Escola de mutantes

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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Maio 30, 2016 12:25 am

Após escutar uma longa coleções de alfinetadas e piadas maliciosas dos colegas no decorrer dos anos, Davina sempre procurava ignorar quando alguém tentava lhe provocar. Nas vezes em que falhava, o resultado era semelhante ao da discussão com Aphrodite no jantar da noite anterior.

Era muito mais fácil levar a briga para um nível físico do que demonstrar o quanto realmente Ackerman ficava abalada em ouvir consecutivamente que era uma pobre coitada incapaz de evoluir seu poder. Ser o fiasco da família já era ruim o bastante, era péssimo ser lembrada a todo instante pelos colegas que ela era a única que sempre ficava para trás.

Naquela noite, Kevin ainda havia tocado em uma outra ferida. Após o fiasco do namoro com Derek, Davina se sentia ainda pior quando comparada às outras meninas da mansão. Aphrodite era insuportável e ainda assim tinha uma considerável fila de candidatos. Hyacinth havia acabado de chegar e metade dos garotos já sonhavam com uma chance com ela. Derek parecia ter sido o único a ter coragem de se aproximar de Ackerman, e agora que ele havia ido embora, ela estava fadada a solidão.

Os olhos castanhos começaram a brilhar quando se encheram de lágrimas, mas Davina jamais se permitiria a derramar uma única gota diante dos colegas.

- Seu amigo é um imbecil, Theodoro.

- Não posso negar. – Theo concordou, encolhendo os ombros. – Mas você não pode dar ouvidos ao que ele disse, Davs.

- O Theo está certo, Davs. Você sabe que inteligência nunca foi o forte do Kevin, mas as vezes ele surpreende até a gente com as cagadas que saem daquela boca. Vamos esquecer isso? – Hugo forçou um sorriso ao apontar para o copo vazio da colega. – Posso pegar um refil?

Com a testa franzida, Davina encarou o interior do copo de plástico, encontrando apenas algumas gotas restantes do suco. Não havia mais ânimo algum para continuar na festa, e a última coisa que ela queria era permitir que Kevin presenciasse o estrago que havia causado.

Com um suspiro pesado, Ackerman negou com um movimento da cabeça.

- Estou cansada, Hugo. Apenas se certifiquem de me devolver a chave depois, está bem?

Os dois rapazes se entreolharam enquanto Davina marchava para a direção oposta a de Kevin. O copo descartável foi jogado em uma lixeira próxima a saída e Davina nem olhou para trás quando seguiu o rumo das escadas que davam acesso ao andar dos quartos.

Ela estava alcançando os primeiros degraus quando sentiu uma mão a puxar pelo pulso. Por um instante, ela achou que os dedos delicados pertenciam a Hyacinth, com quem havia perdido contato durante a festa. Foi uma enorme surpresa quando Davina se virou e encontrou os olhos azulados de Aphrodite.

- Já está indo, Davs? – O sorriso superior da loira provocou um arrepio em Davina. – Tão cedo?

As íris castanhas baixaram até encontrar a mão desprotegida de Aphrodite em contato direto com a sua pele e Davina contorceu o rosto em horror ao perceber o que havia acabado de acontecer. Ela chegou a cambalear no primeiro degrau, escapando do toque de Willis, mas já era tarde demais.

Uma pontada penetrou através de seus olhos até alcançar o centro da sua cabeça, mas desapareceu com a mesma rapidez que havia surgido. A cabeça de Davina girou e ela se obrigou a fechar os olhos por dois segundos. Quando as pálpebras se ergueram novamente, ela estava sentada nos primeiros degraus da escada, completamente sozinha.

O mais assustador, entretanto, era a imagem vívida em sua mente do sorriso de Kevin Templeton, diferente de qualquer outro sorriso que ela já havia presenciado no rosto do colega.

Aos tropeços, Davina conseguiu alcançar o próprio quarto, sem sequer notar na ausência de Hyacinth. Seus cabelos cor de mel já estavam bagunçados enquanto ela tentava inutilmente arrancar as memórias que surgiam como uma avalanche em sua mente.

Quanto mais ela tentava lutar, mais cenas brotavam como um filme, e cada uma delas tinha como protagonista o sorriso inédito de Kevin Templeton. Parecia uma imensa tolice quando, racionalmente, Davina sabia que aquelas memórias nunca haviam sido reais. Mas era assombroso como cada um dos momentos criados era tão rico em detalhes como qualquer uma de suas lembranças.

Era como se ela pudesse literalmente sentir o sabor do beijo de Templeton, a textura de seus cabelos cacheados, o cheiro gostoso do seu perfume. Davina chegava a sentir borboletas em seu estômago quando ouvia a voz gostosa de Kevin lhe sussurrar um “eu te amo”.

As memórias criadas se fundiam com as reais, fazendo a cabeça de Davina girar em confusão, em uma mistura de raiva pelo colega com a mente que insistia em projetar cenas felizes que não eram reais.

Pegar no sono foi quase impossível, mas quando Davina ergueu os olhos na manhã seguinte, ela tinha esperanças de que aquele pesadelo tivesse chegado ao fim. Entretanto, a primeira coisa que seu cérebro foi capaz de reproduzir, foi mais uma vez o rosto de Templeton.

Sentindo a frustração se espalhar, a menina soltou um urro, fazendo Hyacinth acordar em um sobressalto na cama ao lado. As cobertas foram jogadas para o pé da cama e em questão de minutos, Davina estava pronta para o começo do dia e disposta a ignorar qualquer lembrança que tivesse de Templeton, real ou não.

O poder de Aphrodite não seria tão perigoso se realmente não tivesse tanta influência em suas vítimas. Davina só conseguiu compreender o quanto estava em maus lençóis quando entrou na primeira aula do dia, travando diante da figura real de Templeton.

Instantaneamente, suas bochechas adquiriram um tom rosado quando ela se lembrou do formato dos lábios dele, tão perto dos seus antes que eles se entregassem em um beijo apaixonado. Parecia impossível que o mesmo Kevin diante de si fosse ser capaz de sorrir com tanto carinho, com um brilho especial no olhar, mas o lado racional de Davina desaparecia quando, intimamente, ela desejava por uma pitada de verdade naquelas mentiras.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Seg Maio 30, 2016 12:59 am

Embora já esperasse por isso, não foi fácil enfrentar a conversa com Hugo e Theodore naquela noite. Ao fim da festa, os dois amigos encurralaram Kevin no dormitório e exigiram uma explicação para o comportamento dele. Templeton nunca tivera facilidade de ouvir um “não” de uma menina, mas o que fizera com Davina naquela noite era totalmente inadmissível.

O problema era o mesmo de sempre. Mesmo depois de um ano na escola e de estar bem próximo ao fim de sua mutação, Kevin ainda não sabia lidar com o transmorfismo. E sempre que Megale mencionava isso, seu pupilo surtava com aquela crítica que, aos olhos dele, era injusta.

Talvez isso explicasse a sua explosão voltada justamente para Davina. Era um pensamento louco, mas às vezes Templeton sentia uma pontada de inveja da colega. Seus poderes estavam a cada dia mais consolidados, mas Kevin ainda precisava de tempo para aceitar a sua condição. Após aquelas discussões acaloradas com o tutor, tudo o que Kevin desejava era que seus poderes passassem a evoluir mais lentamente e que o dia de sair daquela escola e enfrentar o mundo real nunca chegasse.

- Você foi o maior dos babacas. A Davina não merecia ouvir aquele monte de merda.

- Eu sei. – um suspiro pesado escapou dos lábios de Kevin – Mas infelizmente o meu poder não permite que eu volte no tempo para consertar isso.

- Você deve a ela, no mínimo, um pedido de desculpas.

O orgulho de Templeton era grande demais, mas até ele precisou admitir que Hugo tinha razão. Davina havia sido uma vítima inocente de seu mau humor e merecia um pedido de desculpas. Mais da metade das ofensas de Kevin nem condizia com o que ele realmente pensava da colega. É claro que os poderes imaturos dela não eram um segredo para ninguém no colégio, mas Templeton não a achava menos especial por isso. Davina era uma garota bonita, inteligente e tinha muito potencial. Acima disso, era uma boa amiga.

O arrependimento de Templeton era sincero quando ele se levantou da cama na manhã seguinte disposto a consertar o erro da noite anterior. Sem imaginar que a mão de Aphrodite tinha adicionado ainda mais tempero naquela situação já delicada, Kevin se colocou diante da colega tão logo Davina surgiu na sala de aula.

- Me escute.

As mãos de Kevin se ergueram num gesto de rendição, deixando claro que ele não estava ali para continuar a discussão da última noite.

- Eu vou entender perfeitamente se quiser me acertar com um soco. Obviamente vou me livrar com facilidade do hematoma, mas te garanto que o meu poder não é capaz de evitar que eu sinta dor.

Uma das sobrancelhas de Kevin se ergueu e ele repuxou o canto dos lábios num sorrisinho meio inseguro. E só Templeton sabia o quanto ele odiava se sentir inseguro perto de uma garota.

- Desculpe por ontem, Davs. Eu fui um babaca, um idiota, um estúpido, um demente... Enfim, o meu vocabulário não é tão rico, sinta-se à vontade para fazer acréscimos.

A maneira que Kevin encontrou para diminuir um pouco o desconforto daquele pedido de desculpas foi mudar a aparência. Naquela manhã, somente o sorriso era o mesmo. Os olhos escuros e os cabelos acobreados curtos eram raramente usados pelo rapaz. Ele também parecia menos alto que de costume.

- Como eu sei que só palavras não podem consertar toda a cagada que eu fiz, eu pensei que talvez isso pudesse ajudar na sua decisão de me perdoar.

Como se estivesse prestes a cometer um crime, Templeton olhou para os lados e se certificou de que ninguém olhava na direção deles. Só então, o rapaz afastou o casaco e mostrou uma generosa barra de chocolate escondida no bolso interno da peça.

- Meu irmão contrabandeou na última visita. Eu estava guardando para uma hora especial, mas é um preço justo a se pagar pelo perdão de uma amiga.

A barra de chocolate foi retirada rapidamente do bolso do rapaz e, num movimento habilidoso, Kevin a enfiou dentro da bolsa onde Davina carregava seus livros. Qualquer jovem “normal” poderia achar que uma barra de chocolate era uma bobagem, mas aquilo valia ouro dentro do centro de treinamento de mutantes.

- Então, Davs...? – Templeton sorriu para a menina, sem jamais imaginar que aquele mesmo sorriso carinhoso já perturbava a mente de Davina desde a noite anterior – Está tudo bem entre a gente?
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Seg Maio 30, 2016 1:00 am

- Bom, talvez refrigerantes sejam a única coisa que consigam ser mantidos em segredo por aqui.

Andrew abriu um sorriso antes de brindar as duas latas de Coca-Cola, dando um gole em seguida. Talvez fosse pelo seu pouquíssimo tempo como tutor, mas era fácil se esquecer das suas obrigações e responsabilidades e voltar a ser um adolescente em um momento de descontração.

Embora fosse extremamente maduro no desenvolvimento do seu poder, e dono de uma invejável inteligência, Andrew Ackerman ainda era o primogênito de uma família rica e tradicional, acostumado a ter alguém para se preocupar com os grandes problemas enquanto ele poderia simplesmente aproveitar o melhor da vida.

Era a primeira vez que Ackerman assumia o papel de adulto, mas era imensamente difícil deixar para trás todas as mordomias de ser apenas um rapaz. Até mesmo nos anos de faculdade, ele tivera como prolongar os prazeres de festas, bebidas e diversão. Parecia injusto que todos estivessem se divertindo enquanto ele precisasse assumir o papel do homem mais velho e responsável. Só o que Andrew queria era prolongar mais um pouco a leveza de ser mais um dos adolescentes da mansão.

- O seu poder é incrível. E com o treinamento adequado, você vai ver o quanto vai longe...

O sorriso de Andrew apenas vacilou quando ele sentiu o toque firme de Hyacinth em seus cabelos. Pela primeira vez naquela noite, Ackerman mergulhou no silêncio do quarto e se concentrou apenas nos olhos azuis a sua frente.

A ruiva estava mais uma vez perto demais, mas agora não havia mais a enxaqueca para distrair a atenção dos dois. Não havia nada para desviar seu foco do quanto ele vinha se sentindo atraído por Westphal desde o minuto que a tocara pela primeira vez.

Com a mente completamente vazia, Andrew permitiu que seus lábios se curvassem em um sorriso. Diferente da gentileza que ele costumava a dirigir à Hyacinth ou a qualquer outro aluno, era um sorriso mais íntimo, que o deixava ainda mais atraente.

Andrew deslizou suas mãos até tocarem nos joelhos de Hyacinth, sentindo o contato direto com a pele, graças ao tecido curto do vestido vermelho.

- Estou uma bagunça, não é?

Ele enrugou o nariz em reprovação com a própria aparência, mas até mesmo a calça listrada do pijama, a camisa branca de algodão e os cabelos bagunçados lhe davam um charme peculiar.

- É que infelizmente não me convidaram para a festa de hoje, e como eu não esperava visitas...

