vários níveis, mas era simplesmente impossível se manter imune aos encantos dela.

- Se eu soubesse que terminaria esta manhã tomando café e comendo torta na sua companhia, teria me atirado na frente da sua bicicleta há mais tempo.

Um pouco de vapor subiu da caneca de Cavendish enquanto ele soprava o café quente para conseguir tomar mais um gole da bebida. Com o olfato tão desenvolvido, Max tinha o privilégio de sentir com ainda mais intensidade o perfume delicioso do café.

- Você é uma garota bem atípica, sabia?

Maximilian fez uma prolongada pausa proposital depois daquela afirmação para estudar a reação de Samantha àquelas palavras. Só depois de alimentar a curiosidade dela, Max completou a declaração com explicações.

- Para começar, você não surtou por causa do iPod, nem fez drama com os cotovelos ralados. E, ao invés de estarmos até agora discutindo sobre de quem foi a culpa, estamos aqui tomando café e comendo doce. Aliás... – Max lançou um olhar divertido para o tamanho da fatia de torta no pratinho de Sam – Só o fato de você comer de verdade já faz de você uma garota muito bizarra. Achei que comer havia saído de moda, nos meus últimos encontros as garotas só pediram água e salada. Sério, isso é meio broxante.
avatar
Maximilian Cavendish
Admin

Mensagens : 97
Data de inscrição : 13/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Sab Jul 02, 2016 9:55 pm

Quanto mais Damien se concentrava nas batidas do coração da menina ao seu lado, cada segundo que ele permitia seu olfato de sentir apenas o perfume delicado de seus cabelos, mais seu próprio corpo se acalmava. A cabeça começava a parar de latejar, agradecida por ter um único foco naquele mundo barulhento e a temperatura começava a baixar, sem parecer que o sangue fervia sob a pele.

Seja lá o que estivesse acontecendo com o seu corpo, ele sentia que poderia minimizar os sintomas e até mesmo voltar a ter todo o controle se seus sentidos estivessem voltados para uma única coisa, e a novata estava perto o bastante para se tornar o seu alvo, sua tábua de salvação no meio do mar agitado.

Enquanto o alívio se espalhava pelo seu corpo, Scott prestou atenção nas palavras da menina. Agora que a voz dela não soava mais distante, ele podia admirar o timbre gostoso que alcançava seus ouvidos.

Suas sobrancelhas se arquearam em surpresa quando ela nomeou tantas cidades diferentes onde já havia residido. Damien só havia se mudado uma vez, quando deixou a Inglaterra para acompanhar a mãe até aquela cidade infernal, e sabia como era difícil deixar para trás tudo que gostava e começar do zero. Era terrível ser a pessoa nova, o centro das atenções, como um bichinho no zoológico. Mesmo que aquela estranha estivesse acostumada a se mudar, Scott apostava todas as suas fichas como a Constance Billard conseguia ser pior do que qualquer outro lugar que ela já tivesse passado.

Quando o comentário a respeito de seu sotaque o atingiu, seus lábios ainda levemente sem cor se curvaram em um sorriso torto. Os corredores daquela escola estavam abarrotadas de menininhas ricas e que tinham tudo ao seu alcance, algumas delas bastante cruéis, mas ele não se lembrava de ter visto nenhuma delas com tanta atitude como a novata.

Guardando a resposta malcriada para mais tarde, ele se permitiu ficar alguns centímetros de distância da menina quando pararam diante da sala lotada, e seu sorriso só se alargou quando ela respondeu ao velho William Petrelli com arrogância. Definitivamente, aquela garota era louca de uma forma que Damien não sabia mais que existia entre as garotas americanas.

Sob o olhar severo de Petrelli, os dois se encaminharam até as duas últimas carteiras próximas da janela. Enquanto se ocupava no lugar logo atrás de Francesca, Scott se inclinou para frente, se debruçando sobre sua mesa, e esperou que o professor se voltasse até o quadro negro antes de sussurrar em meio aos cabelos dela, sentindo o perfume ainda mais intenso.

- Com sotaque falso ou não, parece que você acabou de pegar uma detenção só para continuar ao meu lado, Florence.

Normalmente, Damien preferia ignorar a existência de todas as outras pessoas naquela escola, com exceção de Dan. Era melhor evitar o contato, e nem mesmo as brigas e provocações eram mais divertidas. Mas a presença de Francesca estava amenizando a bizarrice de seu corpo e enquanto estivesse concentrado apenas em seu perfume delicado e no som do seu coração ou da sua voz, ele sabia que não iria surtar.

- Você poderia ter simplesmente me chamado para ir ao cinema ou qualquer baboseira dessas. Ia te poupar da humilhação. O babaca do Will vai ter infernizar o resto do ano por isso.
avatar
Damien Scott

Mensagens : 300
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Sab Jul 02, 2016 11:55 pm

Embora por fora transparecesse uma serenidade inabalável, por dentro a novata estava explodindo. Sua real vontade era mandar o professor à merda e dar as costas para a sala abarrotada de filhotes de milionários arrogantes. Mas a própria voz de Francesca ecoou dentro da cabeça dela, repetindo a promessa que ela havia feito a Richard naquela madrugada tumultuada. O Sr. Sullivan a conhecia bem o bastante para saber que a Constance Billard não era o lugar da filha, por isso fizera Francesca prometer que ao menos tentaria se adaptar à nova escola.

Somente pelo pai, a novata engoliu todas as respostas ácidas que estavam na ponta da sua língua e aceitou silenciosamente a punição. Era a primeira vez em toda a vida que Francesca recebia uma detenção e ela ainda não sabia o que ia dizer a Richard quando o pai visse o bilhete do colégio. Talvez fosse melhor mostrar apenas a Paolo para poupar o pai de mais aquela preocupação. Não seria a primeira vez que o irmão mais velho copiaria a assinatura do Sr. Sullivan num bilhete escolar, Paolo era quase um profissional naquele tipo de “crime”.

Sob os olhares maldosos e os sorrisinhos falsos dos novos colegas, Francesca caminhou ao lado de Damien até os dois lugares vagos. A mochila velha da garota foi largada sobre a carteira enquanto ela se sentava. Por sorte, sua cadeira ficava bem ao lado da janela. A vista de um bonito jardim e a brisa fresca tiveram o poder de acalmar um pouco a fúria de Sullivan, mas aquela calmaria só durou até que a voz de Damien foi sussurrada às costas dela.

O discursinho convencido dele fez com que os olhos verdes da menina se estreitassem. Um garoto tinha que ser muito arrogante para insinuar que Francesca tinha recebido uma detenção por causa dele. Logo ela. Definitivamente, a filha dos Sullivan era a última garota do universo que desceria tão baixo para chamar a atenção de um rapaz que acabara de conhecer.

