Escola de mutantes

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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sex Jun 10, 2016 5:08 am

Ao contrário de todos, Davina não se surpreendeu com o quão baixo Aphrodite era capaz de ir. Seu desgosto pela colega vinha há muito tempo, mas o envolvimento de Willis com Templeton apenas reforçara aquele ódio, permitindo que Ackerman enxergasse a pessoa má que a loira era, de verdade.

Um discreto sorriso de gratidão surgiu em seus lábios quando Hugo saiu em sua defesa mais uma vez. Até mesmo Theodore já parecia começar a se arrepender por ter tomado partido naquela história, se remexendo desconfortável em seu lugar.

Sem precisar acrescentar nenhum comentário após a posição de Hugo, Davina deu as costas aos demais, seguindo os passos de Derek para fora do refeitório.

O gramado ainda estava encharcado e afundava levemente sob os pés de Ackerman quando ela alcançou os jardins, mas sobre sua cabeça, o céu azul estava completamente livre das nuvens carregadas e foi impossível conter uma pontada de orgulho por saber que ela havia provocado aquilo.

Ainda com a cena do refeitório sendo reproduzida em loop em sua mente, Davina só percebeu onde estava quando Derek finalmente parou de andar. Os dois haviam alcançado quase o limite dos terrenos da mansão, onde o gramado chegava ao fim para uma cerca de grandes eucaliptos, dando início a um pequeno bosque onde ela já havia usado para algumas corridas.

Ackerman se lembrava de ter estado naquele ponto algumas vezes antes com Derek, onde os dois costumavam assistir ao pôr do sol recostados sobre uma grande e solitária pedra. O lugar não era tão distante da mansão e ainda era possível ver com perfeição a quadra de tênis e a piscina, mais ao fundo.

- O que viemos fazer aqui? – Davina cruzou os braços, repentinamente incomodada com as lembranças do passado.

- Treinar. – Derek respondeu e o tom óbvio em sua voz fez com que Ackerman relaxasse um pouco. – Fico feliz que você tenha mudado de ideia sobre o tempo. Bom trabalho, pequena.

O apelido carinhoso poderia causar uma pontada de desagrado, já que Davina não estava disposta a reviver o passado com Hale. Ela estava imensamente feliz em ter Derek novamente por perto, mas basicamente porque sentia falta de sua proteção e amizade.

Desde que se apaixonara por Kevin, Davina descobriu que nunca havia amado Derek de verdade, e seu coração recentemente partido estava impossibilitado de tentar dar uma nova chance a Hale.

Apesar disso, ela sorriu satisfeita e orgulhosa por alguém reconhecer que ela finalmente tivera algum controle sob o tempo.

- Então, o que você tem em mente? – Ela se recostou na grande pedra e cruzou os braços, se sentindo mais disposta a enfrentar aquele treino.

- Quero que você tente me acertar.

Derek estava parado diante de Davina, as pernas ligeiramente abertas e os braços cruzados sobre o peito coberto pela camisa negra. Seu semblante era tranquilo, convicto e causou ainda mais estranheza na menina.

- Como é que é? Derek, caso você não se lembre, meu controle é sobre o tempo. Eu só consigo fazer cair umas gotinhas do céu e mover umas nuvens. Não posso te acertar, logo você!.

Um pequeno grupo começava a encher a quadra de tênis para uma partida do horário da atividade física, mas Davina estava completamente entretida no sorriso enigmático de Hale.

- Eu conheci uma pessoa com o poder igual ao seu, pequena. Um velho rabugento, na verdade... – O rosto de Derek se contorceu em uma expressão cômica enquanto ele mergulhava em suas próprias lembranças. – E ele me fez perceber algo... Você é capaz de mover nuvens.

Davina concordou com um movimento da cabeça, os olhos arregalados. Era óbvio que ela era capaz de mover nuvens, todo mundo naquela escola sabia, e ainda não conseguia entender onde Derek queria chegar.

- Se você é capaz de mover nuvens, pequena... Imagine o que mais não consegue mover?

- Telecinese? – Davina bufou, incrédula, fazendo Derek negar.

- Aerocinese. Você consegue controlar o ar e o vento. Se conseguir se concentrar o suficiente, você seria capaz de me arremessar longe.

Pensar que ela seria capaz de acertar Derek parecia ridículo demais para ser verdade. Ela quase não tinha o controle sobre o tempo e Hale esperava que ela simplesmente fizesse uma bola de ar e o arremessasse para longe? Ele definitivamente não sabia o quanto ela estava longe de evoluir...

- Impossível. – Davina girou os olhos e se afastou da pedra.

Ela passou direto por Derek, começando a mudar de ideia sobre aquele treino, quando o rapaz a segurou pelo pulso, impedindo de continuar.

- Qual é, pequena... Imagine poder arremessar a Willis há metros de distância sem nem precisar encostar nela?

Um estranho brilho passou pelo olhar de Davina quando ela reconheceu os cabelos loiros de Aphrodite próximos da piscina. Sempre havia sido seu sonho poder esbofetear a colega, mas o medo de encostas em sua pele perigosa era maior do que aquele desejo. Se Derek estivesse certo, ela finalmente teria o gostinho de se vingar da rival.

Davina encarou as próprias mãos e visualizou o momento que ela seria capaz de derrubar Aphrodite. Um estranho formigamento deslizou pelas pontas dos dedos e ela sentiu seus cabelos soltos balançarem. Por um primeiro instante de susto, ela chegou a pensar que era apenas uma corrente de ar, mas sabia que a sensação era muito diferente. Ela havia feito aquilo.

Sentindo uma adrenalina gostosa se espalhar pelo seu corpo, ela ignorou o largo sorriso de Derek e manteve seu olhar preso em Willis, completamente alheia a sua presença.

- Vai em frente...

Correndo o risco de parecer uma boba acenando com as mãos, Davina girou as palmas em um movimento rápido na direção de Aphrodite e sentiu o ar gelado se deslocar. Seus olhos se arregalaram e ela cambaleou para trás, de susto, quando Willis pareceu tombar e cair na piscina.

O queixo de Ackerman despencou e ela se virou para Derek, ainda incrédula.

- Eu fiz aquilo??? De primeira???

Ao contrário de Ackerman, Hale não parecia nada surpreso com o seu desempenho.

- Você locomoveu algumas nuvens essa noite, pequena. Derrubar 50kg de veneno não é nada.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Sab Jun 11, 2016 3:19 am

Uma das coisas que havia mudado radicalmente na vida de Kevin Templeton era a maneira como o rapaz enxergava o próprio futuro. Até alguns meses atrás, Kevin sentia um aperto no peito sempre que se lembrava que seus dias sob o teto daquela escola estavam chegando ao fim. O mundo lá fora parecia amedrontador e imprevisível demais. Templeton sabia que nunca mais teria a proteção, o apoio e a aceitação que recebia na mansão.

Agora, contudo, embora ainda existisse um grande receio com relação ao que encontraria lá fora, Kevin sentia-se ansioso pelo momento em que teria a autorização para deixar para trás aquela fase da sua juventude. Tudo o que ele aprendera na escola faria parte de sua bagagem, assim como os excelentes amigos que Templeton pretendia levar para o resto da vida.

Apesar das excelentes lembranças, Kevin não enxergava mais motivações para continuar na mansão. Suas habilidades estavam muito bem desenvolvidas, não parecia haver mais nada que Megale pudesse acrescentar aos dons do seu pupilo. E Templeton também sabia que enlouqueceria se continuasse ali como espectador do romance entre Davina e Derek Hale.

Por mais que quisesse transparecer uma imensa tranquilidade com o fim do namoro com Ackerman, Kevin não conseguia esconder de si mesmo a imensa tristeza por ter perdido a única garota que conseguira entrar em seu coração. Toda a mansão podia acreditar que o velho Kevin Templeton estava de volta, mas o rapaz não conseguia mentir para si mesmo. Ele não era mais o mesmo, nunca mais seria. Tudo o que ele precisava era finalizar aquela fase da vida para seguir o próprio caminho lá fora, agora livre da má fama que construíra nos últimos tempos.

A determinação de mudar de vida moveu os pés de Templeton para a biblioteca naquela tarde. No passado, Kevin costumava gastar suas horas de folga com lazer, mas desta vez ele ocupou uma das mesas da biblioteca e se rodeou com livros. Seu objetivo era impressionar Megale nas próximas semanas e convencer o tutor de que ele estava pronto para partir.

A maior prova de que Kevin não voltara a ser o mesmo rapaz irresponsável e galanteador do passado surgiu quando o celular dele vibrou sobre a mesa com uma mensagem de Aphrodite. A colega enviava um convite irrecusável para passar algumas horas no dormitório dela, mas nem por um segundo Templeton sentiu-se tentado a aceitar. Ao contrário, Kevin fez o possível para garantir que Willis não interromperia mais a sua tarde de estudo.

O celular foi desligado e, aproveitando-se de que estava sozinho naquele ponto menos central da biblioteca, Templeton protagonizou uma exibição perfeita de suas habilidades.

A mudança começou pelos olhos, que de azuis foram escurecendo até um tom de castanho. Os cabelos encurtaram até ficarem bem rentes à cabeça, numa coloração clara que ficava entre o loiro e o acobreado. O rosto fino de Kevin ganhou bochechas um pouco mais salientes, o nariz afilado se alargou de forma discreta, os lábios se tornaram mais finos e as sobrancelhas ficaram claras e mais afiladas.

Quando virou a cabeça e examinou o próprio reflexo no vidro da janela mais próxima, Kevin abriu um sorriso ao ver o rosto de Hugo. Qualquer um que entrasse na biblioteca atrás de Templeton veria apenas Hugo entretido com a leitura.

E a escolha da aparência não fora ao acaso, já que Kevin sabia que o amigo não estava nos arredores da mansão naquela tarde. Chevalier, tutor de Hugo, havia levado o pupilo para um treinamento externo e, sempre que isso acontecia, os dois só voltavam depois do anoitecer. Isso dava a Templeton longas horas de paz na pele de alguém que não tinha nenhum dos problemas dele.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Sab Jun 11, 2016 4:08 am

O comportamento de Hyacinth despertava um grande desagrado em Andrew, desde o instante em que a ruiva decidiu provoca-lo tocando a mão de Derek Hale. Seu coração bateia acelerado ao ver que ela estava cada vez mais distante, completamente alheia a tudo que realmente acontecia sob o teto da mansão.

Porém, quando Westphal fez o comentário ácido a respeito de Samantha Richards, Ackerman sentiu os músculos ficarem tensos e trincou os dentes, a encarando com aspereza. Hyacinth estava ultrapassando todos os limites, se comportando de maneira irresponsável e inconsequente.

Ele sabia que não era justo esperar que a ruiva se despedisse com beijos e juras de amor, mas também não esperava uma reação tão ruim. Andrew se sentia decepcionado com a atitude de Hyacinth, em uma mistura de angústia e frustração.

Andrew não queria nem imaginar qual seria a reação de Westphal se ela descobrisse que era a verdadeira razão para seu afastamento e que não existia especialização alguma. Ele nem mesmo sabia o que pretendia fazer quando deixasse para trás a mansão, que já havia se tornado seu lar.

Embora tivesse um currículo exemplar e estivesse rodeado pelas influencias dos Ackerman, Andrew queria conquistar algo em sua vida pelos próprios esforços.

Os olhos castanhos baixaram para o carpete sob seus pés quando os brincos foram empurrados para seu bolso, mas ele não foi capaz de reagir. O rosto de Andy foi erguido quase que em câmera lenta até pousar novamente na ruiva.

Ele conseguia imaginar a dor que a ruiva estava sentindo, mas pela primeira vez se questionava se aquela aproximação havia sido mesmo uma boa ideia.

- Faça como quiser, Hyacinth. Apenas tente se lembrar que você sempre vai ser a maior prejudicada se continuar agindo como uma criança.

Com um suspiro pesado, Andrew enfiou as mãos nos bolsos do moletom, sentindo a frieza da joia em contato com seus dedos. Sua garganta queimava e seu coração implorava que ele não deixasse aquele quarto com tanta mágoa para trás. Como se estivesse se afogando, seu corpo gritava desesperado para que ele esclarecesse toda confusão, mas Andy sabia que não podia fazer mais nada.

Era terrível, mas ainda era a melhor saída para Hyacinth. No fundo, Andrew tinha esperanças que aquela pequena demonstração de ousadia fosse apenas para provoca-lo, acreditando que Westphal não fosse agir com tanta irresponsabilidade quando ele deixasse a mansão. Mas algo no fundo da sua mente não era tão otimista.