A voz de Andrew morreu no meio da frase enquanto ele deslizou o olhar pela aparência produzida de Hyacinth. Com o semblante mais sério, as palavras voltaram a sair de sua boca em um sussurro rouco.

- Você está linda. – Os lábios se curvaram em um discreto sorriso antes de continuar. – Uma mutante extremamente linda.

Uma das mãos de Andrew se ergueu lentamente do joelho de Hyacinth até tocá-la no rosto. Os dedos deslizaram em uma carícia até se encaixarem com perfeição, mantendo o ângulo perfeito do rosto da ruiva para que ele pudesse se inclinar para frente, até cobrir os lábios dela com os seus.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Maio 30, 2016 1:24 am

Uma das qualidades de Davina era que a menina era incapaz de guardar mágoas por longos períodos. Seus ataques de fúria poderiam ser conhecidos pelos quatro cantos da mansão, mas os colegas também reconheciam que Ackerman estava sempre disposta a perdoar diante de um pedido sincero de desculpas.

O problema era que, após o toque de Aprhodite, parecia ser impossível enxergar Kevin da mesma forma. Enquanto o rapaz falava, Davina já sentia seu coração acelerar. Ela chegou a se perder no meio das palavras do rapaz enquanto se concentrava no formato de seus lábios, a lembrança perfeita do beijo voltando a invadir a sua mente.

Ackerman chegou a entreabrir a boca e inclinar para frente, hipnotizada entre as lembranças tão vívidas em sua mente e com o sorriso do colega. Ela, que sempre havia sido imune aos charmes de Templeton, começava a se perguntar como seria se o rapaz fosse mesmo capaz de ser tão gentil quanto nas memórias irreais de sua cabeça.

O Kevin que ela conhecia era fútil e enjoava com facilidade das suas conquistas. Mas a imagem em sua cabeça era tentadora demais para que Davina lutasse contra elas. Nem mesmo Derek havia sido capaz de lhe encarar com tanta doçura ou de fazer seu estômago rodopiar em cambalhotas deliciosas.

Por um instante, Davina chegou a cogitar a possibilidade de envolver Templeton em um beijo, mas por sorte, a risadinha de Aphrodite se fez ouvir, trazendo a menina de volta a realidade. A loira estava sentada em uma das primeiras carteiras e encarava o casal com interesse.

Ackerman sentiu as bochechas esquentarem e pigarreou, balançando a cabeça em uma tentativa de obriga-la a voltar a funcionar normalmente.

- Eu não vou esquecer tudo que você disse por uma barra de chocolate, Templeton.

O coração de Davina se comprimiu ao perceber o quanto estava sendo dura com o amigo. Afinal, Kevin estava tentando se redimir pelo erro cometido. Além do mais, a enxurrada e boas lembranças que sua mente produzia envolvendo os dois fazia sua mente questionar se ele realmente merecia ser tratado daquela forma.

Como se devesse alguma fidelidade às lembranças de um namoro que nunca existiu, Davina mordeu o lábio antes de olhar rapidamente para a barra já em sua bolsa. Quando ela se voltou para o rapaz, os olhos castanhos estavam mais suaves.

- Tudo bem. Eu aceito a metade. Você pode continuar com a outra metade, afinal foi o seu irmão que teve o trabalho todo.

A atenção de Aphrodite continuava firme no casal, e como se quisesse provar para si mesma e para a loira que não havia ficado tão abalada com aquela brincadeira de péssimo gosto, Davina acrescentou, convicta de que estava agindo apenas como a amiga de sempre.

- Podemos dividir depois do jantar. Ouvi dizer que o cardápio de hoje envolve fígado, então tenho a ligeira impressão que continuarei com fome antes de dormir.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Seg Maio 30, 2016 1:47 am

Mesmo antes dos lábios dos dois se tocarem, Hyacinth já sabia o que estava prestes a acontecer. Seu coração deu um salto exagerado dentro do peito e a garota sentiu um arrepio gostoso se espalhar pelo seu corpo quando os lábios macios de Andrew foram comprimidos contra os dela. Inconscientemente, a ruiva apoiou as duas mãos nos ombros fortes de Ackerman e abaixou as pálpebras, mergulhando por completo naquela carícia proibida.

Não era o primeiro beijo de Hyacinth, mas suas experiências anteriores não tinham sido numerosas e muito menos satisfatórias. Os poucos garotos que tentaram beijá-la possuíam a insegurança e a ansiedade típicas da adolescência e só conseguiram fazer com que Hyacinth tivesse péssimas experiências envolvendo choque entre dentes e uma quantidade desnecessária de saliva.

Ao contrário dos beijos anteriores, Andrew parecia saber muito bem o que estava fazendo com a ruiva. Seus lábios se moviam com determinação e com uma segurança inédita para Westphal. A mão perfeitamente encaixada no rosto dela sentia com facilidade a pele de Hyacinth se esquentando na mesma velocidade em que a carícia se tornava mais intensa.

Não havia nenhuma regra da escola que falasse diretamente sobre o envolvimento entre professores e alunos, mas esta nunca fora uma preocupação porque os tutores eram sempre mutantes experientes e bem maduros. Quando contratou Andrew para aquele cargo, Dana chegou a cogitar uma conversa sobre o assunto, mas acabou desistindo da ideia ao concluir que Ackerman poderia se ofender. O que Dana nunca pensou era que Andrew estaria aos beijos com uma novata antes mesmo de completar o seu primeiro mês como tutor.

Estava claro que Andrew havia perdido a cabeça, mas Hyacinth não fez a menor questão de ser a mente mais racional daquele quarto. Embora soubesse como era errado levar adiante aquela aproximação, a ruiva não resistiu à tentação de corresponder ardentemente ao beijo iniciado pelo professor.

Não parecia tão errado, afinal. Andrew era jovem demais, não era como se o tutor fosse um homem maduro como Chevalier se aproveitando da ingenuidade dela. Aliás, naquele momento Hyacinth sequer se lembrava que Ackerman era um professor da sua nova escola. Tudo o que ela via era um rapaz jovem e atraente que beijava maravilhosamente bem.

- Você também... – a ruiva devolveu o elogio num sussurro ofegante – Mesmo com pijamas.

As mãos pousadas nos ombros de Andrew deslizaram pelas costas dele até alcançarem a nuca do rapaz. Os dedos de Hyacinth se perderam numa carícia antes de se afundarem nos cabelos castanhos. Os dois já estavam muito próximos, mas a garota intensificou ainda mais aquele contato quando roçou o rosto no dele. Westphal nunca se sentira assim com nenhum rapaz, mas Andrew era capaz de lhe transmitir um sentimento de confiança e de proteção.

O hálito quente de Hyacinth se chocou contra o pescoço do tutor antes que ela encostasse os lábios ali, fazendo uma trilha de beijinhos que terminou na área macia bem debaixo de uma das orelhas dele. Os olhos da moça brilhavam vivamente quando ela afastou o rosto apenas o suficiente para encará-lo.

- Acho que os refrigerantes deixarão de ser o seu único segredo nesta escola...
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Seg Maio 30, 2016 2:18 am

Era exatamente aquilo que Aphrodite planejara quando encostou em Davina na noite anterior. Ackerman obviamente saberia distinguir as memórias verdadeiras das falsas, mas Willis sabia que a colega não seria indiferente às mentiras implantadas em sua cabeça. Aphrodite sabia melhor do que ninguém o quanto as suas imagens falsas eram detalhadas e dolorosamente reais. Mesmo que não fosse capaz de criar sentimentos, Aphrodite sabia conduzir suas vítimas em direções perigosas, ainda mais para um coração solitário e machucado como o de Davina.

A crueldade residia exatamente na escolha do “protagonista” daquelas lembranças falsas. Aphrodite queria que Davina se apaixonasse justamente pelo rapaz mais errado de toda a mansão. Kevin não hesitaria se a colega tentasse beijá-lo, mas apunhalaria os sentimentos de Ackerman no instante em que fizesse com ela o que fazia com todas as meninas de sua longa lista de conquistas.

- Fígado? De novo?

As feições bonitas de Templeton se franziram em uma careta enojada. O cardápio do refeitório era sempre muito razoável, exceto nos dias em que serviam fígado.

- Você não acha coincidência demais que sirvam fígado um dia depois da nossa festa? É como se eles soubessem e quisessem nos punir!

Ainda com um semblante contrariado, Kevin cruzou os braços e bufou. O chocolate dentro da bolsa de Davina lhe parecia ainda mais tentador agora que ele tinha conhecimento do cardápio pouco atraente daquela noite.

- Fechado. Espero por você na quadra depois do jantar. Mantenha a ruiva fora disso, eu também vou me livrar do Hugo e do Theo. É gente demais para pouco chocolate.

A conversa deles foi interrompida quando Dana entrou na sala. A professora lecionava várias aulas dado o seu vasto conhecimento em diversas áreas da mutação, mas naquela manhã a planilha de horários indicava que os jovens teriam duas horas seguidas de História Mutante.

Kevin adorava Dana e a admirava profundamente, mas aquilo também parecia ser uma punição. Seria difícil manter os olhos abertos depois de uma noite inteira de festa, ainda mais durante uma aula tão entediante.

- O que houve com vocês? Parecem tão desanimados... – o sorriso de Dana parecia muito mais divertido que o normal – Que tal abrirem os livros na página quarenta e três? Teremos duas maravilhosas horas para falar sobre a evolução dos mutantes na Idade Média.

- Ela sabe. – Theodore resmungou, sentando-se ao lado do melhor amigo – Esse sorrisinho vingativo não me engana.

- A Dana sempre sabe de tudo, Theo. – Kevin bocejou e coçou os olhos para tentar despertar por completo – Da próxima vez, vamos convidá-la.

- Ela vai entrar para a sua lista?

A pergunta de Theodore obviamente era uma brincadeira, por isso o rapaz ficou horrorizado quando Kevin olhou para a professora como se a analisasse.

- Talvez. – os lábios de Kevin se curvaram num sorrisinho maldoso – Ela é linda.

- Ela tem quase cem anos! – Theo cochichou, meio exasperado – E dizem as más línguas que ela e o Chevalier...

- Sério? – Hugo, que dividia a mesa com Davina, chegou a se virar para trás ao escutar a fofoca dos amigos – Os dois tem um caso???

- Quem tem um caso, Hugo?

O rapaz perdeu todas as cores quando Dana parou a aula e se virou na direção do trio. Theodore deu um tapa na própria testa e Kevin se encolheu na cadeira, deixando Hugo sozinho naquela situação constrangedora.

- Ninguém, Dana. – o garoto gaguejou – Bobagens do Kevin! Desculpe!

- Você fala especialmente alto para alguém que escuta tão bem. – Templeton acertou a nuca do amigo com um tapa – Controle-se, animal!
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Seg Maio 30, 2016 2:22 am

Andrew estava mergulhado nas sensações maravilhosas que Hyacinth era capaz de lhe proporcionar. Embora tivesse uma significativa experiência com algumas namoradas em seu passado, além de algumas conquistas nos anos de faculdade, ele conseguiria dizer facilmente que nunca, nenhuma garota antes, fora capaz de despertar todo os seus sentidos como a ruiva fizera naquela noite.

Cada centímetro do corpo de Ackerman parecia estar em chamas, seu mundo inteiro havia mudado de eixo para se encaixar naquela nova realidade. O sabor dos beijos de Cinth era algo que ele jamais fora capaz de imaginar ser possível. A maciez de seus lábios e os arrepios provocados pelos seus toques faziam com que Andrew esquecesse por completo que existia um mundo fora daquele quarto.

Ele se sentia inteiramente anestesiado, ainda de olhos fechados, quando o beijo chegou ao fim. Seu corpo ainda estava quente e as pálpebras fechadas ajudavam a prolongar aquele momento, mas Ackerman se viu obrigado a relevar mais uma vez os olhos castanhos quando o comentário inocente de Westphal lhe trouxe de volta a realidade.

As palavras poderiam ser completamente aleatórias, mas obrigavam o tutor a se lembrar o absurdo que ele estava cometendo. Aquele beijo, por mais maravilhoso que fosse, era algo tão inapropriado que deveria ser mantido em segredo como mais uma das coisas ilegais da escola.

Agora que a mente de Andrew começava a trabalhar com racionalidade, ele conseguia compreender o quão longe havia ido. Era uma sorte que Hyacinth tivesse correspondido aquele beijo, mas era uma sorte ainda maior que ela estivesse disposta em manter aquilo fora dos ouvidos dos demais tutores.

Um frio repentino se espalhou pelo seu corpo quando ele imaginou a decepção de Dana, caso Westphal resolvesse denunciar aquele sério deslize. Hyacinth estaria em seu pleno direito se denunciasse sua conduta imprópria aos demais, obrigando Andrew a perder aquela grande oportunidade antes mesmo de mostrar seu potencial.

Com a testa franzida, demonstrando o profundo arrependimento, Ackerman tocou os pulsos delicados de Hyacinth, obrigando a ruiva a parar com a carícia em seus cabelos.

- Me desculpe. Eu fui longe demais.