Contudo, ao mesmo tempo em que as palavras de Scott a irritaram profundamente, Francesca viu o próprio corpo ter uma reação bizarra. Ela não sabia dizer se era o hálito quente em sua nuca, o timbre de voz ligeiramente rouca, se era o sotaque britânico ou o perfume da pele de Damien. Aliás, forçado ou não, Francesca precisava admitir que o sotaque do colega era atraente.

O fato é que Francesca sentiu um profundo arrepio se espalhar pela sua pele. Os raros pêlos clarinhos de seus braços se eriçaram, os olhos verdes se arregalaram, um calor inédito surgiu e nem mesmo a brisa que vinha da janela foi capaz de amenizar a sensação de falta de ar. Sullivan agradeceu mentalmente por estar de costas para o colega, mas jamais imaginaria que Damien seria capaz de perceber a reação que causara nela pelas batidas aceleradas de seu coração.

- Vai se ferrar, Scott.

O xingamento soou num sussurro e Francesca sequer se deu ao trabalho de olhar para trás. Os olhos se mantiveram fixos no quadro negro, mas a verdade é que a novata não conseguia prestar atenção nas anotações do professor.

Todos os seus sentidos estavam aflorados e voltados para o rapaz sentado na cadeira de trás. Sullivan não precisava olhar para Damien para saber que ele estava perto demais, era como se um sexto sentido a alertasse sobre isso. Mas uma parte de sua mente se recusava a compreender aquele alerta e se deliciava com a sensação de perigo.
avatar
Francesca Sullivan

Mensagens : 99
Data de inscrição : 23/04/2016

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Jul 03, 2016 12:46 am

Samantha sempre procurava enxergar o melhor nas pessoas, mas aquilo não significava que ela era ingênua. Nascida e criada em um berço de ouro na movimentada Nova York, ela sabia que as vezes as pessoas eram surpreendentes e o comentário de Cavendish a respeito daquele encontro fez com que ela se arrependesse por estar ali pela primeira vez.

O rosto de Caleb surgiu em sua mente e ela baixou o olhar para a própria torta. Embora não estivesse fazendo nada de errado, ela se sentiu imensamente desconfortável e culpada por estar gostando tanto da companhia do rapaz.

Maxmilian era muito atraente, mas até ali, Caleb também era. Mas alguma coisa em Cavendish continuava despertando sua curiosidade, o que a motivava a continuar sentada ali, fazendo de conta que o rosto do namorado não estava surgindo em sua mente como uma assombração.

Para ter uma desculpa de não responder aquele comentário, ela levou uma generosa quantidade de torta até os lábios, e o chocolate mal havia se dissolvido em sua boca quando, mais uma vez, ele a surpreendeu com suas palavras. Desta vez, Samantha foi incapaz de se controlar e ergueu o olhar até encará-lo.

Suas bochechas estavam ligeiramente coradas, mas ela manteve a postura leve, com a colherzinha presa entre seus lábios por tempo demais enquanto permitia que aquelas palavras fossem absorvidas. Estava tão acostumada a analisar as pessoas que era inédito que alguém perdesse tempo falando sobre ela. Além disso, Archibald era apenas mais uma menina de família rica pelos corredores da Constance, de modo que nunca pensou ser diferente delas.

- Bom, eu poderia continuar surtando porque eu usava aquele iPod quase vinte e quatro horas por dia. Mas aí ainda estaríamos naquela calçada discutindo por algo que eu posso resolver passando em uma loja da Apple, e não aqui, tomando o melhor café que já provei.

Sam fez uma pausa e descansou a colher sobre o pratinho antes de apoiar os braços sobre a mesa, evitando o contato com a pele esfolada. Ela estava surpresa como era agradável conversar com aquele desconhecido, mas aquela leveza não era suficiente para distraí-la de sua curiosidade natural.

- E eu poderia estar gritando por causa desses arranhões, mas não faz sentido algum, porque eu sei que a culpa foi minha.

Seu tom de voz mostrava que aquela era a palavra final a respeito do acidente e que Archibald não aceitaria ser contrariada. A colher foi novamente resgatada entre seus dedos e afundada entre o recheio macio do chocolate. Antes de levar aos lábios, ela ergueu um ombro, fazendo os cabelos curtos balançarem.

- Não pense que eu não percebi o que você está fazendo. Não vai adiantar me elogiar, você não vai pegar nem mesmo uma gotinha de chocolate da minha torta.

Para enfatizar suas palavras, Samantha levou a colher até os lábios e mastigou, sem desviar o olhar de Max. Assim que engoliu, seus lábios já estavam comprimidos em um novo sorriso, provocando as familiares covinhas em suas bochechas. Ela limpou o canto da boca com um guardanapo e voltou a apoiar os braços sobre a mesa, deixando toda sua atenção voltada para o rapaz.

- Mas então, agora que você já descobriu o meu superpoder de comer sem engordar , de não surtar com coisas tão banais e de ter me chamado de muito bizarra... – Ela enfatizou as últimas palavras, reforçando que aquele discreto comentário não havia passado desapercebido. – Vai me falar um pouco sobre você? Ou tudo que tenho para saber é que você se deixa atropelar por garotas por aí só pra dizer que elas são estranhas por comerem muito?
avatar
Lucinda Clearwater

Mensagens : 574
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Dom Jul 03, 2016 12:47 am

- E desde quando “muito bizarra” deixou de ser um elogio? – as palavras soaram com bom humor, mas havia um inegável fundo de verdade quando Max comentou – Num mundo cheio de regras e rótulos, é importante se destacar. Você seria só mais uma na multidão se fosse como as outras pessoas.

Para Maximilian, era estranho estar ali na companhia de uma estranha, tendo uma conversa extremamente agradável. Por estar acostumado a uma rotina mais discreta e a um grupo seleto de amigos, Max perdia excelentes oportunidades de conhecer pessoas novas. E Samantha Archibald era um excelente exemplo de boa companhia.

Quando a garota conduziu a conversa numa direção mais pessoal, Cavendish se remexeu discretamente em seu assento. Era sempre desconfortável falar sobre a própria vida porque Max nunca fora um bom mentiroso. Mas não havia nenhuma maneira sutil de fugir do interesse de Samantha. Sua única saída era usar a omissão para que as mentiras não fossem necessárias.

- Eu sou muito mais que um cara que se joga na frente de bicicletas conduzidas por garotas muito bizarras... – uma das sobrancelhas escuras dele se ergueu e seus lábios foram repuxados num sorrisinho divertido – Eu diria que este é apenas um dos meus hobbies.

Aproveitando-se de mais uma pausa na conversa, o rapaz tomou um gole do café. A bebida ainda estava agradavelmente quente, mas não o bastante para descer pela sua garganta queimando-o por dentro. Quando tomou novamente a palavra, Max parecia tranquilo. Era como se ele não tivesse nenhum grande segredo a ser escondido.

- Eu não sei exatamente por onde começar. O que você iria querer saber...?