- Eu realmente pensei que pudéssemos pelo menos manter contato até você sair daqui, que a gente finalmente poderia assumir um relacionamento sem que a sombra do meu cargo nos assombrasse.

Andy ergueu um dos ombros antes de completar friamente.

- Mas talvez a graça para você fosse exatamente o errado, né? Não tem a mesma adrenalina um namorado normal.

Ackerman deu os primeiros passos em direção a porta, mas ainda se virou para Hyacinth uma última vez.

- Só se lembre que você é responsável pelas suas próprias escolhas, Cinth. Você precisa estar preparada para suportar as consequências.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sab Jun 11, 2016 4:39 am

Quando Dana convidou Derek Hale para voltar a mansão, seu único objetivo era usar mais uma tentativa de que Davina pudesse evoluir seus poderes. A tutora nunca teve dúvidas de que as emoções de Ackerman atrapalhavam deu desempenho, mas também sabia que desde a saída de Hale, a menina havia simplesmente estagnado.

Dana desconhecia o quão avançado estava o relacionamento de sua pupila com Kevin, mas também não estava pensando na vida amorosa da menina quando tomou aquela decisão. Ela apenas sabia que Hale era experiente e conhecia Davina o bastante para ajudá-la naquela jornada.

Apesar de não ser mais apaixonada por Derek, Davina logo comprovou a teoria da tutora. O rapaz tinha uma excelente influencia em Ackerman e os intensos treinamentos começavam a trazer resultados tão positivos que ela não conseguia conter em si a animação.

Nos poucos dias da presença de Hale na mansão, ele havia demonstrado em diversas ocasiões que tentava se reaproximar de Davina. Ela, por sua vez, ainda se sentia magoada demais com o rompimento do relacionamento com Kevin, e a certeza que seu coração nunca bateu tão forte por Derek como batia por Templeton era suficiente para não alimentar as esperanças do ex-namorado e então amigo.

Por mais benéficos que os treinamentos fossem, Ackerman se sentia esgotada e ficou imensamente agradecida quando Derek lhe liberou no meio da tarde. A saída de Andrew havia sido uma imensa surpresa e Davina ainda não conseguia compreender os motivos que levaram o irmão a decidir se afastar, mas no fundo, estava xingando a sua escolha.

Chevalier era incrível, mas estava longe de ter o mesmo conhecimento de Andy em genética, e sua presença substituta de Ackerman nas salas de aula só serviam para deixar Davina ainda mais confusa.

Na intenção de tentar aprender alguma coisa sozinha, Ackerman permitiu que seus pés a guiassem para a biblioteca naquela tarde. O lugar, como sempre, não tinha nenhum adulto por perto para supervisionar, mas não impedia que estivesse mergulhado no mais perfeito silêncio.

Com os cabelos cor de mel balançando com seus movimentos, Davina seguiu direto até o corredor de estantes que ela sabia guardar os livros de genética, mas travou seu caminho ao reconhecer o rosto de Hugo.

Um sorriso surgiu em seus lábios instantaneamente. Com o rompimento do namoro, Ackerman tomava o devido cuidado para não estar mais tão perto de Theodore ou Kevin, mas sua amizade com Hugo havia crescido ainda mais quando o rapaz se mostrou em sua defesa.

A bolsa cheia de cadernos e canetas foi depositada sobre o tampo de madeira enquanto Davina assumia uma cadeira ao seu lado.

- Achei que fosse sair com o Chevie hoje. – Ela sussurrou, sempre exibindo seu sorriso simpático.

A bolsa foi aberta e Davina puxou de lá um dos cadernos e o estojo abarrotado de canetas e marca-textos.

- Está um sol danado lá fora, o que está fazendo enfurnado aqui dentro?

O zíper do estojo foi aberto e Davina puxou de lá um marca-texto amarelo. O piloto foi preso entre seus dentes e, com as mãos livros, ela mexeu nos fios claros, unindo-os até conseguir dar um nó em um coque mal feito.

Com a nuca livre, um pequeno brilho refletiu a luz florescente onde Davina ainda carregava o cordão com o pingente de raio. Completamente alheia àquela pequena exposição, ela tirou o marca-texto dos dentes e tirou sua tampa, a postos para grifar algumas frases em seu caderno.

- Algum assunto interessante?
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Sab Jun 11, 2016 3:28 pm

Os olhos castanhos, idênticos aos de Hugo, deslizavam pelas linhas de um livro de Genética. Depois da saída inesperada de Andrew, os alunos se sentiam bastante inseguros com a disciplina. Chevalier era um excelente tutor, mas não conseguia substituir Ackerman naquela matéria. O conhecimento de Andrew naquela área era absurdamente maior, suas aulas eram mais dinâmicas e os jovens aprendiam de forma natural. Agora, sem aquela facilidade, Kevin se via obrigado a devorar os livros para se sair bem nos testes e conseguir finalmente a sonhada liberdade.

Por estar tão concentrado na leitura, o rapaz só notou que não estava mais sozinho quando Davina depositou sua bolsa sobre a mesa que ele ocupada. Templeton se sobressaltou e perdeu um pouco das cores ao erguer os olhos para a ex-namorada. Por sorte, o susto dele podia ser facilmente explicado pela habilidade de Hugo. Com os ouvidos tão sensíveis, o colega sempre se assustava com o menor dos ruídos e esse era um dos problemas que Hugo tinha que superar antes de sair da mansão.

Kevin não tinha o costume de usar o seu poder para enganar os colegas. Nas poucas vezes em que tentara fazer isso, sempre havia sido em tom de brincadeira e gerara como consequência uma séria repreensão de Megale. Naquela tarde, ele ocupava a pele de Hugo unicamente com o objetivo de não ser importunado por Aphrodite durante as suas horas de estudo.

- Genética. – a voz de Hugo saiu pelos lábios do rapaz enquanto ele virava a capa do livro na direção de Davina – O seu irmão está fazendo falta. Como professor de Genética, o Chevalier é um excelente professor de Física Aplicada às Mutações.

Em um primeiro momento, Templeton concluiu que o mais sensato era revelar a verdade para Davina. Mas, neste caso, ele precisaria explicar por que estava na pele de Hugo. Contar para a ex-namorada que ele não suportava mais a companhia de Aphrodite não era uma boa ideia, ainda mais porque Ackerman e Derek pareciam mais próximos a cada dia.

Além disso, intimamente, Kevin queria se aproveitar daquela situação para ficar mais algum tempo ao lado de Davina. Ele sentia muita falta dos sorrisos dela, de sua voz delicada e das conversas que os dois não tinham mais. Mesmo sabendo que Ackerman pensava estar diante de Hugo, Templeton não resistiu à tentação de ter a velha Davina de volta por alguns minutos.

A boca de Hugo se abriu para mais um comentário, mas a surpresa fez com que sua garganta se fechasse. Depois de tudo o que acontecera, a última coisa que Kevin imaginava era que Davina ainda usasse o presente de aniversário de namoro. O coração dele se comprimiu com a lembrança daquele momento feliz que, embora tivesse acontecido há poucas semanas, parecia tão distante. Era como se pertencesse a outra vida.

- Você ainda usa o pingente...

O comentário foi incontrolável e o rapaz se remexeu na cadeira com algum desconforto ao se lembrar que Hugo não tinha motivos para ficar tão abalado com aquela visão. Mesmo sabendo que poderia colocar tudo a perder, Templeton não conseguiu se desviar do assunto.

- Quer dizer, eu achei que depois de tudo o que aconteceu entre você e o Kev... – era difícil concluir o raciocínio com a mente trabalhando em uma velocidade tão alta – O Derek não fica enciumado em saber que você não se livrou de todas as lembranças do seu ex-namorado?

A única salvação de Kevin era o fato de Hugo ser naturalmente uma pessoa curiosa e conhecida por seus comentários espontâneos e indiscretos. Só isso poderia impedir Davina de notar que era Templeton por trás da aparência do outro colega.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Sab Jun 11, 2016 4:56 pm

Nos dias que se seguiram à partida de Andrew Ackerman, Dana enfrentou o maior desafio de todas as suas décadas como tutora naquela mansão. Hyacinth não era uma aluna rebelde, não a desrespeitava e não deixava de fazer nenhuma das lições sugeridas pela diretora. Mas Dana sabia que não tinha nenhum controle sobre a ruiva.

O maior problema é que Westphal não confiava na nova tutora. A menina gostava de Dana, reconhecia as qualidades da mulher e sabia que Dana só queria ajudá-la com aquela mutação tão delicada. Mas Hyacinth simplesmente não conseguia se abrir para a professora. Ao contrário do que fazia com Andrew, a ruiva não conseguia verbalizar seus receios e suas dificuldades e deixava Dana mergulhada em um mar de incertezas.

A única certeza de Dana era que Hyacinth havia mudado a maneira de enxergar a própria mutação. Antes, era notável que aquela habilidade deixava Westphal apavorada, que a ruiva se obrigava a ser extremamente cuidadosa e evitava qualquer contato que pudesse fazer sua pele absorver mais poderes. Agora era como se Cinth não tivesse mais medo de morrer, ou como se não se importasse mais com aquela palpável possibilidade. Dana não sabia ao certo quantos poderes a ruiva já acumulava e Hyacinth sempre desconversava quando a tutora lhe fazia qualquer pergunta neste sentido.

Mas aquele não era o único segredo que Hyacinth escondia da nova tutora. Algo muito mais sério estava acontecendo com a ruiva sem que Dana sequer imaginasse.

Tudo começou com uma simples mensagem que chegou ao celular de Hyacinth um dia depois da partida de Andrew.

“Não tenha medo, Hyacinth.”

As palavras enigmáticas enviadas por um número desconhecido não fizeram nenhum sentido na cabeça da ruiva. No começo, Westphal até imaginou que pudesse ser Andrew tentando se reaproximar, mas as mensagens que vieram a seguir obrigaram a garota a abandonar aquela hipótese.

“O seu dom não é um castigo. Saiba usá-lo e será a sua salvação.”

“Os outros devem temer o seu poder, você não.”


Aquelas mensagens teriam sido imediatamente mostradas a um tutor se Andrew ainda ocupasse aquele cargo. Contudo, Dana não tinha o privilégio de contar com a confiança de Hyacinth. Mesmo insegura e sem imaginar quais seriam as origens daquelas mensagens, Westphal guardou aquele segredo apenas para si. Nem mesmo Davina sabia que a amiga vinha recebendo mensagens enigmáticas no celular.

Cinth enviou para aquele mesmo número várias perguntas, a maioria delas relacionada à identidade da pessoa que lhe enviava aquelas frases. Nenhuma resposta retornou ao aparelho, então a última coisa que Hyacinth imaginava era que o seu destinatário misterioso resolveria dar um passo ainda mais arriscado em sua direção.

A ruiva estava sozinha no quarto – algo que vinha se tornando um hábito desde a partida de Andrew e o início dos treinamentos de Davina e Derek – quando ouviu batidas na porta. Hyacinth deslizou para fora da cama e caminhou com os pés descalços até a maçaneta. Era grande a tentação de usar o seu magnetismo para abrir a porta, mas Westphal sabia que não era nada sensato expor os seus poderes daquela maneira. Ainda não.

A figura de Toby surgiu no corredor, arrancando um pequeno sorriso de Hyacinth. Toby era o caçula dos jovens mutantes e não havia ninguém naquela mansão que não gostasse dele ou que não o ajudasse a lidar com a mutação que resolvera se manifestar de forma tão precoce.

- Oi Cinth. – o garotinho mantinha as mãos atrás do corpo quando abriu um sorrisinho.

- Oi Toby. O que está aprontando?

- Nada. Acho que é você que está aprontando. – o sorrisinho de Toby se tornou mais afetado – Eu estava perto do portão agora há pouco. Pediram que eu te entregasse isto.

As mãos escondidas atrás das costas do garoto foram reveladas e seguravam um pequeno arranjo de flores. O coração de Hyacinth falhou uma batida quando ela reconheceu aquela espécie rara. Seu nome fora escolhido por Bruce Westphal, mas era uma homenagem à esposa cujas flores preferidas eram jacintos.

- Hyacinthus orientalis... – a ruiva murmurou o nome da espécie enquanto pegava o arranjo com as mãos trêmulas de emoção – São tão raras! Quem mandou, o meu pai?

- Não conheço o seu pai, mas acho que não. – Toby ponderou, um pouco sem graça – Ele parecia jovem demais para ser seu pai. Tem um cartãozinho aí.