Andrew era um rapaz novo e seria perfeitamente normal se interessar por uma menina linda como Hyacinth. Mas sua nova posição naquela escola o fazia se sentir um crápula, como se estivesse se aproveitando do elo que a menina deveria ter com seu tutor. Jamais havia sido a intenção dele agir como um canalha, levado apenas pela atração por Westphal. Mas agora era impossível controlar o estômago de se embrulhar com aquela ideia. O mais assustador era pensar que Hyacinth poderia mesmo ter aquela ideia tão errada dele.

Se sentindo incapaz de encarar os olhos azuis outra vez, Andrew se levantou, coçando a nuca com as mãos agitadas e bagunçando os cabelos cacheados ainda mais.

- É melhor você ir, Hyacinth. Isso foi completamente inapropriado e não vai acontecer de novo. Podemos fazer de conta que nada aconteceu?

Encarando o carpete que cobria o piso, Andrew pisou duro em direção a porta e a abriu, procurando qualquer ponto do quarto para encarar, que não fosse o rosto da ruiva. Ele esperou que ela estivesse perto o bastante para acrescentar, com o olhar baixo.

- Por favor, não conte nada a Davina.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Maio 30, 2016 2:45 am

Davina se sentia afundar na carteira. Ela não precisava ter uma super audição para escutar os sussurros da dupla na fileira de trás e não deveria se sentir surpresa com o comentário de Kevin a respeito de Dana. O rapaz era um conquistador barato e incurável, mas salva as exceções que suas vítimas eram amigas próximas, aquilo nunca havia incomodado Ackerman de verdade.

Agora, entretanto, ela tentava se convencer do quão ridícula eram as imagens que se repetiam em sua mente. Ali estava a prova de que Templeton nunca se tornaria o rapaz apaixonado de suas lembranças falsas. Aphrodite havia sido incrivelmente criativa com os detalhes, mas racionalmente, Davina sabia que jamais teria um pingo de verdade na felicidade que ela visualizava viver ao lado de Kevin.

Quando Dana começou a fazer anotações no quadro negro, Ackerman chegou a se inclinar para trás, capturando a imagem do rosto bonito de Templeton. Por alguns segundos, ela se distraiu perdida nas cenas de Kevin ajeitando uma mecha de seus cabelos antes de se inclinar para beijá-la.

Os olhos castanhos estavam presos no rapaz enquanto Davina mordiscava a ponta do marca-texto, perdida em outro universo.

- Você está bem?

A voz de Hugo trouxe Ackerman de volta a realidade, obrigando a menina a arregalar os olhos em surpresa pelo flagra. Para piorar seu desconforto, Theodore e Kevin também se voltaram para ela, ambos com expressões curiosas.

- Hm?? – Davina sentiu o rosto corar violentamente antes de sacudir a cabeça, balançando algumas mechas cor de mel. – Lógico que estou, Hugo. Que pergunta idiota. Diferente do Theo, eu não bebi dois copos puros de vodca.

Em resposta, Theodore contorceu o rosto em uma careta, admitindo silenciosamente sua ressaca. Hugo ainda encarou a amiga por alguns minutos antes de se voltar para Dana. Tentando ao máximo ignorar os risinhos baixinhos de Aphrodite, Davina também se esforçou a manter a concentração nas palavras da professora.

***

A quadra de basquete era coberta e cercada nas duas laterais pelas arquibancadas. Davina já havia assistido diversos jogos ali e sabia que o lugar conseguia suportar um número considerável de torcedores, mas o lugar parecia ainda maior quando estava vazio, mergulhado em um silêncio tão grande que seus passos ecoavam enquanto ela andava pelo espaço destinado aos jogadores.

Embora o lugar fosse protegido pelas paredes, o frio da noite era capaz de alcançar seu interior, obrigando Davina as e escolher em seu casaco de lã. A barra de chocolate estava firme em seus dedos, escondida sob a blusa branca. A menina ainda vestia a saia xadrez com que assistira as aulas e os cabelos estavam desalinhados em uma trança que já havia se desmanchado quase que por completo.

Ackerman havia lutado para não aparecer no lugar combinado por Templeton. Seu coração dava saltos irracionais cada vez que pensava em ficar a sós com o rapaz e ela pensou em simplesmente continuar no quarto e lhe entregar a metade do doce no dia seguinte.

Por outro lado, Davina sabia que o melhor remédio para aquelas alucinações absurdas era que seu cérebro aceitasse de uma vez por todas que aquele Kevin de suas fantasias não existia. E a melhor forma de acabar com aquela loucura era ver o verdadeiro Templeton em ação. O rapaz sempre tivera um certo talento para irritá-la e ele só precisava continuar agindo como sempre para que a realidade se sobressaísse de uma vez por todas.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Seg Maio 30, 2016 2:50 am

A sensação foi bem semelhante a um balde de água gelada sendo derramado sobre a cabeça de Hyacinth. A ruiva ainda se deliciava com uma das melhores experiências da sua vida quando viu o arrependimento refletido nos olhos de Andrew. Definitivamente, a última coisa que uma garota esperava ver nos olhos do rapaz que acabara de beijá-la era um profundo e mortal arrependimento.

Racionalmente, Westphal sabia que o beijo fora errado e que aquela não era a conduta esperada de um bom tutor. Mas fora tão perfeito que era frustrante ver que, mesmo depois de beijá-la, Andrew ainda se preocupava mais com a sua posição na escola. O estômago de Hyacinth se afundou ainda mais quando o professor pediu desculpas. Parecia a pior das ofensas se desculpar depois de um beijo tão bom.

- Fazer de conta que nada aconteceu?

Hyacinth repetiu as palavras dele com uma entonação incrédula. A garota sacudiu a cabeça em negativa, sem acreditar em tudo o que estava acontecendo.

- Se é isso que te preocupa, durma tranquilo. Eu não vou contar para a Davina, nem para a Dana, nem para ninguém. A sua imagem nesta escola continuará inabalável. Só não me peça para esquecer que isso aconteceu, professor.

Com o orgulho profundamente ferido, Hyacinth se colocou de pé e ajeitou o vestido enquanto caminhava até a porta do quarto, já aberta por Andrew. Por um breve momento, Westphal se questionou se fora mesmo uma boa ideia procurar por ele. A dor que Ackerman curara era tão insuportável quanto a vergonha e a humilhação que tomavam conta dela naquele momento.

- Foi a última vez que procurei por você. Direi à Dana que quero Chevalier como tutor. Imagino que ela não vai estranhar o pedido, afinal faz sentido querer ser treinada por um mutante que possui a mesma habilidade que eu.

Sem esperar por uma resposta, Hyacinth cruzou os braços como se quisesse abraçar o próprio corpo. Com passos rápidos, a ruiva atravessou o corredor e sumiu de vista pela escadaria que levava aos dormitórios dos alunos.

De fato, Dana não ficou surpresa quando a novata a procurou logo nas primeiras horas da manhã seguinte para contar que seu poder já havia se manifestado. A loira abriu um sorriso satisfeito ao ver a mão da menina atravessando a superfície de mármore de sua mesa, mas a mulher também pareceu um tanto intrigada.

- Isso é ótimo. Estou surpresa em ver que você já controla tão bem a habilidade, geralmente os jovens demoram um pouco mais e causam uma série de acidentes...

- Ainda preciso aprender muita coisa, só consigo fazer isso com as mãos.

- Logo estará atravessando paredes. – Dana se inclinou para acariciar a mãozinha da ruiva – Meus parabéns, é um belo dom.

- Obrigada. – Hyacinth tentou soar natural naquele pedido – Imagino que seja melhor pedir ao Chevalier que seja o meu tutor, não é?

A pergunta não foi respondida de imediato. Dana encarou a aluna por alguns segundos antes de erguer um dos ombros, usando a serenidade de sempre em sua voz.

- Todos os tutores estão preparados para lidar com os mais variados tipos de mutação. O professor Ackerman certamente pode te ajudar. É uma questão de afinidade e confiança. Uma escolha que cabe apenas a você.

- Eu me sentirei mais segura com o professor Chevalier. – Westphal forçou um sorriso – Ninguém conhece tão bem o meu poder como ele, afinal.

- Como preferir, querida. – Dana olhou o relógio antes de se levantar – Perdoarei um atraso de dez minutos, não mais que isso. Conte a novidade ao Chevalier e depois vá para a aula de História Mutante. Serão duas horas maravilhosas, você não pode perder.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Seg Maio 30, 2016 3:47 am

- Escolha uma pessoa. Apenas uma. Alguém em quem você confie, alguém que vai guardar o seu segredo.

- Não há segredo algum! Você sabe, então não é segredo!

- Eu sou o seu tutor. Então, isso não conta.

Mais uma vez, Megale e Kevin travavam a mesma discussão de sempre. O tutor havia chamado Templeton para uma conversa antes do jantar e, num tom bastante amigável, tentava convencer o seu pupilo a se revelar para pelo menos um dos colegas. Megale tinha uma certeza inabalável de que Kevin se aceitaria muito melhor se percebesse que os amigos o aceitavam como ele realmente era.

- Theodore é seu melhor amigo.

- Ele ficaria fazendo piadas. – Kevin retrucou com uma entonação derrotada – Não por maldade, mas é o jeito dele.

- O Hugo parece ser mais sensato. – Megale ponderou.

- O Hugo é discreto como um rinoceronte de sunga.

A risada grave de Megale ecoou pela sala com a imagem descrita pelo pupilo. O assunto era delicado, mas de nada adiantaria deixar de lado o bom humor. Megale sabia que não era um pedido fácil de ser atendido e que Kevin nunca reagia bem, mas o seu desejo de ajudar o rapaz o levava a insistir naquilo com bastante frequência.

- Não há mais ninguém em quem você confie?

O tutor sabia muito bem da fama de conquistador barato de Kevin. Não era raro que os outros professores se queixassem com Megale do comportamento de seu pupilo e do efeito negativo que ele causava nas meninas que iludia. Mas Megale também sabia que, apesar da lista extensa de garotas com quem Templeton já ficara, nenhuma delas ocupava um lugar no coração do rapaz. Eram apenas aventuras e, na opinião de Megale, era uma tentativa desesperada de Kevin compensar a baixa autoestima que possuía graças a sua verdadeira forma.

Por alguma razão, a mente de Kevin projetou a imagem de Davina. Ela não era uma amiga tão próxima quanto Hugo ou Theodore, mas Templeton reconhecia as qualidades da garota. Se tivesse mesmo que se revelar a alguém, talvez Davina fosse a pessoa mais indicada. A caçula dos Ackerman conhecia melhor que ninguém aquele sentimento de frustração com a própria mutação.

- Talvez exista alguém... eu disse talvez. – Kevin suspirou pesadamente e ergueu os olhos para o tutor – Eu vou pensar em tudo o que conversamos. É só isso que posso prometer.

Aquela promessa era muito mais do que Megale já conseguira nas discussões anteriores, então o tutor se deu por satisfeito e liberou Kevin para o jantar. Como Davina havia previsto, o cardápio daquela noite contava com uma porção insuportavelmente grande de fígado acebolado e o único consolo de Templeton era pensar na barra de chocolate que esperava por ele.

Quando ele pisou na quadra, Davina já esperava sentada no banco onde geralmente os reservas ficavam para assistir à partida. Enquanto caminhava na direção da colega, Kevin enfiou as mãos no bolso da jaqueta de couro que usava naquela noite. O clima estava frio, mas era a conversa com Megale que deixava o rapaz gelado de expectativa.

- Oi.

A voz de Kevin soou anormalmente insegura, ainda mais para os padrões de um rapaz que sempre parecia saber o que dizer para as garotas.

- Davs... – o rapaz suspirou e girou os olhos com uma impaciência forçada – Olha, o Mega está me enchendo a paciência. Eu vou enlouquecer se ele vier com esta conversa de novo, então talvez seja melhor fazer logo o que ele quer.

Mais do que nunca, Davina parecia ser a pessoa ideal. Além da menina entender na pele a frustração de uma mutação fora dos padrões, ela era um nome riscado da lista dele. Depois da briga da última noite, Templeton sabia que não tinha nenhuma chance com Ackerman. Portanto, ele não perderia nada se Davina ficasse horrorizada com a sua verdadeira face.

- Sei que não estou em condições de te pedir nada, mas eu ficaria muito agradecido se você não contasse a ninguém. Não é fácil pra mim, eu acho que você entende a sensação de detestar a própria mutação, não é?

Aquilo não fazia muito sentido. Templeton possuía um poder invejado por muitos. Quem não gostaria de moldar o próprio corpo de acordo com suas vontades? A maioria das garotas mataria por tal habilidade. O próprio Kevin sempre tratava o seu poder como uma grande dádiva, não fazia sentido vê-lo falar daquilo como se fosse um problema, uma maldição.

- Não se assuste, por favor.

Kevin olhou para os lados apenas para se certificar que os dois estavam sozinhos na quadra. Então, com uma expressão de absoluta derrota, colocou-se diante de Davina e mostrou a ela a sua verdadeira face, que somente os tutores conheciam.