Ficou claro que aquela era uma pergunta retórica quando Cavendish completou antes que Samantha tivesse a chance de pensar em uma resposta. Enquanto falava, um dos indicadores longos do rapaz deslizou sobre a superfície de sua caneca morna, refazendo o desenho das letras que compunham o nome da cafeteria cravado na louça.

- Eu gosto de correr. Não sou um atleta e nem curto competições. Eu apenas gosto de sentir o vento batendo contra o meu rosto e da sensação de ser livre, de escolher meus próprios caminhos e de me guiar usando a força dos meus músculos. É algo que me tranquiliza, que afasta as preocupações da minha cabeça. Era isso que eu estava fazendo esta manhã.

Qualquer um iniciaria aquele discurso falando sobre suas origens ou sua profissão, mas Max optara por falar sobre seus gostos pessoais. Mas antes que Samantha pensasse que ele estava fugindo de uma resposta mais objetiva, o rapaz completou com informações mais relevantes.

- Eu trabalho em casa, acho que por isso me sinto meio aprisionado. É bom sair para ter certeza de que ainda existe um mundo de verdade aqui fora. Sou designer gráfico. Pode acreditar, tem pessoas que me pagam para fazer essas coisas...

O indicador de Max apontou para o logotipo da cafeteria na caneca. Era exatamente aquela a sua área de atuação. Cavendish não estava vinculado a nenhuma grande empresa de marketing, então não se envolvia em grandes projetos. Seu trabalho era voltado para publicidade de pequenos estabelecimentos e, embora fosse bastante talentoso, o rapaz nunca pensou em progredir na profissão. Aquele trabalho mais discreto nunca o deixaria milionário, mas era mais do que o suficiente para que ele vivesse de forma confortável e com a paz necessária para manter seu segredo bem escondido.

- Eu moro aqui perto, três quarteirões a partir da entrada oeste do Central Park. Moro sozinho em um apartamento minúsculo, tipicamente masculino. – Max abriu mais um sorrisinho – Eu consigo visualizar a careta que você faria se visse as minhas paredes lisas, a poltrona de couro da sala e o meu fogão intocado. Eu estou pensando seriamente em vender o fogão e ocupar o espaço dele com uma geladeira maior para acomodar todos os meus alimentos congelados. Estou cada vez mais convencido de que um simples micro-ondas resolve todos os meus problemas culinários.

O garfo de Cavendish se afundou na torta macia antes que ele encarasse Samantha com uma expressão divertida. Muito além de seus instintos aflorados, Max era muito bom em leitura corporal e já havia notado pelo semblante da garota o quanto ela estava curiosa a respeito de sua vida.

- Eu lamento te decepcionar, mas não há nada de muito extraordinário na minha vida. Certamente não tenho uma rotina tão interessante quanto uma aluna da Constance Billard School que atropela pedestres distraídos, escuta Maroon 5 vinte e quatro horas por dia e ataca tortas ferozmente.
avatar
Maximilian Cavendish
Admin

Mensagens : 97
Data de inscrição : 13/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Dom Jul 03, 2016 3:10 am

Os lábios de Damien se abriram em um largo sorriso e seus olhos brilharam de satisfação quando ele escutou as batidas aceleradas do coração de Francesca. Ele pôde ver cada poro de sua nuca se dilatando após o sussurro de sua voz e era incrível a sensação de saber ser o responsável por aquela reação.

Diferente de todas as meninas vazias e superficiais daquela escola e provavelmente daquela cidade, Sullivan parecia ter sangue correndo nas veias. Um sangue quente e veloz para combinar com sua personalidade forte, se destacando dentre os robôs sem vida que a cercavam.

As horas seguintes que se passaram ao longo das aulas e da detenção que se estendeu enquanto os corredores ficavam vazios só serviram para que Scott percebesse cada vez mais o quanto a língua afiada da novata era divertida. Mesmo quando ela dirigia a ele palavras rabugentas, algo em seu peito se aquecia, se divertindo em saber que era capaz de provoca-la com tanta facilidade.

Scott estava tão entretido em arrancar respostas atravessadas ou viradas de olhos de Francesca, que conseguiu se esquecer pelo restante do dia das esquisitices do próprio corpo, e já estava convencido que seu “mal-estar” já havia se dissipado completamente.

Mais uma vez, quando ele chegou em casa, já era tarde da noite. A mãe, para variar já havia saído para mais um longo plantão noturno e havia deixado o jantar pronto, enfiado no forno. Convencido de que o ataque da noite anterior havia sido fruto de um sonho real demais e que sua vida já havia voltado ao normal, Damien mergulhou em sua rotina, jantou assistindo a um episódio repetido na televisão e fez os deveres de casa antes de se entregar ao cansaço acumulado.

Seu travesseiro estava macio e logo o sono gostoso o envolveu, trazendo junto sonhos confusos e borrados.

Ele estava novamente no beco. Não, não no beco. Era diferente do outro sonho. Este era um pouco mais iluminado e não estava tão imundo. Não havia nenhuma sombra para lhe chamar a atenção. Na verdade, ele era a sombra, agachado atrás da grande lixeira.

- O que eu estou fazendo aqui?

A voz de Damien soou baixinho enquanto ele encarava as próprias mãos. O sonho era tão vívido quanto o da noite anterior, e ele facilmente poderia acreditar que estava de fato em pé no meio do beco, se já não tivesse passado por aquela experiência antes.

O que comprovava que aquilo não era real, eram as longas e grossas garras que haviam surgido no lugar de suas unhas. Mesmo sabendo que aquilo era um sonho, Damien franziu o nariz com nojo para as unhas amareladas e pontudas como de um animal selvagem. Suas mãos também estavam mais peludas que o normal.

Com um suspiro, Damien olhou ao redor, procurando qualquer coisa que pudesse fazer com que ele despertasse daquele pesadelo esquisito. Na noite anterior, ele havia despertado após um grande susto, talvez fosse necessário repetir o terror para acordar novamente em sua confortável cama.

Uma janela velha e enferrujada, parecendo ter sobrado de alguma reforma, estava largada aos pés da lixeira, com um pedaço do vidro ainda preso em sua armação. Damien caminhou para trás enquanto buscava pela mesma sombra da noite anterior quando o reflexo no vidro chamou sua atenção.

Ele travou em seu lugar, em um misto de alívio e pânico, quando reconheceu a sombra da noite anterior. Mas a sombra parecia tão assustada quanto ele. Então, quando franziu a testa em confusão, a sombra fez a mesma coisa.

- Puta merda.

Seu sotaque britânico soou ao mesmo tempo que os lábios da sombra se mexeram e Damien teve certeza que estava encarando o próprio reflexo. Mas seu rosto não era o mesmo que ele estava acostumado a ver no espelho em seu pequeno banheiro todas as manhãs. Seus olhos azuis haviam sumido e dado lugar a duas bolas amarelas. Embora tivesse certeza que havia feito a barba, duas grandes costeletas desciam até se encontrar com uma barba grande e malfeita. Mas o mais assustador era seu nariz contorcido e os dentes afiados que haviam surgido no lugar do seu rosto bonito.

