Escola de mutantes

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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Dom Jun 12, 2016 4:20 am

A reação de Andrew ultrapassava todos os limites de um tutor que somente deseja proteger a sua pupila. O desespero dele era palpável e suas lágrimas deixavam evidente que a ideia de perder Hyacinth era insuportável. Davina havia percebido os sentimentos do irmão por Westphal há alguns minutos, mas agora Ackerman escancarava aquela verdade para o restante da escola.

Nem mesmo Hyacinth esperava por aquela reação. O queixo da garota caiu e seus olhos também se encheram de lágrimas emocionadas. Mesmo que não entendesse os motivos de Andrew para abandoná-la há algumas semanas, Westphal não tinha mais dúvidas de que ele ainda sentia alguma coisa por ela.

E isso colocava Hyacinth na situação mais complicada de toda a sua vida. Ela ainda amava Andrew e queria desesperadamente mais uma chance ao lado dele. Mas, naquele instante, Ackerman estava competindo com a mãe de Cinth pelo coração da ruiva. Embora a sua convivência com Rachel Westphal tivesse sido muito breve, os laços de sangue falavam mais alto. Agora que sabia que a mãe sofria exatamente a mesma mutação que ela, Hyacinth não tinha dúvidas de que deveria ficar ao lado dela.

- Andy...

A maneira piedosa como Cinth pronunciou o apelido do rapaz já indicava que ela não o escolheria. A garganta da ruiva estava apertada, mas ela se obrigou a ser forte.

- Eu tenho que ir.

Os olhos azuis buscaram pelo rosto do Incarna e, como era capaz de entender o que se passava na cabeça da filha, Rachel soltou a mão dela e permitiu que Hyacinth se despedisse adequadamente de Andrew.

Mesmo sabendo que toda a mansão seria testemunha daquele beijo, Hyacinth se aproximou, colocou-se na ponta dos pés e cobriu os lábios de Andrew com os seus num beijo breve, mas carregado de sentimentos. Algumas exclamações ecoaram pelo refeitório, mas ninguém ousou interromper aquele momento.

- Desculpe, Andy. Mas isso é um adeus.

As palavras definitivas foram sussurradas apenas para Ackerman antes que Hyacinth voltasse para junto da mãe. Embora ainda precisasse de explicações para entender tudo o que acontecera no passado, Cinth sabia que não haveria um futuro para ela e Andrew. Rachel fora obrigada a abandonar a filha e o marido que tanto amava por causa daquela mutação. Hyacinth preferia colocar um ponto final naquela história com Andy antes que se envolvesse ainda mais e antes que uma criança inocente passasse a fazer parte daquela equação.

Diante de uma plateia abismada, o Incarna fez uma exibição de mais um dos seus poderes. A mão enluvada foi apoiada com firmeza num dos ombros de Hyacinth e o mutante se teletransportou, levando consigo a garota.

Não se falou de outro assunto nos meses seguintes. Milhares de lendas começaram a surgir, mas nenhuma informação sobre o paradeiro da garota era concreta. Hyacinth Westphal simplesmente desapareceu e nunca mais entrou em contato nem mesmo com Davina, Dana ou Andrew.

Mesmo agora, que o lendário aparecimento do Incarna na mansão já completava dez anos, ainda havia quem comentasse o assunto. A história começava a ganhar ares fantasiosos e muitas pessoas sequer acreditavam no ocorrido, mas quem estava presente no refeitório naquela noite sabia que tudo fora muito real e que Hyacinth Westphal fora uma aluna de verdade, e não somente parte de uma lenda envolvendo o Incarna.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Jun 12, 2016 4:52 am

A parede do quarto era inteiramente de vidro e as cortinas estavam abertas, permitindo que os raios de sol da manhã cobrissem o grande tapete branco e a enorme cama onde Davina Ackerman estava espalhada, com os lençóis enrolados entre as pernas.

A cidade de Seattle se estendia em uma bela vista com as dezenas de prédios, como se estivessem aos pés da dona daquela cobertura. O prédio em que Davina morava era um dos mais altos e lhe dava uma paisagem privilegiada, mas que passara a ser ignorada aos seus olhos depois de alguns anos morando ali.

Qualquer um que entrasse na cobertura pela primeira vez, ficaria de queixo caído. O lugar era enorme, e assim como o quarto, a sala tinha uma parede inteiramente de vidro com a mesma vista para os edifícios. Os móveis eram caros e a decoração moderna e ao mesmo tempo sofisticada. A “pequena” herança dos Ackerman havia sido recebida de bom grado pela caçula, como se os pais quisessem se redimir pelos anos de descrença sobre seus poderes.

Os cabelos cor de mel estavam espalhados pelo travesseiro branco e ela estava agarrada a uma outra almofada, entregue ao sono, quando o colchão se mexeu. O movimento foi muito discreto, mas suficiente para que ela erguesse as pálpebras sonolentas e forçasse a vista embaçada a enxergar a pequena figura que se juntava a ela.

- O que você tá fazendo acordado, meu amor?

A cama não era muito alta, mas o menininho subiu com alguma dificuldade e seus pés ficaram suspensos no ar. Seus cabelos estavam molhados e perfeitamente penteados. Seu uniforme branco e azul estava impecável, assim como os pequenos tênis estavam com os cadarços amarrados.

O menino parecia tímido, mas ainda assim, encarou Davina com as mãozinhas unidas.

- Está na hora da aula. – Ele explicou baixinho, surpreendendo a mulher.

Confusa, Davina ergueu o rosto e franziu a testa, provocando uma pequena ruga entre as sobrancelhas ao perceber o sol que invadia o quarto. Ela não fazia a menor noção das horas, mas se o pequeno Hardin estava devidamente vestido, certamente não havia escutado o despertador.

- A gente pode faltar aula hoje. – Davina sugeriu com um sorriso preguiçoso, fazendo o menino arregalar os olhos. – Está chovendo muito.

Passado o susto daquela primeira oferta, o menininho abriu um largo sorriso, mostrando covinhas meigas em suas bochechas.

- Não tá, não. Tá sol. – Seu dedinho minúsculo apontou para a grande janela.

Como se não fosse nada demais, Davina balançou um ombro e ergueu uma das mãos para cima, quase em um sinal de descaso. Mas poucos segundos se passaram quando algumas nuvens mais escuras começaram a manchar o céu azulado.

A pequena demonstração arrancou uma gostosa gargalhada de Hardin Ackerman, mas uma voz masculina ecoou repreendendo a atitude da mulher.

- Davina!!! Logo cedo???

Andrew Ackerman entrou no quarto no instante seguinte. Dez anos haviam se passado desde a cena aparição de Incarna na mansão, mas pouco havia mudado em sua aparência. Seus cabelos estavam um pouco mais curtos e era possível notar os traços mais maduros, além da barba rala que agora ele usava diariamente. Graças a sua mutação, Andy envelhecia em um ritmo mais lento, embora ainda mais acelerado que Dana.

- Que é??? – Davina resmungou, movimentando os dedos no ar para que as nuvens desparecessem no instante seguinte.

- Estamos atrasados, Hardin. Sua tia claramente não vai sair da cama tão cedo. – Andrew lançou um olhar severo na direção de Davina, que apenas girou os olhos com impaciência.

- Deixa de ser resmungão, Andy. Eu falei que ia levar o moleque pra aula.

- Não dá, já está tarde e você nem está vestida.

Davina deslizou para fora da cama, jogando os lençóis para o lado. Ela vestia uma longa camiseta cinza que alcançava a metade de suas coxas. Sem cerimonias, ela puxou uma calça jeans largada sobre a poltrona e a vestiu apressadamente.

- Viu? Já tô vestida. – Ela sorriu desafiadora, mas Andrew continuou encarando a irmã, balançando a cabeça.

- E vai sair descabelada assim?

Bufando, Davina deslizou os dedos pelos fios cor de mel até prendê-los em um coque desajeitado.

- Mais alguma crítica ao meu senso de moda, irmãozinho?

- Você está um caco. Parece que está de ressaca.

- Deve ser porque eu estou de ressaca.

A confiança que Davina Ackerman havia conquistado com seus poderes também havia transformado a menina que ela havia sido em seus anos na mansão. Era comum que agora virasse noites em festas e chegasse em casa pela manhã. Não havia necessidade de trabalhar, com a fortuna que os pais lhe davam sem questionar.

Desde o fatídico dia em que Hyacinth deixara o refeitório na companhia de Incarna, Andrew Ackerman nunca mais havia sido o mesmo. Mas sua irmã caçula também nunca havia voltado a ser tão inocente e delicada quanto era quando tinha Kevin ao seu lado.

O rapaz deixou a mansão na manhã seguinte e Davina tivera poucas notícias dele desde então. Ela ainda levou longos nove meses até finalmente Dana acreditar que estava preparada para enfrentar o mundo real. Sem notícias de Templeton, Ackerman tentou dar uma segunda chance ao relacionamento com Derek Hale, apenas para confirmar de que não conseguia sentir por ele a mesma paixão que tinha por Kevin.

Alguns outros namorados passaram pela vida de Davina ao longo daqueles dez anos, e no começo ela sempre comparava os relacionamentos mornos com o amor que já havia experimentado antes. Quando por fim se acostumou, aquela vida passou a não incomodar mais Ackerman. Ela estava fadada a viver em relacionamentos casuais, chegando a acreditar que toda a paixão que sentira por Kevin era apenas fruto de uma infantilidade de seus anos de adolescência e que aquilo não existia de fato.

Enquanto sua vida amorosa era um desastre, seus poderes haviam seguido por uma linha oposta. Exatamente como Templeton previra, Davina acabou se tornando uma mulher incrivelmente poderosa.

Seu controle sobre o tempo havia se tornado extremamente fácil. As descargas de energia ou as locomoções do ar eram manipuladas de forma tão simples que Ackerman aprendera a flutuar. Era em cima dos seus poderes que Davina transbordava confiança, sem lembrar em nada a menina que escutava tantos comentários maldosos a respeito de sua evolução.

- Vamos, Hardin... A gente vai se atrasar. – Andrew girou os olhos e tocou o ombro do menino, o guiando para fora da cama.

- Heeey, eu já falei que levo ele! – Davina resmungou, mas suavizou sua expressão ao encarar o menino. – Eu sou mais legal do que o seu pai resmungão, não sou, Hardin?

Um novo sorriso surgiu no rosto do menino, provocando suas covinhas, e ele concordou com um menear da cabeça.

- Viu só? A Tia Davs é demais e você é um mané.

Mostrando a língua para Andy, Davina se apressou em segurar a mão de Hardin e o puxar para fora do quarto, sem se importar com a aparência.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Dom Jun 12, 2016 5:37 am

O flash da câmera profissional iluminou todo o estúdio e capturou uma imagem perfeita da pequena modelo que posava com um enorme copo de leite nas mãos. A garotinha havia tomado um gole da bebida e agora exibia um adorável bigodinho branco que só servira para deixar a foto ainda mais perfeita.

- Esta ficou perfeita, Emma! – o fotógrafo conferiu a imagem na tela da câmera digital – Você é uma estrela!

- Obrigada, Kev.

A naturalidade com que a garotinha de três anos recebeu aquele elogio fez com que Kevin soltasse uma risada. Quando fez aquele curso de fotografia e começou a trabalhar na área, o rapaz nunca imaginou que se tornaria um especialista em publicidade com crianças. Sempre que qualquer empresa precisava fotografar uma criança, o nome dele era um dos mais procurados. Nem Templeton sabia que levava jeito com os pequenos até começar a receber os elogios pelos trabalhos realizados.

A foto tirada de Emma logo estaria estampada nas caixinhas de leite de uma das marcas mais famosas do país. E também era dele a imagem de um belo outdoor que anunciava uma linha de calçados infantis em vários pontos da cidade.

Quando deixou a escola de mutantes há dez anos, Kevin jamais imaginaria que um dia ele estaria tão feliz e tão bem adaptado ao mundo dos humanos “normais”. É claro que suas habilidades ainda eram muito úteis, mas agora Templeton só usava os seus poderes em situações bastante pontuais.

Ao fim de mais uma sessão de fotos, Kevin apagou as luzes do estúdio e fechou as portas e janelas. Era sexta-feira e começava a anoitecer, então ele só voltaria a pisar ali na segunda-feira. Nos primeiros anos como fotógrafo profissional, era comum que Templeton trabalhasse à noite e nos finais de semana, mas agora o rapaz já estava chegando à fase em que queria aproveitar melhor as coisas boas da vida.

Naquela noite, especificamente, o que Kevin mais queria era tomar um banho demorado, pedir uma pizza enorme e abrir uma garrafa de cerveja diante de qualquer jogo de basquete ou de futebol que estivesse passando na televisão do seu apartamento. Mas seus planos foram frustrados quando, logo na entrada do prédio onde trabalhava, Templeton se deparou com Theodore.

Dez anos não serviram para colocar um fim naquela amizade. Conforme os planos, Theo, Kevin e Hugo dividiram um apartamento logo que os três foram liberados da mansão. Theodore foi o primeiro a abandonar o barco quando se casou, para a surpresa de todos, com Ursula Smith. Os dois mantiveram contato fora da escola e descobriram que tinham muito mais em comum do que seus poderes com o calor. Depois de sete anos de casados, eles tinham dois filhos e Ursula estava grávida do terceiro.

A vida sentimental de Hugo não havia progredido tanto, mas o rapaz acabou se mudando para uma casa mais próxima do trabalho quando começou a prosperar na vida profissional. Assim como Kevin, Hugo se encaixou com perfeição no mundo dos humanos, fez uma faculdade e agora era um respeitado veterinário.

Embora não se vissem mais todos os dias, os três amigos continuavam inseparáveis. Era tão comum que eles se encontrassem que Kevin não estranhou a presença do amigo na calçada, obviamente esperando por ele.

- Cerveja?

- A Ursula deixou? – Templeton provocou com um sorrisinho – Eu detestaria saber que você apanhou hoje por minha culpa.

- Não enche, Kev. – os olhos de Theo giraram – E ela sabe. Eu avisei.

- Avisou ou pediu permissão?

Uma gargalhada escapou dos lábios de Templeton quando a resposta do melhor amigo foi erguer o dedo do meio na direção dele.

- Um pai de família não deveria fazer esse tipo de gesto. – os dois começaram a seguir juntos na calçada na direção de um barzinho próximo onde costumavam se encontrar para tomar uma cerveja e colocar o assunto em dia – Não chamou o Doutor Dolittle?

- Cirurgia de castração de equinos. – Theodore fez uma careta – Eu prefiro não imaginar a cena. Mas ele disse que apareceria se terminasse mais cedo. Não vai avisar a patroa que vai atrasar?

- Ela não está na cidade, foi visitar os pais. Além disso, eu só preciso pedir a permissão dela quando a aliança passar do dedo direito para o esquerdo. – Templeton ergueu a mão direita onde brilhava a aliança de noivado – Por que acha que estou adiando tanto a marcação da data? Eu olho para você e vejo que ainda não aproveitei o bastante a minha liberdade.

O bar estava bem cheio quando os dois amigos empurraram a porta principal. Por sorte, os dois conheciam o ambiente o bastante para saber que sempre havia bancos vazios junto ao balcão. Foi exatamente ali que eles se acomodaram e, em poucos minutos, já brindavam com enormes canecas de cerveja.

Os dez anos passados haviam feito bem para Kevin. Mesmo que pudesse modificar facilmente qualquer detalhe de sua aparência, Templeton não viu problemas em assumir os traços mais maduros que ganhara com o passar do tempo. Seus cabelos estavam mais curtos e ele havia se livrado dos cachos. Agora o rapaz assumira de vez os olhos escuros. A única coisa que não havia mudado era o sorriso despreocupado. Theodore também estava mais maduro, havia ganhado alguns poucos quilos depois do casamento e agora usava um cavanhaque.