No começo, a pele de Kevin adquiriu um tom mais escuro e a cor foi se intensificando até que a coloração atingisse um bizarro tom de azul celeste. Os cabelos sedosos ficaram mais grossos e os fios castanhos adquiriram uma cor avermelhada. Os olhos, que Templeton mudava constantemente de cor, tornaram-se tão negros que era difícil diferenciar as íris das pupilas dilatadas.

Se prestasse atenção nos detalhes, Davina perceberia que a pele azulada do colega era formada por milhões de pequenas escamas ásperas, como as de um réptil. Eram elas que davam a Templeton o poder de adquirir qualquer forma que desejasse.

Ao fim da revelação, Kevin evitava a todo custo o olhar de Ackerman. A última coisa que ele precisava era ver medo, nojo ou deboche no semblante dela. Já era suficientemente ruim se sentir tão exposto aos olhos de uma garota.

- Pronto. Diga ao Megale que eu fiz o que ele queria e contei a alguém que sou uma aberração.

Apesar da aparência bizarra, era possível notar que os traços de Templeton eram os mesmos que ele exibia pela mansão. Por baixo da pele azul, ele ainda possuía aquele mesmo sorriso bonito, o nariz bem desenhado e os olhos expressivos. Como Kevin gostava de dizer em tom de zombaria, ele usava o poder de transmorfismo apenas para fazer “ajustes” na própria aparência.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Seg Maio 30, 2016 4:34 am

Durante toda a noite, Andrew se viu incapaz de pregar os olhos. A cama parecia imensamente desconfortável e sem sinal algum do sono para acalmar seus ânimos. Durante horas a fio, Ackerman encarou o teto do quarto ou as sombras projetadas pelos móveis, enquanto sua mente revivia a visita breve de Hyacinth.

Ele se sentia péssimo pelo grande deslize cometido, mas a mágoa nos olhos azuis conseguia ser ainda pior. O poder da cura era impressionante e invejado por muitos, mas naquela noite, Andrew trocaria toda sua evolução para ter a habilidade de voltar no tempo e consertar aquele erro.

O mais frustrante era imaginar voltar a ter uma vida sem experimentar o beijo de Westphal. A ruiva era linda e já dava sinais de ser incrivelmente poderosa, mas o mais incrível havia sido aquele rápido momento de intimidade. Andrew não conseguia encontrar nada parecido em toda sua vida e seu coração batia dolorido, implorando para que ele repetisse aquela loucura.

Quando o dia amanheceu, Andrew estava decidido a deixar para trás o erro cometido. Era loucura se sentir atraído por uma das alunas. Não importava o quão conectado ele se sentia a ela ou a diferença de idade que não era nada gritante. Ele ainda estava na posição de um professor ali e era inapropriado ter qualquer tipo de relacionamento fora das salas de aula.

Se sentindo abatido e derrotado com aquela decisão, Ackerman tentou se concentrar no trabalho ao longo do dia, mas só o que conseguiu foram aulas distraídas e alunos que o corrigiam a todo instante.

Quando o dia finalmente chegou ao fim, o professor se sentia exausto, o que não era comum em sua condição. Os olhos ardiam pelo esforço da leitura ao longo das aulas e Andrew jamais imaginou que ser professor conseguisse ser tão cansativo. Em parte, ele sabia que a péssima noite de sono tinha influencia, mas que o fator mais agravante vinha acompanhado de um par de olhos azuis e cabelos muito vermelhos.

A notícia de que Hyacinth havia escolhido Chevalier foi recebida com um embrulho no estômago. Enquanto a mente de Andrew comemorava o fato de não precisar interagir com a ruiva com tanta intensidade, o peito dele se espremia em uma pontada de decepção. Embora estivesse decidido que não daria mais nenhuma chance para que a loucura da noite anterior se repetisse, Andrew ainda desejava poder estar ao lado de Westphal, mesmo que fosse apenas para admirar suas belas feições.

Como se o destino quisesse lhe agradar com aquele simples desejo, o coração de Andrew deu um salto no instante em que pisou na biblioteca e reconheceu o brilho avermelhado dos cabelos de Hyacinth.

Pela hora avançada, o lugar estava praticamente vazio. Como era sempre esperado atitudes responsáveis e maduras pelos alunos, os tutores haviam concordado que era desnecessário manter uma bibliotecária no lugar. Era compromisso do aluno recolher e devolver o livro que quisesse em perfeitas condições, assim como manter todo o lugar organizado. Como punição por alguns excessos, quando alguém quebrava as regras, eles eram obrigados a recatalogar alguns livros perdidos em prateleiras aleatórias.

Andrew nunca havia recebido um castigo nos oito meses em que morara sob o teto da mansão, mas conhecia bem cada pedaço da biblioteca, onde ele já havia identificado cada um dos livros escritos pelo avô.

As janelas eram retangulares e altas, com a vista dos jardins da mansão. Haviam diversas mesas enfileiradas entre dezenas de estantes, todas abarrotadas de livros dos mais diversos assuntos. A maior concentração envolvia as mutações, mas os alunos também tinham acesso a assuntos normais como matemática ou simples livros de ficção.

Andrew havia ido devolver o livro de capa azul, já com o intuito de retirar um novo livro para a leitura da noite, quando reconheceu os cabelos ruivos de Hyacinth entre algumas prateleiras. Seu coração deu um salto e Ackerman tinha toda a chance do mundo de dar as costas e sair sem ser visto.

Como se estivesse atraído por um ímã, Andrew parou por alguns segundos antes de se render a tentação de se aproximar da menina. Hyacinth parecia concentrada demais nas primeiras páginas do livro quando o professor se recostou sobre a mesa, parando ao seu lado.

- Lição de casa do Chevalier? – Ele perguntou em um sussurro, coçando a bochecha enquanto tentava captar o título do livro. – Ele sempre gostou de passar dezenas de livros. Não que eu ache ruim, mas definitivamente você consegue aprender muito mais na prática do que nessas teorias cansativas.

Com um suspiro, Andrew cruzou os braços e baixou o olhar para a aluna, sentindo o estômago dar uma cambalhota diante dos olhos azuis. Definitivamente, sua memória não fazia jus à beleza verdadeira da ruiva.

- Sinto muito por ontem, Hyacinth. Eu não tive a intenção de ofendê-la. Eu não queria que ficasse nenhum mal-estar entre a gente. Você acabou de chegar e a última coisa que precise é algum conflito que possa te atrapalhar na sua evolução.

Um pequeno sorriso de lado surgiu no rosto de Andrew quando ele apoiou a mão no tampo da mesa, roçando o seu dedo mindinho na pele clara de Westphal.

- Podemos tentar novamente? – Antes que a menina pudesse interpretar errado aquela oferta, Andrew inclinou a cabeça para o livro a sua frente. – Eu posso não ser o seu tutor, mas ainda tenho muito a oferecer, eu juro.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Maio 30, 2016 4:55 am

Toda a introdução de Kevin não fazia sentido algum à Davina. Ela nunca havia visto o colega tão inseguro e derrotado como naquela noite e, por um segundo, chegou a se perguntar se seria mais algum tipo de influência de Aphrodite.

Quando ficou claro o que Templeton pretendia fazer, Ackerman arqueou os ombros, ficando com a coluna perfeitamente reta. Cada uma de suas pernas estava rodeando o banco, de modo que ela sentava de lado, os joelhos batendo nas laterais da madeira e seu corpo curvado na direção do colega.

A última coisa que havia passado pela cabeça de Davina para aquela noite, era aquela revelação. Todos sabiam que Kevin não tocava no assunto de sua verdadeira aparência, sempre tentando despistar os mais curiosos, mas nunca passou pela sua cabeça que algum dia ele conseguiria se revelar, ainda mais para ela.

Os dois não eram exatamente amigos e já haviam protagonizado algumas discussões, principalmente quando Ackerman tentava defender a antiga colega de quarto por mais alguma decepção. Apesar de todas as diferenças, Davina se sentia lisonjeada por ter sido a escolhida para aquele segredo.

Ao contrário do que Kevin esperava, Ackerman não fez nenhuma careta de nojo, nem gritou e muito menos saiu correndo. Suas sobrancelhas finas arquearam e a boca se entreabriu de surpresa, mas era uma reação perfeitamente normal diante da imensidão daquela revelação.

O comentário de Templeton foi o suficiente para obriga-la a fechar a boca e a reassumir uma postura mais séria. Era nítido que estava sendo muito difícil para o rapaz compartilhar aquele segredo e a última coisa que Davina queria era fazê-lo se sentir mal consigo mesma. Ela sabia o que era ser vítima de piadinhas indigestas e não desejava que Kevin passasse pelo mesmo.

- Você não é uma aberração, Kevin.

A naturalidade de suas palavras era sincera. Davina se inclinou para frente e apoiou as duas mãos sobre o banco para enxergar o rapaz mais de perto.

- Olhe ao redor, estamos cercados de pessoas que atravessam paredes, que produzem fogo com as próprias mãos, que escutam há metros de distância. Você pode cortar o braço do meu irmão que vai nascer outro no lugar. Minha mãe consegue ficar debaixo d’água por horas sem respirar. Você se lembra do Derek? Bom, ele quebrou uma mesa da biblioteca uma vez, só porque espirrou.

Davina poderia passar a noite toda enumerando os poderes de cada um dos colegas e tutores. Ela gesticulava exageradamente quando percebeu que começava a ficar sem fôlego, se obrigando a fazer uma pausa.

Com um suspiro, Ackerman tocou a mão de Kevin, sentindo a textura áspera de sua pele, mas nem por isso se afastou. Era compreensível que Templeton modificasse sua aparência e usasse suas conquistas como um muro de proteção, mas Davina estava acostumada demais com as mutações alheias para se assustar com aquele detalhe.

- Megale tem razão, você não precisa se esconder. Você pode se transformar no que você quiser, mas faça isso por você, e não por medo das outras pessoas.

Uma das sobrancelhas finas foi erguida quando Davina quebrou o contato e puxou a barra de chocolate de suas vestes.

- Hey, você não me contou isso achando que eu ficaria com pena e te daria a minha metade do chocolate, não é? Golpe baixo, Templeton. Para o seu azar, eu sou uma chocólatra assumida e jamais abriria mão de um bom chocolate. Inclusive, acho que vou ficar com a sua parte também.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Seg Maio 30, 2016 5:02 am

Chevalier era um mutante fantástico. Sem dúvida, ele havia alcançando um grau de excelência incomparável com seu poder de intangibilidade e tinha muito a oferecer à aluna que, coincidentemente, desenvolvera a mesma habilidade dele.

Quando reuniu-se com seu novo tutor naquela tarde, Hyacinth tentou focar a sua atenção em todas as inquestionáveis qualidades de Chevalier, mas o seu coração não se deixou enganar. O francês não lhe inspirava a mesma confiança que ela sentia por Andrew. Hyacinth sentia que podia falar de qualquer assunto com Ackerman e que ele a ajudaria em tudo, mas não conseguia sentir o mesmo com Chevalier.

Contudo, não existia a menor possibilidade da ruiva voltar atrás na decisão sobre quem seria o seu tutor. Depois do beijo da noite anterior, Hyacinth sabia que nunca mais conseguiria encarar Andrew apenas como um professor. O mais sensato era se afastar dele e limitar o contato às aulas obrigatórias ministradas por Ackerman.

Para piorar ainda mais a sensação de derrota da garota, a dor de cabeça não havia melhorado. Ao contrário do que Andrew dissera, a manifestação do poder mutante não havia exterminado a incômoda dor de cabeça. O novo tutor de Hyacinth pareceu preocupado com aquela queixa, mas Chevalier não tinha muito como ajudá-la. Ele não possuía as mãos milagrosas de Andrew.

Em uma tentativa de distrair a mente, Hyacinth foi para a biblioteca após o jantar. Já que a dor não deixaria que ela dormisse, o mais sensato era aproveitar aquelas horas fazendo algo útil. Como o novo tutor não poderia ajudá-la com a dor de cabeça, Westphal decidiu que tinha que resolver aquele problema sozinha.

Depois de caminhar um pouco pelos corredores e observar as estantes abarrotadas de livros, Hyacinth levou para uma das mesinhas alguns exemplares que poderiam ajudar no seu atual problema. Todos os livros empilhados sobre a mesa eram sobre sintomas ou complicações que poderiam acontecer no início da transformação.

Quando sua leitura foi interrompida pela inesperada chegada de Andrew, a ruiva estava folheando um capítulo intitulado como “As complicações mais temidas da mutação”. O capítulo era dividido em vários tópicos, mas o subtítulo “Dores de cabeça” estava logo na primeira página.

- Não me parece muito ético de sua parte questionar o método de ensino de um colega. Um colega muito mais experiente, eu devo acrescentar...

O comentário áspero de Hyacinth soou em entonação baixa. A garota fechou rapidamente o livro que estava lendo antes da interrupção, mas já era tarde demais. Andrew não precisava ser um gênio para entender que a garota buscava nos livros uma resposta para seus sintomas incomuns. E se ela ainda buscava respostas era porque a estranha dor de cabeça não melhorara.