Era óbvio que Toby estava curioso e pretendia acompanhar o desenrolar daquela cena, então foi grande a sua frustração quando Hyacinth simplesmente lhe agradeceu antes de retornar para o quarto e fechar a porta. As flores foram colocadas no criado mudo de Westphal e ela puxou o pequeno envelope encaixado entre as belas pétalas lilás. A caligrafia rebuscada não se parecia nada com a letra de Andrew, mas intimamente Cinth já sabia que aquele presente não era obra do ex-namorado.

Seu coração batia acelerado enquanto os olhos azuis deslizavam pelas letras que marcavam o pequeno cartão branco.

“Não há na história da humanidade nenhum nome que tenha sido tão bem escolhido quanto o seu. Você é exatamente como estas flores: bela, rara e valiosa. Logo estaremos juntos, Hyacinth”.

No mesmo instante em que Westphal recebia aquele presente misterioso, Dana travava uma conversa difícil em seu escritório. A diretora sabia que a demissão de Andrew fora necessária, mas agora se via obrigada a pedir a ajuda dele. Seus poucos dias como tutora de Hyacinth mostraram a Dana que ela jamais conseguiria controlar a ruiva. Sem a colaboração de Ackerman, era questão de tempo até que a diretora perdesse por completo o controle das rédeas daquela jovem mutante.

- Ela não se abre comigo. Embora ela não tenha causado nenhum problema nos últimos dias, eu sei que estou perdendo a Hyacinth. É como... – Dana suspirou antes de encarar Andrew - ...como se ela não tivesse mais medo. E este comportamento destemido é perigoso para ela, mas também para todos nós. Eu não faço ideia de quantos poderes a Hyacinth já acumulou só nos últimos dias, Andrew. Ela me diz que está sendo cuidadosa como sempre, mas eu sei que não. Cinth tem calculado milimetricamente cada um dos seus movimentos para absorver exatamente os poderes que deseja.

Dana não pretendia colocar Ackerman novamente no papel de tutor da ruiva, mas se viu obrigada a chamar por ele para pedir ajuda. Já estava claro para a diretora que Andrew era a única pessoa que poderia desviar Hyacinth do caminho perigoso no qual a menina estava entrando.

Como se o destino quisesse reforçar os temores de Dana, Toby deu três batidas na porta antes de colocar a cabeça para dentro do escritório da diretora. O garoto pareceu confuso e surpreso ao ver Andrew diante de Dana, mas a loira não deu tempo a ele para perguntas.

- Eu estou ocupada, Toby. Se não for uma urgência...

- Pediram que eu te entregasse isso, Dana. – o menino estendeu o braço, mostrando um pequeno envelope à loira.

- Pediram...? Quem pediu?

- Um cara. Eu estava praticando nos arredores da mansão, ele me chamou quando eu passei perto dos portões.

O poder de Toby ainda precisava ser moldado, mas já havia ficado provado que ele tinha uma super velocidade. Dana, como tutora do menino, fora quem o incentivara a praticar corridas na área externa da mansão, onde não havia tantos obstáculos e era menor o risco de Toby se machucar.

- O “cara” não te deu o nome?

- Não. – Toby entrou e entregou o envelope à Dana quando a diretora estendeu o braço na direção dele – Acho que ele estava com pressa. Ele só me pediu que entregasse isso a você e... – o garoto se calou, sem saber se deveria continuar.

- E...? – Dana cravou os olhos verdes nele.

- E flores para a Hyacinth.

Dana engoliu em seco antes de abrir o envelope. A mensagem era curta e, apesar da escolha de palavras gentis, estava claro que o tom não era exatamente amigável.

“Agradeço pelos seus serviços, mas este não é o lugar dela. Ninguém vai se machucar se você não gerar problemas para mim, Blake.”

- Como ele era, Toby? Consegue descrevê-lo? – Dana repassou o envelope para Andrew antes de se voltar para o aluno – Jovem, velho, alto, magro...?

- Jovem. – Toby ficou pensativo enquanto tentava se lembrar do homem que encontrara nos portões há poucos minutos – Era bem alto, ele precisou se inclinar bastante para falar comigo. Cabelos escuros e lisos, olhos azuis... Usava calça social, uma camisa branca e suspensórios. E ele tinha uma espécie de... – Toby apontou a própria sobrancelha - ...cicatriz. Muito discreta, mas eu notei.

O chão de Dana se abriu quando o garoto mencionou aquele último detalhe. Ela sabia que o tal homem era um mutante porque os humanos desconheciam a existência daquela escola e nunca conseguiriam chegar tão longe por acaso. Mas a menção à cicatriz confirmava as piores suspeitas da diretora.

As mãos de Dana tremiam de leve quando ela abriu uma das gavetas e retirou de lá o jornal antigo que continha o retrato falado do mutante chamado de “Incarna”. O sorriso de Toby se alargou e ele apontou a imagem quando Dana virou o jornal para ele.

- Sim! É este cara! Uau... – Toby ficou mais sério quando começou a entender o que estava havendo – É um procurado pela polícia???

- Você está proibido de falar sobre isso para qualquer pessoa, Toby. – o garotinho jamais vira Dana tão séria – Entende isso?

- Nem pra Cinth? – Toby apertou uma mão na outra, tenso – Ele mandou flores para ela. A Cinth pode estar correndo perigo.

- Nem para a Hyacinth. – Dana respondeu com ainda mais firmeza antes de voltar seu olhar angustiado para Andrew – Cinth não é a única pessoa que está correndo perigo agora.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sab Jun 11, 2016 6:55 pm

O comportamento estranho de Hugo não passou desapercebido por Davina e ela franziu a sobrancelha, nitidamente confusa, mas incapaz de imaginar que estivesse de frente para o ex-namorado.

- Você está bem? – Ela perguntou com um riso divertido, quando a pergunta do amigo a atingiu em cheio.

O sorriso de Ackerman morreu e instintivamente ela puxou o pingente entre seus dedos, como se temesse que alguém lhe arrancasse a joia. Era patético que ainda usasse o presente de Kevin depois de tudo que havia acontecido, mas no fundo, Davina ainda não se sentia preparada para se desapegar completamente dos momentos felizes vividos ao lado dele.

- Qual é, Hugo... Não vem você com essa também.

Davina girou os olhos e se remexeu na cadeira, deslizando sobre a superfície de madeira para ficar em frente ao amigo. Apesar da tarde ensolarada, o interior da mansão estava gelado e a menina vestia um par de botas negras, as pernas cobertas por uma meia calça e uma saia florida. Sua blusa de lã branca ia um pouco além dos pulsos e os dedos seguravam a manga enquanto a ansiedade se espalhava pelo seu corpo.

- Já não basta o Theo com essas insinuações idiotas? Você está cansado de saber que não existe nada entre o Derek e eu. Não mais.

Com um suspiro cansado, Davina inclinou o rosto para o lado. Uma pequena mecha se soltou do seu coque frouxo e caiu emoldurando seu rosto, as pontas dos fios claros batendo em seu queixo.

- Mas acho que sou mesmo uma idiota por continuar usando isso, não é?

Seu tom de voz mudou para um sussurro. Era estranho desabafar com Hugo. Embora fosse um ótimo amigo, ele ainda era um menino e um dos melhores amigos de Templeton, mas Davina vinha se sentindo extremamente sozinha nos últimos dias.

A companhia de Derek era maravilhosa, mas ela precisava fugir a todo instante de qualquer tentativa de reaproximação. Theo e Kevin praticamente a ignorava e Hyacinth estava cada dia mais estranha. Hugo parecia ser a única pessoa com quem ela pudesse conversar sobre aquilo, por mais estranho que fosse.

- Kevin e Aphrodite devem rir o tempo todo da idiota que eu sou. – A imagem dos dois juntos em uma cama fez com que Davina franzisse o nariz em uma careta. – Patética. Ele deve ter um estoque de coisas assim para dar para as meninas e eu aqui, me derretendo toda...

Ao perceber que seu desabafo estava tomando uma proporção íntima demais, Davina tentou sorrir, constrangida.

- Desculpe, Hugo. Não quero te encher com essa história chata. Quer ajuda para estudar?
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Sab Jun 11, 2016 7:34 pm

Por demorados segundos, Templeton encarou a ex-namorada sem conseguir reagir. Ele estava tão certo de que Davina vivia uma história de amor com Derek que demorou a compreender as palavras dela que afirmavam que não havia nada entre os dois. Ackerman não tinha nenhum motivo para mentir para Hugo sobre aquilo. Portanto, mesmo que parecesse inacreditável, Kevin assumiu aquela declaração como verdadeira.

E isso tornava toda a história ainda mais nebulosa na cabeça de Kevin. Se Davina não estava com Derek, por que o namoro dos dois havia chegado ao fim? Davina tinha todo o direito de ficar chateada com o plano envolvendo Aphrodite, mas parecia injusto e radical demais colocar um ponto final em um namoro que vinha dando tão certo.

- Você pode não acreditar, mas o Kevin gostava de você de verdade. Como ele nunca gostou de ninguém.

Seria muito difícil fazer aquela confissão diretamente, mas o orgulho de Templeton não ficava tão ferido em dizer aquelas palavras usando a máscara de Hugo.

- Eu não acho que ele se uniu à Aphrodite e está contra você. Ela é só mais um dos erros que ele vai acrescentar à longa lista de burradas que já cometeu na vida.

O indicador de Hugo, bem mais curto que os dedos de Kevin, apontou na direção do pingente em forma de raio pendurado no pescoço de Davina.

- Ao menos você tem uma lembrança positiva de tudo o que aconteceu. Não acho que o Kev tenha a mesma sorte...

Quando entrou na biblioteca silenciosa naquela tarde, Kevin planejava estudar até o anoitecer. Mas a presença de Ackerman fora o bastante para exterminar por completo a concentração e a determinação do rapaz. Depois de um pesado suspiro, Templeton fechou o livro de Genética que estava lendo antes da chegada de Davina.

- Eu tenho que ir, Davs. A gente pode marcar outro dia para estudar, agora eu preciso terminar umas tarefas e me encontrar com o Chevalier.

O ruído da cadeira sendo arrastada ecoou pela biblioteca silenciosa e, contrariando o que seria de se esperar, Hugo não fez uma careta de incômodo com o barulho que invadia seus ouvidos sensíveis.

- A gente se vê por aí.

Cerca de uma hora depois que Hugo saíra da biblioteca, Davina cruzaria com o amigo num dos corredores que levava ao dormitório masculino. O rapaz não usava mais as mesmas roupas da biblioteca e seus cabelos estavam atrapalhados e a camisa amassada, como se ele tivesse enfrentado vento. A mochila pendurada em um dos seus ombros também era um sinal claro de que Hugo havia acabado de chegar.

- E aí, Dav? – o sorriso do garoto se alargou – Eu passei o dia com o Chevie hoje. Enquanto ele abastecia o carro, eu dei uma passada rápida na loja de conveniências do posto e trouxe alguns tesouros. Quer dar uma olhada nos contrabandos? Você não vai ter a chance de ganhar um chocolate se deixar para depois.

Alheio à confusão que causaria, Hugo começou a tagarelar enquanto caminhava na direção da porta do próprio dormitório.

- Foi um dia muito produtivo, valeu a pena ter acordado tão cedo. Eu estou exausto e meus ouvidos estão meio doloridos, mas eu não me arrependo.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Sab Jun 11, 2016 7:41 pm

Não haviam passado mais do que algumas semanas desde que Andrew pisara naquela mansão pela última vez, mas algo fazia com que parecessem anos de distância.

Ao contrário do que havia dito a Hyacinth, o rapaz não deixou o país para terras estrangeiras em busca de uma especialização. Durante cada um daqueles dias, Andy permaneceu na casa dos pais, como um adolescente que não tinha nenhum objetivo de vida.

Ele passava a maior parte do dia vestindo pijamas e quase não deixava o quarto. Suas horas passavam enquanto os olhos castanhos encaravam o teto do quarto, os fones de ouvido plugados em suas orelhas enquanto ele descarregava o iPod ouvindo músicas que o faziam pensar na ex-namorada.

Nunca, em toda a sua vida, Andrew havia se sentido tão deprimido e patético, mas seu peito doía cada vez que pensava na ruiva e ele não cogitava lutar contra aquela cena ridícula. Comer havia se tornado um imenso desafio, seu estômago se revirava cada vez que se via diante de algum alimento.

Apenas o convite de Dana o motivou a finalmente tomar um banho e usar roupas limpas. O único vestígio de seus momentos depressivos eram as bochechas mais magras, mas só de pensar que poderia rever Westphal, seus olhos já começavam a brilhar, mostrando que ainda existia vida por trás de seu rosto abatido.