- Já decidiu o que vai fazer...? – Theo estava mais sério quando encarou o melhor amigo – O dia está chegando.

O sorriso de Templeton sumiu e sua expressão mais preocupada indicava que o rapaz sabia muito bem do que Theodore estava falando.

Os três amigos tinham recebido uma carta de Dana no começo daquele mês. A diretora mencionava a sua preocupação com alguns acontecimentos que começavam a ganhar espaço nos jornais. Os humanos tratavam o assunto como tragédias inexplicáveis, mas um mutante reconheceria que havia um semelhante agindo por trás de tudo aquilo. A ideia de Dana era reunir um time com seus melhores e mais confiáveis alunos para que pudessem agir numa frente oposta.

Por um lado, Kevin se sentia muito honrado por ter sido lembrado pela tutora. Por outro lado, ele não tinha certeza se queria deixar de lado a vida estável que construíra para mergulhar novamente no mundo dos mutantes.

A reunião de Dana estava marcada para o início da próxima semana, mas até então Templeton ainda não sabia se iria comparecer ou não à mansão. No fundo ele sabia que o retorno à escola traria à tona as lembranças que ele se esforçara muito para afundar no canto mais escuro da sua mente.

- Ainda não sei. Você vai?

- Não. A Ursula teve um ataque quando contei a ela. No fundo ela tem razão. Eu tenho três filhos agora. Não sou a pessoa mais indicada para arriscar o meu pescoço pelo bem da nação. Mas já escrevi para a Dana dizendo que ela pode contar comigo se precisar de qualquer coisa menos arriscada.

- E o Hugo?

- O Doutor Dolittle vai. Ele pareceu bastante empolgado e honrado com o convite. O Hugo nunca foi muito bom das ideias, né?

- Eu me sinto mal em dizer não à Dana. Mas realmente não sei se estou preparado para voltar à mansão. Eu me esforcei demais para esquecer tudo o que aconteceu. E... – Templeton fez uma longa pausa antes de completar - ...tem a chance “dela” também ter sido chamada.

Por longos segundos, Theo encarou o melhor amigo com um semblante confuso. Quando finalmente entendeu a quem Kevin se referia, a boca de Theodore se abriu na mais completa surpresa. Os dois não falavam daquele assunto há anos, Kevin agora usava uma aliança de noivado no dedo. A última coisa que Theo imaginava era que o amigo ainda pensava na ex-namorada.

- Davina? Você ainda pensa nela???

Um sorriso amargo brotou nos lábios de Templeton e ele fugiu da resposta levando a caneca de cerveja à boca. Como ele poderia se esquecer de Davina Ackerman? Sempre que o tempo mudava abruptamente, sempre que uma brisa o atingia Kevin se perguntava se aquilo não seria obra de Davina.

Era como uma maldição. Ele havia destruído muitos corações durante a sua adolescência, mas seu castigo fora se apaixonar pela única garota que não o queria ao seu lado. Mesmo depois de dez anos, ainda era por Davina Ackerman que o coração de Templeton batia mais forte.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Dom Jun 12, 2016 6:21 am

O colchão de Davina afundou quando Andrew se sentou em sua beirada e encarou o quarto vazio, o olhar perdido pela porta em que a irmã havia desaparecido com o pequeno Hardin.

A grande cidade que se estendia sob os pés do prédio parecia extremamente pacífica quando vista ali de cima, longe de suas buzinas irritantes e do zunido provocado por diversas pessoas que falavam ao mesmo tempo. Andrew queria prolongar aquela paz o máximo possível, mas sabia que era impossível. Diferente de Davina, ele não conseguia simplesmente fazer de conta que aquela não era sua realidade.

A cama da irmã era enorme e caberia três pessoas deitadas com conforto. Mesmo com seus lençóis embolados, Andy se sentia tentado a se jogar ali e ignorar o restante do mundo, mesmo que só por um dia.

Com uma expressão cansada após ter passado toda a noite no laboratório, Andy virou o rosto para encarar a bela vista do quarto de Davina. Dez anos haviam se passado, mas bastavam alguns segundos a sós para que sua mente novamente vagasse até a lembrança antiga, mas ainda perfeita do par de olhos azuis.

A vista daquela janela parecia uma ironia, como se o destino quisesse lembrar Ackerman mais uma vez que o mundo era enorme, abarrotado de pessoas e que Hyacinth Westphal havia se perdido para sempre.

Quando não passava as noites trabalhando, era comum que Andrew acordasse em um sobressalto após reviver em seus sonhos a última noite de Hyacinth na mansão. Mesmo depois que Davina lhe contou sobre a verdadeira identidade de Incarna, era impossível se conformar com a partida da ruiva e a ausência de qualquer informação.

Nos primeiros anos, Andrew ignorou a tentativa de Hyacinth de sumir. Tolamente, ele largou a mansão e seu papel como tutor para buscar a ex-namorada em todos os cantos possíveis. Andy tentava seguir pistas, abandonou a família e passou a viajar de cidade em cidade como se pudesse encontrar os fios ruivos em qualquer esquina.

Três anos depois de sua partida, Andrew finalmente se sentiu esgotado e derrotado. Ele carregaria para sempre o peso em seu peito de nunca ter dito a Hyacinth que a amava, e mesmo depois de tantos anos, seu coração ainda se espremia com aquela certeza de que nunca amaria ninguém como ela.

Conformado de que Westphal pertenceria apenas ao seu passado, Andrew se esforçou para retomar a sua vida. A especialização que um dia havia sido usada como mentira para Hyacinth acabou se tornando uma realidade, e foi durante os estudos que Andy conheceu Molly Wilson.

Dona de um sorriso encantador e de cabelos tão negros e brilhosos, Molly foi a primeira pessoa capaz de arrancar um sorriso de Andrew após tanto sofrimento. Ela era tão apaixonada pela genética quanto o próprio Ackerman, e embora fosse uma humana por completo, sem mutações, ela não se assustou quando Andy revelou o seu segredo no aniversário de um ano de namoro.

Wilson era extremamente inteligente e mergulhou de cabeça na ideia de Andrew em estudar as mutações. Andy queria entender como cada pessoa tinha um poder diferente e o que levara Hyacinth a ser tão diferente, capaz de absorver todas as mutações. Mas o que mais o prendia no laboratório eram os estudos a respeito da própria mutação.

Andy queria encontrar a solução em seu próprio DNA para que doenças terríveis pudessem ser curadas. E se o câncer não fosse mais uma realidade para a humanidade? E se a resposta estivesse correndo em suas veias?

Apesar do relacionamento com Molly se tornando cada vez mais sério, Andrew nunca foi capaz de compartilhar um único segredo: ela jamais entendeu a origem dos pesadelos de Ackerman, que noite após noite, acordava em sobressaltos, encharcado em suor.

Mesmo com aquele mistério, Wilson aceitou o pedido de casamento que veio alguns meses após a revelação de sua mutação. O pequeno Hardin nasceu nos primeiros meses do casamento, e Andrew finalmente se sentia feliz de verdade, embora ainda sempre sentisse aquele vazio que já se tornara hábito.

O momento que deveria ser o mais feliz de sua vida se transformou em um pesadelo quando Molly foi assassinada durante um assalto completamente banal, após sair tarde do laboratório. Hardin era apenas um bebê, mas parecia compreender que algo muito errado havia acontecido em sua vida.

Embora recebesse do pai todo amor e carinho, o menino que era uma mistura perfeita dos olhos castanhos de Andy e das covinhas de Molly, amadureceu muito mais rápido do que o ideal. Mesmo tendo apenas cinco anos, Hardin sempre surpreendia o pai e a tia com frases complexas e sábias.

Após a morte de Molly e por viver sempre mergulhado em trabalho, Andy aceitou o convite da irmã para que morassem na cobertura que recebera de persente dos pais. O lugar era enorme e distribuía diversos quartos capazes de abrigar um exército inteiro, mas a presença de Davina ajudava na criação de Hardin. O menino era apaixonado pela tia e Andrew tinha certeza que o sentimento era recíproco.

Apesar de não ter dúvida alguma dos poderes incríveis que a irmã havia desenvolvido ao longo dos anos, era impossível não sentir uma pontada de aperto no peito cada vez que Hardin estava na rua, fora do alcance de suas mãos.

As notícias perigosas que se espalhavam pelos jornais poderiam ser tratadas de forma quase banais pelos demais humanos, mas qualquer mutante saberia reconhecer e ficar apreensivo com os recentes acontecimentos. Pensar que algo pudesse acontecer ao seu filho era assustador e Andrew não sabia se seria capaz de se reerguer após mais uma perda. A vida já havia lhe arrancado coisas demais.

Mesmo com o desejo de ligar para Davina e se certificar de que eles estavam bem, Andy se obrigou a deixar o apartamento e ir trabalhar. Quando estava concentrado em suas fórmulas e seus testes no laboratório, Ackerman era quase capaz de esquecer tudo que a vida havia lhe arrancado.

Quando voltou para casa, tarde da noite, a televisão da sala estava ligada enquanto uma animação passava com o som baixinho. Hardin já vestia o pijama e dormia com a cabeça apoiada sobre o colo da tia, os lábios finos ligeiramente abertos. Seus cabelos negros estavam grudados no canto em que Davina acariciava repetidamente.

Andrew precisou respirar fundo e morder a língua para não repreender a irmã. Já havia passado muito tempo da hora de Hardin estar dormindo, e embora ele não estivesse exatamente acordado, não o agradava a ideia de ainda estar deitado no sofá. Uma tigela com um resto de leite e cereais foi o suficiente para que ele torcesse o nariz.

- Ele jantou cereal, Dav?

Como se aquilo fosse completamente normal, ela encolheu os ombros e concordou com um movimento da cabeça.

- Ele não quis aquela gororoba de ensopado. Sinceramente, nem eu. Eu ofereci pizza, mas ele disse que queria cereal.

As palavras eram sussurradas e quase abafadas pelo som da TV, mas ainda não eram altas o suficiente para despertar Hardin.

- Você é inacreditável.

Andrew se inclinou para puxar o corpo mole de Hardin para seu colo. Sem despertar, o menino apoiou o rosto em seu ombro e Andy ignorou o olhar inocente que Davina lhe lançou enquanto o levava de volta para a cama.

Poucos segundos depois, ele estava de volta a sala. Davina já havia trocado o canal para algum seriado, mas logo desviou o olhar para o irmão quando ele assumiu o lugar ao seu lado. A caixa de cereal, esquecida sobre a mesinha lateral, foi puxada para seu colo e ele começou a comer, o ruído de sua mastigação sobressaindo ao som da televisão.

Andrew pôde sentir o olhar de Davina sobre si, o julgando por estar comendo o cereal que ele acabara de criticar, mas não se importou. Ele terminou de mastigar e engoliu para então se voltar para ela.

- E aí, você já decidiu?

- Decidi o quê? – Ela perguntou, e embora Davina fosse mestre em desconversar quando não queria tocar em um determinado assunto, Andy percebeu que ela realmente não sabia do que ele estava falando.

- A carta de Dana. – Ele lembrou, tentando estudar a reação da irmã sob a luz fraca do televisor.

- O que tem pra decidir?

- Você vai?

Davina, até então, mantinha o olhar nas cenas que aconteciam no aparelho a sua frente, mas a pergunta de Andrew a obrigou a se virar e encara-lo.

- Você bateu a cabeça? Tá fazendo metanfetamina naquele seu laboratoriozinho? É claro que eu vou! Você não?

As sobrancelhas grossas de Andy se arquearam em surpresa. Ele sabia que a irmã agora era dotada de uma segurança que não existia quando era mais nova, mas aquele era um novo patamar que ele desconhecia.

- Ainda não decidi. Não queria arrastar o Hardin para essa confusão toda. Como você consegue ter tanta certeza que quer ir?

Um sorriso convencido apareceu nos lábios de Davina e ela balançou um ombro.

- Tá brincando? Eu sou mais poderosa que metade daquele povinho que ficava me sacaneando. Vou com prazer. Além do mais, Dana precisa de gente forte, como eu.

Andrew balançou a cabeça, mas um sorriso brincava em seus lábios, mostrando que ele se surpreendia, mas também se admirava com a mulher que Davina havia se tornado.

- Você devia ir também. Se quer saber a minha opinião, a coisa toda tá muito podre, e a melhor forma de proteger o Hardin é tornando esta droga desta cidade em um lugar melhor.

Ele não precisou responder. Logo o rosto de Davina se voltou para a televisão, ignorando o olhar pensativo de Andrew enquanto ele travava uma batalha interna, cada vez mais inclinado em aceitar o conselho da caçula.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Dom Jun 12, 2016 6:34 pm

Os primeiros raios de sol começavam a iluminar o horizonte com aquela típica coloração alaranjada. Ainda era muito cedo e a mansão estava mergulhada no mais profundo silêncio. Os únicos ruídos que alcançavam aquele quarto vinham das árvores mais próximas da casa, onde alguns pássaros faziam uma pequena algazarra no meio das folhas vivamente verdes.

Era primavera e o tempo estava bem ameno naquele ano, mas a temperatura na escola de jovens mutantes sempre era mais fresca graças ao clima dos montes que rodeavam a construção. Da janela, também era possível admirar aquele belo milagre dos relevos. A mansão ficava exatamente no meio de um vale circundado por todos os lados por enormes montanhas.

A sensação de estar de volta, depois de dez anos, era indescritível. Ao menos tempo em que Hyacinth Westphal se lembrava de todos os detalhes daquela casa que um dia fora o seu lar, tudo parecia distante como se os meses dela na escola pertencessem a uma vida passada.

Quando deu as costas à mansão, Hyacinth imaginou que nunca mais pisaria naquelas terras e que nunca mais teria notícias das pessoas que faziam parte da sua vida até então. Por dez anos, esse plano foi mantido com sucesso. E Westphal certamente teria se mantido afastada se não fosse pelo pedido pessoal de Dana.

O esforço da tutora precisava ser valorizado. Por muitos anos, Dana tentou rastrear os passos da ex-aluna seguindo pistas e tentando desvendar os segredos que pudessem revelar o paradeiro de Hyacinth. Mesmo sabendo que a ruiva partira com a própria mãe, Dana não conseguiu abandonar o seu senso de responsabilidade. Westphal era a sua pupila e cabia a ela garantir que a garota ficaria bem fora da escola.

As buscas de Dana fracassaram por muitos e muitos anos, mas a diretora nunca desistiu. E foi a perseverança dela que a levou a encontrar Hyacinth no lugar mais improvável possível. A ruiva não acreditou nos próprios olhos quando Dana bateu na porta da simpática casinha no interior do Canadá, que agora era o lar dos Westphal. Rachel, Bruce e Hyacinth estavam juntos novamente, mas agora viviam escondidos para que pudessem ter a paz que lhes faltara no início da formação daquela família.

A presença de Dana foi muito bem aceita por Hyacinth, mas Rachel não pareceu tão feliz. Para ela, que já enfrentava aquela “maldição” do Incarna há muitas décadas, era sempre frustrante saber que ela nunca conseguia se esconder por muito tempo. Seus passos eram sempre rastreados e, na maioria das vezes, não eram pessoas bem intencionadas como Dana que a seguiam.

O convite que Dana fez a Hyacinth provocou uma calorosa discussão na família. Rachel era terminantemente contra a filha retornar para a mansão, onde ficaria novamente exposta e poderia ter seu segredo escancarado para o mundo. Cinth temia as consequências daquela decisão, mas ao mesmo tempo não conseguia dizer não para a antiga tutora. Era óbvio que Dana estava com problemas sérios e que ela poderia ajudar.

