Escola de mutantes

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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Qui Jun 16, 2016 10:15 pm

Embora fosse um convite totalmente inesperado, Hyacinth aceitou prontamente a proposta de se encontrar com Davina naquela noite. Quando saiu do Canadá, a ruiva planejava para si uma vida mais dinâmica e menos solitária, mas agora se via tão sozinha quanto antes. Dana era uma excelente companhia e vinha se esforçando bastante para animar Westphal, mas havia entre elas um certo distanciamento que não deixava que aquela relação fosse de fato uma amizade. Tudo o que Cinth mais desejava era recuperar as pessoas que faziam parte da sua vida há dez anos, e Davina certamente estava bem no topo desta lista.

Como havia voltado há pouco tempo, Hyacinth continuava hospedada na mansão. Não era algo definitivo, mas a ruiva precisava de mais alguns dias até decidir para que lado guiaria a própria vida. Nos últimos anos, ela não fizera nada além de se esconder para viver da maneira mais discreta possível. Agora a liberdade abria os horizontes para Westphal e ofertava tantas possibilidades que era difícil escolher a melhor das opções.

Um carro levaria cerca de duas horas para cumprir o trajeto da escola até o centro de Seattle, o que tornaria aquela visita impossível para qualquer pessoa “normal”. Hyacinth, por outro lado, não demorou mais que meia hora para se arrumar e para chegar diante do prédio de luxo onde os Ackerman viviam. Depois de anos de treinamento, a ruiva agora sabia usar com bastante habilidade o poder de teletransporte absorvido de Rachel.

Westphal conferiu mais uma vez o endereço que Davina lhe mandara por mensagem antes de entrar pelo saguão. Um porteiro uniformizado estava sentado atrás do balcão e dividia a sua atenção entre duas telas. Em uma delas, havia um mosaico com as imagens de todas as câmeras de segurança do prédio. A outra tela era uma pequena televisão comum, que naquela noite passava o noticiário.

- Boa noite...? – Cinth se anunciou e abriu um sorriso gentil quando o homem voltou a atenção para ela – É aqui que mora Davina Ackerman? Ela está ciente da minha visita. Hyacinth Westphal.

- Ah, sim! A Srta. Ackerman me avisou que a senhorita chegaria. – o porteiro concordou com um movimento de cabeça antes de apontar na direção do elevador – Pode subir. Cobertura.

Depois de um agradecimento, Hyacinth seguiu na direção indicada pelo porteiro cada vez mais certa de que havia sido uma boa ideia aceitar aquele convite. Ela precisava de algumas horas mais leves e as companhias de Davina e Hardin seriam muito bem vindas naquela noite. O único cuidado que Cinth precisava ter era se programar para ir embora antes que Andrew aparecesse para buscar o menino.

Enquanto o elevador subia os muitos andares do prédio, Hyacinth deixou que a imaginação florescesse e se questionou por que Davina estava no papel de babá do sobrinho naquela noite. Seria alguma ocasião especial para os pais do menino? Talvez Andrew e a esposa estivessem jantando para comemorar um aniversário de casamento, ou uma promoção no trabalho, talvez tivessem feito uma pequena viagem e decidiram ir sem Hardin para reviver os melhores momentos da lua-de-mel. Todas aquelas ideias torturavam a mente de Cinth, mas ela não conseguia colocar freios na imaginação. Embora soubesse que não tinha o direito de se sentir enciumada, era difícil não ser invadida pela infelicidade ao imaginar o quanto Andy estava realizado.

Quando se colocou diante da porta do apartamento, Westphal respirou fundo e tentou enxergar somente os benefícios daquela situação. Ela estava ali para passar algumas horas com Davina e reconstruir uma velha amizade do passado. Foi com este pensamento fixo na cabeça que Hyacinth ergueu o braço e bateu três vezes na porta.

O largo sorriso que a ruiva exibia nos lábios se quebrou quando, ao invés de Davina, foi a imagem de Andrew que surgiu quando a porta foi aberta. Hyacinth não conseguiu disfarçar a surpresa, o que deixou bem claro que ela não estava ali para rever o ex-namorado. Os olhos azuis foram de Andrew até o número na porta do apartamento numa tola tentativa de conferir se ela havia mesmo chegado ao lugar certo.

- Oi... – a voz de Cinth falhou antes que ela recuperasse por completo o fôlego – A Dav me ligou agora há pouco e me passou este endereço. Combinamos de nos encontrar aqui.

O silêncio no interior do apartamento de luxo só era quebrado pelo ruído da televisão ligada num volume baixo. Não havia qualquer sinal de Davina. Hyacinth até cogitou a hipótese de Andrew ter acabado de chegar para buscar o filho, mas as roupas confortáveis de Ackerman não reforçavam aquela possibilidade.

Quando começou a entender o que estava havendo ali, o desejo de Cinth foi desaparecer. Mas qualquer planejamento de fuga teve que ser cancelado quando um par de mãozinhas empurrou levemente as pernas do pai e a cabecinha de Hardin surgiu na porta. Os olhos dele se arregalaram de surpresa antes que um amplo sorriso iluminasse o seu rostinho.

Antes que qualquer um dos dois adultos pudesse reagir, Hardin ultrapassou os limites da porta e rodeou as pernas de Hyacinth com um abraço. O garotinho costumava ser tímido e jamais se sentiu tão à vontade com qualquer outro desconhecido, mas havia se encantado com a ruiva desde o primeiro contato com ela.

- Oi!

- Oi, Hardin.

Apesar do constrangimento, Cinth conseguiu lançar um sorriso sincero para o garotinho. Sem cerimônias, ela se agachou para encarar o menino mais de perto e finalmente saciou o desejo de deslizar os dedos nos cabelos úmidos dele. Não fazia mais sentido evitar o toque quando Hardin acabara de agarrar as pernas dela.

- Você veio visitar a gente?

- Na verdade eu só passei para falar um “oi”. E também para trazer uma coisinha para você, espero que seu pai não se importe.

A sacola de papel nas mãos de Westphal indicava que ela não planejava uma visita rápida quando apareceu no apartamento de Davina. A etiqueta mandava o visitante aparecer com uma garrafa de vinho, mas Hyacinth achou que Hardin merecia ser incluído naquele agrado, então havia passado numa confeitaria e escolhera uma torta de tirar o fôlego. A base era de chocolate trufado, toda a lateral era rodeada por barrinhas de chocolate e a parte superior fora coberta por M&M’s coloridos.

Hardin soltou uma sonora exclamação quando a ruiva deixou que ele espiasse a sacola. Com os olhinhos arregalados de surpresa, ele olhou de Hyacinth para o pai.

- Eu vou jantar tudo hoje! – o garotinho se referia ao acordo de que só teria direito à sobremesa quando comesse até as verduras e legumes do prato – Eu juro, papai!
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Qui Jun 16, 2016 10:56 pm

Provavelmente mais ninguém compreendia as reais intenções de Theodore com aquelas perguntas invasivas, mas Kevin já o conhecia bem demais para se deixar enganar. Para Templeton, era muito clara a tentativa do melhor amigo em fazê-lo enxergar que Davina era uma opção muito melhor que Caroline.

Theo não tinha nenhuma grande queixa contra a atual noiva de Kevin. Os dois se davam bem, Carol tratava os amigos do noivo com simpatia e era uma jovem bonita, educada e bem sucedida. Mas, desde que soubera que Templeton ainda pensava em Davina, tudo o que Theodore via ao encarar Winter era uma escolha inadequada. Estava claro para ele que os olhos de Kevin não brilhavam pela futura esposa e que o amigo jamais seria plenamente feliz ao lado dela.

O olhar sério que Kevin lançou a Theo por cima do ombro não deixava dúvidas de que o rapaz estava entendendo o jogo dele e não aprovava aquele comportamento. Por mais que ainda gostasse de Davina, Templeton não pretendia se deixar levar por aquele sentimento. A aliança em seu dedo era a prova de um compromisso sério que Kevin não pretendia quebrar. Sua época de adolescente conquistador ficara no passado e agora, como um homem adulto e responsável, Kevin pretendia honrar o pacto que fizera com Caroline. Não era justo que Carol experimentasse novamente o mesmo tipo de sofrimento que ele causara a ela na adolescência.

Antes que o marido continuasse a bombardear Davina com aquelas perguntas indiscretas, Ursula tomou a palavra e desviou o foco para Caroline. Era uma pergunta absurdamente normal para uma mulher prestes a se casar, mas a resposta de Winter não foi exatamente a mais esperada.

- E quanto a você, Carol? Vai encomendar um bebê logo depois do casamento ou vocês planejam alongar um pouco mais a lua-de-mel?

- Nem pensar! Filhos definitivamente não são a minha prioridade e não fazem parte dos meus planos!

A resposta não era exatamente absurda. Ninguém poderia julgar Caroline por não querer ter filhos, este era um direito e uma escolha dela. O que causou estranhamento aos amigos foi a maneira como Kevin encarou a futura esposa. O olhar surpreso dele deixava bem claro que Templeton não sabia e nem compartilhava aquela decisão.

- Não...? – Kevin ergueu as sobrancelhas para a loira.

Ursula se arrependeu imediatamente de ter voltado a conversa para Winter quando sentiu o clima ficar mais pesado. Hugo e Theodore trocaram um olhar sério e o dono da casa chegou a virar por completo o corpo e deu as costas para a churrasqueira, não querendo perder nenhum momento daquela conversa delicada.

- Não. – Carol ergueu um dos ombros – Eu também achei que você não fizesse muita questão.

A verdade é que Templeton não sabia até que ponto desejava ter filhos. Aquele nunca tinha sido um plano de vida, mas o seu atual trabalho voltado para crianças tinha aflorado alguns instintos que Kevin nem sabia que possuía. Embora não desejasse loucamente um bebê, Templeton se sentia profundamente incomodado em se unir a uma mulher que já havia descartado aquela ideia do seu futuro. Era como ser obrigado a desistir de um sonho antes mesmo de tê-lo.

Ao notar a insatisfação do noivo, Caroline se viu obrigada a consertar aquela situação. O problema era que as explicações e ponderações dela só serviam para deixar Templeton ainda mais descontente.

- Se você fizer mesmo muuuuuita questão, podemos adotar um bebê daqui a alguns anos. Ou então procuramos uma clínica de fertilização, uma barriga de aluguel... Hoje em dia temos tantas opções, não é?

- Você não pode ter filhos? – Kevin realmente não entendia o que estava se passando na cabeça de Caroline.

- Poder, eu posso. – os olhos verdes giraram – Mas eu não gastei todas as minhas economias em lipoaspiração para perder todo o dinheiro numa gravidez, né? Eu não sou como você, amor. Quem me dera conseguir corrigir todas as minhas imperfeições magicamente!

Winter espetou seu palitinho numa azeitona antes de completar.

- Combinemos o seguinte. Se você quiser mesmo ter um filho, a gente planeja esta gravidez para daqui a uns dez anos. Até lá eu já vou estar um pouco mais caidinha mesmo, então engravido e depois já programo novas cirurgias para consertar todo o estrago.

Templeton simplesmente não conseguiu reagir diante daquelas palavras. Era inacreditável que a maior preocupação de Caroline com o assunto “filhos” fosse o próprio corpo. Carol havia se tornado uma moça vaidosa, mas era sempre tão gentil e simpática que Kevin nunca imaginaria que aquele defeito fosse se tornar um problema.

Da churrasqueira, Theodore observava a cena com os braços cruzados e aquele típico olhar que dispensava a expressão “eu te avisei”. Ele, melhor do que ninguém, sabia que não havia razão para Kevin abrir mão do sonho de ser pai.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Sex Jun 17, 2016 3:33 am

A prova de que Andrew Ackerman não esperava receber visitas naquela noite estava em seus pés descalços, na calça preta de moletom e a camisa cinza de algodão que ele vestia. Assim como o pequeno Hardin, seus cabelos estavam molhados, o que diminuía o volume dos seus cachos e barba ainda brilhava pelo banho recém-tomado. O cheiro de sabonete impregnava o ar de uma forma acolhedora.

Ainda era cedo e Andy era novo o suficiente para estar saindo de casa em direção a alguma festa, mas ele não trocava a companhia do filho e o conforto de sua sala de estar por nenhuma baladação e parecia ser perfeitamente natural que os dois já estivessem com roupas tão confortáveis.

Como não era tão comum que os Ackerman recebessem visitas, o primeiro pensamento de Andrew é que Davina tivesse voltado rápido demais e esquecido a chave. Por ter certeza que encontraria a irmã do outro lado da porta, Andrew sentiu seu sangue gelar ao reconhecer o par de olhos azuis que assombrava seus sonhos por anos.

A mão de Andy permaneceu segurando a maçaneta e ele foi incapaz de se mexer enquanto encarava Hyacinth como se estivesse diante de uma assombração. Quando a voz dela soou, tão viva e real, a testa de Andy franziu e ele estreitou os olhos, tentando compreender o que estava acontecendo.

A breve menção de Davina fez com que seu rosto se contorcesse em uma estranheza ainda maior. Seu raciocínio lento tentava entender como a irmã havia combinado de se encontrar com Hyacinth se ela já tinha um compromisso para aquela noite. Quando Andy finalmente entendeu que a caçula havia feito aquilo propositalmente, seus lábios se espremeram em uma fina linha e, em sua mente, ele enumerava diversos xingamentos que direcionaria à Davina mais tarde.