Ackerman vestia calças azuis e um suéter vermelho por cima da blusa social. Seus cabelos estavam alguns centímetros maiores, aumentando as curvas dos cachos em suas pontas, mas mesmo com a aparência mais magra, Andrew continuava belo e a barba por fazer o deixava com ar mais maduro.

O caminho até o escritório de Dana foi feito com seu coração batendo forte contra o peito, os olhos atentos a todos os movimentos ao seu redor, na esperança de encontrar um reflexo vermelho familiar, mas para sua grande decepção, ele logo estava diante da tutora sem ter tido a chance de esbarrar em Hyacinth.

Cada uma das palavras de Dana Blake foi escutada com imensa atenção por Ackerman e ele se sentiu um grande imbecil por ter ficado trancado no quarto como um garotinho triste enquanto Hyacinth estava afundando em problemas.

Por um lado, Andy sentia a raiva se espalhar pelo seu corpo por saber que Westphal continuava determinada a agir como uma criança inconsequente, mas uma voz em sua mente lhe gritava desesperadamente, lhe lembrando que aquele comportamento era sua forma de mostrar a todos que precisava de ajuda.

A interrupção de Toby permitiu que Andrew mergulhasse em seus próprios pensamentos a respeito da ruiva, tentando desvendar o que acontecia por trás dos olhos azuis e os conflitos que ela deveria estar vivendo. Quando o pequeno mutante tocou no nome de Westphal, entretanto, Andrew ergueu os olhos arregalados e prendeu a respiração.

Sua testa continuou franzida enquanto Dana começava a se apavorar e quando sua mente finalmente compreendeu o medo da tutora, Andrew sentiu o mundo desabar.

- Mas não é possível, Dana. – A voz engasgada de Ackerman escapou de seus lábios, ignorando a presença do pequeno Toby. – Ele está desaparecido há anos, achei que nem estivesse mais vivo. O que está fazendo aqui? O que quer com Hyacinth?

A mulher balançou a cabeça, seus cabelos curtos se mexendo no mesmo ritmo.

- Eu não sei, Andy. Mas só tenho certeza que nossos problemas são muito maiores do que Hyacinth. É nossa obrigação proteger qualquer um dos alunos.

- Proteger do que?

A vozinha de Toby ecoou pelo escritório, lembrando aos dois adultos de sua presença. Embora ainda fosse uma criança, ele era esperto o bastante para saber que havia algo muito errado ali. Seus olhinhos estavam ligeiramente arregalados e com medo.

- É melhor você ir agora, Toby. – Dana estava séria e usava o mesmo tom que dizia aos alunos que não permitiria ser contrariada. – E lembre-se o que eu disse, ninguém pode saber o que aconteceu hoje, está bem? Conto com você, meu menino.

Por fim, a tutora se forçou a lançar um sorriso encorajador que fez Toby, mesmo lutando contra o medo, confirmar com um aceno da cabeça antes de deixar o escritório. Sem conseguir mais disfarçar, Dana soltou um suspiro sofrido ao voltar seu olhar para Andrew.

- Eu sinto muito tê-lo afastado daqui, Andy. Achei, de verdade, que você era o maior problema na vida de Hyacinth. Eu não fazia ideia...

A voz dela morreu quando o olhar pousou mais uma vez sobre a foto de Incarna no jornal sobre sua mesa e Andrew engoliu em seco. Intimamente, ele se sentia tão assustado quanto o pequeno Toby, embora seu medo não fosse com a própria segurança.

- Você fez o que achou que era certo, Dana. Qualquer um em seu lugar...

- Este é o problema. – Dana o interrompeu. – No meu lugar, não sou capaz de proteger a todos. Eu vou precisar de ajuda, Andrew.

Dana tinha anos e anos de experiência para permitir que seu orgulho a atrapalhasse. Ela sabia, melhor do que ninguém, que nem sempre tomamos as melhores decisões, mas que somos muito mais maduros ao admitir quando erramos e tentar consertar.

Mesmo envolto a toda confusão do que estava acontecendo, o coração de Andrew ainda conseguiu dar um salto de ansiedade ao perceber o que Dana estava querendo dizer. Ele sabia que se a tutora estava pedindo ajuda, a situação era muito mais perigosa do que ele era capaz de imaginar. Mas só o que a mente de Ackerman conseguia processar era em proteger Hyacinth.

- Conte comigo, Dana. Para qualquer coisa.


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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Sab Jun 11, 2016 8:10 pm

Mesmo que estivesse insegura com os últimos acontecimentos, um sexto sentido dizia à Hyacinth que ela não precisava temer a misteriosa pessoa que lhe enviava mensagens e que havia mandado as flores. O tom das mensagens era sempre muito amigável e, mesmo sem ter ideia de quem era o remetente, Westphal sabia que ele não pretendia lhe fazer nenhum mal.

As flores eram mais uma prova de que aquele desconhecido sabia muito sobre ela. A maioria das pessoas mostrava estranheza quando escutava o nome exótico da garota pela primeira vez. Era muito raro encontrar alguém que conhecesse flores o suficiente para saber que o nome científico dos jacintos que Rachel Westphal tanto amava era Hyacinthus orientalis.

Cinth só havia visto aquela flor pessoalmente uma vez antes de ser presenteada naquela tarde. A espécie era muito rara e que só costumava florescer em climas úmidos e em solos muito férteis, o que tornava inviável a tentativa de cultivá-la fora de uma estufa. Quando a morte de Rachel completou dez anos, Bruce havia gastado uma pequena fortuna em um buquê de jacintos, que foi deixado sobre o túmulo de mármore da falecida esposa.

Mas nem mesmo as flores deixadas no túmulo da mãe eram tão belas quanto aquelas que agora enfeitavam o criado-mudo de Hyacinth. As pétalas lilás tinham um tom mais escuro de roxo no interior das flores e se curvavam delicadamente para fora do caule. Cada bulbo dava origem a uma haste coberta por pequenas flores laterais. O perfume era único e incomparável, em poucos minutos todo o quarto já estava coberto pelo cheiro agradável das flores.

Por Westphal ter passado toda a noite ao lado das flores, os cabelos ruivos carregavam uma amostra daquele perfume quando a garota se levantou da cama na manhã seguinte. Hyacinth havia se distraído tanto com os jacintos e com a mensagem misteriosa que simplesmente se esqueceu de programar o próprio despertador, o que fez com que a ruiva acordasse com vários minutos de atraso para a primeira aula do dia.

A aula de Genética já tinha começado há cerca de vinte minutos quando Hyacinth chegou ofegante à sala. A garota havia pegado as primeiras roupas que encontrou no armário e teve tempo apenas para prender os cabelos avermelhados num rabo alto. Apesar de toda a pressa, ela estava bonita como de costume usando um vestido branco com estampas florais e uma sapatilha vermelha.

- Eu posso entrar, professor...? Eu perdi a hora hoje, me desculpe.

O tom respeitoso foi dirigido à mesa principal e, quando fixou os olhos na cadeira à frente do quadro, Hyacinth imaginou que veria Chevalier. Portanto, toda a cor sumiu de seu rosto quando a ruiva deu de cara com Andrew Ackerman.

Os demais alunos estavam eufóricos com o retorno de Andrew, mas a expressão de Westphal deixava claro que, para ela, a surpresa não era tão positiva. A forma como os olhos azuis se estreitaram e os dedos apertaram com força a alça da mochila indicavam que Hyacinth não estava feliz em saber que Ackerman estava de volta à mansão.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sab Jun 11, 2016 8:43 pm

A maneira como Hugo se comportou na biblioteca não parecia se encaixar com a personalidade descontraída do amigo, mas as palavras a respeito de Kevin ainda ecoavam na mente de Davina.

Tudo que ela mais queria era acreditar que Kevin gostava dela de verdade e que Aphrodite havia sido um erro, mas cada vez que se lembrava da foto ainda guardada em seu celular, seu estômago se revirava em protesto e ela se lembrava das lágrimas derramadas.

Porém, o comportamento suspeito de Hugo finalmente fez sentido quando, ainda no mesmo dia, os dois se encontraram pela segunda vez. A primeira reação de Davina foi franzir a testa e sorrir, como se o amigo tivesse enlouquecido, enquanto sua mente encaixava aquela peça solta.

Quando Hugo desapareceu no corredor e entrou no próprio dormitório, Ackerman estava com os olhos arregalados quando finalmente compreendeu que a conversa de mais cedo havia sido feita com Kevin Templeton.

Suas bochechas coraram violentamente quando ela se lembrou de ter aberto seu coração ao rapaz e em nenhum momento ele tentou desfazer aquela confusão. Talvez estivesse segurando a gargalhada da cena patética que ela protagonizava para manter o joguinho idiota.

Sentindo o sangue ferver, Davina pisou duro até o fim do corredor e entrou sem bater no quarto que ela já conhecia tão bem. Theo estava deitado, com um livro em seus dedos, e deu um pulo no colchão com a entrada repentina de Ackerman.

- Dav...?

Ele começou a falar, mas engoliu em seco ao ver que Davina estava com os dentes trincados e os pulsos cerrados. Ela respirava com dificuldade enquanto tentava manter a calma quando ergueu a mão em direção a porta.

- Sai.

Theodore franziu a testa, confuso, e se sentou na cama.

- O quê...?

- Sai daqui, Theo! Agora!

Com os olhos arregalados, Theo ainda encarou o melhor amigo por longos segundos antes de se mexer, batendo a porta atrás de si.

Apenas quando teve certeza que estavam finalmente sozinhos, Davina se permitiu encarar o ex-namorado. Sua fúria começava a provocar uma pequena brisa que balançava seus cabelos claros, já completamente soltos e caindo com largas ondas sobre a blusa de lã.

- Qual é a sua, Kevin??? Vai começar a se passar pelos seus amigos agora? – Ela apoiou as mãos na cintura antes de continuar, o peito subindo e descendo enquanto sua concentração estava em manter a respiração controlada e não explodir. – Acabei de encontrar o Hugo e ele estava me contando sobre o dia incrível que teve com Chevalier. Então, a não ser que ele tenha um irmão gêmeo que a gente não saiba, imagino que era você na biblioteca quando tentou me fazer de idiota de novo.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Sab Jun 11, 2016 9:11 pm

Naquela manhã, Andrew descobriu que tinha um grande talento para ser adulto, mais do que ele imaginava. Enquanto seu coração implorava que ele procurasse Hyacinth o quanto antes, o rapaz manteve o lado racional com todo o controle da situação.

Era uma imensa sorte estar de volta à mansão, mas Ackerman sabia que a necessidade de sua presença ia muito além do que seu desespero em rever Westphal. Dana precisava dele ali para ajuda-la e, mais do que nunca, o professor precisava ser a figura responsável que deveria ter sido desde o começo.

Andy estipulou que uma de suas tarefas era preparar seus alunos para que estivessem capazes de enfrentar o que estava por vir, mas ainda assim, mantê-los despreocupados até onde fosse possível. Por isso, quando ele assumiu a primeira aula, exibia o seu sorriso jovial, no melhor papel de professor descolado que conquistava seus alunos.

Foi imperceptível para os alunos quando suas íris castanhas passearam por toda a sala até ter certeza que Hyacinth não estava presente. Por um instante, Andy perguntou se a menina já sabia de seu retorno e estava evitando, mas quando os olhos azuis finalmente entraram em seu campo de visão, não restou dúvidas de que ela estava surpresa.

Tentando ignorar o coração acelerado e a garganta fechada, Andrew deslizou até se recostar na mesa, cruzando os braços contra o peito. Seu semblante estava neutro, impedindo que qualquer um desconfiasse do turbilhão de sentimentos que o invadia ou de como era dolorido ver a expressão de fúria no rosto de Westphal.

- Tudo bem, Srta. Westphal. Pode se sentar em seu lugar, tente pegar os exercícios atrasados com os seus colegas.

Andrew se virou de costas e voltou ao quadro, tentando ao máximo não sustentar o olhar com Hyacinth. Ele estragaria qualquer disfarce se continuasse encarando a ruiva, sua vontade era de segurá-la pelos ombros e dizer o quanto havia sentido saudades e de como ele estava enlouquecendo com suas atitudes irresponsáveis.

Por estar de costas, Andy não percebeu quando Hugo imediatamente se prontificou em ajudar a ruiva. Desde que descobrira que Westphal havia fugido de seu toque por medo pela mutação e não por repulsa, o rapaz voltava a sentir esperanças em chamar a atenção da menina para si.