- Eu não preciso da sua ajuda.

Westphal afastou a mão, interrompendo o contato com a pele de Andrew. Era extremamente difícil se afastar sabendo que o alívio para as suas dores estavam nas pontas dos dedos do rapaz, mas o orgulho não permitia que Hyacinth se rebaixasse tanto depois da humilhação sofrida na noite anterior.

- Não haverá nenhum tipo de mal estar, desde que você se comporte como um professor. Eu já tenho um tutor, então não há a menor necessidade de termos qualquer tipo de interação fora da sala de aula.

Por mais que tentasse soar firme, os olhos da moça refletiam a mesma angústia e inquietude que ela demonstrava sempre que estava atormentada pelas dores de cabeça. Andrew não era mais o tutor dela, mas qualquer professor ficaria preocupado diante de um sintoma tão incomum. A hipótese mais temida era que, apesar de manifestar o poder da mutação, o corpo de Hyacinth ainda estivesse lutando para rejeitar aquela mudança.

- Posso terminar a minha leitura? O senhor está atrapalhando a minha concentração.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Seg Maio 30, 2016 5:27 am

Andrew não esperava que todos os seus problemas fossem se resolver magicamente na primeira aproximação de Hyacinth. As coisas na noite anterior haviam ficado extremamente tensas entre os dois e a ruiva havia deixado clara toda sua insatisfação. Ackerman só não conseguia ainda distinguir se a ira da menina era pelo seu atrevimento ou pelo repentino afastamento.

Embora soubesse que não seria um caminho fácil a ser trilhado, Andrew estava disposto a tentar minimizar o estrago causado. Ele sabia qual era o seu limite e não pretendia cometer os mesmos erros novamente, mas ainda assim, parecia impossível continuar sendo odiado por Westphal.

Ver a delicadeza da menina ser substituída pelas palavras ácidas fez com que Ackerman recuasse por um instante. Ele recolheu a própria mão e cruzou os braços contra o peito enquanto tentava ignorar aquela sensação de rejeição, tentando usar seu lado racional para admitir que Hyacinth estava certa.

Andrew estava disposto a dar as costas e deixar a menina em paz, sem o menor ânimo de mergulhar em uma nova discussão para passar outra noite acordado. Mas o assunto peculiar escolhido para a leitura de Westphal o fez travar.

Ignorando as palavras duras e as alfinetadas, o professor se desgrudou da mesa apenas para se inclinar na direção de Hyacinth. Sua mão foi apoiada sobre o tampo de madeira e a outra segurou o encosto da cadeira que a ruiva ocupava, mantendo-a cercada.

Ele estreitou os olhos, as sobrancelhas escuras quase se tocando, enquanto ele estudava os olhos azuis que já começava a aprender a ler. Já havia se tornado fácil identificar o brilho dos pequenos cristais azuis que formavam suas íris e encontrar aquele pequeno vestígio de dor. Talvez fosse mais alguma evolução de sua mutação, mas Andrew saberia dizer que Hyacinth estava com dor sem precisar tocá-la.

- Não sou eu que estou atrapalhando sua concentração. Você está com dor outra vez.

Não era uma pergunta. Ackerman era sempre muito gentil e prestativo, mas também sabia ser extremamente insistente e sério quando o assunto exigia. Sua nuca formigava com a preocupação do mal-estar da ruiva, que deveria estar diminuindo agora que seu poder se manifestava. Seu corpo não deveria mais estar lutando contra a mutação.

- O livro não vai te ajudar a se sentir melhor, Cinth. Muito menos Chevalier.

A mão apoiada sobre a mesa foi erguida e Andrew ousou tocar o rosto da ruiva. Embora ele soubesse que a origem da dor fosse em sua têmpora, Ackerman manteve seu primeiro contato na curva do rosto da menina, como havia feito na noite anterior, instantes antes do beijo.

- Eu posso fazer a dor desaparecer para que você consiga dormir. Mas você precisa me prometer que irá passar na enfermaria amanhã, no primeiro horário.

Os olhos castanhos passeavam de uma íris azulada a outra. A preocupação sincera no rosto de Andrew ia muito além do que os receios de um professor. E ele soou ainda mais sério quando permitiu que as palavras saltassem de sua boca em um sussurro.

- Isso não é normal, Cinth. Eu sinto muito, mas vamos precisar fazer alguns exames para ter certeza que você não está rejeitando a mutação.

Os dedos de Andrew deslizaram até finalmente tocar a lateral da testa da menina, sentindo as pontas dos dedos formigarem enquanto ele absorvia a enxaqueca.

- Eu sei que você tem uma tonelada de motivos para me odiar, mas pode confiar em mim só mais essa vez? Eu só quero que você fique bem.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Seg Maio 30, 2016 5:33 am

Desde muito pequeno, Templeton estava habituado a receber olhares de crítica ou de terror sempre que mostrava a alguém a sua verdadeira imagem. Até mesmo dentro da família existia uma enorme barreira que dificultava a aceitação do rapaz. Kevin tinha alguns primos mutantes, mas nenhum deles desenvolvera um poder tão incomum ou uma aparência tão fora dos padrões humanos.

As péssimas experiências fizeram com que Kevin prometesse a si mesmo que ninguém nunca mais veria o seu verdadeiro rosto. Aquela promessa foi quebrada quando Dana surgiu em seu caminho e o salvou de uma vida solitária e amargurada, oferecendo uma vaga na escola e prometendo que Kevin aprenderia tudo o que era necessário para ser feliz com a sua mutação.

Templeton novamente teve que quebrar a promessa e mostrar seu rosto para o tutor, mas nada se comparava à dificuldade de se revelar para uma colega. Dana e Megale eram professores, eram mutantes experientes que já tinham visto de tudo. Davina, por outro lado, era só uma menina que ficaria assombrada com a verdade que o rosto bonito de Kevin escondia.

Para a imensa surpresa do rapaz, a reação negativa que ele esperava não aconteceu. É claro que Davina ficou surpresa, mas não havia no olhar ou na expressão dela nenhum sentimento parecido com nojo ou deboche. Enquanto a colega enumerava todas as coisas bizarras que aconteciam naquela mansão, Templeton se pegou sorrindo com aquelas comparações. Ele não achava nada daquilo tão terrível quanto a sua aparência, mas não podia negar que os argumentos de Ackerman eram muito bons.

O sorriso dele se transformou em uma risada mais ampla quando Davina perdeu o fôlego. Era comum que ela tagarelasse até ficar sem ar nos pulmões. Era uma mania que Kevin costumava achar irritante, mas naquela noite pareceu absurdamente adorável a maneira como a colega atropelava as palavras e gesticulava.

- Nem todo mundo enxerga as coisas como você, Davs. Eu vivi um bom tempo lá fora antes da Dana me encontrar. Eu sei que não posso esperar o melhor das pessoas...

Por mais que a reação de Davina fosse um alívio para Templeton, aquela aparência ainda o incomodava demais. O corpo dele foi se modificando enquanto Kevin se sentava ao lado da colega. A mão foi a última parte do corpo dele que abandonou as escamas azuis para adquirir novamente a pele lisa e pálida com a qual ele circulava pela mansão.

- Obrigado.

Não era preciso entrar em detalhes. A expressão de Kevin deixava claro que ele se sentia grato pela maneira como Davina reagira. A garota tinha todos os motivos do mundo para usar aquela verdade contra Kevin, ainda mais depois das ofensas que ouvira na noite anterior. Mas a caçula dos Ackerman não o decepcionara. Templeton não tinha errado na escolha da pessoa que descobriria a verdade sobre a sua aparência.

- É óbvio que eu não vou abrir mão do meu pedaço de chocolate!

Era bizarro mudar tão radicalmente de assunto, mas mais uma vez Kevin se sentiu grato por Davina tratar aquele problema com tanta naturalidade.

- Não precisa me dar metade, mas pelo menos um pedaço. Eu nem toquei naquele fígado nojento. Não vai me deixar dormir com fome, vai?

Sem sombras de dúvidas, Ackerman era uma menina especial. Era o tipo de garota que ele gostaria de ter ao seu lado, e não somente para uma aventura.

Quando se deu conta daquele pensamento, o rosto de Kevin se ruborizou. Ele estava acostumado a colecionar conquistas, mas era a primeira vez que ele se sentia conquistado. E justamente por Davina Ackerman.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Seg Maio 30, 2016 10:04 pm

Mesmo no silêncio profundo do dormitório, Hyacinth ainda escutava as palavras ditas por Andrew naquela noite. Durante boa parte da madrugada, a ruiva se remexeu de um lado para o outro em sua cama, sem conseguir pregar os olhos. A sua vida havia virado de pernas para o ar desde aquela fatídica tarde na Educação Física. Todo aquele novo mundo assustava Hyacinth, mas nada se comparava ao temor que enchia o peito dela agora.

Graças ao toque de Ackerman, a dor de cabeça estava menos intensa, mas nem isso diminuía a preocupação de Westphal. Os livros diziam que este sintoma não era esperado, os olhos de Andrew refletiam uma profunda preocupação e um sexto sentido dava à ruiva ainda mais certeza de que algo estava errado.

Naquele momento, a mágoa que ela sentia pelo comportamento de Andrew tinha pouca importância. Não fazia o menor sentido cobrir-se de orgulho e recusar a ajuda do professor quando era a sua vida que estava em risco. Embora ainda possuísse um conhecimento muito limitado do mundo dos mutantes, Hyacinth intimamente sabia qual era o trágico fim de um corpo que rejeitava uma transformação genética.

Quando os primeiros raios de sol ultrapassaram uma fresta das cortinas e iluminaram o quarto, Westphal deslizou para fora da cama com cuidado para não acordar a colega. Hyacinth confiava em Davina, mas preferia que a amiga não soubesse de sua visita à enfermaria naquela manhã. Davina já tinha seus próprios problemas com a sua transformação e não precisava de uma dose adicional de preocupação em sua vida.

Quando pisou na enfermaria, com a mansão ainda quieta e silenciosa, Hyacinth se surpreendeu ao encontrar o local bastante movimentado. Além de Andrew, Dana e Chevalier também esperavam por ela. O trio de tutores deu a Westphal ainda mais certeza de que a sua situação era preocupante. Nem mesmo o sorriso doce da diretora foi capaz de atenuar a angústia que se apoderou da menina.

- E a cabeça? – Dana foi direto ao ponto, encarando a ruiva com ansiedade – Ainda está doendo?

- Está dolorida. – Hyacinth deu de ombros, embora intimamente soubesse que o assunto não deveria ser tratado de forma tão leviana – Fica dolorida o dia todo e sempre piora à noite.

- Numa escala de zero a dez...? – Chevalier se aproximou da pupila, igualmente preocupado.

- Agora? – Hyacinth ficou um pouco pensativa antes de completar – Três. Talvez quatro.

- E à noite? – Dana não conseguia esconder mais a preocupação.

- Nove. Nove e meio às vezes. – Westphal explicou depois de dar de ombros novamente – O dez eu prefiro guardar para o momento em que cheguei aqui. Eu mal conseguia falar, eu achei que a minha cabeça explodiria.

Numa atitude tipicamente maternal, Dana envolveu a garota com os braços e a acomodou junto ao seu peito. Qualquer perda naquela escola seria terrivelmente dolorosa, mas Dana não queria nem pensar na possibilidade de ter que contar a Bruce Westphal que a sua menina não resistira à mutação. Seria uma grande crueldade obrigar aquele pai a perder sua única filha duas vezes.

- Nós vamos te ajudar. Mas, para isso, precisamos entender o que está acontecendo. Se for mesmo uma rejeição, há diversas maneiras de tentar reverter o problema. Precisamos fazer alguns exames para termos certeza, você compreende, querida?

Hyacinth assentiu, o movimento da cabeça fazendo seus cabelos balançarem. Os fios ruivos estavam presos num rabo alto, o que realçava ainda mais a delicadeza dos traços da garota. A noite mal dormida estava evidente no olhar abatido de Westphal e ela parecia totalmente vulnerável quando se sentou sobre a maca, atendendo ao pedido de Dana.

- Vamos tirar algumas amostras de sangue. – a loira explicou com sua típica suavidade – Depois faremos uma ressonância do corpo inteiro.

- Quais são as minhas chances? – a ruiva sentia um nó na garganta, mas se obrigou a ser direta. Não valia a pena se apegar a esperanças inexistentes.

- Ainda nem sabemos o que está havendo, Cinty. – Dana tentou fugir da resposta.

- Se o meu corpo estiver mesmo rejeitando a mutação. – Hyacinth reformulou a pergunta com uma firmeza que indicava que ela não ficaria satisfeita sem uma resposta – Quais são as minhas chances?

- Se for este o caso, há várias maneiras de tentar contornar o problema. – Dana não negou à menina a resposta que ela queria – Mas é uma situação grave, Cinty. Mesmo com o tratamento, a mortalidade é alta. Na maioria das vezes, as células simplesmente se recusam a aceitar os novos genes. Mas o fato de você ter manifestado o seu poder é um ponto positivo, é um sinal de que o seu corpo está aceitando a mudança. Sejamos otimistas, sim?