Também era verdade que Hyacinth sentia-se imensamente frustrada com a vida que levava no Canadá. Ela estava com os pais, estava segura e conseguia dormir em paz, sem nenhuma ameaça pairando sobre a cabeça dela. Mas era uma vida vazia, solitária e completamente sem objetivos. Westphal sempre desejara usar seus poderes para ajudar as outras pessoas, mas era impossível colocar em prática este plano estando aprisionada no próprio medo.

Mesmo com a forte oposição da mãe, Hyacinth decidiu que era a hora de mudar de vida. Rachel tinha os seus motivos para preferir a reclusão e Cinth jamais a julgaria por isso, mas não era esta a vida que a ruiva queria para si. Mesmo conhecendo os riscos, a única filha dos Westphal retornou para a escola junto com Dana e agora estava ali, ocupando um dos quartos vagos e fitando a bela paisagem enquanto esperava que os ponteiros do relógio marcassem dez horas e a reunião começasse.

Como já estava como hóspede da mansão há quase dois dias, Hyacinth tinha algumas informações privilegiadas que os demais convidados para aquela reunião não possuíam. Dana havia contado à ruiva os nomes de todos os selecionados e também atualizara Westphal sobre todos os ataques que vinham acontecendo nos últimos tempos.

Embora a ruiva estivesse sinceramente preocupada com as mortes e atentados provocados por mutantes, o que mais atormentava a sua mente no momento era saber que naquela manhã ela reencontraria muitos rostos conhecidos. Dez anos haviam se passado, mas algumas memórias continuavam tão intensas como se aquelas cenas tivessem acontecido há poucos dias.

A estadia de Hyacinth na escola fora curta, mas ela nunca se esquecera dos amigos daquela época. Kevin, Hugo e Theodore haviam guardado o seu segredo e se arriscaram para ajudá-la. Era triste pensar que Westphal tivera que partir sem dizer a eles o quanto se sentia agradecida por tudo. A convivência com Davina fora curta, mas Hyacinth nunca permitiu que as lembranças da amiga se perdessem em sua memória. Se a separação delas não tivesse sido imposta, Cinth não tinha a menor dúvida de que elas seriam boas amigas até hoje.

E como se esquecer de Andrew Ackerman? Ainda hoje, Hyacinth sentia um nó na garganta sempre que se lembrava da última imagem que guardava do antigo tutor. Fora uma tortura para Cinth deixar para trás o rosto desesperado e infeliz de Andrew, mas ela se obrigava a pensar que tinha sido melhor assim. Ackerman não teria sido capaz de ajudá-la naquela mutação complexa e a proximidade dele o colocava em perigo.

Exatamente por saber que Andrew poderia pagar caro por aquela escolha, Hyacinth decidiu deixá-lo e nunca mais mandou notícias. A esperança dela era que Ackerman desistisse daquela loucura, que a esquecesse e reconstruísse a própria vida com alguém que poderia oferecer a ele um relacionamento maduro e uma família de verdade.

Embora desejasse a felicidade do ex-namorado, Hyacinth sentia o peito se comprimir sempre que pensava em Andrew como um homem casado, apaixonado pela esposa, pai de duas ou três crianças perfeitas. Westphal não tivera coragem de questionar Dana sobre os caminhos trilhados por Ackerman, mas naquele dia ela estava preparada para o pior. Ela estava preparada para ter certeza de que somente ela ainda carregava consigo o amor que um dia uniu os dois.

Os primeiros carros começaram a chegar alguns minutos antes da hora marcada. O estacionamento ficava relativamente longe da janela de Hyacinth, então a ruiva não perdeu tempo tentando identificar as distantes cabeças que saíam dos veículos.

Depois de um suspiro pesado, Cinth se colocou diante do espelho e tentou imaginar o que os amigos pensariam ao revê-la. Os dez anos passados tinham permitido que Hyacinth abandonasse a aparência de uma menina para se tornar uma mulher. Os cabelos continuavam vivamente avermelhados e agora exibiam cachos displicentes que tornavam os fios mais volumosos. O corpo de Westphal continuava magro, mas agora possuía mais curvas do que na época da adolescência. Os olhos profundamente azuis continuavam se destacando no rosto pálido e algumas das sardinhas que cobriam as bochechas dela tinham se perdido, dando lugar a uma pele mais lisa e macia.

A verdade era que Hyacinth não precisava mais só imaginar os pensamentos dos colegas, mas a telepatia era a habilidade que a ruiva menos gostava de usar. Westphal sentia que estava violando o que as pessoas tinham de mais íntimo quando invadia as suas mentes, então na maior parte das vezes ela abafava aquele poder e tentava decifrar os pensamentos como qualquer pessoa normal, através das palavras, dos gestos e expressões.

A tentação de usar a telepatia era enorme naquele dia, mas Hyacinth estava decidida a manter aquela habilidade guardada bem no fundo da sua cabeça quando saiu do quarto, pontualmente às dez horas. Por mais que quisesse saber quais seriam os pensamentos dos antigos amigos, no fundo a ruiva tinha receio do que poderia escutar.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Jun 12, 2016 6:46 pm

- Uau...

Davina não havia se dado conta que o seu espanto havia sido expressado em voz alta até o momento em que Andrew parou ao seu lado, virando o rosto para encará-la.

- O que foi?

Os olhos castanhos da caçula dos Ackerman se estreitou por um segundo enquanto ela tentava se explicar. Os dois irmãos estavam parados diante da mansão, por onde haviam vivido parte da adolescência.

O lugar não parecia ter mudado em nada ao longo daqueles dez anos. Ainda era rodeado por um gramado bem cuidado e com os grandes eucaliptos aos fundos. A construção ainda estava muito bem conservada e suntuosa, capaz de impressionar a qualquer um. Mas ao mesmo tempo, causava uma sensação de estranheza voltar ali após tanto tempo, depois de tanta coisa ter mudado.

- Eu não sei. Parece menor, não parece?

Andrew também estudou a estrutura da mansão, refletindo sobre as palavras da irmã. Estar de volta trazia um turbilhão de emoções e lembranças que os dois juravam já ter deixado no passado. Até a grande confiança de Davina se abalava um pouco quando ela lembrava da menina de cabelos cor de mel que andava por aqueles corredores, achando que passaria o resto da sua vida por trás daqueles portões.

- Talvez tenha sido a gente que cresceu. – Andy se limitou a responder, finalmente virando o olhar quando sentiu os dedinhos de Hardin lhe tocarem na palma da mão.

Ela também se obrigou a desviar o olhar da mansão para encarar o sobrinho, e imediatamente seus lábios se curvaram em um sorriso mais doce enquanto segurava a outra mão de Hardin, mantendo o menino entre ela e o pai.

- Acha que foi mesmo uma boa ideia ter trazido ele? – Andy sussurrou, tentando não fazer o filho ouvir suas palavras enquanto eles subiam os degraus que davam acesso para as grandes portas da mansão.

- O que você queria fazer? Deixá-lo com uma babá?

Davina torceu o nariz com aquela ideia. Para Andrew, poderia ser a opção mais óbvia, mas ela sentia calafrios em pensar em deixar o sobrinho com uma pessoa estranha. Desde que Hardin havia chegado em sua vida, Davina não media esforços para cobrir o sobrinho de proteção e carinho e se sentia particularmente ofendida com a ideia de outra pessoa poder cuidar dele.

Sua decisão por não trabalhar havia sido tomada principalmente com o objetivo de poder cuidar do menino enquanto Andrew trabalhava e em nenhum momento ela se arrependida daquela escolha.

Sem se dar o trabalho de responder, Andrew empurrou a pesada porta, apenas para se certificar de que o interior também havia mudado quase nada. Alguns adolescentes passavam entre eles, lançando olhares curiosos, e foi impossível conter o sorriso nostálgico ao pensar que ele já estivera em seus lugares um dia.

- Andy? Davina?

A voz de trovão de Megale o entregou antes mesmo que Davina virasse o rosto para encará-lo, exibindo um largo sorriso. Uma pontada de satisfação se espalhou no peito de Davina ao perceber que ao menos o velho tutor parecia ainda tão grande e assustador quanto antes.

- Quem é esse pestinha? – Mega perguntou, após abraçar rapidamente os dois irmãos.

Hardin se encolheu por um segundo e soltou a mão de Davina para se agarrar às pernas do pai, claramente assustado com aquele homem enorme.

- Hardin, seja educado e diga oi ao amigo do papai.

- Papai? – Megale franziu as sobrancelhas ao encarar Andrew com nítida surpresa. – Achei que fosse da Davina.

Ao virar seu rosto grande para o menino, Megale sorriu, e seu sorriso carismático suavizava seu tamanho monstruoso.

- Você sabe, é bonito demais pra ser filho dele.

Hardin continuava tentando se esconder entre as pernas do pai, fazendo Megale suspirar em derrota e se colocar de pé outra vez.

- Não tem problema, eu tenho uma barra de chocolate que confisquei de um aluno, guardada no quarto. Ganho a confiança dele depois.

- Você pode ganhar a minha confiança também, Mega. – Davina sorriu, fazendo os brincos de argola balançarem entre seus cabelos claros.

A risada de trovão de Megale ecoou e ele apoiou a mão no ombro da mulher antes de apontar as escadas com a cabeça.

- Dana já está esperando. Algumas pessoas já chegaram e estão se reunindo no salão. – O olhar dele pousou em Hardin mais uma vez antes de acrescentar, mais sério. – Vou pedir para Jace ficar com ele, acho que o assunto vai ser delicado demais para um garotinho.

- Jace? – Andrew perguntou, sem estar familiarizado com aquele nome.

- É, ela está aqui há alguns anos já. Assumiu a sua matéria depois que você abandonou a gente. Não se preocupe, Hardy... Ela é muito mais bonita que eu.

Como se tivesse sido chamada, uma mulher que parecia estar na casa dos trinta anos apareceu. Ela era o oposto de Megale, como ele havia comentado. Seu corpo era miúdo e ela ainda conseguia ser mais baixinha que Davina. Os cabelos eram castanhos e lisos, na altura de seu queixo. O sorriso era incrivelmente doce e simpático quando parou ao lado do professor.

Davina imediatamente estreitou os olhos. Não importava se a mulher aparentava ser doce e meiga, ela não queria que Hardin fosse com nenhuma estranha para fora de sua vista.

- Não Mega, tá beleza... Eu cuido dele. – Davina enfatizou, após a breve apresentação de Jace, que parecia ser incapaz de sorrir.

- Acho que o Megale tem razão, Davs. – Andrew sussurrou, já conhecendo o comportamento superprotetor da irmã. – Não acho que essa reunião seja adequada para crianças. É só por algumas horas, Hardin vai estar com a gente logo, logo.

O queixo de Davina caiu quando Jace segurou a mão de Hardin e o menino a acompanhou sem protestos, apenas lançando um olhar rápido para o pai e a tia antes de desaparecer pelo corredor. Ela se senti traída por Andrew permitir aquela estranha de levar seu menino, mas também uma pontada de tristeza pela facilidade com que Hardin havia ido.

Ainda com o rosto contorcido em uma careta de insatisfação, Davina permitiu que seus pés acompanhassem o ritmo de Andrew enquanto eles subiam as escadas até o salão.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Dom Jun 12, 2016 7:34 pm

- Minha nossa!

Kevin precisou elevar um pouco o tom de voz para se fazer ouvir dentro do carro. O som estava ligado num volume absurdamente alto e, como se não bastasse isso, Hugo fazia um coro desafinado que estragava medonhamente a voz bonita da cantora. Sem sombra de dúvida, o amigo havia superado por completo a sua dificuldade com ruídos.

- Que foooooi? – Hugo fez uma pausa para não perder um dos agudos da música – Eu deveria ter seguido uma carreira artística, não deveria?

- Eu diria que não, mas ontem escutei que é do Justin Bieber a música mais pedida da semana. Se chegamos a este ponto, você teria grandes chances, Hugo.

Os dois amigos riram gostosamente enquanto o carro fazia a última curva. Ao fim da estrada, eles já conseguiam avistar a mansão. Pouca coisa tinha mudado nos últimos dez anos. A fachada continuava impecável, o gramado estava verde e muito bem cuidado. Era estranho estar de volta e não ser mais um simples aluno despreocupado. A motivação da reunião daquela manhã só deixava claro que eles tinham crescido.

O carro de Templeton foi deixado em uma das vagas antes que os dois rapazes seguissem até a mansão. Enquanto Kevin se sentia apreensivo e tenso com a possibilidade de encontrar um rosto conhecido naquela reunião, Hugo estava eufórico com a ideia de rever os amigos e formar um grupo de combate aos atentados que estampavam os noticiários.

- Eu sinto saudades daqui. – Hugo comentou depois de empurrar a porta e adentrar pelo saguão – Você não?

Aquela era uma pergunta delicada cuja resposta não era simples para Kevin. Ele sentia saudades de muitos momentos vividos naquela escola, de outros nem tanto. E havia aquelas lembranças que Templeton daria tudo para esquecer. O problema é que todas essas sensações opostas o atingiam ao mesmo tempo enquanto o rapaz caminhava pelo piso de pedra tão familiar.

Como os dois já estavam ligeiramente atrasados, não foi possível perder tempo admirando o interior da mansão ou deixando que as lembranças desabrochassem. Hugo e Kevin seguiram pela escadaria até chegarem ao terceiro andar, onde ficavam as salas de reunião. Dana havia separado o maior dos cômodos naquela manhã, indicando que não eram poucos os convidados do dia.

A porta estava entreaberta e do corredor já era possível escutar um burburinho vindo da mesa de reuniões. Hugo, que estava um passo à frente do amigo, deu duas batidas na porta antes de entrar. Dana ainda não estava presente e, portanto, a reunião não havia começado oficialmente. Por isso, o rapaz se sentiu bastante à vontade para erguer os braços e berrar ao reconhecer o velho tutor.

- CHEEEEEEEVIE!

Chevalier se sobressaltou e virou-se para a porta com um semblante assustado, mas logo sua expressão se relaxou num largo sorriso ao reconhecer o pupilo.

- É muito bom saber que você superou o seu problema com ruídos, Hugo.

- Aff... – Hugo moveu a mão num gesto de descaso enquanto entrava na sala – Não me chamaram aqui para relembrar as fraquezas do passado, não é? E aí, gente? Dan, quanto tempo! Como vai, Sarah? Vi a foto da sua filhinha no Facebook, ela é linda! Tudo bem, Andrew? Faaaala, Dav! Você não mudou nada!

Antes mesmo que Templeton terminasse de entrar na sala, Hugo já deu ao amigo a certeza de que seus piores temores estavam confirmados. O estômago dele se afundou ao escutar o apelido de Davina, mas Kevin tentou colocar no rosto o seu sorriso mais tranquilo. Hugo fazia uma barulheira tão grande que talvez pudesse camuflar o constrangimento que Templeton sentia.

Ao contrário do amigo, Kevin murmurou um “bom dia” geral e deslizou os olhos pela mesa de forma discreta. Quando avistou Davina sentada ao lado do irmão, Templeton não conseguiu acreditar que Hugo havia dito que ela não mudara nada. A filha caçula dos Ackerman, definitivamente, não se parecia em nada com a menina insegura que vivia ali há dez anos. Davina havia se tornado uma bela mulher, exibia um olhar firme e, sem sombra de dúvida, tinha plena ciência dos seus próprios poderes. Embora tivesse se apaixonado no passado pela menina que Davina fora, a imagem da mulher que ela se tornara não servia para acalmar os sentimentos de Templeton.