Se concentrar na matéria ou em tudo que estava acontecendo era ainda mais difícil quando Andrew se via novamente no mesmo cômodo que Hyacinth. Seus ouvidos latejavam junto com a cabeça cada vez que ele pensava em Westphal recebendo flores de outra pessoa que certamente não tinha boas intenções.

Enquanto assumia novamente seu lugar à mesa e tentava fazer algumas anotações, o olhar de Andy pousou em Hyacinth, se perguntando até que ponto a ruiva havia se afundado em seus segredos e no quanto sua inocência e irresponsabilidade poderiam lhe prejudicar.

Quando a aula finalmente chegou ao fim, Andrew sequer gaguejou quando chamou o nome de Hyacinth, exigindo que ela continuasse na sala enquanto os demais saíam apressados, carregando seus livros em seus braços.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Sab Jun 11, 2016 9:14 pm

Depois que saiu da biblioteca, Kevin soube que não conseguiria mais estudar pelo resto do dia. Embora soubesse que fora um erro se passar pelo amigo sem esclarecer a situação para Davina, o rapaz não conseguia se sentir arrependido daquele deslize. Apesar de tudo, a tristeza que comprimia seu coração não parecia mais tão insuportável agora que ele sabia que Derek e Davina não eram um casal de verdade.

Logo depois de tomar um demorado banho e reassumir as costumeiras feições, Templeton seguiu para uma conversa séria com Megale. O rapaz havia voltado do escritório do tutor há poucos minutos quando a porta do quarto que dividia com Theodore foi praticamente arrombada pelo furacão Ackerman.

Ao contrário de Theo, Kevin não se sentiu nem um pouco surpreso com a fúria de Davina. Era uma questão de tempo até que a garota cruzasse o caminho do verdadeiro Hugo e juntasse as peças soltas na cabeça até alcançar a verdadeira identidade do rapaz com quem desabafara naquela tarde.

Os cabelos castanhos ainda estavam úmidos por causa do banho, o que dava aos fios uma coloração ligeiramente mais escura que o normal. Como Templeton havia penteado os cabelos para trás, os cachos tinham se desfeito quase que por completo. Exatamente como o “Hugo” daquela tarde, Kevin usava uma calça jeans e uma blusa lisa preta.

Mesmo diante da explosão da ex-namorada, Kevin não se exaltou. Ele somente ergueu um dos ombros antes de murmurar.

- Eu já estava lá quando você chegou. Foi você que se aproximou e começou a falar, eu sinceramente nem tinha notado a sua presença até então.

É claro que isso não justificava o erro dele não ter esclarecido logo as coisas, mas era um bom argumento que provava que Templeton não tinha arquitetado toda aquela situação. E também não explicava os motivos de Kevin estar na pele de Hugo naquela tarde, mas esta era uma explicação que o rapaz não pretendia dar à ex-namorada.

Kevin estava estranhamente sério quando se sentou na própria cama e olhou ao redor. Era impressionante como ele havia morado naquele dormitório por tanto tempo e nunca percebera antes que havia uma mancha em uma das paredes, provavelmente onde um ex-aluno pregara algum tipo de pôster. Templeton também nunca havia parado para reparar que uma das gavetas do armário era ligeiramente empenada e nunca se fechava por completo.

Era o tipo de detalhe dispensável que Kevin só notava agora porque fitava o ambiente com o olhar atento de alguém que parte querendo levar todas as lembranças na memória.

- Você vai gostar de saber que não precisará mais se preocupar com as formas que eu assumo nos próximos dias.

Como Templeton havia acabado de voltar do escritório de Megale, nem mesmo Theodore sabia daquela novidade. Davina era a primeira pessoa para quem Kevin contaria a notícia que acabara de receber do tutor.

- Eu vou embora. O Mega acabou de me chamar para conversar e me deu o vale-liberdade.

Aquela expressão era a maneira como os alunos se referiam à autorização para deixarem a escola. Naquela tarde, Megale havia deixado claro para Templeton que o rapaz já havia concluído a sua mutação e que não havia mais motivos para mantê-lo recluso na mansão. Por mais que estivesse ansioso para encarar o mundo lá fora e se ver livre das lembranças de Davina, Kevin não conseguia abandonar uma certa melancolia com a ideia de deixar aquele que fora o seu lar nos últimos tempos.

- Eu só preciso de alguns dias para organizar as minhas coisas e arrumar um lugar para ficar lá fora. Mas estarei fora daqui antes do fim desta semana, então acho que você não deveria gastar as suas cordas vocais berrando comigo, Davina.

O rapaz a encarou, não deixando de notar que a ex-namorada demonstrava um maior controle de suas habilidades. Não havia nenhuma janela aberta no dormitório, então era fácil concluir que a brisa que movia os fios cor de mel era criada por Ackerman.

- Você tem usado a sua energia de forma muito mais proveitosa. Então, não perca tempo comigo. – não havia ironia quando Templeton completou – O Derek tem feito um bom trabalho. Fico feliz em saber que ele está te ajudando tanto. Logo será você que estará arrumando as malas.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Sab Jun 11, 2016 9:40 pm

Apesar das pernas trêmulas, Hyacinth caminhou com firmeza até o lugar vazio ao lado de Hugo. Sua real vontade era dar as costas e sair da sala sem dizer nenhuma palavra, mas aquela seria uma cena desnecessária que poderia alertar os colegas mais astutos sobre o tipo de relacionamento que houvera entre Andrew e a aluna. Westphal sentia tanta mágoa que não se importava mais se a verdade prejudicaria o professor, mas ela pensava em si mesma. A sua vida já estava tumultuada demais e a ruiva não precisava lidar com as fofocas que borbulhariam na mansão se a verdade viesse à tona.

Enquanto Hugo repassava com ela os exercícios que Hyacinth havia perdido, a ruiva não conseguia se concentrar nas palavras do colega. Os olhos azuis se fixaram na nuca de Andrew enquanto o professor escrevia a próxima lição no quadro sem que Cinth conseguisse entender o que acontecera. Ackerman fugira de forma súbita e agora retornava de forma igualmente inesperada. Era impossível entender o que se passava na cabeça dele.

- Você entendeu...? – Hugo murmurou depois de explicar as anotações que fizera em seu caderno antes da chegada da ruiva.

- Não. – Westphal pigarreou ao perceber que o colega não se referia ao retorno de Andrew – Mas tudo bem, Hugo. Eu leio esta parte da matéria no livro depois. Obrigada...

Foi extremamente difícil para Hyacinth, mas a ruiva conseguiu manter um semblante indiferente durante o resto da aula. A folha do seu caderno exibia algumas anotações sem sentido, visto que Westphal não fora capaz de acompanhar a aula e apenas reproduzira no caderno algumas frases soltas ditas pelo antigo tutor.

Quando os ponteiros do relógio finalmente colocaram um basta naquela tortura, Hyacinth já esperava pelo chamado do professor. Os colegas provavelmente acharam que Cinth seria repreendida pelo atraso daquela manhã, mas a ruiva sabia muito bem que não seria uma conversa tão simples.

Depois que o último aluno saiu da sala, Andrew não precisou se dar ao trabalho de caminhar até a porta para fechá-la. Sem precisar nem olhar na direção da maçaneta de metal, Hyacinth usou o poder de magnetismo para empurrá-la até que a porta se fechasse sozinha. A forma sutil como a porta foi fechada indicava que a ruiva já tinha um controle bastante aprimorado daquela habilidade.

- Não me interessa saber por que você foi embora, nem por que está de volta. Eu só quero deixar bem claro que agora a minha tutora é a Dana e eu não quero que isso mude.

As palavras ásperas não combinavam com a aparência delicada da garota. Hyacinth ajeitou o vestido florido depois que se colocou de pé e pendurou uma das alças da mochila num dos ombros antes de se aproximar da mesa do professor.

Era difícil manter a indiferença diante de Andrew. O professor havia provocado uma grande mágoa com a sua partida, mas Westphal estaria mentindo se dissesse que não o amava mais. A história entre eles havia sido intensa e especial demais e a ruiva certamente precisava de mais tempo para esquecê-lo por completo.

Embora quisesse odiá-lo, Hyacinth se surpreendeu ao perceber que estava admirando as pequenas mudanças que enxergava em Ackerman. Os cabelos mais compridos formavam mais cachos que de costume e faziam os dedos de Cinth formigarem com a vontade de tocá-los. A barba por fazer dava um ar mais maduro a Andrew e o deixava ainda mais atraente.

- Portanto, se a partir de agora você tiver qualquer queixa contra mim, fale com a minha tutora. Eu não preciso mais dar ouvidos a você.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Sab Jun 11, 2016 10:53 pm

Davina estava preparada para berros, xingamentos ou desculpas esfarrapadas, até mesmo provocações maldosas, qualquer coisa que mostrasse que ela e Kevin ainda sentiam alguma coisa um pelo outro.

Ela só não estava preparada para receber aquela notícia, com o semblante tranquilo de Templeton. Como se tivesse recebido um soco no estômago, Ackerman emudeceu, fechando a boca que até então estava aberta pela sua fúria.

- Você vai embora?

A pergunta soava extremamente idiota, principalmente depois que Templeton já havia dito aquilo claramente. Mas a cabeça de Davina girava e ela não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

A fúria que sentia até então foi desaparecendo gradativamente enquanto um vazio surgia em seu peito, como se estivessem lhe sugando toda a felicidade da vida.

O relacionamento com Kevin já havia chegado ao fim há algum tempo, mas vê-lo partir era assustador de uma forma que Davina não conseguia compreender. Ela deveria odiá-lo por tudo que os dois haviam passado, por todas as mentiras e traições, mas aquela notícia era como um ponto final a qualquer tola esperança que ela ainda nutrisse.

Sem Kevin por perto, ela podia esquecer qualquer sonho idiota de que ele pudesse se arrepender pelos erros e que voltasse atrás para estar com ela. Ela estava sendo abandonada mais uma vez, sendo deixada para trás naquela mansão estúpida.

Todo mundo conseguia evoluir, todo mundo ia embora, mas Davina sempre ficava para trás, pesa e sem sair do lugar.

”Não quero que você vá.” Uma vozinha ecoou na mente de Davina, mas ela foi incapaz de dizer aquelas palavras em voz alta. Como se estivesse repentinamente com frio, ela cruzou os braços e se encolheu, o rosto franzido enquanto ainda tentava processar a novidade.

- Uau... Isso é... Parabéns, Kevin.

A voz saía tão sussurrada que nem parecia mais a mesma menina que entrara no quarto como um furacão. Davina ainda tentou esboçar um sorriso, mas seu semblante só se tornou ainda mais triste.

- Espero que dê tudo certo, então. Boa sorte lá fora.

Davina puxou as mangas da blusa de lã para os dedos, sentindo-se desconfortável e já sem a menor vontade de gritar. Como se não estivesse tentando iniciar uma briga segundos antes, ela caminhou desengonçadamente até o outro lado do quarto. Ainda chegou a hesitar por um segundo antes de rodear Kevin com seus braços, em um abraço completamente sem jeito.

- Imagino que o Theo e o Hugo vão querer dar uma festa em comemoração. – Ela disse com a boca próxima ao ouvido dele, tentando parecer a velha amiga de antes do início daquele relacionamento frustrado. – Só espero um dia estar no seu lugar e conseguir sair daqui também. Já está ficando chato ficar para trás toda vez.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Sab Jun 11, 2016 11:28 pm

Andrew não tinha mais a ilusão de que seria bem recebido por Hyacinth e aquele comportamento mais azedo era exatamente o que era esperado. A forma com que ela fechou a porta não passou desapercebida aos olhos do professor e Ackerman teve certeza que ela só fez aquilo para mostrar o quanto estava evoluindo com sua mutação.

Era realmente ótimo que Westphal estivesse cada vez mais no controle de seus poderes, mas ainda incomodava profundamente não saber até onde seu corpo suportaria ou o perigo de continuar usando tantas habilidades diferentes na mansão, com o risco de ser flagrada a qualquer momento.

Sabendo que só conseguiria começar uma briga se voltasse a tocar naquele assunto, Ackerman respirou fundo e se recostou na cadeira, fazendo-a ranger e se inclinar para trás alguns centímetros. Ele apoiou as mãos sobre as pernas, se afastando da mesa para encarar Hyacinth com o semblante sério.

Engolindo a avalanche de palavras que tinha presa em sua garganta, de tantas coisas que precisavam ser ditas, Andrew se limitou a encarar Hyacinth com seriedade, tentando ao máximo não a assustar ou provoca-la.