O nó na garganta não permitiu que Hyacinth verbalizasse uma resposta, então a ruiva se viu obrigada a apenas menear a cabeça num gesto afirmativo.

Enquanto Chevalier folheava uma pasta com todas as informações sobre Westphal, Dana caminhou até uma sala anexa à enfermaria, onde ficava o aparelho de ressonância que seria usado logo em seguida. Ainda sentada sobre a maca, Hyacinth puxou a manga de seu casaco até acima do cotovelo quando Andrew se posicionou diante dela com algumas seringas e frascos para armazenar suas amostras de sangue.

Só foi necessária uma agulhada para que a seringa drenasse a primeira amostra de sangue e os olhos da garota pareciam hipnotizados enquanto o líquido vermelho vivo enchia o recipiente.

- Eu estou com medo...

O desabafo soou num sussurro engasgado que somente Ackerman ouviu. Quando ergueu o rosto, Hyacinth encarou o professor com uma expressão que mesclava pavor e desamparo. A parte racional de sua mente ainda queria estrangular Andrew depois do comportamento dele na noite da festa, mas nada era mais forte que o irracional medo de estar em seus últimos dias de vida. Mesmo depois de tudo, Andrew ainda lhe inspirava uma confiança que Hyacinth não conseguia sentir por nenhum outro professor.

- Não me deixe morrer, Andrew. Por favor.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Ter Maio 31, 2016 4:56 am

Davina não saberia dizer o que havia levado Templeton a escolher logo ela para compartilhar aquele segredo. Ele jamais colocaria sua fama de conquistador em risco, o que logo descartava qualquer uma das garotas que já havia passado pelos seus braços, mas Kevin ainda era um rapaz rodeado de amigos. Parecia fazer mais sentido que Theodore ou Hugo tivessem sido suas primeiras escolhas.

Embora Ackerman não fosse capaz de compreender o raciocínio do rapaz, intimamente ela sentia o coração dar pulinhos de alegria por ter sido sua opção. Davina e Kevin poderiam não ser melhores amigos e mesmo com as ocasionais brigas, a menina havia se sentido emocionada com a sua história.

Intimamente, Davina tentava culpar o toque de Aphrodite para aquela euforia aparentemente sem sentido. Mas a menina sabia que as memórias implantadas da colega não passavam de imagens ricas em detalhes, completamente livre de qualquer sentimento. Se seu estômago começava a dar cambalhotas diante do sorriso de Templeton, a culpa não poderia ser inteiramente jogada em Willis.

Girando os olhos em uma falsa impaciência, Davina retirou o chocolate do bolso do casaco. A embalagem foi aberta e o doce repartido igualmente antes de ser empurrado para as mãos de Kevin.

- Não precisa choramingar, Templeton. Parece um bebê resmungão. Não me diga que é disso que as meninas por aqui gostam?

Um pedaço de chocolate foi empurrado para dentro da boca de Davina e ela se calou por alguns segundos, enquanto sentia o gosto doce derretendo em sua língua. Os olhos foram fechados por um instante enquanto ela se deliciava com o sabor do chocolate.

- Hmmmm... Pode dizer ao seu irmão que ele também pode me visitar sempre que quiser, hein? – As pálpebras de Davina se ergueram, revelando os olhos castanhos mais uma vez. – Tudo que o panaca do meu irmão sabe me dar são livros.

Era a primeira vez desde que Templeton chegara na mansão que ele e Davina passavam algum tempo sozinhos. Embora já tivessem alguns momentos divertidos além das brigas, estavam sempre em rodinhas de amigos. O assunto nunca rendera tão bem entre os dois naquela noite, e enquanto devoravam suas respectivas porções de chocolate, também trocaram algumas longas gargalhadas com comentários aleatórios sobre os tutores ou algum outro colega.

Quando o chocolate chegou ao fim, encerrando também aquele momento, Ackerman pensava no quanto o Templeton que ela conhecera naquela noite se aproximava das memórias de Aphrodite.

Talvez a loira já conhecesse aquela versão do rapaz, já que havia sido mais um nome na lista dele. Pela primeira vez, Davina se sentiu incomodada com a visão de Kevin e Aphrodite juntos.

***

O despertador precisou tocar por mais de uma vez até que Davina finalmente se rendesse e deixasse o conforto da cama para trás. Para sua surpresa, a cama de Hyacinth já se encontrava perfeitamente arrumada e não havia nenhum sinal da amiga por perto.

Acostumada a ter o quarto todo para si, Ackerman deslizou de um lado ao outro enquanto se preparava para as primeiras aulas do dia. Ela já estava vestida com uma saia rosada e uma camisa azul de botões quando escutou batidas na porta.

Os cabelos cor de mel estavam presos em um coque frouxo que ela ainda não tivera tempo de pentear e Davina estava prendendo o brinco de pérola em uma das orelhas quando abriu a porta para encontrar a figura de Hugo e Kevin no corredor.

- Oi... – A menina tinha a testa franzida com uma nítida surpresa enquanto encarava os rapazes. – Estão precisando de alguma coisa?

Os olhos esverdeados de Hugo deslizaram pelo interior do quarto antes de finalmente se voltar para Davina, com uma pontada de decepção.

- Oi Davs. Eu queria saber se por acaso você teria aquele livro de história mutante para me emprestar...

O olhar insistente de Hugo para o interior do quarto obrigou Davina a olhar por cima do ombro, como se esperasse que mais alguém surgisse no cômodo que segundos antes estava sozinha. Quando ela finalmente compreendeu a intenção do amigo, girou os olhos e cruzou os braços contra a camisa de botões.

- Cinth não está aqui, Hugo.

Os ombros de Hugo se encolheram e por um instante, Davina sentiu pena de sua frustração. Desde a chegada de Hyacinth, ela estava convicta a não deixar a nova colega de quarto cair na lábia sedutora de Templeton. Hugo, em contrapartida, parecia ser um bom pretendente.

- Tente procura-la na hora do almoço. – Ao perceber que o amigo continuava desanimado, Davina acrescentou, sorrindo. – Por que você não aparece no final do dia na sala de mídia? Eu posso convencê-la a assistir um filme depois das aulas.

Como se só então tivesse percebido a presença de Kevin, Davia completou.

- Não foi isso que o seu grande mestre lhe ensinou? Que as amigas servem de escada?
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Ter Maio 31, 2016 5:15 am

Andrew não hesitou em levar para Dana na mesma noite as queixas de Hyacinth. Ele não se importava se a ruiva o odiaria ainda mais, mas além de seu papel como professor, Ackerman sentia uma grande necessidade de cuidar de Westphal.

Durante toda a noite, o rapaz se revirou em sua cama e por mais de uma vez desistiu de dormir, tentando encontrar nos livros alguma resposta que pudesse resolver suas aflições. Embora já tivesse decorado cada capítulo dos melhores livros sobre mutações genéticas, ele folheava as páginas em uma esperança de que novas linhas fossem surgir magicamente.

Quando o dia seguinte amanheceu e Hyacinth surgiu na enfermaria ainda nas primeiras horas, Andrew sentiu uma pontada de alívio. Embora a situação ainda fosse extremamente preocupante, já era gratificante saber que a ruiva havia compreendido a gravidade do que estava enfrentando.

Dana e Chevalier tinham uma longa experiência e Andrew seria capaz de confiar sua própria vida nas mãos dos tutores. Apesar de toda esperança, seu coração continuava espremido diante da realidade de Westphal.

Ackerman já havia lido demais sobre o assunto para simplesmente torcer pelo melhor. Parecia imensamente injusto que Hyacinth estivesse rejeitando a mutação. A ruiva era tão jovem, inteligente e cheia de vida que Andrew se sentia sufocado e ainda mais impotente pelos seus poderes serem tão limitados.

Durante todo o processo da colheita de sangue, Andrew permaneceu sério e calado. Ele poderia tentar se desculpar mais uma vez, mas temia receber novamente o olhar gelado da ruiva.

Seu chão desapareceu sob seus pés quando Hyacinth finalmente lhe dirigiu a palavra. Seu semblante sério se contorceu em surpresa apenas por um segundo antes de Andrew encarar a ruiva com carinho.

Era impressionante como seu coração começava a saltitar diante daqueles olhos azuis. Um instinto protetor exigia que Andrew rodeasse Hyacinth com seus braços e afagasse seus cabelos vermelhos. O gesto poderia ser completamente natural para Dana, mas Andrew sabia que não poderia correr o risco. Qualquer um seria capaz de ler em seu rosto que sua mente começava a enxergar Westphal muito além de mais uma aluna.

- É ótimo que sinta medo, Cinth. – Andrew sussurrou, guardando o tubinho com sangue em um recipiente.

Ele olhou rapidamente na direção de Chevalier, se certificando de que o professor ainda estava entretido no histórico de Hyacinth, antes de sentar na maca ao lado da menina, permitindo que seu ombro tocasse o dela.

Aproveitando o fato de estarem de costas ao tutor mais velho, Andrew puxou a mão de Westphal de encontro a sua, afagando a pele macia com o polegar. Ele podia sentir o perfume gostoso dos cabelos vermelhos e se fechasse os olhos poderia mergulhar na sensação dos lábios dela outra vez.

- Você sabia que eu sinto dor? Eu posso me curar, mas eu ainda sinto dor, como qualquer outra pessoa. É isso que me faz continuar sendo humano, Cinth. E se você sente medo, é sinal que você tem pelo que lutar.

Andrew virou o rosto para encarar o perfil de Hyacinth. Seu estômago deu uma cambalhota inteira e mais uma vez seu instinto lhe pedia para envolve-la em um abraço. Com um gosto amargo na garganta, ele precisou se convencer em apenas encará-la com os profundos olhos castanhos, esperando que seu olhar pudesse passar ao menos uma parte dos seus sentimentos.

- Mas eu não vou deixar você ir a lugar algum. – Ackerman se inclinou alguns centímetros apenas para alcançar o ouvido de Westphal, sussurrando. – Eu vou cuidar de você, ruiva.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Qua Jun 01, 2016 3:32 am

Quando retornou para o dormitório naquela noite, Kevin sentia que algo muito importante havia mudado dentro dele. Ele morreria antes de dizer para Megale que o tutor tinha razão, mas não podia esconder de si mesmo que o peso em seus ombros parecia menos insuportável depois que Davina descobrira a verdade sobre a sua verdadeira aparência.

Contudo, não era só isso. Somado ao alívio de ter dividido aquele segredo com alguém, Kevin sentia algo mais. Era uma inédita sensação agradável e uma absurda vontade de sorrir sem nenhum motivo racional. É claro que o sabor do chocolate havia alegrado bastante a noite de Templeton, mas era tolice achar que o doce era responsável por tamanho bem estar.

Era Davina. Era a lembrança do rosto da colega que repuxava os lábios de Kevin naquele sorriso bobo. Ackerman reagira com tanta naturalidade diante da aparência de Templeton que ele agora se sentia um tolo por todo o medo e insegurança que sentira antes de ir ao encontro dela na quadra.

Mas o sentimento ia muito além da gratidão pelo comportamento dela naquela noite.

Aos olhos de Kevin, Davina sempre fora uma boa colega. Ela era inteligente, divertida e confiável. Sempre que eles passavam algum tempo no mesmo grupo de amigos, Templeton reforçava a sua opinião sobre Davina. Contudo, só naquela noite ele conseguiu enxergar as outras qualidades da menina.

Ackerman não tinha uma beleza estonteante e nem chegava perto de ostentar a vaidade de Aphrodite, mas um garoto tinha que ser muito tolo para não notá-la. Os traços delicados davam a ela um rostinho de menina, os cabelos que emolduravam seu rosto exibiam um incomum tom de mel que Kevin não entendia como nunca havia reparado antes.

Mas não eram somente os atributos físicos de Davina que tinham saltado diante dos olhos de Templeton naquela noite. A colega havia despertado no peito dele um calor que Templeton até então desconhecia. Não era a mesma atração que Kevin costumava sentir pelas garotas com quem se relacionava. Definitivamente, aquele sentimento não significava simplesmente que o rapaz queria acrescentar o nome de Davina em sua extensa lista de conquistas.

A ideia de que finalmente podia estar se apaixonando fez com que Kevin tivesse uma noite agitada. Ele estava bastante acostumado a causar aquele efeito nas garotas, mas a verdade é que não sabia muito bem como agir estando do outro lado da situação. Certamente todas as garotas que Kevin já magoara se sentiriam vingadas se soubessem da noite mal dormida e da insegurança que o rapaz sentia quando se levantou na manhã seguinte.

- Eu vou com você...

Kevin saltou da cadeira quando ouviu Hugo comentar alguma coisa sobre Hyacinth. O amigo lhe lançou um olhar confuso e preocupado, o que obrigou Templeton a explicar.

- Não quero nada com a ruiva, eu já disse que o caminho está livre para você. Eu só quero... – não foi exatamente fácil improvisar uma desculpa naquele momento - ...só quero te ajudar. Alguém vai precisar tirar a Davs de cena pra você agir, certo?