- Um, dois... – Daniel brincou olhando de Hugo para Kevin – Onde está o terceiro mosqueteiro?

- Não sei. – Hugo deu de ombros enquanto puxava a cadeira vaga ao lado de Chevalier – Mas se me obrigarem a chutar, eu diria que está fazendo mais um filho. É o que o Theo mais tem feito nos últimos tempos. Três filhos em seis anos de casamento. Nem dá tempo do útero da Su esfriar, é tipo fornada de biscoitos.

- Eu peço desculpas a todos. – Kevin girou os olhos escuros enquanto se acomodava ao lado do amigo – Só percebi que o Hugo não tomou os remedinhos de hoje quando estávamos no meio do caminho, não daria tempo de voltar.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Seg Jun 13, 2016 2:13 am

Enquanto metade dos presentes daquela sala estavam preocupados com os reencontros e as memórias que seriam revividas naquela tarde, Andrew Ackerman era um dos poucos que parecia se sentir tranquilo por estar novamente no meio de tantos rostos do passado.

Os corredores da mansão poderiam lhe trazer muitas lembranças, mas Andrew sabia que o maior fantasma havia ficado enterrado há dez anos e não iria ressurgir para assombrá-lo. Sem que aquele receio pudesse lhe perturbar, os olhos castanhos passearam pela extensa mesa, observando cada um dos rostos.

O grupo era muito menor e mais seleto do que Andrew previa, mas ele precisava admitir que cada uma das escolhas de Dana era respeitável. Além de Chevalier e Megale, Daniel e Sarah estavam sentados um ao lado do outro, de frente para os Ackerman, a chegada escandalosa e Hugo foi capaz de arrancar risadas de todos e Andy meneou a cabeça quando Kevin cumprimentou a todos.

- Dana ainda vai demorar? – Andy perguntou, sua perna balançando inquieta cada vez que pensava no pequeno Hardin.

- Não, já deve estar chegando com os atrasados. – A voz de trovão de Megale anunciou quando ele consultou o relógio rapidamente.

Andrew se permitiu observar a sala por mais algum tempo. Aquilo parecia um mero reencontro de amigos que não se viam há anos, fazendo piadas e contando sobre as mudanças em suas vidas. Mas ainda assim, era possível sentir a tensão no ar. Nenhum deles era mais criança e sabiam que se estavam ali, era porque as coisas estavam indo por um caminho muito perigoso.

Toby Montgomerry chegou aos tropeços, fazendo Ackerman arquear as sobrancelhas. Ele se lembrava do menininho veloz, o caçula da mansão. Toby ainda era facilmente identificado como o mais jovem do grupo, aparentemente sem passar dos vinte e dois anos de idade. Assim como Davina, ele exibia um sorriso mais confiante, mas também mais maduro ao se sentar ao lado de Hugo.

- Toby??? – O queixo de Hugo caiu quando ele finalmente reconheceu o menino. – Que isso, cara!!! Você já saiu das fraldas!

Com sua irreverencia de sempre, Hugo puxou o “pequeno” Toby pelos ombros e o abraçou, amassando as bochechas do mais novo em seu queixo, arrancando mais risadas dos que rodeavam a mesa.

- Hugo, fico muito feliz que você tenha saído do armário, mas eu continuo hétero cara. Me solta.

Sem se ofender, Hugo soltou Toby apenas para apertar suas bochechas, esticando-as mais do que deveria.

- Você já é um homenzinho!

Uma sombra se fez momentaneamente e Andrew se remexeu, na esperança de que pudesse ser Dana, mas suas sobrancelhas se arquearam em surpresa ao reconhecer o rosto de Derek Hale.

- Ho-ho! – Os ombros de Toby foram finalmente largados quando a atenção de Hugo se voltou para o mais recém-chegado – Incrível Hulk! Você também!

- Hugo, por Deus, controle-se... – Megale girou os olhos, assumindo uma das últimas cadeiras. – Dana já deve ter vindo, acho que já estão todos aqui.

Cada um já havia assumido seus respectivos lugares, mas além da cadeira na cabeceira que seria assumida por Dana, uma última cadeira continuava vazia, em frente a Chevalier. O primeiro pensamento de Andy era que aquela cadeira estava simplesmente sobrando.

Os cabelos loiros da tutora finalmente a anunciaram quando Dana cumprimentou a todos com seu sorriso doce. Ela não havia mudado absolutamente nada no decorrer dos anos e se Andrew fechasse os olhos, poderia jurar que estava de volta no tempo.

Ackerman tinha certeza de que todos os convidados já estavam presentes, mas mesmo que ele esperasse que a porta da sala de reuniões se abrisse mais uma vez, jamais teria imaginado rever os cabelos ruivos acompanhados daquele incomum par de olhos azuis.

Andy parecia ter engolido um ar gelado que se espalhou pelas suas veias, impedindo que o sangue chegasse até seu rosto e o empalidecendo imediatamente. Seus olhos ficaram completamente vidrados no rosto de Hyacinth e ele estava tão hipnotizado que não tinha consciência de que cada um dos presentes também encarava Westphal como se ela fosse uma assombração. O que ninguém conseguia pensar naquele momento era que ela era a maior assombração para Andy.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Jun 13, 2016 2:42 am

Nem por um segundo, desde que recebera a carta de Dana, Davina pensou que seria constrangedor reencontrar algum dos rostos de colegas antigos.

Com exceção de Andrew e Derek, ela havia perdido contato com praticamente todos os outros alunos. Havia se encontrado com Hugo uma vez em um show e já havia esbarrado com Theo e a esposa em uma rua movimenta de Seattle, mas definitivamente não havia mantido relações com eles.

Desde o rompimento do namoro com Kevin, a amizade dela com Theodore havia ficado abalada e Davina não queria que Hugo acabasse precisando tomar partido naquela história também.

Além do mais, Davina se sentia aliviada por deixar a mansão para trás, sem ninguém para lhe lembrar do fracasso que ela já havia sido um dia. Mas saber que poderia reencontrar até mesmo Aphrodite não era mais capaz de lhe deixar abalada, após tantos anos.

Aquela menininha que deixava as emoções abafar seus poderes não existia mais. Pelo menos ela tinha essa certeza até rever Kevin Templeton.

Seu estômago deu uma gostosa cambalhota no mesmo instante que o ex-namorado entrou na sala de reuniões e Davina se assustou com a própria reação. Ela não se lembrava de ter sentido nada parecido nos últimos dez anos, por ninguém.

Kevin continuava lindo, provavelmente ainda mais bonito do que quando adolescente. Davina ainda conseguia reconhecer o sorriso do menino de anos antes, mas era fácil notar em seu olhar que ele também não era mais o mesmo. A cor natural de seus olhos era uma prova disso.

Pela primeira vez em dez anos, Ackerman se sentia tímida como uma garotinha, mas não ia permitir que a presença do ex-namorado estragasse o seu regresso.

- Huuuugo! Que saudade, cara! Não te vejo desde aquele show do The Fray em New York!

Era impressionante como o rapaz havia evoluído sua mutação, sendo capaz de frequentar shows ruidosos e lotados. Davina o abraçou rapidamente, mas agiu de forma tão natural que ninguém pareceu perceber quando ela não estendeu o abraço para Templeton.

Como se temesse as próprias ações, Davina voltou para sua cadeira, onde permaneceu quieta até a entrada de Dana. Assim como Andrew, ela balançava a perna inquieta sob a mesa, esfregando as mãos na calça jeans apertada.

Uma das mudanças de Ackerman era possível ser notada em suas roupas mais ousadas. Davina não chegava a ser vulgar, mas havia deixado de lado as roupas mais centradas que usava quando tinha dezesseis anos. A regata preta também era justa, contornando perfeitamente seus seios e a barriga lisa. Por ser um pouco mais curta, era possível ver um pouco da sua pele quando fazia algum movimento mais rápido.

Seus cabelos cor de mel estavam mais brilhantes e caíam em ondas largas ao redor do seu rosto. Os olhos castanhos estavam marcados por um delineador preto e os lábios pintados de vermelho. Apesar da aparência mais ousada, o delicado pingente de raio continuava pendurado em seu pescoço e compunha seu visual praticamente todos os dias.

Cada vez que olhava para ele, Davina se lembrava do ex-namorado. Mas aquele pequeno símbolo havia se tornado muito mais em sua vida, a lembrando do poder incrível que ela fora capaz de abraçar.

Quando acreditou que todos os seus problemas se resumiam a reencontrar Kevin Templeton, que ela percebeu não estar tão preparada quanto acreditava, o rosto conhecido de Hyacinth Westphal surgiu, fazendo seu queixo despencar.

Davina tinha certeza que se Westphal tivesse continuado na escola, a amizade entre as duas teria seguido mesmo após a mutação estar completa. Mas ao contrário disso, a ruiva havia desaparecido completamente da face da terra e Davina tinha certeza que jamais veria o rosto da antiga colega de quarto.

Ver Hyacinth entrando tão livremente pela porta parecia ser cena de algum sonho estranho e Davina olhou ao redor, esperando que fosse alguma imagem projetada por algum telepata.

- Cinth? – Ela finalmente conseguiu deixar a voz sair pela garganta, se surpreendendo com seu tom engasgado. – É mesmo você?

Cada um dos rostos estava preso em Hyacinth, mas Davina percebeu quando a cadeira de Andrew foi arrastada e ele se colocou de pé. As palmas das mãos de Andy estavam apoiados sobre o tampo de madeira e, por estar do lado oposto da sala, ele estreitava o olhar, como se também não acreditasse no que seus olhos estavam lhe mostrando.

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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Seg Jun 13, 2016 2:55 am

Como já esperava que a presença de Hyacinth causasse uma grande comoção nos demais mutantes, Dana fizera questão de acompanhar a ruiva até a sala de reuniões. Propositalmente, elas entraram com alguns minutos de atraso para se beneficiarem da surpresa. Antes que todos recuperassem a voz e soterrassem Westphal com perguntas, Dana pretendia dar início à reunião.

- Podem se acomodar, por favor. – a diretora realmente tinha esperança que todos se contivessem diante daquela surpresa – Muito obrigada por virem. Eu não tenho palavras para expressar a gratidão que sinto por todos vocês terem aceitado este convite.

As palavras firmes de Dana ecoaram na sala absurdamente silenciosa, mas nem isso foi capaz de atrair a atenção para ela. Enquanto a diretora falava, todos os olhos se mantiveram presos na ruiva que caminhou até a mesa e ocupou a cadeira vazia diante de Chevalier.

Não houve uma resposta verbal, mas a ruiva lançou um rápido sorriso na direção de Davina quando a amiga se dirigiu a ela. Tudo o que Cinth mais queria era que todos se concentrassem logo na reunião e parassem de encará-la.

Assim como Davina, Hyacinth tinha amadurecido muito nos últimos dez anos. O ar de menina havia ficado para trás e dera lugar a uma mulher. O vestido preto era simples e de bom gosto, mas justo o suficiente para marcar suas novas curvas. Os sapatos de salto davam uma postura elegante à Westphal, assim como os cabelos cacheados lhe conferiam um ar mais sofisticado.

Os amigos mais próximos estavam sem palavras em frente à surpresa de revê-la depois de tantos anos. Hyacinth havia simplesmente desaparecido depois daquela noite no refeitório e nunca mandara sequer um “olá” para nenhum deles. Até mesmo os colegas que nunca foram tão próximos da ruiva a encaravam como se estivessem diante de uma assombração. Ninguém esperava revê-la depois de tanto tempo. E era notável que a presença dela também gerava um nítido desconforto. Depois de dez anos, era difícil prever o quão poderosa Cinth se tornara.

- Eu penso que deveríamos começar falando sobre os últimos acontecimentos noticiados pela...

- Peraí, Dana! – Hugo verbalizou o sentimento geral – Você joga esta bomba na mesa e depois quer começar a reunião como se nada tivesse acontecido???

O dedo de Hugo foi apontado na direção de Hyacinth quando o rapaz articulou a palavra “bomba”, o que fez com que a ruiva arqueasse as sobrancelhas finas. Com as mãos suavemente apoiadas sobre a mesa, Westphal voltou o olhar para o antigo colega e repuxou o canto dos lábios num pequeno sorriso.

- Já me chamaram de muita coisa, mas “bomba” é uma gentileza inédita.

A voz de Hyacinth soou com uma calma e uma suavidade que ela não possuía na adolescência. É claro que ela se sentia profundamente incomodada em ser o foco de todos os olhares, mas Cinth não permitia que aquele desconforto transparecesse. Com um movimento elegante, a ruiva cruzou as pernas por baixo da mesa e entrelaçou os dedos sobre o tampo. As unhas pintadas de vermelho realçavam ainda mais a palidez de sua pele.

- Qual o problema, Hugo? – Dana fixou os olhos no rapaz – Hyacinth foi convidada a estar aqui hoje, como todos vocês. Não penso que ela mereça um tratamento diferente.

- Você vai me desculpar, Dana... – a voz de Kevin soou firme e ponderada – Mas é tolice tentar nos convencer de que a situação é a mesma. Todos nós concluímos nossa formação nesta escola, temos uma vida pública, empregos, família e obrigações. Ao contrário dela, que simplesmente desapareceu do mapa acompanhada por um mutante de origem e passado duvidosos. Eu acho que merecemos explicações e garantias de que podemos mesmo confiar na Srta. Westphal.

Embora já esperasse por uma recepção não muito calorosa, Hyacinth não imaginou que seria bombardeada logo nos primeiros minutos de reunião. Seus olhos deslizaram pelos rostos dos antigos colegas e foi muito difícil não desmoronar ao encontrar o olhar de Andrew. A tentação de vasculhar a mente dele era quase insuportável, mas Westphal se obrigou a desviar a cabeça.

- Que tal esta garantia, Templeton...? – Hyacinth comentou com uma bizarra naturalidade – Eu posso explodir cada uma das suas células sem mexer um dedo e, se ainda não fiz isso, é porque podem confiar em mim.

- É... – Hugo arregalou os olhos enquanto fitava os rostos ao seu redor – Me pareceu um argumento bem convincente. Eu me sinto muito mais tranquilo agora.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Seg Jun 13, 2016 3:31 am

Kevin Templeton engoliu em seco diante das palavras de Hyacinth. A ruiva que ele conhecera no passado não seria capaz de concretizar aquela ameaça, mas realmente era difícil prever qual seria o comportamento de Westphal agora.

Dez anos tinham se passado e ela havia desaparecido com um mutante historicamente poderoso. Era fácil imaginar que agora Cinth compartilhava os mesmos poderes do Incarna.

- Não há a menor necessidade de levarmos a conversa nesta direção. – a voz da Dana soou com firmeza, como se eles tivessem voltado a ser adolescentes que precisavam ser repreendidos pela diretora – Se vocês vieram até aqui, imagino que é porque confiam em mim. E se eu chamei a Hyacinth é porque confio nela. Isso deveria bastar.

Por mais que continuasse desconfortável com a presença da ruiva e com a incerteza sobre os poderes dela, Templeton não ousou discordar de Dana. No fundo, a diretora tinha razão em seus argumentos. Ela havia convidado Westphal porque confiava na ruiva e parecia ofensivo duvidar do julgamento de uma mutante tão sábia e experiente quanto Blake.

- Devo agradecer por continuar com as minhas células intactas...? – Kevin murmurou para a ruiva, mas o tom não era provocativo. Ao contrário, ele soou tão amigável quanto nos velhos tempos – Pega leve, ruiva. Mais um comentário assim e fará o Toby se atirar pela janela.

A discussão foi finalizada quando Westphal abriu um pequeno sorriso, suavizando a expressão para Kevin. Obviamente as amizades do passado não seriam reconstruídas com tanta facilidade depois de dez anos de separação, mas ao menos a presença dela na reunião não foi mais questionada.