Assim como as mãos, sua arcada dentária parecia de um animal. Um predador selvagem que não tinha nada de humano.

Damien cambaleou para trás. Ele tinha certeza de que aquele susto era motivo suficiente para acordar daquele inferno. Quando os segundos continuaram passando e ele permaneceu parado, sozinho, seu coração se acelerou e o desespero começou a se espalhar pelo seu corpo. E se aquilo não fosse um sonho?

Sentindo o desespero começar a sufoca-lo, Damien olhou novamente ao redor, encontrando um pedaço do céu entre os prédios. A lua brilhava entre as nuvens e as poucas estrelas que a poluição permitia enxergar, mas não havia nada para lhe dar respostas.

Angustiado, Damien tentou pedir ajuda, mas se surpreendeu quando, no lugar do seu bonito sotaque, um uivo escapou entre seus lábios e ele se calou imediatamente.

Suas pernas bambearam, completamente trêmulas, até que ele caísse sentado no chão. Ele já se sentia inteiramente perdido quando escutou uma voz familiar soar distante. Com o rosto baixo, ele ergueu o olhar para o ponto de claridade onde o beco acabava e começava a calçada.

Ignorando o desespero, Damien se concentrou apenas na voz e logo reconheceu também as batidas do coração. As mesmas batidas que ele havia escutado mais cedo. E então, o cheiro ruim do beco foi substituído pelo perfume que ele já havia guardado em sua memória.

Francesca. Sua mente respondeu, fazendo seu coração bater com uma pontada de alívio. Damien fechou os olhos, escondendo temporariamente suas íris amareladas, e respirou fundo por diversas vezes, permitindo que todos os seus sentidos estivessem voltados para a voz de Francesca.

Ela parecia estar falando ao telefone enquanto estacionava o carro em frente a farmácia que ficava ao lado do beco. Exatamente como havia feito durante aquela manhã, Scott se concentrou apenas nela até que todo o restante se dissipasse.

Quando suas pálpebras se ergueram novamente, seus olhos azulados estavam novamente em seu rosto de sempre e ele soltou um suspiro de alívio. Ele precisava ficar perto dela. Se continuasse perto de Francesca, aquela loucura não voltaria acontecer.

Sem se importar no lado racional, em tentar encontrar o motivo para aquela loucura como como resolver de fato o problema, Damien queria apenas se agarrar na única coisa que o manteria são por mais tempo.

Deslizando as mãos pelo casaco, ele se colocou de pé e apressou seus passos até o interior da farmácia, seguindo o perfume conhecido até parar diante dela em um dos corredores abarrotados de remédios.
avatar
Damien Scott

Mensagens : 300
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Jul 03, 2016 3:41 am

Samantha escutava cada uma das palavras de Max com sincera atenção e curiosidade. Não havia nada de revelador em suas frases, mas ainda assim ela se mostrava imensamente interessada, tentando desvendar os segredos por trás do rosto bonito e simpático.

O que ele havia compartilhado era quase insignificante aos olhos de qualquer um, mas para uma mente curiosa e afiada como a de Archibald, ela já traçava diversas teorias para cada escolha dele. Por que morava sozinho? Não tinha uma namorada? Os pais moravam em outra cidade? E quais acontecimentos em sua vida o levara a escolher aquela profissão? Se gostava tanto de correr, era mesmo só pelo esporte ou sentia que estava fugindo de alguma coisa? Qual era essa necessidade de sentir aquela liberdade?

Por mais que milhares de perguntas já estivessem brotando em sua boca, Samantha permaneceu em silêncio, estudando o rosto bonito a sua frente. Ela sabia dizer que ele estava escondendo alguma coisa. Max era bom, muito bom, e teria facilmente enganado a qualquer um. Mas os instintos de Archibald lhe davam a certeza de que havia muito mais a ser descoberto, mas que certamente não seria dito a uma desconhecida em um café movimentado.

Tentando se satisfazer apenas com aquelas informações, Sam voltou a sorrir e sacudiu a cabeça, balançando seus cabelos ondulados e fazendo com que as pontas roçassem em seus ombros.

- Eu garanto que suas corridas pelo Central Park são muito mais interessantes do que as minhas manhãs entre o Francês e a Matemática Avançada. E eu não escuto Maroom 5.

As últimas palavras soaram em tom de defesa enquanto ela encolhia o braço, esticando com a ponta do dedo o prato já vazio. Sua xícara tinha apenas um resíduo do café frio que havia sido quase todo aproveitado quando ela finalmente se deu por satisfeita. O celular foi puxado da bolsa para que Samantha pudesse conferir as horas e um suspiro desanimado escapou dos seus lábios quando percebeu que estava tão tarde.

- Eu preciso voltar. Ainda consigo pegar a última aula se sair agora.

Archibald mordeu o lábio inferior enquanto travava uma batalha interna entre voltar para a sua vida ou continuar ali, aproveitando a companhia daquele desconhecido que surpreendentemente havia se tornado tão agradável. De repente, seu rosto se iluminou quando uma ideia passou por sua mente.

- Escute, eu criei uma série para a revista da escola... – Ela começou, se arrependendo no segundo seguinte.

Era óbvio que Max era um rapaz mais velho, tinha o próprio emprego, a própria casa e certamente acharia assuntos escolares uma grande babaquice. Ela ia parecer uma menininha ridícula quando concluísse o raciocínio, mas era tarde demais para voltar atrás.

- É uma série de entrevistas com diversos profissionais, para ajudar aos formandos a escolherem melhor os cursos na faculdade. Ainda não tivemos nenhuma de designer gráfico.

Quando terminou de falar, Samantha já havia contorcido o rosto em uma careta que mostrava o quanto aquela ideia era maluca, e por isso ela acrescentou apressadamente.

- É uma grande chatice, na verdade. Vou entender se você não quiser participar... Só pensei que seria algo diferente para a matéria.

Seu rosto já estava quente, mas ela precisava logo acabar com aquilo e fugir daquela mesa. Max provavelmente nunca cruzaria seu caminho novamente e teria apenas a lembrança daquela pirralha maluca metida a jornalista.

Se inclinando para frente, Sam pegou o celular dele sobre a mesa e digitou o próprio número, salvando na agenda com o seu nome.

- Me liga se você estiver entediado qualquer dia desses... Pode até ter a chance de ver que a Constance Billard não é tão glamorosa como fazem parecer.
avatar
Lucinda Clearwater

Mensagens : 574
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Dom Jul 03, 2016 4:12 am

- Que droga, Paolo! Onde você está???

Apesar da entonação furiosa, era evidente que a caçula dos Sullivan estava angustiada. Já passava das onze da noite e definitivamente não era o melhor horário para uma garota de dezessete anos transitar sozinha pelas ruas do Brooklyn. Mas Francesca não tivera muita escolha naquela noite.