- Pare de se comportar como uma criança mimada, Cinth. Eu esperava muito mais de você.

Ele mordeu a língua para não continuar aquele discurso e se ajeitou mais uma vez na cadeira, apoiando os braços sobre a mesa de madeira e unindo as mãos. Ackerman fez uma pequena pausa antes de continuar, a voz mais rouca e ao mesmo tempo suave, dispensando o tom de repreensão de antes.

- Eu sei sobre as flores que você recebeu. Se ele tentar entrar em contato novamente, você deveria se afastar.

As palavras poderiam soar simplesmente como um ex-namorado ciumento, mas algo no olhar de Andrew mostrava que ele estava realmente preocupado, quase temeroso e desesperado. Não havia detalhes para quem era “ele”, mas tinha certeza que Westphal sabia o que estava sendo dito.

- Ele já tentou contato antes? – Andrew falava tão calmo que parecia estar enfrentando um campo minado, onde qualquer deslize poderia causar uma explosão.

Seus olhos castanhos estavam presos em Hyacinth, mas diferente de tantas vezes que ele a encarava para admirar sua beleza, Ackerman estava estudando cada um dos seus traços, tentando desvendar qualquer um dos seus muitos segredos.

- Você não pode alimentar essa história, Cinth. Você não tem ideia do quanto é perigoso.

Sem se preocupar se estava falando demais, Andrew se deixava levar pela necessidade de fazer Hyacinth enxergar o que estava enfrentando e de se afastar antes que fosse tarde demais.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Sab Jun 11, 2016 11:36 pm

As palavras que Davina não conseguiu dizer em voz alta eram exatamente as que Templeton mais queria ouvir. Mesmo que fosse um desejo pouco altruísta, Kevin queria que a ex-namorada ficasse chateada com a sua partida. Tudo o que Kevin mais queria era que Davina demonstrasse que sentiria a falta dele, que estava triste em saber que aquele era um adeus definitivo.

- Pois é... eu sabia que o dia estava chegando, mas imaginei que o Mega ia me prender aqui por mais dois ou três meses. Hoje ele me chamou para falar que tinha chegado a hora.

Pelo sorriso de Templeton, estava claro que ele vivia uma guerra interna naquele momento. Por um lado seria ótimo sair da escola, encarar a vida real e cuidar de si mesmo. Era um passo importante na direção da vida madura que o rapaz planejava nos últimos dias. Contudo, era impossível não sentir o peito se comprimir com aquela separação. Doía pensar que aquele não seria mais o seu quarto, que ele não dormiria mais naquela cama e não acordaria com Theodore jogando um travesseiro na cara dele. Mesmo que mantivesse o contato com os amigos, Kevin não os veria mais todos os dias, eles não seriam mais uma família.

O detalhe mais doloroso daquela mudança era pensar que Davina não faria mais parte de sua vida. Os dois não estavam mais juntos e, depois de tudo o que acontecera, não fazia o menor sentido levarem uma amizade para fora dos portões da mansão. Quando saísse da escola e a deixasse para trás, provavelmente seria a última vez em que veria a caçula dos Ackerman.

O abraço de Davina pegou o rapaz de surpresa, mas Templeton retribuiu depois dos primeiros segundos de espanto. Seus braços se encaixaram ao redor do corpo da garota e era impossível não se lembrar de todas as vezes que os dois tinham se abraçado na época do namoro. Os olhos de Kevin se fecharam quando ele sentiu o perfume dos cabelos cor de mel e tudo o que ele mais queria era que aquela sensação nunca se perdesse na sua memória.

- Eu não sei se quero uma festa de despedida. – Kevin murmurou baixinho aquela confissão – Quer dizer, eu estou contente por saber que estou pronto. Mas é impossível ficar totalmente feliz em ir embora. Não sei se quero comemorar isso.

Os braços de Templeton continuaram firmes ao redor da cintura de Davina enquanto o rapaz afastava a cabeça apenas o bastante para encará-la.

- Você tem progredido muito nos últimos dias, Davs. Eu tenho certeza de que a sua hora também está próxima. Você será extremamente poderosa e vai rir quando se lembrar de tudo isso.

Kevin se deixou levar pela vontade sufocante de tocar a menina e levou uma das mãos ao rosto dela, afastando uma das mechas dos cabelos cor de mel que caía próxima aos olhos de Davina. Sem afastar os dedos, o rapaz deslizou o polegar na curva da mandíbula de Ackerman, acariciando a pele macia.

- Eu sinto muito por ter magoado você, Davs. Eu queria muito te odiar, ou mesmo ser indiferente ao que aconteceu entre nós... Mas, no fim das contas, acho que levarei mais lembranças positivas do que negativas. Você foi muito importante pra mim.

A mesma mão que acariciava o rosto de Davina deslizou até alcançar o pingente em forma de raio. Kevin olhou a joia por um breve momento antes de voltar a encarar a ex-namorada.

- Eu gosto de pensar que você sente o mesmo. Não quero que você olhe para trás e me veja apenas como um tropeço.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Jun 12, 2016 12:00 am

Davina tinha certeza que se aproximar de Kevin não era uma boa ideia, mas bastou que ele retribuísse o abraço para que todos os problemas desaparecessem de sua mente, como se os dois não tivessem tido o rompimento tão complicado.

O calor do corpo de Templeton era capaz de lhe transportar para outro universo, seu perfume a deixando inebriada e incapaz de raciocinar com clareza. Era como se os dois estivessem novamente juntos, sem nenhum motivo que os obrigassem a se afastar.

- Eu queria que tivesse dado certo.

A voz de Davina saía em um mísero sussurro, mas ela encarava os olhos verdes com tanta intensidade que não deixava dúvidas de que as palavras eram sinceras.

- Você foi a melhor e a pior coisa que me aconteceu, Kevin. Mas ainda assim, eu estou aqui, não estou? Então é, eu também vou guardar mais as lembranças positivas.

Os braços de Davina estavam apoiados nos ombros de Kevin e as mãos entrelaçadas em sua nuca. Aproveitando aquela proximidade, ela deixou que seus dedos brincassem com os cabelos cacheados dele, sentindo a textura macia e ainda úmida pelo banho.

Pela primeira vez em semanas, ela era capaz de enxergar novamente o namorado, o mesmo menino por quem ela era perdidamente apaixonada. Seus olhos verdes eram sempre muito sinceros e não lembrava em nada o cara galinha que levava Aphrodite para a cama.

Tentando suavizar o clima, Davina abriu um discreto sorriso e inclinou o rosto para o lado, fazendo seus cabelos balançarem e roçarem seus braços.

- Mas eu sinto muito, Hugo não vai deixar você ir embora sem uma despedida. Ele vai sentir sua falta, mas acho que também vai ficar um pouco feliz por ser sua última noite aqui na mansão roubando as conquistas dele.

Era nítido o esforço de Davina em se comportar como uma amiga, mas ainda era estranho depois de tantas brigas que os dois estivessem se esforçando para agir naturalmente.

- Ele vem falando há dias sobre fazer uma festa na piscina, acho que arrumou a desculpa perfeita. Eu sei que quando eu sair deste lugar, vou fazer uma festa por uma semana inteira.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Dom Jun 12, 2016 12:01 am

Quando Andrew mencionou as flores, as sobrancelhas da ruiva se arquearam em surpresa. Ela já esperava que Toby espalhasse aquela fofoca pela escola ou que Davina comentasse com os amigos sobre o arranjo de jacintos no criado-mudo da colega. Mas Westphal não imaginava que aquela notícia chegaria tão rápido aos ouvidos de Andrew.

Embora não fizesse a menor ideia de quem era a pessoa que lhe mandava mensagens anônimas, Hyacinth não enxergava naquela aproximação nenhuma conotação amorosa. As mensagens eram sempre carinhosas e amigáveis, era possível perceber que aquela pessoa misteriosa se preocupava com ela. Mas nunca havia acontecido nada que pudesse fazer Cinth pensar que fosse um admirador secreto, que fosse alguém que a quisesse como uma espécie de amante.

Entretanto, parecia bastante agradável a ideia de usar aquilo contra Ackerman. Seria uma saborosa vingança fazer o ex-namorado acreditar que ela estava apaixonada e que havia algo mais sério entre ela e o homem que lhe enviara as flores.

- Por que eu me afastaria de alguém que me trata bem, que se preocupa comigo, que me manda as flores mais lindas que eu já vi? – um dos ombros de Hyacinth se ergueu antes que ela completasse com a voz carregada de sarcasmo – É muito mais do que eu já tive em toda a minha vida.

As suas palavras eram escolhidas cuidadosamente para que Andrew não percebesse que ela sabia muito pouco sobre o seu “admirador”. Até o dia anterior, Hyacinth nem saberia dizer se a pessoa que lhe mandava mensagens era um homem ou uma mulher. Só depois que Toby mencionara um homem jovem, Westphal começou a construir uma imagem na própria mente.

- Realmente acha que eu vou contar os detalhes logo para você, Andrew? Aliás, quem você pensa que é para me alertar sobre qualquer perigo? – a voz de Hyacinth soou mais baixa, mas ela manteve o mesmo grau de aspereza – Por que eu confiaria em um homem que deveria me proteger, mas me seduziu, tirou a minha virgindade e depois me descartou como um trapo?

O mais sensato era terminar a conversa ali e não fornecer mais nenhum tipo de informação a Ackerman. Mas Hyacinth se sentia ferida e queria que Andrew experimentasse a mesma dor. Pensando em provocar ciúmes no ex-namorado, a ruiva completou com um arzinho vitorioso.

- Se você quer mesmo saber, a verdade é que não foi a primeira vez que ele entrou em contato comigo. Ele tem o meu número e nos falamos todos os dias. – Cinth abriu um sorrisinho sonhador, como se realmente estivesse empolgada com o novo “namorado” – As flores foram uma surpresa, eu não fazia ideia de que ele seria ousado o bastante para vir até aqui. E isso coloca vocês dois em extremos opostos. Enquanto você fugiu de mim, ele está se arriscando para me trazer flores.

Racionalmente, é claro que Hyacinth não se sentia tão tranquila com aquela ideia. Embora o desconhecido fosse sempre doce e amigável nas mensagens, ela certamente não suspirava por ele e nem pretendia fazer nenhuma loucura nesse sentido. Westphal sabia perfeitamente que o seu poder podia atrair pessoas com interesses não muito louváveis, mas, até então, ela não tinha motivos para duvidar das boas intenções do tal homem.

- Eu posso ir? – a garota indicou a porta fechada com um movimento de cabeça – Se esta conversa improdutiva se alongar mais, vou me atrasar para a segunda aula também.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Dom Jun 12, 2016 1:01 am

- Minha nossa. Hugo, as pessoas estão olhando!

De fato, muitas das cabeças do refeitório estavam voltadas para a mesa ocupada por Kevin Templeton e seus amigos. Hugo até tentava se distrair com a comida, mas as lágrimas grossas escorriam de seus olhos e pingavam no prato enquanto ele fungava. O rapaz estava inconsolável com a ideia de que o amigo não estaria ali com ele na próxima refeição.

Era a última noite de Kevin na mansão e um jantar especial tinha sido preparado em homenagem aos três alunos que sairiam da escola na manhã seguinte. Além de Templeton, os tutores haviam decidido que já era a hora de mais dois jovens partirem. Daniel Freeman já dominava com perfeição o seu poder de telecinese e Ursula Smith também não tinha mais como melhorar a sua habilidade de visão de calor.

- É tão injusto que uns vão e outros fiquem. Eu acho que todos tínhamos que ir embora juntos.

- Deixa eu ver a sua lista, Kev? – Theodore brincou para suavizar o clima – Porque eu tenho quase certeza que, se eu procurar com mais atenção, vou encontrar o nome do Hugo lá no meio das meninas...

É claro que Theo estava chateado e sentiria muito a falta do colega de quarto, mas ele era maduro o suficiente para não fazer uma cena. Além disso, Theodore estava certo de que se uniria ao melhor amigo em alguns poucos meses. Não faltava muito para que o rapaz tivesse pleno controle das suas habilidades com o fogo.

- Nós vamos manter o contato. – Templeton esticou o braço e apertou a mão de Hugo, tentando consolá-lo – Podemos até dividir um apartamento maior quando você e o Theo saírem. Eu não pretendo ficar pra sempre no cubículo que meu irmão mora.

Embora Hugo fosse o aluno mais emotivo de todo o refeitório, o clima de despedida havia deixado todos cabisbaixos. O irmão mais novo de Daniel usava o seu garfo para mexer a comida no prato, sem fome alguma. As amigas mais próximas de Ursula a rodeavam com expressões tristonhas.