Enquanto Dana descrevia detalhadamente os incidentes que motivaram a reunião daquela manhã, Templeton deixou que sua atenção novamente se perdesse pela mesa. A chegada inesperada de Hyacinth havia distraído o rapaz, mas agora ele voltava o olhar para a imagem que acelerava o seu coração muito mais do que as ameaças da ruiva.

Era impossível não se derreter diante de Davina. Kevin sempre a achara bonita, por isso nunca imaginou que seria surpreendido naquela intensidade. Ackerman havia se tornado uma mulher linda. Além dos traços mais maduros, era evidente a mudança no semblante e nas atitudes firmes da ex-namorada. Até mesmo as roupas mais ousadas mostravam o quanto Davina estava segura de si mesma.

Mais do que nunca, Templeton teve certeza de que nunca a esqueceria. Não parecia haver mais um futuro para os dois, mas era impossível tirar Davina de sua cabeça e do seu coração.

O contato do metal frio da aliança em seu anelar direito era como um doloroso lembrete para Kevin de que a ex-namorada nunca mais seria a sua Davs. E isso só tornava a visão dela ainda mais dolorosa. Davina era como um sonho inalcançável. Amá-la tanto parecia uma cruel punição por todos os corações que Templeton destruíra durante a adolescência naquela mansão.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Seg Jun 13, 2016 4:37 am

Andrew queria desesperadamente sair daquele sonho. Ele esfregou os olhos discretamente, como se aquilo o fizesse acordar e desfazer a visão daquela sala de reunião, mas mesmo quando as pálpebras piscaram algumas vezes, nada havia mudado e ele continuava sentado, completamente sem reação.

As palavras de Dana ecoavam pela sala de reunião, mas ela poderia estar narrando ataques catastróficos ou uma simples receita de bolo que Ackerman não seria capaz de diferenciar. Era como se a voz de Blake estivesse tão distante que simplesmente ecoava sem sentido no fundo da sua mente.

Durante anos, Andrew havia procurado por Hyacinth, deixando sua vida inteira de lado enquanto ele buscava desesperadamente pela ex-namorada. Quando ele enfim aceitou que se Westphal quisesse ser encontrada, ela entraria em contato, Ackerman decidiu deixar a ruiva em seu passado e encarar o futuro sem ela.

Apesar da vida que havia construído para si, com Molly, Hardin, seu emprego no laboratório, suas pesquisas e tudo que havia adquirido para si, a ruiva sempre esteve presente em seus pensamentos, como uma lembrança gostosa e ao mesmo tempo dolorosa de algo que ele havia perdido por completo.

Durante inumeráveis noites, Andy sonhou com um reencontro com Westphal, mas agora que estava finalmente diante dela, ele simplesmente não sabia como se sentir.

Hyacinth estava incrivelmente linda, ainda mais atraente do que a jovem assustada que chegou na mansão e encontrou no tutor o seu maior confidente. Ela havia se tornado uma mulher arrebatadora, as curvas em seu corpo estavam todas em seus lugares ideais, os cabelos cacheados eram tentadores como se implorassem o toque dos seus dedos, e os traços angelicais estavam mais maduros.

Mas bastou que a inocente ameaça se fizesse ouvir para que Anrew fosse levado de volta até a realidade. Aquela não era mais a mesma Hyacinth por quem ele se apaixonara. A menina que havia deixado a mansão durante a noite, na companhia de Incarna, era incrivelmente poderosa, mas jamais seria capaz de dizer palavras tão pesadas a um amigo.

Além do mais, era impossível não sentir uma pontada de mágoa ao saber que a ruiva estava bem ali, na sua frente, ao alcance de suas mãos, mas jamais havia tido coragem de lhe mandar notícias durante dez anos.

Andrew se sentiu um tolo por ter pensado em Westphal todos aqueles anos enquanto ela havia seguido com a própria vida. O amor entre os dois deveria ter terminado na mesma noite em que ela o abandonara no meio do refeitório, diante de todos.

- Eu não entendo... Você tem uma mansão cheinha de mutantes, Dana. Por que chamar a gente?

A voz de Daniel obrigou Andrew a se focar na conversa e desviar o olhar de Hyacinth. Ele não havia percebido que encarava a ruiva fixamente, praticamente sem piscar, desde que ela entrara na sala. Os olhos castanhos baixaram para as próprias unhas, quando as mãos pousaram sobre o tampo de madeira como se não tivessem outro lugar para ir.

- Eles são apenas crianças, Dan. – Megale respondeu por Blake, os braços cruzados contra o forte peito.

- E vocês precisam de um exército. – A voz de Davina saiu baixa e tranquila, mas sem gaguejar.

- Não sei se essa seria a palavra adequada... – Chevalier se remexeu em seu lugar, mas Dana não piscou antes de responder.

- Talvez seja a palavra que chegue mais perto do que precisamos. – A diretora se inclinou para frente e apoiou os cotovelos sobre a mesa, unindo as mãos. – Não quero que nenhum de vocês se sinta na obrigação de continuar, mesmo depois de tudo que eu contei. Mas sim, é basicamente uma guerra e se concordarem em continuar com isso, devem ter plena consciência disso.

Um breve silêncio se instalou pela mesa até que a voz de Andrew soasse. Ele precisava fazer um esforço sobrenatural para encarar o rosto de Dana e não desviar seu foco para Hyacinth, há poucos centímetros de distância.

- Eu não sei lutar. Não tenho super força, nem super velocidade, não consigo ouvir a batida de um coração no meio de um engarrafamento e nem sei voar. Sinceramente, Dana... Se você já tem Hyacinth, porque ainda se importa em chamar qualquer um de nós?

Andrew não esperava que o fim de seu discurso fosse soar tão amargo, mas mesmo quando as palavras já haviam sido ditas, ele não se arrependeu. Deslizando pela cadeira, Ackerman jogou o corpo para trás e cruzou os braços, tentando parecer desinteressado quando finalmente voltou seu olhar para a ruiva.

- Eu pensei em cada um de vocês, Andrew. Cada um, com suas particularidades, com suas qualidades e defeitos. Além do mais, como eu disse, isso é uma guerra. Seríamos louco de não cogitar você.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Seg Jun 13, 2016 4:48 am

A cabeça de Davina girou de um lado ao outro, encarando a diretora e então o irmão. Tentando suavizar o clima provocado por Andy, ela encolheu os ombros e ergueu a mão, como se pedisse permissão para falar durante uma das aulas.

- Eu tô dentro! Estou esperando há séculos para usar os meus poderes em alguém. Estava até com esperança de esbarrar com a Willis pelo corredor.

Seu sorriso largo suavizava as palavras ameaçadoras, deixando claro que não se passava de uma brincadeira. Continuando com o seu jeito relaxado, ela se inclinou sobre a mesa na direção de Hugo, sussurrando como se quisesse compartilhar um segredo, mas seu tom ainda era audível para todos os presentes.

- Sabia que consigo soltar descargas elétricas com as mãos agora, Hugo? E voar também! – Davina soltou um sorriso orgulhoso antes de apontar Hyacinth com o polegar. – Claro que eu não consigo explodir cada uma das suas células sem mexer um dedo, mas não é uma competição, né?

Davina ainda exibia um enorme sorriso nos lábios quando o brilho no anelar de Kevin lhe chamou a atenção pela primeira vez. Seu estômago se comprimiu como se tivesse acabado de levar um soco e o sorriso finalmente morreu quando ela encarou Templeton com surpresa.

Não fazia sentido, depois de tantos anos, ainda se sentir abalada pelo fato do ex-namorado estar com alguém. Mas Davina ainda estava tentando acostumar com o turbilhão de emoções que ela não esperava sentir ao rever Kevin.

Um pouco mais séria, ela se voltou para Dana mais uma vez, balançando a cabeça de modo a mexer suas largas ondas cor de mel.

- Andy está dentro também, Dana. Ele só está sendo modesto.

Davina virou o rosto para encarar o irmão, fazendo de conta que não havia notado seu olhar ameaçador.

A caçula dos Ackerman havia concordado tão depressa em participar daquela reunião que ela não imaginava que tantas coisas fossem acontecer. Rever Kevin estava sendo mais difícil do que imaginava, e Hyacinth definitivamente não estava nos seus planos.

Era bom saber que a antiga colega de quarto estava viva e bem, muito bem por sinal. Mas seu lado fiel lhe impossibilitava de ficar feliz em rever a ruiva. Após o desespero de Andrew com seu desaparecimento, o relacionamento entre os dois não era mais segredo para ninguém, mas foi Davina quem esteve ao seu lado durante todos os anos, de modo que apenas ela sabia o quanto ele havia sofrido com a partida de Westphal.

Molly era uma menina encantadora e Davina chegou a acreditar que Andy finalmente havia encontrado alguém que o fazia sorrir, mas a morte prematura da cunhada tornou a jogar Ackerman na solidão.

No fundo, Davina culpava Hyacinth por cada noite mal dormida de Andrew, cada lágrima derramada e cada sorriso que não fazia seus olhos brilharem. Ela estava disposta a participar do grupo montado por Dana, mas não tinha a menor intenção de receber Westphal como uma velha amiga.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Seg Jun 13, 2016 7:01 pm

A insinuação amarga de Andrew foi recebida por Hyacinth com a intensidade de um soco na boca do estômago. Alguns olhares se voltaram para a ruiva e era evidente que Ackerman não era o único que pensava daquela forma. Mais ninguém parecia ter coragem de verbalizar aquela opinião, mas era evidente que a presença dela tornava o clima da reunião muito mais pesado.

A voz do inconsciente de Hyacinth, que naquele momento tinha um timbre muito parecido com o de Rachel Westphal, zombou dela pela tolice de pensar que ela seria bem aceita no grupo que um dia a acolhera. Tal como Rachel repetiu para a filha nos últimos dez anos, aquele poder era uma maldição que fazia com que todos se voltassem contra ela, mesmo sem nenhum motivo para tal.

Era exatamente isso que acontecia naquela sala. Ninguém mais era questionado sobre seus poderes ou sobre a sua motivação para fazer parte do grupo. Somente Hyacinth gerava desconfianças e se via obrigada a provar suas boas intenções.

Foi esta imensa frustração que fez com que a ruiva continuasse imóvel enquanto todos erguiam as mãos num sinal de concordância em fazer parte daquela equipe. A iniciativa de Davina pareceu contaminar os ânimos dos demais e todos os presentes começaram a se manifestar favoráveis à formação do grupo.

Dana deslizou os olhos pela mesa com um sorriso satisfeito diante das mãos erguidas, mas não deixou de notar que Hyacinth continuava de braços cruzados e com um semblante sério. Ao contrário do que Andrew insinuara, a presença exclusiva da ruiva não resolveria todos os problemas, mas Cinth era uma peça importante do jogo e Dana não queria abrir mão dela.

- Cinth...? – Dana fixou um olhar bondoso nela – Só falta a sua resposta.

- Eu lamento, Dana. Eu realmente achei que conseguiria lidar com isso, mas me enganei. – a ruiva moveu a cabeça indicando a mesa e se referindo aos colegas – Estou pronta para suportar a pressão de uma guerra, mas não para ser tratada como uma criminosa sem nunca ter feito nada para merecer esse julgamento.

- Você precisa entender que, depois de dez anos sem qualquer tipo de notícias suas, é natural que o seu retorno gere alguma insegurança. – como de costume, Megale soou bastante sensato – Ninguém está te tratando como uma criminosa. É puramente a velha insegurança advinda do desconhecimento.

- Se eu não sou digna de confiança, vocês não deveriam ter me convidado para esta reunião. Mais ninguém aqui recebeu questionamentos ou se viu obrigado a provar as boas intenções.

- Você não pode nos julgar pela insegurança. O seu poder é... – Chevalier fez uma pausa procurando pela melhor definição - ...ameaçador.

Mais uma vez, a voz de Rachel repetiu a incômoda verdade dentro da cabeça da filha. Ela nunca seria plenamente aceita na sociedade, por mais impecável que fosse o seu comportamento. Seria haveria medo e o temor faria com que ela fosse julgada com mais severidade que qualquer outra pessoa.

- Eu não pedi para ser assim. – com um olhar frio, Hyacinth encarou cada um dos presentes – Não foi uma escolha.

- Bom, ninguém pediu. – Daniel ergueu um dos ombros – Mas imagino que você aproveita muito bem cada segundo desta mutação.

- É isso que vocês acham? – o sorriso de Hyacinth se tornou sarcástico – Vocês acham que eu encaro isso como uma bênção, como uma grande sorte?

Quando pisou naquela mansão, Westphal sabia que não seria fácil retomar a vida dentro de uma sociedade. Os julgamentos seriam inevitáveis, as dificuldades se multiplicariam a cada dia. Só o que Hyacinth não previu era que ela não seria bem aceita nem mesmo entre aqueles que moravam em sua memória como bons amigos.

- Eu acho sensacional a minha mãe ter forjado a própria morte para salvar a mim e ao meu pai das pessoas que a perseguiam. Foi maravilhoso crescer sem uma mãe e sem imaginar que eu estava condenada à mesma maldição dela! A descoberta do meu poder foi um processo muito tranquilo, em nenhum momento eu senti medo ou pensei que morreria. Foi muito fácil lidar com todos os poderes que eu absorvia, nunca tive a menor dificuldade com nenhum deles, nunca tive medo de machucar ninguém. Eu achei muito divertido abandonar esta escola, os meus amigos e a minha vida para viver escondida como um animal! E é revigorante voltar e ser fuzilada com acusações e insinuações. De fato, Freeeman... Eu tenho aproveitado muito bem cada segundo desta abençoada mutação.

O discurso irônico de Westphal ecoou na sala absurdamente silenciosa. Hugo e Kevin trocaram um olhar antes que Templeton tomasse a palavra.

- O Dan se expressou mal, Hyacinth. Todos nós sabemos que não tem sido fácil para você. Como o Mega disse, há uma insegurança que está acima de qualquer pensamento racional. Mas você não vai conseguir virar o jogo se fugir de novo. Este grupo tem um objetivo muito maior que nossos problemas pessoais e você seria muito importante para a equipe. Se simples palavras não bastam, você pode provar o seu valor com atitudes. Eu estou inseguro e admito isso. Mas também estou disposto a te dar um voto de confiança.

- Eu também. – Hugo acrescentou rapidamente.

- E eu. – Toby abriu um sorriso para a ruiva.

Enquanto os rapazes se manifestavam, Dana continuava com os olhos presos em Kevin. A diretora não conseguia disfarçar a sua surpresa com o comportamento de Templeton. Definitivamente, ele não lembrava em nada o rapaz irresponsável que circulava naquela mansão arrasando corações no passado. Kevin fora chamado para o time unicamente porque tinha uma mutação muito útil, mas agora Dana via outras qualidades nele. Aquela maturidade e o discurso apaziguador o tornavam muito útil naquele contexto tão complicado.

- A presença da Srta. Westphal neste grupo não é uma pauta de votação. – Megale se meteu antes que mais alguém se manifestasse – Dana a convidou e, portanto, cabe apenas a ela a decisão de aceitar o convite.

Os olhos azuis se ergueram até Dana e Hyacinth precisou de mais alguns segundos até se decidir. A mágoa ainda existia, mas Kevin tinha razão ao afirmar que os problemas pessoais não deveriam ser postos em primeiro plano naquele momento.

- Estou dentro.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Seg Jun 13, 2016 10:41 pm

- Ótimo. Temos que partir de algum ponto, não é? Você já tem algo em mente, Dana?