Desta vez não havia acontecido nenhum acidente sério, mas Richard estava com dores. O homem tentou negar a queixa durante boa parte da noite, mas Francesca percebia que o pai estava mais inquieto que o normal. Mais da metade do jantar do Sr. Sullivan havia ficado no prato e, mesmo tendo comido tão pouco, os vômitos vieram intensos.

Richard não tinha mais nenhum movimento nas pernas, mas a sensibilidade estava parcialmente preservada mesmo depois da lesão na coluna. Isso fazia com que o homem enfrentasse dores às vezes insuportáveis. E já era tarde demais quando Francesca percebeu que os frascos de analgésicos estavam vazios.

Ela certamente teria notado isso antes se não tivesse chegado em casa tão tarde por causa da maldita detenção. Distraída com a limpeza da casa, com as roupas e com o preparo do jantar, a caçula dos Sullivan agora se via obrigada a enfrentar a noite nova-iorquina em busca das pílulas que aliviariam um pouco o tormento de Richard.

- Estou terminando de resolver umas coisas, vou me atrasar um pouco. O que há, irmãzinha?

A resposta vaga de Paolo soou no celular da caçula. Assim como Richard, Paolo dizia trabalhar com vendas. Mas era impressionante como os dois homens da família Sullivan gostavam de desconversar quando Francesca fazia perguntas demais sobre aquele emprego.

- Papai está com muitas dores e o remédio acabou. – Francesca usou um dos ombros para manter o celular encostado na orelha enquanto usava as duas mãos para manobrar o carro.

- Relaxa, irmãzinha. Eu vou passar numa farmácia na volta pra casa.

- Relaxa? Acho que você não entendeu muito bem, Paolo. – Francesca puxou o freio de mão antes de segurar novamente o celular – Eu não disse que o papai está com uma dorzinha idiota. Ele não pode esperar você resolver “umas coisas”. É claro que ele não reclamou, mas eu já reconheço aquela respiração pesada, a falta de apetite, os vômitos. Ele está morrendo de dor! Não dá pra esperar, então eu vim numa farmácia. Só preciso que você me diga o nome dos remédios. Uma das embalagens perdeu o lacre, eu preciso do nome e da dosagem.

- Você saiu de casa sozinha? É quase meia-noite! – a voz de Paolo soou mais aflita ao telefone – Onde você está? Não me lembro de nenhuma farmácia perto de casa!

- Na avenida principal.

- Você foi andando do nosso prédio até a avenida??? – o rapaz ergueu a voz, alarmado.

- Não exatamente...

Francesca fez uma breve careta antes de fechar a porta do carro. Do outro lado da linha, o queixo de Paolo caiu quando o rapaz reconheceu o ruído familiar.

- VOCÊ PEGOU O IMPALA??? DESDE QUANDO VOCÊ DIRIGE???

- Eu cresci vendo você e o papai dirigirem. Não sou tão idiota, Paolo, eu aprendi mais ou menos a teoria. O carro deu umas engasgadas pelo caminho, mas eu consegui chegar. E você realmente se preocupa mais com esse carro idiota do que com o papai??? Me fala logo o nome do remédio, eu acabei de entrar na farmácia.

Enquanto Paolo tentava resgatar a receita médica no meio das dezenas de papeis que ele amontoava em sua carteira bagunçada, Francesca começou a circular pelos corredores da farmácia. Seu coração batia acelerado pela ansiedade de ter deixado o pai sozinho naquela situação e também pelo receio de estar desacompanhada numa madrugada nova-iorquina. Os olhos verdes passavam pelas prateleiras lotadas de medicamentos, mas ela não reconhecia a embalagem que Paolo costumava comprar para o pai.

Mesmo que ela não fosse mais uma criança, qualquer um notaria que Francesca assumia mais responsabilidades do que deveria. Ela ainda era uma adolescente que deveria correr riscos por travessuras, que deveria fugir de casa à noite para se encontrar com os amigos ou com um namorado. Não era justo que, além de estudar, ela tivesse que limpar a casa todos os dias, lavar as roupas da família inteira, preparar o jantar, ajudar o pai a tomar banho e se trocar. Não parecia certo que ela tivesse que enfrentar os perigos de uma madrugada numa metrópole para comprar remédios para o pai doente.

- Como é??? – a caçula fez uma careta quando Paolo finalmente disse o nome do medicamento no celular – Vou precisar que soletre esta merda.

Por estar tão concentrada na voz do irmão, Sullivan não percebeu que alguém se aproximava dela. Paolo havia acabado de soletrar o nome do remédio e a dose dos comprimidos quando os olhos da garota se ergueram e reconheceram a figura familiar parada na frente dela.

O susto foi tão grande que Francesca deixou escapar um gritinho. Inconscientemente, ela deu um passo para trás e deixou que o celular escorregasse de seus dedos. O aparelho caiu no chão e deslizou para baixo de uma das prateleiras. Por sorte, era um modelo de celular antigo e resistente. Um smartphone de última geração certamente não sobreviveria à queda.

- DE ONDE VOCÊ SURGIU!? PARECE UMA ASSOMBRAÇÃO!!!

O sangue fugiu do rosto de Francesca, deixando-a pálida como um fantasma. As mãos dela tremiam quando a garota se agachou e resgatou o celular do chão. A caçula já esperava por aquilo quando grudou o celular na orelha e encontrou Paolo completamente surtado do outro lado da linha.

- Está tudo bem. Paolo, fica calmo, você está histérico! Não foi nada, eu só me assustei com um vira-lata que passou perto de mim. Eu vou comprar o remédio e já estou voltando pra casa, ok? Te ligo quando chegar.

Era mais fácil mentir para o irmão do que explicar que um colega da Constance Billard havia se materializado na frente dela. Era uma coincidência grande demais que aquele encontro acontecesse por acaso em uma cidade do tamanho de Nova York. Contudo, Francesca não tinha tempo para pensar nos motivos que levaram Damien Scott a estar exatamente naquela farmácia tão distante do East Side.

- Olha só, Scott. Eu prefiro acreditar que esta é a maior coincidência da história da humanidade porque realmente não tenho tempo para lidar com um maníaco seguindo os meus passos.

Desta vez, os olhos que vasculhavam as prateleiras sabiam exatamente o que procurar. Era evidente que Francesca havia saído de casa às pressas naquela madrugada. Ela havia trocado as calças do pijama por um jeans velho, mas a blusa cinzenta fora mantida. Ao se lembrar do olhar pouco discreto do colega naquela manhã, Sullivan se arrependeu amargamente de não ter colocado um sutiã antes de sair de casa. Nos pés, ela calçava um par de chinelos e os cabelos estavam presos num coque atrapalhado com várias mechas soltas.

- Aqui! Graças a Deus...