Até mesmo os tutores estavam mais quietos na mesa principal. Por mais que os professores ficassem satisfeitos em saber que aqueles três jovens tinham concluído suas respectivas mutações, nunca era agradável dizer adeus. Era como se uma parte da família deles estivesse partindo.

Coincidentemente, os três alunos que partiriam na manhã seguinte eram pupilos de Megale. Por isso, Dana abriu mão do seu tradicional discurso de despedida e passou a palavra ao colega. Megale colocou-se de pé e deu alguns passos desajeitados até o centro do salão. Ele era grande o suficiente para chamar a atenção de todos antes mesmo que a voz de trovão ecoasse por todo o refeitório.

- Nunca é fácil dizer a um pupilo que chegou a hora de partir. Eu pensei que poderia simplificar a minha dor unindo três partidas em uma só, mas só consegui triplicar o vazio que sinto no meu peito. – Megale se voltou para os colegas e brincou para suavizar um clima – Sigam este conselho e nunca cometam este erro.

Dana abriu um sorriso compreensivo e acenou com a cabeça, encorajando Megale a continuar. Chevalier visivelmente se segurava para não rir diante de um homem com mais de dois metros prestes a cair no choro.

- Eu espero que a estadia nesta escola tenha feito a diferença na vida de vocês, espero ter contribuído de alguma forma para que a vida lá fora seja mais fácil, que eu tenha ajudado vocês a escolher os caminhos certos. – Megale deu uma engasgada antes de completar – Espero que vocês sejam vitoriosos no que quer que decidam fazer e que nunca se esqueçam do que viveram aqui. Porque eu, sem nenhuma dúvida, jamais vou me esquecer de nenhum de vocês.

Aquilo foi o bastante para arrancar várias lágrimas em todo o refeitório. Até mesmo Dana precisou do lenço oferecido por Chevalier para secar os olhos úmidos. Na mesa de Kevin, Hugo já soluçava e até mesmo Theo sentia a garganta arder. Hyacinth envolveu Davina num abraço, as duas emocionadas demais para falarem qualquer coisa no momento.

Dana se colocou de pé após o discurso do outro tutor e respirou fundo para recuperar o fôlego. Um sorriso emocionado brotou nos lábios da loira antes que ela falasse.

- Não tenho muito a acrescentar depois deste discurso. Só quero dizer que esta escola sempre estará de portas abertas para vocês. Em nome de todos os tutores, eu desejo todo o sucesso aos três alunos que nos deixarão amanhã: Kevin Templeton, Daniel Freeman e Ursula Smith...

- E Hyacinth Westphal. – a voz masculina veio da porta lateral do salão – Ou melhor, a Srta. Westphal irá embora agora, não podemos esperar pelo amanhecer.

Todas as cabeças se viraram na direção do recém chegado. Toby perdeu todas as cores ao reconhecer o mesmo rapaz que encontrara nos portões há alguns dias. Conforme o menino descrevera, era um homem jovem, certamente ninguém lhe daria mais de trinta anos de idade. Não era tão alto quanto Megale, mas certamente estava acima da média. Os olhos tinham um tom indefinido entre azul e verde, os cabelos castanhos escuros eram lisos e estavam impecavelmente penteados. Os trajes sociais lhe davam um ar elegante e os suspensórios pareciam parte de uma moda mais antiga, mas ainda assim lhe caíam bem. O único defeito em seu rosto era uma discreta cicatriz que provocava uma pequena falha em sua sobrancelha direita.

A forma como Hyacinth encarou o rapaz deixava claro que ela nunca o tinha visto antes. O olhar de pânico que ela lançou na direção da mesa dos tutores mostrava que a ruiva não gostava muito da ideia de sair dali acompanhada por um desconhecido.

- E o senhor é...? – Dana tentou manter a calma, mas era óbvio que ela não se sentia tão tranquila.

- Você sabe quem eu sou, não há necessidade de apresentações, Blake.

- Eu não sei o seu nome. – Dana tentava desesperadamente ganhar tempo enquanto pensava numa maneira de salvar Hyacinth – Tampouco como entrou na minha escola. Muito menos os motivos pelos quais quer levar uma das alunas.

- Ninguém nunca se preocupou em saber o meu nome. Temo que, depois de tanto tempo sendo chamado somente por um apelido, nem eu mesmo me lembre do meu nome. – o homem enfiou as mãos no bolso enquanto caminhava calmamente pelo refeitório – Eu entrei pelo portão. Você deveria rever o seu esquema de segurança, Blake. E eu vou levar a Hyacinth porque este não é o lugar dela.

Megale se colocou ao lado de Dana, criando uma sombra sobre a diretora. Ele cruzou os braços musculosos numa postura nada amigável e sua voz áspera foi dirigida ao estranho.

- Farei uma pergunta mais direta. O que te faz pensar que nós vamos deixar que leve a menina?

- O que faz você pensar que pode me impedir? – o Incarna abriu um sorrisinho – Ele pode me impedir, Blake?

- Não. Ninguém pode impedi-lo. – Dana dirigiu seu olhar para a mesa ocupada pela ruiva – Ninguém além da própria Hyacinth. Se você não quiser ir, querida, ele não pode te obrigar. Ninguém pode tocar ou arrastar um mutante intangível.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Dom Jun 12, 2016 2:12 am

Ao contrário do que Hyacinth estava tentando fazer, Andrew não iria morder a isca em sua provocação de ciúmes. Era mais fácil que Ackerman se sentisse enciumado com a forma com que Hugo se jogava aos pés da ruiva do que a aproximação de Incarna.

Westphal não tinha noção do perigo que a rodeava e talvez fosse aquela consciência que deixava o professor tão apavorado. Apenas com a intenção de irritá-lo, a menina estava se inclinando a um caminho extremamente perigoso e Andrew travava uma batalha entre preocupação e fúria.

Os dias que se seguiram até a despedida de Templeton, Smith e Freeman se arrastaram para Ackerman. Ele se sentia completamente fracassado em sua missão de se aproximar de Hyacinth, que parecia cada vez mais distante e diferente da menina doce que entrara na mansão torturada por dores de cabeça.

Por um lado, Andy sentia que estava decepcionando Dana em sua tarefa como tutor. Mas o pior, sem dúvida, era sua frustração por ter Westphal em um caminho perigoso e distante a cada dia. A menina linda e delicada por quem ele se apaixonara parecia não existir mais, em seu lugar estava uma mutante perigosa e ferida, que parecia não medir esforços para também feri-lo em troca.

O discurso de Megale estava impressionante, mas não era suficiente para fazer Ackerman deixar de cutucar o purê de batatas em seu prato, sem intenção de comê-lo. Intimamente, ele se lembrava de sua última noite como aluno naquela mansão e na euforia que sentia por saber que enfrentaria o mundo como um mutante completo.

Foi apenas quando a voz masculina e desconhecida ecoou pelo refeitório tocando no nome de Hyacinth, que Andrew se sentiu inteiramente desperto. Antes mesmo que seus olhos se focassem no rosto de Incarna e ele reconhecesse a mesma figura do jornal amarelado de Dana, um arrepio assustador percorreu seu corpo, anunciando que algo terrível estava por vir.

Ignorando a forma pacífica com que Dana tentava levar a situação, Andy se colocou de pé instantaneamente, como se estivesse a postos para fazer qualquer coisa. Ele sempre teve muito orgulho do seu poder de cura, mas por um instante, Ackerman desejou ser tão forte quanto Derek Hale para poder defender os alunos e principalmente Hyacinth.

Racionalmente, Andrew sabia que não tinha chance alguma contra Incarna e seus infinitos poderes, mas aquele homem era um tolo se acreditava que levaria Westphal dali sem que ele mexesse um dedo.

Os lábios de Incarna se mexeram lentamente até se curvarem em um sorriso torto, repuxados para um único lado de seu rosto, fazendo com que a pele da bochecha magra exibisse algumas dobrinhas, quando Dana mencionou a intangibilidade de Hyacinth.

O coração de Andrew pareceu congelar e um frio horripilante se espalhou pelo seu corpo. Ele sabia. É lógico que sabia, ele não teria tentado se aproximar de Hyacinth se não soubesse seu verdadeiro poder. Mas vê-lo ali, pessoalmente, ameaçando levar a sua ruiva para longe era o pior pesadelo que Andrew já havia vivido.

- É claro que não... – Incarna concordou tranquilamente. – Mas ninguém vai ser arrastado daqui esta noite, Blake.

- Então ninguém vai sair daqui e pronto.

Andrew arregalou os olhos quando escutou a voz de Davina. A irmã caçula havia se colocado de pé e apoiava as duas mãos sobre a mesa, encarando Incarna com os olhos estreitos. Ela sempre havia sido dotada de uma coragem um tanto estúpida e impulsiva e aquele comportamento parecia estar piorando com a evolução dos seus poderes a cada vez que ela se sentia mais confiante.

Mas Andrew já se sentia desesperado o bastante se preocupando com Hyacinth, Davina não podia entrar para aquela lista também.

Um suspiro audível escapou dos lábios de Andy quando ele viu Theodore puxar Davina pelo braço, a forçando a se sentar novamente. Ela estreitou o olhar, mas não relutou, embora ainda continuasse atenta ao homem estranho, disposta a defender a amiga a qualquer instante.

- É melhor o senhor se retirar.

Se inspirando na coragem da irmã, Andrew finalmente conseguiu articular as palavras, dando a volta na mesa em que jantava e se colocando alguns passos mais próximo de Incarna. Quase tropeçando em seus próprios pés, Dana o acompanhou, mas estava nítido em seu rosto que ela não tinha intenção de enfrentar aquele homem e só estava tentando evitar que o rapaz cometesse algum erro que pudesse prejudicar a todos os presentes.

- Eu já disse que vou, rapaz. Mas Hyacinth vem comigo. Este lugar é medíocre demais para ela.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lucinda Clearwater em Dom Jun 12, 2016 2:55 am

Davina já estava tão cansada de ouvir que suas emoções influenciavam seus poderes que ela demorou a entender o lado positivo daquela frase. Ao contrário do que Dana sempre dava a entender, as emoções não serviam apenas para atrapalhar o seu controle, mas também para intensificar os poderes.

Os treinamentos com Derek serviram para que Ackerman finalmente compreendesse que ela podia usar sua felicidade, tristeza ou irritação para conseguir resultados ainda mais incríveis. Com alguns meses com a ajuda de Hale, além de conseguir manipular o tempo com mais precisão, Davina também aprendera a controlar o ar e o vento para direcioná-los como bem entendesse e a gerar correntes elétricas com as próprias mãos.

Apesar da tristeza da partida de Kevin, Davina se sentia mais confiante a cada dia e finalmente começava a enxergar o dia que ela seria capaz de deixar aquela mansão para trás e seguir com a própria vida.

Tentando ignorar os olhares insistentes que Hale lhe lançava, do outro lado do refeitório, Davina tentava lutar contra o sentimento de tristeza que invadia seu peito em saber que aquela era a última noite de Kevin na mansão.

Todas as preocupações mais fúteis de Davina foram varridas de sua mente quando o homem desconhecido entrou no refeitório. O breve diálogo entre ele e Dana deixou claro a todos os presentes que algo muito estranho estava acontecendo no instante em que o ar se tornou mais pesado.

O homem parecia extremamente calmo, mas algo em seu olhar era capaz de provocar calafrios e ele falava com bastante domínio de que levaria Hyacinth dali naquela noite. Com confusão, Davina chegou a procurar o rosto da amiga, mas as íris azuis não demonstravam reconhece-lo, o que só reforçava a ideia de que tinha algo muito, muito errado.

Quando Davina se intrometeu na conversa, ela não estava pensando com clareza. Era ridículo pensar que um aluno pudesse enfrentar um mutante completamente formado e ela nem mesmo fazia ideia de qual era seu poder, mas sua evolução repentina lhe dava coragem para querer enfrentar quem quer que fosse para defender os amigos.

- Este é o melhor lugar que Hyacinth poderia estar. – Andrew continuou, se aproximando mais alguns passos.

Instintivamente, Davina voltou a se levantar. A mão de Theo voltou a tocá-la com força no pulso, mas desta vez ela continuou erguida, encarando fixamente a cena que acontecia aos seus olhos, atenta a qualquer movimento.

Até Dana parecia assustada, mas ao menos Hyacinth poderia contar com os Ackerman para protege-la do que quer que fosse.

Apesar de toda a confusão, Davina franziu a testa ao encarar o semblante de Andy. Ela nunca havia visto aquele brilho em seu olhar antes e ele estava claramente disposto a defender Cinth com a própria vida se fosse necessário.

Dana, Chevalier e Megale estavam todos atentos, mas os olhares dos tutores passavam apreensivos pelo refeitório abarrotado de alunos, receosos do que poderia acontecer com seus pupilos, enquanto Andrew estava fixo apenas em defender a ruiva.

Mesmo com o sangue fervendo e com a adrenalina do momento, um clarão invadiu a mente de Davina quando ela percebeu que o irmão via sua colega de quarto mais do que uma pupila.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Hyacinth Westphal em Dom Jun 12, 2016 3:14 am

Afundada na cadeira, Hyacinth acompanhava os acontecimentos como se estivesse em um terrível pesadelo. Por mais de uma vez, a ruiva implorou à própria mente que colocasse um fim naquela tortura e a fizesse acordar, mas infelizmente as cenas ao seu redor eram vívidas demais para um simples sonho.

Por mais que tivesse provocado Andrew com a existência daquela pessoa misteriosa, Westphal não se sentia à vontade com a ideia de um estranho conhecer o seu maior segredo. E era ainda pior pensar que aquele homem estava disposto a levá-la da mansão. Embora Dana e os demais tutores não soubessem o que fazer com um poder como o dela, Cinth sabia que estava mais segura na escola do que em qualquer outro lugar.

O pânico da ruiva se duplicou quando Davina surtou e ergueu-se para defendê-la. Um sexto sentido dizia à Westphal que aquele homem não faria nenhum mal a ela, mas ele não parecia tão amigável com as outras pessoas. E o medo refletido nas íris claras de Dana indicava que todos sob o teto daquela mansão corriam perigo.

- Hyacinth... – os olhos azuis esverdeados se voltaram para ela e a voz do Incarna soou mais doce – Eu te disse que não precisa ter medo. Venha comigo. Assim como você, eu não quero machucar ninguém.

Os olhos azuis de Westphal se arregalaram quando ela finalmente percebeu que o homem a sua frente tinha exatamente a mesma mutação dela. Isso explicava a facilidade que ele tivera para adentrar os terrenos da escola e também o temor expresso no semblante de uma mutante experiente como Dana.

A certeza de que estava diante de um mutante absurdamente poderoso obrigou Westphal a reagir. Ela jamais se perdoaria se um dos colegas se machucasse naquela noite. Sua garganta ardia com a possibilidade de Davina ou Andrew se tornarem vítimas do Incarna por tentarem defendê-la.

- Eu não conheço você.

A voz da ruiva soou num fio, mas ecoou por todo o ambiente graças ao silêncio sepulcral do refeitório. Embora a maior parte dos alunos e até alguns dos tutores não entendessem o que estava havendo, era fácil notar o clima pesado que geralmente antecedia uma tragédia.

- Você me conhece sim, fofinha. Sou eu.

O apelido carinhoso fez Hyacinth franzir as sobrancelhas numa expressão de completa confusão. Não era a primeira vez que alguém a chamava assim, mas já fazia tanto tempo que Cinth não escutava aquela palavra que ela nem se lembrava mais da sensação. Somente uma pessoa usava aquele apelido para se referir à menina. Uma pessoa que Westphal não via há muitos anos.

- Não. – a voz de Hyacinth soou com mais firmeza – É mentira. Você está inventando isso para me enganar!

- Eu lamento muito, Hyacinth. Tudo o que fiz foi pensando em te proteger.

- É MENTIRA! – Westphal berrou, completamente abalada com a verdade que começava a se abrir diante dos seus olhos.

- O que ela está fazendo? – Hugo murmurou com os amigos depois de tapar os ouvidos sensíveis – Ele está falando só com ela, é isso???

Só depois do comentário confuso do colega, Hyacinth olhou ao redor e percebeu que mais ninguém estava entendendo o diálogo que acontecia no refeitório. A voz do Incarna não soava mais e ele sequer mexia os lábios. As palavras dele estavam ecoando dentro da cabeça de Hyacinth, apenas para ela. Cinth estava diante de um telepata capaz de projetar os próprios pensamentos.

- Vamos, Hyacinth. Ninguém aqui pode te ajudar, só eu posso.

Ao notar que a ruiva estava começando a ceder, Dana teve que interferir. A diretora parecia desesperada quando deu mais alguns passos a frente e se colocou diante do Incarna. Seus olhos buscaram os dele numa tentativa aflita de entender quem era aquele homem e o que ele queria com Hyacinth.

- Você nunca machucou ninguém. Você preferiu sumir e se tornar uma lenda do que usar o seu poder para subjugar a todos. Depois de tantas décadas no esquecimento, eu não entendo por que você está se arriscando de novo!

- Por ela. – o rapaz apontou na direção de Hyacinth – Apenas por ela. Por Hyacinth eu faria qualquer coisa. Eu não quero que ela sofra tudo o que eu sofri. Sei que as suas intenções são as melhores, Blake, mas você não pode ajudá-la. Só eu sei como lidar com tudo isso. Só eu sei como isso pode ser doloroso. Só eu sei tudo o que precisei deixar para trás para viver em paz.

- Ele sabe? – a voz engasgada de Hyacinth fez todos se voltarem para ela.

- Não. – mais uma vez, a voz do Incarna não ecoou pelo refeitório – Eu pensei que poderia dar certo, mas foi um erro. O maior e melhor erro da minha vida.

Hyacinth ficou imóvel por alguns segundos antes de se voltar para os amigos. Kevin, Davina, Hugo e Theo a encaravam com os olhos arregalados e ficaram ainda mais surpresos quando a ruiva murmurou.

- Foi muito bom conhecer vocês. Eu nunca vou me esquecer de tudo o que fizeram por mim.

- Você não precisa ir! – Hugo se ergueu num surto repentino de coragem – Seja o que for, nós vamos te ajudar! Não vamos deixar que este sujeito simplesmente entre aqui e te sequestre!

- Não é um sequestro, Hugo. Eu fiz a minha escolha.

Não havia tempo para maiores explicações, mas Hyacinth sabia que os amigos mereciam saber o que estava havendo ali depois de se arriscarem tanto guardando o seu segredo. Mesmo sabendo que o Incarna escutaria as suas palavras sussurradas, Cinth encostou os lábios no ouvido de Davina quando se despediu da amiga com um abraço.

- É a minha mãe. Eu tenho certeza, Dav. Não se preocupe, eu ficarei bem.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Lukas Krauss em Dom Jun 12, 2016 3:46 am

A última coisa que Kevin imaginava era que o jantar daquela noite terminaria de forma tão dramática. Tudo o que ele queria era mais algumas horas tranquilas perto dos amigos antes que finalmente tivesse que partir. A chegada daquele estranho e a maneira como as cenas se desenrolavam davam à Templeton a sensação de que ele teria muita sorte se saísse daquela mansão sem presenciar mais uma morte trágica.

Quando Davina se ergueu e enfrentou o homem para defender Hyacinth, todo o sangue fugiu do rosto de Kevin. É claro que ele não estava pronto para nenhum tipo de tragédia, mas definitivamente o rapaz nunca mais conseguiria se reerguer se algo acontecesse com a ex-namorada.

Theodore foi mais rápido e puxou Davina de volta ao banco, mas a garota recebeu um olhar zangado de Kevin tão logo se sentou. O ex-namorado deslizou no banco para ficar mais perto dela e sua voz soou num sussurro enfurecido.

- O que deu em você? Fique quieta! Não faço ideia do que está havendo, mas se a Dana está com medo definitivamente não é você que vai resolver o problema!

A expressão confusa de Hyacinth mostrava que a ruiva também não compreendia os acontecimentos. Mas o semblante da garota foi se modificando na medida em que o Incarna invadia a mente dela com as explicações. Mesmo que não escutasse as palavras ditas apenas para Westphal, Kevin percebeu a gradual mudança na expressão e no comportamento da colega.

Quando Cinth se voltou para eles, Templeton já sabia que a ruiva iria embora antes mesmo que ela abrisse os lábios. Para evitar que Davina reagisse e fizesse mais alguma bobagem, Kevin se colocou ao lado da ex-namorada e manteve uma das mãos segurando com firmeza o punho de Ackerman.

Por estar tão próximo de Davina, Kevin escutou as palavras sussurradas por Westphal. Os olhos do rapaz, verdes naquela noite, se voltaram imediatamente para o homem parado no meio do refeitório. Definitivamente era um homem, mas Templeton sabia melhor do que ninguém que a aparência física podia ser facilmente mudada com os poderes certos.

Embora tivesse construído laços de amizade com Hyacinth, Kevin sabia muito pouco sobre a família da ruiva. O pai de Cinth era dentista, a mãe havia falecido há muitos anos num acidente de avião... Havia muitas pontas soltas e muitas lacunas de informações, mas Hyacinth estava tão certa de que estava diante da própria mãe que não cabia a Templeton questioná-la.

- Ela sabe o que está fazendo.

Kevin murmurou quando Hyacinth deu as costas a ele e caminhou na direção do Incarna. Para evitar que Davina fizesse mais alguma loucura, o rapaz deslizou um dos braços pela cintura da ex-namorada e a manteve apoiada contra o seu peito.

O Incarna certamente usou as suas habilidades e disse mais alguma coisa a Hyacinth para arrancar um sorriso emocionado da menina. A ruiva fez menção de abraçá-lo, mas o homem recuou um passo e sacudiu a cabeça em negativa.

- Precisamos ter cuidado.

O Incarna tirou uma das mãos do bolso e a estendeu para Hyacinth. Uma luva de couro cobria a pele do homem, então Westphal o tocou sem receios. Os dedos dos dois se entrelaçaram de forma carinhosa e eles trocaram um sorriso cúmplice.

- Não se preocupem comigo. – Hyacinth se voltou para Dana, depois para Andrew. Apesar de tudo, era doloroso pensar que ela nunca mais veria Ackerman – Eu ficarei bem.
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Re: Escola de mutantes

Mensagem por Damien Scott em Dom Jun 12, 2016 3:50 am

Andrew sentiu o chão desaparecer sob seus pés e o refeitório inteiro girou enquanto o sangue escapava por completo do seu rosto, o deixando com uma aparência pálida, quase fantasmagórica, de quem estava prestes a desmaiar.

Seus olhos estavam arregalados e, sem sentir as pernas dormentes, ele deu um passo a frente, a boca aberta e o rosto virado para Hyacinth.

O que você tá fazendo? Por Deus, Cinth, volte já ao seu lugar! A voz de Andrew gritava em sua mente, mas ele estava congelado, incapaz de reagir e de verbalizar seus pensamentos. Seu coração batia muito rápido, mas por algum motivo, Ackerman era incapaz de sentir. Ele não conseguia sentir absolutamente nada, todos os seus sentidos pareciam ter se desligado por completo.

Era uma sensação estranha, como se estivesse sendo projetado para fora do seu corpo e que tudo que acontecia ao seu redor fizesse parte de um sonho estranho e desfocado. Se Incarna havia desaparecido por décadas, Andrew duvidava que sua intenção fosse voltar a estampar as manchetes dos jornais. Cinth iria desaparecer junto com ele e Andrew nunca mais seria capaz de encontra-la novamente.

Quando seus pés finalmente se soltaram do chão, Andrew deu mais alguns passos e sentiu a mão gelada de Dana tentar lhe segurar pelo braço, mas a mulher também estava abalada demais para ter forças para impedi-lo, de modo que Ackerman só precisou continuar andando sem dificuldades.

O refeitório inteiro estava mergulhado em profundo silêncio quando Cinth abraçou Davina para se despedir, mas Andrew não conseguia se conformar com aquela escolha. Ele não conseguia compreender o que passava pela cabeça de Westphal.

Aquilo ia muito além de sua atitude desafiadora e Andrew se sentia inteiramente despedaçado e traído.

Sem se importar se todos os alunos estavam assistindo a cena, Andrew conseguiu parar mais perto da mesa da ruiva, em uma distância quase simétrica entre ela e Incarna.

- Não vai.

Os olhos castanhos estavam brilhando com as lágrimas que em breve começariam a rolar o seu rosto, mas Ackerman não tinha consciência disso. Seu desespero era maior do que a racionalidade, do que as aparências.

- Não me deixa, Cinth. Por favor, não vai.

Uma única lágrima grossa finalmente escapou pelos seus cílios e deslizou pelo rosto pálido.

- Eu posso cuidar de você, eu prometo. Você não precisa ir! Não vai, Cinth!
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Re: Escola de mutantes

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