Mais uma vez, a voz sensata de Templeton soou na mesa colocando um fim no “dilema Hyacinth” e obrigando todos a voltarem a atenção para o verdadeiro foco daquela reunião. Kevin se sentiu na obrigação de ser a voz da razão naquela manhã já que era uma das poucas pessoas da mesa que enxergava a situação de forma mais racional. Embora tivesse sido amigo de Westphal, Kevin não compartilhava do mesmo sentimento de traição de Andrew e Davina, tampouco se sentia na obrigação de defender Hyacinth como os tutores. Para ele era fácil enxergar Hyacinth exatamente como ela era: extremamente poderosa e perigosa, mas até então inocente.

- Bom, eu pensei em começarmos pelo edifício.

Dana se referia a um dos atentados mais recentes, no qual um prédio comercial de quinze andares veio a baixo causando a morte de centenas de pessoas. A imprensa havia noticiado a tragédia como um erro de engenharia, mas alguns laudos mostravam que a estrutura de ferro que sustentava o edifício tinha derretido de forma inexplicável. Para Dana, era a prova de que havia um poder mutante por trás da história.

- Há uma filial de uma rede de estacionamentos no mesmo terreno, bem ao lado de onde ficava o prédio. O sistema de segurança deles é excelente. Se nós tivéssemos acesso às imagens do circuito no dia da tragédia talvez conseguíssemos encontrar alguma pista que nos fornecesse um horizonte.

- É uma boa ideia. – Chevalier acenou com a cabeça – Imagino que a polícia já tenha revirado essas imagens, mas nós teríamos um olhar muito mais crítico nesse sentido. Os policiais assistiram aos vídeos procurando por bombas ou por terroristas. Nós sabemos que estamos atrás de um mutante.

- Certo, parece uma excelente ideia. – Megale ponderou com a sua voz de trovão – Mas como você mesma disse, Dana, o esquema de segurança deles é bom. Como vamos ter acesso a essas imagens?

Ao invés de uma resposta verbal, Dana se colocou de pé e caminhou até um televisor fixado na parede, bem diante da cabeceira da mesa. Usando um controle remoto, a diretora acessou a imagem de um vídeo amador gravado por um celular. Na filmagem havia apenas um homem que caminhava livremente por um estacionamento usando um uniforme de segurança.

- Este é o chefe da segurança. Eu acompanhei a rotina dele por alguns dias. Ele tem uma folga por semana, geralmente sábado ou domingo. Chega às sete, tem duas horas de almoço e sai do trabalho por volta das oito da noite. Pelo menos duas ou três vezes por semana, ele retorna para o turno da noite às onze horas.

- Mas que merda de vida. – Hugo não conteve a língua – Ele ganha bem, pelo menos?

- Bom, Hugo, esta informação eu vou ficar te devendo. – Dana abriu um meio sorriso e pausou o vídeo quando a tela mostrou um close do rosto do segurança – O mais importante é que é a impressão digital dele que abre a central de segurança que controla todas as câmeras do circuito. Pensei em usar um intangível, mas se entrarmos sem destravar o alarme não teremos tempo de pegar as imagens. Além disso, seria uma exposição totalmente desnecessária.

- Ou seja, precisamos dele para entrar. – Hugo soou desanimado – Ele obviamente não vai ficar feliz em ajudar e eu não queria que começássemos nisso machucando um inocente.

- Não precisamos dele. – Dana ergueu um ombro – Só do corpo dele. Ou de uma cópia perfeita do corpo dele. – a loira olhou da tela da televisão para Kevin – Isso é o bastante para você ou precisa de mais detalhes?

Antes mesmo que Dana o chamasse para a conversa, Templeton já tinha entendido que aquela era uma missão para ele. Os olhos escuros estudaram cuidadosamente cada detalhe do rosto do segurança antes que o rapaz movesse a cabeça num sinal de concordância.

- Eu consigo.

- O horário de almoço me parece o melhor momento já que não temos acesso à escala do turno da noite. Logo que ele sair, você entra em cena e terá um pouco mais de uma hora para resolver tudo.

- Certo. Só preciso conhecer por alto o espaço físico para não perder tempo procurando a sala.

- Eu consegui uma cópia da planta da construção. – Dana realmente tinha pensado em todos os detalhes – Vou te passar ao fim da reunião.

- Beleza, o plano parece lindo. – Hugo se remexeu na cadeira, incomodado com a ideia de Kevin se arriscar sozinho – Mas precisamos garantir que o tal segurança fique fora durante todo o período do almoço. Seria catastrófico se ele resolvesse voltar mais cedo por algum motivo. Esses caras usam armas! O Kev não é intangível e nem tem poder de regeneração, nada impede que uma bala atravesse a testa dele.

- Alguém pode acompanhar o tal segurança e avisar o Kevin caso ele volte antes do esperado. – Chevalier sugeriu sem pensar muito – Seria arriscado, mas isso daria ao Templeton alguns minutos para fugir.

- Eu acho muito mais seguro garantir que o segurança não tenha condições de voltar antes do planejado. – Kevin fez uma pausa antes de voltar a sua atenção para Davina – Imagino que ele não se sentiria nada inclinado a sair mais cedo do restaurante se houvesse uma grande tempestade lá fora.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Ter Jun 14, 2016 3:00 am

Davina prestava atenção em cada uma das falas dos colegas, com medo de deixar qualquer detalhe do plano traçado por Dana. Assim como Kevin, ela logo deduziu que aquela missão fosse destinada a ele e tentou ignorar a ruguinha de preocupação que surgiu entre suas sobrancelhas.

O que Ackerman não esperava é que a solução de sua preocupação fosse ser verbalizada exatamente por Templeton quando seu nome soou pela sala de reuniões. As sobrancelhas claras se arquearam e por alguns segundos, Davina foi incapaz de esconder a surpresa por seu nome ter sido citado.

Ela estava certa de que Westphal seria escolhida para ajudar Templeton naquela missão, já que a ruiva estava tão disposta a mostrar que não apresentava perigo a ninguém. Foi preciso fazer um grande esforço para ignorar a empolgação que começou a se espalhar pelo seu corpo, tentando convencer a si mesma que estava apenas ansiosa por poder usar o seu poder.

Torcendo para que nenhum dos presentes estivesse escutando as batidas fortes do seu coração, embora tivesse uma grande chance de Hugo estar ouvindo cada uma delas, Davina lançou um sorriso alegre e despojado, esticando os braços sobre o campo de madeira de forma relaxada.

- Uma tempestade? Que sorte que essa é a minha especialidade, Kev. Pode deixar que vou dar motivos pro cara ficar dentro do restaurante, sequinho.

O sorriso orgulhoso de Dana mostrava como ela se sentia satisfeita com a evolução dos seus pupilos. A responsabilidade de Templeton e a confiança de Ackerman eram os frutos do seu bom trabalho e lhe reforçava a ideia de que estava no caminho certo.

A reunião ainda foi prolongada por alguns minutos enquanto Davina e Kevin combinavam quando e aonde iriam se encontrar. A missão já seria executada em menos de uma semana, apenas para que Templeton tivesse tempo suficiente de estudar a planta do prédio. Os dois deveriam se encontrar antes de seguir até o restaurante onde o segurança trabalhava e Davina tentava ignorar o pensamento de que ela se encontraria com o ex-namorado outra vez.

Quando a reunião finalmente foi encerrada, Davina ergueu uma sobrancelha para o pequeno furacão provocado por Andrew quando o irmão, mesmo no lado oposto da porta, foi o primeiro a se retirar.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Ter Jun 14, 2016 3:01 am

Andrew não cogitava realmente desistir de participar do grupo montado por Dana. Exatamente como Kevin havia levantado, a situação ia muito além do que problemas pessoais, embora Ackerman tivesse motivos de sobra para querer deixar aquela sala.

Apesar da sua convicção, foi impossível não se sentir irritado com a intromissão de Davina. As vezes, toda a confiança adquirida ao longo dos anos pela irmã se tornava um tanto invasiva. Andrew queria ser capaz de articular as próprias escolhas, e naquele momento, ele queria demonstrar pelo menos um pouco de sua insatisfação com os últimos acontecimentos.

O rapaz precisou dizer para si mesmo que não havia sentido o peito apertar quando Hyacinth cogitou declinar o convite da diretora. Uma vozinha em sua cabeça lhe dizia que ela havia acabado de aparecer novamente em sua vida e que ele não estava preparado para deixa-la no passado outra vez. Foi preciso negar até mesmo quando a ruiva concordou em participar do grupo e um suspiro escapou pelos seus lábios.

Intimamente, Anderw sabia que seu coração estava batendo acelerado graças a presença de Westphal, mas a mágoa provocada pelo abandono de tantos anos não lhe permitia aceitar aquilo tão abertamente.

Durante todo o restante da reunião, Andy permaneceu calado, evitando a todo custo que seu olhar se encontrasse com o de Hyacinth. Ele duvidava que a ruiva pensasse nele após tantos anos, mas se havia alguma chance de fazê-la se sentir insignificante, Ackerman se esforçaria para tal.

Foi um imenso alívio quando Dana finalmente dispensou seus ex-alunos, deixando previamente agendado o próximo encontro, após Kevin e Davina tiverem em mãos as gravações necessárias.

Sem pensar duas vezes, sem ao menos imaginar que estava fazendo uma cena diante de todos, Ackerman deixou a sala pisando duro, como se ele fosse incapaz de respirar se continuasse ali por mais alguns segundos.

Ele ainda se sentia tão desnorteado quando deixou a sala que só percebeu que havia alcançado o saguão quando Jace apareceu em seu caminho. O pequeno Hardin estava tranquilo e de mãos dadas com a mulher, mas bastou reconhecer o pai para se soltar dela e correr pelo piso de granito ao seu encontro.

Como se a simples presença do filho fosse capaz de lhe arrancar todos os problemas, Andy abriu um largo sorriso ao puxar o menino no colo. Ele sabia que já haveria enlouquecido se não fosse a presença de Hardin em sua vida.

- Você se comportou? – Andy perguntou, deslizando os dedos pelos cabelos do filho, procurando arrumá-los.

- Sim. Vou ganhar pizza por isso?

Andrew ergueu uma sobrancelha, se fazendo de inocente.

- Como assim? Que história é essa?

- Tia Dav diz que eu posso comer pizza quando me comporto.

- Sua tia é um desastre. – Andrew balançou a cabeça em negação, adicionando mais aquele pensamento na lista de motivos para querer xingar a irmã naquele dia.

Sem perceber que estava sendo observado, Andrew levou um susto quando uma voz feminina soou atrás de si, ainda vindo da escada e ecoando por praticamente todo o saguão.

- Ooooooown!!! É seu filho, Andrew?

Ackerman se virou no susto, mantendo o pequeno Hardin em seu colo, mas se forçou a sorrir quando reconheceu Sarah.

- Mas ele é tão bonitinho, parece com você!

O sorriso forçado de Andrew morreu de vez quando ele reconheceu os fios ruivos que vinham logo atrás de Sarah.

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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Ter Jun 14, 2016 3:45 am

A escolha de Kevin e Davina para a primeira missão oficial do grupo deixou bem claro para os presentes que Dana dava valor a todos os membros daquela reunião e que não julgava que Hyacinth estivesse acima de todos eles. Era exatamente isso que a ruiva queria que todos compreendessem. Ela estava ali como uma igual e pretendia ajudar sempre que possível.

Por mais numerosos que fossem os seus poderes, Cinth sabia que jamais seria tão boa em transmorfismo quanto Templeton, muito menos controlaria o clima com a mesma habilidade de Davina. Talvez isso fosse mais um dos castigos vindos com a sua mutação. Westphal podia dominar várias áreas, mas não se sentia suficientemente boa em nada do que fazia.

Ao fim da reunião, foi impossível não sentir um profundo alívio. Hyacinth não pretendia fugir da participação naquela guerra, mas estaria mentindo se dissesse que era indiferente à maneira como estava sendo tratada pelos amigos. E Andrew fez com que ela se sentisse ainda mais miserável quando saiu da sala daquela maneira abrupta, fazendo com que o clima ficasse ainda mais pesado.

Quando saiu da sala, o plano de Westphal era aproveitar o restante daquela manhã em uma caminhada pelos terrenos da escola. A vista era linda e convidativa, assim como a solidão seria muito bem-vinda depois dos últimos acontecimentos.

A última coisa que Hyacinth imaginava era a surpresa que esperava por ela no saguão. As palavras de Sarah eram desnecessárias para qualquer um que visse Hardin nos braços de Andrew. A semelhança era absurdamente grande e não permitia que ninguém tivesse qualquer dúvida de que o menino era filho de Ackerman.

Nos últimos anos, sempre que pensava no ex-namorado, Cinth se perguntava até que ponto Andrew teria seguido com a própria vida. Era difícil prever se ele continuava trabalhando como tutor, se havia se casado, se já tinha filhos... Racionalmente, Westphal desejava que Ackerman estivesse feliz e realizado, mas era difícil ignorar aquela partezinha egoísta do seu coração que se despedaçava de ciúmes em pensar que Andrew amava outra mulher e que construíra uma vida sem ela.

Ali estava a prova de que não havia mais espaço para ela na vida de Andrew. O rapaz agora era pai, certamente tinha uma bela esposa esperando por ele em casa e Cinth havia se tornado apenas uma incômoda lembrança do passado.

Apesar da imensa tristeza que se espalhou pelo peito da ruiva, Hyacinth não conseguiu transmitir aquela frustração para o pequeno Hardin. O olharzinho inocente e curioso que ele lançou à ruiva não permitia que Westphal o desprezasse. O menino era a prova viva que colocava um fim em qualquer esperança que ela pudesse ter de se entender com o ex-namorado, mas era impossível não sorrir diante do rostinho dele. Cinth jamais conseguiria odiar aquela miniatura de Andrew Ackerman.

- Oi.

Hyacinth não tinha a menor intenção de provocar Andrew quando cumprimentou o menino, mas era impossível passar direto por eles e fingir que não percebera o olhar insistente de Hardin. Talvez fossem os seus cabelos exóticos, ou os olhos tão profundamente azuis, ou simplesmente o fato de ser uma pessoa desconhecida. Fosse qual fosse a razão, Hardin nem piscava enquanto a seguia com um olhar curioso.

- Oi. – Hardin soava tímido como de costume, mas não conseguiu desviar o olhar.

- Como se chama?

- Hardin.

- Oi, Hardin. Eu sou a Hyacinth. – a ruiva abriu um sorriso compreensivo quando o menino franziu as sobrancelhas – É, é um nome complicado. Pode me chamar de Cinth. Fica mais fácil, não fica?

Um sorriso surgiu no rostinho de Hardin antes que ele movesse a cabeça vigorosamente num gesto afirmativo. Westphal não havia chegado tão perto do garotinho, mas se aproximou o bastante para que seu perfume chegasse até os Ackerman. A ruiva usava uma essência floral incomum, ligeiramente doce, o bastante para ser notado mas não o suficiente para tornar-se enjoativo. Somente alguém com grande conhecimento na área notaria que aquele perfume vinha da essência de jacintos.

- Ele é realmente a sua cara, Andrew. – apesar de sentir o coração despedaçado, as palavras da ruiva foram sinceras – É muito bom saber que você está bem, que construiu uma família.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Ter Jun 14, 2016 4:15 am

Andrew não havia notado o olhar insistente de Hardin em Hyacinth quando ele próprio também encarava a ruiva como se estivesse hipnotizado, incapaz de desviar sua atenção até que o perfume suave alcançasse seus sentidos.

Os lábios de Ackerman estavam entreabertos, como se ele estivesse em estado de choque até que finalmente teve consciência que Westphal estava diante de si. Era muito mais fácil estar em uma sala cheia de outras pessoas, mas sem ninguém para desviar sua atenção, a presença da ex-namorada era ainda mais intensa.