O coração dela deu um salto quando a garota finalmente encontrou o frasco que o pai precisava. Como o medicamento estava numa das prateleiras mais altas, Francesca precisou se colocar na ponta dos pés para conseguir puxar a embalagem.
avatar
Francesca Sullivan

Mensagens : 99
Data de inscrição : 23/04/2016

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Damien Scott em Dom Jul 03, 2016 4:40 am

Aquela merda estava acontecendo toda outra vez. Damien sentia que seu coração ia saltar pela boca enquanto ele escutava com perfeição cada uma das palavras da voz masculina que saía do aparelho celular de Francesca. Aquilo não era normal, mas ao menos agora ele sabia como fazer para não surtar.

Só precisava se concentrar nela. Nas batidas do seu coração e no seu perfume. Se apenas a voz dela chegasse até os seus ouvidos, ele ficaria bem, mesmo que fosse para ouvir seus xingamentos e sua irritação. Scott só precisava fazer com que ela continuasse falando.

- Quem é Paolo?

Ele ignorou tudo que Sullivan havia dito até então. Não importava ser chamado de assombração ou de perseguidor. Intimamente, Damien sabia que ela poderia continuar ofendê-lo de todos os nomes que quisesse, desde que continuasse falando para que ele não enlouquecesse.

Suas mãos estavam trêmulas e ele enfiou os dedos nos bolsos, receoso de que as unhas nojentas estivessem ainda ali. Apesar do turbilhão de emoções que o invadia, a curiosidade a respeito da identidade de Paolo era verdadeira e Damien se surpreendeu quando percebeu estar interessado em saber se Francesca era comprometida.

Seu olhar baixou até o remédio que ela segurava em suas mãos, e sem se preocupar em ser discreto, ele se inclinou para frente, tentando ler o nome escondido parcialmente pelos dedos dela, que pressionavam o recipiente com tanta força que fazia sua pele ficar esbranquiçada.

Só então, enquanto seus nervos começavam a se acalmar, Scott reparou que Francesca estava sozinha. Ele não sabia exatamente que horas eram, mas tinha consciência de que era tarde. Não importava por quantas cidades Sullivan já tivesse passado, qualquer pessoa teria noção de que não era seguro para uma menina andar pelas ruas completamente sozinha, ainda mais vestida daquela forma.

- O que você está fazendo aqui tão tarde? Você não deveria estar sozinha, é perigoso.

O tom preocupado alcançou seus ouvidos quando ele disse as palavras em voz alta, mas não se arrependeu. Um arrepio se espalhava pela sua nuca ao pensar nas coisas terríveis que poderiam acontecer com Francesca e ele queria que ela tivesse noção do risco que estava correndo.

Então, Damien se perguntou o que ele estava fazendo ali. A última coisa que se lembrava era de ter se deitado para dormir. Por mais que se esforçasse, não parecia existir nenhum traço de lembrança dele acordando, se vestindo ou indo até aquela farmácia. Ele nem mesmo sabia como havia chegado ali, mas duvidava que sua moto estivesse estacionada em algum lugar por perto.

Havia uma louca teoria no fundo de sua mente que trazia a solução para aquele destino em particular, mas Damien não estava preparado para aceitar que havia buscado pela presença de Francesca inconscientemente, desesperado para que ela o levasse de volta ao seu estado normal.

Sentindo a súbita necessidade de justificar sua presença ali, Scott levou a mão até a prateleira, sem virar o rosto para o que estava pegando, e manteve o frasco de remédio para cólicas menstruais grudado ao seu peito, como se tivesse se arrastado no meio da madrugada apenas para aquilo.

- Isso aí é para você? – Ele perguntou, ainda sem consciência do que tinha em mãos, e apontando com o queixo para o remédio de Francesca. – Está se sentindo bem?
avatar
Damien Scott

Mensagens : 300
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Dom Jul 03, 2016 4:58 am

A parte mais racional da mente de Maximilian exigia que ele deletasse logo o número da garota para exterminar qualquer tentação de ligar para Samantha. Mas, sempre que abria a tela do celular na agenda e buscava pelo nome dela, Cavendish perdia a coragem de deletar o contato. Por mais que estivesse decidido a nunca ligar para a menina, Max gostava da sensação de possuir o número dela. Seria frustrante eliminar a única forma de falar novamente com Samantha Archibald.

Sam era perfeita. Mesmo depois que se passou uma semana desde o acidente com a bicicleta, Maximilian ainda se lembrava de todos os detalhes dela. Ele só precisava fechar os olhos para resgatar da memória os traços delicados, a pele lisa, os cabelos escuros ondulados, o perfume delicioso e, principalmente, as adoráveis covinhas das bochechas.

Mas era exatamente por Samantha ser tão perfeita que Max estava decidido a se manter fora do caminho dela. Sam era boa demais para se envolver com alguém como ele. Mesmo se ela fosse louca o bastante para querer isso, Cavendish sabia que a morena merecia alguém melhor. Ele jamais poderia dar uma boa vida a uma garota comum e certamente não ofereceria à Samantha nem um centésimo dos luxos aos quais ela estava habituada. Samantha merecia um namorado de verdade, que não carregasse segredos e nem uma maldição que viraria a vida dela de pernas para o ar.

Embora estivesse firme naquela determinação, Max não conseguia tirá-la da cabeça. Apesar de já ter se envolvido em alguns relacionamentos com meninas comuns, ele nunca havia se sentido assim por nenhuma garota. Era enorme a tentação de procurar novamente pela herdeira dos Archibald, mas o lobisomem tentava manter suas preocupações focadas nos próprios problemas para evitar aquele deslize.

Naquela tarde, Jack apareceu no apartamento novamente. Desta vez, o beta trazia novidades. Pelo semblante sério do amigo, Max já tinha percebido que as notícias não eram exatamente as melhores.

- Finalmente encontramos um rastro mais confiável do recém-transformado do beco.

- Houve algum ataque? – Maximilian foi direto ao ponto que mais o angustiava.

- Não. Ainda não. Mas não são pequenas as chances de acontecer uma tragédia.

- Diga logo, Jack, está me deixando ansioso!

O beta respirou fundo e soltou o ar ruidosamente enquanto sentava sobre a pia da cozinha. Ainda com uma expressão anormalmente séria, Jack explicou.

- Seguimos o rastro e chegamos a um colégio. Não sabemos exatamente quem é o cara, mas ele está tentando manter a rotina.

Jack não precisou verbalizar os seus receios. O Alpha conhecia os instintos da espécie melhor do que ninguém e sabia o quanto era arriscado que um recém-transformado ficasse rodeado por adolescentes em um colégio. O rapaz certamente deveria estar surtando com todos aqueles estímulos e com as transformações. Seus instintos estavam aflorados e ele precisava somente de uma pequena faísca para se deixar dominar pela selvageria. Qualquer pequena briga ou discussão entre colegas poderia culminar num banho de sangue e numa exposição desnecessária.

- Qual colégio?