Era muito difícil explicar que ele só queria ver Davina. Os dois tinham se despedido há poucas horas na quadra, mas o coração de Kevin já saltitava com a expectativa de rever a colega. Sem dúvida, ele nunca sentira isso por ninguém. Nem mesmo as garotas mais cobiçadas eram capazes de deixar Templeton tão ansioso.

E todo o esforço foi recompensado quando Ackerman abriu a porta. Era óbvio que a garota ainda não havia acabado de se arrumar, mas nem isso apagou o brilho dela. Mesmo com os cabelos presos naquele coque frouxo e com o semblante ainda algo sonolento, a imagem de Davina teve o poder de acelerar os batimentos cardíacos do colega.

- Só uma pequena correção, Davs. Neste caso, especificamente, nós dois somos os degraus. Leve a ruiva e eu me encarrego de arrastar o Hugo pra sala no fim da tarde. E é claro que nós dois nunca vamos deixar que eles se esqueçam disso, não é? Será uma dívida eterna.

- Eu assumo qualquer dívida pra ter uma chance com a Cinty. – o sorriso de Hugo se alargou – Fale bem de mim pra ela, Davs. Eu vou saber se você não fizer isso!
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Qua Jun 01, 2016 4:28 am

Hyacinth Westphal não sabia como seria a vida com seus novos poderes. Tudo ainda era muito recente e muito confuso. As novidades brotavam de forma desafiadora, era aterrorizante pensar no quanto a sua pacata vida de estudante havia mudado. Era como se Hyacinth tivesse se transformado em outra pessoa. E no fim das contas era exatamente este o raciocínio de uma mutação. Hyacinth deixaria de ser a simples garota humana que fora até o fatídico dia na aula de Educação Física.

Mesmo com tantas incertezas, um desejo se sobressaía. Westphal não tinha a menor dúvida de que queria sobreviver para enfrentar aquele novo mundo que se abria diante dos seus olhos. A presença dela na enfermaria reforçava a determinação da garota. Mesmo que suas chances fossem pequenas diante de uma provável rejeição, Hyacinth estava disposta a lutar.

Nenhuma objeção escapou dos lábios da ruiva naquela manhã. Andrew tirou todas as amostras de sangue que precisava para a bateria de exames que viriam a seguir. Hyacinth respondeu pacientemente todas as perguntas feitas por Chevalier para que a sua ficha contivesse o maior número de informações possível. Por fim, Dana a levou para fazer uma ressonância de corpo inteiro, na esperança de rastrear qualquer sinal que pudesse explicar os sintomas da ruiva.

Com todo aquele material em mãos, os tutores certamente chegariam a alguma resposta nos dias seguintes. A espera era muito angustiante para Hyacinth, mas a garota não tinha nenhuma alternativa.

A preocupação a deixou distraída nas aulas daquele dia e Westphal não estava prestando muita atenção quando concordou em ver um filme com Davina no fim da tarde. Por mais que gostasse da colega de quarto, a ruiva preferiu deixar Ackerman afastada dos seus problemas. Não parecia nada justo acrescentar mais uma preocupação na cabeça da colega.

Apesar da falta de interesse, Hyacinth pretendia comparecer à sala de multimídia no fim da tarde. Talvez alguns minutos com os amigos distraíssem a sua cabeça ao ponto de fazê-la se esquecer do risco que pairava sobre a sua cabeça.

Como havia se atrasado um pouco para concluir a sua tarefa na última aula do dia, Hyacinth insistiu para que Davina fosse sozinha para a sala de mídia. A ruiva prometeu que a alcançaria em quinze minutos e que chegaria a tempo de acompanhar o início do filme escolhido pelos colegas.

A promessa de Westphal teria sido cumprida se não fosse por um acidente tolo. Ao sair apressada da sala de aula, Hyacinth tropeçou numa das dobras do tapete e se estatelou no chão de pedra do corredor. Seus livros escaparam de suas mãos e se espalharam pelo chão ao mesmo tempo em que a ruiva sentia os joelhos arderem.

A saia não era comprida o bastante para proteger seus joelhos e, portanto, quando se sentou no chão para conferir o estrago, Hyacinth fez uma careta ao ver a pele completamente ralada, avermelhada e dolorida. Um filete de sangue já escorria pela perna direita, denotando que talvez seria necessário fazer um curativo na região.

- Que ótimo. – o comentário irônico saiu resmungado – Mais uma visita à enfermaria?

Enquanto se levantava e recolhia os livros espalhados pelo chão, Hyacinth sentiu uma conhecida sensação de formigamento. Num breve surto, ela abaixou os olhos como se esperasse ver as mãos de Andrew em seus joelhos, mas obviamente não havia nada. A pele ralada estava se cicatrizando sozinha e aquilo era tão inacreditável que, mesmo depois que seus dois joelhos estavam lisos novamente, Westphal ainda não conseguia se mover.

Quando finalmente saiu daquele estado de choque, Hyacinth não teve a menor dúvida do que deveria fazer. A ruiva sequer se lembrava da promessa de ver um filme com os amigos quando deu meia volta e retornou para o corredor onde ficavam as salas de aula.

O coração dela batia na garganta quando Hyacinth empurrou a porta entreaberta e encontrou Andrew ainda na sala de Genética, organizando os seus materiais. O mais sensato seria falar sobre aquilo com Chevalier, mas naquele momento de tensão e adrenalina a ruiva nem se lembrava do francês. Ackerman era o dono de toda a sua confiança.

- Andrew... – a garota parecia extremamente agitada quando fechou a porta, ficando sozinha com o professor na sala – Aconteceu mais uma coisa estranha comigo. Você precisa saber, eu acho que isso não é normal!

O coração acelerado e o medo triplicado não ajudavam muito, parecia impossível explicar o ocorrido de maneira calma e racional. Por isso, Hyacinth decidiu transformar as explicações em uma demonstração.

- Eu vou te mostrar.

Sem perder tempo com ponderações ou explicações, Hyacinth se aproximou da mesa do professor. Nem mesmo os reflexos rápidos de Andrew evitariam que a ruiva fizesse uma grande loucura. Diante dos olhos dele, a menina puxou o estilete que Andrew usava para apontar o lápis vermelho com o qual corrigia as provas e apoiou a lâmina afiada na pele pálida de seu antebraço.

Um gemido de dor escapou dos lábios de Hyacinth enquanto o corte abria a sua pele fina. O sangue vivo escorreu e pingou no chão da sala, mas antes que Andrew pudesse surtar o milagre aconteceu. Em dois segundos, o corte estava cicatrizado e o antebraço da menina parecia intocado. Nem mesmo uma marquinha havia ficado no local onde Hyacinth fizera o extenso corte.

- Você viu isso??? – os olhos azuis brilhavam num misto de pavor e animação – Eu tenho dois poderes diferentes? Isso pode acontecer?
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qua Jun 01, 2016 4:31 am

Para o desespero de Davina, as lembranças implantadas por Aphrodite não davam sinal de começar a desaparecer. Se ela fechasse os olhos, ainda poderia ver com perfeição o sorriso de Kevin em uma distância curta demais do que seria apropriado para meros colegas. Ackerman poderia jurar que sentia o perfume dele enquanto visualizava Templeton colocando uma mecha de seus cabelos atrás da orelha.

Para piorar, havia a memória real da noite anterior, desconstruindo cada vez mais a figura superficial e irritante do conquistador que andava pelos corredores adicionando nomes à sua “lista”. Por mais que quisesse culpar Willis, Davina estava cada vez mais consciente que seu coração estava acelerando sempre que Kevin cruzava seu caminho nos corredores.

Era assustador imaginar que logo ela, que acreditava ser imune aos galanteios de Templeton, que já havia presenciado seus estragos por vezes demais, estivesse começando a se derreter pelo colega.

Quando Ackerman entrou na sala de mídia no início daquela noite, ela havia prometido a si mesma que não permitiria que Aphrodite continuasse brincando com os seus pensamentos. Era perfeitamente normal que ela se sentisse mais amigável com Kevin, depois de ter ouvido seu segredo, mas nada justificava que ela começasse a desejar que aquelas memórias falsas fossem verdadeiras.

Diferente da noite da festa, a sala de mídia estava praticamente vazia. Embora os alunos não tivessem permissão para ter televisão nos quartos, não era tão comum que o lugar ficasse cheio durante a semana. Os tutores sempre passavam uma quantidade absurda de trabalhos e tarefas e os poucos que conseguiam terminar suas obrigações cedo, preferiam se enfiar na sala de jogos, do outro lado do corredor.

A iluminação do local estava baixa, mas ainda era possível notar sua decoração cara e de bom gosto. A O televisor era grande o suficiente para ocupar quase toda a parede e as caixas de som estavam espalhadas por todo o cômodo, permitindo uma perfeita acústica.

Exatamente em frente a tela, um enorme sofá roxo se destacava, grande o suficiente para que as pernas pudessem ser esticadas, quase se transformando em uma cama. Nas laterais haviam sofás menores, mas que ainda acomodavam perfeitamente duas pessoas sentadas. Além do tapete extremamente macio, almofadas coloridas e de diversos tamanhos estavam espalhadas pelo cômodo, algumas grandes o suficiente para se transformarem em mais assentos.

Ao lado de um dos sofás, um baú reto e de madeira guardava um pequeno estoque de mantas que os alunos costumavam usar em noites mais frias.

Dois alunos já estavam deitados no tapete e um outro largado em um dos sofás menor enquanto assistiam ao final do telejornal. Davina havia acabado de entrar na sala de mídia trazendo consigo um generoso balde de pipocas quando Hugo surgiu diante dos seus olhos.

- Então...? Cadê a Cinty?

As sobrancelhas cor de mel arquearam em um segundo de surpresa. Ackerman havia trançado os fios claros, deixando-os cair por um dos ombros e a escolha da calça de moletom rosa e da regata branca mostravam mais uma diferença da menina quando comparada aos nomes da lista de Templeton.

Antes de responder, Davina ainda jogou duas pipocas em sua boca e girou os olhos com uma falsa impaciência.

- Ela já está vindo, Hugo... Disse que só ia demorar um pouco, mas que poderíamos começar o filme sem ela.

Os olhos esverdeados de Hugo passaram por cima do ombro de Ackerman, em direção da porta, como se Westphal fosse surgir a qualquer instante.

- Dá pra relaxar? Se você se mostrar tão ansioso assim, vai quebrar todo o charme.

O comentário pareceu piorar o estado de Hugo, obrigando Davina a respirar fundo. Ela esticou um braço até tocar o amigo no ombro, precisando se inclinar para cima graças a diferença de altura.

- Você tem um grande diferencial de qualquer outro cara nessa escola, Hugo. Você tem uma grande qualidade que qualquer mulher admira. – Quando Davina se certificou que tinha toda a atenção do rapaz, ela continuou, com um sorrisinho debochado – Você nos escuta. Qualquer mulher adora um cara que escuta a gente.

O resultado foi instantâneo. Logo o rosto de Hugo se contorceu e a ansiedade deu lugar ao mau humor, arrancando uma risada de Ackerman.

- Qual é, Davs. Isso não é brincadeira.

- Hugo, é sério. Daqui a pouco a Cinty tá aí. Tente relaxar, está bem?

Davina deu um tapinha no ombro do amigo enquanto passava por ele a caminho do sofá, carregando a pipoca em um dos braços. Enquanto se acomodava no sofá principal, se recostando confortavelmente, ela se permitiu finalmente olhar na direção de Kevin, tentando ignorar o rubor em suas bochechas.

- Que decepção, Templeton. Achei que você tivesse ensinado melhor que isso. Por que não diz ao Hugo como um cara realmente tem que se comportar em uma situação como essas?

O comentário de Davina poderia soar como uma provocação aleatória e completamente inocente, mas intimamente, era a forma de Ackerman lembrar a si mesma o tipo de homem que Kevin realmente era.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Qua Jun 01, 2016 11:38 pm

Embora gostasse de cada canto daquela mansão, a sala de mídia era um dos lugares preferidos de Kevin Templeton. Megale era um excelente tutor, mas não tinha como hábito encher os seus pupilos de deveres e trabalhos exaustivos. Portanto, não era raro que Kevin tivesse tempo livre para gastar algumas horas com lazer. Praticamente todas as séries que o rapaz gostava estavam em dia e com bastante frequência ele arrastava os amigos ou alguma garota para um filme.

Um dia após a festa clandestina, a sala estava praticamente vazia. Kevin se jogou sobre uma das enormes almofadas espalhadas sobre o tapete e parecia tranquilo enquanto esperava pelas garotas. Ao contrário dele, Hugo não conseguia esconder a ansiedade.

- Relaxa, Hugo.

- Impossível. Não tenho a sua vasta experiência no assunto, não sei o que fazer, não faço ideia de como ela vai reagir!

Pela primeira vez na vida, Templeton se sentiu desconfortável com a própria fama. Até um dia atrás, Kevin sentia um profundo orgulho de seu comportamento e do impacto que causava nas garotas, mas até isso havia mudado. O seu passado pouco louvável e a sua fama de conquistador e cafajeste agora se transformaram num obstáculo. Davina era o tipo de menina que jamais daria uma chance a um cara como ele.