A chegada de Hardin foi um alívio, permitindo que Westphal se concentrasse no menininho enquanto ele tentava recuperar a capacidade de falar. Seu corpo chegou a vacilar quando os bracinhos miúdos do filho se esticaram para abraçar a ruiva e um medo irracional se espalhou pelo seu corpo.

O pequeno Ackerman ainda não havia demonstrado os sinais de sua mutação, e a antiga Hyacinth que ele conhecia seria incapaz de fazer mal a uma criança. Mas tempo demais havia se passado e, por um segundo, Andy enxergou a mesma ruiva que o desafiava, tocando em outras pessoas propositalmente para absorver seus poderes.

Quando seu raciocínio finalmente se organizou e ele admitiu para si mesmo que Hyacinth jamais machucaria uma criança, seus ombros relaxaram e só então ele percebeu o quanto seu coração estava acelerado desde a chegada da ex-namorada.

- Acho que isso merece até uma porção extra do seu espinafre, hm? – Andy lançou ao filho um sorriso carinhoso enquanto seus dedos brincavam com os fios lisos e despenteados do menino.

Sem pestanejar, o menino confirmou com um movimento exagerado da cabeça, arrancando uma risada ainda mais sincera de Andrew. Quando seu olhar subiu até encontrar novamente as íris azuladas, seu rosto ficou mais sério, embora estivesse muito mais suave do que o primeiro encontro na mansão.

As intenções de Davina estavam muito claras e, em um desejo de contrariar a irmã, Andrew quase desejou que Hyacinth desse meia volta e fosse embora. Porém, ver a ruiva a sua frente, tão perto novamente, o tentava a prolongar mais aquele momento.

- Davina não está...

Andrew pensou em dizer que a irmã havia saído para jantar com os antigos amigos, mas assim que ficasse óbvio que aquela era uma armação, Hyacinth certamente iria embora.

- Não sei se vai demorar, mas você pode entrar. Você não pode simplesmente aparecer aqui com uma torta dessas e nem comer um pedaço.

- Eu posso comer dois pedaços? – Os olhos de Hardin brilharam por um instante e Andrew pareceu pensar naquele pedido.

- Vai deixar eu colocar mais beterrabas no seu prato?

O nariz de Hardin se contorceu e, mesmo com sua grande vontade de comer torta, ele já conseguia entender que estava sendo manipulado.

- Tá bem, papai. – Quando o rostinho se voltou novamente para Hyacinth, estava novamente iluminado em um sorriso.

Hardin ergueu seus dedinhos até tocar a mão de Hyacinth, a puxando para o interior do apartamento.

Enquanto ficava para trás, fechando a porta, Andrew observou a cena por um segundo, espantado com o comportamento tão relaxado de Hardin com Westphal. Mesmo diante de uma torta de chocolate tão tentadora, o menino não costumava se render a outros adultos com tanta facilidade. Talvez fosse algum problema em seu DNA que havia sido herdado pelo filho, essa facilidade a se render ao movimento dos fios vermelhos.

Hyacinth estava em seu apartamento em poucos minutos e Andrew já era capaz de sentir o perfume floral impregnado em suas roupas, o inundando em nostalgia.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sex Jun 17, 2016 4:16 am

Davina quase cuspiu a bebida no copo e tentou disfarçar que havia acabado de engasgar dando uma leve tossida, mas os olhos arregalados acabaram denunciando sua surpresa com as palavras de Carol.

A antiga colega de quarto que ela conhecia poderia ser um pouco carente, mas era doce e carinhosa. Não era só a aparência daquela nova mulher que não era compatível com a memória de Caroline Winter. Sua antiga amiga jamais seria capaz de fazer um comentário tão fútil e vazio quanto aquele.

Torcendo para que ninguém tivesse reparado em seu espanto, Davina secou os lábios com as costas da mão e desviou o olhar, como se o simples fato de observar aquela discussão do casal já fosse extremamente invasivo.

O clima tenso que pairou sobre a mesa provocou um grande desconforto em Davina e, para ter a desculpa de não participar daquele assunto, ela enfiou algumas torradinhas em sua boca, mastigando ruidosamente. Sua bochecha chegava a estar ligeiramente estufada quando ela se virou para Ursula.

- Essas torradinhas com alho estão uma delícia, Sue.

Ela ergueu o polegar no ar, em aprovação, e o sorriso que a dona da casa lhe lançou era um mudo agradecimento por estar encerrando o delicado assunto “bebê”.

- Se depender do Hugo, é só isso que vamos ter esta noite. – Theo estreitou o olhar na direção do amigo.

Em resposta, Hugo apenas revirou os olhos e espetou os hambúrgueres, colocando-os em uma travessa antes de leva-la até a mesa.

- Pare de reclamar, esfomeado! Tá sempre com fome!

Um pequeno ruído se formou à mesa enquanto Davina se divertia assistindo Hugo, Theo e Kevin implicarem uns com os outros. Por um instante, Ackerman chegou a acreditar que havia voltado no tempo e estava novamente no refeitório com os velhos amigos e nada havia mudado. A diferença era que agora era Carol que estava ao lado de Kevin, e não ela.

Enquanto servia o próprio prato, Davina ergueu o olhar quando um celular se acendeu sobre a mesa e começou a vibrar. A mão de Carol agilmente cobriu a tela e o puxou para perto de si, se levantando em um pulo.

- Eu já volto. Não deixe a gordura respingar na minha salada, amor.

Antes de se afastar, Carol ainda depositou um selinho nos lábios de Kevin, fazendo o estômago de Davina se contorcer em protesto. O sorriso doce que ela lançou ao noivo já havia apagado a imagem da mulher fútil de instantes antes e seus cabelos claros balançavam enquanto ela sumia pela porta da cozinha.

- Então, Kev... Como anda o estudo da planta? – Davina alisou as próprias pernas, sentindo a pele exposta dos joelhos. – Acha que na segunda-feira já conseguimos colocar o plano em prática?

- Só pra lembrar vocês dois... – Hugo ergueu as mãos dramaticamente enquanto largava a churrasqueira e assumia seu lugar na mesa. – Não é porque a gente tá fora daquela escola que a Dana não continua assustadora. É bom vocês fazerem tudo certinho, porque eu não tô afim de ouvir bronca do mausoléu depois de barbudo.

- Ela não é tão ruim. – Davina pareceu pensativa e ergueu os ombros. – O tutor do Kev era o Mega, não tem mais nada de assustador do que a voz dele.

Theo balançou a cabeça em discordância enquanto também se sentava, acomodando a filha em seu colo.

- Eu tenho pesadelos até hoje com a Dana confiscando meus chocolates.

Hugo se esticou para pegar a cesta de pães, concordando com um menear da cabeça.

- Até hoje, se eu passo pelo corredor de doces no mercado, consigo ver o rosto da Dana me repreendendo. Se vocês dois falharem na missão, tenho certeza como ela vai invadir a casa de vocês e revirar o armário todinho.

O queixo de Davina caiu de forma exagerada e ela se debruçou sobre a mesa, sussurrando como quem compartilha um segredo.

- É melhor você não me decepcionar, Templeton. Eu tenho uma coleção sinistra de bombons de cereja que nem o Hardin é capaz de farejar. Tô contando com você.

Com um sorriso nos lábios, Davina se endireitou ao se sentir novamente entrosada com os amigos. Seu receio de que as coisas fossem acabar ficando estranhas já havia desaparecido por completo e ela se sentia novamente em casa, apenas lamentando pelos anos longe dos três amigos.

- Amor, acabou o pão. – Theo ergueu a cesta vazia, lançando um olhar irritado na direção de Hugo, que já estava na metade do seu sanduíche.

Quando Ursula fez menção de se mover, apoiando as mãos nas costas para dar suporte a grande barriga, Davina imediatamente se colocou de pé.

- Pode deixar, eu pego.

A dona da casa lançou um sorriso de agradecimento enquanto se acomodava novamente.

- Está sobre o balcão da cozinha. Obrigada, Davs.

Antes de se afastar por completo, Davina ainda ouviu a voz abafada de Hugo, provavelmente atrapalhada pela metade do pão em sua boca.

- DAVS, TRÁS OUTRA CERVEJA?

Ackerman se limitou a girar os olhos, mas se permitiu sorrir enquanto atravessava o portal para a cozinha. Seu olhar imediatamente encontrou o saco de pães sobre a bancada e ela já estava novamente girando sobre os calcanhares para voltar ao quintal, quando a voz de Carol chegou aos seus ouvidos. Por um instante, Davina pensou que a mulher se dirigia a ela, até compreender que Winter ainda estava no telefone, andando de um lado ao outro da sala.

- É claro que eu estou com ele... Não, não seja ridículo... – Carol deu um suspiro cansado, amansando a voz em seguida. – Por favor, Noah. É só um jantar... E o que você queria que eu fizesse?

Davina não sabia exatamente o que a mantinha presa ali, escutando a conversa sem sentido de Carol. Ela provavelmente estava falando com alguém a respeito de trabalho, mas talvez Andy estivesse certo todas as vezes em que lhe chamara de invasiva.

- Eu não sei... Vou tentar, prometo. – Carol fez uma pequena pausa antes de continuar, a voz ainda mais mole. – Sim, você sabe que estou com saudades.... Não, hoje não posso. Amanhã, está bem? Amanhã estaremos juntos.

Oi? Saudades? Talvez não fosse sobre trabalho, afinal de contas. Talvez Carol estivesse falando com um irmão ou alguém da família. Rapidamente, Davina tentou recuperar em sua mente o que ela sabia sobre os Winter, mas a única certeza que tinha era que Caroline era filha única.

Sacudindo a cabeça para afastar qualquer teoria da conspiração, Davina se apressou em voltar aos jardins, convencendo a si mesma que não havia ouvido nada de errado. Aliás, se tinha algo que não estava certo naquela história, era ficar ouvindo atrás da porta a conversa de outras pessoas.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Sex Jun 17, 2016 4:24 am

A última coisa que Hyacinth planejara para aquela noite era passar algumas horas na companhia de Andrew, mas foi impossível recusar o convite para entrar quando Hardin praticamente a arrastou para dentro do apartamento. A naturalidade com que o garotinho andava pela casa deixava claro que ele morava ali e não era apenas um hóspede no apartamento da tia. Consequentemente, era fácil concluir que aquele também era o lar de Andrew.

A julgar pelas roupas confortáveis do ex-namorado, ele não pretendia sair naquela noite. Davina não estava em casa e o irmão não parecia ter ideia de quando ela retornaria. Embora não tivesse tanta certeza, Cinth começava a enxergar que aquele encontro tinha sido manipulado pela Ackerman caçula.

As razões de Davina ainda eram nebulosas para Westphal. Parecia uma crueldade muito grande forjar um convite amigável para jogá-la numa armadilha. O maior medo de Hycinth era que a mãe de Hardin surgisse na sala e tornasse a sua visita ainda mais constrangedora, mas a ruiva abandonou aquele receio quando observou o ambiente com mais atenção.

O apartamento luxuoso estava impecavelmente decorado, mas um bom observador notaria a ausência de típicos toques femininos nos detalhes dos cômodos. As paredes tinham cores neutras, os quadros abstratos eram um tanto formais demais e os móveis, embora modernos, não estavam dispostos de forma muito prática. Havia muitas fotos de Hardin, algumas dele com o pai, outras do menino com Davina. A ausência de qualquer imagem da mãe fez com que, pela primeira vez, Cinth cogitasse a hipótese de não haver uma mulher na vida de Andrew.

Tal possibilidade fez com que o coração da ruiva saltasse dentro do peito, mas Hyacinth se obrigou a enxergar a situação com mais racionalidade. Mesmo que Andy fosse viúvo, pai solteiro ou divorciado, isso não significava que ela tinha uma chance de retornar para a vida dele. Depois de tudo o que acontecera, ninguém tiraria de Andrew o direito de não perdoá-la ou de não querer trazer um problema daquela dimensão para a sua vida e para a vida de Hardin.

- É a minha casa. – o garotinho comentou de forma orgulhosa enquanto Cinth observava a ampla sala de estar.

- É uma casa muito bonita. É enorme, hm!?

Como a temperatura no interior do apartamento estava bem mais amena, Hyacinth retirou o sobretudo preto que a protegera do vento do outono naquela noite. Por baixo do casaco, a ruiva usava um vestido azul escuro de mangas compridas. O tecido aveludado alcançava o meio de suas coxas, mas uma meia calça preta e botas de cano alto a protegiam do vento.

O sobretudo foi entregue para Andrew e Hyacinth murmurou um agradecimento enquanto o dono da casa pendurava o casaco num suporte próximo à porta. O tecido já estava impregnado com o perfume suave da ruiva assim como os cabelos que Cinth tentou ajeitar com os dedos. Os cachos pareciam ainda mais volumosos depois da ventania que ela enfrentara antes de entrar no prédio.

- Eu não vou demorar. – as palavras foram dirigidas a Andrew – A Dav não me disse que ia sair, senão eu teria deixado a visita para outro dia.

Davina não havia dito que sairia, tampouco mencionara que Andy morava no seu apartamento e estaria em casa naquela noite. Como duvidava muito que a amiga fosse aparecer ali nas próximas horas, Hyacinth não pensava em alongar demais a visita. O problema, contudo, atendia pelo nome de Hardin. O garotinho não parecia nada disposto a aliviar o constrangimento dos adultos.

- Quer conhecer o meu quarto?

Mais uma vez, o menino tocou a mão de Westphal e a puxou na direção de um dos corredores. Hyacinth só teve tempo de deixar a torta em cima da mesa da sala antes de seguir os passos de Hardin até o quartinho do garoto. Sem dúvida, era o cômodo mais leve da casa. As paredes pintadas de azul deixavam o ambiente mais alegre, os móveis infantis estavam bem posicionados e tornavam o quarto mais amplo, abrindo um enorme espaço onde fora colocado um tapete onde o menino brincava. As prateleiras estavam abarrotadas de brinquedos e ficou claro para Cinth que Hardin tinha uma grande predileção por super-heróis.

- Uau! – a ruiva parou diante de uma prateleira lotada de bonecos – Quantos heróis! Qual o seu preferido?

Sem nem mesmo precisar pensar, o dedinho de Hardin apontou na direção do primeiro boneco da fileira.

- Batman. – Hyacinth sorriu e moveu a cabeça positivamente – É uma boa escolha.

- Mas também gosto do Wolverine. – Hardin completou com um nítido orgulho – Porque ele é como o papai.

A ruiva precisou de dois segundos para entender que Hardin se referia à habilidade de regeneração de Andrew. Um sorriso iluminou seus lábios quando ela compreendeu o raciocínio e sua mão deslizou na cabeça do menino numa carícia.

- Um Wolverine sem as garras. Ainda assim, bastante útil.

- E você??? – Hardin finalmente se atentou para aquele detalhe – O que você sabe fazer, Cinty?

O sorriso de Westphal vacilou por um breve momento. Sua visão periférica logo percebeu que Andrew acompanhava aquela conversa da porta do quarto e é claro que o pai não iria gostar que Hardin tivesse acesso à delicada informação sobre o verdadeiro poder de Hyacinth. Por isso, ela se limitou a mostrar ao garotinho a habilidade que mais praticava. Como se quisesse honrar a memória de Samantha, Cinth praticara o dom do magnetismo até beirar a perfeição.

Com um leve movimento dos dedos, Hyacinth fez com que a miniatura do homem de ferro voasse até a sua mão. O queixo de Hardin caiu e os olhos do menino brilhavam quando ele entendeu o poder demonstrado pela ruiva.

- Legal!
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Sex Jun 17, 2016 4:55 am

O desconforto de Kevin era enorme, mas a discussão sobre filhos não foi levada adiante. É claro que aquela conversa seria novamente abordada, mas ele pretendia fazer isso longe de uma plateia. Era um assunto íntimo demais para que ele e Caroline tratassem diante dos amigos.

Embora insatisfeito, Templeton não teve dificuldades para se distrair. Era sempre maravilhoso estar com os amigos. Quando os três se uniam, era como se o tempo nunca tivesse passado e eles ainda fossem os mesmos adolescentes que se conheceram na mansão. A presença de Davina só tornava o encontro ainda mais memorável e, embora preferisse estar ao lado dela, Kevin não podia se queixar em tê-la apenas como amiga. Ackerman era uma pessoa especial demais para que ele desejasse tê-la fora de sua vida.

Kevin não pareceu interessado ou incomodado quando o celular da noiva tocou. Ao contrário, ele reagiu com naturalidade e manteve a conversa com os amigos enquanto Carol se afastava para atender a chamada. Como a loira trabalhava numa revista de moda, não era incomum que os editores ligassem em horários impróprios para tirar dúvidas sobre as próximas publicações.

Quando Carol retornou à mesa, Kevin e Hugo brindavam com uma latinha de cerveja. A loira girou os olhos de forma divertida antes de comentar com Ursula e Davina.

- Já percebi que vai sobrar pra mim a tarefa de voltar dirigindo hoje.

Winter parecia absurdamente tranquila, como se não tivesse feito nada demais. Contudo, antes que Davina pudesse abandonar suas suspeitas, a loira daria um forte motivo para que Ackerman continuasse desconfiada.

- Quem era no telefone? – a pergunta de Templeton soou baixinha, mas Davina estava sentada bem diante do casal – Algum problema?

- Mamãe. – a mentira soou com imensa naturalidade – Ela queria que eu passasse em casa hoje. Expliquei que hoje era impossível, mas não consegui fugir de amanhã. Vou depois do trabalho e é provável que eu durma por lá, não gosto de pegar a estrada tão tarde.

Em nenhum momento Kevin desconfiou das palavras da noiva. Os Winter moravam em uma cidade menor nas proximidades de Seattle. Templeton até preferia que Carol não se arriscasse na estrada à noite, então nunca reclamava quando a loira decidia dormir na casa dos pais.

O que ele não imaginava era que Caroline não visitava os Winter há vários meses e os usava apenas como desculpa para se encontrar com Noah, um dos editores da revista onde ela trabalhava. Noah era casado, então Carol não tinha a menor pretensão de que ele a assumisse. Para ela, a solução perfeita era se casar com Kevin e continuar naquela aventura com o colega.

O peso na consciência de Caroline simplesmente se evaporava quando ela se lembrava do antigo comportamento do noivo. Intimamente ela se sentia vingada em pensar que agora havia virado a mesa e que era ela quem colecionava conquistas e traições.

- Segunda-feira é um bom dia. – Kevin se voltou para Davina, retornando ao assunto anterior – Eu já dei uma boa olhada na planta e olhei também a previsão do tempo. Chuva fraca em alguns momentos do dia...

O velho sorrisinho surgiu nos lábios de Templeton e ele ergueu uma das sobrancelhas para a ex-namorada.

- Não será difícil para você transformar esses chuviscos numa grande tempestade. Vai dar tudo certo e vou querer uns bombons de cereja como recompensa por executar a minha parte do plano com perfeição.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Sab Jun 18, 2016 3:22 am

Ter Hyacinth debaixo do seu próprio teto e perambulando pelos seus corredores, sendo guiada por Hardin, parecia ser fruto de um sonho muito estranho e ao mesmo tempo muito real. Andrew permitia que seus pés acompanhassem os dois, mantendo uma distância segura de onde pudesse observar a cena sem se intrometer.

Era uma grande surpresa ver o filho tão receptivo à presença de Westphal. A ruiva era uma completa desconhecida aos seus olhos, e mesmo assim, Hardin já a enxergava com carinho e confiança o bastante para mostra-la o seu quarto.

Embora estivesse surpreso com o filho, o olhar de Andy se via grudado em Hyacinth, como se ele fosse incapaz de olhar para qualquer outro lugar, sempre atraído para o reflexo dos fios vermelhos.

Um discreto sorriso apareceu nos lábios de Ackerman quando ele escutou a comparação de sua mutação com a de Wolverine, mas foi a demonstração do poder de Samantha que fez suas sobrancelhas se arquearem, como se ele estivesse presenciando aquilo pela primeira vez.

Enquanto os olhos de Hardin brilhavam, Andrew estudava Hyacinth com atenção, tentando desvendar que tipo de mulher ela havia se tornado. Ele tinha a lembrança da doce ruiva que havia entrado na escola, completamente perdida, e então da menina magoada que queria a todo custo lhe desafiar, e por fim, da que decidira ir embora e lhe deixar para trás.

A Hyacinth que estava na sua frente o fazia se lembrar da mesma menina cheia de dores de cabeça que havia surgido na mansão, anos antes, mas era inegável que algo havia mudado em sua postura. Talvez o desenvolvimento de suas mutações tivessem lhe deixado mais segura, como havia acontecido com Davina.

- Um dia eu quero ter o poder igual ao seu! – Os olhos de Hardin brilhavam enquanto ele segurava a miniatura do homem de ferro, sorrindo tão espontaneamente que fazia surgir covinhas em suas bochechas.

Um pequeno arrepio subiu a espinha de Andrew ao imaginar o filho com o mesmo poder de absorção que Hyacinth. Ao contrário de sua mãe, Cinth não parecia mais querer se esconder, mas a recepção que havia tido na mansão mostrava que nem todos ainda estavam preparados para enfrentar algo tão grandioso.

- Achei que você quisesse ter o poder da sua tia, Hardie...

Os lábios do menino se curvaram em um biquinho e ele se virou para encarar o pai, com um olhar de quem havia acabado de ser pego em flagrante.

- Não conta pra ela, pai.

O sorriso de Andrew se tornou mais largo e ele se limitou a menear a cabeça em concordância, tranquilizando o filho. Quando Hardin se distraiu com os próprios brinquedos espalhados sobre a cama, Andrew se permitiu aproximar, parando ao lado de Westphal.

- Não é porque a Davina não está aqui, que você precise ir embora. O Hardin claramente gosta da sua presença. Você pode ficar para jantar e... – As palavras da irmã ecoaram mais uma vez na mente de Andrew, o fazendo soltar um suspiro antes de completar. - ...Nós podemos conversar depois que o Hardin for pra cama. Se você quiser, é claro.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Sab Jun 18, 2016 4:00 am

A cada minuto ficava mais fácil concluir que não havia uma Sra. Ackerman naquela casa. Embora a curiosidade fosse grande, Hyacinth guardou para si os questionamentos sobre a mãe de Hardin. Era difícil ter certeza se Andrew era um homem viúvo, divorciado ou se nunca havia se casado com a mãe do garotinho, mas fosse qual fosse a história não era nada sábio levantar aquele assunto com a criança por perto.

O convite de Andrew deixou ainda mais claro que ele não teria nenhum problema se passasse algum tempo na companhia da ex-namorada. Apesar de não ser uma situação extremamente confortável, Westphal concluiu que seria ainda mais indelicado se esquivar da proposta. Era óbvio que a ruiva aparecera no apartamento pensando em ficar por algum tempo. Se ela simplesmente fosse embora agora, o clima pesado com Andrew se perpetuaria.

- Está certo. Com a condição de que eu ajude com o jantar. O que planejaram para hoje?

Antes que o pai pudesse responder, a vozinha de Hardin soou sem nenhum ânimo. Embora fosse uma criança dócil e obediente, o paladar dele não era tão refinado quanto Andrew gostaria.

- Frango com legumes.

- Mas que voz derrotada é essa? – um amplo sorriso divertido iluminava o rosto de Hyacinth quando ela se voltou para o menino – Frango com legumes é uma excelente opção!

Os lábios de Hardin se curvaram numa careta que deixava bem claro que, desta vez, ele não concordaria com Westphal. O menino adorava quando Andrew tinha algum compromisso e era Davina quem ficava de babá. A tia compartilhava da sua opinião sobre os cardápios montados por Andrew e, na maioria das vezes, a noite terminava em pizza.

- Que tal uma aposta? Se eu conseguir deixar o seu jantar bonito e gostoso, você vai comer tudinho sem fazer esta careta!

O indicador de Hyacinth deslizou sobre o rostinho de Hardin, desfazendo o biquinho insatisfeito do menino. Depois de um breve risinho com aquela carícia, Hardin concordou com um vigoroso movimento de cabeça.

- Vamos ver se eu consigo salvar o seu jantar, Andy. – a ruiva comentou com bom humor quando voltou para junto do ex-namorado – Vou precisar que me apresente à cozinha.

Tal como o restante do apartamento, a cozinha dos Ackerman era enorme, moderna e impecavelmente equipada. Os olhos azuis de Westphal deslizaram cuidadosamente pelo cômodo antes que ela seguisse até o forno. O cheiro gostoso mostrava que o frango já estava assado e, usando uma luva térmica que encontrou sobre a pia, Cinth tirou a travessa do forno. As panelas sobre o fogão continham arroz fresco e alguns legumes cozidos. O cardápio parecia ótimo, mas Hyacinth entendia perfeitamente a falta de empolgação de Hardin. Não havia nada ali que atraísse a atenção de uma criança pequena.

- Eu também dei trabalho para comer, mas meu pai tinha muitos artifícios para me enganar. Espero que o Hardin seja tão influenciável pela aparência como eu era. Vou precisar de uma xícara...

Andrew só entendeu o que Hyacinth planejava quando entregou a ela uma xícara e viu a ruiva preenchendo-a com arroz até a metade. Cinth usou uma colher para pressionar os grãos e, quando virou a xícara num prato, conseguiu fazer com que o arroz formasse um perfeito montinho. Com uma imensa paciência, a moça desfiou o frango e espalhou os pedaços ao redor do arroz, formando uma espécie de cabelo espetado. Duas passas se transformaram nos olhos do boneco, Cinth usou um pedaço de cenoura como nariz e um arco de tomate como uma boca sorridente. A gravata feita com espinafre ficou perfeita e finalizou aquela obra de arte.

- Pronto. – Hyacinth dirigiu um olhar divertido ao dono da casa – Já podemos chamar o Hardin ou também vai querer que eu prepare um desse pra você?
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sab Jun 18, 2016 4:13 am

O olhar de Davina acompanhou cada um dos movimentos de Carol pelo restante da noite, como se tentasse descobrir sua mentira por trás de cada sorriso, cada gesto ou comentário aleatório. Seu estômago se revirava, provocando um enjoo e a impedindo de terminar o jantar enquanto sua mente tentava arrumar todas as desculpas possível para justificar o óbvio.

Aquela não era a mesma Caroline Winter que Davina havia conhecido, que sonhava com o dia que Kevin finalmente fosse lhe dar o devido valor. Carol finalmente tinha ao seu lado o seu antigo amor de infância e, como agradecimento, estava traindo e mentindo.

Foi impossível controlar uma vozinha em sua mente lhe garantindo que ela jamais faria isso se estivesse no lugar da antiga colega de quarto, mas com um tom mais amargo, a mesma voz completou que Kevin havia escolhido Carol, e não a ela.

Por mais que estivesse se esforçando, o resto do jantar foi um completo desastre para Ackerman. Ela não conseguia mais se concentrar e perdia as piadas frequentes dos amigos enquanto uma raiva crescia em seu peito. Não importava se Templeton havia errado tantas vezes no passado e muito menos que não fosse ela a sua escolhida. Kevin obviamente havia mudado e não merecia ser tratado daquela forma.

Quando o jantar finalmente chegou ao fim, Davina abraçou cada um dos amigos para se despedir, prolongando o contato por tempo demais quando abraçou Hugo. Ela tinha um sorriso nos lábios para disfarçar as palavras mais sérias que apenas ele seria capaz de escutar.

- Eu sei que você também ouviu aquela conversa. – Davina sentiu os músculos de Hugo ficando mais tensos sob seu abraço, mas não pausou para deixa-lo processar, não havia tempo com todos ao redor. – Mas não faz nenhuma besteira, tá? Eu vou tentar falar com a Carol, sei que ela vai me ouvir, mesmo depois de tanto tempo. Ele também é meu amigo, Hugo.

O abraço finalmente chegou ao fim e, para seu alívio, Hugo também mantinha o sorriso nos lábios para manter o disfarce. Ele simplesmente meneou a cabeça em uma concordância muda antes de enfiar as mãos nos bolsos e se afastar.

***

Exatamente como Kevin havia previsto, a segunda-feira havia amanhecido nublada e com um pouco de chuvisco, o que tornaria ainda mais fácil a breve tempestade que cairia sobre Seattle naquela tarde.

A temperatura baixa obrigara Davina a vestir um par de botas de cano curto, calça jeans e uma jaqueta marrom por cima da blusa branca, junto com um fino cachecol que caía sobre seu colo. Os cabelos cor de mel estavam soltos e brilhavam enquanto caíam em largas ondas sobre seus ombros. Seus lábios brilhavam com o batom vermelho e estavam curvados em um sorriso enquanto ela observava o movimento da rua.

Sentada no banco do carona do carro de Kevin, Davina se sentia agradecida pelo aquecedor ligado e pela radio baixinha que tocava uma música conhecida, minimizando o silêncio constrangedor que havia se instalado.

Os dois haviam se encontrado em um pequeno café antes de partir para frente do prédio onde Kevin deveria entrar e aguardavam há alguns minutos pelo rosto que Templeton deveria assumir.

Os dedos de Davina batucavam a própria perna inquietamente enquanto ela aguardava pelo momento de ação. Assim que o homem surgisse na calçada, se encaminhando para o restaurante da esquina, Kevin entraria no prédio e Ackerman precisaria se encarregar de que o homem não voltasse ao trabalho até que Templeton estivesse devidamente protegido novamente no carro.

Parecia ser uma tarefa simples, mas só de pensar que, por causa dela, Kevin pudesse ser pego em flagrante, um arrepio subia pela sua nuca.

- Olha lá... Eles têm crème brûlée! – Davina apontou para a plaquinha do restaurante onde ela deveria manter sua “vítima” presa. – Deus do céu, eu mataria por um desses.

O olhar de Davina se arregalou quando, logo em frente a placa, o rosto que ela já havia memorizado surgiu, entrando no restaurante. Sua cabeça girou rapidamente em direção a Kevin.

- Acho que é a sua deixa, Kev.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Dom Jun 19, 2016 1:01 am

Ainda era bizarro demais ver Hyacinth andando pela sua cozinha, abrindo as gavetas ou revirando as panelas como se também fosse uma moradora daquela casa, mas a cada minuto que se passava, Andrew se acostumava mais com aquela visão.

Ele tentou buscar em sua memória alguma lembrança de uma figura feminina dominando a cozinha com tanta familiaridade, mas não demorou muito até chegar à conclusão que, desde que se mudara para a cobertura de Davina, era apenas ele quem preparava as refeições. A irmã certamente não tinha talento algum para cozinhar e, mesmo que tivesse, Andrew desconfiava que ela ainda assim optaria por pedir alguma coisa não muito saudável por telefone.

Quando Cinth lhe apresentou o prato preparado para o pequeno Hardin, Andrew se sentia muito mais relaxado e arqueou as sobrancelhas em uma sincera surpresa e aprovação. Foi impossível controlar um pequeno aperto em seu peito por pensar em como a vida do filho seria diferente se a mãe ainda estivesse viva.

Davina certamente amava o sobrinho e jamais mediria esforços para protege-lo ou mimá-lo, mas Hardin ainda precisava de uma figura materna que tivesse o carinho de preparar uma refeição tão saudável e agradável aos olhos infantis.

A prova disso foi quando o menino sentou à mesa e seus olhos brilharam diante de toda preparação de Westphal. Andrew havia assumido o lugar na cabeceira da mesa e observava o filho enquanto cortava o seu próprio frango.

- Está gostoso? – Andy perguntou com um sorriso divertido ao ver o menino devorar os “cabelinhos” de seu prato.

Com um movimento exagerado da cabeça, Hardin confirmou suas suspeitas.

- Quero que a Cinth faça o meu jantar todos os dias, papai.

Era impossível segurar o sorriso de admiração enquanto Hardin comia cada colherada com gosto. A cena parecia natural e perfeita ao mesmo tempo, como se os três formassem uma família normal que se reunia para a refeição. Ninguém se arriscaria a dizer que havia tanta tensão entre os dois adultos presentes.

Para alívio de Andrew, ele conseguiu manter uma conversa casual com Hyacinth durante o jantar. A presença de Hardin limitava os assuntos que poderiam ser tocados, o que acabou se tornando em algo positivo, pois impedia que as mágoas do passado fossem revividas, pelo menos por enquanto.

A sobremesa seguiu com ainda mais risadas enquanto Hardin se lambuzava com a torta de chocolate trazida por Hyacinth e quando o ponteiro finalmente atingiu o limite aceitável pelo pai, Andrew pediu licença para colocar o filho na cama.

Quando Hardin já estava com os dentes perfeitamente escovados e deitado sob seu edredom de super-heróis, Andrew deslizou os dedos pelos seus cabelos lisos, retirando-os da testa do filho.

- Papai, a Cinth pode visitar a gente mais vezes?

O estômago de Andrew deu uma cambalhota com aquela possibilidade, mas ele manteve um sorriso neutro para o filho, que certamente estava completamente alheio ao passado nebuloso do pai com a ruiva.

- Se ela quiser, é claro que pode. Você gostou dela?

O aceno exagerado da cabeça de Hardin foi mais uma vez repetido.

- Ela é legal. E os legumes dela são mais gostosos que o seu.

Andrew soltou um risinho enquanto se colocava de pé, alisando as próprias vestes.

- Vou me lembrar disso. Boa noite, filho.

A luz do abajur foi apagada, mas um pontinho azulado ainda vinha de um interruptor próximo da porta, permitindo que o quarto não mergulhasse na completa escuridão. Andrew fechou a porta atrás de si, tentando ignorar as batidas aceleradas do seu coração enquanto caminhava pelo longo corredor até a sala.

Agora não havia mais Hardin para desviar o assunto ou limitar sua atenção. Não havia mais nenhuma barreira para fazer Andrew de Hyacinth finalmente se enfrentarem.

Deslizando os dedos pela barba rala, Andrew voltou para a sala, perdendo o fôlego mais uma vez ao admitir como Hyacinth havia se tornado uma mulher linda após os longos anos.

- Preciso admitir que essa ideia da decoração do prato foi genial. Vou repetir mais vezes. – Andrew forçou um sorriso enquanto ocupava uma das poltronas da sala, ignorando a animação que ainda passava pela tela.

Era tolice tentar usar o filho para adiar o assunto, mas quando Andrew se inclinou para frente e mudou o canal da TV, sua mente trocou o foco de imediato. Na tela plana do aparelho, o jornal anunciava um dos piores e recentes ataques provocados aparentemente sem explicação, mas que se encaixava perfeitamente na explicação de Dana sobre ser provocado por algum mutante.

Com a testa franzida, o olhar de Andrew finalmente estava sério e cauteloso quando se voltou para Hyacinth.

- Foi por isso que você voltou, não foi? Eu tentei pensar em um milhão de motivos que pudessem fazer você voltar algum dia, mas jamais imaginei uma tragédia tão grande.

Não havia acusação em suas palavras. Era a primeira vez que Ackerman falava sobre o retorno de Hyacinth tão diretamente, mas era fácil notar que o homem também estava preocupado com tudo que vinha acontecendo.

E era inevitável uma pontada de preocupação em pensar que Westphal estava se dirigindo exatamente para o centro do furacão, assim como ele. A ruiva poderia saber se proteger muito bem, mas mesmo depois de dez anos, Andrew ainda não havia aprendido a não se preocupar com ela.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Dom Jun 19, 2016 10:26 pm

Por mais que tentasse colocar freios na própria imaginação, Hyacinth não conseguiu se livrar da impressão de que aquela era uma refeição em família. E era estranho não ocupar o papel destinado a um filho daquela vez. Embora já tivesse deixado a adolescência no passado, só agora a filha dos Westphal se via livre da influência dos pais e começava a fazer as próprias escolhas.

A presença de Hardin serviu para suavizar consideravelmente o clima entre os adultos. Hyacinth se surpreendeu ao notar que conseguia manter uma conversa amigável com Andrew, sem nenhum tipo de cobrança e sem as mágoas do passado.

Mas certamente o clima leve não se perpetuaria pelo resto da noite. Tão logo chegou a hora de Hardin ir para a cama, Westphal soube que Ackerman voltaria a assumir uma postura mais séria e distante.

Sem deixar que aquela tensão transparecesse, Hyacinth exibiu um sorriso no rosto e despediu-se do garotinho com um demorado beijo na bochecha. Os bracinhos de Hardin a enlaçaram pelo pescoço e prolongaram o abraço por vários segundos antes que ele seguisse os passos de Andrew até o quarto.

Enquanto esperava pelo retorno do dono da casa, Hyacinth se distraiu com a televisão ligada num programa infantil. O pratinho no colo dela continha o seu segundo pedaço da torta e, com o garfo, Westphal ajeitou alguns M&M’s sobre a calda de chocolate antes de levar uma garfada à boca.

Embora o primeiro comentário de Andrew tivesse sido gentil, Hyacinth notou facilmente a tensão na entonação dele. Quando respondeu, a ruiva ficou insatisfeita ao perceber a mesma articulação forçadamente gentil na própria voz.

- Ele adorou, não foi? Faça mais vezes, tem várias ideias legais na internet.

Antes que os dois pudessem levar a conversa naquela direção vaga e fugir novamente do delicado assunto que precisavam tratar, o noticiário relatou mais um daqueles acontecimentos inexplicáveis para todo o mundo, mas que faziam sentido para as pessoas que conheciam o universo e as habilidades dos mutantes.

A expressão de Hyacinth se tornou mais séria e uma pequena ruguinha de preocupação apareceu na região entre seus olhos enquanto ela observava a cena de destruição e escutava a última atualização sobre o número de mortos e feridos. Sem dúvida, aqueles atentados estavam saindo do controle.

- Logo que eu cheguei na escola eu te disse que gostaria de desenvolver um poder como o seu, algo que pudesse ser útil para ajudar as outras pessoas...

Até então, os olhos azuis estavam voltados para a tela da TV. Vagarosamente, Hyacinth se voltou na direção de Andrew e fixou a atenção nele, mantendo uma das pernas dobradas sobre o sofá. Era impressionante como, depois de dez anos, o coração de Westphal ainda saltitava pelo ex-namorado. Ackerman continuava perfeito e a barba rala de agora só parecia acentuar ainda mais a atração que Cinth ainda sentia por ele.

- Confesso que a dimensão do meu poder me assustou e me desviou deste caminho por um tempo. Mas eu nunca mudei a maneira de pensar, Andy. Eu voltei porque acho que posso ajudar. É frustrante escutar sobre tantas vidas perdidas e dilaceradas.

Não havia mais nenhuma possibilidade de fugir daquela conversa delicada, então Hyacinth nem pensou em desviar o foco para outro assunto. Mesmo sem a certeza de como Andrew reagiria, aquela era uma explicação que ele merecia ouvir.

- Eu sinto muito pela maneira como fui embora. Eu estava assustada com o meu poder, confusa pela maneira como você se afastou de mim. Saber que a minha mãe estava viva, que ela tinha exatamente o mesmo poder que eu desenvolvi... isso foi a gota d’água que motivou a minha decisão de segui-la.

Era impossível prever quais eram os pensamentos de Ackerman pela expressão congelada dele. Era enorme a tentação de usar a telepatia para saciar aquela curiosidade, mas Hyacinth conseguiu se segurar. O mínimo que ela devia ao ex-namorado era a privacidade aos próprios pensamentos.

- Depois disso, eu me vi mergulhada num mar de medos e incertezas. Minha mãe tinha décadas de histórias de como tinha sido perseguida e injustiçada. Ela me convenceu de que eu estaria mais segura se me mantivesse afastada de todas as pessoas que eu amava. E nisso eu incluía você, Andy.

Westphal precisou de um tempo para recuperar o fôlego e continuar sem a voz engasgada com que concluíra as últimas palavras.

- Eu lamento pelo sofrimento que te causei. Mas hoje fico feliz em ver que você conseguiu superar, que seguiu com a própria vida e construiu uma família. O Hardin é a maior bênção que você poderia ter e ele só está na sua vida hoje porque eu saí do seu caminho.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Dom Jun 19, 2016 10:56 pm

Mesmo depois de revisar o plano dezenas de vezes, Templeton ainda se sentia ansioso. Era a primeira vez que ele assumiria a forma de outra pessoa para cometer um “crime”. É claro que as intenções de Kevin eram as melhores possíveis, mas seria difícil convencer qualquer pessoa disso caso ele fosse pego em flagrante.

Seu único consolo era saber que sua parceira seria Davina. A ex-namorada podia ter os seus defeitos, mas ninguém jamais questionaria a sua lealdade. Kevin estava arriscando o próprio pescoço, mas com a certeza de que Ackerman não pensaria duas vezes antes de se colocar na linha de frente para tentar salvá-lo diante de qualquer falha que surgisse no plano.

O dia amanheceu nublado. Nenhuma previsão de tempo apontava na direção de uma grande tempestade naquele início de tarde, mas as nuvens acinzentadas cobriam a maior parte do céu. Não seria nada difícil para Davina reuni-las naquele ponto e causar uma chuva forte o bastante para manter o segurança afastado de seu posto por alguns minutos.

Dentro do carro, Templeton mantinha os olhos fixos no portão que dava acesso ao estacionamento. Por mais que tentasse disfarçar a tensão, os dedos de Kevin tamborilando sobre o volante denunciavam a ansiedade do rapaz.

- Você já chegou ao ponto de matar por comida...? – Kevin brincou para suavizar o clima – Eu sabia que existia este risco. Quando sairmos daqui, eu te levo para comer crème brûlée. Em outro lugar bem distante deste estacionamento, é claro...

Ele ainda se apresentava com seus costumeiros traços. A única modificação que Kevin já adiantara era o uniforme de segurança, visto que seria arriscado e desnecessariamente demorado trocar de roupas dentro do carro. A calça preta terminava em coturnos. A blusa, também preta, era mais justa e realçava o contorno do peitoral dele. O colete a prova de balas estava aberto, mas Templeton o fechou rapidamente tão logo viu o portão se abrindo e o verdadeiro segurança saindo para almoçar.

A tensão aumentou ao ponto de Kevin sentir um frio na barriga, mas ele não pensava em desistir. Todo o grupo precisava de respostas que só aquelas câmeras poderiam fornecer. Era impossível não sentir o peso de tamanha responsabilidade nos ombros. O velho Kevin jamais assumiria um encargo como aquele, mas Templeton definitivamente não era mais o adolescente do passado.

Mais uma vez, Davina teria uma demonstração perfeita das habilidades do ex-namorado. Enquanto ele mudava as formas para assumir a identidade do segurança, Ackerman poderia ver o reflexo das escamas azuladas se movendo sobre a pele dele. Em menos de três segundos, o chefe dos seguranças estava sentado bem ao lado de Davina.

- Eu volto em trinta ou quarenta minutos. – os olhos castanhos do segurança se fixaram na moça e a voz dele, mais arrastada que a de Kevin, sussurrou as palavras seguintes – A sua função aqui hoje é manter o sujeito preso na chuva, Davs. Não faça nenhuma bobagem, não se arrisque. Se acontecer qualquer imprevisto, saia daqui e avise a Dana.

As chaves do carro foram deixadas na ignição e Templeton destravou as portas alguns poucos minutos depois que o homem entrou no restaurante. Para aliviar um pouco a tensão, Kevin sorriu para Davina e lançou a ela uma de suas piscadelas, embora não conseguisse o mesmo efeito arrebatador com os traços pouco atraentes do segurança.

- Espere que eu entre para fazer a sua chuva desabar, hm? Eu não ficarei nada inclinado a levar você para comer doces se estiver com as roupas encharcadas, Davs.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Jun 19, 2016 11:19 pm

Davina mordeu o lábio inferior para conter um sorriso quando encarou o rosto nada familiar do segurança a sua frente, sabendo que ainda era o mesmo Kevin por trás. Ela se lembrava com perfeição de quando o rapaz havia lhe mostrado sua verdadeira forma e, diferente de tantas meninas, ela não havia ficado assustada com a demonstração, apenas emocionada por ter sido a única a conhece-lo daquela forma.
 
Uma vozinha ecoou em sua mente, questionando se Carol também conhecia a pele azulada e os olhos negros do futuro marido, mas parecia obvio o bastante que sim. Kevin havia escolhido Caroline para estar ao seu lado o resto da vida, o que significava que ele confiava nela o bastante para compartilhar aquele segredo.
 
Quando ela finalmente ficou sozinha no carro, Davina soltou um suspiro, tentando acalmar a ansiedade que se espalhava pelo seu peito. Seus olhos ficaram presos até que Kevin desaparecesse pela entrada do prédio e ela se concentrou em aumentar a intensidade da chuva, gradativamente.
 
Nos primeiros dez minutos, os chuviscos se tornaram uma chuva mais forte, mas antes que completasse meia hora desde a partida de Kevin, a rua já estava tomada por uma forte tempestade. As pessoas já haviam fugido das calçadas e os carros passavam mais lentos, tentando enxergar em meio a nuvem branca de grossas gotas de chuva. As trovoadas faziam os prédios tremerem e a visão se tornava momentaneamente melhor quando a claridade do relâmpago se fazia presente.
 
Os olhos castanhos estavam estreitos, desviando da porta do prédio para a entrada do restaurante, na esquina, atenta a qualquer movimento. Aquela tempestade era a prova de como Ackerman havia evoluído ao longo dos anos. Quando adolescente, as chuvas eram normalmente provocadas pela instabilidade de seu humor e eram completamente incontroláveis. Mas agora Davina era capaz de provocar um pequeno dilúvio e fazê-lo desaparecer em questão de segundos, sem a menor dificuldade.
 
O aquecedor do carro não era suficiente para mantê-la aquecida, a adrenalina correndo veloz em suas veias e deixando as pontas dos seus dedos gelados. Seu olhar pousou rapidamente no relógio do carro e Davina soltou um xingamento baixinho ao ver que já havia se passado uma hora.
 
Ao contrário do que Kevin havia orientado, ela não tinha a menor intenção de sair e deixa-lo ali. Um gosto amargo tomou conta da sua boca ao imaginar que algo poderia estar acontecendo com Templeton e o coração dela veio até a garganta quando a porta do restaurante se abriu.
 
A água descia pela calçada e escoava pelos ralos como um rio. O barulho forte da chuva contra o carro a impedia de ouvir qualquer coisa, mas foi possível notar quando o segurança  analisou o estrago a sua volta, cogitando enfrentar a tempestade para retornar o trabalho. Uma pessoa parou ao seu lado, e mesmo sendo incapaz de escutar o que estavam conversando, Davina podia imaginar que estavam tentando convencer o homem de não se arriscar.
 
- Anda logo, Kevin... – Davina suspirou, olhando mais uma vez para o prédio, sem sinal algum de Templeton.
 
O homem deu o primeiro passo para fora da calçada e ergueu uma grossa jaqueta sobre a cabeça, em uma tentativa inútil de se proteger. Davina deu um salto em seu lugar e ergueu a palma da mão no mesmo instante que um forte vento atingiu a rua, derrubando um dos toldos e fazendo o homem recuar.
 
Se aproveitando daquela pequena distração, ela não pensou duas vezes em saltar para fora do carro. A chuva estava tão forte que machucava seu coro cabeludo e antes que ela alcançasse a calçada do prédio, seus cabelos já estavam grudados em seu rosto molhado.
 
Ao olhar por cima do ombro, ela viu o vulto borrado do segurança em meio a chuva e ele ainda estava inseguro em atravessar a rua.
 
- Deixa de ser babaca, fica aí cara... – Ela resmungou para si mesma quando o homem avançou para a rua encharcada. – Idiota.
 
A palavra mal havia saído de sua boca quando a chuva parou de machucá-la. Ela finalmente havia atingido a área coberta da marquise quando seu corpo se chocou em alguém. Por um instante, as vestes negras do segurança fizeram seu sangue gelar, mas quando ergueu o rosto molhado e reconheceu Kevin, Davina deixou escapar um suspiro de alívio.
 
Pela visão periférica, Davina notou quando o homem finalmente se aproximava deles, e sem pensar duas vezes, ela puxou Kevin para o lado. Com o corpo grudado ao dele, ela bloqueava a pequena etiqueta em suas vestes, que trazia o nome do outro homem. Sua mão gelada foi levada até o rosto de Templeton, obrigando-o a virar para o outro lado, torcendo até o último segundo para que o segurança seguisse direto.
 
Quando o homem finalmente desapareceu pela entrada do prédio sem sequer lançar ao casal na calçada um olhar de curiosidade, Davina apoiou a testa contra o peito de Kevin e soltou um grande suspiro de alívio.
 

- Esquece a sobremesa, eu preciso de uma vodka.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Dom Jun 19, 2016 11:43 pm

Os olhos de Andrew estavam grudados em Hyacinth, incapazes de piscar ou de desviar para qualquer ponto da sala que não fosse o pelo par de olhos azuis. Por anos, ele havia sonhado com o momento que Westphal fosse finalmente lhe contar o motivo por ter lhe abandonado, mas Andy jamais imaginou que o cenário fosse ser sua própria sala de estar, muito menos que aquela explicação tão simples fosse lhe acalmar.
 
Ele queria mais. Queria compreender como ela havia conseguido enfrentar dia após dia sem ele, enquanto sua mente enlouquecia, tentando descobrir seu paradeiro. A explicação de Westphal poderia ser verdadeira, mas não era suficiente para Andrew.
 
Só o que Ackerman conseguia raciocinar eram nos anos em que ele havia largado a vida para trás, a família, seu trabalho, tudo que ele possuía, na esperança de reencontrar a ruiva. Apenas quando a ex-namorada tocou no nome de Hardin, Andrew foi capaz de finalmente girar os olhos castanhos e encarar o corredor que dava acesso aos quartos.
 
Ao menos naquilo, Hyacinth estava certa. Ele poderia ter cometido muitos erros ao longo de sua vida, mas cada um dos seus deslizes o levara até aquele momento, onde o filho dormia tranquilamente em sua cama, e aquilo era suficiente para que Andrew não quisesse mudar nada nos últimos dez anos.
 
- Eu teria enlouquecido sem ele. – Sua voz estava rouca quando ele finalmente admitiu.
 
Os cotovelos de Andrew estavam apoiados em seus joelhos e ele esfregava as mãos, o corpo ligeiramente inclinado para frente. Uma pausa longa demais se instalou, permitindo que apenas o ruído da TV ocupasse a sala, até que ele finalmente tivesse coragem para encarar a ruiva outra vez.
 
Seus olhos castanhos brilhavam intensamente. Não havia mais motivo para fugir. Ele poderia tentar se agarrar a um ódio irracional por Hyacinth, poderia continuar tratando a ex-namorada como uma ameaça e fazê-la pagar ao menos um pouco por todo sofrimento que ele passou, mas Andrew se sentia esgotado demais para continuar aquela batalha.
 
- Na verdade, eu quase enlouqueci sem você. Você não deveria ter ido, Hyacinth. Eu prometi que te ajudaria, que a gente enfrentaria o que viesse, juntos.
 
Um suspiro pesado escapou pelos seus lábios enquanto Andrew lutava com a própria confissão. Uma de suas mãos foi erguida e ele coçou a própria nuca, sentindo os cabelos ondulados sob o toque dos seus dedos. Ele começava a se sentir sem ar, como se todo oxigênio da sala estivesse sendo sugado.
 
- Eu sei que não tinha um terço da experiência da sua mãe. Mas parece que ela também estava errada, afinal de contas.
 
Suas pernas se esticaram repentinamente e Andrew atravessou a sala até alcançar a parede de vidro com vista para a iluminada Seattle. Encarando a noite diante de si, ele cruzou os braços e passou a língua pelos lábios secos, tentando engolir o nervosismo.
 

- Tudo isso é passado agora. Tempo demais já passou para que nós dois conseguíssemos nos cicatrizar. – Ele se voltou mais uma vez para Hyacinth, tentando se apegar a mentira tola que dizia a si mesmo, dia após dia. – Você não é mais a mesma menina que eu conheci, então é melhor deixarmos todas as mágoas para trás. Não faz sentido continuar alimentando uma história que já morreu, não é?
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Seg Jun 20, 2016 12:40 am

Um profundo alívio se apoderou de Kevin quando ele aproximou o polegar do sensor eletrônico e sua digital conseguiu destravar a porta que dava acesso à sala principal da segurança. Por mais que confiasse na perfeição obtida em cada detalhe com a sua mutação, Templeton estava ansioso demais para abandonar por completo as preocupações.

Até ali, ele não havia tido nenhum tipo de problema. Depois de atravessar os portões, ele seguiu com passos firmes pelo pátio e, por sorte, não cruzou o caminho de nenhum dos colegas. Exatamente como o mapa fornecido por Dana indicava, Kevin encontrou uma escadaria ao fim da parede posterior do terreno e ele a usou para alcançar um corredor. A última das portas continha o sensor que ele acabava de destravar, abrindo o acesso para a sala de segurança que continha as imagens das câmeras.

O plano era simples. Templeton só precisava entrar na sala, localizar as imagens do dia do atentado, fazer uma cópia dos arquivos e sair do estacionamento. Kevin teria cumprido facilmente o prazo comentado com Davina se não fosse por um pequenino detalhe.

- Ué...? Você não disse que ia almoçar, Bob? Relaxa, eu fico por aqui até você voltar.

Todo o sangue fugiu do rosto do chefe dos seguranças quando ele encontrou um dos colegas dentro da sala. O rapaz era bem jovem e parecia extremamente relaxado, com as pernas erguidas e cruzadas sobre a mesa onde ficava o computador que controlava as câmeras. Ainda assim, Kevin sentiu a adrenalina se espalhar pelas suas veias. Se o rapaz desconfiasse de qualquer coisa, ele estava perdido.

- Desisti. Já deu uma olhada na chuva?

A verdade era que Templeton não tinha presenciado a chuva forte, mas confiava em Davina. Não foi nenhuma surpresa para ele ver a tempestade que desabava no pátio do estacionamento quando o rapaz mudou o foco de uma das câmeras.

- Uau! O tempo estava meio fechado, mas não achei que choveria tanto! – o rapaz indicou o telefone ao seu lado – Quer que eu ligue pra pedir comida? Você parecia tão faminto!

- Não precisa. Eu farei o horário de almoço assim que a chuva abrandar. – Kevin deu uma olhada discreta para o crachá pendurado no uniforme do colega: “Richard” – Bom, já que estou aqui eu posso assumir o controle, Rick. Eu te chamo quando for sair de novo...

- Estou tranquilo. – Richard se manteve na mesma posição relaxada – Já terminei a ronda e não pretendo repeti-la debaixo desta chuva. Já cataloguei todas as entradas e mandei pra galera da portaria. Não tenho nada pra fazer nas próximas horas. Podemos colocar o papo em dia.

O desespero começou a se apoderar de Kevin enquanto o outro segurança tagarelava. Templeton sacudia a cabeça em movimentos afirmativos e forçava sorrisos, embora não estivesse prestando muita atenção na conversa sobre uma ex-namorada, sobre alguns dos colegas e até sobre o patrão. Discretamente, os olhos de Kevin procuravam pelos ponteiros do relógio e ele sabia que nenhuma tempestade impediria que o verdadeiro Bob aparecesse ali a qualquer momento.

- O que está fazendo...?

Richard interrompeu o assunto e focou a atenção na tela do computador quando viu o colega abrindo alguns arquivos antigos. Era arriscado fazer aquilo diante de uma testemunha, mas Kevin não enxergava nenhuma opção mais segura.

- Quero dar uma olhada nas imagens do dia em que o prédio caiu. Tenho um amigo que é advogado de um dos engenheiros. Ele quer dar uma olhada...

Com o coração pulsando na garganta, Templeton fez uma cópia dos arquivos e os enviou para um pendrive. Richard parecia curioso, mas é claro que jamais desconfiaria que aquele era um mutante se passando pelo colega.

- Por razões óbvias, vou pedir a você que guarde segredo. Ok, Rick? Não vamos mais falar deste assunto e eu vou negar até a morte se você ou qualquer outra pessoa me questionar sobre isso.

- Relaxa, cara, você sabe que pode confiar em mim. Este assunto morre aqui.

Era péssima a sensação de que o chefe dos seguranças poderia ser prejudicado de alguma maneira por aquele gesto, mas Templeton tentou se concentrar nas vidas que salvaria se descobrisse quem era a pessoa por trás dos ataques.

Quando Kevin se colocou de pé, enfiou o pendrive no bolso e anunciou que iria almoçar, o queixo de Richard caiu.

- Cara, ainda está chovendo! – ele apontou a tela – Na verdade, acho até que piorou!

- Vou enfrentar. Estou com muita fome!

Sem dar ao segurança a chance de replicar, Templeton apressou os passos e saiu da sala. Os ponteiros do seu relógio de pulso mostravam que o prazo já havia se estourado há muito tempo, o que significava que o verdadeiro Bob poderia aparecer a qualquer momento. Isso motivou Kevin a transformar seus passos apressados em uma verdadeira corrida sob a tempestade. Sua visão prejudicada pela chuva não permitiu que ele evitasse o acidente e seu corpo se chocou contra o de Davina na calçada, logo que ele ultrapassou os portões.

Um pesado suspiro escapou de sua garganta ao reconhecer a parceira. Embora Davina não tivesse respeitado o acordo, Kevin estava profundamente agradecido em ver que ela não partira sem ele. Mas, antes que pudesse verbalizar aquela gratidão, Templeton se viu empurrado contra o muro.

O coração de Kevin falhou uma batida quando Davina colou o corpo ao dele. O tecido fino e as roupas de ambos encharcadas deixavam poucas margens para a imaginação, Templeton conseguia sentir com perfeição cada uma das curvas que a ex-namorada comprimia contra o seu corpo. A sensação era tão inebriante que o rapaz demorou a entender a atitude dela. Só depois de alguns segundos, Kevin recuperou a capacidade de raciocínio e percebeu quando Bob passou por eles, por sorte sem olhar na direção do seu “clone”.

Quando o segurança finalmente sumiu de vista, Templeton conseguiu relaxar os ombros e abriu um sorriso enquanto passava seus braços pelo corpo molhado de Davina, num abraço carinhoso de consolo. Protegido pela péssima visibilidade da chuva e pelas sombras da marquise, Kevin novamente usou de sua habilidade para reassumir seus costumeiros traços.

- Somos dois. Que tal vodka e sobremesa? Nós merecemos... – Kevin retirou o pendrive do bolso e o mostrou para Davina – Temos que comemorar, mas sugiro que seja bem longe daqui. As coisas não foram tão simples lá dentro, mas estou feliz que você seja uma cabeça dura e tenha ficado aqui até agora.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Jun 20, 2016 1:14 am

Davina não estava preparada para rever o rosto de Kevin quando ele reassumiu sua forma física, ainda mantendo o abraço apertado. Movida pela adrenalina, ela só havia tomado aquela iniciativa com o receio de que Bob flagrasse outro homem idêntico a sua imagem e vestindo uma roupa com o seu nome. Ele certamente teria enlouquecido diante daquela visão, além de ter prejudicado todo o plano daquela tarde.
 
Estar novamente nos braços do ex-namorado era surpreendente familiar e agradável, como se o tempo não tivesse passado e eles ainda estivessem juntos, tão apaixonados quanto antes. Nem todos os rapazes que já haviam passado pela cama de Davina naqueles dez anos conseguiam fazer seu coração saltitar da mesma forma que Templeton e aquela certeza lhe provocava um arrepio que não tinha nenhuma ligação com a tempestade.
 
Seus ombros só relaxaram quando Kevin ergueu o pendrive, dando como sucesso todo o trabalho dos dois. Mantendo os braços ao redor do pescoço dele, Davina jogou a cabeça para trás, soltando uma gargalhada de alívio e balançando os cabelos molhados.
 
- Eu não iria a lugar algum, idiota.
 
Apesar do sorriso relaxado nos lábios, seu peito subia e descia com a respiração acelerada, graças a proximidade de Kevin e da adrenalina provocada pela missão. Apontando o carro com a cabeça, Davina finalmente se soltou de Templeton.
 
- Vamos dar o fora daqui logo.
 
Mais uma vez, recebendo a grossa chuva nos ombros, os dois atravessaram a rua até alcançar o carro, que continuava com o motor ligado. O ar quente vindo do aquecedor foi muito bem recebido e Davina não se importou em se acomodar no banco de couro com as roupas encharcadas.
 
Enquanto eles se afastavam dali, Davina se concentrava na tempestade que ficava para trás, diminuindo até que as nuvens carregadas se afastassem, restando apenas uma chuva mais fraca e tolerável.
 
As risadas ainda ecoavam pelo carro enquanto ela olhava pelo retrovisor, as mãos agarradas ao banco.
 
- Isso foi incrível! Se tivéssemos feito aquele trabalho do Chevalier sobre como combinar nossas mutações, com certeza teríamos tirado a nota máxima com esse case de sucesso.
 
Ela ergueu o polegar em aprovação pelo desempenho de Templeton enquanto analisava o pendrive, mas logo seu olhar se desviou do objeto em seus dedos para encarar o perfil do ex-namorado, concentrado no caminho que seguia.
 
Os cabelos molhados de Kevin grudavam em sua testa e suas roupas estavam grudadas em seu peito. As gotículas que escorriam pelo seu rosto percorriam os contornos perfeitos e algumas morriam no desenho de seus lábios. Davina engoliu em seco quando percebeu que o encarava por tempo demais e se obrigou a encarar a paisagem ao redor.
 
Os dois já dirigiam há algum tempo quando Kevin parou o carro diante de um pequeno prédio de três andares e de tijolos expostos. O lugar não era enorme e nem luxuoso, mas tinha um charme inegável.
 
Já não existia vestígio de chuva quando eles deixaram o carro e entraram no estúdio de Templeton, mas suas roupas ainda estavam pesadas, assim como os cabelos de Davina, despenteados e grudando em sua pele.
 
O lugar parecia um grande galpão dividido em setores. O que mais chamava atenção era o canto onde Kevin usava para realizar as fotografias. O fundo branco estava apagado, mas rodeado de seus equipamentos. Havia um pequeno camarim com uma enorme penteadeira rodeada de lâmpadas, também apagadas, e um cabideiro abarrotado de roupas infantis.
 
Uma das paredes principais estava abarrotada de fotos de crianças em diversas publicidades e, embora não entendesse tanto sobre o assunto, Davina sabia reconhecer que o trabalho de Kevin era incrível.
 
Ela sorriu quando uma toalha foi arremessada em suas mãos e imediatamente a levou até as pontas dos cabelos enquanto admirava o lugar.
 
- Isso aqui é incrível, Kev... É fácil notar que você realmente ama o que faz. – Davina parou diante do grande mural de fotografias e as admirou por alguns minutos antes de virar a cabeça para Kevin, com um sorriso brincalhão nos lábios. – Embora o Kevin que eu conheci um dia iria gostar muito mais de fotografar modelos acima dos 21 anos.
 
Seu tom de voz não carregava nenhuma mágoa ou provocação, mas tentava resgatar a implicância antiga que sempre havia existido no pequeno grupo de amigos. Encolhendo um dos ombros, ela ainda acrescentou.
 

- Mas preciso admitir que eu goste muito mais dessas aqui, elas são muito mais fofinhas.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Seg Jun 20, 2016 1:50 am

- Achei que cicatrização não fosse um problema para você.

Uma das sobrancelhas de Hyacinth se arqueou enquanto ela formulava a frase, mas a sua expressão não deixava claro se aquilo era um desafio ou uma mera brincadeira com a habilidade de regeneração de Andrew. A grande verdade é que Westphal se sentia cansada e ferida demais para continuar aquela conversa. Doía muito escutar da voz de Ackerman que ela era parte do passado dele.

- É claro que eu não sou mais a mesma menina que você conheceu, Andrew. Eu só tinha dezesseis anos, estava profundamente assustada com tudo o que acontecia a minha volta.

Apesar de não ser uma conversa fácil, Westphal usava uma entonação amena que deixava claro que ela não pretendia transformar aquilo em uma briga.

- Você também não é mais o mesmo. Você amadureceu, tornou-se pai. É um tanto injusto que você pontue as minhas mudanças como algo negativo. Todos nós mudamos. É a regra natural da vida.

A diferença entre a atual Hyacinth e a adolescente do passado se tornou ainda mais pronunciada quando a ruiva se colocou de pé. Ela ajeitou brevemente o vestido antes de se aproximar da parede de vidro, os olhos azuis admirando a bela vista de Seattle. Parada ao lado do ex-namorado, Cinth comentou sem tirar os olhos das milhares de luzinhas que cintilavam na cidade lá embaixo.

- Fale por você, Andrew. Mesmo que esta história tenha ficado no passado, ela não morreu para mim. Eu nunca vou me esquecer de tudo o que aconteceu, e nem gostaria que essas lembranças se perdessem na minha memória.

A ruiva virou a cabeça vagarosamente para encarar o homem ao seu lado. Uma coisa não havia mudado nos últimos dez anos. Hyacinth ainda possuía muito mais segurança para externar seus sentimentos do que Ackerman.

- Eu gosto de olhar para trás e me lembrar de como fui feliz. Foi uma felicidade muito breve, é verdade, mas foi intensa o suficiente para me motivar a continuar de pé.

A ruiva ergueu um dos ombros antes de completar com uma entonação um pouco mais amarga.

- Eu não tenho uma irmã, não tenho mais amigos, não tenho um emprego. E eu não tenho um presente chamado Hardin. As minhas pequenas amostras de felicidade estão somente nas lembranças, Andy. Se eu não me apegar a elas, não me restará nada.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Seg Jun 20, 2016 2:26 am

Ninguém dava muito crédito ao estúdio de Templeton quando chegava diante do prédio simples onde o fotógrafo trabalhava. As paredes de tijolos expostos, a fachada um tanto gasta e a ausência de um elevador poderiam desestimular qualquer cliente. Contudo, o trabalho de Kevin falava por ele. Qualquer um que analisasse com atenção as fotos do rapaz não levaria em conta a simplicidade do prédio para dispensar os seus serviços.

Enquanto guiava Davina pelas escadarias, Kevin sentia o uniforme preto de segurança ainda encharcado e pesado depois de tamanha tempestade. Seus cabelos estavam totalmente atrapalhados e, embora Templeton deixasse os fios mais curtos agora, era possível notar que algumas mechas rebeldes teimavam em se enrolar na nuca dele, lutando para formar os velhos cachos do passado.

Tão logo chegou ao estúdio, Kevin ligou a chave de energia e acendeu as luzes. Como o prédio era pequeno, o estúdio de Templeton ocupava todo o terceiro andar. Um escritório fora improvisado em um dos cantos, também havia uma espécie de sala com sofás, uma mesinha de centro e um frigobar. Mas a maior parte do espaço era destinada às fotografias. Paredes de madeira formavam um pequeno cômodo que eventualmente Kevin transformava em um cenário para suas fotos. O camarim ficava próximo ao sofá e, na parede mais ampla, Templeton colocara um enorme toldo branco.

Vindo do pequeno banheiro escondido numa das paredes laterais, Kevin lançou uma toalha para Davina enquanto a moça observava seu mural de fotos. Ali, além das imagens perfeitas usadas nas campanhas, Templeton colocava também algumas fotos informais das crianças se arrumando no camarim ou brincando nos intervalos das sessões.

- Modelos acima de 21 anos são insuportavelmente chatas. – ele apontou uma das fotos em que uma garotinha gargalhava tão gostosamente que chegava a tombar a cabeça para trás – A minha imitação perfeita da voz do Mickey jamais arrancaria uma risada assim de uma coitada que está sempre com fome.

O Kevin do passado nunca havia mencionado a menor aptidão para lidar com crianças, mas a verdade é que Templeton só descobrira aquele dom depois que começou a trabalhar com os pequenos. Por isso, ele não pareceu se ofender com o comentário sobre as modelos. Melhor do que ninguém, Davina sabia o quanto a adolescência de Kevin fora nebulosa.

- Pode não ser um trabalho tão lucrativo quanto as campanhas milionárias com modelos famosas, mas tem sido mais do que o suficiente para me manter. É maravilhoso acordar com a certeza de que seu dia será leve e divertido.

Aproveitando-se que Davina estava bastante entretida com o mural lotado de fotografias, Templeton se afastou silenciosamente até o armário onde guardava seu equipamento. Uma das câmeras foi selecionada e o rapaz aproximou-se alguns passos, assumindo uma posição de onde tinha um ângulo perfeito da ex-namorada.

Sem que Ackerman notasse, ele a enquadrou na lente, ajustou o foco e capturou a imagem. Somente quando o flash a atingiu, Davina percebeu o que Templeton havia acabado de fazer.

A imagem imediatamente apareceu na tela da câmera digital e arrancou um sorriso de Kevin. Apesar da foto espontânea e de Davina estar muito longe de uma aparência impecável, a fotografia havia ficado perfeita.

Os cabelos molhados caíam pelas costas dela e deixavam o rosto da moça livre. A imagem mostrava Ackerman de perfil, realçando o nariz delicado e a curva da mandíbula. Mas era a expressão de Davina que se responsabilizava pela beleza da foto. A moça olhava o mural de fotografias com um olhar carinhoso e com um sorriso lindo nos lábios, era o tipo de sorriso espontâneo que nunca aparecia quando a pessoa estava ciente da presença de uma câmera.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Seg Jun 20, 2016 4:52 am

A sinceridade de Hyacinth era recebida como um tapa ardido em sua pele, algo que Andrew não estava preparado para lidar. Seu estômago se contorcia ao notar a tristeza refletida nas íris azuis e por um instante, ele foi transportado novamente para o passado, onde recebia uma apavorada menina ruiva em seus braços e que precisava desesperadamente dos seus cuidados.
 
Ackerman já estava acostumado com a imagem de Westphal que criara em sua mente, que o abandonara sem piscar e que agora tinha uma vida plena, deixando a memória do ex-namorado em um passado apagado e indiferente. Era uma imensa surpresa ver que aquela não era a realidade de Hyacinth.
 
Saber que a ruiva invejava sua vida, por mais que Andrew se sentisse solitário, só mostrava o quão isolada ela se sentia. Seu peito se espremia com a necessidade de fazê-la enxergar como era bela e poderia ter o mundo aos seus pés com um estalar de dedos.
 
A boca de Andy se entreabriu e uma ruga se formou entre suas sobrancelhas enquanto ele encarava a ex-namorada com sincera surpresa. O reflexo dos dois contra o vidro era uma imagem bonita e quase poética quando mesclada com a paisagem de Seattle ao fundo, mas só o que Andrew enxergava era o perfil entristecido da mulher ao seu lado.
 
- Cinth...
 
O apelido carinhoso escapou de seus lábios sem permissão, porque Andrew não tinha resposta para lhe dar. Ele se sentia completamente desarmado diante da dura verdade de Hyacinth e esquecia completamente sua tentativa de manter a distância.
 
- Você tem a Dana.
 
Parecia uma recompensa extremamente miserável, e Andrew se arrependeu de dizer no instante em que ouviu sua voz ecoar pela sala. Com um suspiro derrotado, ele permitiu que seu corpo se virasse até estar de frente para ela, analisando com delicadeza os traços de seu perfil.
 
- E você vai recuperar os seus amigos, tenho certeza disso.
 
O coração de Andy batia acelerado enquanto sua voz gritava no fundo de sua mente: ”E você tem a mim”, mas seus lábios permaneceram entreabertos, incapazes de pronunciar qualquer coisa.
 
Sentindo a garganta queimar com as palavras que ele era incapaz de proferir, Andrew engoliu em seco, sentindo o nó subir e descer, bloqueando o ar que deveria chegar aos seus pulmões.
 
Andrew não estava mais raciocinando quando deixou um passo aproximar seu corpo ao de Hyacinth. O sangue corria veloz em suas veias, com uma adrenalina que ele não experimentava há anos. A única coisa que sua mente ordenava era que ele minimizasse a tristeza no par de olhos azuis.
 
- Você está de volta. Pode começar do zero, reconquistar o que deixou...
 
A voz de Andrew morreu, sem deixar explícito se ele estava incluído no que Hyacinth poderia reconquistar. Sua mão foi erguida até tocar o rosto da ruiva. O gesto foi muito lento e calmo, o que contrastou de forma quase assustadora quando um arrepio percorreu seu braço e se espalhou pelo seu corpo. O movimento seguinte foi rápido demais, abrupto e extremamente sedento.
 

A outra mão de Andrew puxou Hyacinth pela cintura e, sem deixar que ela tivesse tempo para compreender o que estava acontecendo, sem pensar nem nas consequências, ele a puxou contra seu peito, encontrando seus lábios em um beijo intenso e desesperado.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Jun 20, 2016 5:09 am

- O que você está fazendo???
 
O tom surpreso de Davina ecoou por todo o estúdio, mas o sorriso em seus lábios mostrava que ela não estava irritada com aquele pequeno flagra. Girando os olhos, ela se aproximou de Templeton, descartando a toalha e a jaqueta molhada sobre o sofá de forma relaxada. As botas já haviam sido retiradas e os pés de Ackerman estavam em contato direto com o piso frio, mas ela ainda vestia a calça jeans encharcada e a blusa branca quase transparente.
 
- Se você vai tirar fotos de mim, deveria deixar pelo menos eu me preparar. Eu estou mais feia que o Hugo depois de perder um jogo de basquete.
 
Sem se intimidar, Davina parou diante de Kevin e tentou diminuir o estrago deslizando os dedos pelos cabelos molhados e grudados. Ela apoiou as mãos na cintura, posando para uma nova foto. O flash da câmera de Kevin ainda foi disparado algumas vezes enquanto Ackerman gargalhava, girando sobre os calcanhares e inventando poses exageradas, sabendo que nenhuma ficaria boa após aquela tempestade.
 
- Espero não ter queimado a sua lente com tamanha feiura. – Ela girou os olhos mais uma vez enquanto se aproximava de Kevin, esticando o pescoço para ver as fotos na pequena telinha da câmera.
 
Imediatamente seu nariz se contorceu em reprovação. O foco de Kevin era excelente, mas ela realmente precisava se trocar e passar um condicionador nos cabelos empapados. Com cuidado, o equipamento de Templeton foi retirado de seus dedos e apoiado na bancada. Em seguida, Davina puxou do bolso traseiro da calça o seu smartphone e sorriu para o amigo.
 
- Não sei usar esses seus brinquedos sofisticados, mas sou boa o bastante para tirar uma selfie.
 
A câmera do celular foi ligada e Davina se aproximou de Kevin antes de apertar o botão para registrar a foto. Quando virou a tela para ver, sorriu satisfeita ao ver que havia conseguido enquadrar o rosto dos dois e, mesmo com a imagem um tanto desastrosa, a harmonia entre eles era inegável.
 
- Há! Olha só, acho que você está encontrando concorrência, Kev. Além de modelo, sou ótima fotógrafa.
 
Davina se virou para mostrar o resultado a Kevin, e pela segunda vez naquele dia, ela não estava preparada para estar tão perto dele. Seu sorriso vacilou por um instante e o celular foi apoiado na bancada, ao lado da câmera, sem desviar o olhar dele.
 
- Você está com um cílio... ...bem aqui.
 
Com a mão livre, ela tocou a ponta do seu polegar na lateral do nariz de Kevin, perto de seu olho, enquanto retirava com bastante sutileza o cílio perdido em sua pele clara. Ao invés de se afastar em seguida, Davina rodeou o pescoço dele pela segunda vez naquela tarde, mas desta vez com toda consciência do que estava fazendo.
 
Mordendo o lábio inferior como se isso fosse ser suficiente para mantê-la afastada, Davina roçou a ponta do nariz ao de Kevin, e quando ela voltou a sussurrar, sua voz estava rouca e completamente entregue ao momento.
 
- Eu estou pensando em fazer isso desde que vi você entrar naquela sala de reunião, Kev. Você está mais lindo que nunca, sabia?
 
A antiga Davina dificilmente teria coragem em tomar aquela iniciativa, mas a segurança conquistada ao longo dos anos havia lhe ensinado a não hesitar quando queria alguma coisa. E ela queria muito sentir os lábios de Templeton mais uma vez.
 

Ficando na ponta dos pés descalços, Davina acabou com o pouco espaço entre os dois até finalmente beijá-lo, sentindo os lábios ainda frios e úmidos da tempestade.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Qua Jun 22, 2016 1:53 am

A parede de vidro da sala dava aos dois jovens uma visão privilegiada da noite de Seattle. A cidade parecia um grande tapete negro salpicado por luzes cintilantes. O vidro também refletia o contorno dos corpos dos dois, como uma espécie de plano de frente daquela bela visão de fundo.

Os olhos azuis se mantiveram presos no vidro enquanto Andrew falava. Por mais que as palavras dele fossem amenas, Hyacinth não se sentiu consolada. Pareciam declarações vazias perto da realidade que ela encarava agora. Não existia consolo quando só ela sabia o quanto se sentia isolada e solitária.

Quando Westphal se virou na direção do ex-namorado, sua intenção era explicar o seu ponto de vista e a dificuldade que ela sentia em recuperar a vida que deixara para trás há dez anos. Mas suas palavras ficaram presas na garganta quando Ackerman a surpreendeu com aquela carícia. Inicialmente foi um toque superficial, mas o corpo de Hyacinth reagiu como se os dedos de Andrew contivessem uma potente corrente elétrica.

Westphal nunca teve dúvidas de que Ackerman fazia muita falta em sua vida, mas aquele toque serviu para que a ruiva tivesse certeza de que jamais sentiria aquilo sem ele. Somente Andrew era capaz de lhe arrancar aqueles arrepios e de aquecer seu coração com tanta intensidade.

Mais uma vez, Hyacinth pensou em dizer alguma coisa, mas suas palavras foram novamente bloqueadas, desta vez por um beijo feroz. Tudo aconteceu tão rápido e os movimentos de Andrew foram tão abruptos que Cinth só se deu conta do que estava acontecendo depois que já estava nos braços do ex-namorado, com os lábios de Andy já colados aos dela.

A partir daí, qualquer raciocínio lógico perdia espaço para os instintos e para as saudades sufocantes que Westphal sentia de Andrew, do perfume da pele dele, do calor dos seus lábios, da firmeza dos seus toques, da intensidade dos beijos. Hyacinth se entregou por completo, abandonando os fantasmas do passado.

A ruiva teve um vislumbre da realidade quando sentiu seus joelhos se dobrando antes de cair de costas sobre um colchão macio. Antes que ela pudesse raciocinar que estava no quarto de Ackerman, ele se inclinou sobre o corpo dela e bloqueou por inteiro a sua visão. Os braços de Cinth pareciam ter vida própria quando se cruzaram atrás da nuca de Andrew e o puxaram ainda mais para perto.

Nenhum dos dois se preocupou em esconder a paixão nos minutos seguintes. Embora o relacionamento de dez anos atrás também fosse movido por aquele mesmo ardor, era notável que alguma coisa mudara. Hyacinth e Andrew tinham adquirido uma inquestionável maturidade e não pareciam mais ter dúvidas do que desejavam um do outro.

Westphal havia cultivado as lembranças para que a sua mente nunca se esquecesse dos momentos felizes ao lado do ex-namorado, mas sua memória não era fiel à perfeição da realidade. Estar novamente nos braços de Ackerman era a prova de que nenhuma lembrança faria Hyacinth tão feliz quanto a chance de tê-lo novamente para si.

Era difícil saber como seriam as coisas depois daquela noite. Por mais que quisesse alimentar as esperanças, Hyacinth sabia que aquilo poderia ser apenas um tropeço do qual Andrew se arrependeria assim que recuperasse a capacidade de pensar. E ela não o julgaria caso Andy se afastasse. Cinth sabia perfeitamente que era uma ameaça que nenhum pai gostaria de levar para a vida de um filho.

Exatamente pela incerteza sobre o futuro, Hyacinth decidiu aproveitar cada segundo do presente. No fim das contas, aquela poderia ser mais uma das lembranças que ela lutava desesperadamente para manter vivas na memória.

As respirações ofegantes dos dois eram os únicos sons que ecoavam no quarto silencioso depois que o casal finalmente se deu por satisfeito. Enrolada num bolo de lençóis amassados e com as pernas entrelaçadas nas pernas de Andrew, Hyacinth tentava controlar a respiração descompassada.

Parecia impossível tirar um sorriso do rosto e um novo arrepio se espalhou pelo corpo dela quando Ackerman apoiou a cabeça sobre o seu peito, de onde escutava com facilidade as batidas aceleradas do coração e sentia o pulmão subindo e descendo freneticamente para recuperar o fôlego.

Uma das mãos de Westphal mergulhou nos cabelos suados do ex-namorado, matando a vontade sufocante de mexer novamente nos cachos de Andrew. Com os dedos livres da outra mão, Hyacinth fez uma carícia no rosto do homem. A barba rala espetava sua pele delicada, arrancando dela gostosos arrepios.

- Não parecia tão perfeito nas minhas lembranças...
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Qua Jun 22, 2016 2:19 am

A espontaneidade de Davina era uma qualidade que a tornava única. Qualquer mulher enlouqueceria se estivesse diante das lentes de uma câmera profissional depois de ter enfrentado uma grande tempestade, mas Ackerman reagiu como se fosse uma brincadeira divertida. E esta leveza só deu a Kevin ainda mais certeza do quanto ele sentia falta dela e de como Davina era única e insubstituível.

- Você ficou maravilhosa.

O elogio não fora feito de forma vaga. Por mais que Davina não estivesse com uma aparência impecável, as imagens que Templeton mostrou a ela na tela da câmera eram perfeitas. Kevin capturara os melhores ângulos da moça. O sorriso sincero e o bom humor de Ackerman eram mais que o suficiente para afastar o foco dos seus cabelos atrapalhados e da maquiagem estragada pela chuva.

Ao perceber a iniciativa de Davina em tirar uma selfie, Kevin franziu o nariz numa breve careta de desagrado, típico de um profissional diante de uma amostra ruim do seu trabalho. Mas ele nem pensou em tirar da amiga aquele gosto. Os dois se aproximaram e Templeton se enquadrou na tela do celular de Davina antes que ela capturasse a imagem que, embora estivesse longe da perfeição profissional de Kevin, deixava clara a harmonia que ainda existia entre os dois.

- Ainda bem que você não trabalha como profissional. – Templeton zombou de forma divertida – Eu poderia fechar as portas do estúdio com esta concorrência tão desleal.

Apesar do clima íntimo e divertido, Kevin não imaginava que Davina teria coragem para tomar uma iniciativa. Ela havia se tornado uma mulher independente e muito segura de si, mas Templeton jamais pensou que a ousadia da ex-namorada chegaria a aquele ponto.

Racionalmente, Kevin sabia que aquele era um erro muito grande do qual ele se arrependeria amargamente tão logo recuperasse a consciência. Mas foi impossível resistir quando cada célula do seu corpo parecia vibrar e implorar por Davina. Dez anos tinham se passado e Templeton mudara por completo o seu comportamento e os rumos de sua vida, mas seu coração nunca deixara de bater mais forte pela caçula dos Ackerman.

Ouvir de Davina que ela se sentia da mesma maneira foi o bastante para escurecer por completo a parte racional da mente de Kevin. Ele só conseguia pensar no quanto ainda era louco por ela e nas saudades sufocantes que sentia da ex-namorada quando se deixou levar pela iniciativa de Davina e mergulhou de cabeça no beijo começado por ela.

A forma ávida com que os lábios se moviam deixava claro que nenhum dos dois estava raciocinando. Os braços firmes de Templeton deslizaram pela cintura de Davina e a puxaram mais para perto, colando os corpos. As roupas de ambos molhadas pela chuva e coladas nos corpos ofereciam uma barreira muito pequena, que se tornou ainda mais desprezível quando os dedos de Kevin se enfiaram sob a blusa de Ackerman, tocando diretamente a pele macia dela.

A primeira iniciativa havia sido de Davina, mas Templeton compartilhou a culpa dela quando assumiu o controle junto com a ex-namorada. Foi ele quem empurrou os corpos na direção da ampla parede branca até que as costas de Davina estivessem apoiadas ali. Os pés dela perderam o contato com o chão quando Kevin a segurou com mais firmeza até que Ackerman passasse as coxas pela cintura dele.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Qua Jun 22, 2016 2:47 am

Nem em seus sonhos mais ousados, Andrew imaginou que algum dia fosse ter Hyacinth novamente em seus braços. Com medo de que aquilo não passasse de uma fantasia de sua mente solitária, ele se agarrou a cada segundo, a cada toque e cada beijo, querendo gravar em sua memória a textura de cada canto do corpo da ruiva, assim como seu perfume.

Caso ele acordasse finalmente daquele sonho divino, queria poder se apegar nas memórias falsas. Mas no fundo, Andy sabia que sua mente jamais seria capaz de reproduzir tamanha intensidade daquele momento.

O restante do mundo desapareceu. Nem mesmo as grandes janelas com a vista de Seattle eram suficientes para lhe fazer lembrar que ainda havia vida fora daquele quarto. Os anos passados, a tristeza enfrentada, a frustração por não ter Westphal em seus braços e até mesmo os pesadelos da ex-namorada lhe abandonando em um refeitório lotado existiam mais. Nada tinha importância, desde que ele pudesse saciar o desejo desesperado de tê-la mais uma vez em seus braços.

Com a respiração ofegante, Ackerman manteve Hyacinth junto ao seu peito, seus dedos deslizando pelos longos fios vermelhos, sentindo as curvas macias que formavam seus novos cachos. O sorriso também pairava em seus lábios, assim como o olhar perdido que lhe dava uma aparência quase grogue.

A respiração pesada fazia seu peito subir e descer, ainda ruidosa enquanto ele tentava acalmar as batidas do coração. Andy puxou a mão de Hyacinth que tocava seu peito e a levou até os lábios, beijando suavemente seus dedos antes de uni-la ao seu peito.

- Eu acho que nunca foi perfeito assim.

Sua voz soou rouca e preguiçosa, como se ele tivesse acabado de acordar, e ainda assim, era deliciosa aos ouvidos, tornando o momento ainda mais sexy. As pálpebras pesadas se fecharam por um instante enquanto Ackerman se deliciava do calor que a proximidade do corpo de Westphal provocava. Ele girou a cabeça para o lado até depositar um beijo carinhoso no topo de seus cabelos ruivos.

- Talvez dez anos afastados tenha tido algum benefício, afinal de contas.

Andrew começava a sentir o cansaço se apoderar de seu corpo, mas estava lutando contra o sono. Ele não queria dormir e ser obrigado a acordar em um momento que precisasse enfrentar o que havia acabado de acontecer. Ele sequer sabia o que pensar ou o que aquilo tudo havia significado. A única certeza era querer prolongar aquele momento ao máximo. As complicações poderiam esperar.

As pálpebras se ergueram novamente, lentas e pesadas, mas revelaram os olhos castanhos com um brilho intenso que não aparecia em seu olhar há uma década. Com o indicador, Andrew tocou a ponta do queixo de Hyacinth até que o rosto delicado dela estivesse inclinado, obrigando os olhos azuis a encará-lo.

- Você pode ficar aqui essa noite? Por favor?
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qua Jun 22, 2016 3:11 am

Cada movimento de Davina e Kevin mostrava o desespero e a necessidade de ter um ao outro. Era indiferente que tanto tempo tivesse se passado e que os dois não tivessem mais relacionamento algum. Pouco importava como o namoro havia terminado ou que eles tivessem vidas completamente diferentes agora. A única coisa relevante era a urgência de estarem juntos.

Para Ackerman, era como se ela tivesse novamente dezesseis anos. Parecia impossível que seu coração continuasse batendo tão acelerado por Kevin, ainda tão apaixonado quanto antes. Mas a certeza de que nenhum outro homem jamais seria capaz de despertar um terço dos sentimentos como Templeton fazia, apenas lhe confirmava que ela jamais seria capaz de amar outro.

Davina poderia jurar que já havia superado o ex-namorado. Ela tinha uma vida movimentada e, por ser jovem e solteira, raramente passava os finais de semana em casa, sempre rodeada de algum pretendente para distraí-la. Embora tivesse sido uma boa diversão por bastante tempo, sua mente e seu coração agora sabiam que não poderiam desejar ninguém além de Kevin.

Suas mãos mergulharam nos cabelos molhados de Templeton, se perdendo em seus fios grudados enquanto correspondia ao beijo intenso. Ela só percebeu que Kevin andava pelo estúdio quando ele caiu sentado no sofá, a mantendo firme em seu colo, com os joelhos apoiados nas laterais do seu corpo.

O beijo foi interrompido apenas por um instante, quando Davina buscou pelas íris escuras de Kevin. Seu peito já subia e descia de forma exagerada com sua respiração ofegante, e ela mordeu o lábio inferior, permitindo que a razão ocupasse sua mente por meio segundo.

O que os dois estavam fazendo era tão errado quanto parecia ser certo. Kevin era comprometido e, o que os dois estavam fazendo naquele momento, era exatamente o mesmo motivo pelo qual o relacionamento dos dois havia chegado ao fim.

Enquanto sua mente lutava para assumir o controle, seu corpo implorava para esquecer todos os problemas e aproveitar aquele momento. Se deixando vencer pelos desejos, Davina se inclinou para trás apenas para puxar pela cabeça a camisa encharcada, revelando o sutiã de renda que usava por baixo.

Seus olhos castanhos passearam pelo rosto de Kevin, esperando alguma reação, mas o medo de que ele desistisse daquela loucura fez com que suas mãos também procurassem a camisa dele com urgência, se livrando da peça em seguida.

O pequeno sofá estava longe de ser o lugar mais confortável para reviver aquele amor, mas era recompensado pela presença um do outro, tornando insignificante qualquer coisa ao seu redor.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Qui Jun 23, 2016 12:42 am

Por longos minutos, Hyacinth não fez nada além de olhar para o homem adormecido ao seu lado. A madrugada chegava ao fim e os primeiros raios de sol começavam a iluminar o quarto, mas os olhos azuis já estavam abertos há um bom tempo, fixos na imagem serena de Andrew.

Admirar o sono dele era uma excelente definição de paz para Westphal. Era inacreditável fazer uma pausa em sua vida tão tumultuada para simplesmente acompanhar o som ritmado da respiração de Andrew e a serenidade de sua expressão durante aquele sono tranquilo.

Não era a primeira vez que os dois faziam amor, mas passar toda a noite ao lado de Ackerman era algo inédito. No passado, Hyacinth permitia-se no máximo um cochilo para recuperar o fôlego antes de “fugir” de volta para o próprio quarto e evitar um flagrante que comprometeria o trabalho de Andy na escola. Desta vez, os dois tinham dividido a mesma cama até o amanhecer e isso parecia ainda mais íntimo do que uma relação sexual.

Num gesto delicado que não interromperia o sono de Andrew, Hyacinth levou os dedos até os cabelos bagunçados dele. Seus lábios se curvaram num sorriso enquanto ela repetia a sua carícia preferida e tentava ajeitar os cachos. Mesmo que Ackerman usasse os fios mais curtos agora, Cinth não tinha a menor dificuldade em encaixar seus dedos finos nas pequenas curvas formadas pelos cabelos castanhos.

Era difícil prever o que aconteceria com eles agora. A última noite havia sido mais do que especial, mas Hyacinth compreenderia se Andy não quisesse mergulhar de volta naquele relacionamento conturbado. Ainda mais levando em consideração que Hardin agora faria parte daquela equação e teria que encarar os riscos de estar tão próximo a um Incarna.

Mesmo diante desta triste incerteza, Westphal não pretendia fazer cobranças ou exigir um posicionamento definitivo de Andrew. Por ora, tudo o que importava para ela era ter mais uma linda memória de Ackerman para juntar às lembranças de dez anos atrás.

Os mesmos dedos que brincavam com os cabelos de Andrew desceram lentamente para o rosto dele, acariciando a barba rala que o rapaz cultivava agora. Aquele detalhe até poderia contribuir para uma aparência mais madura quando Ackerman estava acordado, mas com os olhos fechados e com aquele semblante tão sereno, Andy parecia ter voltado a ser um menino.

Ao contrário da primeira carícia, desta vez a intenção de Hyacinth era despertar o rapaz. Seus dedos deslizaram pelo rosto dele e ela se inclinou para roçar o nariz no nariz de Andrew quando as pálpebras dele tremeram antes de finalmente se abrirem.

- Eu preciso ir, Andy.

As palavras soaram num suave sussurro, mas não havia necessidade de elevar mais a voz no quarto silencioso. Não quando os dois estavam separados somente por poucos centímetros.

- Hardin. – Cinth explicou na mesma entonação – É melhor que eu vá antes que ele acorde. A última coisa que quero é confundir a cabecinha dele.
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Re: Escola de mutantes

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