Na cabeça de Max, ele já arquitetava um plano para tentar localizar e se aproximar do jovem transformado. O que o Alpha nunca imaginou era que a resposta de Jack uniria os seus dois pensamentos mais frequentes nos últimos dias.

- Constance Billard School.

O rosto de Samantha surgiu imediatamente na memória de Cavendish. Os olhos dele se arregalaram e, mesmo com as lentes azuis, um brilho avermelhado iluminou suas íris. É claro que Max ainda estava preocupado com o rapaz e queria ajudá-lo a enfrentar aquele problema e trazê-lo para a “família”. Mas agora todos os seus instintos estavam concentrados no perigo que aquele jovem lobisomem significava para Sam.

Se o recém-transformado surtasse dentro do colégio, qualquer um dos alunos, professores ou funcionários que estivessem em seu caminho pagariam muito caro por aquele azar. Um desespero sufocante se espalhava pelo peito de Maximilian quando ele tentava imaginar aquela cena e via Samantha Archibald no caminho daquela fera.

Mais do que nunca, a localização do jovem lobisomem passou a ser uma prioridade na vida de Cavendish. E agora ele se sentia ainda mais grato por não ter deletado o número de Samantha de sua agenda.

- É um colégio da elite. – Jack fez uma careta, ainda bastante preocupado – Eu não faço ideia de como vamos nos aproximar dessa gente sem levantar suspeitas.

- Eu já sei.

Max respirou fundo antes de tirar o celular do bolso. Seus dedos buscaram facilmente pelo contato de Sam, indicando que ele havia repetido aquela busca por muitas vezes nos últimos dias. Desta vez, contudo, Cavendish tinha uma excelente desculpa para se render à tentação de ligar para a garota e escutar novamente a sua voz.

O coração dele deu um salto quando o timbre suave de Samantha soou do outro lado da linha e somente a presença de Jack no apartamento fez com que Max contivesse o sorriso bobo que Archibald geralmente lhe arrancara.

- Sam...? Aqui é o Max. – era incômodo pensar que Sam poderia não se lembrar mais dele, mas como existia aquela chance o rapaz preferiu ser mais específico – Maximilian. O responsável pela morte do seu iPod. Eu estou ligando para saber se você ainda está afim de fazer aquela entrevista para o colégio...
avatar
Maximilian Cavendish
Admin

Mensagens : 97
Data de inscrição : 13/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Jul 03, 2016 5:31 am

Pensar em Max na última semana havia se tornado tão frequente quanto o sentimento de culpa que se espalhava pelo peito de Samantha quando Caleb surgia em seu caminho. O namorado estava completamente alheio aos pensamentos da namorada em um outro rapaz e continuava agindo tão carinhoso e perfeito como sempre.

Archibald se sentia péssima por permitir que seu coração se acelerasse com a lembrança de Cavendish, mas tentava minimizar aquela culpa com a certeza de que os dois nunca mais se encontrariam. Nova York era grande demais para que eles voltassem a se esbarrar de forma ocasional e uma semana já havia se passado sem que Max entrasse em contato.

Uma pontada de decepção surgia sempre que se lembrava de ter deixado seu telefone gravado no celular dele e mesmo assim não ter recebido uma ligação ao longo dos dias, mas no fundo, ela sabia que era para melhor. Maximilian certamente havia pensado que ela era uma menininha boba de colégio particular e já tocava a sua própria vida adulta cheia de mistérios.

Convencida de que deveria fazer o mesmo, Sam se esforçou para esquecer o acidente de bicicleta e voltar a sua rotina escolar, dividindo sua atenção entre as tarefas de casa, a revista da escola e Caleb. Apesar do sucesso naquele simples objetivo, seu coração traiçoeiro deu um salto e seu estômago uma cambalhota inteira quando ela atendeu a ligação do número desconhecido e escutou a voz de Max do outro lado.

Ao contrário do rapaz, Samantha estava sozinha quando atendeu o telefone e não controlou o sorriso que despontava suas covinhas. Ela estava no intervalo das aulas, sentada sozinha em uma das mesas do pátio com os livros enfileirados a sua frente e a agenda destacada, dividindo o espaço com a sua bandeja.

- Oi Max... – Sua voz soou exageradamente doce e seus olhos castanhos rapidamente passearam ao redor, para se certificar de que ninguém estava escutando. – Na verdade eu prefiro me lembrar como o cara que me levou para tomar o melhor café da cidade. Ah, a melhor torta também.

Ela soltou um risinho para o aparelho enquanto mordia o lábio inferior. Estava sendo extremamente patética e não importava mais se não estava fazendo nada errado. Ela estava feliz demais com uma simples ligação, inclinada para o caminho que a levaria até o “algo errado”.

Se esforçando para manter o foco no que realmente importava, Samantha pigarreou e deslizou o dedo pela agenda, tentando ignorar a ansiedade em seu corpo com a expectativa de rever Max.

- Eu tenho um horário hoje, se você quiser. Assim ainda consigo encaixar a matéria para a edição de segunda-feira.

Archibald se xingou mentalmente ao perceber que estava parecendo uma adolescente desesperada e tentou continuar em um tom mais casual.

- Tenho uma entrevista com uma aluna nova as 17h, mas conseguiríamos falar ainda hoje. Isso se você quiser, é claro. Posso ver outro dia também, na próxima semana...
avatar
Lucinda Clearwater

Mensagens : 574
Data de inscrição : 17/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Francesca Sullivan em Dom Jul 03, 2016 6:48 pm

Racionalmente, Francesca sabia que não devia nenhum tipo de explicação ou satisfação para o colega. Os dois tinham acabado de se conhecer, não eram sequer amigos e tudo o que Damien fizera o dia inteiro fora provocá-la naquele maldito colégio. Mas, mesmo sabendo que o rapaz merecia ser mandado à merda, a caçula dos Sullivan se viu respondendo à primeira pergunta feita por ele. Enquanto falava, Francesca se odiou pelo pensamento de que estava dando aquelas explicações para Scott para que ele não entendesse mal o seu relacionamento com Paolo.

- Paolo é meu irmão mais velho. Aliás, Scott, esta era uma pergunta desnecessária. Você realmente acha que existe outro casal neste país que daria os nomes Paolo e Francesca para duas crianças americanas? Francamente, cara, achei que você tivesse um raciocínio mais apurado.

Como não tinha tempo a perder com aquela conversa, Francesca segurou a embalagem do medicamento com firmeza entre seus dedos enquanto se dirigia ao balcão para efetuar o pagamento. Exatamente como a garota já esperava, Damien seguiu os passos dela para continuar com aquela avalanche de perguntas.

- Mais uma pergunta desnecessária. O que você acha que eu estou fazendo em uma farmácia, Scott? – a menina sacudiu o frasco com as pílulas – Eu queria tomar sorvete, mas como não achei o meu sabor preferido decidi comprar uns remedinhos.