Antes que Templeton tivesse a chance de retrucar, Davina surgiu na sala com um balde de pipocas. Ao contrário da maior parte das garotas que anteriormente chamavam a atenção de Kevin, Ackerman não era vaidosa e nem fazia questão de estar sempre impecavelmente arrumada. Contudo, nem mesmo as roupas confortáveis e os cabelos trançados foram capazes de fazer com que Kevin perdesse o interesse.

A piada sobre a audição de Hugo arrancou uma risada gostosa de Templeton. Hugo estava ansioso demais para enxergar a graça naquela brincadeira, mas Kevin tentou fazê-lo relaxar quando jogou uma das almofadas menores nas costas do amigo.

- Você não vai conseguir nada se continuar surtado assim. Eu sei que você quer muito ver a Cinty. Como um bom amigo, eu poderia até me transformar nela por alguns minutos, mas acho melhor não. Definitivamente eu não estou disposto a me submeter às coisas que você quer fazer com a ruiva.

- Babaca.

Com um semblante contrariado e de braços cruzados, Hugo acomodou-se num dos assentos que lhe dava uma visão privilegiada da porta. Dessa forma, ele seria o primeiro a avistar Hyacinth quando a colega entrasse na sala de mídia.

Embora estivesse bastante confortável na almofada, Templeton não resistiu à tentação de deslizar para o sofá principal e ocupar o lugar ao lado de Davina. Kevin sabia perfeitamente que a amiga não cederia a nenhuma cantada barata, mas ele não estava disposto a desistir sem tentar. A experiência de Templeton com um relacionamento “normal” era nula, então ao lado de Davina ele sentia a mesma insegurança que Hugo demonstrava por Hyacinth.

- Ela vem mesmo, não vem? – Kevin sussurrou somente para Davina – É sério, o Hugo vai surtar se a ruiva não aparecer, ele falou dela o dia todo!

Mesmo sem uma oferta oficial, Templeton mergulhou uma das mãos no balde da amiga e roubou algumas de suas pipocas. Antes que Davina pudesse pensar em reclamar, Kevin se inclinou na direção dela para sussurrar com os lábios quase roçando na orelha da menina.

- Não acredito que vai negar umas pipoquinhas para o cara que te deu meia barra de chocolate!

Não havia nenhum tipo de segundas intenções naquele movimento de Kevin, mas coincidentemente o rapaz repetiu várias das cenas que Aphrodite havia instalado na cabeça de Davina. A forma como Templeton se aproximou da colega era exatamente igual às lembranças falsas do rapaz se curvando para beijar os lábios de Davina.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Qui Jun 02, 2016 3:18 am

A sala de aula já estava completamente vazia quando Andrew deixou sua mesa para apagar as anotações feitas no quadro branco. Os olhos castanhos encaravam os rabiscos feitos pelo piloto preto, sem realmente enxergar o que ele mesmo havia traçado.

Durante toda a manhã, sua mente estivera longe do assunto abordado na aula, vagando entre as preocupações dos resultados esperados de cada um dos exames aplicados em Hyacinth. Sem exceção, todos os tutores se mostravam ansiosos com o que poderiam estar enfrentando, mas nenhum deles se sentia tão angustiado quanto Ackerman.

Vindo de uma família inteira de mutantes, a ideia de um corpo recusar a evolução de suas células parecia longínqua demais, tão teórica que parecia ser impossível sair do papel. Andrew estava acostumado a ver pessoas fazerem coisas extraordinárias com a descoberta dos seus poderes e jamais imaginou que aquilo poderia ser uma maldição.

Junto com aquela nova realidade, o rapaz também estava se acostumando a ideia de se preocupar com alguém além dele mesmo. O primogênito dos Ackerman era gentil, extremamente inteligente e delicado, mas estava mais acostumado que as pessoas se preocupassem com ele, do que o contrário.

A irmã caçula poderia ter dezenas de problemas, mas Andrew sempre acreditou que Davina seria capaz de resolver todos eles. O atraso em sua evolução não o preocupava, porque ele tinha certeza que chegaria o dia em que a irmã teria perfeito controle de seus poderes.

Não ter a mesma convicção do destino feliz para Hyacinth era surpreendentemente assustador. Era inaceitável que a ruiva pudesse ter um destino diferente do que tantos outros adolescentes que viviam sob aquele teto.

Concentrado em suas negações, o coração de Ackerman deu um salto quando a voz de Westphal preencheu a sala. Sua primeira reação foi se voltar para a ruiva, o peito espremido com a certeza de que receberia mais notícias ruins.

Quando Hyacinth levou a lâmina do estilete até sua pele pálida, Andrew deu um salto, os olhos arregalados e sentindo o coração na boca.

- CINTY!!!

O braço de Andrew chegou a ser esticado na direção do ferimento da ruiva, em uma tentativa tola de impedi-la. Sua voz morreu quando o corte desapareceu e a pele de Hyacinth se mostrou tão lisa e perfeita quanto antes.

O rosto pálido de Ackerman se contorceu da surpresa para a confusão. Como se não acreditasse nos próprios olhos, ele puxou um lenço de papel que ficava sobre a mesa e limpou o vestígio de sangue que havia ficado.

Com as pontas dos dedos, Andrew tocou o lugar onde deveria ter o corte. Melhor do que ninguém, o tutor sabia exatamente como aquele poder funcionava, mas não parecia fazer sentido que Cinth demonstrasse aquela habilidade quando ela já era capaz de atravessar portas.

Era perfeitamente normal que quando uma pessoa se esforçasse ao extremo, conseguisse expandir sua habilidade de alguma forma. Ele próprio era capaz apenas de se curar e levou anos para conseguir transmitir a cura para outras pessoas. Mas não fazia sentido que Hyacinth desenvolvesse habilidades tão distintas.

- Eu nunca vi ninguém com dois poderes antes... – Andrew ainda segurava o braço da ruiva, as sobrancelhas escuras franzidas. – Nem mesmo em livros, Cinty. Isso não existe.

Os olhos castanhos se ergueram lentamente até encontrar as íris azuis. Durante alguns segundos, Andrew permaneceu em silêncio, tentando encaixar as peças daquele quebra-cabeça. As manifestações de poderes distintos e todo o mal estar que Westphal vinha apresentando não pareciam se encaixar.

Ackerman demorou um tempo longo demais até que seus lábios finalmente tremessem em um sorriso fraco.

- A não ser que...

Seu rosto confuso logo foi assumindo um mesclo de admiração e incredulidade. Andrew ergueu uma das mãos até tocar o queixo de Hyacinth, obrigando a menina a manter o contato visual.

- Você se lembra de mais alguma coisa que tenha acontecido? Qualquer coisa que você consideraria anormal?

Se sentindo mais relaxado com a teoria que se formava em sua cabeça, Andrew se recostou na mesa e apoiou as mãos na cintura de Hyacinth, mantendo-a próxima ao seu corpo. Não parecia mais haver vestígios de mágoa da ruiva com o ocorrido da outra noite e Ackerman se sentia a vontade o bastante para mantê-la junto a si.

- Você não tem dois poderes, Cinth. Eu acho que você tem um único e incrível poder. – Andrew encolheu os ombros, sorrindo com mais convicção. – Dana vai querer aplicar mais testes em você, mas eu tenho a ligeira impressão que você funciona como... bem, como uma esponja. Talvez você esteja absorvendo os poderes das pessoas que estão ao seu redor, ruiva.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qui Jun 02, 2016 3:37 am

Quando Kevin perguntou por Hyacinth, os olhos castanhos de Davina varreram a sala de mídia, na esperança de encontrar os cabelos ruivos da colega de quarto. A ansiedade de Hugo era preocupante e o rapaz ficaria de fato devastado caso Westphal não fosse aparecer.

- Ela disse que já estava a caminho.

Um arrepio percorreu o corpo de Davina ao sentir a voz de Templeton sussurrada ao seu ouvido. Era uma imensa sorte que a luz do ambiente estivesse tão fraca, porque ela tinha certeza que qualquer um seria capaz de enxergar a vermelhidão em seu rosto.

Davina havia acabado de levar uma pipoca à boca e os dedos ainda tocavam os lábios quando, de olhos arregalados, ela encarou o sorriso de Kevin perto demais. Graças as lembranças falsas de Aphrodite, Ackerman poderia jurar que aconteceria um beijo no segundo seguinte e seu estômago se contorceu em ansiedade.

Parecia tolice que logo ela, que tinha certeza ser imune a Templeton, estivesse encarando os lábios dele de forma tão hipnotizada.

Se obrigando a agir normalmente, Ackerman girou os olhos com uma falsa impaciência.

- Você vai jogar esse chocolate na minha cara o resto da vida, não é? Francamente, Kevin... Você deveria me agradecer. Se você comeu metade do chocolate, é porque dividiu apenas com uma amiga. Se fosse dividir com todas as suas namoradinhas, provavelmente ficaria chupando dedo.

O balde de pipoca foi esticado na direção de Kevin e Davina curvou os lábios em um sorriso.

- Não precisa implorar. Eu divido com você.

Quando o filme finalmente começou, Hugo ainda estava inquieto em seu lugar, os dedos tamborilando o braço da poltrona e sua atenção mais voltada para a porta de entrada do que para a televisão. Em questão de minutos, Davina já estava completamente entretida na história do filme e apenas desviou o olhar da tela quando Hugo levantou, dando-se por vencido e se retirando para os dormitórios soltando xingamentos baixinhos.

Por alguns minutos, Davina chegou a se sentir mal pelo colega e fez uma nota mental de que passaria os próximos dias listando suas qualidades para Hyacinth, na esperança de que a ruiva pudesse lhe dar uma chance.

Davina não soube dizer exatamente quanto tempo depois da saída de Hugo ou em que ponto do filme estava quando ela acabou permitindo que as pálpebras pesadas vencessem e caiu no sono, recostada no ombro de Kevin.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Qui Jun 02, 2016 4:03 am

Os olhos azuis se arregalaram e a surpresa foi tão grande que Hyacinth deu um passo para trás, rompendo o contato com o professor. As mãos da garota foram erguidas e ela olhou as pontas dos dedos como se esperasse ver alguma coisa diferente da pele macia de sempre. Tudo continuava como sempre, o que tornava ainda mais difícil a tarefa de acreditar na hipótese levantada por Andrew.

- Isso é possível? Quer dizer, este poder já foi documentado, existe mais alguém que possa fazer isso?

Westphal conhecia muito pouco sobre aquele novo mundo, mas aquela novidade parecia surreal demais até para os padrões dos mutantes. A ruiva não viu relato de nada parecido nos livros que folheou, tampouco nas conversas que teve com os colegas e professores.

- Como funcionaria isso? Eu estou “roubando” os poderes das outras pessoas? Eu consigo usá-los de forma permanente ou só temporariamente? Como isso explica as dores de cabeça? Eu realmente estou rejeitando a mutação?

A forma como Hyacinth soterrou o rapaz de perguntas só deixava clara a aflição que a garota sentia. Para ela já era bastante difícil compreender toda a dimensão daquele novo mundo. Saber que ela tinha um poder atípico só fazia com que Westphal se sentisse ainda mais perdida e deslocada.

E o ponto mais delicado daquela situação era que, apesar de toda a confiança depositada em Andrew, o professor não poderia ajudá-la desta vez. O poder de Hyacinth ainda era apenas uma suposição e não parecia haver nenhum outro mutante com tal habilidade. Portanto, nenhuma das perguntas feita por Westphal tinha uma resposta bem definida. Antes de qualquer coisa, eles precisavam provar que a hipótese de Ackerman estava certa.

- E se for mesmo verdade? Vão me expulsar da escola, não vão?

O olhar que Hyacinth dirigiu a Andrew foi ainda mais aflito diante daquela possibilidade, mas para a ruiva era um raciocínio que fazia muito sentido.

- Ninguém vai me querer por perto se eu estiver sugando os poderes das outras pessoas, Andrew! Isso consegue ser pior que o poder da Aphrodite!

Hyacinth não estava pensando quando deu um passo na direção de Andrew e pousou as mãos nos braços dele. Os dedos dela estavam gelados, mas desta vez a dor de cabeça não podia ser culpada. Era a mais pura ansiedade que fazia o coração de Westphal se acelerar e suas mãos suarem frio.

- O que eu vou fazer lá fora? Eu ainda não estou pronta para enfrentar o mundo! Eu acho que... oh, meu Deus!!!

A ruiva saltou para trás quando finalmente se deu conta de que estava tocando em Ackerman. Hyacinth se afastou vários passos e repetiu o gesto de se rodear com os braços, como se estivesse enlaçando a si mesma.

- Eu não deveria ficar tão perto de você, nem de ninguém. Se isso for mesmo verdade, eu nunca mais vou poder tocar em nenhum mutante. – a insegurança se refletiu na forma como Hyacinth sussurrou as palavras seguintes – Temos mesmo que contar para a Dana, Andrew? E se ela me afastar da escola?
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Re: Escola de mutantes

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