Sentindo-se travado, incapaz de sair do lugar, Andrew engoliu em seco quando finalmente admitiu que não poderia mais fugir daquele encontro. Já estava se comportando de maneira infantil durante toda a manhã, era desnecessário fazer uma cena e arrancar Hardin do alcance de Hyacinth.

Os lábios de Andrew se espremeram por um instante, formando uma linha fina, enquanto ele estudava o rosto de Hyacinth mais de perto, tentando ignorar o delicioso perfume que o inebriava.

Ele já havia notado como o tempo havia feito bem para Hyacinth, mas a ruiva estava incrivelmente linda quando olhando ainda mais de perto. Os olhos continuavam de um intenso azul que havia assombrado seus sonhos por anos. Os cabelos brilhavam, implorando pelo toque dos seus dedos, e os lábios se curvavam de forma tão graciosa enquanto ela falava, que Andrew precisou de alguns segundos além do necessário para compreender o que havia sido dito.

Por fim, seus lábios tentaram se curvar em um sorriso, mas o resultado foi apenas uma pequena alteração para um dos cantos da bochecha, sem grande ânimo.

- Obrigado, Hyacinth. Davina também fala o tempo inteiro o quanto ele é parecido comigo, mas sei que ele tem muito mais semelhança com a mãe.

O comentário de Andrew não tinha a intenção de ferir Westphal. Ele estava sendo sincero em cada uma de suas palavras. O pequeno Hardin tinha os cabelos tão negros quanto Molly, e apesar do formato dos olhos e sobrancelhas serem idênticos aos do pai, o sorriso era a cópia da mãe.

Por um instante, o olhar de Ackerman vagou pelo rosto inocente do próprio filho, completamente alheio ao clima tenso entre os dois adultos, e ele finalmente deu um sorriso sincero.

O brilho em seu olhar desapareceu no instante seguinte, quando voltou a encarar Westphal.

- É bom saber que você está viva, Hyacinth. Espero que esteja feliz também. – O olhar de Andy desceu por um segundo pelo vestido preto que a ruiva usava e ele acrescentou. – Com certeza os anos fizeram bem pra você, que bom que soube viver com suas próprias escolhas.

A ponta da língua de Ackerman tremia para que ele tentasse magoar Westphal com palavras mais duras, que ele deveria se dar por satisfeito em saber que ela estava viva, já que a falta de notícias poderia facilmente ser interpretada como a rendição de sua mutação. Mas Andy já começava a se sentir esgotado até mesmo para aquela discussão.

- Papai, pizza. – A voz de Hardin trouxe Andy de volta a realidade, trazendo junto um sorriso mais suave.

- Nós já vamos, Hardin. Só precisamos esperar a louca da sua tia.

- Quer vir também? – Hardin apoiou a cabeça no ombro do pai, piscando lentamente enquanto encarava Hyacinth.

Talvez a ruiva não pudesse perceber, mas Andrew conhecia o filho o suficiente para perceber que ele estava encantado com ela. Talvez fosse alguma praga dos cabelos vermelhos que eram capazes de hipnotizar os Ackerman.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Ter Jun 14, 2016 4:18 am

Kevin, Hugo e Davina foram os últimos a se levantarem de suas cadeiras ao fim da reunião. O plano que uniria Ackerman e Templeton já estava praticamente todo esquematizado, mas é claro que os dois teriam que manter contato nos dias seguintes para ajustar os últimos detalhes e garantir que não haveria nenhum tipo de falha. Parecia um plano simples mas, como Hugo ressaltara, as complicações poderiam surgir e se tornar dramáticas se eles não tomassem todo o cuidado necessário.

- Fique com o meu telefone. Depois você me manda uma mensagem e eu salvo o seu número. Vamos combinar os detalhes ao longo da semana, mas imagino que até quinta ou sexta eu já estarei pronto.

De dentro do bolso da camisa de botões salmão, Kevin tirou um cartãozinho. Além do seu nome, do número do celular e do telefone do estúdio, havia a informação sobre a profissão na qual o rapaz trabalhava atualmente. Como Templeton nunca mencionou nenhuma habilidade ou gosto pela fotografia, ele não se ofendeu com o semblante surpreso da ex-namorada.

- Começou como um hobby. – Kevin ergueu um dos ombros, como se não fosse nada demais – Depois fiz alguns cursos e quando notei já estava trabalhando com isso. Não é nada demais, mas tem sido o bastante para pagar as contas.

- Ele está sendo modesto. – Hugo rapidamente se meteu na conversa em defesa do amigo – O Kev é sensacional, ele tem fotografado pra várias campanhas publicitárias. Provavelmente você já deve ter visto o novo outdoor da Hollister Kids. – Hugo deu dois tapinhas nas costas do amigo – Adivinha de quem é a foto?

De fato, era uma campanha difícil de não ser notada. O garotinho que representava a marca era uma criança adorável e, sem dúvida, Templeton fora capaz de captar um ângulo perfeito e registrara um sorriso único da criança. Qualquer um que já tivesse passado perto de um outdoor da campanha saberia do que Hugo estava falando.

- Eu retribuiria o favor falando bem do seu trabalho, Hugo, mas acho que a Davina não ficaria tão impressionada com os detalhes pormenorizados das suas castrações.

- Sou veterinário. – Hugo explicou com um largo sorriso – Especializado em equinos de competições esportivas. Já que estamos colocando as fofocas em dia, por que não marcamos algo mais informal? Um jantar na casa do Theo, talvez.

- Você está marcando um jantar em uma casa que não é a sua? – Templeton ergueu as sobrancelhas para o amigo.

- Estou. A Su não vai se importar, ela vive dizendo que temos que nos encontrar mais vezes. E, até onde eu me lembro, ela e a Davs se davam bem.

Ursula não fora exatamente uma amiga muito próxima de Davina, mas as duas nunca tinham tido nenhum problema. Só o fato da esposa de Theodore nunca ter se unido aos colegas que zombavam de Ackerman já contava como um ponto positivo para ela.

- Que tal, Davs? A gente não deveria perder o contato de novo. O Theo não entrou pro grupo, mas tenho certeza de que ele ficará feliz em rever você, o Andrew... – Hugo pensou em acrescentar Hyacinth na lista, mas fez a sábia escolha de se calar naquele ponto do discurso.

- Eu também acho que a Ursula adoraria ser a anfitriã desse jantar. – Kevin achou que a melhor saída para colocar um fim naquele constrangimento era oficializar que a sua relação com Davina voltara a ser uma boa amizade – Vamos marcar alguma coisa e eu te aviso, certo?
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Ter Jun 14, 2016 6:34 pm

Mesmo que estivesse arrasada com a certeza que Andrew havia reconstruído uma vida feliz na qual ela não se encaixava, um sorriso sincero iluminou as feições de Hyacinth diante da doce inocência de Hardin. Completamente alheio ao clima pesado entre os adultos, o convite dele soou com tanta doçura que teve o poder de abrandar um pouco a tristeza que a ruiva sentia.

- Pizza? – Hyacinth esperou que o garotinho confirmasse com um de seus exagerados movimentos de cabeça – É alguma ocasião especial?

- Eu me comportei bem.

Hardin respondeu como se aquilo fosse óbvio e não abrisse nenhuma brecha para questionamentos. A entonação dele arrancou uma risada breve e melodiosa da ruiva.

Westphal sentia as mãos formigarem com a vontade de fazer uma carícia no rostinho daquela miniatura de Andrew, mas ela se conteve pela certeza de que o pai do menino não aprovaria tal proximidade. Para ocupar as mãos e resistir àquela tentação, Cinth usou os dedos para colocar algumas mechas do cabelo atrás das orelhas.

- Me parece justo. Bom apetite para vocês!

Hyacinth abriu um sorriso como despedida e tentou se afastar, mas Hardin repetiu o convite antes que a ruiva conseguisse dar o segundo passo.

- Você não vem? – os lábios do menino se curvaram num biquinho – Você não gosta de pizza?

Por mais que não quisesse magoar o pequeno Hardin, Hyacinth não se sentia nada inclinada a aceitar aquele doce convite. Depois da reação pouco amigável de Andrew e da aparente indiferença de Davina, a última coisa que a ruiva desejava era ter que passar mais algumas horas com eles.

Era óbvio que Cinth não seria bem vinda naquele programa familiar e ela sentia um arrepio só de imaginar que a mãe de Hardin poderia se juntar a eles naquela tarde. Definitivamente, Westphal não se sentia pronta para conhecer a esposa de Ackerman, a mulher que provavelmente escutava o “eu te amo” que Andrew nunca conseguira dizer para Hyacinth.

- É claro que eu gosto. Existe alguém que não goste de pizza?

O garotinho pareceu ponderar sobre aquela pergunta por alguns segundos antes de respondê-la, sacudindo a cabeça em negativa.

- Mas hoje eu não posso, Hardin. Eu preciso fazer umas coisas por aqui...

A resposta vaga deixava claro que não existia nenhum compromisso que impediria Hyacinth de aceitar aquele convite, por sorte Hardin era pequeno e inocente demais para notar a mentira. Tudo o que ele sabia é que os adultos viviam ocupados com várias obrigações, então era fácil acreditar que a ruiva realmente tinha outros planos para aquele dia. Uma criança pura como Hardin jamais entenderia a complexidade da relação entre seu pai e Hyacinth.

- Quem sabe outro dia, hm? Mas obrigada pelo convite, você é muito gentil.

Mais uma vez, Hyacinth teve o reflexo de tocar no garotinho. A ruiva chegou a estender um dos braços, mas interrompeu o movimento pela metade e recuou a mão. O poder dela não causaria nenhum dano a uma criança pequena que ainda não manifestara nenhuma mutação, mas Cinth sabia que Andrew não ficaria satisfeito com aquele toque.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qua Jun 15, 2016 4:32 am

Davina não se lembrava quando havia sido a última vez que ela se sentia daquele jeito. Era difícil até mesmo definir qual era o sentimento que se apoderava do seu corpo enquanto ela esperava na soleira da porta, mantendo uma garrafa de vinho em suas mãos.

Talvez fosse nervosismo, ansiedade ou insegurança, mas independente do nome, ela começava a se questionar se havia mesmo sido uma boa ideia concordar com aquela loucura.

Embora o reencontro com Hugo tivesse sido ótimo, já que o rapaz continuava tão despojado e divertido quanto antes, Ackerman sabia que muitos anos haviam se passado. Ela e os antigos amigos tinham se tornado pessoas completamente diferentes e estar novamente juntos era, no mínimo, estranho.

Era incrível que Kevin, Hugo e Theodore tivessem mantido a amizade ao longo dos anos e era inevitável sentir uma pontada de inveja. Talvez, se não fosse o complicado fim de namoro com Templeton, ela e os rapazes tivessem mantido mais contato naquele tempo.

Ao contrário disso, Ackerman estava parada diante da casa de Theodore, ouvindo uma pequena bagunça em seu interior enquanto aguardava alguém atender a porta. A casa não era tão elegante quanto o apartamento de Davina, mas era grande o bastante para comportar a grande família de Theo. A rua pacata era toda composta por casinhas idênticas e havia uma bicicleta infantil branca, esquecida no gramado, com todo o charme de um lar.

Quando o rosto de Ursula finalmente surgiu, se iluminando em um sorriso, Davina soube que não dava mais tempo de fugir. A antiga colega a puxou para um abraço rápido antes de liberar a passagem.

Os olhos castanhos passearam ao redor, admirando a sala. O cômodo era espaçoso e em uma decoração extremamente aconchegante, mas com brinquedos espalhados por todo o canto. Havia um cercadinho onde um bebê que começava a ficar em pé sozinho tentava se pendurar.

A barriga de Ursula ainda não estava tão grande, mas já era possível notar a gravidez de poucos meses. Um pequeno furacão de cabelos acobreados surgiu e Davina logo concluiu quem era a dona da bicicleta branca esquecida na entrada da casa.

- Tessa, pare de correr pela casa! Temos visitas!

A pequena bagunça provocada pela menininha de seis anos poderia provocar caretas em qualquer pessoa, mas foi a única coisa que pareceu acalmar Davina naquela noite. A criança era um pouco mais velha que Hardin, e parecia ter muito mais energia para gastar, mas Ackerman era apaixonada por crianças e aquilo era reconfortante.

- Tente não reparar nessa peste, Davs. Os meninos estão na varanda dos fundos, o Hugo inventou que precisávamos assar alguns hambúrgueres. – Ursula girou os olhos enquanto, mas o sorriso que ela exibia mostrava que não se incomodava com a intromissão do amigo do marido.

- Tudo bem... Acho que tenho algo aqui que ela vai gostar. – Davina abriu um largo sorriso quando a menininha lançou um olhar curioso na sua direção.

- Eca, eu não posso beber. – Ela sacudiu a cabeça, balançando os fios acobreados, ao notar a garrafa de vinho na mão de Davina.

Com um riso divertido, Davina ergueu a outra mão, revelando um pote de sorvete. O pote estava em contato direto com a sua mão, e uma pequena fumaça o rodeava, mostrando o quão gelado estava..

- Mas você pode tomar sorvete, né? – Ao terminar de falar, Davina lançou um olhar apreensivo na direção de Ursula.

Ela estava acostumada a provocar Andrew todo o tempo para agradar os mimos de Hardin, mas não sabia qual seria a reação da colega com aquele deslize. Para seu alívio, a esposa de Theo apenas sorriu e balançou a cabeça.

- Depois do jantar, Tessie.

- Como você faz para ficar tão gelado?

A pequena Tessa começou a andar ao lado de Davina enquanto ela retirava o sobretudo, revelando o vestido branco e justo, que alcançava a metade de suas coxas. Minúsculas pedrinhas pretas modelavam as laterais, afinando ainda mais a cintura de Ackerman.

- Isso aqui? – Davina levantou de novo o pote ainda perfeitamente congelado, sem nenhum sinal de que começaria a derreter, e sorriu com orgulho. – Bastante útil, não é? Melhor que o poder do seu pai.

- EU VOU QUERER SORVETE TAMBÉM! – A voz de Hugo invandiu o interior da casa, e Davina sabia que ele havia escutado a conversa toda, mesmo ainda estando diante da churrasqueira onde assaria os hambúrgueres.

Com um riso, Davina entregou o sorvete e a garrafa de vinho para Ursula. Um pequeno ruído no cercadinho a fez lembrar da presença do bebê, e com um pedido mudo para a mãe, Ackerman se aproximou até pegar a criança em seu colo.

Sem estranhar, o bebê apoiou a cabeça em seu ombro enquanto enfiava a mãozinha na boca, satisfeita pela pequena dose de liberdade.

Seguindo os passos da dona da casa, Davina se viu atravessando a cozinha de Theo até alcançar a varanda dos fundos. Apesar do sol já ter ido embora, o quintal estava bem iluminado e exatamente como ela previra, Hugo estava diante da churrasqueira, revirando os hambúrgueres.

Uma pequena mesa havia sido posta de forma informal, o que ela agradeceu mentalmente. A última coisa que precisava era que os amigos impusessem a formalidade naquele reencontro. O que ela não esperava era encontrar, junto de Theo e Kevin, uma terceira pessoa.

Por um segundo, sem razões lógicas, Davina pediu intimamente que a mulher desconhecida estivesse acompanhando Hugo, mas o toque íntimo na mão de Kevin logo revelou sua verdadeira identidade, fazendo seu estômago se revirar. Mais uma sensação que ela não sentia há anos.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Qua Jun 15, 2016 10:38 pm

Era difícil para Templeton disfarçar o desconforto. Embora tivesse concordado com aquele encontro na casa de Theodore, Kevin não estava certo de que seria uma boa ideia se reaproximar de Davina. Era fácil manter um relacionamento profissional quando os dois estavam ao redor de uma mesa de reuniões falando sobre os planos de Dana, mas Templeton não tinha tanta certeza se conseguiria manter a naturalidade ali, tendo que encarar a ex-namorada apenas como uma amiga.

A presença da atual noiva só tornava a situação mais delicada, mas Kevin não soube como se livrar dela. Não havia motivos sensatos para exclui-la daquele jantar, ainda mais porque ela se dava muito bem com os rapazes e era uma grande amiga de Ursula.

- Hey, hey! – Theodore foi o primeiro a se levantar para cumprimentar a antiga colega – Que bom que você veio, Davs! Quando o Hugo comentou que você estava na reunião eu lamentei não ter ido. É ótimo rever você!

O antigo colega de quarto de Kevin havia mudado um pouco nos últimos dez anos. Theo ganhara alguns poucos quilos, agora usava um cavanhaque e alguns raros fios brancos já apareceriam no meio do cabelo acobreado. O abraço gentil que ele ofereceu a Davina deixou claro que não havia restado nenhum tipo de mágoa da época da escola.

Com a proximidade do pai, a garotinha no colo de Davina não resistiu à tentação e esticou os bracinhos na direção de Theodore, pedindo por colo. Theo acomodou a caçula em seus braços e beijou o topo da cabecinha dela.

- Esta é a Bella. Imagino que já conheceu a Tessa. E em alguns meses teremos mais um para me enlouquecer. É um menino desta vez.

- O pequeno Hugo. – Hugo comentou da churrasqueira.

- O que te faz pensar que vou dar o seu nome para o meu filho, Hugo? – Theo girou os olhos antes de se voltar para o amigo.

- É um nome simples e bonito. Não conheço nenhum Hugo que não seja bem sucedido. E você me ama e será uma linda homenagem para um padrinho. – Hugo repetiu para o caso de Davina não ter entendido – Eu serei o padrinho.

- E eu me arrependo deste convite todos os dias. – Theodore novamente girou os olhos – Realmente não sei onde estava com a cabeça!

Enquanto os dois amigos discutiam, a moça sentada à mesa se levantou e aproximou-se de Davina. Era uma jovem bonita, com traços ligeiramente familiares. Os cabelos claros eram compostos por mechas com diferentes tons de loiro, formando um agradável mesclado de luzes. O corte chanel de bico dava a ela uma aparência moderna e sofisticada, assim como a calça preta de couro que modelava seu corpo com perfeição. A camiseta era branca e composta por várias pedrinhas. Ela já era bem mais alta que Davina, mas conseguira intensificar ainda mais aquela diferença com sapatos de salto.

- Oi, Davina! Quanto tempo, hum!?

O sorriso amplo e a entonação simpática mostravam que Ackerman e a loira já se conheciam. Diante do olhar confuso de Davina, a moça soltou um risinho e comentou com Theo de forma divertida.

- Ela não está me reconhecendo. Poxa, Dav! Eu sei que mudei um pouquinho, mas esperava mais de uma velha amiga!

Como sabia que Ackerman não chegaria tão facilmente à resposta, Theo curvou as mãos ao redor dos lábios e sussurrou somente para Davina. E, no caso, também para Hugo.

- Carol.

Se olhasse muito atentamente, Davina poderia reconhecer alguns traços da antiga colega de quarto na mulher que agora estava a sua frente. Os olhos esverdeados de Caroline Winter ainda eram os mesmos, assim como o formato dos lábios. Mas, definitivamente, todo o resto havia mudado demais.

Na época da escola, os cabelos de Caroline eram escuros e cacheados, totalmente diferentes dos fios lisos e claros de agora. Winter vivia dizendo que queria fazer uma plástica para diminuir o tamanho do nariz, e sem dúvida havia realizado aquele sonho nos últimos anos. De uma adolescente ligeiramente cheinha, Carol passara a ser uma mulher magra e com poucas curvas. Suas roupas apagadas agora davam lugar a um guarda-roupa mais moderno.

A antiga menina insegura e inocente que chorava por Kevin Templeton agora se tornara uma mulher firme e sofisticada que usava na mão direita uma aliança de noivado.

- Você não contou pra ela, amor? – Carol se voltou para o noivo que se aproximava da cena com um sorriso forçado.

- Só nos falamos durante a reunião, não houve oportunidade.

Templeton tentou soar o mais natural possível. Era evidente que Caroline não sabia que, após a sua partida, a antiga colega de quarto também havia entrado para a famosa lista de das conquistas de Kevin. Por isso, não foi por maldade ou provocação que Carol estendeu a mão direita e mostrou a aliança para Davina.

- Quem diria, né? Depois de tudo o que eu passei por ele! – a risada de Carol mostrava que ela agora achava graça de seu sofrimento adolescente – Ainda não temos uma data, mas provavelmente será no começo do próximo ano. Eu ainda não desisti daquela ideia romântica de me casar na primavera!
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Qui Jun 16, 2016 3:40 am

O som da televisão ecoava baixinho pela sala escura, iluminada apenas pelas imagens que apareciam na tela do aparelho. O pequeno Hardin Ackerman estava sentado no sofá, suas perninhas cobertas em um moletom, dobradas com os pés apoiados em uma almofada. Ele estava completamente relaxado, com os olhinhos vidrados no desenho animado, os cabelinhos molhados após o banho, completamente alheio a conversa dos dois adultos, há poucos metros de distância.

- Só to dizendo que eu entenderia se você tivesse ficado... sei lá, pelo menos balançado com a volta dela. Pode ter certeza que todo mundo ficou.

Andrew girou os olhos com impaciência, se recostando no portal enquanto observava Davina andar de um lado ao outro no quarto.

- Eu não fiquei abalado. Só levei um susto, igual todo mundo.

- Andy, vocês tiveram um relacionamento. É normal se tiver ficado abalado. – Davina tentava gesticular enquanto procurava um par de brincos em sua caixinha de joias.

Os olhos castanhos de Andrew encararam o tapete claro e peludo que cobria o piso do quarto de Davina, refletindo em suas palavras. O simples assunto Hyacinth Westphal era suficiente para lhe deixar incomodado e a imagem da ruiva não saía da sua cabeça desde o encontro na reunião de Dana.

- Você ficou abalada por reencontrar o Derek? Ou o Templeton?

Os cabelos cor de mel caindao em ondas nas costas de Davina era tudo que Andrew conseguia enxergar, de modo que ele não foi capaz de interpretar a expressão de seu rosto. Ainda assim, pode perceber que seus ombros ficaram ligeiramente tensos e ela levou dois segundos além do necessário para responder, tentando soar indiferente.

- Não é a mesma coisa. Eu já tinha esbarrado no Derek algumas vezes.

- E o Kevin? – Andrew ergueu uma sobrancelha, tentando se agarrar a qualquer assunto que tirasse Hyacinth do foco.

- Bom, eu estou indo jantar com ele, não estou? Quer dizer, com ele e o Hugo e o Theo. Então claramente já superei isso... Já você, saiu igual um louco da sala de reuniões. Sério, Andy... Bastou gravar na sua testa “Estou abalado”.

- Já disse que só levei um susto. – Andrew bufou, ficando verdadeiramente incomodado com a insistência de Davina, principalmente por saber que ela tinha razão.

Ele havia se esforçado tanto para querer ignorar Hyacinth, que acabou passando a imagem exatamente oposta. Com o olhar perdido, ele se surpreendeu quando Davina parou na sua frente, já devidamente vestida.

- Tudo bem se você quiser falar com ela de novo. Vocês deveriam conversar, pelo menos. Não tô dizendo que é pra você agarrar a garota, Andy... – Davina girou os olhos antes de continuar. – É só que essa sempre pareceu uma ponta solta no seu passado e agora você finalmente tem a chance de seguir em frente, sem amarras.

Andrew não teve coragem de encarar a irmã enquanto pensava em suas palavras. Ele não sabia se queria seguir em frente. Estava acostumado a ter a memória de Hyacinth para resgatar em seus momentos solitários, de fantasiar como estaria sua vida ou se algum dia estariam juntos novamente. Agora que ele sabia ao menos que a ruiva estava bem e que optara por não procura-lo em todos aqueles anos, ele só tinha aquela raiva ilógica para poder continuar ligado a ela.

Era uma tremenda babaquice, mas ainda era o máximo que ele tinha da ex-namorada.

Com um suspiro, Davina apoiou a mão no ombro do irmão e depositou um beijo estalado em sua bochecha.

- Apenas pense, está bem? Eu preciso ir, sua vez de ficar de babá hoje.

Mesmo depois que Davina seguiu pelo corredor e deixou o apartamento, Andrew permaneceu parado, encarando o quarto vazio e com os pensamentos distantes. Ele estava tão compenetrado naquele duelo interno de procurar ou não Hyacinth para conversar, que sequer imaginava o que a irmã estava fazendo, do lado de fora do apartamento.

O som seco apitou algumas vezes pelo aparelho de celular antes da voz de Hyacinth atender, do outro lado da linha.

- Cinth? Oi, é a Davina. Escute, eu andei pensando... Eu acho que as coisas estavam um pouco tensas na reunião e fiquei me sentindo mal. Apesar de tudo, a gente era bem amiga, não é? – Ela mordeu o lábio por um instante antes de continuar. – Por que a gente não tenta conversar? Eu estou de babá do Hardin hoje e estava pensando em pedir uma pizza, o moleque é viciado...

Davina soltou um risinho sincero com aquela observação, mas logo se apressou em continuar o assunto.

- Se você não estiver fazendo nada, podia passar aqui, o que acha? Te envio o endereço por mensagem, tá legal?

Quando Ackerman finalmente desligou a ligação, o elevador tinha acabado de chegar em seu andar. Com um sorriso satisfeito pela inocente travessura, ela entrou e apertou o botão do térreo, pronta para o jantar na casa de Theodore.

Os pés de Andrew finalmente se desgrudaram do chão e ele se juntou a Hardin no sofá, tentando ao máximo que o desenho prendesse sua atenção mais do que os olhos azuis que o assombravam em pensamento e que em breve estariam em sua porta.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Qui Jun 16, 2016 4:09 am

- Carol? – Davina perguntou, em eco ao sussurro de Theodore sobre a identidade da loira a sua frente. – Caroline Winter?

As sobrancelhas finas de Davina estavam franzidas e ela encarava a noiva de Kevin como se estivesse com um grave problema de visão, beirando a cegueira. Suas pálpebras ainda piscaram várias vezes enquanto seu cérebro tentava se adaptar à nova versão da Carol que ela tinha memorizada.

Era impossível que a linda mulher a sua frente fosse a mesma adolescente que tanto havia recorrido ao seu colo para chorar por Templeton, mas tão logo a surpresa passou, Davina sentiu um nó na boca do estômago.

Por um milésimo de segundo, ela chegou a se sentir culpada por ter se envolvido com Kevin, mesmo que o rapaz não tivesse mais nada com sua colega de quarto no período em que ficaram juntos. Como Davina sabia o quanto Carol gostava de Kevin, era como se ela tivesse traído a confiança da antiga amiga.

Mas aquele sentimento de culpa também logo se desfez, dando lugar a uma onda de ciúmes. Com a boca seca, Davina se perguntava silenciosamente o que Carol tinha de tão especial para ter conquistado aquela aliança no dedo.

Era uma grande tolice se sentir ansiosa por aquele encontro, e uma estupidez ainda maior as batidas aceleradas de seu coração sempre que seu olhar se encontrava com o Kevin. Muitos anos haviam se passado e ela não era mais a mesma, e obviamente, nem ele e muito menos Carol.

- Uau, você está irreconhecível. Está... incrível!

Uma das grandes qualidades de Davina era sua amizade, e pela primeira vez, ela se sentiu péssima pelo sorriso falso que surgiu em seus lábios quando o anel de noivado de Carol brilhou diante dos seus olhos.

- Isso é... uau! – Ela riu, tentando esconder o nervosismo pela sua incapacidade na escolha das palavras. – Eu não fazia ideia. Parabéns, Carol...

Mesmo sentindo seu estômago se revirar, Davina arriscou olhar para Kevin, e o sorriso falso era ainda mais difícil de se manter.

- Parabéns, Kevin.

Davina estava se sentindo ridícula. Mesmo quando ela e Templeton estavam juntos, o rapaz já havia mostrado que ela não era diferente de tantas outras que passaram por sua lista. Era irracional se sentir mal depois de tantos anos. Ela deveria estar feliz que Kevin finalmente tivesse mudado e encontrado alguém que amasse de verdade. Só era preciso ignorar aquele desejo tolo de que essa pessoa tivesse sido ela.

Sentindo as pernas ligeiramente trêmulas, Ackerman acompanhou os demais até a mesa montada, e se xingou mentalmente quando percebeu que havia sentado de frente para Kevin. Carol imediatamente assumiu o lugar ao lado do noivo, transbordando simpatia.

Por alguns minutos, Davina chegou a ignorar tudo que acontecia a sua volta. Uma conversa a respeito da nova gestação de Ursula tomou conta da mesa, mas logo Ackerman foi surpreendida quando chamaram o seu nome, a obrigando a voltar para a realidade.

- Davs? A Ursula estava falando com você... – Carol tocou seu braço, sorrindo com seu natural carisma, que de repente Davina descobriu odiar.

- Oi? – Davina girou a cabeça para encarar a mulher ao seu lado, que acariciava a própria barriga.

- Estava dizendo que você parece levar jeito com crianças. Tem filhos?

- Ah... – O sorriso de Davina se iluminou, esquecendo por um instante o desconforto de Carol e Kevin. – Não, não exatamente. Andy tem um filho, mas o moleque me adora, é um grudezinho.

- Você não tem vontade de ter seus próprios filhos, Davs?

Davina arqueou as sobrancelhas diante da pergunta invasiva de Theodore e podia jurar que ele estava lançando um olhar em direção a nuca de Kevin antes de perguntar. Theo e Hugo continuavam próximos da churrasqueira e o dono da casa bebericava um copo de suco enquanto carregava a filha no outro braço.

- Sim, claro. Mas ainda não é o momento. Além do mais, Hardin ocupa praticamente todo o meu tempo.

- Namorado? – Mais uma vez, a pergunta veio de Theo, mas Davina não se esquivou, respondendo com um sorriso nos lábios.

- Não, Hardin é o filho do Andy.

- Então, sem namorados? – Theo levouo suco até os lábios e deu um generoso gole, ignorando o olhar estreito que Ursula lançava em sua direção. – Pelo que eu me lembre, a última vez que nos vimos, você e o incrível Hulk pareciam estar se entendendo.

- Derek? – Carol arqueou uma de suas sobrancelhas claras enquanto um sorriso maroto brincava em seus lábios. – Derek Hale, Davs? Jura? Não sabia que tinha rolado um flashback.

Davina mordeu o lábio inferior e lutou contra a vontade de girar os olhos. Seria extremamente rude, mesmo que ela estivesse sendo bombardeadas com perguntas inapropriadas e quase infantis.

- Derek e eu tentamos, por um tempo.

Ela admitiu, se lembrando que depois do coração partido por Templeton, ela tentava encontrar em Hale a possibilidade de ser feliz novamente. O breve relacionamento serviu apenas para reforçar o que ela já sabia: Seu coração não batia por mais ninguém da mesma forma que por Kevin.

- Mas não deu certo e a gente admitiu que éramos muito melhores como amigos do que outra coisa. Mas ele também está noivo, sabia? Com data marcada, e não, não será na primavera.
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Re: Escola de mutantes

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