Embora a mente da garota trabalhasse agilmente, Francesca ainda não encontrava nenhuma explicação lógica que justificasse a presença de Scott naquela farmácia. Era muito improvável que o colega tivesse entrado ali por acaso, mas Sullivan também não conseguia entender as razões de um encontro forçado àquela hora da madrugada.

A confusão de Francesca só aumentou quando ela notou que tipo de medicamento o colega havia levado até o balcão. Uma das sobrancelhas de Sullivan se ergueu, formando um arco perfeito acima do olho esverdeado.

- Não, não é pra mim...

Desta vez as explicações pararam por aí. Francesca evitava ao máximo expor a situação delicada do pai, ainda mais para um estranho.

Sullivan ficou mais séria enquanto colocava o frasco sobre o balcão e retirava algumas notas de dólar amassadas do bolso de sua calça jeans. O atendente começou a digitar os dados da venda no computador e manteve um comportamento discreto, embora não estivesse perdendo nenhuma palavra do diálogo esquisito que acontecia a sua frente.

A mente agitada da garota logo chegou a uma explicação convincente para o remédio escolhido por Scott e Francesca sentiu-se uma tola por deixar seu coração se acelerar por ele. Se pudesse voltar no tempo, Francesca teria ignorado a pergunta sobre Paolo para que Damien pensasse que havia algum tipo de envolvimento amoroso entre ela e o rapaz do celular.

- Tem certeza que a marca é esta? – tentando soar indiferente, Sullivan franziu o nariz para o frasco nas mãos de Damien – Na minha opinião é uma das piores. A sua namoradinha certamente ia querer que você levasse a marca mais cara. Você não saiu de casa a esta hora para desapontá-la, não é?

Para Francesca era fácil visualizar uma daquelas garotas fúteis da Constance Billard tendo um surto no meio da madrugada por causa de cólicas e exigindo que o namorado saísse para buscar um remédio. Isso não explicava com perfeição o encontro “casual” daquela noite, mas Sullivan não estava disposta a perder mais tempo com Damien.

- Que tal você ir mais devagar nisso aí? – Francesca resmungou para o balconista ao notar que ele estava prolongando propositalmente o fechamento da venda somente para assistir à conversa dos jovens – Ainda nem é uma da manhã. Ninguém aqui está com pressa a esta hora da madrugada, né?
avatar
Francesca Sullivan

Mensagens : 99
Data de inscrição : 23/04/2016

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Maximilian Cavendish em Dom Jul 03, 2016 7:32 pm

- Eu fico feliz em saber que você prefere se focar nos pontos positivos do nosso encontro. – a voz de Max soou bem humorada como de costume – Como eu já disse, você é uma garota atipicamente bizarra, Sam.

Por mais que Maximilian se esforçasse para ser discreto, era impossível fingir que não havia nada demais entre ele e Samantha Archibald. Mesmo estando do outro lado da cozinha, Jack escutava perfeitamente a voz doce da garota vinda do celular do amigo e as batidas descompassadas que aquele timbre provocava no coração do Alpha. As sobrancelhas grossas de Jack franzidas deram a Max a certeza de que o amigo havia notado que aquela não era uma simples conversa entre meros conhecidos.

- Hoje está perfeito pra mim.

Cavendish não queria parecer ansioso, mas ele realmente sentia uma urgência sufocante de resolver aquele problema. É claro que rever Samantha e passar algum tempo na companhia dela era um brinde maravilhoso, mas seu maior desejo era evitar uma tragédia na tradicional Constance Billard School.

- Eu vou sair para resolver alguns problemas à tarde, posso emendar a saída e passar no colégio depois das 17 horas.

Irracionalmente, Cavendish estava muito grato por agora ter uma desculpa para rever Samantha Archibald. Era como se a parte instintiva da mente dele estivesse se vangloriando por aquela maravilhosa ironia do destino. Em uma cidade tão grande como Nova York, era assombroso que o recém-transformado estivesse justamente na mesma escola de Sam.

- A gente se vê no fim da tarde então, Sam.

A presença de Jack e o interesse dele naquela conversa não permitia que Cavendish estendesse demais aquele telefonema. Portanto, Max se apressou em iniciar uma despedida, que acabou soando muito mais doce e carinhosa do que ele gostaria. Quando seu polegar finalizou a ligação, o Alpha já esperava pela avalanche de perguntas.

- O que foi isso? – o sorrisinho de Jack oscilava entre a curiosidade e a provocação – Por que eu ainda não sei nada sobre essa tal de Sam?

- Porque não há nada a saber sobre ela. Não comece com bobagens, Jack. Não temos mais quinze anos. O assunto aqui é muito sério, eu estou indo ao colégio para localizar o cara transformado.

A forma como o beta bufou deixou bem claro que Maximilian não havia convencido com sua resposta vaga. Com o sorriso cada vez mais maldoso, Jack se recusou a deixar aquele assunto de lado.

- Sei. Tenta usar esta desculpa com o Ted ou com o Phil, eles provavelmente vão acreditar. Mas eu te conheço desde antes do seu primeiro uivo, Max. E nunca te vi tão derretido por uma garota.

- Não vai rolar nada.

Apesar da resposta séria, Maximilian não conseguiu negar a “acusação” de estar derretido por Samantha. Era mesmo uma tolice tentar mentir para o melhor amigo de infância.

- É só uma garota com quem eu esbarrei na rua há alguns dias. Ela é fantástica, mas exatamente por isso não serve pra mim. Eu estava disposto a esquecer isso, mas ela estuda na Constance. É a melhor chance que temos para nos aproximar antes que o recém-transformado faça alguma bobagem.

- Realmente é uma coincidência bem útil. – Jack manteve aquele sorrisinho travesso nos lábios – No seu caso, é um exemplo perfeito da velha expressão “unir o útil ao agradável”. Deixa de ser tão certinho, Max!

O beta ficou mais sério quando encarou Cavendish e era notável que naquele momento ele não agia como um simples membro da alcateia. Era um conselho de um bom amigo.

- Você perde excelentes oportunidades com esse seu excesso de preocupação, cara. Você tem vinte anos, comece a agir como tal. Se gostou da garota, invista nela, divirta-se, saia um pouco de casa, converse com outras pessoas, coma bobagens, dê risadas, transe a noite toda, beba até vomitar. A sua vida está passando em branco enquanto você se preocupa tanto com o futuro que deixa de lado o presente. O mundo não vai desmoronar se você se divertir um pouquinho como qualquer cara da sua idade faria.

- Os outros caras da minha idade não carregam a maldição e as responsabilidades que eu tenho, Jack.

- Exatamente. A vida já te puniu o suficiente, você não precisa se boicotar ainda mais. – Jack saltou de volta para o chão – Mas enfim, a escolha é sua. Boa sorte com o transformado. E com a garota também.
avatar
Maximilian Cavendish
Admin

Mensagens : 97
Data de inscrição : 13/10/2015

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Alpha Pack

Mensagem por Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 1 de 16 1, 2, 3 ... 8 ... 16  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum